sábado, outubro 31, 2009

O cardápio das emoções humanas é invariável - qualquer que seja a cultura ou a época.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Palavras que é preciso lascar, lascar, lascar até nos ser devolvido o seu brilho original. Por exemplo: Bondade.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Se deres o teu máximo em tudo, nada mais te pode ser exigido. Então, não és menos do que Deus.
Estás em baixo. No desespero sem portas. Falas com aquela pessoa. Bruscamente devolve-te a confiança confiante. Bruscamente abre-te a porta do poço e tu vês o arco-íris. Quando alguém te arranca assim do negrume, é tão limpo e doce e amplo e alegre o ar que respiras. Essa pessoa ganha então um estatuto divino.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Tem uns olhos negros profundos fabricados com os segredos da noite.
- Eu não posso mudar o mundo que está torto e pô-lo direito, mas sempre que posso dou-lhe uma porradinha. É essa porradinha que todos, na nossa esfera de influência, devemos diariamente dar de modo que o mundo se torne cada vez menos achatado.
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade

terça-feira, outubro 27, 2009

Uma personalidade forte gera sempre paixões e ódios. E quanto mais forte, mais o ódio se agita por não a poder destruir - e mais se insufla.
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.

Teixeira de Pascoaes
Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino como serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)

Walt Whitman

segunda-feira, outubro 26, 2009

Tocas o meu pensamento com a madrepérola do teu sorriso.

domingo, outubro 25, 2009

- Sabes o que é aquela pessoa a quem tu contas as coisas e só então elas se tornam reais? Quando perdes essa pessoa, as coisas que te acontecem, só porque não lhas contam deixam de existir. Entendes?
Cada pessoa tem o seu arco-íris. Nunca encontramos outra com quem nos completamos nas cores todas. Se encontramos alguém que jogue com três ou quatro cores nossas, já é bom e é a essas cores que nos devemos agarrar na relação.

António Lobo Antunes

(Consta que aquele que procura há anos por alguém com as suas sete cores, continua só.)
- Esfalfo-me a trabalhar de segunda a sexta, durmo pouco e chego ao fim-de-semana e é o aniversário deste e daquele, a inaguração, o aniversário do filho, eh pá, eu já só quero descansar ou ter tempo para as coisas que me dão prazer... Não ando a aguentar. Tenho de fazer uma economia de amigos.
- Desculpe, importa-se de que lhe tire uma fotografia à alma?

sábado, outubro 24, 2009

As fraquezas do Outro parecem-nos sempre tão facilmente removíveis e as do nosso Eu tão inultrapassáveis.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Perguntam sempre ao Lobo Antunes da rivalidade com o Saramago. Como se o escritor, quando sentado à mesa para escrever, lutasse contra alguém que não ele próprio. Ele não escreve a pensar no rival - o rival é ele próprio. Só a ele próprio se pode exceder.

Falei da escrita. Poderia falar da vida. A nossa única competição possível é sempre com o melhor-de-nós.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Roubar a juventude

- Estás impecável! Não conheço ninguém que pareça ser tão mais novo do que é como tu, pá! Qual é o teu segredo?
- É o do Drácula?
- Do Drácula?
- Sim. Bebo o sangue das vítimas.


(Já tinha ouvido alguém dizer que tinha 26 anos quando estava com uma mulher de 26 anos e 30 quando estava com uma de trinta.)

quarta-feira, outubro 21, 2009

Porque é que Saramago não fala do Corão? É tão óbvia a resposta.

terça-feira, outubro 20, 2009

José Saramago disse que a "a Bíblia é um manual de maus costumes" e que "tudo aquilo [a Bíblia, bem entendido] é absurdo e disparatado".



Penso que o «amai-vos uns aos outros» não é absurdo nem disparatado. Assim como não o é (Antigo Testamento) a ideia-matriz definidora da religião: «Prefiro a misericórdia ao sacríficio.» Saramago confunde a prática institucional das igrejas com a sua essência doutrinária. Pôr no mesmo saco Cristo e a Inquisição, seria como confundir Marx e Estaline.

segunda-feira, outubro 19, 2009

- Não inventem regras que impeçam a felicidade. Bolas, a vida já tem tantas barreiras naturais à felicidade: as doenças, a morte dos entes amados, o desemprego, o stress, as falhas na amizade e no amor. Para quê criar mais limitações, mais barreiras artificiais? As pessoas têm medo de ser felizes, muitas acham que é um pecado. Pecado é não ser feliz por medo!
Se há alguma coisa contra que me revoltei, foi contra o ódio.

