terça-feira, junho 30, 2009

Tentarei vergar-te com doses sucessivas e crescentes de Bondade.
Quando sou transparente, o estigma do jogador persegue-me. Shit!
Ouço Carvalho da Silva dizer que não há «efectiva liberdade sindical» em Portugal. Também eu pertenci a uma empresa em que os trabalhos sindicalizados tinham de ouvir piadas e ralhetes da administração. Sim, ali havia tratamento diferenciado e repressão para quem aderia ao sindicato. Diz Carvalho da Silva que tal fenómeno é generalizado no tecido empresarial. Preocupante...
Com a tremenda subjectividade inerente a qualquer escolha, Fernando Dacosta elege Pessoa como a figura mais marcante da primeira metade do século XX português e Agostinho da Silva da segunda metade.

segunda-feira, junho 29, 2009

Conceitos que inventei sem os ir buscar a lado algum, mas que pelos vistos outros antes de mais também já «inventaram»

Pormaiores
Pós-conceitos (por oposição a preconceitos)
Num manual de Taekwondo, diz-se que para se executar um movimento como deve ser, tem de se o fazer 24 000 vezes.

Nicks do msn

A caminho dos trinta... com menos cabelo mas definitivamente com muito mais charme.
Sempre que posso optar, escolho pelo Estado. Ao contrário da cultura vigente, gosto de defender a coisa pública. Tinha de escolher um banco e escolhi a Caixa, por preconceito estatal. Não sei os spreads, a taxa de juro, mas sinto-me mais confortável lá. O Estado é como um papá.
Na Idada Média, o lorde podia usar do seu droit du seigneur e dormir a primeira noite com a noiva dos seus vassalos. Este droit du seigneur era uma decorrência legal chocante, mas hoje, sem lei (e já sem a virgindade), quantas mulheres não se horizontalizam para subir na televisão, nas passerelles, nos aviões?

O horror à vulgaridade

- Só gosto que gostem de mim pelas razões certas: por não ser facilmente acessível a minha beleza e por ser diferente de tudo o resto.
Despediu-se de mim com tristeza. Vai para fora sem motivação alguma que não o dinheiro.

Quantas pessoas conheces felizes com aquilo que fazem? Semifelizes? Que só trabalham para ganhar o seu?
every night i burn
every night i call your name

Robert Smith
Dava o pior de si sempre - irritava-se sobremaneira quando alguém lhe vislumbrava uma virtude - de forma que quando o rejeitassem, ficasse na dúvida se tal teria acontecido dando o melhor de si.
não escrevia com maiúsculas porque sentia que era considerar umas palavras mais importantes do que outras. abominava a ideia de umas letras maiores oprimirem outras mais pequeninas.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
[...]
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.


HH
- Tu és aquilo que amas e não aquilo que te ama.

Inadaptado
- Já não o via há quinze quilos atrás.

domingo, junho 28, 2009

Imagine-se dois seres completamente apaixonados um pelo outro (ele sim, ela nem por isso, mas para a história imagine-se que ambos).

Ela diz:

- Eu nunca daria o passo de beijar alguém. Só se tivesse 100% de certeza que ele queria. E mesmo assim, teria de ter o clima em que sabia que ele não teria hipótese de dizer não. Era bueda mau se quisesse beijar alguém e ser rejeitada.

Ele diz:

- Não teria coragem de a beijar. Tem de ser ela. Mas eu tenho de a beijar.

Imagine-se dois seres perpetuamente apaixonados e sem se moverem um mílimetro, ambos esperando um pelo outro. Como nascerá o beijo?
Não há um livro que reproduza a maneira como as pessoas realmente falam. Os discursos directos são sempre bem construídos e lineares. Mas as pessoas, quando falam, gaguejam, deixam frases incompletas, emitem murmúrios, recuam, pulam. Que manie de organizar, esquematizar e racionalizar o ser humano - ele é a coisa mais vasta, informe, multifacetada e ilógica que existe.

O Vasco de Graça Moura conta que um dia disse a um amigo:

- Não há discursos das personagens dos livros que me soem verdadeiros.

- Há. Os do Hemingway.

Decidiram pegar em livros do Hemingway e lerem alternadamente as falas.

Ambos exclamaram:

- Não, isto é uma imposturice! Uma artificialidade. Ninguém fala assim.
Falar do meu livro num minuto? Então para que estive a escrevê-lo durante dois anos?

António Lobo Antunes
- Nunca podemos ter a experiência da morte em vida. Mesmo quando sonho, muitas vezes imagino que morro, e até já vi o meu funeral, as pessoas a conversarem sobre mim, a chorarem, os lenços, tudo detalhado e nítido, mas ainda assim, mesmo eu a ver-me no caixão é sempre algo visto de fora. Acabo por ser um espectador daquilo tudo. Um observador externo da minha morte. É curioso que mesmo as pessoas que acreditam no Céu, ou na vida depois da morte, e que inclusivamente essa vida Lá é melhor; mesmo essas resistem a morrer. Porquê? É a nossa carapaça animal que reage, que instintivamente se eriça e diz: não quero morrer. Sempre. A carapaça animal está sempre lá, por mais certa e por mais bela que seja a vida depois da morte na nossa cabecinha.


