segunda-feira, agosto 31, 2009
- Angel, vi uma notícia impressionante. Um homem da Austrália que foi encontrado morto pelo cheiro ao fim de três anos, ainda com a televisão ligada! Ninguém deu pela falta dele três anos. Nem família, nem vizinhos, nem amigos. O homem não devia ter ninguém, ninguém. Estava caído com uma lata de cerveja. E o pormenor de só darem por ele por o cheiro incomodar a vizinhança. Como é possível morrer sem dignidade alguma? Imaginei o passado do homem. Outrora, se calhar teve muitos amigos e agora... Como se cai numa espiral de degradação? Tens de escrever isto em livro, Angel. Aí está o teu próximo livro.
domingo, agosto 30, 2009
Ser-se escritor
É ler imenso. É ler demoradamente. É saborear o conteúdo e a forma. É amar as palavras. É viver cercado por nuvens de palavras que constantemente se renovam. Nuvens róseas, nuvens azuis, nuvens só de pó, de oiro, de perfume, nuvens intangíveis de pré-pré-palavras. É segurar estas nuvens nas mãos, misturá-las, ver as diferentes e infinitas combinação. Porque duas palavras juntas contêm uma magia que nenhuma delas isolada têm. Um brilho que não se sabe de onde vem. Uma palavra branca, polida que se torna verde. Uma palavra azul-cobalto que se torna laranja. Basta estar ali, emparelhada com aquela. É incrível o camaleonismo reverberativo das palavras.
É observar.
Atenção: é observar.
Observar para fora. Observar as pessoas. Compreendê-las apesar de nós. Porque nos podemos dar com mil e uma pessoas e não as compreender. Mas é também observar-nos por dentro. Porque se pode passar pelas experiências sem aprender nada. Porque se não se olhar para dentro, não se atribui significado às coisas.
É observar.
Atenção: é observar.
Observar para fora. Observar as pessoas. Compreendê-las apesar de nós. Porque nos podemos dar com mil e uma pessoas e não as compreender. Mas é também observar-nos por dentro. Porque se pode passar pelas experiências sem aprender nada. Porque se não se olhar para dentro, não se atribui significado às coisas.
Bolas, porque é que preciso de consultar sites de esquerda para ler sobre isto?
O HOLOCAUSTO DA INDIFERENÇA
73 imigrantes morrem de fome e sede ao tentarem chegar a Itália
22-Ago-2009
Apenas cinco pessoas sobreviveram a 20 dias à deriva num barco, quando tentavam chegar a Itália. Eram todos eritreus e 73 morreram de fome e sede. Os protestos contra a lei que criminaliza a imigração crescem em Itália, a Igreja denuncia a "indiferença". A Liga Norte, o partido de extrema direita que faz parte do governo de Berlusconi, divulga no Facebook um vídeojogo, "rejeita o clandestino", em que o objectivo é afundar embarcações de imigrantes.
Três homens, uma mulher e um rapaz de 17 anos foram os únicos sobreviventes que chegaram a Lampedusa. Segundo eles, saíram da Líbia para Itália, o barco tinha quase 80 pessoas, mas por falta de água e alimentos, pelo calor do dia e o frio da noite, foram morrendo e os sobreviventes foram lançando os corpos ao Mediterrâneo. Sete corpos já foram encontrados.
Mais de dez embarcações passaram por eles, mas só um pescador os ajudou com água e comida.
A porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Laura Boldrini, considerando "alarmante" e "chocante" o que aconteceu, declarou:
"O ACNUR ficaria muito preocupado se o endurecimento das políticas governamentais em relação às pessoas dos barcos tivesse o efeito de desencorajar os capitães dos barcos de continuarem a honrar as suas obrigações internacionais marítimas".
A Igreja católica lembrou o Holocausto, no editorial do jornal da Conferência Episcopal: "Quando hoje lemos sobre as deportações dos judeus sob o nazismo perguntamo-nos: seguramente as populações não sabiam. Mas estes comboios cheios, as vozes, os gritos nas estações, ninguém os via nem ouvia? Na época era o totalitarismo e o terror que faziam fechar os olhos. Hoje não. Uma indiferença tranquila, resignada, talvez mesmo uma aversão ao Mediterrâneo. O Ocidente tem os olhos fechados".
O ministro do Interior Roberto Maroni, da Liga Norte, disse que a versão dos imigrantes está por confirmar. O partido do ministro fez da "caça ao imigrante" um macabro jogo que colocou na sua página no facebook, que é gerida pelo filho do líder Umberto Bossi. O jogo intitula-se "Rejeita o clandestino" e consiste no afundamento das embarcações dos imigrantes. Os jogadores ganham pontos afundando barcos, quanto maiores forem as embarcações mais pontos ganham. Na página diz-se, cinicamente, que o objectivo do jogo "é manter o controlo dos clandestinos que chegam a Itália".
Entretanto, aumenta a contestação à lei, aprovada em Maio passado, que criminaliza a imigração (notícia no esquerda.net), que atemoriza as pessoas e fomenta o ambiente de indiferença.
73 imigrantes morrem de fome e sede ao tentarem chegar a Itália
22-Ago-2009
Apenas cinco pessoas sobreviveram a 20 dias à deriva num barco, quando tentavam chegar a Itália. Eram todos eritreus e 73 morreram de fome e sede. Os protestos contra a lei que criminaliza a imigração crescem em Itália, a Igreja denuncia a "indiferença". A Liga Norte, o partido de extrema direita que faz parte do governo de Berlusconi, divulga no Facebook um vídeojogo, "rejeita o clandestino", em que o objectivo é afundar embarcações de imigrantes.
Três homens, uma mulher e um rapaz de 17 anos foram os únicos sobreviventes que chegaram a Lampedusa. Segundo eles, saíram da Líbia para Itália, o barco tinha quase 80 pessoas, mas por falta de água e alimentos, pelo calor do dia e o frio da noite, foram morrendo e os sobreviventes foram lançando os corpos ao Mediterrâneo. Sete corpos já foram encontrados.
Mais de dez embarcações passaram por eles, mas só um pescador os ajudou com água e comida.
A porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Laura Boldrini, considerando "alarmante" e "chocante" o que aconteceu, declarou:
"O ACNUR ficaria muito preocupado se o endurecimento das políticas governamentais em relação às pessoas dos barcos tivesse o efeito de desencorajar os capitães dos barcos de continuarem a honrar as suas obrigações internacionais marítimas".
A Igreja católica lembrou o Holocausto, no editorial do jornal da Conferência Episcopal: "Quando hoje lemos sobre as deportações dos judeus sob o nazismo perguntamo-nos: seguramente as populações não sabiam. Mas estes comboios cheios, as vozes, os gritos nas estações, ninguém os via nem ouvia? Na época era o totalitarismo e o terror que faziam fechar os olhos. Hoje não. Uma indiferença tranquila, resignada, talvez mesmo uma aversão ao Mediterrâneo. O Ocidente tem os olhos fechados".
O ministro do Interior Roberto Maroni, da Liga Norte, disse que a versão dos imigrantes está por confirmar. O partido do ministro fez da "caça ao imigrante" um macabro jogo que colocou na sua página no facebook, que é gerida pelo filho do líder Umberto Bossi. O jogo intitula-se "Rejeita o clandestino" e consiste no afundamento das embarcações dos imigrantes. Os jogadores ganham pontos afundando barcos, quanto maiores forem as embarcações mais pontos ganham. Na página diz-se, cinicamente, que o objectivo do jogo "é manter o controlo dos clandestinos que chegam a Itália".
Entretanto, aumenta a contestação à lei, aprovada em Maio passado, que criminaliza a imigração (notícia no esquerda.net), que atemoriza as pessoas e fomenta o ambiente de indiferença.
O budismo reclama a equanimidade. O estado em que somos iguais para todos. Em que não temos preferências nem aversões. Em que cessam as categorias:
amigos
inimigos
desconhecidos
família
namorad@
Um pormenor importante: esta equanimidade é feita pela bitola superior. Explico: amamos todos incondicionalmente. No fundo, é como se fôssemos alargando o amor que sentimos (pelo irmão, pelo filho, pela mãe, o pai, o marido ou a mulher, ou o gato), espalhando-o como um manto... por todos os seres sencientes.
Sempre imaginei esta equanimidade não como uma meta a alcançar em vida, mas como um ponto tendencial para que caminhássemos todos os dias um passo (como a linha do horizonte lá ao fundo com um sol incandescente).
É difícil. Mesmo um pai ou uma mãe tem sempre um filho favorito. Mesmo um primo ou um irmão têm gostam dos outros por igual, mas...
amigos
inimigos
desconhecidos
família
namorad@
Um pormenor importante: esta equanimidade é feita pela bitola superior. Explico: amamos todos incondicionalmente. No fundo, é como se fôssemos alargando o amor que sentimos (pelo irmão, pelo filho, pela mãe, o pai, o marido ou a mulher, ou o gato), espalhando-o como um manto... por todos os seres sencientes.
Sempre imaginei esta equanimidade não como uma meta a alcançar em vida, mas como um ponto tendencial para que caminhássemos todos os dias um passo (como a linha do horizonte lá ao fundo com um sol incandescente).
É difícil. Mesmo um pai ou uma mãe tem sempre um filho favorito. Mesmo um primo ou um irmão têm gostam dos outros por igual, mas...
sexta-feira, agosto 28, 2009
«Um dos elementos mais intrigantes que me fez querer escrever esta história foi a ideia de 'vingança judaica'.»
Assim fala Tarantino, o ex-pornógrafo que se orgulha de ter visto todos os filmes pornográficos da loja hard core em que trabalhava, o homem que elegeu o Speed como um dos vinte melhores filmes das últimas duas décadas, está de volta.
E o móbil volta a ser o mesmo: a vingança. É sempre neste sentimento que os filmes dele assentam. Sangue, violência, requintes de malvadez cada vez mais requintados, a estética da violência pura e dura.
Há quem o ache genial. A mim, dá-me vómitos.
Assim fala Tarantino, o ex-pornógrafo que se orgulha de ter visto todos os filmes pornográficos da loja hard core em que trabalhava, o homem que elegeu o Speed como um dos vinte melhores filmes das últimas duas décadas, está de volta.
E o móbil volta a ser o mesmo: a vingança. É sempre neste sentimento que os filmes dele assentam. Sangue, violência, requintes de malvadez cada vez mais requintados, a estética da violência pura e dura.
Há quem o ache genial. A mim, dá-me vómitos.
A coisa mais gratificante para o leitor (e para o escritor) são aqueles pedaços de texto em que pensamos:
- Porra, eu já pensava assim mas nunca me tinha ocorrido que pensava assim. Porque nunca o tinha verbalizado. Este tipo deu forma uma coisa vaga e nebulosa que não sabia bem o que era. Este tipo dissipou o meu nevoeiro interno e alumiou-me com uma candeia. Explicou-me.
- Porra, eu já pensava assim mas nunca me tinha ocorrido que pensava assim. Porque nunca o tinha verbalizado. Este tipo deu forma uma coisa vaga e nebulosa que não sabia bem o que era. Este tipo dissipou o meu nevoeiro interno e alumiou-me com uma candeia. Explicou-me.
Um miúda de 10 ou 11 anos, que está no sexto ano, estava com um livro de português a estudar para um teste.
- Angel, o que é a «densidade psicológica» das personagens?
Quando depois de fechado o livro, as personagens te aparecem na cabeça como te lembras de amigos teus e és capaz de pensar neste ou naquela característica deles e de pensar como reagiriam nesta ou naquela situação; então as personagens do livro têm «densidade psicológica.
- Angel, o que é a «densidade psicológica» das personagens?
Quando depois de fechado o livro, as personagens te aparecem na cabeça como te lembras de amigos teus e és capaz de pensar neste ou naquela característica deles e de pensar como reagiriam nesta ou naquela situação; então as personagens do livro têm «densidade psicológica.
quinta-feira, agosto 27, 2009
Há coisas que sei - gravíssimas - e que não vejo nos jornais. E o que os média não mostram, é como se não existisse. O que é invisível, não existe na sociedade hodierna.
Umas das pessoas que podia iluminar tantas coisas que não existem nos média, que podia corrigir tantos dislates, tanto lixo que diariamente é produzido, chama-se Alberto Castro Ferreira. Um homem lido, erudito, cultíssimo. Possui uma biblioteca invejável - nas estantes e na cabeça.
