domingo, maio 31, 2009
sábado, maio 30, 2009
Todo o excesso contém a sombra do seu oposto
O nazi confessa-se:
- Eu ataco e espezinho os mais fracos porque os odeio. Odeio-os tanto que tenho de os espancar até os aniquilar ou então até que eles se tornem fortes. Odeio os mais fracos. Eles - começa a dar murros no ar - eles... fazem-me... - as lágrimas descem-lhe pelo rosto e a voz embargada - fazem-me lembrar as minhas fraquezas. Eu sou impotente sexual. Eu quando era mais novo levava porrada de todos e não ripostava. Eu fui humilhado por patrões ferozes e calei-me sempre. Eu acumulei tanta raiva. Eu odeio a minha fraqueza do passado. E mato-a nos outros. Ela não pode voltar a revelar-se. Eu devia ter sido mais forte. Eu, eu... - rebenta de raiva e lágrimas - eu devia ser mais forte!
- Eu ataco e espezinho os mais fracos porque os odeio. Odeio-os tanto que tenho de os espancar até os aniquilar ou então até que eles se tornem fortes. Odeio os mais fracos. Eles - começa a dar murros no ar - eles... fazem-me... - as lágrimas descem-lhe pelo rosto e a voz embargada - fazem-me lembrar as minhas fraquezas. Eu sou impotente sexual. Eu quando era mais novo levava porrada de todos e não ripostava. Eu fui humilhado por patrões ferozes e calei-me sempre. Eu acumulei tanta raiva. Eu odeio a minha fraqueza do passado. E mato-a nos outros. Ela não pode voltar a revelar-se. Eu devia ter sido mais forte. Eu, eu... - rebenta de raiva e lágrimas - eu devia ser mais forte!
A facilidade com que se expõe a intimidade do Outro.
Tenho pensado nisto.
Podemos expor a nossa intimidade no estendal, mas a do Outro não.
Por isso é que não gosto que se fale de sexo no concreto. Porque isso implicar expor o Outro.
Quando estamos com alguém, há uma presunção de confiança.
Da mesma forma, se te contam um segredo, deves guardá-lo só para ti. Mesmo que te chateies com essa pessoa um dia - nada te confere o direito de violentares algo que te foi dado por presunção da tua lealdade.
Ouço indíviduos que conheço há pouquíssimo tempo falarem de amigos seus com 10, 15 anos de histórico dizendo:
- Ele tem uma depressão profunda oculta;
- Ele é virgem;
- O padrasto dela teve relações com ela;
Não gosto disto. Não gosto mesmo nada disto. Guardas as fraquezas dos teus amigos para ti. Tenta ajudá-los. Só isso. Não as anuncies ao mundo.
Tenho pensado nisto.
Podemos expor a nossa intimidade no estendal, mas a do Outro não.
Por isso é que não gosto que se fale de sexo no concreto. Porque isso implicar expor o Outro.
Quando estamos com alguém, há uma presunção de confiança.
Da mesma forma, se te contam um segredo, deves guardá-lo só para ti. Mesmo que te chateies com essa pessoa um dia - nada te confere o direito de violentares algo que te foi dado por presunção da tua lealdade.
Ouço indíviduos que conheço há pouquíssimo tempo falarem de amigos seus com 10, 15 anos de histórico dizendo:
- Ele tem uma depressão profunda oculta;
- Ele é virgem;
- O padrasto dela teve relações com ela;
Não gosto disto. Não gosto mesmo nada disto. Guardas as fraquezas dos teus amigos para ti. Tenta ajudá-los. Só isso. Não as anuncies ao mundo.
sexta-feira, maio 29, 2009
Claro que vou votar. Incrédulo, descrente, mas vou votar. Por exigência moral e por imposição de cultura. Levei metade da vida a defender e a pelejar por coisas tão aparentemente absurdas e inúteis como a liberdade de expressão, a liberdade de reunião, o direito ao voto e o dever de cidadania - que configuraria uma traição eu abstrair-me. Votarei sempre. Em desacordo ou em acordo.
Baptista-Bastos
Baptista-Bastos
quinta-feira, maio 28, 2009
Conheci uma pessoa muito muito muito rica. Daquelas com muito dinheiro. Um dia, estando num café, com um casal amigo, perguntei:
- Então a Sylvie não vem?
- Não, ela nunca viria aqui. Ela só vai ao café do Ritz. Coitada não consegue ir a outro lado.
E era coitada mesmo, sem qualquer sarcasmo. Não escrevo estas linhas para troçar ou caricaturar. A Sylvie não conseguia mesmo frequentar 99,9% dos sítios.
Desde tenra idade que os pais a tinham posto numa redoma. Protegendo-a de todos os perigos do mundo deletério, feio e pobre. Ela desenvolveu inúmeras fobias.
Ver alguém com suor nas axilas fazia-a literalmente vomitar. Era incapaz de beber de uma palhinha que não tivesse o plástico para ela remover. Incapaz de cumprimentar um estranho sem uma luva que lhe protegesse as mãos.
O papá comprou-lhe uma mansão noutra costa porque ela não aguentava a resina que se lhe colava aos pés na rua ladeada de árvores.
Por a ter conhecido, sou um bocadinho mais tolerante com os muito muito ricos. Tolerante no sentido de compreender que amestraram o paladar a gostar de algo que para eles é tão difícil deixar... que é quase como se ficassem pobres.
Não deve haver pior pobreza do que a pobreza daquele que já foi rico.
- Então a Sylvie não vem?
- Não, ela nunca viria aqui. Ela só vai ao café do Ritz. Coitada não consegue ir a outro lado.