Amin Maalouf

domingo, outubro 18, 2009

Osho diz para nos lembrarmos a nós mesmos de que somos únicos, especiais e insubstituíveis.

sábado, outubro 17, 2009

Quanto mais exigente fores para com a Vida, menos usufruirás dela.
Já por várias vezes li personalidades da política ou da cultura elogiaram a mulher, o sexo feminino como superior ao masculino - porque mais inteligente, ou mais subtil, ou mais arguto, ou mais delicado, sensível ou tolerante.

Se o contrário acontecer, isto é, se alguém substituir o feminino por masculino, será condenado em praça pública e etiquetado de «machista».

Sou igualitarista até ao mais ínfimo átomo do meu ADN e acho que isto é desigual.

Pensem só: qual a palavra que tem conotação mais pejorativa - machista ou feminista?

É fácil, não é?

Pela mesma razão, os homens não podem dizer que as mulheres são isto&aquilo&aqueloutro sem ouvirem - e bem - que isso é um preconceito, uma generalização abusiva, etc. Mas as mulheres podem tranquilamente dizer que os homens são desarrumados, que só-pensam-com-a-pila ou que ligam demasiado à Beleza.

Ser dúplice na condensdência em função da desigualdade conforme em ela for em favor do sexo oprimido ou do sexo opressor - é, para mim, reconhecer uma irreconhecível inferioridade intrínseca.
O mar rolou as suas ondas negras. Sobre as praias tocadas de infinito.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, outubro 16, 2009

Descobri que é possível comandar o mote inicial dos sonhos. Dormindo a sesta ou dormindo à noite, penso antes de adormecer numa ideia, numa pessoa, num local, num acontecimento. Agarro-me fortemente a essa âncora, procurando que nada me desvie dela, até que o sono se torna invencível. Quando mergulho no sono, aquilo a que me agarrei enquanto acordado e semi-acordado continua no sonho. Porém - curioso - o sonho distorce-o.

Outro dia, antes de adormecer, e só para testar o que o sonho faria, pensei no meu dentista até à exaustão. E no sonho ele apareceu. Mas não era ele. Quer dizer: era a cara, o corpo dele, até a indumentária. Porém, ele não era dentista. Era o senhor do salão em que me encontrava, cheio de bambus, e que servia o chá de laranjeira aos presentes sentados.
Patrick não encontrava a namorada certa. A cada relação, era sempre o mesmo: deslumbramento ao início e depois todas as emoções fortes se volatilizavam... e fartava-se.

Um dia Patrick, abandonou a procura e lembrou-se: todas estas namoradas mais não são do que atalhos para esquecer a mulher da minha vida. Há muito tempo que não se confrontava com esta verdade, tentando soterrá-la com um amontoado de mulheres que não conseguiam abafar o canção imortal que emanava os seus lábios...

Procurou-a. Encontrou-a. Viveu com ela novo amor. Até o matar. Lembrou-se então de algo que não tinha sequer emergido ao seu consciente: esta «mulher da minha vida», conhecida na juventude, foi na altura uma repetição do meu amor de adolescente. Sim, aí estava a sua grande e verdadeira paixão. Lembrava-se agora de que nunca sarara essa ferida. Recordava-se agora de que se apaixonara pela mulher da juventude unicamente porque esta lhe fazia lembrar a rapariga de sonhos da sua adolescência. Sim, era o prazer da repetição que Freud falava.

Patrick não se apaixonara pela mulher da sua juventude; ela era apenas um rosto, um corpo, um suporte, um objecto de devoção para poder continuar a amar a mulher da sua adolescência a partir de uma base tangível. Patrick permanecera amando a mulher da sua adolescência.

Procurou-a. Estava fútil, pragmática e cruel. Patrick depressa se desencantou, pensando que, no fundo, no fundo, ela nunca tivera nada que ver com ele.

Um relâmpago rebentou estrondosa e subitamente dentro de si! Ah! A Mariana Rosmaninho! A miúda com quem brincava na escola primária. Como amara dolorosa e solitariamente esse manancial de delícias!