É uma delícia lê-lo e ouvi-lo. Da minha parte, divulgá-lo-ei como um biólogo a um animal em vias de extinção.
Hoje mostrou-me um texto de Pacheco Pereira sobre um livro de António José Saraiva intitulado «Um livro para queimar». Uma vergonha!!!
E quem fala disto?
Quem fala dos editoriais de Saramago do Diário de Notícias no pós-25 de Abril?
Aqui fica o - melhor dito: um dos seus - seu blog:
http://skocky-alcyone.blogspot.com/
Umas das pessoas que podia iluminar tantas coisas que não existem nos média, que podia corrigir tantos dislates, tanto lixo que diariamente é produzido, chama-se Alberto Castro Ferreira. Um homem lido, erudito, cultíssimo. Possui uma biblioteca invejável - nas estantes e na cabeça.
É uma delícia lê-lo e ouvi-lo. Da minha parte, divulgá-lo-ei como um biólogo a um animal em vias de extinção.
Hoje mostrou-me um texto de Pacheco Pereira sobre um livro de António José Saraiva intitulado «Um livro para queimar». Uma vergonha!!!
E quem fala disto?
Quem fala dos editoriais de Saramago do Diário de Notícias no pós-25 de Abril?
Aqui fica o - melhor dito: um dos seus - seu blog:
http://skocky-alcyone.blogspot.com/
Há quem fale independentemente do seu auditório. São pessoas desatentas à linguagem facial do seu interlocutor. Se estivessem atentas, veriam que ele boceja ou tem o olhar ausente de quem está num diálogo interior de cada vez que o assunto x é puxado.
Cada pessoa tem as suas paixões, os seus interesses, ou se preferirem as suas obsessões. Há quem fale delas, estando-se nas tintas para o grau de interesse da plateia. Outras há que pensam pela cabeça do Outro, procuram interessar-se pelas coisas que o interessam (sim, é possível) e falar sobre isso.
Cada pessoa tem as suas paixões, os seus interesses, ou se preferirem as suas obsessões. Há quem fale delas, estando-se nas tintas para o grau de interesse da plateia. Outras há que pensam pela cabeça do Outro, procuram interessar-se pelas coisas que o interessam (sim, é possível) e falar sobre isso.
quarta-feira, agosto 26, 2009
Falando em linguagem emocional, quero que a esquerda se movesse por compaixão, e constato que muitas vezes são a hostilidade, o ódio e o ressentimento os seus sentimentos motores.
O privilegiar de uma emoção em detrimento de outra tem consequências. Estar mais preocupado com o aumento das desigualdades – que pode acontecer só por os ricos estarem mais ricos – do que com a diminuição da pobreza, não é compaixão, é inveja.
O privilegiar de uma emoção em detrimento de outra tem consequências. Estar mais preocupado com o aumento das desigualdades – que pode acontecer só por os ricos estarem mais ricos – do que com a diminuição da pobreza, não é compaixão, é inveja.
Os extremos são perigosos. Diferentes nos ideais, produzem os mesmos resultados. Porque não consegue mudar o mundo e as mentalidades de um dia para o outro. Porque os engenheiros do mundo instantâneos dão sempre mau resultado.
É esse o significado dos fascismos vermelhos para Wilhelm Reich. A metáfora de Koestler (que escreveu das maiores distopias da Literatura, Darkness at Noon, estranhamente traduzido por O Zero e o Infinito) do ser indefeso que está no chão a ser esmagado por um ser fardado e que, obnubilado, confude inicialmente a foice e o martelo pela suástica. É indiferente, conclui, os símbolos que ostente na lapela, as pancadas produzirão a mesma dor quaisquer que elas sejam.
É esse o significado dos fascismos vermelhos para Wilhelm Reich. A metáfora de Koestler (que escreveu das maiores distopias da Literatura, Darkness at Noon, estranhamente traduzido por O Zero e o Infinito) do ser indefeso que está no chão a ser esmagado por um ser fardado e que, obnubilado, confude inicialmente a foice e o martelo pela suástica. É indiferente, conclui, os símbolos que ostente na lapela, as pancadas produzirão a mesma dor quaisquer que elas sejam.
terça-feira, agosto 25, 2009
Quando me fotografaram para a capa da Vogue americana, senti-me a presa de um caçador que rondava à procura da melhor maneira de me morder, de me matar. [...] Tenho a sensação quando o fotógrafo é muito bom de que me vai engolir. E deixo de existir, passo a existir dentro de um rectângulo de papel. Como um grande pintor. Quando o Velázquez pintou As Meninas, elas deixaram de ter vida cá fora, passaram a existir dentro do quadro. E continuam vivas. Se for um grande escritor, as pessoas deixam de existir cá fora, mas passam a existir para sempre nos livros, como acontece com Guerra e Paz. Passam a existir nos livros, onde têm uma existência muito mais real, muito mais verdadeira. E eterna. É óbvio que isto se torna inquietante, mas a grande arte é inquietante. Uma das coisas mais remuneradoras de ler ou ouvir música é essa inquietação vital que sentimos por estarmos perante algo que está conversando com o mais íntimo de nós. E que tantas vezes tentamos esconder.
António Lobo Antunes
António Lobo Antunes

No meio é que está a virtude. Um milímetro a cima e já estaríamos mais para norte, um milímetro abaixo e já estaríamos mais para sul. Exactamente ao centro do rectângulo do país. É aí que o centro geodésico se situa.
Foi aí que se reuniram as melhores pessoas do mundo. Quanta bondade, amor e gratidão houve naquele espaço este fim-de-semana! Parece que rebentou as paredes e que uma bolha de fraternidade começou a alastrar...
Tinha uma miríade de fãs. As que lhe ligavam, lhe mandavam cartas e flores, gritavam o seu nome todos os meses. As que lhe ligavam, lhe mandavam cartas e flores, gritavam o seu nome todas as semanas. As que lhe ligavam, lhe mandavam cartas e flores, gritavam o seu nome todos os dias.
As fãs foram crescendo de número e quanto mais tinha, mais arranjava. Parecia que elas nasciam do pó, da luz, da escuridão, das esquinas. Mesmo não sabendo da existência umas das outras, deviam pressentir por sinais de fumo quando novos lotes de fãs chegavam, e nessas alturas cada uma delas (das antigas) tornava-se uma fanzinha mais encarniçada.
Um dia decidiu: não posso viver mais assim. Já não tinha espaço para respirar, para se mover.
Uma fã insultou-o aos gritos:
- Já é a décima quarta vez! A décima quarta vez que te ligo esta semana para jantar e tu... nada!
Não sabia ela que havia quem estivesse há três anos a tentar marcar com ele um simples café.
Depois de tomada a decisão do corte das fãs, priorizou:
- Doravante, só vou atender a quem me ligar mais de sessenta e sete vezes num dia.
Ainda assim, o crivo era lasso e milhares de fanzinhas continuaram a colonizar-lhe o telefone.
Mudou de barreira:
- Só vou atender quem me ligar mais de cento e vinte e três vezes um dia; sendo que terá de deixar pelo menos uma mensagem oral a chorar.
Houve fãs que lhe ligaram duzentas vezes, simultaneamente deixando mensagens escritas, mas como faltava a do voice-mail... outro destino não poderiam ter tido: foram à vida.
Ele respeitava acima de tudo a persistência, a tenacidade de quem lutava pelos seus sonhos, a fidelidade. As fãs proscritas interpretaram precisamente o contrário:
- Quanto mais andamos atrás de ti, mais nos dás para trás.
As fãs foram crescendo de número e quanto mais tinha, mais arranjava. Parecia que elas nasciam do pó, da luz, da escuridão, das esquinas. Mesmo não sabendo da existência umas das outras, deviam pressentir por sinais de fumo quando novos lotes de fãs chegavam, e nessas alturas cada uma delas (das antigas) tornava-se uma fanzinha mais encarniçada.
Um dia decidiu: não posso viver mais assim. Já não tinha espaço para respirar, para se mover.
Uma fã insultou-o aos gritos:
- Já é a décima quarta vez! A décima quarta vez que te ligo esta semana para jantar e tu... nada!
Não sabia ela que havia quem estivesse há três anos a tentar marcar com ele um simples café.
Depois de tomada a decisão do corte das fãs, priorizou:
- Doravante, só vou atender a quem me ligar mais de sessenta e sete vezes num dia.
Ainda assim, o crivo era lasso e milhares de fanzinhas continuaram a colonizar-lhe o telefone.
Mudou de barreira:
- Só vou atender quem me ligar mais de cento e vinte e três vezes um dia; sendo que terá de deixar pelo menos uma mensagem oral a chorar.
Houve fãs que lhe ligaram duzentas vezes, simultaneamente deixando mensagens escritas, mas como faltava a do voice-mail... outro destino não poderiam ter tido: foram à vida.
Ele respeitava acima de tudo a persistência, a tenacidade de quem lutava pelos seus sonhos, a fidelidade. As fãs proscritas interpretaram precisamente o contrário:
- Quanto mais andamos atrás de ti, mais nos dás para trás.
segunda-feira, agosto 24, 2009
Algumas pessoas dizem-me:
- Angel, não percebo como preferes o PCP ao Bloco. Tu és claramente um gajo bloquista.
(assim como se espantam por eu não adorar o Tim Burton, eu que tenho tudo que ver com ele)
Bem sei que o Bloco é mais moderno, bem sei que o Bloco é mais progressista ao nível dos costumes, bem sei que os seus líderes são melhores oradores, bem sei que o PCP sustentou e sustenta ditaduras inomináveis.
Mas os líderes do bloco são inexcedivelmente arrogantes. Não querem servir outra coisa que não o seu Ego. Não têm compromissos de poder. São contra sem serem a favor. Não querem transformar, querem destruir.(Inegavelmente, o PCP é mais obreirista.) Não apresentam ideologia. Não apresentam propostas de aplicação nacional. Muitos deles não têm qualquer coluna vertebral. Conheço bloquistas das cúpulas que são fundamentalistas anti-norte-americanos e depois trabalham na comunicação institucional da Mc´Donalds. Que são tiranos autênticos no mercado de trabalho. Que falam das realidades da pobreza e da exclusão sem terem a mínima noção do que falam.
- Angel, não percebo como preferes o PCP ao Bloco. Tu és claramente um gajo bloquista.
(assim como se espantam por eu não adorar o Tim Burton, eu que tenho tudo que ver com ele)
Bem sei que o Bloco é mais moderno, bem sei que o Bloco é mais progressista ao nível dos costumes, bem sei que os seus líderes são melhores oradores, bem sei que o PCP sustentou e sustenta ditaduras inomináveis.
Mas os líderes do bloco são inexcedivelmente arrogantes. Não querem servir outra coisa que não o seu Ego. Não têm compromissos de poder. São contra sem serem a favor. Não querem transformar, querem destruir.(Inegavelmente, o PCP é mais obreirista.) Não apresentam ideologia. Não apresentam propostas de aplicação nacional. Muitos deles não têm qualquer coluna vertebral. Conheço bloquistas das cúpulas que são fundamentalistas anti-norte-americanos e depois trabalham na comunicação institucional da Mc´Donalds. Que são tiranos autênticos no mercado de trabalho. Que falam das realidades da pobreza e da exclusão sem terem a mínima noção do que falam.
O que é gostar mais ou menos? Não sei.
Outro dia, alguém me perguntava se gostava de Morphine.
- Mais ou menos.
É estranho, mas não há muitas outras coisas (digo coisas para abranger tudo, pessoas, livros, filmes, bandas de música) de que goste mais ou menos.
Mas o que é gostar mais ou menos? Uma média ponderada de músicas que se gosta e de outras de que não gosta.
Mas no caso dos Morphine é mesmo gostar mais ou menos de quase todas as músicas. Que estranho.
E há outro objecto artístico com o qual tenho uma relação de mais ou menos. Mas diferente. É um filme que adoro. É que um filme que detesto.
Dogville. Uma história excepcional. Um formar de filme peculiar e brilhante. Única. Um diálogo final de antologia.
Um filme-tédio-absoluto. Um teatro travestido de filme. Um falhanço colossal. Uma claustrofobia doentia.
