quarta-feira, julho 01, 2009

Ele dava-se melhor com raparigas do que com rapazes. Ele tinha uma cor de pele mais branca. Ele tinha óculos e gozavam com ele por ser o «caixa-de-óculos». Ele era um excelente alunos e os colegas sublimavam a inveja inventando que ele «não tinha vida social» e - o mais estúpido dos anátemas - que era «maricas». Era humilhado nos balneários. Uma coisa aprecio nele: por mais que gozassem com ele, nunca deixou de jogar vólei. Era o único rapaz que jogava vólei. Todos os outros jogavam futebol. Outro rapaz que se juntava a ele no vólei era este que hoje escreve estas linhas (e como fico contente por saber que fiz o terceiro período inteiro a jogar vólei). O mais absurdo é que provavelmente ele nem era homossexual, tinha apenas uma sensibilidade interior muito mais rica do que os boçais, rudes e machizóides colegas. Uma sensibilidade talhada a filigrana.

Invoco-o agora que me surge na memória. Encontrei-o há meses. Chorou. Ainda hoje carrega feridas que não fecharam. Ainda hoje acorda de noite sobressaltado com a vozearia dos que o humilhavam no balneário. Faz psicoterapia há mais de dez anos.

Em que tribunal se vão sentar os seus torcionários da adolescência?

O Unabomber (que não me inspira compaixão, porque matou três pessoas, e o que a seguir se segue não é um exercício de tentar justificar, mas de tentar compreender) quando era mais novo, os rapazes dividiram a turma em dois: uns para o basquetebol, outros para o futebol. Ele não ficou em nenhum dos grupos. Quarenta anos depois, diz chorar sempre que recorda o episódio. Imaginam o que é a sensação de não nos reconhecerem sequer a existência? O que é ser pisado e repisado? Proscrito e vexado vez após vez até nos sentirmos como sendo essa a nossa condição natural?

Quem já foi até à Índia, se calhar compreende melhor estas palavras.

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