Valeri não esconde alguma ansiedade pela estreia como titular do F.C. Porto. O médio argentino procura adaptar-se progressivamente aos novos métodos de trabalho e espera por uma oportunidade. Entretanto, o reforço garante que os dragões pretendem vencer a Peace Cup.
A meio da conversa matinal com os jornalistas, em Espanha, o jogador explicou ainda a curiosa alcunha de «O Bibliotecário»: «Foi uma alcunha colocada por comentadores, uma vez que tenho o hábito de ler. Não tem nada a ver com a profissão. Autores portugueses? Conheço o Saramago.»
in www.maisfutebol.iol.pt
sexta-feira, julho 31, 2009
Nathaniel Hawthorne depois de publicar o primeiro livro tentou recolhê-lo de todas as livrarias e destruí-lo. Valter Hugo Mãe, século e meio mais tarde, diz que adoraria ir a casa de todos os leitores do seu primeiro livro e apreendê-lo - as pessoas não deveriam poder ler aquele livro porque é demasiado mau, explica. Lobo Antunes diz que pensou em reescrever o seu primeiro livro de tão distante lhe parecer a sua escrita primeva.
Há uma terrível síndrome de rejeição após o deslumbramento do primeiro livro.
Há uma terrível síndrome de rejeição após o deslumbramento do primeiro livro.
quinta-feira, julho 30, 2009
Do desamor
Conheço filhos que sentem que os seus pais apenas estimulam que eles sejam brilhantes e não felizes. Pais que só dão importância à dimensão do Sucesso nos seus filhos, como estes devessem reverberar uma luz de cujo brilho necessitam desesperadamente.
Pais há que ama, mas que não sabem ser expressar esse amor. Através dos afectos, do toque, do perdão. Fizeste-uma-borrada-e-eu-estou-contigo-não-estou-contra-ti-já-basta-tu-sentires-o-efeito-da-borrada-eu-não-quero-aumentar-te-a-culpa-quero-apenas-insuflar-te-de-amor-e-auto-estima-para-que-possas-enfrentar-sem-medo-o-mundo-desmesuradamente-cruel-lá-fora.
Há pais que acham que não devem elogiar os filhos. Que quando estes têm 16, dizem:
- Podias ter 18.
Num documentário sobre Ernest Hemingway que vi no Canal História, escalpelizava-se a sua personalidade máscula e anti-compassiva. Os filhos, mesmo com o pai morto, diziam que ele estimulava em demasia a competição entre eles. Em todas as áreas da vida tinham de ser os melhores.
Hemingway que proclamava que o homem pode ser derrotado mas não destruído, que achava a Coragem a virtude cardeal, que não expressava afectos, que apreciava a guerra, o boxe, a caça e a pesca como actividades viris, que viu recentemente as suas cruentas cartas de guerra enaltecerem o número de mortos que orgulhosamente já causara; foi o mesmo homem que se suicidou. Talvez não conseguisse ser forte o suficiente para admitir as suas fraquezas. Talvez essa virilidade fosse uma máscara das suas inseguranças.
O documentário terminava com o filho Paul a chorar:
- I just wanted him to love me...
Pais há que ama, mas que não sabem ser expressar esse amor. Através dos afectos, do toque, do perdão. Fizeste-uma-borrada-e-eu-estou-contigo-não-estou-contra-ti-já-basta-tu-sentires-o-efeito-da-borrada-eu-não-quero-aumentar-te-a-culpa-quero-apenas-insuflar-te-de-amor-e-auto-estima-para-que-possas-enfrentar-sem-medo-o-mundo-desmesuradamente-cruel-lá-fora.
Há pais que acham que não devem elogiar os filhos. Que quando estes têm 16, dizem:
- Podias ter 18.
Num documentário sobre Ernest Hemingway que vi no Canal História, escalpelizava-se a sua personalidade máscula e anti-compassiva. Os filhos, mesmo com o pai morto, diziam que ele estimulava em demasia a competição entre eles. Em todas as áreas da vida tinham de ser os melhores.
Hemingway que proclamava que o homem pode ser derrotado mas não destruído, que achava a Coragem a virtude cardeal, que não expressava afectos, que apreciava a guerra, o boxe, a caça e a pesca como actividades viris, que viu recentemente as suas cruentas cartas de guerra enaltecerem o número de mortos que orgulhosamente já causara; foi o mesmo homem que se suicidou. Talvez não conseguisse ser forte o suficiente para admitir as suas fraquezas. Talvez essa virilidade fosse uma máscara das suas inseguranças.
O documentário terminava com o filho Paul a chorar:
- I just wanted him to love me...
Nunca atingimos a verdade. Já o Aristóteles dizia que só devíamos formar opinião sobre um assunto quando o dominamos. E, contudo, nunca o dominamos, porque as verdades são sempre transitórias. Descartes dizia que não podemos ter certeza de nada porque mesmo as nossas memórias podem nos ser imputadas por um génio maligno que nos criou neste preciso instante, dotando-nos de um conjunto de falsas memórias. Contudo, e em contradição com isto - sendo que uma inteligência de primeira água é aquela que alimenta duas ideias contraditórias sem perder a capacidade de funcionamento, como disse Scott Fitzgerald -, temos de nos guiar, temos de sobreviver com recurso a verdades.
Isto é uma parede e vou-me desviar senão bato nela. Isto é um carro e vou entrar e dirigir-me até Braga.
Isto é uma parede e vou-me desviar senão bato nela. Isto é um carro e vou entrar e dirigir-me até Braga.
quarta-feira, julho 29, 2009
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.
Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga -
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.
O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.
Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
- Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.
Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas - envoltas pela sua roseira em brasa -
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.
E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
Herberto Helder
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.
Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga -
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.
O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.
Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
- Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.
Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas - envoltas pela sua roseira em brasa -
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.
E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
Herberto Helder
Sei o que é que ele teme nas mulheres. Ele é muito organizadinho, muito racional, tem a vida toda muito estruturada. A racionalidade dele não consegue linguarejar com a imprevisibilidade, a imponderabilidade das mulheres. Tem medo. Que elas lhe restabeleçam as prioridades. Que elas lhe roubem o monopólio da Razão. Elas representam uma área da vida que ele não controlo em absoluto - e ele tem de controlar tudo.

Entrei na livraria do meu-livreiro-de-estimação, o meu amigo André, o Velho Ancião, e ele tinha afixado na parede a imagem acima.
- É para que as pessoas vejam o que esta besta anda a propagar! Como é que alguém que é uma influência para milhares de pessoas, nomeadamente os jovens, pode andar com uma coisa destas? Ele não sabe o que é sentir a responsabilidade de ser um ídolo de milhões! Não sabe. Não tem preparação mental para ser um ícone de massas. Ou se sabe, o que é que ele quer dizer? Que se deve matar o vizinho do lado? Que devemos andar ao tiro? O que é que ele quer transmitir? A apologia das armas de fogo? É incrível como a revista que publica isto não faz uma menção, mínima que seja, à arma que ele tem! Ninguém falou disto... É impressionante a cegueira.
- Eu tenho imenso medo de ver filmes de terror. Vou-me deitar e ficou sempre à alerta a qualquer mínimo ruído, abro os armários para ver se não está lá ninguém, espreito para debaixo da cama. Mas, por estranho que pareça, sou altamente viciada nesses filmes de suspense e medo... É como se gostasse dessa sensação.
terça-feira, julho 28, 2009
Moby Dick é um livro que, por longas partes, é chato. Tem muito de científico, discorrendo exaustivamente sobre baleias, materiais de pesca que levou a ser considerado numa sondagem literária como a obra-prima da Literatura mais ente diante de ser lida.
Tem, porém, uma reflexão profunda sobre o Bem e o Mal (um tema-obsessão que constitui das matérias primordiais em torno das quais o meu pensamento sempre gravita).
Ahab ficou amputado de uma perna na luta contra Moby Dick e quer vingar-se da colossal baleia. A questão: uma baleia não tem opção de livre-arbítrio, de escolha entre o Bem e o Mal; ao passo que o homem tem. Mas Ahab (nome com conotações de um terrível sanguinário na Bíblia) não quer saber. Quer corporizar nela o responsável pelo sofrimento provocado pela sua enfermidade. Dizem-lhe que isso é uma blasfémia. Mas Ahab persegue-a até aos confins do oceano. Tenta matá-la, ela defende-se e vai-se embora. Ele insiste. Ela defende-se e vai-se embora. Ele insiste. Ela defende-se e vai-se embora. (O final não vou desvelar para não ferir o sabor de quem quiser ler...)
A minha interpretação: para Herman Melville, o Mal é algo que o homem procura, mas que Deus afasta dele e afasta e afasta, mas quando o homem insiste, insiste, insiste, Deus dá liberdade - algo sagrado para Ele - ao homem e ele caminha para o mal - que é sempre uma ruína (ups!, já estou a revelar o final, silenciar-me-ei...).
Tem, porém, uma reflexão profunda sobre o Bem e o Mal (um tema-obsessão que constitui das matérias primordiais em torno das quais o meu pensamento sempre gravita).
Ahab ficou amputado de uma perna na luta contra Moby Dick e quer vingar-se da colossal baleia. A questão: uma baleia não tem opção de livre-arbítrio, de escolha entre o Bem e o Mal; ao passo que o homem tem. Mas Ahab (nome com conotações de um terrível sanguinário na Bíblia) não quer saber. Quer corporizar nela o responsável pelo sofrimento provocado pela sua enfermidade. Dizem-lhe que isso é uma blasfémia. Mas Ahab persegue-a até aos confins do oceano. Tenta matá-la, ela defende-se e vai-se embora. Ele insiste. Ela defende-se e vai-se embora. Ele insiste. Ela defende-se e vai-se embora. (O final não vou desvelar para não ferir o sabor de quem quiser ler...)