Outro dia, alguém me perguntava se gostava de Morphine.
- Mais ou menos.
É estranho, mas não há muitas outras coisas (digo coisas para abranger tudo, pessoas, livros, filmes, bandas de música) de que goste mais ou menos.
Mas o que é gostar mais ou menos? Uma média ponderada de músicas que se gosta e de outras de que não gosta.
Mas no caso dos Morphine é mesmo gostar mais ou menos de quase todas as músicas. Que estranho.
E há outro objecto artístico com o qual tenho uma relação de mais ou menos. Mas diferente. É um filme que adoro. É que um filme que detesto.
Dogville. Uma história excepcional. Um formar de filme peculiar e brilhante. Única. Um diálogo final de antologia.
Um filme-tédio-absoluto. Um teatro travestido de filme. Um falhanço colossal. Uma claustrofobia doentia.
Diversos pensadores salientaram que o esquerdismo é uma espécie de religião. O esquerdismo não é uma religião no sentido estrito, porque a doutrina esquerdista não postula a existência de qualquer ser sobrenatural. Mas para a esquerda, o esquerdismo psicológico desempenha um papel muito similar àquele que a religião desempenha para algumas pessoas. O esquerdista tem de acreditar no esquerdismo, facto que exerce um papel essencial na sua psique. Suas crenças não são facilmente modificadas pela lógica ou pelos factos. Ele tem uma profunda convicção de que o esquerdismo é moralmente Correto, com um capital histórico Correto, e que ele tem não apenas o direito, mas o dever moral de impor o esquerdismo a todas as pessoas.
Manifesto do Unabomber
Manifesto do Unabomber
domingo, agosto 23, 2009
As circunstâncias entre as quais você vive determinam sua reputação. A verdade em que você acredita determina seu caráter. A reputação é o que acham que você é. O caráter é o que você realmente é... A reputação é o que você tem quando chega a uma comunidade nova. O caráter é o que você tem quando vai embora... A reputação é feita em um momento. O caráter é construído em uma vida inteira... A reputação torna você rico ou pobre. O caráter torna você feliz ou infeliz... A reputação é o que os homens dizem de você junto à sua sepultura. O caráter é o que os anjos dizem de você diante de Deus.
Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
O mistério do cérebro
dos portugueses
Parece que o cérebro dos portugueses surpreende cientistas. A tal ponto que investigadores das universidades de Coimbra, Aveiro, Porto e Minho vão debruçar-se sobre esse órgão misterioso, vistoriando, com tenaz denodo e um pouco de apreensão, o que nos faz assim. Eis um empreendimento difícil, por avançar em terreno fértil de interpretações. É inumerável a lista de obras de todos os géneros e ramos que têm vasculhado a idiossincrasia do indígena nascido cá no brejo. Não se chegou a conclusão alguma. O português escapa-se como enguia ao catálogo, correspondendo, desse modo, às dificuldades erguidas a todos os que procuram desvendar o que se passa naquela inaudita massa cinzenta.
"O cérebro é o génesis", proclamou Jung. "Mas o que domina a vida é o sexo", afirmou Freud. Afinal, quem dá ordens? Citei dois; e coloque lá mais este, que, como os outros, dá para todas as circunstâncias, quando precisamos de muleta: Fernando Pessoa. Aí vai: "O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir (…) É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado".
Afinal, em que ficamos? Cabeça, sexo ou fadistice?
Um facto é incontroverso: cada vez somos mais ignorantes, cada vez somos mais atraídos para os alçapões do facilitismo, cada vez somos mais afastados de estudar, de reflectir, de analisar e, por decorrência, impedidos de decidir bem. "Como nação estamos condenados", disse-me, há anos, o prof. dr. Oliveira Marques, durante uma entrevista para a SIC. A terrível afirmação não obteve eco na Imprensa. O que encontra repercussão na Imprensa são futilidades da política, discussões filosóficas acerca de futebol, e aquelas parvoeiras sobre a "popularidade" do Sócrates, sem se indagar, cientificamente, a natureza específica das "sondagens".
O que se passa na estimável cabeça portuguesa é que não a usamos porque não a sabemos usar, e não a sabemos usar porque a isso não fomos instigados - pelo contrário. Tudo se opôs a que repelíssemos a servidão. A partir de Dom João III (o tal de procedeu ao desenvolvimento das universidades e, depois, pediu ao Papa a purificadora labareda da Inquisição) até aos dias "democráticos" de hoje, sem esquecer o querido Salazar, estivemos entregues a conclaves de malandros que acumulavam a patifaria com comovente inépcia. Dir-se-á: mas houve, e há, excepções. Em desacordo. Quem se cumplicia com a regra da infâmia é tão biltre quanto os que a estabelecem.
Sabe-se: a ignorância é destemida. E espalhou-se, endemicamente, a todos os sectores da sociedade. Há "escritores" manifestamente desconhecedores do significado de elipses, elisões, aliterações, cacófatos; de que se pode obter a concordância com o nome predicativo do sujeito e também não sabem o valor do nome predicativo do sujeito. Tropeçam na preposição e estatelam-se nos fonemas, com divertimento e galhofa. Há jornalistas que o não são, nem nunca o serão à força de o quererem ser. Plagiadores, também os há. Não só de temas: de frases, de locuções inteiras. Conheço alguns; a outros, ferrei em público. As escaramuças com a conjugação dos tempos do verbo haver transformaram-se num conflito armado. O desconhecimento de História, de Literatura, de Cinema, de Teatro, de Artes Plásticas, de Ciências, de Geografia, de Gramática, atinge níveis assustadores.
Perante este cenário, não se estranha que, na TVI, um programa, "A Bela e o Mestre", seja uma desgraça monumental. O "apresentador", esse, revela-se o mimetismo da imbecilidade galopante. Carrega no riso, soletra dificultosamente pequenas frases, formula horrores convencido de que faz filigranas. As raparigas que lá aparecem expõem alegremente as coxas e apresentam currículos profissionais adequados às capacidades. Boas de perna, más de meninge. No "Diário de Notícias", Fernanda Câncio, com inclemente crueldade, caustica as oito meninas, subordinando-as a este título medonho: "Nascidas para Ignorar".
Realmente, as meninas são fragorosamente ignaras. Riem muito e exteriorizam as suas pequeninas ambições trocando a parda chatice do espírito pela jubilosa tentação das pernas e dos seios. O "apresentador" demonstra alucinante contentamento, facilmente explicável: os tolejos delas constituem a imagem devolvida da sua pessoal cretinice.
Estas manifestações de debilidade mental pouco ou nada me espantam. Gerações de matóides, sucederam-se a gerações de mentecaptos. O País foi assaltado por levas e levas de gente inepta, e não só nos Governos consecutivos. O apelo aos mais rasteiros instintos chegou, até, a amarinhar pela RTP, onde alguns dos mais tremendos "formatos" tiveram calorosa guarida. Os responsáveis dessa miséria continuam impunes. A dança dos directores de jornais não é de hoje. Logo a seguir a Abril, os Governos colocaram pessoas da sua confiança na Imprensa, na Rádio e na Televisão estatal. Foi o que se viu: sargentos políticos converteram a criatividade, o talento, uma certa dose de anarquia, comum às grandes Redacções, numa ordenança burocrática, sob o império do servilismo. Todos os partidos, todos, são culpados de manobrismo e manipulação. Consoante a valsa dos partidos, assim se bailava nos postos directivos e afins. Não se inquiria sobre o talento do recém-vindo; pedia-se-lhe o cartão do partido. Houve um local que chegou a registar sessenta "chefes" na prateleira.
Aquele desgraçado "A Bela e o Mestre" reflecte um País em colapso. E o colapso é de natureza cultural e não, exclusivamente, de ordem económica, como pretendem fazer-nos crer. O amolecimento moral dos portugueses só é proveitoso para o grupo possidente. A crítica ao poder deixou de existir. O que se combate é o Governo, ou os Governos, mesmo assim com a subtileza dos que esperam, um dia destes, ser beneficiados com sinecuras. O poder deixou de estar nas mãos dos Governos. Quem manda são os grandes grupos económicos. Basta reparar nos governantes que estiveram, estão e irão, certamente, estar nas grandes empresas privadas: banca, seguros, energia, saúde, educação. A análise do "sistema" ausentou-se dos media. E aqueles que ousam beliscar, ao de leve, o corpo coriáceo desse "sistema" pagam caro a pessoal exigência de rigor e de honestidade.
Dilectos: podem crer que sei do que falo. E, às vezes, interrogo-me: até quando?
Baptista-Bastos
Sociedade cada vez mais egoísta? Notícias de sinal contrário...
Mulheres e universitários são a maioria. Mas sobe o número de jovens adultos que largam o emprego para ajudar num país distante.
Universitários, reformados e jovens adultos, ainda sem emprego ou que tiram licença sem vencimento. E também muitos casais novos que, antes de constituírem família, lançam-se numa experiência missionária. São cada vez mais os voluntários portugueses em missão no estrangeiro. Este ano foram 381, mais 98 do que em 2008.
Além da mensagem cristã, na bagagem levam tempo e sabedoria, essenciais a um terceiro mundo em desenvolvimento. Na volta trazem o coração cheio, o sentimento de dever cumprido, e uma lição comum: a felicidade, afinal, passa menos pelo conforto e mais pela disponibilidade ao próximo.
O número de missionários tem vindo a crescer mas este ano a subida foi quase de 40%. A maioria são mulheres e universitários mas há também cada vez mais adultos que largam o emprego, pedindo licença sem vencimento, ou despedindo-se. Entre esses estão já 29%.
Ana Patrícia Fonseca, da Fundação Evangelização e Cultura, explica o fenómeno pelo contágio. "Nos últimos 20 anos, partiram três mil missionários. Quando chegam, acabam por entusiasmar outros e gera-se um efeito bola de neve", conta a jovem de 31 anos, também ela protagonista de uma missão no Brasil, já lá vão sete anos.
A especificidade da missão passa pelas necessidades locais e pelos projectos de cada entidade, seja uma organização não governamental, paróquia, ou grupo universitário. As principais áreas de acção são educação, saúde, educação para a saúde e acção social.
"Vão integrar projectos que estão no terreno e levam tarefas específicas", diz Ana Patrícia Fonseca, salientando a importância da formação e das congregações religiosas que, a viver nas comunidades há muitos anos, fazem a ponte entre quem chega e quem está.
Mesmo que permaneçam por um período curto - a maioria vai entre 15 dias a seis meses -, acabam por deixar um contributo, continuado pelos voluntários que chegam depois. Muitos, deslumbrados com a experiência, acabam por se alistar outra vez e regressar.
Como são organizações ligadas à Igreja Católica, os voluntários fazem ainda trabalho pastoral, colaborando nas paróquias, animando jovens ou dando catequese.
Universitários, reformados e jovens adultos, ainda sem emprego ou que tiram licença sem vencimento. E também muitos casais novos que, antes de constituírem família, lançam-se numa experiência missionária. São cada vez mais os voluntários portugueses em missão no estrangeiro. Este ano foram 381, mais 98 do que em 2008.
Além da mensagem cristã, na bagagem levam tempo e sabedoria, essenciais a um terceiro mundo em desenvolvimento. Na volta trazem o coração cheio, o sentimento de dever cumprido, e uma lição comum: a felicidade, afinal, passa menos pelo conforto e mais pela disponibilidade ao próximo.
O número de missionários tem vindo a crescer mas este ano a subida foi quase de 40%. A maioria são mulheres e universitários mas há também cada vez mais adultos que largam o emprego, pedindo licença sem vencimento, ou despedindo-se. Entre esses estão já 29%.
Ana Patrícia Fonseca, da Fundação Evangelização e Cultura, explica o fenómeno pelo contágio. "Nos últimos 20 anos, partiram três mil missionários. Quando chegam, acabam por entusiasmar outros e gera-se um efeito bola de neve", conta a jovem de 31 anos, também ela protagonista de uma missão no Brasil, já lá vão sete anos.
A especificidade da missão passa pelas necessidades locais e pelos projectos de cada entidade, seja uma organização não governamental, paróquia, ou grupo universitário. As principais áreas de acção são educação, saúde, educação para a saúde e acção social.
