segunda-feira, novembro 30, 2009

Julgo que este trecho do poema Lisbon Revisited (1923) serviu de inspiração ao Cântico Negro de José Régio:

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Álvaro de Campos



Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio
Shiva, figura do hinduísmo, é um deus com mil faces. Acham redutor só mostrar uma das faces de Deus.

Deus é cantor, cozinheiro, jardineiro, advogado, psicólogo, assistente social.
Para o budismo, não há Deus, mas leis do Universo.
Deus, a última palavra além da qual não há mais nada. Temos dificuldade em fazer caber nos limites compreendidos entre as paredes da nossa mente a maior das abstracções. Deus.

Descrevemo-lo sempre como uma entidade, uma instância intermédia. Antropomorfiza-mo-lo. Deus dá uma força. Deus está triste com. Deus também deseja que.

Parece que há sempre qualquer que lhe escapa nas nossas descrições Dele. Não, Deus é o que está acima disso. É o que tem o controlo da situação. O que está acima de acima de acima. O que não luta. O que não sonha. Não deseja. Deus é a força absoluta.
Porque é que existe algo e não nada? Porquê sequer a possibilidade de existir algo ou não existir nada?

domingo, novembro 29, 2009

If you want a lover
I´ll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I´ll wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
I´m your man

Leonard Cohen

sábado, novembro 28, 2009

Do Real

Ele escreveu um livro. Mal o terminou, colocou-o num site que funciona como mostruário de livros. Depois de colocar no site, escreveu no seu hi5: «Já publiquei o meu livro no PBooks. Amigas, quem chegar com o meu livro impresso ao pé de mim, tem direito a um cunnilingus
A desonestidade não é regenerável.
Perdeste uma batalha, mas irás ganhar a guerra.

sexta-feira, novembro 27, 2009

- Aquilo que nos excita é insondável. Claro que eu gostava de dizer que me excita uma miúda a ler um livro, mas não é isso que se passa. São coisas muito mais irracionais e absurdas. Ninguém é diferente neste aspecto. E não vale a pena tentar racionalizar. As pessoas mais racionais, mais rígidas, menos espontâneas, que lidam com menos naturalidade com as suas pulsões, desenvolvem muitas vezes parafilias. Com o tipo que começou por tentar moderar a sua obsessão sexual por uma mulher. «Não posso pensar tantas vezes nela.» Como era difícil resistir à sua obsessão, arranjou um artífico: «Vou pensar nas cuecas dela.» E tanto insistiu neste exercício, que acabou por só ter prazer sexual com as cuecas em roda do pénis, com o seu cheiro e aroma. O excesso de culpa e contenção deu origem ao pervertido das cuequinhas.
- Se te disser, depois não dormes à noite.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Jornal de Negócios Online


A partir de 1 de Dezembro vai realizar-se uma liquidação total dos "stocks" existentes na extinta Livraria Buchholz, também conhecida como Livraria Alemã.

A oferta é constituída por dezenas de milhares de livros, destacando-se o “stock” de livros estrangeiros a "preços únicos de liquidação".

Os livros estarão à venda a partir de um euro. Esta acção irá decorrer durante o mês de Dezembro, de segunda-feira a domingo, das 10h00 às 20h00, nas antigas instalações da Livraria Buchholz, junto ao Marquês de Pombal em Lisboa.
O jornalismo e a Literatura tem tanto que ver com o clitóris e um cacto. O primeiro lida com a efemeridade - ou nem isso, com a quotidianidade - e o segundo com a intemporalidade.

quarta-feira, novembro 25, 2009

- Podes, mas com suavidade.
Os olhos da noite percrutam-lhe a alma limpa.

terça-feira, novembro 24, 2009

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
[…]
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
[…]