Velho Ancião



Descobri, para meu espanto, que o homem que mais reúne o consenso entre as minhas amigas é o porteiro do Incógnito, vulgo D´Artagnan.
O artista megalómano pensa:

- Nunca a Arte reflectiu os sonhos como eles são. Talvez que a Pintura tenha sido, de todas as artes, aquela que se aproximou mais, ainda assim, da matéria dos sonhos... Os sonhos - curioso, pensá-lo - nunca foram retratados na sua essência. Eles são caóticos, fragmentados, ilógicos, saltitantes, disconexos. Mesmo pensamento, o pensamento humano que na Literatura, por exemplo, surge linear e sem falhas, racional e sequencial... que disparate! O pensamento «pensa» e «sente» ao mesmo tempo tanta coisa... Salta de z para f e de g para c com cedilha, mas nos livros é sempre a, b, a + b = a + b. Hei-de reflectir na Arte o sonho e o pensamento, mais aproximadamente do que eles são.

sábado, junho 27, 2009

Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.

Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.

O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há! Estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "Tá! Tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banalidades, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição.

Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso
Pobre de mim! Oh vida! Os problemas com que me defronto,
Os cortejos sem fim dos incrédulos, as cidades cheias de loucos,
As censuras que faço sempre a mim próprio (pois quem é mais louco do que eu, e quem é mais incrédulo?),
Os olhos que em vão imploram a luz, os objectivos vis, a luta sempre renovada,
Os miseráveis resultado de todo o sistema, as sórdidas multidões que vejo arrastarem-se à minha volta,
Os anos vazios e inúteis dos outros, eu que a eles estou abraçado,
A questão, pobre de mim! com que, tão triste, me defronto – Para
que serve tudo isto, pobre de mim, oh vida?

Resposta:
Serve para que estejas aqui – a vida e a identidade existem,
O espectáculo intenso prossegue e tu podes contribuir com o teu verso.

Walt Whitman
I never felt like this with anyone before
You only have to smile and I'm dizzy
You make the world go round
A thousand times an hour
Just touch my head
And send me spinning

I never felt like this with anyone before
You show me colours and I'm crying
You hold my eyes in yours
And open up the world
I can't believe all this

I want to keep this feeling
Deep inside of me
I want you always in my heart
You are everything


The Cure

Survivor

No filme, um homem agarrava-se à corda e outros tentavam salvá-lo puxando-o. Um outro agarrava-se ao seu pé. Só conseguia ser salvo se primeiro o que segurava a corda fosse salvo. A corda subia, mas a certa altura ia cedendo... Dos homens que içavam a corda, a certa altura ouve-se:

- Ou te libertas do que tens à perna, ou morres. Ou morrem os dois ou só morres tu.

Ele desembaraça-se com pontapés do outro que implora:

- Não me deixes morrer!


Reflexões:

a) Há situações-limite que nos permitem conhecer facetas nossas que não imaginamos (nem vale a pena especular como seria);

b) É apenas racionalidade dizer que entre morrerem duas ou uma, mais vale morrer uma. Continua a ser racionalidade matar uma para salvar a outra. Buda, num dos seus sermões, diz que não se deve matar, mas alerta para o problema da rigidez das regras: se um condutor de um barco que leva 500 pessoas quiser afogá-las todas, justifica-se matá-lo, e não sacrificar 499 pessoas.

C) Esperança é, como alguém escreveu, ter o filho morto nos braços e continuar a chamar por ele.



Remember the first time I told you I love you -
It was raining hard and you never heard -
You sneezed! and I had to say it over
"I said I love you" I said... you didn't say a word
Just held your hands to my shining eyes
And I watched as the rain ran through your fingers
Held your hands to my shining eyes and smiled as you kissed me...

"if you die" you said "so do i" you said...
And it starts the day you make the sign
"tell me I'm forever yours and you're forever mine
Forever mine... "

"if you die" you said "so do i" you said...
And it starts the day you cross that line
"swear I will always be yours and you'll always be mine
You'll always be mine
Always be mine... "

Remember the last time I told you I love you -
It was warm and safe in our perfect world -
You yawned and I had to say it over
"I said I love you" I said... you didn't say a word
Just held your hands to your shining eyes
And I watched as the tears ran through your fingers
Held your hands to your shining eyes and cried...

"if you die" you said "so do i" you said...
But it ends the day you see how it is
There is no always forever... just this...
Just this...

"if you die" you said "so do i" you said
But it ends the day you understand
There is no if... just and

There is no if... just and

There is no if...

sexta-feira, junho 26, 2009

Programas da 2

- Na poesia da Sophia, as palavras parece que foram lavadas, parece que brilham, e são as mesmas palavras simples que usamos no dia-a-dia, mas que quando as pomos na boca parece que ficam limpas, que lhes passaram um pano por cima.
Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado os teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones a tua ânsia de fazer da tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias podem, sim, mudar o mundo.
Porque passe o que passar, a nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas da nossa própria história.
Ainda que o vento sopre em sentido contrário, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode o homem ser livre.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, nem fujas.
Valoriza a beleza das coisas simples, pode-se fazer poesia bela sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes as tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida num inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda em diante.
Procura vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprende com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida passe sem teres vivido...

Walt Whitman
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te perco...


Mário Cesariny
Gosto de dizer mal de tudo aquilo que não sei fazer.
- Vós não imaginaides o que era a riqueza interior, a sabedoria das pessoas analfabetas da minha aldeia. Um tesouro valioso que as estatísticas não mede. Há uma solidão tremenda nos meios urbanos. Com muito menos do que hoje, elas eram mais felizes. Não havia cá prosac´s ou xanax´s... A solidariedade era um valor. Alguém que integrasse uma comunidade e precisasse de um curativo, de ovos ou salada tinha em qualquer pessoa da aldeia um amigo a qualquer hora do dia! Onde há isso hoje? Podem morrer sob os nossos pés na berma da estrada que a maior parte de nós não se agacha.

quinta-feira, junho 25, 2009

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes –
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.