"Vão integrar projectos que estão no terreno e levam tarefas específicas", diz Ana Patrícia Fonseca, salientando a importância da formação e das congregações religiosas que, a viver nas comunidades há muitos anos, fazem a ponte entre quem chega e quem está.
Mesmo que permaneçam por um período curto - a maioria vai entre 15 dias a seis meses -, acabam por deixar um contributo, continuado pelos voluntários que chegam depois. Muitos, deslumbrados com a experiência, acabam por se alistar outra vez e regressar.
Como são organizações ligadas à Igreja Católica, os voluntários fazem ainda trabalho pastoral, colaborando nas paróquias, animando jovens ou dando catequese.
sábado, agosto 22, 2009
Tiveram uma relação de namoro conturbado há quase cinquenta anos. Sim, há quase cinquenta anos.
Ela acabava e voltava, acabava e voltava, acabava e voltava. Um dia, ele fartou-se. E foi ele a acabar de vez.
Estiveram anos sem se verem.
Por circunstância da morte de um amigo, ele telefonou-lhe.
Ela desmaiou ao ouvir a sua voz.
Ela acabava e voltava, acabava e voltava, acabava e voltava. Um dia, ele fartou-se. E foi ele a acabar de vez.
Estiveram anos sem se verem.
Por circunstância da morte de um amigo, ele telefonou-lhe.
Ela desmaiou ao ouvir a sua voz.
Quando andava na escola primária, a minha professora disse algo que me marcou até hoje:
(consigo ver a sala, a camisa azul-marinho, o cabelo grisalho atado na nunca)
- Se lêssemos mais, respeitávamos mais o próximo, havia menos crimes, menos necessidade de polícia. Se lêssemos mais, dizíamos menos asneiras no trânsito.
- Professora, mas não se pode dizer asneiras? - alguém perguntou.
- O que não se pode é desrespeitar o Outro.
- Mas os livros ensinam a não fazer essas coisas?
- Não, mas quem lê os livros, acha essas coisas mais disparatadas.
(consigo ver a sala, a camisa azul-marinho, o cabelo grisalho atado na nunca)
- Se lêssemos mais, respeitávamos mais o próximo, havia menos crimes, menos necessidade de polícia. Se lêssemos mais, dizíamos menos asneiras no trânsito.
- Professora, mas não se pode dizer asneiras? - alguém perguntou.
- O que não se pode é desrespeitar o Outro.
- Mas os livros ensinam a não fazer essas coisas?
- Não, mas quem lê os livros, acha essas coisas mais disparatadas.
«Vivemos, agimos e reagimos em conjunto, mas sempre e em todas as circunstâncias estamos sós. [...] As sensações, sentimentos, percepções e fantasias são todos privados e, excepto por via dos símbolos e indirectamente, incomunicáveis. Podemos partilhar informação sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, todo o grupo humano é uma sociedade de universos insulares. [...] os lugares habitados pelos insanos e pelos excepcionalmente dotados são tão diferentes dos lugares habitados pelos homens e mulheres vulgares que [...] as palavras ditas não são esclarecedoras. As coisas e os acontecimentos a que os símbolos se referem pertencem a domínios da experiência que se excluem mutuamente.»
Aldous Huxley
Aldous Huxley
Mas o que é isso de que te queixas, pá?
Jean-Dominique Bauby era editor da revista Elle. Teve uma variante de AVC que o deixou totalmente imóvel, sem ouvir, sem falar, sem mexer um único músculo do corpo à excepção das pálpebras de um olho.
Desenvolveu com uma enfermeira paciente e generosa um sistema em que ela recitava as letras do abecedário:
a b c d e f g h i j
e ele piscava o olho na letra que queria.
Demorava dois minutos a ditar uma palavra. Assim - e só assim - conseguia comunicar com o mundo.
O mais incrível é que este ser que só mexia as pálpebras de um olho ditou com este sistema um livro: O Escafandro e a Borboleta (livro traduzido e editado em português, e filme também). Durante a noite, pensava no livro que durante o dia depois reproduzia pelos movimentos do olho. Escafandro é o objecto que metaforiza a sua prisão depois do derrame cerebral. Borboleta enquanto símbolo da liberdade.
Impressionante, não?
Não conheço uma história de força de vontade tão extraordinária.
Tantas vezes fazemos de ninharias obstáculos... Que vergonha, não é? Esta história que nos ilumine. O António Feio diz que, desde que tem o cancro, que só lhe apetece dizer quando as pessoas lhe contam os problemas do quotidiano:
- Mas o que é isso de que te queixas, pá?
Talvez a vitalidade - ou a força de vontade - seja algo desigualmente distribuído à nascença. E, por isso, Jean-Dominique Bauby, o homem que no mundo teve mais condições para ser infeliz (alguém que dê um exemplo real pior!!!), teve a sorte, dentro do azar, de ser alguém dotado de uma força de vontade colossal.
Ser forte é agir nos limites da nossa força. É esticá-la até ao máximo e ir expandido-a lentamente ao longo dos anos.
Como aqueles no ginásio que levantam 40 quilos e se julgam menos bravos do que os que levantam 60. Não, se eles estiverem no limite máximo da sua força, podem estar a ser mais fortes do que os que estão no limite médio da sua força...
Desenvolveu com uma enfermeira paciente e generosa um sistema em que ela recitava as letras do abecedário:
a b c d e f g h i j
e ele piscava o olho na letra que queria.
Demorava dois minutos a ditar uma palavra. Assim - e só assim - conseguia comunicar com o mundo.
O mais incrível é que este ser que só mexia as pálpebras de um olho ditou com este sistema um livro: O Escafandro e a Borboleta (livro traduzido e editado em português, e filme também). Durante a noite, pensava no livro que durante o dia depois reproduzia pelos movimentos do olho. Escafandro é o objecto que metaforiza a sua prisão depois do derrame cerebral. Borboleta enquanto símbolo da liberdade.
Impressionante, não?
Não conheço uma história de força de vontade tão extraordinária.
Tantas vezes fazemos de ninharias obstáculos... Que vergonha, não é? Esta história que nos ilumine. O António Feio diz que, desde que tem o cancro, que só lhe apetece dizer quando as pessoas lhe contam os problemas do quotidiano:
- Mas o que é isso de que te queixas, pá?
Talvez a vitalidade - ou a força de vontade - seja algo desigualmente distribuído à nascença. E, por isso, Jean-Dominique Bauby, o homem que no mundo teve mais condições para ser infeliz (alguém que dê um exemplo real pior!!!), teve a sorte, dentro do azar, de ser alguém dotado de uma força de vontade colossal.
Ser forte é agir nos limites da nossa força. É esticá-la até ao máximo e ir expandido-a lentamente ao longo dos anos.
Como aqueles no ginásio que levantam 40 quilos e se julgam menos bravos do que os que levantam 60. Não, se eles estiverem no limite máximo da sua força, podem estar a ser mais fortes do que os que estão no limite médio da sua força...
Raquel Strada diz que gosta da barriguinha nos homens e nas mulheres. Eu também. Não sei porquê. O Vinicius de Moraes também gostava (Receita de Mulher).
Uma amiga minha disse-me que se apaixonava pelos defeitos físicos: um nariz defeituoso, uma falha na voz...
Num livro de Graham Greene, uma personagem feminina apaixona-se por um homem que tinha uma terrível mancha no rosto. Apaixona-se primeiro pela mancha. Sente uma compaixão enorme por aquela mancha, pensa que ele tudo fará para a esconder, que vive com um opróbrio colado ao rosto - que deve sentir-se inferiorizado a ponto de não se sentir amável.
Oscar Wilde ia mais longe e dizia que as mulheres se apaixonavam pelo defeitos de um homem.
Uma amiga minha disse-me que se apaixonava pelos defeitos físicos: um nariz defeituoso, uma falha na voz...
Num livro de Graham Greene, uma personagem feminina apaixona-se por um homem que tinha uma terrível mancha no rosto. Apaixona-se primeiro pela mancha. Sente uma compaixão enorme por aquela mancha, pensa que ele tudo fará para a esconder, que vive com um opróbrio colado ao rosto - que deve sentir-se inferiorizado a ponto de não se sentir amável.
Oscar Wilde ia mais longe e dizia que as mulheres se apaixonavam pelo defeitos de um homem.
quinta-feira, agosto 20, 2009
quarta-feira, agosto 19, 2009
Os meus mestres
Buda e Cristo,
De todos os homens e mulheres, ninguém me inspira tanto como vocês. Num nível intermédio, o que vocês dizem é igual em muita coisa e diferente em pouca. Mas, num nível mais profundo, o que vocês dizem é igual. Há uma coisinha diferente, há, mas quanto ao comportamento humano, quanto ao seu móbil essencial - o amor - não há diferença alguma.
Nem sempre vos sigo, mas tento. Nem sempre tenho acções, palavras e pensamentos que vos façam sorrir, mas luto todos os dias para que vocês sejam o meu norte, e quando não a minha estrela, acabo por me arrepender sempre. Procuro sempre averiguar a qualidade das minhas acções à vossa luz, isto é, à luz do Outro, isto é, à luz do Amor.
Vocês fazem-me tão bem. Levantam-me os cantos dos lábios (a minha boca torna-se gigante) com umas cordas (de lado, puxando, puxando, umas cordas grossas e colossais) que vocês têm num sorriso do tamanho do Universo.
Angel
De todos os homens e mulheres, ninguém me inspira tanto como vocês. Num nível intermédio, o que vocês dizem é igual em muita coisa e diferente em pouca. Mas, num nível mais profundo, o que vocês dizem é igual. Há uma coisinha diferente, há, mas quanto ao comportamento humano, quanto ao seu móbil essencial - o amor - não há diferença alguma.
Nem sempre vos sigo, mas tento. Nem sempre tenho acções, palavras e pensamentos que vos façam sorrir, mas luto todos os dias para que vocês sejam o meu norte, e quando não a minha estrela, acabo por me arrepender sempre. Procuro sempre averiguar a qualidade das minhas acções à vossa luz, isto é, à luz do Outro, isto é, à luz do Amor.
Vocês fazem-me tão bem. Levantam-me os cantos dos lábios (a minha boca torna-se gigante) com umas cordas (de lado, puxando, puxando, umas cordas grossas e colossais) que vocês têm num sorriso do tamanho do Universo.
Angel
terça-feira, agosto 18, 2009
segunda-feira, agosto 17, 2009
Estava a ler a reportagem de um hippie que ainda é hippie, que persiste na sua vivência de hippie, desmaterializada e solidária.
Curiosíssima a sua filosofia: amar e fazer-se o que se quiser. Desde que se ame, explica, é tudo o que o Senhor quer. Tudo o resto são dogmas do Homem.
Sim, o hippie tornou-se um crente de há muito anos a esta parte.
Sempre achei que o anarquismo cristão seria a forma suprema de desenvolvimento do espírito humano e da sociedade.
Infelizmente, a esquerda libertária rejeitou, em grande parte, a Igreja; e a Igreja rejeitou, em grande parte, a essência do cristianismo.
Esquerda e Igreja andam de costas voltadas, mas é um erro, um erro fundamental. Cristo e um hippie, por exemplo, têm tanto em comum.
Este sobrevivente do Woodstock entendeu-o, assim como Agostinho da Silva, que foi catalogado na corrente de pensamento do Anarquismo Cristão (que rejeitou, como rejeitou todas as etiquetas que lhe quiseram colar).
Um espírito livre. Tal como o sobrevivente do Woodstock. Tal como Cristo.
Ama e faz literalmente o que quiseres.
Eis a essência da liberdade humana.
Curiosíssima a sua filosofia: amar e fazer-se o que se quiser. Desde que se ame, explica, é tudo o que o Senhor quer. Tudo o resto são dogmas do Homem.
Sim, o hippie tornou-se um crente de há muito anos a esta parte.
Sempre achei que o anarquismo cristão seria a forma suprema de desenvolvimento do espírito humano e da sociedade.
Infelizmente, a esquerda libertária rejeitou, em grande parte, a Igreja; e a Igreja rejeitou, em grande parte, a essência do cristianismo.
Esquerda e Igreja andam de costas voltadas, mas é um erro, um erro fundamental. Cristo e um hippie, por exemplo, têm tanto em comum.