E era coitada mesmo, sem qualquer sarcasmo. Não escrevo estas linhas para troçar ou caricaturar. A Sylvie não conseguia mesmo frequentar 99,9% dos sítios.
Desde tenra idade que os pais a tinham posto numa redoma. Protegendo-a de todos os perigos do mundo deletério, feio e pobre. Ela desenvolveu inúmeras fobias.
Ver alguém com suor nas axilas fazia-a literalmente vomitar. Era incapaz de beber de uma palhinha que não tivesse o plástico para ela remover. Incapaz de cumprimentar um estranho sem uma luva que lhe protegesse as mãos.
O papá comprou-lhe uma mansão noutra costa porque ela não aguentava a resina que se lhe colava aos pés na rua ladeada de árvores.
Por a ter conhecido, sou um bocadinho mais tolerante com os muito muito ricos. Tolerante no sentido de compreender que amestraram o paladar a gostar de algo que para eles é tão difícil deixar... que é quase como se ficassem pobres.
Não deve haver pior pobreza do que a pobreza daquele que já foi rico.
O que tens por garantido coloca-te, sem o saberes, no terço dos privilegiados
A Amnistia Internacional revela: 2/3 da população mundial vive abaixo do limiar da pobreza.
E, de repente, tapo-me com as mãos
ANGEL, A TASCA DO SR. JOÃO ESTÁ FANTÁSTICA!!!!!!!!!!! MAS TU, TU ESTÁS A EXPOR-TE TOTALMENTE, ESTÁS UM NUDISTA MENTAL!
L.
L.
Recortes do Real
Dois amigos meus foram trabalhar um dia para uma cidade do interior (ambos trabalham com alguma itinerância). Nesse dia, encontraram-se no centro comercial da terra.
Até aqui tudo normal.
Sucede que ambos falaram comigo.
Um (aqui vou ter de usar o rótulo: um beto) disse:
- Eh pá, sabes quem é que eu encontrei lá em cima?
- Quem?
- O Francisco. Eh pá, fiquei espantado com o gajo.
- Então?
- Eh pá, o gajo dá a entender que é chefe e que trabalha numa cena bué específica que só ele sabe fazer. Eh pá, o gajo é trolha! Ele tava com fato de trolha e com um colega mêmo todo homem das obras. Até as coisas que ele tinha na mão, tipo uma enxada ou assim... Todo sujo. Trolha autêntico. Não contes isto a ninguém.
Até aqui tudo normal.
O mais engraçado é que depois encontro o outro (óptima pessoa, mas um pouco mentiroso) que me diz:
- Bem, Angel, vou-te contar uma cena. Isto fica entre nós. Eh pá, vi o João agora quando tive no norte. De rir... Que necessidade é que ele tem dizer que é director comercial, eh pá o gajo é o gajo que vais às lojas entregas camisas. Até ficou meio envergonhado quando me viu, de cabide na mão.
Até aqui tudo normal.
Sucede que ambos falaram comigo.
Um (aqui vou ter de usar o rótulo: um beto) disse:
- Eh pá, sabes quem é que eu encontrei lá em cima?
- Quem?
- O Francisco. Eh pá, fiquei espantado com o gajo.
- Então?
- Eh pá, o gajo dá a entender que é chefe e que trabalha numa cena bué específica que só ele sabe fazer. Eh pá, o gajo é trolha! Ele tava com fato de trolha e com um colega mêmo todo homem das obras. Até as coisas que ele tinha na mão, tipo uma enxada ou assim... Todo sujo. Trolha autêntico. Não contes isto a ninguém.
Até aqui tudo normal.
O mais engraçado é que depois encontro o outro (óptima pessoa, mas um pouco mentiroso) que me diz:
- Bem, Angel, vou-te contar uma cena. Isto fica entre nós. Eh pá, vi o João agora quando tive no norte. De rir... Que necessidade é que ele tem dizer que é director comercial, eh pá o gajo é o gajo que vais às lojas entregas camisas. Até ficou meio envergonhado quando me viu, de cabide na mão.
quarta-feira, maio 27, 2009
As vantagens da prisão
«Já li sessenta livros.»
Oliveira e Costa
(Já Vale e Azevedo começou a fazer crítica literária na cadeia.)
Oliveira e Costa
(Já Vale e Azevedo começou a fazer crítica literária na cadeia.)
terça-feira, maio 26, 2009
Não posso acreditar na meritocracia quando a Manuela Moura Guedes é apresentadora de um dos principais jornais televisivos nacionais ou quando vou ao dentista-mais-caro e ele me cria mais problemas do que resolve.
Não posso acreditar na meritocracia quando Bush é presidente do país mais poderoso do mundo.
Não posso acreditar na meritocracia quando a televisão está infestada de opinantes tão medíocres.
Nas áreas que melhor conheço (livros e jornais), cada vez se publica mais merda (quantas obras-primas de novos autores ficarão por conhecer) e cada vez acredito menos no jornalismo de investigação. Têm todos o rabo preso.
Uma sondagem (evidentemente secreta) revelou que 90% dos jornalistas se sentiam coagidos a escrever de que acordo com a voz do dono.
Que destaque é que isto mereceu? Alguém comentou? Alguém se indignou?
Zero.
Já não há jornalistas isentos. E quem ainda o é, é atirado para um canto - proscrito como o Baptista-Bastos.
Sei de cor os jornalistas que vão dizer sempre bem do partido A e mal do B, sempre bem do clube A e do clube B.
Os jornalistas chegam a declarar personalidades como inocentes ou culpadas, substituindo-se aos tribunais. Tudo em função - não da simpatia ou antipatia - mas de quem servem.
É um nojo.