Era ela a raiz de tudo. A raiz de toda a sua demanda. Da sua infinita procura.

Lembrava-se bem de, quando apaixonado pela rapariga da sua adolescência, ter pensado: julgo que estou apaixonadíssimo, porém, se a Mariana Rosmaninho me aparecesse, não tenho dúvidas sobre quem escolheria...

E tudo fez para a procurar. Ligou para a escola primária. Os dados eram confidenciais. Procurou, procurou, procurou. E encontrou-a via Internet. À terceira pergunta:

- Estás solteira.

- Sim. Estou.

Mariana Rosmaninho estava igual. A mesma cara cheia de gotículas de chuva brilhante, o mesmo cabelo sedoso, a mesma pele que nunca envelhecia.

Depois de muitos chats, veio o café. Depois de muitos cafés, veio o beijo. E viveram felizes para sempre.
O que será que levou aquele homem, hoje à tarde, a estar de tronco nu e em cuecas no parque de estacionamento do centro comercial?

quinta-feira, outubro 15, 2009

Ufa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Obrigado, Mónica

Facebook normally allows users only to "deactivate" their accounts, leaving their information intact. But what if you want to permanently delete your account? Here's how:

Now you can delete your account by going to "http://www.facebook.com/help/contact.php?show_form=delete_account
O segredo mais delicioso foi-me revelado.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Quando ajudas alguém - quando dás tudo, tudo, tudo de ti -, e depois, um dia, és tu a precisar e não recebes nada, nada de quem outrora tanto ajudaste, tens vontade de dizer:

- Quando tu precisaste, eu estive lá.

Arriscas-te então a ouvi a pior frase do mundo:

- Fizeste porque quiseste. Não te obriguei a nada.
Quando lemos um livro, desligamo-nos da realidade e depois voltamos à realidade em melhores condições. Ao escrever, sempre aprendo algo novo - ou sobre o tema ou sobre mim.

Luis Sepúlveda
Ter o Folhas de Erva de regresso à minha cabeceira é como ter um comprimido para a felicidade e a tranquilidade nocturnas.

terça-feira, outubro 13, 2009

Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava.»