A minha interpretação: para Herman Melville, o Mal é algo que o homem procura, mas que Deus afasta dele e afasta e afasta, mas quando o homem insiste, insiste, insiste, Deus dá liberdade - algo sagrado para Ele - ao homem e ele caminha para o mal - que é sempre uma ruína (ups!, já estou a revelar o final, silenciar-me-ei...).
De tudo o que sei, diria que apenas 0,1% (sendo optimista) aprendi na Escola e na Universidade. As pessoas mais cultas que conheço têm habilitações académicas parcas. Muitas vezes, a universidade é um afunilamento do saber, um estreitamento da mente. E quantas pessoas não conhecemos doutoradas e pós-doutoradas que só sabem daquilo.
Regral geral, gostamos de imputar todos os males do mundo aos políticos, às instituições, às leis - às vezes parece que nos esquecemos de que todas estas coisas acontecem porque há pessoas. Como li algures, os grandes acontecimentos do século XX nasceram no cérebro.
E as pessoas, o Povo não é tão democrático, tão amistoso e tolerante como se julga. Numa sondagem da Visão, revela-se que 65% dos portugueses defendem a prisão perpétua e 26% a pena de morte. (E os dados seriam mais arrepiantes se perguntassem se se deveriam castrar quimicamente os pedófilos ou se a tortura a quem mata os filhos deveria ser permitida nas esquadras.)
Que sorte termos uma Constituição que torna irreferendável a pena de morte!
Se não houvesse áreas da democracia blindadas à - passo o pleonasmo - democratização; esta progressivamente entraria em falência.
E as pessoas, o Povo não é tão democrático, tão amistoso e tolerante como se julga. Numa sondagem da Visão, revela-se que 65% dos portugueses defendem a prisão perpétua e 26% a pena de morte. (E os dados seriam mais arrepiantes se perguntassem se se deveriam castrar quimicamente os pedófilos ou se a tortura a quem mata os filhos deveria ser permitida nas esquadras.)
Que sorte termos uma Constituição que torna irreferendável a pena de morte!
Se não houvesse áreas da democracia blindadas à - passo o pleonasmo - democratização; esta progressivamente entraria em falência.
segunda-feira, julho 27, 2009
Todos os actos da vida, desde a lavagem matinal dos dentes até jantar com amigos se tinham transformado num sacrifício. Vi que já não gostava desde há muito de pessoas e coisas; e só um pretexto de simpatia, velho e pouco firme, me levava a suportá-las. Vi que até o amor pelos mais íntimos de transformara em qualquer coisa que só era tentativa de amar, que as minhas relações acidentais - com um editor, um vendedor de tabaco, o filho de um amigo - só eram o que eu me lembrava que deviam ser, tendo em atenção dias passados. Um mês bastou para outras coisas, como o ruído de um rádio, a publicidade nas revistas, o chiar dos carris, o silêncio mortal do campo, me encherem de azedume [...]
Reparei que a vitalidade é a força da natureza menos transmissível. No tempo em que eu rebentava de sumo e ela me invadia sem pedir licença, tentei distribuí-la - sem nunca ter tido êxito. [...] a vitalidade nunca «se pega». Existe ou não existe em nós, como a saúde, os olhos castanhos, a honra ou a voz de barítono. De nada valeria pedir-lhe para me dar alguma bem embalada, pronta a ser cozinhada e digerida em casa; nunca chegaria a tê-la - nem que passasse mil horas a agarrar na malga da auto-compaixão. Só consegui sair da casa dela com o grande cuidado que é costume ter-se com a louça rachada - voltar àquele mundo de amarguras onde eu andava a fazer uma casa com os materiais que arranjava; - e quando atravessei a soleira da sua porta, citei de mim para mim:
Vós sois o sal da terra. E se o sal perder a força, com que outra coisa havemos de o salgar? (Mateus, 5, 13.)[...]
Já não me resta, por isso, nenhum «Eu» - nenhuma base onde eu possa organizar o respeito que devo a mim próprio [...] Era estranho não ter nenhum «eu» - ser como o rapazinho deixado só numa grande casa, ciente de que pode fazer tudo quanto lhe apetecer mas convicto de que não lhe apetece fazer nada...
Francis Scott Fitzgerald, The crack-up
Reparei que a vitalidade é a força da natureza menos transmissível. No tempo em que eu rebentava de sumo e ela me invadia sem pedir licença, tentei distribuí-la - sem nunca ter tido êxito. [...] a vitalidade nunca «se pega». Existe ou não existe em nós, como a saúde, os olhos castanhos, a honra ou a voz de barítono. De nada valeria pedir-lhe para me dar alguma bem embalada, pronta a ser cozinhada e digerida em casa; nunca chegaria a tê-la - nem que passasse mil horas a agarrar na malga da auto-compaixão. Só consegui sair da casa dela com o grande cuidado que é costume ter-se com a louça rachada - voltar àquele mundo de amarguras onde eu andava a fazer uma casa com os materiais que arranjava; - e quando atravessei a soleira da sua porta, citei de mim para mim:
Vós sois o sal da terra. E se o sal perder a força, com que outra coisa havemos de o salgar? (Mateus, 5, 13.)[...]
Já não me resta, por isso, nenhum «Eu» - nenhuma base onde eu possa organizar o respeito que devo a mim próprio [...] Era estranho não ter nenhum «eu» - ser como o rapazinho deixado só numa grande casa, ciente de que pode fazer tudo quanto lhe apetecer mas convicto de que não lhe apetece fazer nada...
Francis Scott Fitzgerald, The crack-up
sábado, julho 25, 2009
quinta-feira, julho 23, 2009
- África deu-me um estoicismo, uma preparação mental impressionante. Às vezes, há para aí uns miúdos de uns gangues que se metem comigo. Coitadinhos. Eu posso ter um braço imobilizado, mas o que os demove não é a força física. O que os demove é que eu perdi o medo em África. Deixei-o lá. E quando se perde o medo... (sorriso) Já lhes disse: vocês podem levar-me tudo, mas fazer-me ter medo não conseguem. E eles não fazem nada, porque so agem quando sentem o medo. Angel, eu estive na selva a conviver com balas, leões e elefantes. Fui cortado de alto a baixo. Conduzi com quarenta e quatro graus de febre. A vida na Europa é de uma calmaria...
quarta-feira, julho 22, 2009
Conheço um sorriso assim
«Ao sorrir os olhos [de Dinis Machado] pareciam as ranhuras das caixas das esmolas e eu
- Deixa-me enfiar uma moeda no teu sorriso.»
António Lobo Antunes
- Deixa-me enfiar uma moeda no teu sorriso.»
António Lobo Antunes
terça-feira, julho 21, 2009
- Já experimentei estar um fim-de-semana sem ver e outro sem falar. Agora quero experimentar estar um sem ouvir. É muito bom para te focares noutros aspectos da comunicação, para te tornares mais atento a certos pormenores. E passas a valorizar algo por que o perdeste e é uma experiência que não te esqueces. Foi fabuloso estar sem ver, comprei umas coisas no oculista que colei aos olhos e fiquei sem ver e gravei essa experiência. Andei pelos sítios com os meus pais e amigos, e a atenção aos cheiros, às texturas, foi uma coisa fantástica. A evocação dos locais que já conhecia permitiu-me mapear muito bem os movimentos, mas curioso, nos sítios onde não tinha ido, a minha imaginação dotou-os de uma série de coisas; como se tivesse de preencher o vazio insuportável com algo. Quando estive sem falar, reparei na linguagem das mãos, por exemplo... uma coisa fantástica. Há tantas formas de a pessoa comunicar...
Quando fico a pensar poder deixar de ser
antes que a minha pena haja tudo traçado,
antes que em algum livro ainda possa colher
dos grãos que semeei o fruto sazonado;
quando vejo na noite os astros a brilhar
- vasto e obscuro Universo, impenetrável mundo! -
quando penso que nunca hei de poder traçar
sua imagem com arte e em sentido profundo;
quando sinto a fugaz beleza de alguma hora
que não verei jamais - como doce miragem –
turva-se a minha mente, e a alma em silêncio chora
um impulsivo amor. E a sós, me sinto à margem
do imenso mundo, e anseio imergir a alma em nada
até que a glória e o amor me dêem a hora sonhada!
Keats
antes que a minha pena haja tudo traçado,
antes que em algum livro ainda possa colher
dos grãos que semeei o fruto sazonado;
quando vejo na noite os astros a brilhar
- vasto e obscuro Universo, impenetrável mundo! -
quando penso que nunca hei de poder traçar
sua imagem com arte e em sentido profundo;
quando sinto a fugaz beleza de alguma hora
que não verei jamais - como doce miragem –
turva-se a minha mente, e a alma em silêncio chora
um impulsivo amor. E a sós, me sinto à margem
do imenso mundo, e anseio imergir a alma em nada
até que a glória e o amor me dêem a hora sonhada!
Keats
segunda-feira, julho 20, 2009
O-homem-que-nunca-se-repete
Ele tem um cunho de originalidade em tudo o que faz. É impressionante porque até nas coisas mais pequeninas, nos rituais mais entranhados - até aí, ele põe a sua imaginação, a sua marca.