O Pacheco Pereira, que incha sempre o peito de «imparcialidade» (homem, deixe que sejam os outros a fazer-lhe o elogio e não você próprio!), preocupa-se imensamente com os noticiários da RTP1, mas não fala do nojo que são os da TVI, incomparavelmente mais parciais, superficiais e alarmistas. Já me dei ao trabalho de ver um de fio a pavio - que nojo.
Diz o Pacheco Pereira que a RTP é do Estado e que por isso é com ela que nos devemos preocupar porque o dinheiro é de todos nós.
Certíssimo, mas: Dr. Pacheco, duvida que os privados também tenham interesses a servir? Duvida que os grandes grupos económicos também montem campanhas? Duvida do poder deles?
É maior do que o do Estado.
Não posso acreditar na meritocracia quando Bush é presidente do país mais poderoso do mundo.
Não posso acreditar na meritocracia quando a televisão está infestada de opinantes tão medíocres.
Nas áreas que melhor conheço (livros e jornais), cada vez se publica mais merda (quantas obras-primas de novos autores ficarão por conhecer) e cada vez acredito menos no jornalismo de investigação. Têm todos o rabo preso.
Uma sondagem (evidentemente secreta) revelou que 90% dos jornalistas se sentiam coagidos a escrever de que acordo com a voz do dono.
Que destaque é que isto mereceu? Alguém comentou? Alguém se indignou?
Zero.
Já não há jornalistas isentos. E quem ainda o é, é atirado para um canto - proscrito como o Baptista-Bastos.
Sei de cor os jornalistas que vão dizer sempre bem do partido A e mal do B, sempre bem do clube A e do clube B.
Os jornalistas chegam a declarar personalidades como inocentes ou culpadas, substituindo-se aos tribunais. Tudo em função - não da simpatia ou antipatia - mas de quem servem.
É um nojo.
O Pacheco Pereira, que incha sempre o peito de «imparcialidade» (homem, deixe que sejam os outros a fazer-lhe o elogio e não você próprio!), preocupa-se imensamente com os noticiários da RTP1, mas não fala do nojo que são os da TVI, incomparavelmente mais parciais, superficiais e alarmistas. Já me dei ao trabalho de ver um de fio a pavio - que nojo.
Diz o Pacheco Pereira que a RTP é do Estado e que por isso é com ela que nos devemos preocupar porque o dinheiro é de todos nós.
Certíssimo, mas: Dr. Pacheco, duvida que os privados também tenham interesses a servir? Duvida que os grandes grupos económicos também montem campanhas? Duvida do poder deles?
É maior do que o do Estado.
Também eu
I've been waiting for the lies to end
Holding for the bad to go
I've been hanging for the ugliness to change
Waiting for a world too true
Holding for a world too good
Hanging for a world too beautifuuuuuuuuuuuuuuuuul
Robert Smith
Holding for the bad to go
I've been hanging for the ugliness to change
Waiting for a world too true
Holding for a world too good
Hanging for a world too beautifuuuuuuuuuuuuuuuuul
Robert Smith
Em tempos imemoriais
Há pessoas que não têm inquietações diante do Cosmos. Há pessoas que não sentem a Poesia.
Não é que não as compreenda. Não é que não goste delas. Não é que me façam confusão.
Simplesmente as nossas almas foram embebidas em caldeirões diferentes.
Não é que não as compreenda. Não é que não goste delas. Não é que me façam confusão.
Simplesmente as nossas almas foram embebidas em caldeirões diferentes.
tu és como a neve só que mais pura mais efémera,como a chuva só que mais doce mais frágil tu
e.e.cummings
Comentário de Daniela Dias
lol
Desculpa a gargalhada mas há coisas que deixaram de me soar Verdade e hoje em dia não acredito tanto assim nessa tua neve, nessa Pureza.
Verdade são Anjos Caídos. Ou Anjos Caiados. Cacos colados, lascados, imperfeitos. Sonhos corrompidos, remodelados, reajustados.
Verdade são os meus Brincos Perfeitos que ofuscam tudo o resto.
Verdade são meias Virtudes, são os meus defeitos, que ainda que horríveis, não te afastam de mim.
É seres meu grande amigo e me olhares nos olhos com esgares de ódio enquanto me juras o quanto desprezas aquele traço da minha personalidade. É veres-me como eu sou e, ainda assim, guardares com amor a minha fotografia.
Verdade são Lolitas Perversas. Crianças que geram conflitos entre progenitores por um irresistível chupa-chupa....
Pureza e Poesia Naif nem me encantam nem me convencem.
Irritam-me de tão falsas. De tão hipócritas. De Obras tão Incompletas. De Seres tão pouco Explorados. Como peles pálidas e lábios rosáceos. Tão pouco, Tão vão.
Apetece-me rasgar toda essa pequenez que é ser-se submisso e tranquilo, não se duvidar uma vez ao dia se realmente é Mexidos que preferimos os Ovos.
Peles Salgadas, Salteadas pelo Bem, pelo Mal, pela Doçura e Perversão, pela Sabedoria e Leviandade.
Aí, sim, Sinto VERDADE
e.e.cummings
Comentário de Daniela Dias
lol
Desculpa a gargalhada mas há coisas que deixaram de me soar Verdade e hoje em dia não acredito tanto assim nessa tua neve, nessa Pureza.
Verdade são Anjos Caídos. Ou Anjos Caiados. Cacos colados, lascados, imperfeitos. Sonhos corrompidos, remodelados, reajustados.
Verdade são os meus Brincos Perfeitos que ofuscam tudo o resto.
Verdade são meias Virtudes, são os meus defeitos, que ainda que horríveis, não te afastam de mim.
É seres meu grande amigo e me olhares nos olhos com esgares de ódio enquanto me juras o quanto desprezas aquele traço da minha personalidade. É veres-me como eu sou e, ainda assim, guardares com amor a minha fotografia.