Nelson Rodrigues

O direito à privacidade (e à intimidade) vai morrendo todos os dias um bocadinho.
Quase todos os nossos movimentos já, de resto, estão registados – do cartão de crédito, dos e-mails, dos números de telefone para quem ligamos e enviamos mensagens, até as nossas deslocações na rua são, grosso modo, filmadas.
As razões são sempre nobres: o combate à criminalidade e ao terrorismo, a simplificação da vida. Alguém se vai opor à Via Verde ou ao cartão 5-em-1? Casuisticamente, todas estas coisas trazem vantagens, e é só nessa perspectiva que tendemos a (e que somos induzidos a) ver as coisas, descurando que elas têm aumentado brutalmente o controlo sobre o cidadão e tornado cada vez mais exíguo o tão minguado espaço de privacidade.
As câmaras, por exemplo, vão proliferando como cogumelos pela urbe. Um amigo meu mostrava-me outro dia as quinze câmaras escondidas no seu restaurante. Reparei na camuflagem que as envolvia e, desde então, tenho detectado esse mesmo invólucro em bares, cafés, restaurantes. Até nos sanitários, tenho deparado com tais objectos.
Não se pense, porém, que a perca da privacidade é ditada apenas pela videovigilância. Tomemos o exemplo da Internet.
Todos os meses, recebo na minha caixa de correio electrónico fotografias e vídeos realizados por namorados ou ex-namorados que decidem expor ao mundo a vida sexual das suas parceiras. Pergunto-me como é que estes criminosos andam aí à solta, sem serem presos ou sequer obrigados a pagar uma indemnização. (O único caso de que tive conhecimento foi o de um jogador de futebol, David Reynolds, obrigado a pagar indemnização por publicar 57 fotos da ex-namorada nua no Facebook. Quanto acham que foi a indemnização? Riam-se: menos de 300 euros.) Imagino que devesse haver uma punição prevista no Código Penal para quem expusesse a intimidade do Outro. O crime contra a intimidade, se não está, deveria estar tipificado.
Como ficará a auto-estima de uma rapariga que viu um vídeo da sua vida sexual a circular por milhares ou milhões de pessoas? Já houve casos noticiados de suicídios. O que será preciso ainda acontecer para que se perceba a gravidade de tais actos?
Os novos meios tecnológicos tornaram imediatamente acessível a exposição da intimidade a uma larga escala. Os telemóveis que fotografam e filmam são baratos e, a seguir à recolha de imagens, basta fazer um download e um forward e… voilá!, eis que meio mundo vê a «gaja da Escola Secundária de Santo Tirso apanhada a relinchar que nem um cavalo».
Não era difícil apanhá-los. Conheço alguém que processou uns indivíduos que o insultaram no MIRC e os obrigou a pagar uma considerável maquia. Simplesmente gravou a conversa, instaurou um processo criminal e eles foram localizados pelo IP e obrigados a compensá-lo materialmente por ofensas.
A Internet, como tudo o que é novo, tem inúmeros e colossais virtudes e perigos que ainda não foram devidamente estudados. O HI5 e o Facebook são mostruários da privacidade com efeitos tenebrosos que se escondem de mansinho sob a capa de sermos todos amigos uns dos outros, de sermos mimados com muitos elogios, de recebermos convites-para-tudo-e-mais-alguma-coisa.
Uma amiga minha que trabalha numa empresa de recrutamento em Londres conta-me que esta, antes de analisar os currículos, vai ver o Facebook (sim, eles conseguem entrar mesmo não estando conectados como «friends») dos candidatos. Quantos não foram já excluídos por fotos de bebedeiras... E quantos casos não foram já noticiados de divórcios que usaram o Facebook como um prova ou que nasceram de uma infelidade nele descoberta.
Sentado numa aula de jornalismo, ouvi um professor dizer:
– Quando cada um de nós cria uma conta na Hotmail, aceita um contrato em que cede todas as mensagens da sua caixa de e-mail à Microsoft. Aquilo não é nosso. É-nos emprestado. Apenas nos concedem o direito de irmos lá ver os e-mails. Podemos espreitá-los, até quando eles quiserem, note-se bem, até quando eles quiserem porque aqueles mails não nos pertencem; são deles…
E se um dia eles quiserem reclamar aquilo que aceitámos inadvertidamente ser deles?
No meu blog, instalei um contador de visitas. Este permite-me saber todos os computadores que lá foram, a que horas, quanto tempo, qual o tamanho do seu ecrã, e – pasme-se! – que palavras digitaram no Google antes de lá chegares. «Mamas, Marisa Cruz», escreveu alguém antes de ir lá parar, e eu fiquei a saber.
A revista Sábado publicou uma reportagem sobre o mercado negro dos aparelhos de escutas a telemóveis desvelando que por 150 euros qualquer pessoa pode escutar permanentemente outra.
O problema não é como estamos, mas como vamos estar. Já sabemos que, em 2010, seremos obrigados a usar um chip no carro que fará com que alguém saiba sempre por onde andamos…
George Orwell escreveu o 1984 para denunciar o totalitarismo. Meio século depois, ele é o melhor espelho que podemos erguer às ditas democracias ocidentais.

P.S. Paralelamente à morte da privacidade como valor primacial, aumenta o escrutínio sobre o carácter e os vícios privados das figuras públicas como forma de validação ou não dos mesmos. Nos EUA, discutiu-se mais que Bill Clinton tivesse amantes do que tivesse mandado bombardear a Sérvia, e Eliot Spitzer, Governador do Estado de Nova Iorque, foi demitido por ter recorrido à prostituição. O que é que isto tem que ver com a política interna e externa dos EUA?
- Eu sei que também não és atilado nem metódico.
- Sabes?
- Sei.
- Então?
- Os malucos reconhecem-se uns aos outros ;)

domingo, outubro 11, 2009

Quanto mais alastras a sabedoria, mais terrivelmente as certezas recuam, retrocedem medrosas, e mais as dúvidas nascem e crescem de todos os lados.

Queima os livros. A felicidade é tudo.
A constância e a intensidade a que dedicas o teu pensamento ao Inimigo dá-te a dimensão da tua derrota ante o Inimigo.
Pelo rosto de pedra impassível, entrevi-lhe a alma gelada.

sábado, outubro 10, 2009

Uma pessoa ser isenta implicaria despir-se de todas as suas paixões, ódios, emoções. Ninguém o consegue - mesmo quando julgas que compartimentaste as emoções, elas estão lá.
«Quem persegue a outra pessoa priva-se a si mesmo de repouso.»