Mesmo quando me cumprimenta, fá-lo sempre de uma forma diferente, evitando as bengalas do «oi» ou do «olá» ou do «boas» que eu próprio uso.
Estive a ler os mails que me mandou e reparei que não há um em que o abraço final seja o mesmo. O último era «abraço quebra-costelas».
Mesmo quando me cumprimenta, fá-lo sempre de uma forma diferente, evitando as bengalas do «oi» ou do «olá» ou do «boas» que eu próprio uso.
Estive a ler os mails que me mandou e reparei que não há um em que o abraço final seja o mesmo. O último era «abraço quebra-costelas».
Estávamos num salão de jogos (lembro-me de que havia bowling, mas não me lembro do que jogávamos). Uma senhora aproximou-se de nós. Convenceu a minha amiga da sua pobreza, da sua idade, da sua solidão, das suas doenças. Ela deu-lhe uma quantia exorbitante, ficando sem mais dinheiro para jogar. A senhora falou, falou, falou naquilo que me pareceram horas. À undécima hora, dei-lhe um toque com o cotovelo que dizia: estou-farto-desta-conversa-despacha-a-senhora-por-favor. Já não era mais dinheiro o que ela queria - apenas atenção e carinho.
Eu estava sem paciência. A minha amiga não cedeu. E ficou a falar com a senhora. O meu tédio foi gigantesco, mas hoje olho para este momento como um gesto sublime dela. Tão sublime que ficou perenemente associado à imagem dela que guardo.
Eu estava sem paciência. A minha amiga não cedeu. E ficou a falar com a senhora. O meu tédio foi gigantesco, mas hoje olho para este momento como um gesto sublime dela. Tão sublime que ficou perenemente associado à imagem dela que guardo.
domingo, julho 19, 2009
- Há um efeito perverso da democratização ou, dito de outra forma, do facto de que toda a gente ter direito a opinar sobre coisas de que não percebe coisíssima nenhuma. Então, a produção de lixo tem aumentado brutalmente. Quantos milhões de blogs de merda não há com pessoas convencidíssimas de que a sua opinião é valiosíssima. Não sabem que aquilo já foi dito inúmeras vezes. É difícil encontrar uma voz original e estruturada. A guerra entre Israel e Palestina implica um conhecimento milenar da História, da Religião, das culturas ancestrais, ir aos primórdios do primórdios, ler as diferentes visões. As pessoas lêem jornais - as que lêem - e enfiam meia dúzia de parangonas pela goela do cérebro abaixo que repetem como verdades absolutas. Para entender um assunto, já dizia Aristóteles é preciso saber tudo tudo sobre o assunto, porque se tens informação omissa sobre um assunto, não sabes até que ponto o conhecimento desse facto te inverteria o juízo de valor final. Antigamente, se fossem perguntar ao agricultor analfabeto o que achava de determinado assunto, ele modestamente diria: «Eu não sei, meu senhor.» O máximo que era capaz de dizer era por exemplo sobre uma guerra: «Parece que aquilo está feio.»
Era uma sapiência essa humildade. Hoje qualquer um acha que por ter visto na televisão ou na net, tem uma opinião sólida e abalizada sobre tudo. E agarra o microfone e fala para que o mundo o oiça.
Era uma sapiência essa humildade. Hoje qualquer um acha que por ter visto na televisão ou na net, tem uma opinião sólida e abalizada sobre tudo. E agarra o microfone e fala para que o mundo o oiça.
Procuro ser feliz e distingo felicidade de prazer. A felicidade exige renúncia a muitos prazeres. Todo o prazer tem ressaca, a felicidade não, dá-me um bem-estar muito intenso. Procuro um sentido elevado para a minha vida. Uma das coisas que mais prazer me dá é ler poesia. É rara a noite que me deito sem ler.
Marinho e Pinto
(sinto como minhas estas palavras)
Marinho e Pinto
(sinto como minhas estas palavras)
sábado, julho 18, 2009
Quando os colonizadores ocidentais chegaram à América do Sul, encararam como blasfémia o facto de o índios andarem desnudados. Era um pecado aos olhos do Senhor.
Mas eles não conheciam essa lei... Pois, isso não ocorria nas cabeças dos portugueses e espanhóis. E, de qualquer forma, no Direito, a ignorância da lei não aproveita a ninguém.
Pensar nisto fez-me reflectir numa questão filosófica: o Bem e o Mal são apenas a congruência e a incongruência respectivamente da nossa acção perante a nossa Ética? Se sim, então, qualquer juízo que façamos do outro à luz dos nossos valores é enfermo, espúrio e torpe. Se, sim, então teremos de aceitar que outras culturas apedrejem mulheres até à morte quando cometem adultério, que os homossexuais sejam condenados à morte, que as filhas que percam a virgindade antes do casamento sejam assassinadas pelos pais.
Mas pensar que o Bem e o Mal são universais e iguais para todos, é pensar da forma absurda como pensavam os colonizadores.
Haverá sempre mais marés do que marinheiros, mais perguntas do que respostas...
Mas eles não conheciam essa lei... Pois, isso não ocorria nas cabeças dos portugueses e espanhóis. E, de qualquer forma, no Direito, a ignorância da lei não aproveita a ninguém.
Pensar nisto fez-me reflectir numa questão filosófica: o Bem e o Mal são apenas a congruência e a incongruência respectivamente da nossa acção perante a nossa Ética? Se sim, então, qualquer juízo que façamos do outro à luz dos nossos valores é enfermo, espúrio e torpe. Se, sim, então teremos de aceitar que outras culturas apedrejem mulheres até à morte quando cometem adultério, que os homossexuais sejam condenados à morte, que as filhas que percam a virgindade antes do casamento sejam assassinadas pelos pais.
Mas pensar que o Bem e o Mal são universais e iguais para todos, é pensar da forma absurda como pensavam os colonizadores.
Haverá sempre mais marés do que marinheiros, mais perguntas do que respostas...
- Acordei sobressaltado. Estava de pé na cama, encostado à parede, a recobrar do pesadelo. Fico assim um pouco e depois calmamente vou até à casa de banho. Puxo o tampo da sanita e o que vejo? O espaço! O espaço no fundo da sanita! Então apercebo-me que estou a sonhar e acordo. Só aí percebo de que a parte de estar de pé na cama, acordando sobressaltado, fez parte do sonho. Foi the weirdest thing que tive na vida.
quinta-feira, julho 16, 2009
Guardar
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que de um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
António Cícero
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que de um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
António Cícero
Quando somos alguém que não nos identificamos com o mundo, é difícil encontrarmos alguém que nos compreenda, alguém que cuja quintessência seja tecida da mesma luz que nós. Chegamos a pensar que é impossível encontrá-lo de tão diferentes nos sentirmos de todos. Então, essa pessoa ganha contornos da coisa-mais-importante-da-nossa-vida, da coisa-mais-valiosa-mais-cintilante-mais-pura-do-mundo.
Se reflectires sobre a quantidade de sofrimento que há no mundo, vais-te sentir impotente e é possível que acabes atolado na apatia e na depressão. Tens de te concentrar na parte do sofrimento que tu consegues transformar em felicidade. Explico: tens de valorizar o quão importante é o bem-estar de quem ajudas. Pensas: ah, mas só posso ajudar seis ou sete pessoas.
Pára, pára, pára... Tu és uma pessoa e já viste a importância que te dás? Um contém o infinito, não é?
Por isso é que alguém disse que amar a mulher que se tem ao lado é mais importante do que mudar o mundo.
Pára, pára, pára... Tu és uma pessoa e já viste a importância que te dás? Um contém o infinito, não é?
Por isso é que alguém disse que amar a mulher que se tem ao lado é mais importante do que mudar o mundo.
quarta-feira, julho 15, 2009
Acho piada à quantidade de escritores que tem uma necessidade de explicar a sua obra, determinada personagem ou o final. Se o livro não explica por isso, qualquer adenda numa entrevista é algo exógeno ao livro. E se o livro não fala por si... Nada mais falará.
E qualquer interpretação que o artista veicule da sua Obra, colar-se-á fatalmente a ela como a única - o que elide as infinitas possibilidades de que o leitor poderia fruir.
E qualquer interpretação que o artista veicule da sua Obra, colar-se-á fatalmente a ela como a única - o que elide as infinitas possibilidades de que o leitor poderia fruir.
A Ilha dos Amores
Agostinho da Silva diz que a ilha dos amores nos Lusíadas, uma criação da deusa da criativade (passe o pleonasmo), é um episódio extraordinário porque consubstancia aquilo a que qualquer alma humana aspira: a plenitude.
Nela, o espaço e o tempo extinguem-se, dissolvem-se, deixam de ser realidades asfixiantes. (Aldous Huxley descreveu tal experiência depois de ingerir mescalina.)
Libertos do tempo, porquê? Porque a deusa mostra aos portugueses o futuro. E - explica Agostinho da Silva -, conhecendo o futuro, deixamos de estar preocupados com o tempo no que ele traz de incerteza e de imprevisibilidade. Ficamos desacorrentados dele, transcendemo-lo na ilha dos amores.
Vês aqui a grande Máquina do Mundo,
etérea e elemental, que fabricada
assim foi do Saber, alto e profundo,
que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
globo e sua superfície tão limada,
é Deus: mas o que é Deus ninguém o entende,
que a tanto o engenho humano não se estende
E do espaço, porquê? Porque a deusa mostra aos portugueses a dimensão cabal do Universo, o seu limite. Os portugueses vislumbram assim a totalidade do espaço, fora do qual nada existe.