Verdade são Lolitas Perversas. Crianças que geram conflitos entre progenitores por um irresistível chupa-chupa....
Pureza e Poesia Naif nem me encantam nem me convencem.
Irritam-me de tão falsas. De tão hipócritas. De Obras tão Incompletas. De Seres tão pouco Explorados. Como peles pálidas e lábios rosáceos. Tão pouco, Tão vão.
Apetece-me rasgar toda essa pequenez que é ser-se submisso e tranquilo, não se duvidar uma vez ao dia se realmente é Mexidos que preferimos os Ovos.
Peles Salgadas, Salteadas pelo Bem, pelo Mal, pela Doçura e Perversão, pela Sabedoria e Leviandade.
Aí, sim, Sinto VERDADE
domingo, maio 24, 2009
Uma pessoa assim tão pura
Tínhamos onze ou doze anos. O João era meu amigo. Continuou meu amigo até aos 14 ou 15. Uma pessoa adorável. Diferente. Não me lembro de alguém mais íntegro do que ele. Mais recto. O João não existia. Era puríssimo. Faziam-lhe mal e ele não ripostava e tentava compreender o que impelia tais motivações. Até me emociono ao me lembrar dele.
Uma vez, veio ter comigo à biblioteca, andávamos nós no sexto ano e disse com o seu olhar doce e voz muito educada:
- A tua mãe está lá fora à tua procura.
Outro colega disse:
- Não está nada. O João está a brincar.
- Então, João? - perguntei estupidamente desconfiado.
- Eu nunca minto - disse numa voz suave.
E era verdade - ele nunca mentia. Ele era cem por cento puro.
Lembro-me de que deixou de jogar futebol desde que magoou um colega na canela. Passou a jogar vólei e a turma passou a estigmatizá-lo por ser «maricas». Mas ele não conhecia a palavra «rancor» ou «raiva».
Deixei de o ver. Em mim uma pergunta ecoava: como poderá a pureza dele ter sobrevivido nesta sociedade? Como estará ele hoje?
Anos e anos depois, alguém me disse que ele estava «agarrado à droga».
Sexta-feira, falei com uma rapariga me falou dele.
Foi internado no Júlio de Matos.
- Angel, ele é tão tão boa pessoa.
- Não me surpreende, sabes? Uma pessoa com a rectidão dele não poderia sobreviver neste mundo se não se adaptasse. Se não deixasse de ser quem era, no fundo.
O mundo tinha de expulsar uma pessoa assim tão pura.
Uma vez, veio ter comigo à biblioteca, andávamos nós no sexto ano e disse com o seu olhar doce e voz muito educada:
- A tua mãe está lá fora à tua procura.
Outro colega disse:
- Não está nada. O João está a brincar.
- Então, João? - perguntei estupidamente desconfiado.
- Eu nunca minto - disse numa voz suave.
E era verdade - ele nunca mentia. Ele era cem por cento puro.
Lembro-me de que deixou de jogar futebol desde que magoou um colega na canela. Passou a jogar vólei e a turma passou a estigmatizá-lo por ser «maricas». Mas ele não conhecia a palavra «rancor» ou «raiva».
Deixei de o ver. Em mim uma pergunta ecoava: como poderá a pureza dele ter sobrevivido nesta sociedade? Como estará ele hoje?
Anos e anos depois, alguém me disse que ele estava «agarrado à droga».
Sexta-feira, falei com uma rapariga me falou dele.
Foi internado no Júlio de Matos.
- Angel, ele é tão tão boa pessoa.
- Não me surpreende, sabes? Uma pessoa com a rectidão dele não poderia sobreviver neste mundo se não se adaptasse. Se não deixasse de ser quem era, no fundo.
O mundo tinha de expulsar uma pessoa assim tão pura.
Conheço duas pessoas que foram muito próximas de Álvaro Cunhal. Ambas o retratam como um ser profundamente humano. Disse-me uma - não-comunista - que morava ao seu lado:
- Ele interessava-se vivamente pelas pessoas. Sabia todos os problemas dos vizinhos. Todas as doenças, todos os familiares que estavam doentes. Era muito preocupado. Quando alguém tinha alguma complicação de saúde, ele não descansava enquanto não lhe dissessem: «Já está tudo bem.»
Uma outra pessoa, essa do Partido, disse-me que Cunhal estava atento ao mais infímo pormenor do sofrimento humano:
- Nunca me hei-de esquecer que no meio de um congresso importantíssimo, ele me disse: «O segurança está ali há quatro horas e ainda não comeu. Ou o revesam ou vão perguntar-lhe imediatamente o que é que ele quer comer.
António Lobo Antunes disse que uma das coisas que mais o comoveu foi na guerra ver o topo máximo da hierarquia militar ver um soldado a tiritar de frio a fazer de sentinela, tirar o seu casaco e dar-lho. Porque não há hierarquias quanto ao desconforto que é estar de pé, sozinho, à noite a apanhar frio.
São esses gestos que me fazem acreditar na humanidade. São esses gestos que me fazem sentir que vale a pena a lutar. Que, no fundo, vale a pena viver.
- Ele interessava-se vivamente pelas pessoas. Sabia todos os problemas dos vizinhos. Todas as doenças, todos os familiares que estavam doentes. Era muito preocupado. Quando alguém tinha alguma complicação de saúde, ele não descansava enquanto não lhe dissessem: «Já está tudo bem.»
Uma outra pessoa, essa do Partido, disse-me que Cunhal estava atento ao mais infímo pormenor do sofrimento humano:
- Nunca me hei-de esquecer que no meio de um congresso importantíssimo, ele me disse: «O segurança está ali há quatro horas e ainda não comeu. Ou o revesam ou vão perguntar-lhe imediatamente o que é que ele quer comer.