Eugénio de Andrade

A importância das palavras vai-se soterrando debaixo do mundo mercantilista e tecnológico.
Nos jornais, os erros sintácticos e ortográficos, de tão recorrentes, tornaram-se banais e já não fazem a página suja. (Só as legendagens dos filmes conseguem excedê-los.) Cada vez é mais difícil encontrar um opinante que prime pela sua escrita. Vejo-me sempre obrigado a ler os da velha guarda quando quero ler algo «bem escrito».
Uma crónica do Baptista-Bastos (que escreve primorosamente) exaltava o naco de prosa que era a imprensa desportiva. Acredito, caro Baptista-Bastos, mas esses tempos são idos. Abra hoje um jornal desportivo…
Nos livros, há inundações de vipes, jogadores de futebol, caras bonitas, apresentadoras e apresentadores da treta que agora são autores (ou pseudo-autores que apenas dão o nome) e que vêm atafulhar o mercado e tirar espaço a que possíveis novos autores de qualidade possam emergir.
Nas letras de música, 99% é lixo.
A própria prática discursiva dos políticos tem-se afunilado, esvaziado de imaginação, aparentando-se a um amontoado de clichés dignos da linguagem futebolística.
O escritor Philip Roth profetiza que os leitores do romance vão acabar por morrer. Afirma que primeiro foi o ecrã do cinema a desviar-nos da palavra escrita, depois o da televisão, e finalmente o do computador.
Não vou tão longe quanto Philip Roth. Prefiro acreditar em Paul Auster: «O romance é uma forma inexaurível. Nunca irá morrer. Porque o romance é o único lugar no mundo em que dois estranhos se podem encontrar em termos de intimidade absoluta.». Mas acho que qualquer coisa está a mudar. Assusta-me, por exemplo, que os livros de Aquilino ou Camilo tenham palavras que já não venham dicionarizadas. Deixar de utilizar as palavras é assassiná-las. Fazê-las desaparecer. A mutilação das palavras será tanto maior quanto menor for o léxico usado. E o léxico de quem emprega a palavra escrita e oral vai-se estreitando, ano após ano.
Qual o problema?, dirão muitos.
O problema é que cada palavra é uma porção do mundo, um continente único, especial e insubstituível. Imaginem quão pobre seria o mundo sem algumas palavras…
José Rodrigues da Silva, o ex-editor do Jornal de Letras, recentemente falecido, disse: «Façam amor com as palavras.»
Acho que é precisamente isso que nos está a faltar.
George Steiner diz que um crítico é um escritor eunuco.
- O meu amigo gostou muito de ti.
- Falámos pouco.
- Ele gostou de tu expores os teus defeitos. Disse que era prova de seres honesto.

Já Balzac dizia que só um homem forte é capaz de expor as suas fraquezas.

segunda-feira, novembro 23, 2009

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto


teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa


ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;


nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira


(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda do que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

e. e. cummings

sábado, novembro 21, 2009

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.


Alexandre O´Neill

sexta-feira, novembro 20, 2009

Norman Mailer, em entrevista à Paris Review, disse que o demónio que incorporou por completo - ou quase quase completo - a vida de Hitler, aparece na vida de todos nós um pouco. Dá um exemplo: quem é que nunca sentiu o poder do demónio ao dar uma foda?
A mentirinha, a fácil falácia, a pequena omissão, não são graves. Toda a gente o faz. E por isso, coloca-nos no nível mediano de todos os outros. Descemos do pedestal de semi-deuses e passamos a ser ordinários, a pertencer à grande massa. É o preço a pagar.

Luís Serra Santos
Nada sucede ao homem que a sua natureza não seja capaz de suportar.

Marco Aurélio
eu levo o teu coração comigo (eu o levo no
meu coração) eu nunca estou sem ele (a qualquer lugar
que eu vá

[...]eu não quero
nenhum mundo (pois linda tu és o meu mundo, a minha verdade)
e tu és o que quer que seja que a lua signifique
e tu és qualquer coisa que um sol vai sempre cantar

aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe
(aqui é a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida, que cresce
mais alto do que a alma possa esperar ou a mente possa esconder)
e isso é a maravilha que está mantendo as estrelas distantes

eu levo o teu coração (eu o levo no meu coração)


e. e. cummings

quarta-feira, novembro 18, 2009

Lembram-se?

We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman, "O me! O life!... of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless... of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life?" Answer. That you are here - that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse. That the powerful play *goes on* and you may contribute a verse. What will your verse be?
As pessoas que têm uma relação egoísta, mesquinha e picuinhas com as suas possessões materiais. Pedimos algo emprestado e torcem o nariz. Tocamos em algo delas e ficam comichosas. São pessoas com péssimos orgasmos. Algumas morrem agarradas a notas.

terça-feira, novembro 17, 2009

Quando praticamos um crime grave, expandimos uma parte da mente - a parte que nos diz que a humanidade e o coração das trevas habitam em todos os espíritos.