Provérbio escandinavo
"Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?" As perguntas, tornadas um pungente requisitório, foram, há dias, formuladas por um trabalhador da France Telecom, numa manifestação contra o processo de "reestruturação" da empresa, cujos...


"Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?" As perguntas, tornadas um pungente requisitório, foram, há dias, formuladas por um trabalhador da France Telecom, numa manifestação contra o processo de "reestruturação" da empresa, cujos resultados têm conduzido à barbárie. Vinte e quatro trabalhadores suicidaram-se, nos últimos dezanove meses, e mais treze foram socorridos quando se preparavam para pôr fim à vida.

Em nome da "competitividade" e em obediência às leis do mercado, um "gestor", Louis-Pierre Wenes, procedeu, a partir de 2005 (ele entrara na empresa em 2002), adjuvado por Didier Lombard, à "modernização" da empresa, o terceiro operador de telemóveis da Europa e o primeiro fornecedor de acesso à Internet.

A brutalidade das decisões não olhou a meios para justificar os fins. Diz a France Press que "o plano redundou num controlo cerrado dos funcionários, dos tempos de pausa, uma pressão insuportável por ganhos de produtividade e desumanização nas relações laborais. Os comunicados dos sindicatos sublinham a incerteza organizada sobre a permanência de cada posto de trabalho, mudanças forçadas de funções, pressões insidiosas para que os trabalhadores se demitissem ou aceitassem despromoções, tentando fazê-los responsabilizar-se por essas novas situações."

O "mercado", o "neoliberalismo" e a globalização atingiram novos patamares de infâmia. Em Portugal desconhece-se a estatística de suicídios causados por compulsões semelhantes, e o facto de estarmos à beira dos setecentos mil desempregados deveria preocupar, seriamente, aqueles que nos governam. A desumanização que se regista no mundo do trabalho explica-se pelo facto de o "homem de organização", quero dizer: o "gestor", não pode permitir-se ter princípios ou escrúpulos: deve, isso sim ter reflexos.

A degradação da vida empresarial resulta dessa cartografia de horrores que consiste nos objectivos a atingir, nas etapas que se tem de percorrer, e dos lucros que terão de ser rápidos e vultosos. O "gestor" é muitíssimo bem pago para ser um cão-de-fila. Um universo sem paixões, gelado, uma mistura de indiferença humana com uma selvajaria abstracta.

"Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?" As dramáticas perguntas adquirem um novo relevo, quando se sabe que as "soluções" aplicadas pelos tais "gestores" revelam-se ineficazes e conduzem as empresas, mais tarde ou mais cedo, à falência. À falência económica e financeira, porque a falência moral já habita no corpo de quem as dirige.

A "organização", o "grupo", correspondem a esse capitalismo predador, que mantém uma "democracia de superfície", feroz e impositiva, que tem aniquilado sindicatos, partidos progressistas, organizações cristãs recalcitrantes, homens e mulheres, sobrepondo uma cultura que provoca a renúncia de pensar. O poder económico a sobrepujar o poder político.

Baptista-Bastos

sexta-feira, outubro 09, 2009

Quero que sofram

O restaurante era uma esplanada em cima de uma falésia de 20 ou 30 metros. A nossa mesa (a minha e a da minha mulher) estava encostada ao gradeamento exterior da esplanada (ou muro, não me lembro bem) e dava directamente sobre o mar. Não havia nenhuma mesa a menos de quatro ou cinco metros. Jantámos. No fim, resolvemos fumar uma cigarrilha. De repente, apareceu uma cabeça entra nós dois, que disse, a tremer de raiva, em americano: "Espero que tenham um cancro. Espero que morram. Espero que sofram". E, depois, fugiu. Ainda lhe gritei "Drop dead". Mas não serviu de nada. O homem já cumprira a sua missão. Como é evidente, as nossas cigarrilhas não podiam prejudicar ninguém. Não se tratava dos supostos malefícios do fumo indirecto. A coisa era uma explosão de ódio contra dois seres que o indivíduo considerava moralmente inferiores, dignos de morrer depressa e, de preferência, da pior maneira imaginável.