António Lobo Antunes disse que uma das coisas que mais o comoveu foi na guerra ver o topo máximo da hierarquia militar ver um soldado a tiritar de frio a fazer de sentinela, tirar o seu casaco e dar-lho. Porque não há hierarquias quanto ao desconforto que é estar de pé, sozinho, à noite a apanhar frio.
São esses gestos que me fazem acreditar na humanidade. São esses gestos que me fazem sentir que vale a pena a lutar. Que, no fundo, vale a pena viver.
Alguém me mostrou um parágrafo de prosa poética com um néctar sublime.
- Quem é o autor? - perguntei, intrigado, pensando em vários clássicos que poderiam ter escrito aquela passagem.
Para minha supresa:
- É de uma amiga minha. Ela não se identifica.
Interrogo-me se há artistas com obras-primas que só escrevem para eles. Acho - mas isto se calhar é uma fé confortável - ninguém a partir de determinado patamar de qualidade escreve só para a gaveta.
- Quem é o autor? - perguntei, intrigado, pensando em vários clássicos que poderiam ter escrito aquela passagem.
Para minha supresa:
- É de uma amiga minha. Ela não se identifica.
Interrogo-me se há artistas com obras-primas que só escrevem para eles. Acho - mas isto se calhar é uma fé confortável - ninguém a partir de determinado patamar de qualidade escreve só para a gaveta.
Decrepitude Dual
- Se eu conhecesse o Nicolau Breyner, apaixonava-me por ele - disse ela do alto dos seus vinte anos.
Por mais duro que seja: não há mulheres que aos 70 (qual 70, nem aos 60) inspirem o mínimo estremecimento de um jovem do sexo masculino.
Cruel, inelutável. Inúmeras razões me levariam a querer ser mulher. Esta não era uma delas.
Por mais duro que seja: não há mulheres que aos 70 (qual 70, nem aos 60) inspirem o mínimo estremecimento de um jovem do sexo masculino.
Cruel, inelutável. Inúmeras razões me levariam a querer ser mulher. Esta não era uma delas.
James Dean, Jim Morrison, Kurt Cobain, Marlyn Monroe. O que têm todos em comum?
Morreram cedo e, também por isso, tornaram-se deuses.
Sá Carneiro morreu cedo se pensarmos no que concerne à idade política e por isso também é endeusado e usado como bandeira política de quem se afirmar no partido social-democrata. E como alegadamente - para alguns - foi assassinado, maior a aura.
Não tenho dúvidas de que se Obama morresse hoje, ficaria um ícone comparável ao Gandhi.
Morreram cedo e, também por isso, tornaram-se deuses.
Sá Carneiro morreu cedo se pensarmos no que concerne à idade política e por isso também é endeusado e usado como bandeira política de quem se afirmar no partido social-democrata. E como alegadamente - para alguns - foi assassinado, maior a aura.
Não tenho dúvidas de que se Obama morresse hoje, ficaria um ícone comparável ao Gandhi.
sábado, maio 23, 2009
A marca inconfundível
O importante quando escreves ou quando fazes aquilo que gostas ou quando simplesmente exerces a tua personalidade, o importante é seres tu. Deixares a tua assinatura única e irrepetível. Mais ninguém pode deixar o teu poema. Só tu.
Se pensares que tens de agradar a toda a gente, se pensares que toda a gente terá de gostar da tua Obra - ficarás paralisado a vida inteira. Tens de aprender que nada nem ninguém é consensual. Pela positiva ou negativa. O Fritzl tem inúmeras fãs que lhe escrevem cartas de amor.
Mas quando és tu, mesmo quem não gosta de ti, respeita-te e secretamente admira que-tu-sejas-tu-próprio-em-qualquer-situação. Ser forte é justamente seres capaz de continuar a dizer a tua voz por mais adverso que seja o teu ambiente circundante.
Hemingway (cuja obra não admiro) disse que para seres um escritor, só tinhas de falar verdade sobre aquilo que dizias e que quando eras verdadeiro para contigo no acto de escrita, que então as vozes dos críticos te ralavam tanto como o daquele homem que montou a sua casa na neve e ouvia ao longe os uivos ferozes dos lobos selvagens instalado no calor e conforto do seu lar.
Se fores verdadeiro para com a tua verdade, já estás a ser absolutamente original. Porque mais ninguém teve, tem ou terá a tua voz. Procura-a.
Angel
Se pensares que tens de agradar a toda a gente, se pensares que toda a gente terá de gostar da tua Obra - ficarás paralisado a vida inteira. Tens de aprender que nada nem ninguém é consensual. Pela positiva ou negativa. O Fritzl tem inúmeras fãs que lhe escrevem cartas de amor.
Mas quando és tu, mesmo quem não gosta de ti, respeita-te e secretamente admira que-tu-sejas-tu-próprio-em-qualquer-situação. Ser forte é justamente seres capaz de continuar a dizer a tua voz por mais adverso que seja o teu ambiente circundante.
Hemingway (cuja obra não admiro) disse que para seres um escritor, só tinhas de falar verdade sobre aquilo que dizias e que quando eras verdadeiro para contigo no acto de escrita, que então as vozes dos críticos te ralavam tanto como o daquele homem que montou a sua casa na neve e ouvia ao longe os uivos ferozes dos lobos selvagens instalado no calor e conforto do seu lar.
Se fores verdadeiro para com a tua verdade, já estás a ser absolutamente original. Porque mais ninguém teve, tem ou terá a tua voz. Procura-a.