HH
There is no such thing as reality.
.... vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras....
.... iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias...

Al Berto
Quando se ganha 18 euros por minuto (e há quem ganhe incomensuravelmente mais do que isso, mesmo na área do desporto), há uma obrigação moral de dar esse dinheiro.

Peter Singer diz que passarmos na estrada e vermos alguém a morrer e não pararmos para as levar aos hospital é um acto eticamente tão reprovável como termos uma grande fortuna e não impedirmos que pessoas morram de fome.

quarta-feira, junho 24, 2009

- Nunca se sabe o que é que vai parar à tasca daquilo que se diz, Angel.
- Questiono-me a mim, e a vocês, jovens, se este novo mundo da Internet e das novas tecnologias se aumentou, por um lado, o acesso à informação, não degradou por outro a mesma. A enciclopédia, por exemplo, hoje é dispensada porque «está tudo na net». Bom, quantos erros grosseiros não se encontram na wikipédia! Basta analisar a facilidade com que qualquer um edita um capítulo na wikipédia. Qualquer pessoa lá mete o que quiser. Deixo-vos a interrogação: será que este maior computador que temos [aponta para a cabeça] a que os gregos dedicaram tanto atenção e estudo, será que ele está a ser menos valorizado? Será que o espírito já não tem tanto valor?
Tu
Inumerável e Anjo
Ofereço-te também aquele núcleo de mim mesmo que salvei
- o íntimo coração que não se revela em palavras,
não trafica com sonhos
e que o tempo, a alegria
e as adversidades não conseguem tocar.

Jorge Luis Borges
Obrigado.

terça-feira, junho 23, 2009

De um amigo meu

http://spreadsheets.google.com/viewform?key=p8eRlKCUiZbiibO2p_VKIfA&hl=en
Quando soube ao fim do dia que o meu nome fora aplaudido no Capitólio, mesmo assim nessa noite não fui feliz,
E quando me embriaguei ou quando se realizaram os meus planos, nem assim fui feliz,
Porém, no dia em que me levantei cedo, de perfeita saúde, repousado, cantando e aspirando o ar fresco de outono,
Quando, a oeste, vi a lua cheia empalidecer e perder-se na luz da manhã,
Quando, só, errei pela praia nu e mergulhei no mar e, rindo ao sentir as águas frias, vi o sol subir,
E quando pensei que o meu querido amigo, meu amante, já vinha a caminho, então fui feliz,
Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia, e esse belo dia acabou bem,
E o dia seguinte chegou com a mesma alegria e depois, no outro, ao entardecer, veio o meu amigo,
E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas invadindo lentamente a praia,
Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem felicitar-me,
Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fresca,
Na quietude daquela lua de outono o seu rosto inclinava-se para mim,
E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito - nessa noite fui feliz.

Walt Whitman
O amor não escolhe a folha de erva em que pousa.

Provérbio africano
Two roads diverged in a wood, and I

I took the one less traveled by,

And that has made all the difference


Robert Frost
Pensamentos de amor, suco de amor, odor de amor, docilidade de amor,
trepadeiras de amor e ascenção da seiva,
Braços e mãos de amor, lábios e mãos de amor, polegar fálico de amor, seios de
amor, ventres comprimidos e unidos com amor,
Terra de casto amor, vida que é somente vida depois do amor,
O corpo do meu amor, o corpo da mulher que amo, o corpo do homem,
o corpo da terra,
As amenas brisas da manhã que sopram de sudoeste,
(...)
a humidade dos bosques durante as horas da manhã,
Duas pessoas adormecidas que à noite, ficam juntas, uma com o braço
atravessado e abaixo da cintura da outra,
O cheiro das maçãs
(...)

Walt Whitman

segunda-feira, junho 22, 2009

- Acreditas na anarquia?
- Se todas as pessoas fossem como tu, sim. Mas suspeito de que não sejam...
De onde me vêm estes mundos todos? O que é isto que eu nunca vi? De onde apareceram se nunca existiram? E porque me provocam este frémito interior que tanto gosto?
- As nossas verdades são intransmissíveis, Angel.

Velho Ancião
Até a si próprio se mentia - não, não poderia ousar admitir tal coisa.



There is no-one left in the world
That I can hold onto
There is really no-one left at all
There is only you
And if you leave me now
You leave all that we were
Undone
There is really no-one left
You are the only one

And still the hardest part for you
To put your trust in me
I love you more than I can say
Why won't you just believe?
A Marta e o Nuno (nomes reais), todos os dias, ao acordar, abrem o estore de casa e ficam à espera um do outro.

Explico: a Marta e o Nuno moram em prédios relativamente perto. Da janela de um, vê-se a janela do outro. Um acorda e fica à janela à espera de que o outro acorde. Sempre. Dia, após dia, após dia.

Já houve dias em que ficaram muito tempo. Duas horas uma vez...

Dizem os dois que quando o outro aparece é o melhor momento do dia. Dizem que o Amor lhes permite levitar por cima dos dias. Que o Amor torna irrelevantes quaisquer quotidianices.
A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida num quarto só

A R R
- Eu acho o decadentismo em extremo uma forma de arrogância. Se calhar se fores dizer a uma dessas pessoas, a última coisa que ela se imagina é arrogante. Mas virar as costas à humanidade é um fechamento em si próprio, um desprezo pelo Outro. Só o eu interessa. As pessoas que só vêem os aspectos negativos da vida são pessoas amarguradas. Sem gratidão.
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

domingo, junho 21, 2009

- Gosto que gostes de mim, mas não que dependas de mim.
- Boa frase, tenho de pedir ao Angel para a pôr no blog.
- Que hipóteses tenho?
- 3%.
A-síndrome-do-Casanova: apaixonar-se ou por uma mulher homossexual ou por uma freira devota ou pela-única-que-resiste-aos-seus-encantos e que lhe diz que como ele está sempre a brincar, também a sua declaração de amor é uma brincadeira.