Dominam, pela primeira vez na História, as dimensões de tempo e espaço. Porquê? Porque o conhecem cabalmente. Conhecem o tempo todo (para a frente) e o espaço todo. E, quando se conhece uma realidade na totalidade, deixa-se de se estar prisioneiro dela.
Nela, o espaço e o tempo extinguem-se, dissolvem-se, deixam de ser realidades asfixiantes. (Aldous Huxley descreveu tal experiência depois de ingerir mescalina.)
Libertos do tempo, porquê? Porque a deusa mostra aos portugueses o futuro. E - explica Agostinho da Silva -, conhecendo o futuro, deixamos de estar preocupados com o tempo no que ele traz de incerteza e de imprevisibilidade. Ficamos desacorrentados dele, transcendemo-lo na ilha dos amores.
Vês aqui a grande Máquina do Mundo,
etérea e elemental, que fabricada
assim foi do Saber, alto e profundo,
que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
globo e sua superfície tão limada,
é Deus: mas o que é Deus ninguém o entende,
que a tanto o engenho humano não se estende
E do espaço, porquê? Porque a deusa mostra aos portugueses a dimensão cabal do Universo, o seu limite. Os portugueses vislumbram assim a totalidade do espaço, fora do qual nada existe.
Dominam, pela primeira vez na História, as dimensões de tempo e espaço. Porquê? Porque o conhecem cabalmente. Conhecem o tempo todo (para a frente) e o espaço todo. E, quando se conhece uma realidade na totalidade, deixa-se de se estar prisioneiro dela.
Há duas formas de se ser boa pessoa.
Uma é pelas emoções. Há pessoas assim: basta seguirem os seus sentimentos, e são naturalmente generosas, doces, afáveis. Gostam de pessoas, em geral. Normalmente, são muito boas para a família e os amigos (a família escolhida).
A outra é pela Razão. São pessoas que procuram o sentido último das coisas, que sentem que qualquer acção da qual não advenha algo de bom para o Outro, é inútil. São pessoas que entenderam o princípio cósmico do universo: a Ética, isto é, adoptar em qualquer situação o ponto de vista do Universo, descentrando-se de si. A sua vida, as suas palavras e acções não obedecem sempre a esse princípio estruturante, mas ele é o norte das suas acções, a bitola do julgamento dos seus actos.
O ideal é a junção das duas. É indispensável sentir compaixão e não agir apenas mecanicamente, e de igual modo não podemos apenas confiar nas nossas boas emoções, temos de ter princípios fortemente inculcados em nós que, mesmo quando as nossas emoções face ao Outro sejam negativas, nos impeçam de violar os nossos valores - a nossa polpa.
Uma é pelas emoções. Há pessoas assim: basta seguirem os seus sentimentos, e são naturalmente generosas, doces, afáveis. Gostam de pessoas, em geral. Normalmente, são muito boas para a família e os amigos (a família escolhida).
A outra é pela Razão. São pessoas que procuram o sentido último das coisas, que sentem que qualquer acção da qual não advenha algo de bom para o Outro, é inútil. São pessoas que entenderam o princípio cósmico do universo: a Ética, isto é, adoptar em qualquer situação o ponto de vista do Universo, descentrando-se de si. A sua vida, as suas palavras e acções não obedecem sempre a esse princípio estruturante, mas ele é o norte das suas acções, a bitola do julgamento dos seus actos.
O ideal é a junção das duas. É indispensável sentir compaixão e não agir apenas mecanicamente, e de igual modo não podemos apenas confiar nas nossas boas emoções, temos de ter princípios fortemente inculcados em nós que, mesmo quando as nossas emoções face ao Outro sejam negativas, nos impeçam de violar os nossos valores - a nossa polpa.
terça-feira, julho 14, 2009
Ontem, num zapping entre o Mentes Criminosas, um documentário que procurava demonstrar a pederastia de Michael Jackson e entre trabalhar palavras, vi um bocado de uma entrevista à apresentadora Solange. A entrevistadora só lhe fazia perguntas sobre a sua condição homossexual. Para completar o cenário, só faltava a pergunta de praxe:
- Nunca um homem te fez vacilar?
Porque é que não perguntam a um heterossexual masculino o mesmo? Porque é que há esta tendência da conversão?
Gostava de a ter visto responder:
- Tou farta de que me exibam como um animal exótico, eu sou uma série de coisas. Porque é que as pessoas só se fixam no eu ser lésbica? Porque é que estão sempre a perguntar coisas que só dizem respeito a mim sobre a minha vida afectivo-sexual? Eu sou uma jornalista e é nessa condição que sou conhecida. Não quero ser apenas a lésbica. O que é ser lésbica influi no resto? PAREM DE SE FOCAR NA DIFERENÇA. DEIXEM DE REPARAR NELA.
Anseio por 2100.
- Nunca um homem te fez vacilar?
Porque é que não perguntam a um heterossexual masculino o mesmo? Porque é que há esta tendência da conversão?
Gostava de a ter visto responder:
- Tou farta de que me exibam como um animal exótico, eu sou uma série de coisas. Porque é que as pessoas só se fixam no eu ser lésbica? Porque é que estão sempre a perguntar coisas que só dizem respeito a mim sobre a minha vida afectivo-sexual? Eu sou uma jornalista e é nessa condição que sou conhecida. Não quero ser apenas a lésbica. O que é ser lésbica influi no resto? PAREM DE SE FOCAR NA DIFERENÇA. DEIXEM DE REPARAR NELA.
Anseio por 2100.
A espiral da ganância
Muitas pessoas interrogam-se como é que alguém como Madoff que já tinha dinheiro a rodos podia continuar e continuar a enganar pessoas. É uma compulsão como outra qualquer. Foi, de resto, essa a expressão utilizada por um juiz que sentenciou Vale Azevedo. Porque é que o homem para todo o lado onde vai tem de enganar toda a gente? É um hábito entranhado. Enganar o próximo, viver de sacaneá-lo tornou-se-lhe um vício. E ser o segundo mais rico do mundo pode ser extremamente angustiante. Nunca me esqueço do caso que li do milionário que foi publicado na revista Forbes na lista dos 500 mais ricos mas em 500.º lugar. Contou a mulher que o marido lhe disse: «Para o ano, não estaremos no último lugar. Podes crer que não. Não voltarei a colocar-te nesta posição vexatória. Desculpa.»
Também já fui roubado, enganado. Procurei reflectir no que levaria uma pessoa com tanto dinheiro a enganar-me em trocos. Era o prazer de «ser mais esperto». Para ele, era uma vitória, assim como para mim era um vitória ser íntegro.
Também já fui roubado, enganado. Procurei reflectir no que levaria uma pessoa com tanto dinheiro a enganar-me em trocos. Era o prazer de «ser mais esperto». Para ele, era uma vitória, assim como para mim era um vitória ser íntegro.
segunda-feira, julho 13, 2009
António Lobo Antunes afirma que não estima Pessoa enquanto poeta. Eu estimo (e muito). Pessoa é um dos grandes poetas mundiais do século XX. Assim como o Herberto. E assim como Camões é uma figura da história da literatura. E sinto-me à vontade porque globalmente acho que a literatura portuguesa é sofrível e residual quando comparada com as obras maiores. Porém, a justificação de Lobo Antunes é correcto: há ali pensar a mais no Pessoa. Sim, o Pessoa é um poeta excessivamente racional. Praticamente não fala de amor e quando fala, por exemplo através do Bernardo Soares, é para o desconstruir pela Razão ou então em poemas menores. Pessoa não nos toca pelo amor. É um poeta que nos toca pelo cérebro. Até nisso é singular.
domingo, julho 12, 2009
O homem jurava que a não tinha violado. Ela jurava que ele a tinha violado. Foi para a cadeia. Estava lá há onze anos. Os testes de ADN revelaram entretanto que não fora ele. Ele saiu da cadeia. Encontraram-se numa Igreja.
Ela disse que nem que viesse todos os dias pedir-lhe perdão durante onze anos ele a deveria perdoar.
Ele só disse:
- Eu perdoo-te.
São hoje amigos e viajam pelo mundo juntos.
Ela disse que nem que viesse todos os dias pedir-lhe perdão durante onze anos ele a deveria perdoar.
Ele só disse:
- Eu perdoo-te.
São hoje amigos e viajam pelo mundo juntos.
nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio próprio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado próximas
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu me tenha fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas
e.e.cummings
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio próprio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado próximas
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu me tenha fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas
e.e.cummings
sábado, julho 11, 2009
Acho que é a isto que o VPV chama «o triunfo do trash»
Li no Público que a jornalista (não fixei o nome), autora do blog a pipoca mais doce, é a «mulher mais invejada de Portugal». Parece que ganhou um concurso de votação dos telespectadores da Sic Mulher. Até aqui, a minha curiosidade estava quase no zero.
Depois li que:
Autora do blog "A Pipoca Mais Doce" é a vencedora da "Eleição da Mulher Mais Invejada de Portugal", uma iniciativa Red Q by Delta Q. É a mulher que mais inspira os portugueses através da sua forma de pensar e escrever.
Fiquei curioso com a última frase.
Ainda mais porque o blog dela tem mais visitas diárias do que o Abrupto (um dos blogs nacionais mais visto).