Angel
Pormenores que deixamos escapar e que revelam um paradigma mental
Milan Kundera no livro A Brincadeira assegura que a melhor forma de derrotar o inimigo é fodendo-lhe a mulher.
Eu diria que o preconceito, o arcaísmo mais difícil de desenterrar é o machismo. Claro que todos defendem a igualdade homem-mulher, mas lá no fundo no fundo há um substrato quase inamovível de mulher como ser-propriedade-do-homem, como - a palavra é crua, eu sei - objecto. Mesmo as mentes mais desempoeiradas como Kundera...
Eu diria que o preconceito, o arcaísmo mais difícil de desenterrar é o machismo. Claro que todos defendem a igualdade homem-mulher, mas lá no fundo no fundo há um substrato quase inamovível de mulher como ser-propriedade-do-homem, como - a palavra é crua, eu sei - objecto. Mesmo as mentes mais desempoeiradas como Kundera...
sexta-feira, maio 22, 2009
Do Real
Um amigo toca-me à campainha:
- Angel, desce, preciso de te mostrar uma coisa.
Entro no carro dele e ele mostra-me uma fotografia:
- Estás a ver? Estou parecido com ele?
Olho para a fotografia, olha para ele. O desenho da barba e a indumentária escura são praticamente iguais. É um actor qualquer que desconheço (e que, de facto, é muito sexy).
- Estás - digo.
- Angel, se agora estou parecido... vou ficar igual daqui a uma hora!!! - disse excitadíssimo.
- Então?
- Vou ao cabeleireiro e vou fazer um penteado igual ao dele!
Tenho argumentos escritos para desenvolver mais tarde. Um deles tornou-se agora real (pelo lado do aspecto físico): é uma história que escrevi há uns anos, de alguém que decide desembaraçar-se do trabalho de escolher uma personalidade e decide copiar esse alguém. Em tudo. Tudo. Como não há figura jurídica para este, a vítima da cópia é levada à loucura - mais do que o próprio imitador?
- Angel, desce, preciso de te mostrar uma coisa.
Entro no carro dele e ele mostra-me uma fotografia:
- Estás a ver? Estou parecido com ele?
Olho para a fotografia, olha para ele. O desenho da barba e a indumentária escura são praticamente iguais. É um actor qualquer que desconheço (e que, de facto, é muito sexy).
- Estás - digo.
- Angel, se agora estou parecido... vou ficar igual daqui a uma hora!!! - disse excitadíssimo.
- Então?
- Vou ao cabeleireiro e vou fazer um penteado igual ao dele!
Tenho argumentos escritos para desenvolver mais tarde. Um deles tornou-se agora real (pelo lado do aspecto físico): é uma história que escrevi há uns anos, de alguém que decide desembaraçar-se do trabalho de escolher uma personalidade e decide copiar esse alguém. Em tudo. Tudo. Como não há figura jurídica para este, a vítima da cópia é levada à loucura - mais do que o próprio imitador?
Tortura sem testemunhas
Marinho e Pinto neste caso tem razão: não pode haver tortura nas esquadras. Tem de ser obrigatória a presença do advogado de defesa aquando dos inquéritos nas esquadras.
Quantos seremos?
- Tens um mundo paralelo, Angel. És como eu. Descobri na primeira vez que te conhecia. Quando o olhar se desvia, não fitando nada, é sinal que estás recolhido na tua casquinha. Engraçado, pensei, pertence ao meu grupo.
nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas
e.e.cummings
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas
e.e.cummings
Alteridades Invisíveis
Ele estava a comer sentado no colombo (há centro comercial mais feio?). Viu Ana passar por ele. Chamou-a. Ela não respondeu.
- Ana! - gritou.
Ela nada.
- Porra, tá maluca ou quê? - pensou.
- Ana!!!
Levantou-se e foi a correr pelo colombo com a fast food na mão.
Como o nome dela não a fizesse parar, foi a correr pelo Colombo até parar à frente da cara dela.
- Desculpe, eu não me chamo Ana.
Ao princípio, ainda pensou tratar-se de uma brincadeira. Depois, viu um sinal na cara e percebeu.
- Angel, nunca vi duas pessoas tão parecidas na vida.
O que farias se encontrasses uma pessoa igual a ti?
- Ana! - gritou.
Ela nada.
- Porra, tá maluca ou quê? - pensou.
- Ana!!!
Levantou-se e foi a correr pelo colombo com a fast food na mão.
Como o nome dela não a fizesse parar, foi a correr pelo Colombo até parar à frente da cara dela.
- Desculpe, eu não me chamo Ana.
Ao princípio, ainda pensou tratar-se de uma brincadeira. Depois, viu um sinal na cara e percebeu.
- Angel, nunca vi duas pessoas tão parecidas na vida.
O que farias se encontrasses uma pessoa igual a ti?
quinta-feira, maio 21, 2009
Um dos ensinamentos mais importantes a reter do Oriente é o do Yin e do Yang (juntamente com a vacuidade e a ausência do eu).
Dá para tudo.
Por exemplo: perceber que ninguém tem uma característica muito marcante sem ter a sombra do seu contrário.
Uma pessoa muito muito segura... alguém duvida que isso é uma máscara de força para esconder as suas fraquezas? Que, como escreveu Balzac, só alguém muito forte consegue admitir as suas fraquezas. De facto, quando as admitimos, nunca somos ridicularizados, nunca desiludimos, nunca podemos ser acusados de criar falsas esperanças.
Tudo o que é em excesso contém a sombra do seu oposto - esta máxima oriental é dos ensinamentos mais profundos da humanidade.
Podemos observar isto em tudo. Até na economia. A teoria dos ciclos económicos diz que a uma recessão sucede sempre uma expansão e versa-vice.
Dá para tudo.
