Tínhamos onze ou doze anos. O João era meu amigo. Continuou meu amigo até aos 14 ou 15. Uma pessoa adorável. Diferente. Não me lembro de alguém mais íntegro do que ele. Mais recto. O João não existia. Era puríssimo. Faziam-lhe mal e ele não ripostava e tentava compreender o que impelia tais motivações. Até me emociono ao me lembrar dele.
Uma vez, veio ter comigo à biblioteca, andávamos nós no sexto ano e disse com o seu olhar doce e voz muito educada:
- A tua mãe está lá fora à tua procura.
Outro colega disse:
- Não está nada. O João está a brincar.
- Então, João? - perguntei estupidamente desconfiado.
- Eu nunca minto - disse numa voz suave.
E era verdade - ele nunca mentia. Ele era cem por cento puro.
Lembro-me de que deixou de jogar futebol desde que magoou um colega na canela. Passou a jogar vólei e a turma passou a estigmatizá-lo por ser «maricas». Mas ele não conhecia a palavra «rancor» ou «raiva».
Deixei de o ver. Em mim uma pergunta ecoava: como poderá a pureza dele ter sobrevivido nesta sociedade? Como estará ele hoje?
Anos e anos depois, alguém me disse que ele estava «agarrado à droga».
Sexta-feira, falei com uma rapariga me falou dele.
Foi internado no Júlio de Matos.
- Angel, ele é tão tão boa pessoa.
- Não me surpreende, sabes? Uma pessoa com a rectidão dele não poderia sobreviver neste mundo se não se adaptasse. Se não deixasse de ser quem era, no fundo.
O mundo tinha de expulsar uma pessoa assim tão pura.
domingo, maio 24, 2009
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