domingo, maio 24, 2009

Uma pessoa assim tão pura

Tínhamos onze ou doze anos. O João era meu amigo. Continuou meu amigo até aos 14 ou 15. Uma pessoa adorável. Diferente. Não me lembro de alguém mais íntegro do que ele. Mais recto. O João não existia. Era puríssimo. Faziam-lhe mal e ele não ripostava e tentava compreender o que impelia tais motivações. Até me emociono ao me lembrar dele.

Uma vez, veio ter comigo à biblioteca, andávamos nós no sexto ano e disse com o seu olhar doce e voz muito educada:

- A tua mãe está lá fora à tua procura.

Outro colega disse:

- Não está nada. O João está a brincar.

- Então, João? - perguntei estupidamente desconfiado.

- Eu nunca minto - disse numa voz suave.

E era verdade - ele nunca mentia. Ele era cem por cento puro.

Lembro-me de que deixou de jogar futebol desde que magoou um colega na canela. Passou a jogar vólei e a turma passou a estigmatizá-lo por ser «maricas». Mas ele não conhecia a palavra «rancor» ou «raiva».


Deixei de o ver. Em mim uma pergunta ecoava: como poderá a pureza dele ter sobrevivido nesta sociedade? Como estará ele hoje?

Anos e anos depois, alguém me disse que ele estava «agarrado à droga».

Sexta-feira, falei com uma rapariga me falou dele.

Foi internado no Júlio de Matos.

- Angel, ele é tão tão boa pessoa.

- Não me surpreende, sabes? Uma pessoa com a rectidão dele não poderia sobreviver neste mundo se não se adaptasse. Se não deixasse de ser quem era, no fundo.

O mundo tinha de expulsar uma pessoa assim tão pura.

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