Por exemplo: perceber que ninguém tem uma característica muito marcante sem ter a sombra do seu contrário.
Uma pessoa muito muito segura... alguém duvida que isso é uma máscara de força para esconder as suas fraquezas? Que, como escreveu Balzac, só alguém muito forte consegue admitir as suas fraquezas. De facto, quando as admitimos, nunca somos ridicularizados, nunca desiludimos, nunca podemos ser acusados de criar falsas esperanças.
Tudo o que é em excesso contém a sombra do seu oposto - esta máxima oriental é dos ensinamentos mais profundos da humanidade.
Podemos observar isto em tudo. Até na economia. A teoria dos ciclos económicos diz que a uma recessão sucede sempre uma expansão e versa-vice.
É delicioso ouvir alguém apaixonado falar do objecto da sua paixão.
- Tu viste aquilo?!
[o aquilo é o gesto mais banal ou o lugar-comum mais comum]
Borges diz que Deus vê-nos a cada um de nós como o ser apaixonado pelo objecto da paixão. A diferença do apaixonado para Deus é só uma questão de número. O sentimento é idêntico. E não deixa de ser sempre UM - sempre uma experiência unitária.
- Tu viste aquilo?!
[o aquilo é o gesto mais banal ou o lugar-comum mais comum]
Borges diz que Deus vê-nos a cada um de nós como o ser apaixonado pelo objecto da paixão. A diferença do apaixonado para Deus é só uma questão de número. O sentimento é idêntico. E não deixa de ser sempre UM - sempre uma experiência unitária.
Amigo é uma parte de nós
Queres ser meu amigo?
Deveres:
terás de estar sempre disponível quando eu precisar de chorar no teu ombro
terás de dizer: «quanto?» quando te pedir para saltares
terás de estar presente de alguma forma em todos os momentos simbólicos da minha vida - tudo aquilo a que dou verdadeira importância na vida
terás de me criticar sempre sempre que algo te magoar ou simplesmente te desgradar em mim - sempre que achares que não estou a ser L-E-A-L ao meu eu mais fundo
em troca:
criticar-te-ei apenas em privado, sempre que ouvir o teu nome, falarei de ti como de um deus
sempre que se me deparar uma coisa boa, perguntar-me-ei se para ti ela tem utilidade e dar-te-ei se responder mentalmente «sim»
detectarei na tua vida tudo o que poderia fazer para a melhorar e fá-lo-ei, de preferência sem que tu saibas
só estarei bem se souber que estás bem
o teu nome será uma palavra pela qual lutarei a vida toda
em todos os momentos em que vejo a beleza, em que algo me comove, pensá-lo-ei até ti
Deveres:
terás de estar sempre disponível quando eu precisar de chorar no teu ombro
terás de dizer: «quanto?» quando te pedir para saltares
terás de estar presente de alguma forma em todos os momentos simbólicos da minha vida - tudo aquilo a que dou verdadeira importância na vida
terás de me criticar sempre sempre que algo te magoar ou simplesmente te desgradar em mim - sempre que achares que não estou a ser L-E-A-L ao meu eu mais fundo
em troca:
criticar-te-ei apenas em privado, sempre que ouvir o teu nome, falarei de ti como de um deus
sempre que se me deparar uma coisa boa, perguntar-me-ei se para ti ela tem utilidade e dar-te-ei se responder mentalmente «sim»
detectarei na tua vida tudo o que poderia fazer para a melhorar e fá-lo-ei, de preferência sem que tu saibas
só estarei bem se souber que estás bem
o teu nome será uma palavra pela qual lutarei a vida toda
em todos os momentos em que vejo a beleza, em que algo me comove, pensá-lo-ei até ti
Na Argentina, um taxista devolveu a um casal de idosos a mala esquecida. Nela estariam o equivalente a 25 000 euros. Parece que cá e no Brasil isto é uma notícia digna de figurar em todos os jornais televisivos e ocupar destaque na imprensa escrita. Isto é sinal só de uma coisa: sociedade enferma.
A honestidade já nem é rara - ela é (e os jornais e televisões foram consensuias no adjectivo) heróica.
Isto é sinal só de uma coisa: sociedade enferma.
A honestidade já nem é rara - ela é (e os jornais e televisões foram consensuias no adjectivo) heróica.
Isto é sinal só de uma coisa: sociedade enferma.
quarta-feira, maio 20, 2009
O último magnata
Sou obsessivo-compulsivo. Quando descubro um autor que me apaixona, compro a obra toda.
Ando na fase de ver-tudo-o-que-é-filme-antigo-de-referência.
E, de facto, já não há filmes como antigamente.
The Last Tycoon... porra que filme. Que elenco. Dos melhores realizadores da história do cinema, com os melhores actores alguma vez reunidos num só filme (e tou à vontade porque nem são os da minha preferência), como um nobel da literatura como argumentista que adaptou a obra do enorme Scott Fitzgerald. A última obra de Kazan, a última de Fitzgerald.
Um filme que é uma obra-prima.
Um homem que teve tudo tudo na vida... «excepto o privilégio de entregar altruisticamente a alguém». Dono de uma cadeia cinematográfica tem poder, tem dinheiro, todas as pessoas andam atrás dele para isto e aquilo, todas o procuram, todas as mulheres bonitas imploram-lhe que lhe abra as portas para o estrelato no cinema.
Mas ele apaixona-se por uma mulher simples que só quer uma vida tranquila, que foge do estrelato, da confusão da fama. Humilde, despretensiosa. Mas... com uma cara igual a Minna, a sua mulher falecida.
O filme fala de muita coisa. Destaco duas: a necessidade de repetição e a obnubilação que a maior extraordinária experiência do mundo provoca. Falo do amor, evidentemente.