Fui lá e deparei-me com isto:
Quinta-feira, Julho 09, 2009
Onze e meia da noite. Estou com o portátil na mesa da sala, a escrever textos atrás de textos. Ele está no sofá, com o comando da Playstation. A fazer o quê? A mudar os nomes dos jogadores do PES. Compenetradíssimo, nem fala. Parece-me justo.
Ohhhhhhhhh! O "Pipoca Mais Doce-the book" foi à praia, amoroso. E onde é que ele foi à praia? À Fonte da Telha? Não. À praia da Rocha? Não. A Carcavelos? Não. Foi mesmo a Cabo Verde. Infelizmente, não fui eu que o levei até lá, mas sim a Alexandra Palma, uma leitora daquelas que até dá gosto. Espero que lhe tenhas posto protector e braçadeiras, que isto é um livro sensível.
Depois li que:
Autora do blog "A Pipoca Mais Doce" é a vencedora da "Eleição da Mulher Mais Invejada de Portugal", uma iniciativa Red Q by Delta Q. É a mulher que mais inspira os portugueses através da sua forma de pensar e escrever.
Fiquei curioso com a última frase.
Ainda mais porque o blog dela tem mais visitas diárias do que o Abrupto (um dos blogs nacionais mais visto).
Fui lá e deparei-me com isto:
Quinta-feira, Julho 09, 2009
Onze e meia da noite. Estou com o portátil na mesa da sala, a escrever textos atrás de textos. Ele está no sofá, com o comando da Playstation. A fazer o quê? A mudar os nomes dos jogadores do PES. Compenetradíssimo, nem fala. Parece-me justo.
Ohhhhhhhhh! O "Pipoca Mais Doce-the book" foi à praia, amoroso. E onde é que ele foi à praia? À Fonte da Telha? Não. À praia da Rocha? Não. A Carcavelos? Não. Foi mesmo a Cabo Verde. Infelizmente, não fui eu que o levei até lá, mas sim a Alexandra Palma, uma leitora daquelas que até dá gosto. Espero que lhe tenhas posto protector e braçadeiras, que isto é um livro sensível.
Muito se falou do gesto de Manuel Pinho. Muito se censurou (António Barreto revelou que gosta de dar pontapés em cães mortos) e parodiou com o sucedido. Da minha parte, nem um átomo de humor acrescentarei, nem fiz forward de qualquer graçola. Ele foi demitido (ou demitiu-se). Saiu. E a punição foi maior do que o crime.
Os políticos fazem promessas que não cumprem, insultam-se pessoalmente, um deputado do PSD já interpelou outros para irem lá foram resolver o assunto (ainda em 2009). O João Jardim já fez duas mil coisas bem piores, como por exemplo dizer que não queria chineses e indianos na sua ilha.
Porque é que o gesto teve tão tremendo impacto?
Porque vivemos na era da imagem. E na sociedade hodierna uma imagem é mais demolidora do que qualquer arrazoado de argumentos.
Os políticos fazem promessas que não cumprem, insultam-se pessoalmente, um deputado do PSD já interpelou outros para irem lá foram resolver o assunto (ainda em 2009). O João Jardim já fez duas mil coisas bem piores, como por exemplo dizer que não queria chineses e indianos na sua ilha.
Porque é que o gesto teve tão tremendo impacto?
Porque vivemos na era da imagem. E na sociedade hodierna uma imagem é mais demolidora do que qualquer arrazoado de argumentos.
Hemingway dizia que só podia escrever sobre o que se conhecia. Ele pescava, caçava, era aficionado de touradas, de boxe, de restaurantes e bebida e os universos da pesca da caça, das touradas, do boxe, de restaurantes, bebida. Viajava muito pelo mundo e escrevia sobre os locais onde ia. Esteve na guerra civil de Espanha. e escreveu sobre ela.
Lobo Antunes pensa exactamente o contrário. Acha que a literatura que se cinja a uma época e um espaço tem um valor perecível. Escreveu O meu nome é legião sem nunca ter ido a um bairro social. Imaginou tudo de fora. Do outro lado do tapume que cobre o bairro. Investigar para ele é jornalismo. A literatura, para ele, é uma coisa maior.
Lobo Antunes pensa exactamente o contrário. Acha que a literatura que se cinja a uma época e um espaço tem um valor perecível. Escreveu O meu nome é legião sem nunca ter ido a um bairro social. Imaginou tudo de fora. Do outro lado do tapume que cobre o bairro. Investigar para ele é jornalismo. A literatura, para ele, é uma coisa maior.
A cidade e as serras
- Angel, devias estar aqui. Isto é uma maravilha. Alguém precisa de fazer uma sopa e o vizinho dá logo a couve, alguém quer um fruto, basta apanhar do chão.
Peter Singer explica que os laços de solidariedade rural são muito mais fundos porque no campo, ao contrário da urbe, as pessoas convivem entre si com um horizonte temporal muito mais dilatado. Isto é: alguém que esteja na aldeia e a quem vão bater à porta a pedir ovos e recuse, sabe que da aldeia nunca mais receberá nada. Na cidade, há mais gente, as pessoas mudam de sítio e alguém pode morrer ao nosso lado que não estremeceremos.
Peter Singer explica que os laços de solidariedade rural são muito mais fundos porque no campo, ao contrário da urbe, as pessoas convivem entre si com um horizonte temporal muito mais dilatado. Isto é: alguém que esteja na aldeia e a quem vão bater à porta a pedir ovos e recuse, sabe que da aldeia nunca mais receberá nada. Na cidade, há mais gente, as pessoas mudam de sítio e alguém pode morrer ao nosso lado que não estremeceremos.
Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
Livros são papéis pintados com tinta.
Assim escreveu Pessoa.
Anos antes, Walt Whitman já escrevera interpelando o leitor que deixasse os livros e as bibliotecas de lado e partisse como ele (pelo poema) em busca da Natureza e da beleza do mundo. Whitman ilude-nos da forma mais bela: lemos o livro pedindo-no que larguemos os livros e nós acreditamos que o seguimos no seu caminho pela fauna e flora, pelos mundos do mundo, não nos apercebendo que tudo isso acontece dentro da leitura.
O poder da Literatura é tão extraordinário que usufruímos de uma frase «O sol doira sem literatura» como se estivéssemos fora dela. Mas é dentro dela que sentimos esse prazer, essa libertação dela. É paradoxal, mas é um prodígio de subtileza.
Angel
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
Livros são papéis pintados com tinta.
Assim escreveu Pessoa.
Anos antes, Walt Whitman já escrevera interpelando o leitor que deixasse os livros e as bibliotecas de lado e partisse como ele (pelo poema) em busca da Natureza e da beleza do mundo. Whitman ilude-nos da forma mais bela: lemos o livro pedindo-no que larguemos os livros e nós acreditamos que o seguimos no seu caminho pela fauna e flora, pelos mundos do mundo, não nos apercebendo que tudo isso acontece dentro da leitura.
O poder da Literatura é tão extraordinário que usufruímos de uma frase «O sol doira sem literatura» como se estivéssemos fora dela. Mas é dentro dela que sentimos esse prazer, essa libertação dela. É paradoxal, mas é um prodígio de subtileza.
Angel
Quando vejo uma pessoa ao espelho, ela parece-me diferente da forma como a vejo através dos meus olhos. O espelho empalidece, distorce um pouco, de espelho para espelho as cores do rosto são diferentes. Nenhum espelho é cem por cento limpo e cristalino.
Já pensaste que nunca te viste? Só te viste em espelhos ou fotografias ou filmagens. Tu nunca viste, nem verás o teu rosto.
Já pensaste que nunca te viste? Só te viste em espelhos ou fotografias ou filmagens. Tu nunca viste, nem verás o teu rosto.
Sabe porque é que não gosto do tempo em que vivo? É porque há tanto trash! Em proporção, é uma particularidade deste tempo. Numa parede de Pompeia estava escrito «Caius deu aqui uma grande foda.» Há sempre gajos para fazer isso. Há umas coisas permanentes. Aquilo de que eu não gosto na sociedade de hoje é que as paredes estão cheias disso. Hoje, você liga a televisão e só vê: vamos dar, já demos e variações sobre isso. O que me chateia é isso: o estreitamento do espírito. Eu acho graça que o Caius tenha dado uma grande foda em Pompeia mas acho graça porque isso prova a literacia daquela gente. Mas quanto à foda propriamente dita não estou muito interessado. O que há-de um gajo pensar sobre isso? O A pôs-se no B, o Y anda com z. Isso está demasiado presente. Nas telenovelas, nas canções, nos livros. Em toda a parte. A dimensão histórica das pessoas perdeu-se.
Vasco Pulido Valente, entrevista à Ler
Vasco Pulido Valente, entrevista à Ler
Entre todos os seres da Terra, só o Homem é livre - Kant sugeriu que a liberdade é o divino em nós -, e, assim, responsável e moral, só ele tem a capacidade de razão abstracta, de autoposse, só ele se sabe sujeito de obrigações para lá das instâncias meramente instintivas, só ele pode sorrir, só ele é animal simbólico e simbolizante, só ele é capaz de amor de doação, o animal também sabe, mas só o Homem sabe que sabe, só ele é capaz de autoconsciência, de linguagem duplamente articulada, de sentido do passado e do futuro, de promessas, de criação e contemplação da beleza, de descida à sua intimidade e subjectividade pessoal, só ele sabe que é mortal e gasta tempo com os mortos e espera para lá da morte, só ele pergunta e fá-lo ilimitadamente, só ele cria instituições jurídicas e compõe música, só ele tem de confrontar-se com a questão da transcendência e do Infinito...