You´ve got what I want

Tenho a certeza absoluta de que Deus existe.

sábado, junho 20, 2009

É para Ti que eu escrevi.
A pessoa que ama a Natureza, a pessoa-que-ama-a-sua-natureza, a pessoa-que-encerra-em-si-a-Natureza(que é, no fundo, a Natureza), e eu.

sexta-feira, junho 19, 2009

Quantas jarras não se quebram por falta de ternura, quantas tesouras desaparecem das gavetas, desiludidas connosco, quantas lâmpadas não se fundem na sequência de falta de carinho? E quando as casas deixam de gostar de nós e nos começam a enxotar para a rua? Quando as camisas perdem um botão de punho de propósito, sentindo-se abandonadas? E as nódoas que arranjam para se vingar da gente?

António Lobo Antunes
Não gosto de jogos em que para um ganhar outro tem de perder. Gosto mais de jogos em que um só ganha quando o outro ganha também.

quinta-feira, junho 18, 2009

Fernando Dacosta escreve no seu mais recente (brilhante) livro Os Mal-Amados: «Vi políticos famosos entregarem nos jornais entrevistas a si – fabricadas por si; autores de nomeada apresentarem recensões de críticos estrangeiros – inexistentes; jovens cançonetistas e actores horizontalizarem-se por uma notícia, uma foto […] O estar do lado de dentro das redacções fez com que me tornasse bastante irónico a esses vedetismos: conheço demasiado bem as costuras da popularidade […] sei, de há muito, que as pessoas de valor não se encontram nas ribaltas, que os inovadores se situam foram dos marketings, dos tops, dos projectores.»
- Passei de achar que «a manhã foi feita para dormir» para achar que «é de manhã que o dia começa». Voltei a beber café e confesso que ajudou. Basta dormires três horas numa noite que passas o dia todo com uma histeria estúpida (como os miúdos pequenos na hora de ir para a cama) e depois à noite já estás cansado o suficiente para adormecer um bocadinho - pequeno - mais cedo! Depois de fazeres isto quatro dias seguidos, já te estás a habituar e chega o fim-de-semana e estragas o horário de novo... Depois começas a habituar-te e já preferes acordar ao fim-de-semana mais cedo para aproveitares o tempo livre - ir à praia por exemplo que sabe tão bem! Agora, a verdade é que adoro as manhãs de trânsito - quando não é infernal - em que me meto com o rapaz giro do carro ou lado, ou falo ao vivo na mega fm, ou o simples cafezinho em que o senhor grita: «DÁ BIIICAAAA» assim que te vê entrar. É gozar as coisas previsíveis da manhã... previsível nem sempre é mau. É seguro e confortável nos dias normais. Vais ver que o sol ainda fresco da aurora desperta outros sentidos e a partir daí... é só desfrutar
é um desperdício ficar na cama em junho :)
Dalai-Lama diz que a natureza humana não é má. Que temos essa ilusão pelos media que enfocam o negativo. Explica que construir um castelo de areia demora muito, mas que basta uma onda para o levar. E que estamos todos sonolentos para a teia de coisas que dia a dia se constroem, todos os laços de amor que se forma, mas muito atentos ao impacto da queda, da destruição. Porque o segundo da desintegração tem muito mais impacto do que o milénio da construção.

Rosseau explica que a natureza humana é boa porque se formos confrontados com uma pessoa atada a uma árvore que não conhecemos e a virmos a chorar e a gemer, a maioria de nós, sem ganhar nada com isso, sem sequer o conhecer, quererá libertar essa pessoa do sofrimento.
- Eu só tenho uma relação porque dentro da minha relação tenho a liberdade de jantar com amigos, de passar um fim-de-semana fora, e até, desde que previamente bem combinado, de passar semanas de férias com quem quiser. Se não tivesse esta liberdade, digo-te já que não estaria nesta relação [há 19 anos]. Preciso dela como de oxigénio.
Depois de experimentar a estratégia anti-Guterres até à exaustão, Sócrates mostra-se um Guterresinho.

Se todos fizerem o mesmo...

Um amigo meu ligou-me:

- Angel, aquele cafezinho onde comprei os bolos o ano passado ainda está aberto?
- Sim, ainda.
- Queria ir aí comprar um bolo.
- Bolas, mas gostaste assim tanto para vires de tão longe?
- Tenho aqui um centro comercial gigante, mas gosto de ajudar o pequeno comércio e o homem era tão genuinamente simpático...
- Bem, eu posso-to comprar.

Dei por mim a pensar e fiquei com vergonha de mim.

Bolas, como não tive este pensamento antes? Bom, já o tive, evito comprar livros nas grandes superfícies para comprar ao meu livreiro de estimação (livraria Lácio, Campo Grande), mas devia ser muito mais consumidor consciente do que sou.

Doravante, irei mais às pequenas papelarias, ao pequenos cafés e aos pequenos-qualquer-coisa com quem simpatizo. E quanto mais esconso, mais ganas terei de lá ir. Prometido.
Desconfia do Homem sem Poesia.
Desconfia do Homem que tem medo de ser mulher.
Desconfia do Homem que não tem amigos de longa data.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol

(...)