Este sobrevivente do Woodstock entendeu-o, assim como Agostinho da Silva, que foi catalogado na corrente de pensamento do Anarquismo Cristão (que rejeitou, como rejeitou todas as etiquetas que lhe quiseram colar).
Um espírito livre. Tal como o sobrevivente do Woodstock. Tal como Cristo.
Ama e faz literalmente o que quiseres.
Eis a essência da liberdade humana.
Pode-te parecer estranho, mas há cinco pessoas-ideais que podes escolher. Cinco pulsões que te fazem inclinar para. Cinco personalidades. Por mais que te esforces, todas as outras são ramificações de uma destas cinco. Qual a que te move mais?
O Sábio
O Bom (ou generoso ou solidário)
O Belo
O Corajoso
O Poderoso
O Sábio
O Bom (ou generoso ou solidário)
O Belo
O Corajoso
O Poderoso
domingo, agosto 16, 2009
Os amigos de primeira, segunda, terceira, quarta e quinta linha contavam-lhe os seus segredos mais íntimos. «Só tu sabes disto», diziam-lhe. Foi acumulando segredos sobre segredos sobre segredos.
Porque é que as pessoas, mesmo as que não eram muito próximas, depositavam em si tanta confiança. Bom, pensou, é que eu sei mesmo guardar um segredo, e talvez isso transpareça para o Outro.
Mesmo que se chateasse com alguém, mesmo que lhe fizessem mal, nunca revelava os segredos.
Começou a ter uma janela para o mundo que cada vez lhe dava a conhecer uma realidade progressivamente maior. Era mais poderoso que o homem que estava à frente do maior serviço de informações secretas do mundo.
Um dia, cruzou os segredos todos - e vislumbrou a - foi fulminado pela - Verdade Maior.
- Ah!!!!!!!!!!!!!!!
Porque é que as pessoas, mesmo as que não eram muito próximas, depositavam em si tanta confiança. Bom, pensou, é que eu sei mesmo guardar um segredo, e talvez isso transpareça para o Outro.
Mesmo que se chateasse com alguém, mesmo que lhe fizessem mal, nunca revelava os segredos.
Começou a ter uma janela para o mundo que cada vez lhe dava a conhecer uma realidade progressivamente maior. Era mais poderoso que o homem que estava à frente do maior serviço de informações secretas do mundo.
Um dia, cruzou os segredos todos - e vislumbrou a - foi fulminado pela - Verdade Maior.
- Ah!!!!!!!!!!!!!!!
Há pessoas que são esbanjadoras com as palavras (alguma vez terão pensado: será que os outros me ouvem?). Há as moderadas, as poupadas, as gastadoras. Outras somíticas.
Era uma pessoa (partiu o ano passado) a quem não ouvia dizer uma palavra supérflua. Era um exagero. De rigor ou timidez (inclino-me mais para a segunda). Mas, talvez por isso, quando falava, parecia que erguia um fogacho. Iluminava subitamente aquela palavra. Deixava todos suspensos, como se da sua boca expelisse um maravilhoso fogo branco. Não desperdiçava uma palavra. Sabia, talvez, que dizia muito dizendo pouco - das coisas mais difíceis de se fazer com as palavras.
Rememoro tudo o que ele dizia. Encontro lucidez em quase todas as palavras que deixou cair.
Era uma pessoa (partiu o ano passado) a quem não ouvia dizer uma palavra supérflua. Era um exagero. De rigor ou timidez (inclino-me mais para a segunda). Mas, talvez por isso, quando falava, parecia que erguia um fogacho. Iluminava subitamente aquela palavra. Deixava todos suspensos, como se da sua boca expelisse um maravilhoso fogo branco. Não desperdiçava uma palavra. Sabia, talvez, que dizia muito dizendo pouco - das coisas mais difíceis de se fazer com as palavras.
Rememoro tudo o que ele dizia. Encontro lucidez em quase todas as palavras que deixou cair.
- Na costa, eu tenho lá casa, está muito mais calor do que aqui. São doze graus de diferença desde que entrei no carro até chegar aqui.
- Pois é, pois é, eu também tenho lá casa.
- A minha é seguindo até ao UBI, indo sempre em frente.
- A minha também.
- Eu gosto daquela zona.
- Eu também.
- A minha casa é na Praceta João Marques.
- AH!!! A minha também!
- Que giro, já nos devemos ter cruzado.
- É o número quatro.
- A minha também!
- Moro no 3.º direito.
- Não acredito.
- Então?
- Moro no 3.º esquerdo.
- Pois é, pois é, eu também tenho lá casa.
- A minha é seguindo até ao UBI, indo sempre em frente.
- A minha também.
- Eu gosto daquela zona.
- Eu também.
- A minha casa é na Praceta João Marques.
- AH!!! A minha também!
- Que giro, já nos devemos ter cruzado.
- É o número quatro.
- A minha também!
- Moro no 3.º direito.
- Não acredito.
- Então?
- Moro no 3.º esquerdo.
Nós outros
Na nossa vida nunca nada esteve certo.
Certo como destinado a nós próprios.
Nada na nossa vida se consumou profundamente.
O triunfo, a perfeição,
Não, não, isso não nos é concedido.
Mas agarrar nas mãos o vazio,
Caçar a lebre, deparar com o urso,
Corajosamente atacar o urso, tocar no rinoceronte.
Ficar despido de tudo, suando o seu próprio coração.
Atirados para o deserto, obrigados a fazer rebanho,
Um osso aqui, um dente acolá, um corno além.
Isto sim, isto é nosso.
Dizer que nascem neste momento as sete vacas gordas.
Nascem, mas não somos nós quem as há-de ordenhar.
Acabaram de nascer os quatro cavalos alados.
Nasceram. Só pensam em voar.
É difícil refreá-los. Irão quase até aos astros, estes cavalos alados.
Mas não somos nós quem os cavalgará.
Caminhos de toupeira, isso é nosso, caminhos de ralo.
Chegámos às portas da Cidade.
Da Cidade-que-interessa.
Não há dúvidas, cá estamos. É ela. É mesmo ela.
Quanto penámos para chegar… para partir.
Arrancar-se lentamente, clandestinamente, arrancar os
braços que ficaram lá atrás…
Mas não seremos nós quem há-de entrar.
Serão jovens com muita pinta, jovens muito jovens,
muito violentos, muito orgulhosos, sim,
esses é que hão-de entrar.
Mas nós, não, nós não entraremos.
Não passaremos daqui. Stop. Nem mais um passo.
Entrar, cantar, triunfar, não, não, isso não é nosso.
Henri Michaux
Na nossa vida nunca nada esteve certo.
Certo como destinado a nós próprios.
Nada na nossa vida se consumou profundamente.
O triunfo, a perfeição,
Não, não, isso não nos é concedido.
Mas agarrar nas mãos o vazio,
Caçar a lebre, deparar com o urso,
Corajosamente atacar o urso, tocar no rinoceronte.
Ficar despido de tudo, suando o seu próprio coração.
Atirados para o deserto, obrigados a fazer rebanho,
Um osso aqui, um dente acolá, um corno além.
Isto sim, isto é nosso.
Dizer que nascem neste momento as sete vacas gordas.
Nascem, mas não somos nós quem as há-de ordenhar.
Acabaram de nascer os quatro cavalos alados.
Nasceram. Só pensam em voar.
É difícil refreá-los. Irão quase até aos astros, estes cavalos alados.
Mas não somos nós quem os cavalgará.
Caminhos de toupeira, isso é nosso, caminhos de ralo.
Chegámos às portas da Cidade.
Da Cidade-que-interessa.
Não há dúvidas, cá estamos. É ela. É mesmo ela.
Quanto penámos para chegar… para partir.
Arrancar-se lentamente, clandestinamente, arrancar os
braços que ficaram lá atrás…
Mas não seremos nós quem há-de entrar.
Serão jovens com muita pinta, jovens muito jovens,
muito violentos, muito orgulhosos, sim,
esses é que hão-de entrar.
Mas nós, não, nós não entraremos.
Não passaremos daqui. Stop. Nem mais um passo.
Entrar, cantar, triunfar, não, não, isso não é nosso.
Henri Michaux
sábado, agosto 15, 2009
Ouço tantas vezes alguém dizer:
- Que burro
sobre coisas que eu faço e penso, distraidamente (mas só às vezes)
Sou burro nesta sociedade, sou-o, sem dúvida.
Num filme, tantas vezes não percebe o óbvio. Quando abrem o motor de um carro, aquilo persiste para mim enigmático e insondável depois das 1001 explicações de mecânica.
O elevador estava avariado. Carregavam para o quarto e saía no terceiro. Carregavam no décimo e saía no nono.
Eu disse:
- Pois, então não vai chegar ao rés-do-chão.
- Vai, se carregar na cave.
A lógica do -1 pareceu-me genial.
Não chegava lá.
Sou burro. Simplesmente gosto de me camuflar num cabeça-nas-nuvens.
- Que burro
sobre coisas que eu faço e penso, distraidamente (mas só às vezes)
Sou burro nesta sociedade, sou-o, sem dúvida.
Num filme, tantas vezes não percebe o óbvio. Quando abrem o motor de um carro, aquilo persiste para mim enigmático e insondável depois das 1001 explicações de mecânica.
O elevador estava avariado. Carregavam para o quarto e saía no terceiro. Carregavam no décimo e saía no nono.
Eu disse:
- Pois, então não vai chegar ao rés-do-chão.
- Vai, se carregar na cave.
A lógica do -1 pareceu-me genial.
Não chegava lá.
Sou burro. Simplesmente gosto de me camuflar num cabeça-nas-nuvens.
Não gosto dos cartazes do PP que por aí andam.
Porque é que os criminosos têm mais direitos do que os polícias?
Será que quem não quer trabalhar tem direito ao Rendimento Mínimo Garantido?
(TÊM, MESMO QUE NÃO QUEIRAM, TEM, NINGUÉM DEVE SER PRIVADO DA SATISFAÇÃO DAS SUAS NECESSIDADES BÁSICAS.)
Curioso este segundo cartaz: na União Soviética, dizia-se o mesmo. «Quem não trabalha, não come.»
Só que os comunistas - que consideravam os sem-abrigo os parasitas sociais e inimigos do Povo -, no quadro do capitalismo, falam de vítimas, de trucidados do sistema voraz e imperialista. Mas quando persistem no comunismo os sem-abrigo, os pedintes, as prostitutas - aí, eles são os sistemas anti-sociais, nocivos, e que precisam de ser presos e removidos da paisagem.
O comunismo e o nazismo têm pontos comuns para quem olha de forma imparcial para as ideologias políticas.
Porque é que os criminosos têm mais direitos do que os polícias?
Será que quem não quer trabalhar tem direito ao Rendimento Mínimo Garantido?
(TÊM, MESMO QUE NÃO QUEIRAM, TEM, NINGUÉM DEVE SER PRIVADO DA SATISFAÇÃO DAS SUAS NECESSIDADES BÁSICAS.)
Curioso este segundo cartaz: na União Soviética, dizia-se o mesmo. «Quem não trabalha, não come.»
Só que os comunistas - que consideravam os sem-abrigo os parasitas sociais e inimigos do Povo -, no quadro do capitalismo, falam de vítimas, de trucidados do sistema voraz e imperialista. Mas quando persistem no comunismo os sem-abrigo, os pedintes, as prostitutas - aí, eles são os sistemas anti-sociais, nocivos, e que precisam de ser presos e removidos da paisagem.
O comunismo e o nazismo têm pontos comuns para quem olha de forma imparcial para as ideologias políticas.
let's take a trip
me and you
[...]
get to finally
get to finally
get to finally
get to know each other
just to be alone with you
just to be alone
just to be alone with me
somewhere there's no distractive
breeze of information
leaking through the windows
dripping from the trees
somewhere there's no earthquakes
no other people's anxious questions
no nervous wrecks
going down
no nervous wrecks
going down
let's take a trip together
Morphine
me and you
[...]
get to finally
get to finally
get to finally
get to know each other
just to be alone with you
just to be alone
just to be alone with me
somewhere there's no distractive
breeze of information
leaking through the windows
dripping from the trees
somewhere there's no earthquakes
no other people's anxious questions
no nervous wrecks
going down
no nervous wrecks
going down
let's take a trip together
Morphine
sexta-feira, agosto 14, 2009
Percorrendo uma rua em Lisboa, ao meu lado, um sujeito escanzelado, tão-imundo-que-parecia-bronzeado, tão-estragado-que-parecia-velho, jazia no chão, sob um pedação de cartão, dormindo na sua casa. As roupas, puídas e sujas, abarcavam um corpo muito maior do que aquele para que foram concebidas. Talvez o seu utilizador tivesse emagrecido.