Carta ao meu filho

(agora que a semente é cada vez mais a realidade de um filho, a ti me dirijo):

Procura fazer aquilo de que mais gostas, ciente de que quem te ama só pode ficar feliz quando tu estás feliz.

Reúne todos os materiais para a concretização dos teus sonhos, mas sem, nunca por nunca, pisares o Outro.

Nunca escondas o teu eu, a tua voz, as impressões digitais da tua alma por medo ou vergonha do julgamento da plateia. (Quando sentires muito a pressão do grupo e estiveres prestes a ceder, lembra-te do meu infinito amor pelo teu eu, e sente a minha tristeza em jeito de censura leve - se te ajudar, vê o meu rosto a pairar como um espectro e pensa no quanto gostaria de que conseguisses ser tu).

Que o timbre da tua voz e o teu sorriso sejam iguais ante o Presidente da República e o cantoneiro.

Faz todo o tipo de patifarias, mas nunca critiques ninguém numa situação em que não estejam apenas - e só - os dois.

Nunca reveles os segredos que te são depositados.

Não exponhas ao mundo as fragilidades dos teus amigos.

Se te apetece chorar, chora. Se te apetecer vestir um vestido, veste. És verdadeiramente homem quando fazes algo, sem te preocupares com o que os outros irão pensar.

Lembra-te de Lenine: é na desgraça que se conhecem os amigos. Nunca vires costas a quem pede esmola, a quem tem fome, sede, a quem está na prisão ou no hospital, ou fechado em casa com os estores fechados.

Nunca te gabes das pessoas com quem foste para a cama. A mulher não é um troféu nem um objecto.

Sê compassivo com os fracos e firme com os fortes.

Lembra-te de que todos os dias em que não lês, o teu espírito estiola.

«De cada vez que te apetecer criticar alguém, lembra-te de que nem todos neste mundo gozaram das mesmas vantages que tu.» (Francis Scott Fitzgerald)


Evita as experiências vazias.

Cultiva a tremenda alegria de Dar.


Angel
Do ponto de vista das perguntas essenciais irrespondíveis e das emoções humanas, nada há nada de novo debaixo do Sol desde os primórdios do Homem.
Jorge Luis Borges dizia que só há quatro histórias para contar: uma história de amor entre duas pessoas, uma história de amor entre três pessoas, a busca pelo poder e uma viagem.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Nada do que verdadeiramente conta pode provar-se nem refutar-se.

Unamuno
Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim.

Jesus Cristo

domingo, novembro 15, 2009

Coerente: um sujeito que nunca teve outra ideia.

Millôr Fernandes

Contradigo-me? Muito bem, então contradigo-me. Sou imenso, contenho multidões.

WW

sábado, novembro 14, 2009

... and follow me to where the real fun is...

The Cure

sexta-feira, novembro 13, 2009



Desculpem se pequei por excesso - apaixonei-me pela arte de quem consegue dotar o utensílio mais despojado e frio, de vida e sentimentos intensos.

O artista dos pregos

idem

Mais Vlad Artazov

- Já me tinha esquecido do quão maravilhoso é falar contigo.
Para o escritor, tudo o que não seja a sua escrita é perda de tempo. Nenhum outro ofício é assim para o seu executante.
Haverá sempre ecos de ti em todas as almas, Walt.

Mãe velando por filho doente (Vlad Artazov) - como é possível expressar isto através de pregos?

quinta-feira, novembro 12, 2009

Pode a racionalidade apagar o desejo?
Estávamos em casa à noite e a conversa recaiu sobre o Inexplicável.

- Uma vez ia a andar com a minha namorada numa ribeira e ao longe vislumbramos um vultos que não pareciam humanos, demasiado grandes e com braços que aparentavam ser de ferro. Alguém ou algonos apontou um feixe de luz enorme. Vinha lá ao fundo de duzentos metros. Iluminava todo o caminho até nós e encadeou-nos a vista. Era como que um holofote gigante. Ela entrou em pânico. Eu disse-lhe: «Calma, eles estão ali e nós estamos aqui.» A distância era grande. Então, ao fim de cinco segundos ouvimos um estrondo seco e um cogumelo prateado gigante iluminou toda a ribeira numa cascata de uma estranha luz... Toda a vila ficou iluminada... Quando aquilo acabou, os vultos haviam-se esfumado... Em instantes, haviam-se esfumado. Ainda fui até lá e vi a erva no chão queimada.