E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

HH
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

HH
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.

Herberto Helder
Porque é que o teu nome me soa à palavra casa?
Que arrebatamento das cores é este?
Que delícia é esta que me percorre os nervos?
Que tempestade tão doce é esta?
Que redemoinho este que desfaz o calendário dos dias?

Deixa-me capitanear o teu mar de águas doces e pintar o teu sorriso no céu...
- Para ficares comigo, vais ter de acordar cedo.

quarta-feira, junho 17, 2009

Que sonho maravilhoso... foi a coisa mais perto da ideia de Paraíso que experienciei.

Finalmente, pude compreender que o Paraíso não é um lugar, mas um estado. Ou um lugar dentro de nós.

Qualquer coisa em tons azul, mas de um azul leve, macio... o mais belo azul que já senti. Sem horários, sem regras, sem pressões.
uma centelha um sopro um vestígio um apelo uma voz
que a metáfora seja atendida como alusão à metáfora da metáfora
como cada coisa é a metáfora de cada coisa
E o sistema dos símbolos se represente como o símbolo possível de um sistema de símbolos do símbolo que é o mundo
O mundo apenas como nossa paixão posta diante de si
- a paixão da paixão

Herberto Helder
Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!


Álvaro de Campos
Se aves brancas fôssemos, amada minha, aves brancas flutuando na espuma do mar!

Yeats
Pudesse o céu dar flores

Swinburne
Há pessoas que se esgotam. Pessoas que conhecemos e ao fim de seis meses (às vezes menos) já não nos conseguem surpreender. Há outras - raras, deliciosas, surpreendentes - que nos conseguem surpreender sempre. Têm, para isso, de se reiventar constantemente. São as pessoas de que Almada falava: as-que-nunca-acabam.
- No dia em que a beijar, vai ser o momento de maior felicidade alguma vez registado na história do universo.
- És uma pessoa viciante.
Ia ao médico. E o meu amigo:

- Se quiseres, vou contigo.

E, cheio de sono, apareceu.

Que gesto tão bonito. Daqueles que ficam sempre esculpidos dentro de nós.

terça-feira, junho 16, 2009

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Álvaro de Campos
Um carro, uma casa, uma família, uma carreira.

E o alimento primordial?
- Eu dou-me com toda a gente. Porque há sempre uma coisa na pessoa com que me identifico e é esse lado que eu cultivo em todas as minhas relações.
- Deito-me a pensar nela, levanto-me a pensar nela.
George Orwell conta que um condenado à morte se desviou de uma poça de água no seu caminho para a forca. Parece que mesmo no próprio dia da execução, os condenados à pena capital se penteiam de manhã.

Herman Melville escreveu que mesmo quando um barco se afunda os rituais de limpeza e de mudança de lençóis se mantêm.

Uma pessoa que conheço que estava nos cuidados paliativos levantava-se sempre-se, contra a vontade dos médicos, para ir vomitar à casa de banho.

segunda-feira, junho 15, 2009

Roberto Saviano e Salman Rushdie são escritores condenados a morrer por usarem a liberdade de expressão. Não é de espantar. Mais de metade do mundo não tem eleições livres.

Roberto Saviano não vive. Prolonga os seus dias numa agonia terrível. Não pode ir a lado nenhum, vive escondido, sem ninguém a não ser os guarda-costas. Não pode comer nem beber sem 1001 inspecções prévias. Acorda de noite sobressaltado, noite após noite após noite. Diz que os amigos o abandonaram porque têm medo de morrer aquando da visita. Graças a ele, sabemos hoje mais sobre a Máfia e as autoridades competentes podem - se o quiserem - combatê-la a partir da inside information de Saviano. Devemos-lhe o tributo de pagar com a sua liberdade, provavelmente com a sua vida a sua contribuição para o desmantelamento da Máfia.

Rusdhie tem denunciado os extremismos de uma parte do mundo islão. Desde a publicação dos Versículos Satânicos que viveu em 57 casas e os amigos dizem que ficou paranóico. A sua produção literária diminuiu consideravelmente porque «eu vivo no Inferno», explicou, em que uma torneira a pingar é uma metralhadora e uma porta a bater com o vento o chegar do seu assassino.

Devemos muito a pessoas como estas, infamemente ignoradas (não-vá-eu-também-levar-um-balázio).
Se do que fizeste não resultou nenhuma utilidade para o Outro...
- Ajudar o outro está correcto. Apoiá-lo quando está em baixo, dar-lhe uma mão nisto e outra naquilo quando ele realmente precisa e sozinho não consegue. Mas há um patamar acima. Que é ajudar o outro a descobrir a sua Missão no mundo. A fazer o seu Projecto de Vida. Ser um engenheiro de espíritos.
O evangelho segundo Saramago
por Alberto Gonçalves




As fotografias de Berlusconi junto de umas jovens em trajes reduzidos e um senhor em pelota, divulgadas pelo seríssimo El País, inspiraram José Saramago a publicar, também no El País, uma prosa amarga ("A coisa Berlusconi") em que chama ao primeiro-ministro italiano "vírus", "doença", "delinquente", um traidor da herança de Verdi que, o que pelos vistos é ainda pior, "organiza orgias" e "acompanha menores".