Olhei e a perna dele era tão fininha nas calças enfoladas que se divisava a perna toda. Não tinha cuecas. Via-se um testículo enrugado e encardido - um testículo preto, imagine-se.
Chama-se a isto «democracia»?
Olhei e a perna dele era tão fininha nas calças enfoladas que se divisava a perna toda. Não tinha cuecas. Via-se um testículo enrugado e encardido - um testículo preto, imagine-se.
Chama-se a isto «democracia»?
Já te aconteceu formares uma ideia de alguém, muito concreta numa determinada faceta, e depois a pessoa desabrochar em gestos e atitudes nos antípodas de tal faceta? É tão estranho, não é? Não consegues remover a imagem inicial e não consegues assentar a nova imagem em parte alguma? Há uma pedra enorme que não consegue sair para vagar um lugar de modo que o vazio possa ser preenchido?
quinta-feira, agosto 13, 2009
- Sou igual a qualquer um. Eu só me sinto bem a exercer a minha cidadania e a não recolher um cêntimo que não seja meu. Só ajudando o meu país e a minha cidade me sinto bem. Outros só se sentem bem através da conquista de poder ou dinheiro; eu não o faço porque não é daí que advém a minha felicidade. Ele advém do sentimento de ser útil. Somos iguais, não os julgo nem censuro. Se, ao invés, eles fossem felizes por terem uma conduta cívica honesta e solidário, fá-lo-iam sem o menor custo!
Não interessa como se passou a manhã nem interessa como se passou a tarde. Somos nós que decidimos como foi o dia.
Em vez de ser o dia em que fomos a Lisboa tratar de coisas chatas, pode ser o dia em que almoçámos lindamente na Gôndola com a nossa sobrinha Catarina.
Em vez de ser o dia em que levámos com o calor da cidade e dos prédios e dos carros, pode ser o dia em que lanchámos, no Palácio de Seteais, um jarro enorme de limonada, feita com limões dos limoeiros à nossa frente, mais uma tijela de amêndoas torradas.
Em vez de ser o dia dos nervos e dos medos pode ser o dia em que jantámos cedo na Praia das Maçãs, duas carpas fritas para nós, carpas bonitas, com feijão verde verdinho, daquele que nunca mais vai haver.
Somos nós que mandamos na definição do dia. Ninguém nos pode tirar esse poder. Podem tentar definir-nos o dia, para mais escuro ou para mais luzidio, mas nós não temos de aceitar essa definição.
Somos nós que escolhemos as partes do dia com que vamos defini-lo. Podemos ser frívolos, se quisermos. Podemos definir o dia em que soubemos que a jovem Rosinha - que é a gata de Seteais - teve uma ninhada e que todos se encontram bem, graças a Deus.
Em vez de ser o dia que eu fui ao dentista, pode ser o dia em que fiz as primeiras filmagens da minha mulher - a rir-se e a fazer gestos encantadores, mas obrigatórios de "não me filmes!" no meu iPhone novinho.
Somos nós que decidimos o dia que foi. E nós decidimos que foi assim.
Miguel Esteves Cardoso
Em vez de ser o dia em que fomos a Lisboa tratar de coisas chatas, pode ser o dia em que almoçámos lindamente na Gôndola com a nossa sobrinha Catarina.
Em vez de ser o dia em que levámos com o calor da cidade e dos prédios e dos carros, pode ser o dia em que lanchámos, no Palácio de Seteais, um jarro enorme de limonada, feita com limões dos limoeiros à nossa frente, mais uma tijela de amêndoas torradas.
Em vez de ser o dia dos nervos e dos medos pode ser o dia em que jantámos cedo na Praia das Maçãs, duas carpas fritas para nós, carpas bonitas, com feijão verde verdinho, daquele que nunca mais vai haver.
Somos nós que mandamos na definição do dia. Ninguém nos pode tirar esse poder. Podem tentar definir-nos o dia, para mais escuro ou para mais luzidio, mas nós não temos de aceitar essa definição.
Somos nós que escolhemos as partes do dia com que vamos defini-lo. Podemos ser frívolos, se quisermos. Podemos definir o dia em que soubemos que a jovem Rosinha - que é a gata de Seteais - teve uma ninhada e que todos se encontram bem, graças a Deus.
Em vez de ser o dia que eu fui ao dentista, pode ser o dia em que fiz as primeiras filmagens da minha mulher - a rir-se e a fazer gestos encantadores, mas obrigatórios de "não me filmes!" no meu iPhone novinho.
Somos nós que decidimos o dia que foi. E nós decidimos que foi assim.
Miguel Esteves Cardoso
quarta-feira, agosto 12, 2009
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Álvaro de Campos
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Álvaro de Campos
O Público noticia que os desempregados sem direito a subsídio de desemprego atingiram os 138 mil.
Há quem entenda que o subsídio de desemprego tem o acesso demasiado facilitado. Prefiro uma situação em que cem pessoas aufiram indevidamente dele do que outra em que uma só não aufira dele reunindo todas as condições para...
Assim como prefiro um país com mil culpados inocentados a um que tenha um inocente condenado.
Há quem entenda que o subsídio de desemprego tem o acesso demasiado facilitado. Prefiro uma situação em que cem pessoas aufiram indevidamente dele do que outra em que uma só não aufira dele reunindo todas as condições para...
Assim como prefiro um país com mil culpados inocentados a um que tenha um inocente condenado.
terça-feira, agosto 11, 2009
Os livros mudam dentro de nós. Eu tinha uma paixão assolapada por Kafka. São tantas as razões que me levaram a admirá-lo. Nem vale a pena desfiar o novelo...
Hoje, depois de toda a sua obra lida e relida, mastigada dentro de mim, sinto que há livros cujas páginas me parecem espelhos melhores da natureza humana. Falta perfume, poesia, beleza, gosto pelo mundo e pelas pessoas ali.
O bom escritor é o que consegue reunir os dois hemisférios do cérebro em simultâneo - o da razão e das emoções, o da lógica e da criatividade.
Kafka, tal como Pessoa, teve uma vida emocional pobre, faltou-lhe o coração na vida e na escrita. Faltou-lhe a Vida. Acho que Kafka e Pessoa não compreendia bem as pessoas, de tão imersos estarem dentro de si.
Hoje, depois de toda a sua obra lida e relida, mastigada dentro de mim, sinto que há livros cujas páginas me parecem espelhos melhores da natureza humana. Falta perfume, poesia, beleza, gosto pelo mundo e pelas pessoas ali.
O bom escritor é o que consegue reunir os dois hemisférios do cérebro em simultâneo - o da razão e das emoções, o da lógica e da criatividade.
Kafka, tal como Pessoa, teve uma vida emocional pobre, faltou-lhe o coração na vida e na escrita. Faltou-lhe a Vida. Acho que Kafka e Pessoa não compreendia bem as pessoas, de tão imersos estarem dentro de si.
Uma questão de atmosfera
Ontem alguém me diz que leu A Morte de Ivan Ilitch, «uma história que é o mais simples que há», e que o livro a explicou a ela, lendo-se a si nele.
Céline disse que um escritor não é um contador de histórias. «Histórias, ouvimo-las todos os dias. Todos têm histórias para contar, desde a senhora da praça ao taxista. Todos. Milhares de histórias, todos eles. Ser escritor é outra coisa.»
António Lobo Antunes diz que as grandes obras da literatura são histórias de uma linha, facílimas de criar.
Madame Bovary, a mulher que trai o marido, O Grande Gatsby, o homem que não consegue casar com a mulher que ama por não ter o dinheiro necessário, Romeu e Julieta, duas pessoas que não se podem casar por ódios familiares.
Virgílio Ferreira resumiu a questão, afirmando que o que importa não é a narrativa, mas a atmosfera.
Céline disse que um escritor não é um contador de histórias. «Histórias, ouvimo-las todos os dias. Todos têm histórias para contar, desde a senhora da praça ao taxista. Todos. Milhares de histórias, todos eles. Ser escritor é outra coisa.»
António Lobo Antunes diz que as grandes obras da literatura são histórias de uma linha, facílimas de criar.
Madame Bovary, a mulher que trai o marido, O Grande Gatsby, o homem que não consegue casar com a mulher que ama por não ter o dinheiro necessário, Romeu e Julieta, duas pessoas que não se podem casar por ódios familiares.
Virgílio Ferreira resumiu a questão, afirmando que o que importa não é a narrativa, mas a atmosfera.
Saramago apoiou Mário Soares à Presidência da República. Agora, apoia António Costa à Presidência da Câmara.
Nas últimas legislativas (ou europeias), já dissera o seu sentido de voto: em branco. Ora, explicava, se andava a pugnar para se votasse em branco - um elemento do sistema que permitia a sua auto-dissolução sem que nunca ninguém tivesse visto tal ovo de Colombo descoberto pela sua genialidade -, não poderia deixar de votar em branco.
Saramago escreveu recentemente um artigo em que diz que a esquerda (da qual, naturalmente, o PCP fará parte) «não faz puto ideia do mundo em que vive».
Qualquer outro militante da CDU que tivesse feito qualquer uma destas coisas, teria sido imediatamente expulso e anatemizado.
Saramago não.
O Nobel conta mesmo para os lados da Soeiro. Pesa. Como escreveu Orwell, todos os animais são iguais, mas há uns que são mais iguais do que outros...
Nas últimas legislativas (ou europeias), já dissera o seu sentido de voto: em branco. Ora, explicava, se andava a pugnar para se votasse em branco - um elemento do sistema que permitia a sua auto-dissolução sem que nunca ninguém tivesse visto tal ovo de Colombo descoberto pela sua genialidade -, não poderia deixar de votar em branco.
Saramago escreveu recentemente um artigo em que diz que a esquerda (da qual, naturalmente, o PCP fará parte) «não faz puto ideia do mundo em que vive».
Qualquer outro militante da CDU que tivesse feito qualquer uma destas coisas, teria sido imediatamente expulso e anatemizado.
Saramago não.
O Nobel conta mesmo para os lados da Soeiro. Pesa. Como escreveu Orwell, todos os animais são iguais, mas há uns que são mais iguais do que outros...
segunda-feira, agosto 10, 2009
Não-quero-ter-um-coração-de-manteiga
Começou por gritar:
- É paneleiri!... - e apontar para alguém.
- É paneleiri! Ele é paneleiri!!!
Depois, vi-o a ser violento, a puxar raparigas para dançar. Elas recusavam (excepto uma) e ele impunha-se fisicamente.
A certa altura, foi para o lugar do Disc Jockey anunciando «Quem toca agora, sou eu». Vi-o a gesticular com o DJ, aflito, até que foram lá falar com o energúmeno e removê-lo amigavelmente,
A seguir, deu um murro no balcão do bar e atirou uma cerveja fora.
Ninguém lhe fez nada. Ele era grande.
(Eu, o ser absolutamente pacífico, estava cheio de vontade de lhe partir a cara.)
A certa altura, estou encostado ao balcão. Ele aproxima-se. Estou preparado para ser incomodado. Estou preparado para ter de reagir.
Eis que ele... irrompe num pranto.
- Eu desde que tive o acidente que falhei em tudo na vida. Nunca fiz mais nada certo...
Chora, chora, chora, distribui abraços.
Levanta a t-shirt e mostra as marcas do acidente.
Chora, chora, chora.
Descubro que tem um olhar de menino.
Choro por dentro.
Detesto esta minha natureza. Porra, sou demasiado humano.
Da profunda raiva passei à profunda compaixão.
(Não me deixes ser assim, ajuda-me a ouvir menos os coitadinhos.)
- É paneleiri!... - e apontar para alguém.
- É paneleiri! Ele é paneleiri!!!
Depois, vi-o a ser violento, a puxar raparigas para dançar. Elas recusavam (excepto uma) e ele impunha-se fisicamente.