- Eu, a minha experiência mais bizarra teve lugar no Porto. Ia com uma amiga, andávamos perdidos. Era de noite e não passavam táxis. Pedimos boleia. Uma mulher parou e perguntou-nos para onde queríamos ir. Indicámos o nome da residencial. Ela conhecia. A mulher andou um pouco mais com o carro para a frente e estacionou na berma da estrada. Vamos a pé, eu e a minha amiga, atá ao carro da senhora. Isto demorou menos de um minuto num trajecto de poucos metros. Entramos no carro e só lá dentro... vimos outra pessoa no lugar do condutor: um homem. Já estávamos trancados lá dentro. O homem depositou-nos no mesmo sítio. Disse: «Boa boite, divirtam-se.»

Estas conversas fascinantes ocorreram à noite e são ambas relatos de episódios vividos à noite. Como disse Hemingway, há conversas do dia e há conversas da noite. Há coisas que só existem á noite.

Além de não imaginar ter estas conversas durante o dia com amigos, também não as imagino a acontecerem fora de casa.

Casa e Noite são sinónimos de intimidade.
A conversa versou sobre pessoas com identidades falsas. Parece que toda a gente conhece alguém que.

Um piloto que não é piloto e passa a vida a contar estórias das viagens, a mostrar fotos de gajas lá de fora com quem fez isto e aquilo e que são apenas pessoas a quem pede para tirar fotografias na noite.

Um tipo que não tem onde cair morto que inventa um curso, uma carreira, constantes viagens de emprego a África.

Um outro que tem duas mulheres oficiais.

Como conseguem estas pessoas ter alguma serenidade?

Achar-se-ão tão abandonadas, ostracizadas, diminuídas que precisam de forjar uma identidade? E porque escolhem logo o lado material?

Que graça tem gostarem de nós por aquilo-que-não-somos-mas-gostaríamos-de-ser?

quarta-feira, novembro 11, 2009

Penso que deveria haver uma palavra para definir o oposto de solidão. A sensação de sermos sufocados pelo Outro, pelo excesso de massas que nos atropelam a trote a alma. A ânsia de estarmos a sós connosco... o momento que nunca chega. Chamar-lhe-ia pletorização.

Receita para uma obsessão

Pega na tua agenda. Escolhe uma pessoa aleatoriamente. Começa a pensar nela a todo o instante. Começa a falar dela a toda a gente. Começa a pensar o que faria ela em cada decisão que tens de tomar. Pensa em cada momento no que estará ela a fazer. Cumpre o ritual quotidianamente até que a tua mente te devolva a pessoa sem esforço.
- As pessoas não gostam de mim, Angel.
Normalmente, o prazer que uma boa frase dá ao leitor é proporcional ao sofrimento e ao esforço que o escritor arrancou das suas vísceras.
Ele conseguiu fama, riqueza, sexo, filhos, carreira, poder. Esqueceu-se apenas de um pormenor: a felicidade.

terça-feira, novembro 10, 2009

Onde reside o núcleo do seu encanto?
«A sucata dos sonhos», dei por mim a escrever em determinado texto. Gostei tanto da expressão que até pensei que poderia dar - se não o título de um livro - o título de um capítulo ou sub-capítulo ou de um poema.

Relendo um livro que muito prezo (Reduto quase final de Dinis Machado), deparo-me com a expressão...