Recentemente, os jornais faziam-se eco da preocupação das autoridades inglesas porque uma percentagem elevada de jovens (10%) se queixa do vazio existencial, sentindo a vida como insignificante e não valendo a pena. Investigadores sociais e psiquiatras não têm dúvidas de que o vazio e a frustração existencial são uma das causas maiores dos desequilíbrios do Homem contemporâneo. Não faltam investigações científicas que mostram que a carência de sentido está frequentemente na base da dependência da droga, do alcoolismo, da criminalidade, do suicídio. Outras investigações chegam à mesma conclusão pela positiva: há, por exemplo, conexão entre a prática de uma religião e o sentimento de felicidade e uma vida mais longa. Entre as razões para essa ligação está precisamente o facto de a dimensão espiritual ajudar a fixar um sentido para a existência: quem vive e vê a sua vida integrada numa totalidade com sentido e sentido último resiste mais e melhor também em termos físicos e mentais.
Anselmo Borges
Recentemente, os jornais faziam-se eco da preocupação das autoridades inglesas porque uma percentagem elevada de jovens (10%) se queixa do vazio existencial, sentindo a vida como insignificante e não valendo a pena. Investigadores sociais e psiquiatras não têm dúvidas de que o vazio e a frustração existencial são uma das causas maiores dos desequilíbrios do Homem contemporâneo. Não faltam investigações científicas que mostram que a carência de sentido está frequentemente na base da dependência da droga, do alcoolismo, da criminalidade, do suicídio. Outras investigações chegam à mesma conclusão pela positiva: há, por exemplo, conexão entre a prática de uma religião e o sentimento de felicidade e uma vida mais longa. Entre as razões para essa ligação está precisamente o facto de a dimensão espiritual ajudar a fixar um sentido para a existência: quem vive e vê a sua vida integrada numa totalidade com sentido e sentido último resiste mais e melhor também em termos físicos e mentais.
Anselmo Borges
sexta-feira, julho 10, 2009
Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega
Herberto Helder
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega
Herberto Helder
quinta-feira, julho 09, 2009
Vasco Pulido Valente diz que reler os livros que o impressionaram quando era novo lhe trouxe grandes dissabores. Hemnigway, Steinbeck e Caldwell parecem-lhe agora «frágeis». Quem o apaixonava e «me continua a parecer nada frágil» é Scott Fitzgerald. Fiquei feliz por partilharmos esta admiração pelo mesmo escritor (no meu caso, fascínio será a palavra).
- A esquerda diz que a criminalidade se resolve toda através das chamadas condições sociais, mas eu ainda estou para ver um estudo que demonstre que, ninguém toda, mas que grande parte da criminalidade vem da pobreza e da exclusão social. Mas mesmo que assim fosse, até que a pobreza e a exclusão social acabem - o que me parece um cenário longínquo - qual é a política de segurança no curto e médio prazo? Se todas as condições sociais fossem ideais, ainda assim a criminalidade persistia, porque sistema algum consegue remover a perversidade e o egoísmo.
quarta-feira, julho 08, 2009
terça-feira, julho 07, 2009
Para o hinduísmo e o budismo, o que somos é também fruto de sombras de vidas passadas. Se, por exemplo, desde pequenos, gostamos de tocar piano é porque outrora este objecto esteve numa vida passada muito ligado a nós. Terá havido um momento, um ponto da existência em que éramos todos iguais, todos tábua rasa e que, a partir daí, cada um trilhou a sua alma...?
O Círculo
Ele estava de pé.
O outro disse-lhe:
- Deixa-te estar assim imóvel. Não te mexas, deixa-me fazer uma coisa.
- Então?
- Espera só um minuto. Fica quieto.
- Mas o que é?
- Espera, já vais perceber.
E, com um pedaço de giz, traçou um círculo em volta do outro.
- Não vais conseguir sair do círculo.
O outro tentou e não conseguia.
- Não vais conseguir.
- O quê? Que disparate.
- Não vais.
O outro ficou com medo.
- Apaga-me isto!
Insistiu:
- Apaga-me isto já!
O outro apagou uma porção do círculo e ele saiu por aí.
O outro disse-lhe:
- Deixa-te estar assim imóvel. Não te mexas, deixa-me fazer uma coisa.
- Então?
- Espera só um minuto. Fica quieto.
- Mas o que é?
- Espera, já vais perceber.
E, com um pedaço de giz, traçou um círculo em volta do outro.
- Não vais conseguir sair do círculo.
O outro tentou e não conseguia.
- Não vais conseguir.
- O quê? Que disparate.
- Não vais.
O outro ficou com medo.
- Apaga-me isto!
Insistiu:
- Apaga-me isto já!
O outro apagou uma porção do círculo e ele saiu por aí.
Amizade, it´s always better when we´re together
Há uma semana:
- Tu vais voltar cedo de Angola.
- Achas? Curtia tar lá pelo menos um ano.
Hoje:
«Estou de volta. Liga quando estiveres acordado.»
- Tu vais voltar cedo de Angola.
- Achas? Curtia tar lá pelo menos um ano.
Hoje:
«Estou de volta. Liga quando estiveres acordado.»
segunda-feira, julho 06, 2009
«Farrah Fawcett aceitou fazer um documentário sobre a sua luta contra o cancro. No fim desse filme, com a câmara na mão, volta-se para nós e pergunta: "and you, what are you fighting for?". É o instante mais belo de toda a sua carreira cinematográfica; mirrada pela doença, com o corpo e a famosa cabeleira destruídos pela quimioterapia, transformada apenas em sorriso e força pura; Farrah Fawcett interpela-nos: o que nos move? Qual é a nossa luta? O que fazemos com os nossos dias?»
Inês Pedrosa
Inês Pedrosa
Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver
"Lisboa"
Sophia de Mello Breyner Andresen
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver
"Lisboa"
Sophia de Mello Breyner Andresen
domingo, julho 05, 2009
Agora, as gotas de chuva que caem sobre a piscina, espaçadas e imprevisíveis, parecem-me a imagem que melhor descreve aquilo que existe dentro de mim e, no entanto, sei que se me sentasse a imaginar uma imagem concreta para este sentimento, nunca me lembraria desta visão simples, aqui, à minha frente: gotas de chuva a caírem sobre a piscina.
José Luís Peixoto
José Luís Peixoto
sábado, julho 04, 2009
- Nós não temos entendimento para isto, imaginação sequer. Porquê tudo isto? Porquê o céu, a terra, a vida, a morte, o mar, o macho, a fêmea, a reprodução, a infinidade de vidas animais, o sortido imenso da flora, o dia, a noite, a complexidade das vísceras, do cérebro, esta máquina toda da existência só num pontinho onde há outro 800 milhões de galáxias com milhões de outros planetas cada com um sem-número de mundos e de vidas - se é que vidas lhe podemos chamar - porquê tudo isto e porquê tudo isto assim? O acordar, o deitar. Só entender as relações humanas, puuuuuuuu! E isto é um microponto de algo tão maior e sucessivamente maior que nem temos estrutura para abarcar, mas é que nem um relance de uma pequena porção disto tudo... E o infinitamente superior também existe em sentido descendente. Podes dissecar um grão de areia e ir descendo, descendo, descendo, átomos, sub-átomos e assim continuares sendo sempre possível continuar a partir em mais diminutas e minúsculas partículas.
- Quando tu tens uma namorada ou um namorado, há uma série de pontos que tu tens que partilhas com a tua companheira ou companheiro, mas há sempre alguns que ficam de fora. Esses outros fazem parte de ti e se tu não os desenvolves com outras pessoas, estás a anular uma parte de ti, a diminuir-te. A mim faz-me confusão. Não só gosto não de me diminuir, como estou numa fase de me querer expandir.
sexta-feira, julho 03, 2009
O problema central da análise marxista: se a teoria da mais-valia nos diz que todos os trabalhadores são explorados, o que acontece numa empresa com prejuízos?
Outra questão: uma trabalhador como o Cristiano Ronaldo é conceptualmente explorado? Sim, ok. Mas então como convencê-lo a preferir não ser explorado conceptualmente mas ganhando apenas cento e cinquenta contos por mês?
Outra questão: uma trabalhador como o Cristiano Ronaldo é conceptualmente explorado? Sim, ok. Mas então como convencê-lo a preferir não ser explorado conceptualmente mas ganhando apenas cento e cinquenta contos por mês?
Vago, boiando, louco
Quando me encapsulo no meu mundo, do contacto com o real nascem-se tantas tontarias. Hoje, ao passar por um polícia, enquanto recordava um sonho, sorri-lhe largamente. Olhava-o mas não o olhava, trespassava-o com o olhar fito no sonho. E ele assustou-se e deu um pulinho para trás.
Sou contra a censura. Há coisas que abomino na televisão hodierna e que não via há quinze anos, por exemplo. E há coisas que pela sua profundidade, como o programa conversas vadias, que nunca mais voltei a encontrar na televisão.
Outro dia, vi o cinco para a meia-noite e fiquei chocado por fazerem sete ou oito piadas sobre a morte do Michael Jackson. Acho que se fosse familiar ou fã dele que ficaria revoltado. O disco Bad agora chamar-se-ia Dead, «não sei se é uma boa ou má notícia a morte do MJ» [MAS O QUE É ISTO?], com tantas plásticas nem há caixão que lhe valha. Ainda neste programa, vi brincarem com o cancro no pâncreas de António Feio. Num outro programa que passa vídeos cómicos, qualquer coisa como «isto só vídeo», passaram alguém que ia morrendo sufocado. Mas como se alimenta uma perversão destas que é rir-mo-nos de alguém a morrer?