Se é dúbia a referência a Verdi, cujas óperas mais célebres denunciam justamente a dissimulação com que a sociedade condena as relações amorosas entre os poderosos e os simples, percebe-se perfeitamente a origem do moralismo que transborda da prosa. Não se passa uma vida a venerar Estaline e a militar no PCP em vão. Subsidiária dos mandamentos soviéticos, a filial caseira aplicou aos respectivos fiéis um código de conduta "familiar" profundamente conservador, capaz de traduzir na intimidade a "superioridade moral" que possuíam na vida pública. Não importa aqui a hipocrisia e a falibilidade do exercício, nem as liberdades sexuais dos anos sessenta, que contaminaram a pureza dos camaradas jovens: o mundo teórico de Saramago (o prático ignoro) sedimentou-se nas décadas anteriores, e desde então ele dedica à "decadência burguesa" o horror das almas castas.

Há nisto muito de bíblico, embora em interpretação literal e tom de sacristia. O sermão do Nobel em nada se distingue da ira "regeneradora" de evangélicos cristãos e mullahs islâmicos, na medida em que exemplifica um padrão de pensamento totalitário e relembra de que modo os beatos se apropriaram da dimensão religiosa do marxismo. Para os beatos, a observância da fé é o único critério que define um indivíduo e o distingue das hordas de pecadores sem tino que se entregam às tentações terrenas. Obviamente, não é Berlusconi a "coisa", e se o processo de desumanização comunista, que Saramago exibe como um museu exibiria, hoje tem a sua graça, houve tempos em que não tinha nenhuma.

domingo, junho 14, 2009

Paulo Portas afirma em entrevista que, por trás das divergências políticas, há simpatia entre os deputados dos diferentes quadrantes. Encontram-se no fumatório, diz, no qual todos se dão bem.

Elogia outros dirigentes partidários, mas diz mal de Louçã. Alguém a quem não consegue ver qualidades além da inteligência (a qualidade mais sobreestimada de todos, como alguém disse). Trata-se de alguém que «julga permanentemente os outros, como se a virtude lhe tivesse caído ao colo».

Infelizmente, a maior parte das pessoas de esquerda que conheço eram incapazes de concordar com uma afirmação da direita a dizer mal da esquerda.

Mas Portas tem razão.

Já entrevistei Louçã, já o vi em inúmeras conferências, já falámos por nos encontrarmos fortuitamente no metro.

Está sempre a julgar o Outro. É mais inteligente do que todos e mais ético do que todos. Todos os polícias são maus, todos os banqueiros facínoras.
É das pessoas intelectualmente mais arrogantes com quem estive em tête-a-tête.
Pecado não é desobedecer à autoridade irracional mas sim violar a felicidade humana.

São Tomás de Aquino
- Eu digo-lhe que gosta dela, mas ela não acredita. Diz que estou sempre a brincar e a testar as pessoas. Ela não acredita. Como fazer-lhe acreditar? É tortuoso estares a dizer que estás apaixonado e, nem é rejeitarem-te, é simplesmente dizerem-te: «Não gozes comigo.»
- Não, ele não podia gostar de mim. Eu não gostava de mim naquela altura. Ninguém podia gostar de mim.
- Estou desmaterializada. É como se me tivesse libertado do apego material às coisas. Claro que preciso de determinadas coisas, mas faz-me tanta confusão abdicar de a e b com os amigos porque vou querer comprar um granda carrão.

sexta-feira, junho 12, 2009

- Foda-se, Angel, elas levam sempre a melhor.

quinta-feira, junho 11, 2009

Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Sophia de Mello Breyner Andresen
AUSÊNCIA

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Quando se entrava no salão da festa, juntamente com a mobília e os enfeites, uma rapariga com roupa diminuta quedava-se imóvel, ostentando o corpo. Era parte do cenário.

Inúmeros homens foram cortejá-la (seguramente poderia ter ido para a cama com quase todos eles). Não a vi passar crédito a ninguém. Vi-a ser ostensivamente desdenhosa e arrogante.

- É uma profissional - alguém defendeu.

- É uma estúpida arrogante - ripostou outra.

- Dizes isso só porque ela é podre de boa - contrapôs-lhe o namorado.

A certa altura, alguém de um grupo queria uma bebida. Um interpelou a rapariga-bibelô:

- Ò pedaço de plástico ambulante, é um vodka e uma cola sff.

- Hã? Eu não sirvo bebidas e quem é que tu pensas que és?

Os insultos começaram. Ele ouvia calado. Ela não se calava. E, à saída, ainda foi ter com ele ao bengaleiro.

Cá fora, o grupo queria discutir com ele o sucedido:

- Tu és um idiota. Não tinhas nenhuma legitimidade para fazeres o que fizeste - disse-lhe uma amiga.

- Desculpem, mas tu é que estiveste bem. Todos foram falar com ela e ela não deu bola a ninguém. Contigo, ela até foi atrás de ti no final! Eu vi-a a ir em passo acelerado contigo ao bengaleiro com medo que te fosses embora. Foi lindo! Por trás daquela gritaria o que ela queria era que a convidasses para jantar. Repara numa coisa: o tempo todo somado que ela falou com todos os homens que a abordaram é menor do que o tempo que tu falaste com ela - disse um amigo.

- Deixem-se de tretas - interveio uma outra amiga -, tu querias era comê-la. Admite. Apenas usaste uma estratégia diferente dos outros. Mas, no fundo, foste competitivo e carnal: querias comê-la e quiseste ser o melhor deles. O teu instinto foi tão primitivo como o de todos os outros.

- Não.

- Não, o quê?! Cala-te!

- A sério.

- Admite que a querias comer.