A certa altura, foi para o lugar do Disc Jockey anunciando «Quem toca agora, sou eu». Vi-o a gesticular com o DJ, aflito, até que foram lá falar com o energúmeno e removê-lo amigavelmente,
A seguir, deu um murro no balcão do bar e atirou uma cerveja fora.
Ninguém lhe fez nada. Ele era grande.
(Eu, o ser absolutamente pacífico, estava cheio de vontade de lhe partir a cara.)
A certa altura, estou encostado ao balcão. Ele aproxima-se. Estou preparado para ser incomodado. Estou preparado para ter de reagir.
Eis que ele... irrompe num pranto.
- Eu desde que tive o acidente que falhei em tudo na vida. Nunca fiz mais nada certo...
Chora, chora, chora, distribui abraços.
Levanta a t-shirt e mostra as marcas do acidente.
Chora, chora, chora.
Descubro que tem um olhar de menino.
Choro por dentro.
Detesto esta minha natureza. Porra, sou demasiado humano.
Da profunda raiva passei à profunda compaixão.
(Não me deixes ser assim, ajuda-me a ouvir menos os coitadinhos.)
sexta-feira, agosto 07, 2009
É um patrão curioso. Defende os direitos dos seus trabalhadores, luta sempre para que a mulher grávida não seja prejudicada e que os deficientes tenham rampas, mas não gosta de que os eles consigam os objectivos da sua luta por si - prefere sentir que o seu bem-estar é uma benesse sua, que só tem lugar devido à sua colossal magnanimidade. Adora sentir que tudo é um privilégio concedido por si.
Ainda assim, digo-vos: é um patrão claramente acima da média.
Ainda assim, digo-vos: é um patrão claramente acima da média.
- Ontem, fomos ao restaurante. Eu pedi a piza não-sei-quantas, mas fiz questão de dizer que não queria cogumelos. Sublinhei isso n vezes. A piza chegou... com bastantes cogumelos! Fiz um escarcéu. Acho que só assim é que as coisas evoluem. A complacência é o alimento das coisas mais monstruososas. Ele não... Quando a piza chega com os cogumelos só diz: «Por favor pedia-lhe que me tirassem os cogumelos, se possível.» Foge sempre do Conflito. Quer ser afável e doce com toda a gente. Parece que está sempre em dívida com o mundo todo. Por favor, por favor, com licença, desculpe. A diferença entre ele e eu é esta.
A arte de saber estar sozinho. Algo que os orientais sabem muito melhor do que os ocidentais. Precisamos de tantas regras de como agir socialmente e olvidamos o essencial.
Sem distracções sensoriais, sem ruído, sem pessoas, sem tecnologia, sem a mão do Homem presente na Natureza que me circunda - vou desenvolvendo o prazer de estar na companhia de mim.
Sem distracções sensoriais, sem ruído, sem pessoas, sem tecnologia, sem a mão do Homem presente na Natureza que me circunda - vou desenvolvendo o prazer de estar na companhia de mim.
quinta-feira, agosto 06, 2009
quarta-feira, agosto 05, 2009
A partir de hoje, estreia às 23.30, na RTPN (doravante sempre à mesma hora, todas as quartas-feiras), o programa conversas com escritores. Um escritor (José Rodrigues dos Santos, que pessoalmente não me encanta) entrevista outra escritor. Há bons nomes já agendados.
É um formato inédito na televisão portuguesa.
É um formato inédito na televisão portuguesa.
A Democracia é um conceito que nasceu na Grécia Antiga. Etimologicamente vem de Demo (Povo) e Kratos (Poder). Quanto mais próximos estiverem os cidadãos dos seus órgãos de representação, maior será a democracia. A Democracia não é assim tanto um regime como um ideal - que no seu pináculo máximo significa que não há barreiras entre os destinos que o próprio povo quer para si e o que seus representantes decidem.
Quando hoje em dia, o maior partido é o da abstenção, quando os cidadãos não se revêem nos políticos, quando nem sequer lêem os seus programas, quando os próprios programas políticos estão pejados de promessas - em que os eleitores se os lessem, dir-se-ia que eram as soluções que escolhiam para os seus problemas - que não executam quando têm o poder; quando tudo isto acontece, só podemos dizer que o a democracia, que a proximidade dos governados dos governantes, é uma miragem cada vez mais longe. Até à próxima inversão deste ciclo de apatia e descrença?
Quando hoje em dia, o maior partido é o da abstenção, quando os cidadãos não se revêem nos políticos, quando nem sequer lêem os seus programas, quando os próprios programas políticos estão pejados de promessas - em que os eleitores se os lessem, dir-se-ia que eram as soluções que escolhiam para os seus problemas - que não executam quando têm o poder; quando tudo isto acontece, só podemos dizer que o a democracia, que a proximidade dos governados dos governantes, é uma miragem cada vez mais longe. Até à próxima inversão deste ciclo de apatia e descrença?
A Democracia é um conceito que nasceu na Grécia Antiga. Etimologicamente vem de Demo (Povo) e Kratos (Poder). Quanto mais próximos estiverem os cidadãos dos seus órgãos de representação, maior será a democracia. A Democracia não é assim tanto um regime como um ideal - que no seu pináculo máximo significa que não há barreiras entre os destinos que o próprio povo quer para si e o que seus representantes decidem.
Quando hoje em dia, o maior partido é o da abstenção, quando os cidadãos não se revêem nos políticos, quando nem sequer lêem os seus programas, quando os próprios programas políticos estão pejados de promessas - em que os eleitores se os lessem, dir-se-ia que eram as soluções que escolhiam para os seus problemas - que não executam quando têm o poder; quando tudo isto acontece, só podemos dizer que o a democracia, que a proximidade dos governados dos governantes, é uma miragem cada vez mais longe. Até à próxima inversão deste ciclo de apatia e descrença?
Quando hoje em dia, o maior partido é o da abstenção, quando os cidadãos não se revêem nos políticos, quando nem sequer lêem os seus programas, quando os próprios programas políticos estão pejados de promessas - em que os eleitores se os lessem, dir-se-ia que eram as soluções que escolhiam para os seus problemas - que não executam quando têm o poder; quando tudo isto acontece, só podemos dizer que o a democracia, que a proximidade dos governados dos governantes, é uma miragem cada vez mais longe. Até à próxima inversão deste ciclo de apatia e descrença?
terça-feira, agosto 04, 2009
Fiquei desagradado momentaneamente. Alguma coisa... mas o que era? Continuei a tomar banho. Fiz um esforço e subitamente o encadeamento
tinha-uma-vaga-e-estranha-e-remota-impressão-de-qualquer-coisa-não-aquilo-não-era-bom-ah-era-este-cheiro-era-daqui-que-vinha-a-má-sensação-mas-o-que-seria?-era-isto-era-este-champô-mas-porquê?-aos-anos-que-não-o-usava-e-agora-porque-me-despertava-ele-esta-náusea-interior-ainda-para-mais-a-fragrância-é-fresca-da-natureza-tão-boa-lembra-me-de-manhãs-com-sono-ah-quando-usava-este-champô-ah-aquela-manhã-terrível-atirei-fora-o-champô
tinha-uma-vaga-e-estranha-e-remota-impressão-de-qualquer-coisa-não-aquilo-não-era-bom-ah-era-este-cheiro-era-daqui-que-vinha-a-má-sensação-mas-o-que-seria?-era-isto-era-este-champô-mas-porquê?-aos-anos-que-não-o-usava-e-agora-porque-me-despertava-ele-esta-náusea-interior-ainda-para-mais-a-fragrância-é-fresca-da-natureza-tão-boa-lembra-me-de-manhãs-com-sono-ah-quando-usava-este-champô-ah-aquela-manhã-terrível-atirei-fora-o-champô
segunda-feira, agosto 03, 2009
- Eh pá, não tenho paciência para aquelas pessoas que comentam a vidinha. Lá onde moro, vou ao talho e as pessoas do talho sabem tudo o que cada um comprou e são capazes de dizer: «Ai, eu não percebo porque é que ela levou 500 gramas de carne. Que exagero. É um desperdício. Para que é que ela levou tanta carne?»
- Angel, não penses que são só as pessoas que dizem que têm fraquezas que precisam de ajuda. Se, calhar há outras que têm, mas que se esforçam por as vencer, por serem mais fortes, e essas têm menos solidariedade das pessoas que dizem: «Ah, mas ela é forte, aguenta bem.» É um problema que tu tens; mas que também quase toda a gente tem - eu é que vejo as coisas de forma diferente porque acho que há pessoas que não usam essas fraquezas para se vitimizarem e que precisam tanto ou mais do que as que usam. Tu tens uma característica que é «ele ou ela é assim, mas» e tens sempre uma justificação. É fácil uma pessoa agarrar-se a algo da vida que a marcou negativamente, todos temos isso - claro que uns mais do que outros.
Não te esqueças do essencial
Numa palestra sobre como-vender-mais, o orador foi alargando a temática e falou sobre a importância da eficácia da comunicação nas relações pessoais como profissionais. Continuando a alargar o discurso, falou da importância, da indispensabilidade dos afectos na vida. Disse que para vender bem, é preciso estar bem com a vida. E que para isso, o amor dos-e-pelos outros é algo de que precisamos como oxigénio. A certa altura, contou episódios de comunicação eficaz e ineficaz. E contou como uma senhora de idade, viúva e pobre, lhe perguntou onde era o hospital, e de como, com simpatia e paciência, lhe explicou o melhor caminho. A senhora ficou tão agradada com o interlocutor que falou horas das suas dores.
Alguém se levantou da cadeira e perguntou ao palestrante:
- Mas e o que é que ganhou com isso?
- O que é que ganhei com isso? Não, a senhora não me deu nenhum contacto, não lhe tentei vender nada, não, não ficou minha cliente. Com uma pergunta dessas, posso-lhe dizer apenas que a pensar assim, nunca será feliz.
Pobre coitado, acrescentou no fim da conferência ou workshop, por entre os corredores.
Alguém se levantou da cadeira e perguntou ao palestrante:
- Mas e o que é que ganhou com isso?
- O que é que ganhei com isso? Não, a senhora não me deu nenhum contacto, não lhe tentei vender nada, não, não ficou minha cliente. Com uma pergunta dessas, posso-lhe dizer apenas que a pensar assim, nunca será feliz.
Pobre coitado, acrescentou no fim da conferência ou workshop, por entre os corredores.
Coisas que nos deixam bem-dispostos para a semana.. Ventos de esperança
A China anuncia hoje que vai ser mais comedida na aplicação da pena de morte e, se calhar, até suprimi-la.
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguer, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.[…]
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado […]
Bertolt Brecht
PIOR DO QUE O ANALFABETO POLÍTICO, SÓ O POLÍTICO ANALFABETO
Pela primeira vez, não sei em quem votar. O debate político nacional parece ter-se reduzido à mera troca de insultos ad hominem.
Perante o parlamento português, de resto, deveríamos adoptar a divisa dos estóicos: nihil admirari (não se admirar com nada). Já nem ficamos espantados quando vemos um deputado dizer a outro que a querela se poderia resolver lá fora (à pancada, presumimos), ou quando, numa comissão parlamentar, se come de boca aberta e se pede licença para ir «verter águas» [sic].
Não votarei em quem, perante mais de 90% dos manifestantes de uma profissão, contra as políticas no seu sector, afirma que são apenas instrumentalizações de sindicatos. (Detesto que me tomem por estúpido.)
Não votarei em quem tem tiradas desdenhosas sobre a democracia, e concepções arcaicas e homofóbicas sobre a família.
Não votarei em quem defende ditaduras. Ser anti-imperialista ou anti-administração-norte-americana não chega para validar um regime.
Não votarei em quem não revela o seu projecto para a sociedade ou a sua ideologia, em quem apenas exibe medidas avulsas, crítica (muita) e arrogância (imensa).
Não votarei em quem tem um discurso cada vez mais patrioteiro e securitário que, por vezes, roça o de Le Pen.
Abster-me, nunca. Porque houve quem morresse para que eu tivesse eleições livres.
Em branco, também não. Há nazis que votam em branco, há anarquistas que votam em branco. Como erigir, desta amálgama disforme e desconexa, um programa político, um modelo de sociedade viável?
(Uma voz interior diz-me: estuda bem até Outubro os programas políticos dos partidos sem assento parlamentar.)