É uma degradação da liberdade de expressão.
Outro dia, vi o cinco para a meia-noite e fiquei chocado por fazerem sete ou oito piadas sobre a morte do Michael Jackson. Acho que se fosse familiar ou fã dele que ficaria revoltado. O disco Bad agora chamar-se-ia Dead, «não sei se é uma boa ou má notícia a morte do MJ» [MAS O QUE É ISTO?], com tantas plásticas nem há caixão que lhe valha. Ainda neste programa, vi brincarem com o cancro no pâncreas de António Feio. Num outro programa que passa vídeos cómicos, qualquer coisa como «isto só vídeo», passaram alguém que ia morrendo sufocado. Mas como se alimenta uma perversão destas que é rir-mo-nos de alguém a morrer?
É uma degradação da liberdade de expressão.
É quase consensual que há uma crise de valores. As pessoas já não acreditam nos políticos. Os partidos parece que já nem apresentam soluções. Falta imaginação. A realidade é que num mundo globalizado, a partir do momento em que as políticas são feitas de forma global, há menos espaço para a imaginação.
A minha proposta: a defesa dos direitos humanos. Quais? Basta pegar na carta de 1948. Se conseguirmos garantir tudo o que nela está escrito, nada mais é preciso. Todos os homens têm de ter a base: casa, cuidados de saúde, alimentação, vestuário. Não é difícil garantir o mínimo a todos. E a liberdade de opinião, de clube de futebol, de credo, de orientação sexual, não custa nada. A carta de 1948, eis os valores a que nos devemos agarrar e erigir como uma referência global.
E, claro está, os direitos humanos não são tudo, porque não englobam os seres sencientes, isto é todos os seres capazes de experienciar prazer e todos (não são todos os animais). A ciência já sabe que alguns garantidamente sentem (um porco e um cavalo sentem sofrimento psicológico e não apenas físico). Os que garantidamente não sentem, podem ser excluídos da lista. Os que ainda não se sabe que sentem, terão de ter o benefício da dúvida e verem-lhe ser reconhecidos direitos.
(em 3000, veremos se não tenho razão)
A minha proposta: a defesa dos direitos humanos. Quais? Basta pegar na carta de 1948. Se conseguirmos garantir tudo o que nela está escrito, nada mais é preciso. Todos os homens têm de ter a base: casa, cuidados de saúde, alimentação, vestuário. Não é difícil garantir o mínimo a todos. E a liberdade de opinião, de clube de futebol, de credo, de orientação sexual, não custa nada. A carta de 1948, eis os valores a que nos devemos agarrar e erigir como uma referência global.
E, claro está, os direitos humanos não são tudo, porque não englobam os seres sencientes, isto é todos os seres capazes de experienciar prazer e todos (não são todos os animais). A ciência já sabe que alguns garantidamente sentem (um porco e um cavalo sentem sofrimento psicológico e não apenas físico). Os que garantidamente não sentem, podem ser excluídos da lista. Os que ainda não se sabe que sentem, terão de ter o benefício da dúvida e verem-lhe ser reconhecidos direitos.
(em 3000, veremos se não tenho razão)
- A grande questão é sabermos o que fazemos aqui. O grande mistério é a criação. Eu não gosto da palavra Deus, mas acho difícil isto tudo ter surgido incriado. Porra, isto tudo! Caramba. Falem-me do Big Bang e eu perguntarei logo: mas e o que é que dei origem ao Big Bang? Um tipo olha lá para cima e pensa: esta imensidão lá em cima, isto tudo não tem um sentido? E porquê isto tudo? Acaso? Acaso é o nome que damos ao que não conseguimos explicar. E porquê isto tudo e não nada? E porquê sequer a possibilidade de se poder conceber isto tudo ou nada? Às vezes, perguntam-me se acredito na vida depois da morte? Eu não acredito nem deixo de acreditar. Não tem é lógica isto desaguar em nada. Tanta experiência, tanta aprendizagem, tanta luta... Não porra, não faz sentido! Os hindus dizem que renascemos, e que andamos cá até atingirmos o nirvana, a plenitude, e que subimos e descemos degraus no caminho espiritual até atingirmos esse estádio em que dispensamos voltar a um corpo. Ok, mas assim: e isso para quê? Qual a finalidade? Qual o propósito?
Velho Ancião
Velho Ancião
Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.
Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.
Paul Eluárd
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.
Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.
Paul Eluárd
Morte em Veneza
Quando li o livro (uma obra-prima deliciosa de Thomas Mann) da história do homem de meia-idade que fica loucamente encantado com a beleza em estado puro que é um miúdo de 14 anos (Tadzio), não tive imaginação suficiente para conceber tal rosto (alguém me disse que só conseguimos imaginar rostos que já vimos um dia). Como será esse rosto na tela? Seguramente que irá matar o livro qualquer que seja a cara escolhida.
Visconte encarregou-se de me demonstrar que estava errado.
Fiquei abismado com o Tadzio do filme. Olhar para a beleza andrógina de Tadzio no ecrã mexeu comigo.
Visconte encarregou-se de me demonstrar que estava errado.
Fiquei abismado com o Tadzio do filme. Olhar para a beleza andrógina de Tadzio no ecrã mexeu comigo.
quinta-feira, julho 02, 2009
É um péssimo patrão. Assedia-tudo-o-que-é-mulher-mandando-as-embora-quando-não-lhe-dão-o-que-quer, é capaz de gastar um balúrdio num software mas esmifrar o parco salário dos seus trabalhadores até ao limite, é ultra-manipulador, rebaixa o ego das pessoas para fazer sentir que são uma merda e que se não fosse ele elas estariam debaixo da ponte, não trabalha uma vírgula e erige os seus lucros sob o suor alheio, grita e humilha pessoas quando algo lhe corre mal na vida. Contudo, quando ia a andar de táxi, no final, deixou uma generosa gorjeta de cinco euros. Contudo, quando estava num lançamento de um livro, viu um segurança de pé e disse:
- Coitado, está aqui tantas horas de pé.
E comprou um livro e ofereceu-lhe.
Ninguém é absolutamente bom ou mau. Ninguém é absolutamente coerente.
- Coitado, está aqui tantas horas de pé.
E comprou um livro e ofereceu-lhe.
Ninguém é absolutamente bom ou mau. Ninguém é absolutamente coerente.
Anedotas by Miguel Pinto
O BATMAN ENTRA NA SUA BAT-MANSÃO, VAI ATÉ AO SEU BAT-ELEVADOR, E DESCE ATÉ À SUA BAT-CAV. QUANDO ELE CHEGA LÁ, COMO É QUE ELE ACENDE AS LUZES?
BAT-PALMAS.
DE SEGUIDA, ABRE O SEU BAT-ARMÁRIO E VESTE O SEU BAT-BLAZER. PARA ONDE VAI ELE?
PARA UM BAT-ZADO.
ENTRA PARA O SEU BATMOBILE E FAZ-SE À ESTRADA. CHEGA, ESTACIONA E SAI DO CARRO. PORQUE É QUE ELE SE DÁ AO TRABALHO DE FECHAR O CARRO COM O ALARME?
TEM MEDO QUE O ROBIN.
BAT-PALMAS.
DE SEGUIDA, ABRE O SEU BAT-ARMÁRIO E VESTE O SEU BAT-BLAZER. PARA ONDE VAI ELE?
PARA UM BAT-ZADO.
ENTRA PARA O SEU BATMOBILE E FAZ-SE À ESTRADA. CHEGA, ESTACIONA E SAI DO CARRO. PORQUE É QUE ELE SE DÁ AO TRABALHO DE FECHAR O CARRO COM O ALARME?
TEM MEDO QUE O ROBIN.
«Mas a palavra hebraica timshel — «tu podes» — é o que nos dá o poder da escolha. Deve ser a palavra mais importante do mundo. Que nos assegura que o caminho está totalmente aberto. Que devolve ao homem o essencial, que o recentra como elemento fundamental da vida, das escolhas, da acção, do presente e do futuro.»
John Steinbeck, A Leste do Paraíso
John Steinbeck, A Leste do Paraíso
Apesar de a luminosidade
outrora tão brilhante
Estar agora para sempre afastada do meu olhar,
Ainda que nada possa devolver o momento
Do esplendor na relva,
da glória na flor,
Não nos lamentaremos, inspirados
no que fica para trás;
Na empatia primordial
que tendo sido sempre será;
Nos suaves pensamentos que nascem
do sofrimento humano;
Na fé que supera a morte,
Nos tempos que anunciam o espírito filosófico.
William Wordsworth
outrora tão brilhante
Estar agora para sempre afastada do meu olhar,
Ainda que nada possa devolver o momento
Do esplendor na relva,
da glória na flor,
Não nos lamentaremos, inspirados
no que fica para trás;
Na empatia primordial
que tendo sido sempre será;
Nos suaves pensamentos que nascem
do sofrimento humano;
Na fé que supera a morte,
Nos tempos que anunciam o espírito filosófico.
William Wordsworth
quarta-feira, julho 01, 2009
:)
Uma mãe a falar-me do filho:
- Ele é um... só me apetece comê-lo de tanto que gosto dele. E nunca me farto dele por mais cansada que esteja.
- Ele é um... só me apetece comê-lo de tanto que gosto dele. E nunca me farto dele por mais cansada que esteja.