O fanatismo contra o tabaco - o único sentimento (não merece sequer o nome de "ideia") que os políticos do Ocidente conseguiram este século, pouco a pouco, incutir na populaça - chegou a um extremo inquietante. Em Nova Iorque, por exemplo, uma das cidades mais poluídas do mundo, o inominável sr. Bloomberg (o do "canal"), candidato à presidência da câmara, incluiu no seu programa a proibição absoluta de fumar na rua. Na rua, repito. Isto, como o acidente do restaurante, não é um acto de saúde pública, é pura e simplesmente um acto de perseguição, que uma intensa propaganda inspira e sustenta. Basta ver um filme ou uma série americana, ou mesmo um noticiário, para constatar o fervor dessa particular missão.


A campanha pela imortalidade do corpo toma rapidamente a forma das campanhas pela imortalidade da alma. No liberal e democrático Ocidente, nenhuma dissidência é tolerada, nem (por sensata que seja) ouvida qualquer razão de ordem médica, económica ou política. Se o deixassem, o sr. Bloomberg queimava os fumadores na praça pública. Como Sócrates, que, sempre atrás de Zapatero, se propõe agora "endurecer" as leis contra o tabaco, que acha demasiado permissivas. Impotente para acabar com o desemprego, aumentar a produtividade ou reformar a justiça, Sócrates ficou, pelo menos, com uma "causa" aparentemente justa - e a consoladora faculdade de proibir. O zelo religioso contra o fumo, julga ele, compensará o óbvio fracasso do país. Punir os maus (ainda por cima para seu próprio benefício) é um método provado para exibir a virtude de quem manda. E, de caminho, esconder a realidade.

Vasco Pulido Valente
Um livro - ou um texto - ou te:

a) desassoga, te inquieta, abala as tuas certezas e deixa-te confuso, com um lugar vazio no sítio onde estavam as tuas certezas;

ou

b)verbaliza algo que depois de leres descobres que tinhas em ti. Eu sabia/sentia/intuía isto mas nunca o formulara. Aquilo era teu, mas precisaste do espelho para ler o que tinhas escrito.
Olhei para o homem na repartição de finanças. Todos somos mentalistas se formos atentos. A cara dele dizia:

- Sou autoritário e machista.

Passado instantes, deu uma palmada na mão da funcionária que estava no computador.

- Quieta!
Andava na escola primária, e, tendo a sorte desta escola apostar muito na cultura, passeava por uma exposição de pintura.

Lembro-me de a certa altura, do alto dos meus sete anos, ter dito:

- Este quadro é feio!

A organizadora da exposição concordou comigo, mas acrescentou:

- Os quadros maus quando têm assinatura de um bom pintor valem mais do que os quadros bons de um mau pintor.

Até hoje, lembro-me sempre destas palavras. Quando vejo escritores escreverem excrementos elogiados pela crítica, quando fui ver o último filme do Manoel de Oliveira (eu que gostava dele), quando os humoristas mais conhecidos (e que têm piada) fazem squetches sem piada e todos se riem.
Se todos lessem A Odisseia ou Dom Quixote, o mundo não seria o mesmo.

António Lobo Antunes
Albert Camus, n´O Estrangeiro, quando Mersault está na cadeia, diz que bastaria a um homem viver um dia com as suas vinte e quatro horas para ter memórias que enchessem a sua vida inteira na cela.
O Grande Gatsby começa com um conselho que o pai deu ao narrador quando ele ainda era novinho e vulnerável:

- De cada vez que te apetecer criticar alguém, lembra-te de que nem todos nesta vida gozaram das mesmas vantagens que tu.

É difícil - extraordinariamente difícil - viver o dia-a-dia sem apontar o dedo, sem denunciar, cair na má-língua, julgar e, até, condenar.

Mas, de facto, quando ouvimos - aliás: escutamos - o Outro, quando percebemos tudo o que levou a ser assim...

Nem todos foram amados com tu. Nem todos tiveram as tuas facilidades.