- Não. Bolas, tu tens um preconceito que todos os homens querem estar com uma mulher desde que esta tenha uma bom corpo. E isso não é verdade, é uma generalização abusiva. Foi como se lhe dissesse que nem todos a querem só por isso. Coisa que tu também pensas.

- E penso bem. Podem tentar impressionar pelos carros ou pelos poemas - o que querem é sempre o mesmo. Qual o real motivo por que fizeste o que fizeste?

- Para lhe demonstrar o triunfo do espírito sobre o corpo.

- Vai à merda.
- Eu quero alguém que me garanta que gosta verdadeiramente de mim, é o que todas queremos.
- Tu procuras o amor impossível e então só escolhes a pessoa que não te quer para que te iludas a ti próprio que não és monogâmico unicamente porque a pessoa que amas não te quer. Mas isso é um truque que tu inconscientemente usas contigo próprio.
- Porque nunca mais me disseste nada?

As certezas que as pessoas têm ou que-acontece-na-minha-cabeça-é-universal

- Não é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo...
Não há jornais imparciais.

Todos os que lêem jornais desportivos sabem que A Bola é do Benfica, o Record do Sporting e O Jogo do Porto.

Na política, a TVI e o Sol são anti-Sócrates e o DN (que considero um bom jornal) e a RTP pró-Sócrates.

Uma sondagem pouco divulgada revelou que 90% dos jornalistas se sentem coagidos a escrever de acordo com a opinião do editor.
Ela era a pureza-pessoa. Afinal, só dentro de mim.

Das experiências mais dolorosas: perceber que Ela não existia, que era apenas uma ideia dentro de nós, sem uma realidade exógena e atribuível a algo como... alguém, um ser humano.

O que resta quando todos os pedestais dos nossos ídolos são estilhaçados? Quando todas as referências a que nos agarramos nos escapam das mãos como hologramas? Quando todos nossos sonhos são desfeitos pelas fragas da realidade?

(resta procurar novas ilusões)

quarta-feira, junho 10, 2009

O beijo (Brancusi)

O Beijo (Munch)

terça-feira, junho 09, 2009

Apaixonados que estavam um pelo o outro, ela gostava tanto dele que só pensava nele. Ela era ele. Porque a «imagem» dele era tudo o que habitava dentro dela. Ele gostava tanto dela que só pensava nela. Tudo dentro dele era ela. Ele tornou-se ela.

Ela gostava dele que era ela. Ele gostava dela que era ele.
Atrás de mim, no autocarro, um jovem comentava para o outro:

- Se o meu irmão, morresse, não tás bem a ver as cenas com quem eu ficava. Man, a aparelhagem dele é toda XPTO. E os CD´s do bacano. Fénix, meu. Queria ter net só para mim, os cotas só compraram daquelas cenas de se pôr no computador. Vodafone ou o caralho. O gajo quer usar aquilo e eu tou à seca, man, foda-se ontem primeiro que fizesse um download... Caralho pó gajo!

O Beijo (Klimt)

segunda-feira, junho 08, 2009

Aconteceu no Bairro Alto

Não é um mito urbano. Não é um mail em cadeia. É algo que aconteceu a uma pessoa. Mesmo.

Noite, Bairro Alto, ela sai do bairro e desce por uma rua para regressar a casa. Um grupo de rapazes «bem vestidos e com bom ar» (segundo ela) mete-se com ela. Umas bocas, nada de mais. Ela responde com desenvoltura. Ambos se riem.

Subitamente, está cercada. Um encosta-a à parede segurando-a pelo pescoço.

- Ou te matamos, ou te violamos ou te fazemos um sorriso à palhaço.

Ela, sem perceber ainda bem o que se passa, escolhe a terceira.

Cortam-lhe boca de ambos os lados. Um taxista leva-a ao hospital.

As cirurgias plásticas têm-se sucedido, mas a cara dela continua deformada.
A sedução é como o xadrez, só que com infinitamente mais peças e movimentos.

domingo, junho 07, 2009

um clique, uma refeição

http://www.iniciativapet.com/
Com todo o respeito pelas opiniões contrárias, acho que votar em branco é uma estupidez. O Saramago fez um livro sobre isso e apresentou-a em entrevistas como algo que iria «provocar um escândalo dos diabos».

O problema do voto-em-branco-ganhar não iria alterar nada. Da mesma forma que a abstenção é sempre o «partido» com mais votantes e o partido em segundo é o que ganha.

Não era por aí que não se formariam governos.

Mas a questão que julgo ser essencial é: há nazis que votam em branco, há anarquistas que votam em branco. Como erigir desta amálgama disforme e desconexa um programa político, um modelo de sociedade viável?

O problema-do-dia-a-seguir-à-revolução não diz muito a quem só quer destruir e não construir.

sábado, junho 06, 2009

É meu vizinho. Tem o cabelo cinzento desde que me lembro dele, tal como olhar. Veste sobriamente e anda sempre muito recto. O rosto sempre fechado.

Não trocamos palavras além de boa tarde ou bom dia ou boa noite, mas sinto que é um grande fascista.

Basta ver a maneira como a mulher caminha ao lado dele. Basta ver como olha desdenhosamente para a porteira. Basta ver como olhou-indignado-para-as-minhas-calças-rotas-com-aquele-olhar-do-totalitário-que-quer-organizar-o-mundo-todo-à-sua-maneira-e-acabar-com-toda-a-irreverência-e-rebeldia. Basta ver como se crispou quando me viu chegar a casa à hora que ele saía. Basta ver anda na rua. (O andar diz tanto sobre uma pessoa). Tenso. Certinho. Organizado.