Numa altura de descrença perante a Política e a Justiça, de corrupção e escândalos nas mais altas esferas, de salários e reformas pornográficas de gestores públicos, penso que são precisas referências.
Como os média tendem a falar mais do negativo do que do positivo, gostaria de enaltecer alguém que me arrisco a alvitrar como um Exemplo. Alguém que nos devolve a esperança de que é possível estar na política apenas para Servir.
Em 1984, quando Eanes cumpria o seu segundo mandato de Presidente da República, um governo de Mário Soares criou uma lei que impedia que o vencimento de um Presidente da República fosse acumulado «com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência que aufiram do Estado». As relações entre ambos não eram as melhores, e a lei parecia feita para atingir o general, mas Ramalho Eanes teve a superioridade moral de aprovar a lei que o prejudicaria materialmente. Trinta e seis anos de carreira militar não lhe adiantaram de nada na sua reforma. O caso foi entregue aos tribunais e Eanes viu ser-lhe devolvida a Razão. A sentença decretou que Eanes deveria receber um milhão e trezentos mil euros do Estado. Eanes prescindiu do dinheiro (que ficou, naturalmente, para todos os portugueses).
Há, ainda, quem se continue a mover por coisas imateriais como princípios.
O gesto de Eanes exigia ecos de gratidão e reconhecimento. Mas o silêncio foi quase reinante.
Outra atitude que merecia mais solidariedade, não só mediática, mas também dos políticos e da sociedade em geral, foi a denúncia de tortura (infelizmente confirmada pelo tribunal) a Leonor Cipriano, feita pelo Bastonário Marinho e Pinto. Ninguém perdeu muito tempo a falar desta vergonha infame da nossa democracia porque, no fundo, a vox populis não se rala nada com a tortura. Basta ler os comentários nos jornais disponíveis on-line para chegarmos à conclusão de que o pro-
blema foi essa senhora ter levado poucas.
Outro dia, alguém me dizia que a solução para Portugal era promover-se a meritocracia em todos os sectores da sociedade.
Cada vez acredito menos nessa quimera. Não posso acreditar na meritocracia, quando pessoas que levantaram dinheiro indevidamente da associação de estudantes da qual fiz parte (do ISCTE) ocupam hoje cargos públicos de relevo. Não posso acreditar na meritocracia quando vou ao dentista-mais-caro e ele me cria mais problemas do que me resolve. Não posso acreditar na meritocracia, quando Santana Lopes já foi quase tudo na política portuguesa, ou quando Carlos Queirós é o seleccionador nacional. Não posso acreditar na meritocracia, quando a Manuela Moura Guedes é a apresentadora de um dos principais jornais televisivos nacionais.
Alguém imagina que o pivô de um jornal televisivo do Estado pudesse ser o cônjuge do director da estação de televisão estatal sem que isso fosse um escândalo? Ao que é privado, não fazemos exigências éticas. Ao que é do Estado, ao que é «dos nossos bolsos», sentimo-nos, pelo menos, no direito de o fazer. Pacheco Pereira, ex-maoísta, recém-teólogo-do-mercado, acha que não devemos perder muito tempo a discutir os defeitos ou virtudes desta ou daquela empresa privada. Se não gostarmos de uma, escolhemos outra. Seremos, portanto, apenas consumidores, e não cidadãos, no que ao sector privado diz respeito.
Fernando Dacosta escreve no seu mais recente (brilhante) livro Os Mal-Amados: «Vi políticos famosos entregarem nos jornais entrevistas a si – fabricadas por si; autores de nomeada apresentarem recensões de críticos estrangeiros – inexistentes; jovens cançonetistas e actores horizontalizarem-se por uma notícia, uma foto […] O estar do lado de dentro das redacções fez com que me tornasse bastante irónico a esses vedetismos: conheço demasiado bem as costuras da popularidade […] sei, de há muito, que as pessoas de valor não se encontram nas ribaltas, que os inovadores se situam foram dos marketings, dos tops, dos projectores.»
Uma pessoa, que trabalha numa dessas grandes empresas multinacionais, contava-me que, na sua área laboral, há quatro hierarquias: consultor (que não tem regalias), consultor sénior, manager e executive manager. O consultor sénior tem direito a lugar de garagem. O manager e o executive manager têm direito ao lugar e aos melhores carros. Com a crise, o que aconteceu? Retiraram o lugarzinho de estacionamento aos consultores seniores.
Já trabalhei numa empresa onde a recepcionista ganhava 500€, que era o montante da factura de telemóvel de outros cargos na empresa (que por sua vez ganhavam 12 000€). Bem, mas o que é isto, dir-me-ão, quando o Ronaldo vai ganhar
25 000€ por dia?
Em conversa com uma pessoa que trabalha num sector imobiliário, perguntei:
– Isto está mais fraco, não está?
– Está, menos as casas de luxo e os hotéis de seis estrelas, que não sofreram com a crise.
O mercado tem-se tornado demasiado amoral para que não o questionemos ou lhe tomemos as rédeas…
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguer, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.[…]
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado […]
Bertolt Brecht
PIOR DO QUE O ANALFABETO POLÍTICO, SÓ O POLÍTICO ANALFABETO
Pela primeira vez, não sei em quem votar. O debate político nacional parece ter-se reduzido à mera troca de insultos ad hominem.
Perante o parlamento português, de resto, deveríamos adoptar a divisa dos estóicos: nihil admirari (não se admirar com nada). Já nem ficamos espantados quando vemos um deputado dizer a outro que a querela se poderia resolver lá fora (à pancada, presumimos), ou quando, numa comissão parlamentar, se come de boca aberta e se pede licença para ir «verter águas» [sic].
Não votarei em quem, perante mais de 90% dos manifestantes de uma profissão, contra as políticas no seu sector, afirma que são apenas instrumentalizações de sindicatos. (Detesto que me tomem por estúpido.)
Não votarei em quem tem tiradas desdenhosas sobre a democracia, e concepções arcaicas e homofóbicas sobre a família.
Não votarei em quem defende ditaduras. Ser anti-imperialista ou anti-administração-norte-americana não chega para validar um regime.
Não votarei em quem não revela o seu projecto para a sociedade ou a sua ideologia, em quem apenas exibe medidas avulsas, crítica (muita) e arrogância (imensa).
Não votarei em quem tem um discurso cada vez mais patrioteiro e securitário que, por vezes, roça o de Le Pen.
Abster-me, nunca. Porque houve quem morresse para que eu tivesse eleições livres.
Em branco, também não. Há nazis que votam em branco, há anarquistas que votam em branco. Como erigir, desta amálgama disforme e desconexa, um programa político, um modelo de sociedade viável?
(Uma voz interior diz-me: estuda bem até Outubro os programas políticos dos partidos sem assento parlamentar.)
Numa altura de descrença perante a Política e a Justiça, de corrupção e escândalos nas mais altas esferas, de salários e reformas pornográficas de gestores públicos, penso que são precisas referências.
Como os média tendem a falar mais do negativo do que do positivo, gostaria de enaltecer alguém que me arrisco a alvitrar como um Exemplo. Alguém que nos devolve a esperança de que é possível estar na política apenas para Servir.
Em 1984, quando Eanes cumpria o seu segundo mandato de Presidente da República, um governo de Mário Soares criou uma lei que impedia que o vencimento de um Presidente da República fosse acumulado «com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência que aufiram do Estado». As relações entre ambos não eram as melhores, e a lei parecia feita para atingir o general, mas Ramalho Eanes teve a superioridade moral de aprovar a lei que o prejudicaria materialmente. Trinta e seis anos de carreira militar não lhe adiantaram de nada na sua reforma. O caso foi entregue aos tribunais e Eanes viu ser-lhe devolvida a Razão. A sentença decretou que Eanes deveria receber um milhão e trezentos mil euros do Estado. Eanes prescindiu do dinheiro (que ficou, naturalmente, para todos os portugueses).
Há, ainda, quem se continue a mover por coisas imateriais como princípios.
O gesto de Eanes exigia ecos de gratidão e reconhecimento. Mas o silêncio foi quase reinante.
Outra atitude que merecia mais solidariedade, não só mediática, mas também dos políticos e da sociedade em geral, foi a denúncia de tortura (infelizmente confirmada pelo tribunal) a Leonor Cipriano, feita pelo Bastonário Marinho e Pinto. Ninguém perdeu muito tempo a falar desta vergonha infame da nossa democracia porque, no fundo, a vox populis não se rala nada com a tortura. Basta ler os comentários nos jornais disponíveis on-line para chegarmos à conclusão de que o pro-
blema foi essa senhora ter levado poucas.
Outro dia, alguém me dizia que a solução para Portugal era promover-se a meritocracia em todos os sectores da sociedade.
Cada vez acredito menos nessa quimera. Não posso acreditar na meritocracia, quando pessoas que levantaram dinheiro indevidamente da associação de estudantes da qual fiz parte (do ISCTE) ocupam hoje cargos públicos de relevo. Não posso acreditar na meritocracia quando vou ao dentista-mais-caro e ele me cria mais problemas do que me resolve. Não posso acreditar na meritocracia, quando Santana Lopes já foi quase tudo na política portuguesa, ou quando Carlos Queirós é o seleccionador nacional. Não posso acreditar na meritocracia, quando a Manuela Moura Guedes é a apresentadora de um dos principais jornais televisivos nacionais.
Alguém imagina que o pivô de um jornal televisivo do Estado pudesse ser o cônjuge do director da estação de televisão estatal sem que isso fosse um escândalo? Ao que é privado, não fazemos exigências éticas. Ao que é do Estado, ao que é «dos nossos bolsos», sentimo-nos, pelo menos, no direito de o fazer. Pacheco Pereira, ex-maoísta, recém-teólogo-do-mercado, acha que não devemos perder muito tempo a discutir os defeitos ou virtudes desta ou daquela empresa privada. Se não gostarmos de uma, escolhemos outra. Seremos, portanto, apenas consumidores, e não cidadãos, no que ao sector privado diz respeito.
Fernando Dacosta escreve no seu mais recente (brilhante) livro Os Mal-Amados: «Vi políticos famosos entregarem nos jornais entrevistas a si – fabricadas por si; autores de nomeada apresentarem recensões de críticos estrangeiros – inexistentes; jovens cançonetistas e actores horizontalizarem-se por uma notícia, uma foto […] O estar do lado de dentro das redacções fez com que me tornasse bastante irónico a esses vedetismos: conheço demasiado bem as costuras da popularidade […] sei, de há muito, que as pessoas de valor não se encontram nas ribaltas, que os inovadores se situam foram dos marketings, dos tops, dos projectores.»
Uma pessoa, que trabalha numa dessas grandes empresas multinacionais, contava-me que, na sua área laboral, há quatro hierarquias: consultor (que não tem regalias), consultor sénior, manager e executive manager. O consultor sénior tem direito a lugar de garagem. O manager e o executive manager têm direito ao lugar e aos melhores carros. Com a crise, o que aconteceu? Retiraram o lugarzinho de estacionamento aos consultores seniores.
Já trabalhei numa empresa onde a recepcionista ganhava 500€, que era o montante da factura de telemóvel de outros cargos na empresa (que por sua vez ganhavam 12 000€). Bem, mas o que é isto, dir-me-ão, quando o Ronaldo vai ganhar
25 000€ por dia?
Em conversa com uma pessoa que trabalha num sector imobiliário, perguntei:
– Isto está mais fraco, não está?
– Está, menos as casas de luxo e os hotéis de seis estrelas, que não sofreram com a crise.
O mercado tem-se tornado demasiado amoral para que não o questionemos ou lhe tomemos as rédeas…
domingo, agosto 02, 2009
São homens e mulheres, aos milhões - muitas crianças -, a quem foi negada a dignidade humana. Este é que é o problema maior da Humanidade, que tem de ter uma solução. Esperamos numa boa solução. Porque, se não for a bem, será a mal. De facto, quem julga que o tempo das revoluções acabou está enganado. Vem aí a revolução dos pobres e desesperados.
Anselmo Borges
Anselmo Borges
sábado, agosto 01, 2009
Qual o contrário de mais ou menos?
- O que achaste do filme?
- É mais ou menos.
- E o Paulo o que achou?
- Achou exactamente o contrário.
- É mais ou menos.
- E o Paulo o que achou?
- Achou exactamente o contrário.
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