E se o teu pai te violasse? E se tu fosses o patinho feio da família? E se tu fosses humilhado nos balneários da tua escola secundária onde te batiam com tolhas molhadas enquanto gritavam «paneleiro»? E se @ tua/teu noiv@ te tivesse deixad@ pendurad@ no altar?

quinta-feira, outubro 08, 2009

Leio que o desemprego em Portugal tem a sua principal causa na inadequação entre as habilitações de quem procura trabalho (as empresas) e quem oferece (as pessoas ou os trabalhadores).

Não me custa a acreditar que seja esta a principal causa, mas, dentro desta, há uma sub-ramificação que não temos coragem de denunciar.

Sucede que muitos portugueses recusam fazer trabalhos abaixo das suas qualificações. Noutras palavras: se têm um canudo, então não sujam as mãos.

Uma amiga minha foi para Barcelona viver e disse-me:

- Lá em Barcelona, trabalhava num bar para pagar o mestrado. Se fosse cá, devia haver quem achasse estranho. Lá toda a gente, faz tudo, sem vergonha.

Quantos desempregados com licenciaturas, pós-graduações, mestrados, doutoramentos e pós-doc. que atravessam dificuldade materiais, alguns até passam fome, e se recusam a ir trabalhar para um call center ou uma perfumaria?

No filme A leitora, Kate Winslet prefere esconder num julgamento que não sabe ler e escrever e assumir por isso a barbaridade de ter a seu comando campos de concentração, cujos relatório, assume falsamente, ter escrito. Sentia mais vergonha por ser analfabeta do que por estar à frente de campos de concentração nazis. Também alguns portugueses preferem passar fome do que fazer trabalhos que consideram «menores».
Ano após ano, o prémio Nobel da Literatura vai perdendo credibilidade.
Há alturas em que o que sinto em relação ao país se resume a uma palavra: nojo.
Tenho nojo deste país quando o Isaltino, condenado a sete anos de prisão, se prepara, segundo as sondagens, para ser reeleito com maioria absoluta!

Quando o Alberto João Jardim manda impunemente e ditatorialmente na Madeira. Alguém viu as imagens da pancadaria com o PND? Ainda restam dúvidas de que aquilo não é uma democracia?

quarta-feira, outubro 07, 2009

- Gosto dele sem reservas. É o melhor elogio que lhe posso fazer porque é tão difícil gostar de alguém sem reservas. Encontrar uma pessoa de quem se gosta sem reservas já é muito. E é tão tão bom... De quantas pessoas gostas sem reservas?

segunda-feira, outubro 05, 2009

Estou chocado: nunca se pode desistir do facebook desde que se entra.

sábado, outubro 03, 2009

- Tenho uma memória visual filha da puta. Nunca me esqueço de uma cara. Nunca. Mesmo as pessoas que nunca me foram apresentadas, se as vir mais de duas vezes num sítio, decoro-lhes logo a cara. Quando vejo um rosto e esse me é familiar, sei logo que já o vi algures. Ainda outro dia vi uma pessoa, andei à procura na minha biblioteca de caras e percebi que não estava nas prateleiras das pessoas que conhecia. Não desisti de tentar, esforcei-me e ao fim de algum tempo lá me consegui lembrar que há dois anos vi aquele rosto algumas vezes num bar.
they laugh, they make money
he's got a gold watch
she's got a silk dress
and healthy breasts that bounce
on his italian leather sofa


she doesn't care
whether or not he's a good man

Cake
- O país está a produzir analfabetos escolarizados.

Velho Ancião

quinta-feira, outubro 01, 2009

Com a derrota do PSD, o Pacheco é, por sua vez, olhado de viés, e os ajustes de contas não tardarão. Que faz correr, e ter atitudes intelectualmente reprováveis, este homem calculado, gelado e inteligente? O atabalhoamento com que tenta atenuar a derrota da sua estratégia chega a ser uma piada cruel, como abundantemente ficou demonstrado anteontem, na SIC-Notícias, no encontro com Pedro Silva Pereira.