«A maior puta é a liberdade», ouço-lhe pulsar do cérebro.
Vivia na sombra da mãe, uma senhora autoritária e conservadora. Nunca estava sem a mãe ao lado. Não tinha momentos de lazer. O namorado sentava-se numa borda do sofá, ela na outra, e a mãe no meio.

Um dia apareceu grávida.
Fecha os olhos, dá-me a mão, a confiança é o sacrifício dos mais belos pomares a que te levarei.
- Tu tens qualquer coisa de infinito.
- E tu tens uma certa irresistibilidade.
- Eu deixei um bocado a luta contra a tourada. Eu não gosto de fazer as coisas contra, gosto de fazer por. E seja a tourada - que detesto -, ou a campanha pela despenalização do aborto, eu não quer fazer pelo lado da hostilidade, do contra. Não é por energias negativas que me movo...

sexta-feira, junho 05, 2009

Vantagens comparativas

- Angel, ninguém pode dar tanto prazer a uma mulher como outra mulher. Ela conhece a geografia do prazer em si própria.

quinta-feira, junho 04, 2009

Vejo os carros a passar. São estranhos lá dentro. Estranho parece uma categoria para quem não conhecemos. Mas os estranhos para mim não o são para outros. (E os estranhos de ontem não são os de hoje.) Os outros também têm as suas pessoas dentro de si. Tenho de eliminar esta categoria do estranho da minha mente.

É uma neblina que só me distancia do Outro.
Ama como a estrada começa.

Mário Cesariny
Se ambos virmos o mesmo filme lado a lado, ambos formaremos filmes diferentes na cabeça. Nunca vemos o mesmo, porque o olhar contamina o real. O observador nunca é absolutamente imparcial. Impoluto.

(Os budistas falam a este propósito da vacuidade de todos os fenómenos, da inexistência de uma realidade última e intrínseca.)

Por isso é que nunca ninguém nos vê da mesma forma que outro. Por isso é que precisamos de outras pessoas.

Outro dia alguém me dizia que eu valorizava uma característica nela que a fazia gostar mais de si, que a fazia reparar nessa característica e vê-la como uma parte bonita de si - e que nem mesmo os amigos de longa data a «viam» nela.

Angel-mesmo-alguém-que-te-conhece-há-milhões-de-anos-pode-não-«ver»-o-que-alguém-recém-conhecido-vê-num-segundo-porque-cada-pessoa-é-um-universo
Mais importante do que dominar um assunto, é transparecer que se domina um assunto.
Os artistas são as antenas da raça. Eles auscultam e pressentem o porvir.

Ezra Pound
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.

idem
O amor é a arte de criar algo com a ajuda da capacidade do outro.

Bertolt Brecht

quarta-feira, junho 03, 2009

- Queria ter aqui um lago para refrescar as minhas penas de pata.
- Angel, todas as mulheres viveram o ideal do príncipe encantado quando eram crianças. Umas esqueceram-no rapidamente, outras nem por isso, mas a vaga lembrança, a síndrome-do-príncipe-encantado está nelas. Inconsciente ou conscientemente dotaram-no de características e se encontram um homem que tenha uma dessas características vincadamente, vão agarrar-se a ela e fazer nascer diante dos olhos delas um príncipe encantado. O sonho de infância é resgatado! E nada é mais poderoso do que uma ilusão feminina. Por isso é que elas ficam cegas perante homens tão maus... É a crença do príncipe encantado.
João Carlos Espada diz que nem tudo tem uma explicação científica por base. Uma coisa essencial como os direitos humanos não tem essa base. Como poderemos demonstrar que todos temos direito à saúde, à habitação, à educação?

A dignidade humana carece de fundamentação científica. Por mim, não precisa.

Um regime que erga a Razão e ou a Ciência como principais bandeiras - está condenado a ser uma das piores ditaduras. A propósito disto, ler a distopia O Zero e o Infinito (Darkness at Noon) de Koestler, um dos maiores livros de sempre.
O que aconteceu à mulher do burocrata cinzento quando foi visitada pelo canalizador atraente?

Teve um orgasmo que abanou a casa.

terça-feira, junho 02, 2009




Tinha gostado do filme português...


Entretanto vi outro...

e percebi que é um plágio encapotado.

Lembrei-me do Vasco Pessimista Valente: mesmo o que é bom em Portugal, é sempre um cópia lá de fora.
O amor é feio, tu é que és bonito.

Rui Zink

segunda-feira, junho 01, 2009

Outro dia estava com um conjunto de pessoas com diferentes inclinações e paladares. Os apetites para o programa da noite eram muito distintos. Até que a bifurcação obrigaria ou à separação ou à fusão numa solução neutra.

Nos sucessivos sítios onde fomos, ninguém estava sempre como peixe na água, excepto uma rapariga. Estava sempre sempre divertida e feliz. É-daquelas-pessoas-que-contagiam-o mundo-com-a-sua-alegria. Que-tiram-sempre-o-máximo-partido-das-coisas.

Por isso é que ela, com mais de quarenta anos, não dizendo a idade faz toda a gente pensar que não terá mais de vinte e oito. (Já fiz o teste várias vezes.)


Angel-um-dos-principais-requisitos-para-a-felicidade-é-a-adaptabilidade
Nos livros policiais, os detectives costumam encontrar o homicida pelos mais ínfimos pormenores.

Também a assinatura do carácter se revela nos mais pequeninos detalhes.
A língua é o lugar de onde se vê o universo.

Vergílio Ferreira
nihil admirari

não se admirar de coisa alguma, diziam os estóicos