A tasca aconselha
Uma ilha desabitada na Escócia, 1939, pré segunda Guerra; uma pequena expedição enviada pelo governo britânico; dois amigos cientistas - dois homens: Robert (Hugo Bettencourt) e John (Frederico Barata), uma mulher: Ellen (Cleia Almeida), uma fatalidade. É neste cenário lúdico e paradisíaco que vemos surgir uma história de mistério, paixão, amor e de ciúme em que a tensão sexual vai crescendo entre os três jovens e um ardente triângulo amoroso vai desencadear um conflito que vai abalar as profundas convicções de cada um. Será a missão realmente tão simples? O que fica por detrás do que foi realmente falado? O que se pode imaginar que explode das pulsões humanas nessas circunstâncias?
Tudo isso pode conhecer em “Ilhas Distantes”, montagem de “
Outlying Island”, de David Greig. A estreia, em 2002, aconteceu no Traverse Theatre, em Edimburgo, Escócia. Desde então tem percorrido o mundo, com sucesso. David Greig fundou o Theatre Group Suspect Culture, escreveu peças para o Traverse Theatre, para o festival de Edimburgo, para a Royal Shakespeare Company e para os Teatros Nacionais Escocês e Inglês, criando peças poéticas e populares - o que já o credencia como dramaturgo de importância.
“Ilhas Distantes é selvagem, estranho, fascinante e profundamente inquietante” – The Guardian --, é uma das importantes críticas que vem recebendo desde então.
Função
De 3 a 25 de Julho na Comuna, Teatro de Pesquisa – Sala Novas Tendências.
Sextas e Sábados às 21h30
Comuna, Teatro de Pesquisa
Praça de Espanha | Lisboa
Reservas e Info:
GSM +351 961 271 291 | +351 912 320 165 | E-Mail: ilhasdistantes@gmail.com
Classificação Etária: M/16 anos.
Bilhetes: de 10€ (preço normal) e 8€ (estudantes e profissionais do espectáculo).
Fotografias da Estreia:
http://picasaweb.google.pt/ilhasdistantes/EstreiaFotosDeTaniaAraujo?feat=directlink
http://picasaweb.google.pt/ilhasdistantes/EstreiaFotosDeCarlosMuralhas?feat=directlink
FICHA TÉCNICA:
Encenação: João Craveiro | Tradução: Hugo Bettencourt
Elenco: Cleia Almeida, Frederico Barata, Hugo Bettencourt, Paulo B.
Desenho de Luz: Hugo Moita Claro | Musica Original: João Craveiro
Desenho de Som: Tiago Inuit | Design - Cartaz: Pedro M. Leitão
Design – Produção: Som&Design | Fotografia: MEF
Produção, Acessoria de Imprensa & Promoção: Transilvânia Produções
Informações e Contacto: Transilvânia Produções
Rita Lima | GSM - +351 963 661 601 |
ritalima@transilvaniaproducoes.com | www.ilhasdistantes.blogspot.com
Tudo isso pode conhecer em “Ilhas Distantes”, montagem de “
Outlying Island”, de David Greig. A estreia, em 2002, aconteceu no Traverse Theatre, em Edimburgo, Escócia. Desde então tem percorrido o mundo, com sucesso. David Greig fundou o Theatre Group Suspect Culture, escreveu peças para o Traverse Theatre, para o festival de Edimburgo, para a Royal Shakespeare Company e para os Teatros Nacionais Escocês e Inglês, criando peças poéticas e populares - o que já o credencia como dramaturgo de importância.
“Ilhas Distantes é selvagem, estranho, fascinante e profundamente inquietante” – The Guardian --, é uma das importantes críticas que vem recebendo desde então.
Função
De 3 a 25 de Julho na Comuna, Teatro de Pesquisa – Sala Novas Tendências.
Sextas e Sábados às 21h30
Comuna, Teatro de Pesquisa
Praça de Espanha | Lisboa
Reservas e Info:
GSM +351 961 271 291 | +351 912 320 165 | E-Mail: ilhasdistantes@gmail.com
Classificação Etária: M/16 anos.
Bilhetes: de 10€ (preço normal) e 8€ (estudantes e profissionais do espectáculo).
Fotografias da Estreia:
http://picasaweb.google.pt/ilhasdistantes/EstreiaFotosDeTaniaAraujo?feat=directlink
http://picasaweb.google.pt/ilhasdistantes/EstreiaFotosDeCarlosMuralhas?feat=directlink
FICHA TÉCNICA:
Encenação: João Craveiro | Tradução: Hugo Bettencourt
Elenco: Cleia Almeida, Frederico Barata, Hugo Bettencourt, Paulo B.
Desenho de Luz: Hugo Moita Claro | Musica Original: João Craveiro
Desenho de Som: Tiago Inuit | Design - Cartaz: Pedro M. Leitão
Design – Produção: Som&Design | Fotografia: MEF
Produção, Acessoria de Imprensa & Promoção: Transilvânia Produções
Informações e Contacto: Transilvânia Produções
Rita Lima | GSM - +351 963 661 601 |
ritalima@transilvaniaproducoes.com | www.ilhasdistantes.blogspot.com
- A questão do plágio é muito complexa, porque muitas vezes o podemos fazer de forma inadvertida e o plágio aparece sempre como algo que não é sério. E muitas vezes não é o caso. Há coisas que lemos e que verbalizam algo que já estava cá dentro mas não que não tínhamos explanado por conceitos. É espantoso quando as coisas entram, quando penetram a carapaça e deslizam para dentro de nós como se cá estivessem sempre estado. Elas encaixam-se a nós e parece que são nossas.
Ele dava-se melhor com raparigas do que com rapazes. Ele tinha uma cor de pele mais branca. Ele tinha óculos e gozavam com ele por ser o «caixa-de-óculos». Ele era um excelente alunos e os colegas sublimavam a inveja inventando que ele «não tinha vida social» e - o mais estúpido dos anátemas - que era «maricas». Era humilhado nos balneários. Uma coisa aprecio nele: por mais que gozassem com ele, nunca deixou de jogar vólei. Era o único rapaz que jogava vólei. Todos os outros jogavam futebol. Outro rapaz que se juntava a ele no vólei era este que hoje escreve estas linhas (e como fico contente por saber que fiz o terceiro período inteiro a jogar vólei). O mais absurdo é que provavelmente ele nem era homossexual, tinha apenas uma sensibilidade interior muito mais rica do que os boçais, rudes e machizóides colegas. Uma sensibilidade talhada a filigrana.
Invoco-o agora que me surge na memória. Encontrei-o há meses. Chorou. Ainda hoje carrega feridas que não fecharam. Ainda hoje acorda de noite sobressaltado com a vozearia dos que o humilhavam no balneário. Faz psicoterapia há mais de dez anos.
Em que tribunal se vão sentar os seus torcionários da adolescência?
O Unabomber (que não me inspira compaixão, porque matou três pessoas, e o que a seguir se segue não é um exercício de tentar justificar, mas de tentar compreender) quando era mais novo, os rapazes dividiram a turma em dois: uns para o basquetebol, outros para o futebol. Ele não ficou em nenhum dos grupos. Quarenta anos depois, diz chorar sempre que recorda o episódio. Imaginam o que é a sensação de não nos reconhecerem sequer a existência? O que é ser pisado e repisado? Proscrito e vexado vez após vez até nos sentirmos como sendo essa a nossa condição natural?
Quem já foi até à Índia, se calhar compreende melhor estas palavras.
Invoco-o agora que me surge na memória. Encontrei-o há meses. Chorou. Ainda hoje carrega feridas que não fecharam. Ainda hoje acorda de noite sobressaltado com a vozearia dos que o humilhavam no balneário. Faz psicoterapia há mais de dez anos.
Em que tribunal se vão sentar os seus torcionários da adolescência?
O Unabomber (que não me inspira compaixão, porque matou três pessoas, e o que a seguir se segue não é um exercício de tentar justificar, mas de tentar compreender) quando era mais novo, os rapazes dividiram a turma em dois: uns para o basquetebol, outros para o futebol. Ele não ficou em nenhum dos grupos. Quarenta anos depois, diz chorar sempre que recorda o episódio. Imaginam o que é a sensação de não nos reconhecerem sequer a existência? O que é ser pisado e repisado? Proscrito e vexado vez após vez até nos sentirmos como sendo essa a nossa condição natural?
Quem já foi até à Índia, se calhar compreende melhor estas palavras.
- O Nicholas Cage não é nada bonito, mas tem qualquer coisa... Gosto muito dele.
Só uma alma feminina falaria assim. Assim como só uma alma feminina vê charme num septuagenário ou octogenário. Seja o Nicolau Breyner ou o Sean Connery. Os homens não dizem algo assim. E quando dizem mentem. (Como o Pedro Abrunhosa que diz que a mulher mais sedutora portuguesa é a Agustinha Bessa-Luís, mas depois és um compulsivo ninfoleptas de 15 anos.) É por isso que prefiro as mulheres aos homens. São mais evoluídas, mais libertas da carapaça animal.
Só uma alma feminina falaria assim. Assim como só uma alma feminina vê charme num septuagenário ou octogenário. Seja o Nicolau Breyner ou o Sean Connery. Os homens não dizem algo assim. E quando dizem mentem. (Como o Pedro Abrunhosa que diz que a mulher mais sedutora portuguesa é a Agustinha Bessa-Luís, mas depois és um compulsivo ninfoleptas de 15 anos.) É por isso que prefiro as mulheres aos homens. São mais evoluídas, mais libertas da carapaça animal.
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