Baptista-Bastos

William Faulkner, Discurso do Nobel (1949)

“Senhoras e senhores, sinto que este prêmio não foi concedido a mim enquanto homem, mas a meu trabalho — o trabalho de uma vida na angústia e no sofrimento do espírito humano, não pela glória e menos ainda para obter lucro, mas para criar dos materiais do espírito humano algo que não existia antes. Assim, este prêmio está tão somente sob minha custódia. Não será difícil encontrar, para sua parte financeira, um destino condizente com o propósito e significado de sua origem. Mas eu gostaria de fazer o mesmo com esta aclamação também, utilizando este momento como o pináculo a partir do qual posso ser ouvido pelos jovens homens e mulheres já dedicados à mesma agonia e faina, entre os quais já está aquele que um dia estará aqui onde eu estou.
“Nossa tragédia, hoje, é um geral e universal temor físico suportado há tanto tempo que podemos mesmo tocá-lo. Não há mais problemas do espírito. Há somente a questão: quando irão me explodir? Por causa disto, o jovem ou a jovem que hoje escreve tem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, os quais por si só fazem a boa literatura, uma vez que apenas sobre isso vale a pena escrever, apenas isso vale a angústia e o sofrimento.
“Ele, o jovem, deve aprendê-los novamente. Ele deve ensinar a si mesmo que o mais fundamental dentre todas as coisas é estar apreensivo; e, tendo ensinado isto a si mesmo, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço em seu trabalho senão para as velhas verdades e truísmos do coração, as velhas verdades universais sem as quais qualquer estória torna-se efêmera e condenada — amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Antes que assim o faça, ele labora sob uma maldição. Ele escreve não sobre amor mas sobre luxúria, sobre derrotas em que ninguém perde nada de valor, sobre vitórias sem esperança e, o pior de tudo, sem piedade e compaixão. Sua atribulação não aflige ossos universais, não deixa cicatrizes. Ele escreve não a partir do coração mas das glândulas.
“Até que reaprenda estas coisas, ele irá escrever como se compartisse e observasse o fim do homem. Eu me recuso a aceitar o fim do homem. É bastante cômodo dizer que o homem é imortal simplesmente porque ele irá subsistir: que quando o último tilintar do destino tiver soado e se esvaecido da última rocha inútil suspensa estática no último vermelho e moribundo entardecer, que mesmo então haverá ainda mais um som: sua fraca e inexaurível voz, ainda a falar. Eu me recuso a aceitar isto. Creio que o homem não irá meramente perdurar: ele triunfará. Ele é imortal, não porque dentre as criaturas tem ele uma voz inexaurível, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão e sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É seu privilégio ajudar o homem a resistir erguendo seu coração, recordando-o a coragem e honra e esperança e orgulho e compaixão e piedade e sacrifício que têm sido a glória do seu passado. A voz do poeta necessita ser não meramente o registro e testemunho do homem, ela pode ser uma das escoras, o pilar para ajudá-lo a subsistir e prevalecer.”

tradução tirada de blogdo.yurivieira.com/
Lia e ouvia sempre o Pacheco Pereira. Não concordava muitas vezes com ele, mas reconhecia nele algo raro nos políticos: independência de espírito. Nos últimos tempos, tornou-se um fanático. Defende o indefensável. Desde que a amiga Manela foi para a liderança do PSD que Pacheco Pereira tem feito figuras tristíssimas.
A última: depois da derrota clara do PSD, procurou de todos os modos, todos os dias depois das eleições ter declarações obstinadas contra o reconhecimento da vitória do PS. Mais uma:

«Não é líquido que o Presidente da República aceite todas as combinações aritméticas que o número de deputados e partidos possa permitir para fazer uma maioria. Tem nisso um precedente em Mário Soares, que, após a moção de censura que derrubou o governo minoritário de Cavaco Silva, não aceitou a solução maioritária do PS+PRD que Constâncio lhe propôs.»
Um amigo meu teve o seu mail invadido por um vírus. Esse vírus enviava a todos os seus contactos um mail amoroso que no assunto dizia qualquer coisa como Love Letter.

Os destinatários abriam o mail e liam uma carta de amor (em português) em que ele declarava a sua antiga e escondida paixão, com frases poéticas, e alegando no final que nunca o fizera ao vivo por timidez, por não acreditar ter esperanças... A coisa parece que estava bem feita. Credível.

Houve várias raparigas que lhe responderam:

- Estás a gozar?

- Estás maluco?

- Somos só amigos.

Porém, outras houve, totalmente insuspeitadas para ele, que declararam por sms ou resposta de mail o seu interesse por ele.

Se não tivéssemos medo da rejeição, quantas portas não poderíamos abrir?
I want something good to die for
To make it beautiful to live.

Queens of the Stone Age