O plágio, às vezes, pode não ser mera desonestidade intelectual.
Paul Auster, antes de ser escritor a tempo inteiro, fez de tudo um pouco. Diz que nesses trabalhos aprendeu imenso. Conheceu gente interessantíssima que o alimentaram com reflexões que verteu para a sua escrita. Afirma que descobriu que as pessoas intelectualmente mais estimulantes não estão em grandes cargos. «Não por terem menos capacidades, mas porque têm menos ambição.»

segunda-feira, novembro 09, 2009

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico


Adília Lopes

sábado, novembro 07, 2009

O escritor deve procurar uma força centrípeta no centro do papel - uma força colossal que sugue tudo, toda a vida, todo o mundo, todas as casas, todas as pessoas, todos os acontecimentos, para o centro da folha; vertendo tudo o que existe sob a forma de palavras.
Lendo compilações e compilações de escritores, há determinados pontos comuns a todos:

a) todos começaram por escrever escrevendo poemas na juventude;

b) o primeiro livro dizem todos que foi abertamente uma mescla dos escritores que mais os incendiavam - lutando depois contra essa influências nas obras posteriores e encontrando a sua voz;

c) escrever é o Paraíso, reescrever o Inferno;

d) todos alegam indiferença aos críticos.
O tornozelo dela era o caule de uma folha.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Quando procuro um livro durante anos e todas as suas edições estão esgotadas, todos os alfarrabistas fazem:

- Puuuuuu... Isso é uma relíquia.

E, subitamente, um dia, encontro-lo nalguma prateleira... então, olho para ele como perante a mulher amada, desaparecida e reencontrada. Acaricio-o, encosto-o ao peito e levo-o dentro de mim para onde quer quer vá.
Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.

Herberto Helder

quinta-feira, novembro 05, 2009

Numa altura em que se mastiga sobre o assunto da Bíblia espoletado por uma comentário anódino e repisado de Saramago, gostava de explorar um Ângulo sobre o Deus do Antigo Testamento.

É um Deus que não é Deus. Porque não é omnipotente e omnisciente, postulados da sua definição enquanto Deus. É demasiado antropomorfizado.

Logo no início da Bíblia, lê-se:

«Deus disse: "Faça-se a luz!" E a luz foi feita.

Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas.»

A parte essencial é «Deus viu que» que significa «Deus descobriu». Ora só se descobre o que não se conhece e Deus não pode não conhecer algo.

O que transparece é que Deus estava a brincar com os objectos, testando-os e vendo o que é que dava. Olha, a luz é boa, porreiro, vou aproveitá-la!

Então, havia algo que Deus não controlava, que não sabia, que precisava de experimentar para saber... Mas Deus é justamento o topo do topo... Isso é paradoxal.

Volto a Álvaro de Campos:

Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto construem, desfazem ou se construi ou desfaz através deles.
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino —

Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino.
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas
De todas as vidas, abstractas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar porque é um tudo,
Porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas ideias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstracto
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gémeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gémeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Porque não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.
O romance é uma forma inexaurível. Nunca irá morrer. Porque o romance é o único lugar no mundo em que dois estranhos se podem encontrar em termos de intimidade absoluta. O leitor e o escritor fazem o livro juntos. Nenhuma outra arte pode fazê-lo. Nenhuma outra arte pode capturar o essencial da intimidade da vida humana.

Paul Auster

segunda-feira, novembro 02, 2009

Sempre que ia a casa deles, estavam a ver o Big Brother. Sentados à mesa, diziam:

- Isto é uma vergonha.

- Como as pessoas se expõem.

- Não têm uma conversa com pés e cabeça.

- Isto são só atrasados mentais na casa. Aliás, isto é feito para os atrasados mentais verem.

- É o pior programa da televisão.

Há pessoas que se relacionam com outras e que têm a mesma atitude que esta família ante o Big Brother: nunca largam e só dizem mal.
Entras na casa dela. Pensas: «Como será o seu quarto?» Sentes que vasi finalmente conhecê-los e vives essa delícia por antecipação... O quarto dela que tantas noites, na cama, antes de dormir, te aparecia... E agora, dentro de pouco tempo, ele será real, concreto e palpável, secando para sempre a fonte da tua imaginação.

Pé ante pé, ela conduz-te. Pisas o chão sagrado do corredor devagar. Vais entrar nele. Ela vai dizer algo e tu antecipas na tua mente: «vai pedir desculpa pela desarrumação».

E ela diz:

- Ai, isto está uma bagunça.

Fecha a porto com estrondo. Tu imploras que te deixe entrar. Dizes que o teu é, seguramente, mil vezes pior. Dizes ainda que detestas pessoas organizadas. Que veneras o Caos. Que ele te fascina.

Nada a demove.