Como Scott escrevou vivemos sempre em busca de um passado que não volta, como barcos remando incessantemente contra a corrente. Freud disse o mesmo com menos beleza: o prazer da repetição é o principal móbil da humanidade.
O amor leva Sthar que viveu a vida em função do trabalho a desmarcar todos os compromisso urgentes com um sorriso despreocupado. Isto porque: «pode-se embotar uma qualidade sobre a qual se alicerçou uma vida durante anos e das quais depende o futuro de milhares de pessoas apenas devido a uma emoção». O amor.
Um outro ângulo: Sthar sofre de uma doença cardíaca. Com a proximidade da morte, o enorme edifício que construiu não lhe parece suficiente para justificar uma vida. Porque só o amor que armazenámos nos pode consolar na morte. E Sthar procura-o desesperadamente numa mulher que de tão parecida à sua falecida mulher, o faz querer revisitar o Amor.
Angel
Ando na fase de ver-tudo-o-que-é-filme-antigo-de-referência.
E, de facto, já não há filmes como antigamente.
The Last Tycoon... porra que filme. Que elenco. Dos melhores realizadores da história do cinema, com os melhores actores alguma vez reunidos num só filme (e tou à vontade porque nem são os da minha preferência), como um nobel da literatura como argumentista que adaptou a obra do enorme Scott Fitzgerald. A última obra de Kazan, a última de Fitzgerald.
Um filme que é uma obra-prima.
Um homem que teve tudo tudo na vida... «excepto o privilégio de entregar altruisticamente a alguém». Dono de uma cadeia cinematográfica tem poder, tem dinheiro, todas as pessoas andam atrás dele para isto e aquilo, todas o procuram, todas as mulheres bonitas imploram-lhe que lhe abra as portas para o estrelato no cinema.
Mas ele apaixona-se por uma mulher simples que só quer uma vida tranquila, que foge do estrelato, da confusão da fama. Humilde, despretensiosa. Mas... com uma cara igual a Minna, a sua mulher falecida.
O filme fala de muita coisa. Destaco duas: a necessidade de repetição e a obnubilação que a maior extraordinária experiência do mundo provoca. Falo do amor, evidentemente.
Como Scott escrevou vivemos sempre em busca de um passado que não volta, como barcos remando incessantemente contra a corrente. Freud disse o mesmo com menos beleza: o prazer da repetição é o principal móbil da humanidade.
O amor leva Sthar que viveu a vida em função do trabalho a desmarcar todos os compromisso urgentes com um sorriso despreocupado. Isto porque: «pode-se embotar uma qualidade sobre a qual se alicerçou uma vida durante anos e das quais depende o futuro de milhares de pessoas apenas devido a uma emoção». O amor.
Um outro ângulo: Sthar sofre de uma doença cardíaca. Com a proximidade da morte, o enorme edifício que construiu não lhe parece suficiente para justificar uma vida. Porque só o amor que armazenámos nos pode consolar na morte. E Sthar procura-o desesperadamente numa mulher que de tão parecida à sua falecida mulher, o faz querer revisitar o Amor.
Angel
Pergunto a alguém que é professor na casa dos trinta-quase-quarenta, como tem acompanhado as novas gerações. Diz-me ele (que sai abundantemente com alunos e alunas para a noite):
- Face à geração anterior, é uma geração mais bebedolas. Saem essencialmente para beber. Os putos até se estão um bocado nas tintas para a cena das gajas. É mesmo beber até cair, e elas igual. A noite deles acaba mais tarde, enquanto têm energia gastam-na até à última gota. A droga, essa tá completamente banalizada. E não tou a falar de ganzas. Não conversam. Trocam no máximo cinco frases sobre um tema e mudam logo.
Angel-o-sítio-mais-degradante-que-conheço-não-é-a-prisão-de-caxias-nem-o-casal-ventoso-é-a-Botica
- Face à geração anterior, é uma geração mais bebedolas. Saem essencialmente para beber. Os putos até se estão um bocado nas tintas para a cena das gajas. É mesmo beber até cair, e elas igual. A noite deles acaba mais tarde, enquanto têm energia gastam-na até à última gota. A droga, essa tá completamente banalizada. E não tou a falar de ganzas. Não conversam. Trocam no máximo cinco frases sobre um tema e mudam logo.
Angel-o-sítio-mais-degradante-que-conheço-não-é-a-prisão-de-caxias-nem-o-casal-ventoso-é-a-Botica
terça-feira, maio 19, 2009
Só namora com muito feios. O histórico é demasiado longo para ser apenas uma sucessão de coincidências. Ter um preconceito negativo contra a beleza é o mesmo do que ter um preconceito positivo: é um preconceito. Abraça a fealdade porque dá importância à beleza: acha que se namorasse bonitos, eles a poderiam trocar mais facilmente. Tudo por insegurança, como quase sempre acontece...
Vês aqui a grande Máquina do Mundo,
etérea e elemental, que fabricada
assim foi do Saber, alto e profundo,
que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
globo e sua superfície tão limada,
é Deus: mas o que é Deus ninguém o entende,
que a tanto o engenho humano não se estende.
Luís de Camões
etérea e elemental, que fabricada
assim foi do Saber, alto e profundo,
que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
globo e sua superfície tão limada,
é Deus: mas o que é Deus ninguém o entende,
que a tanto o engenho humano não se estende.
Luís de Camões
segunda-feira, maio 18, 2009
A inteligência e o querer
Prezo mais o querer do que a inteligência (que nunca percebi bem o que era).
As pessoas que conheço que têm mais querer são as que fazem mais coisas. E de forma mais bem feita.
Era preciso fazer uma coisa. Muito difícil. Muito trabalhosa.
O meu amigo com muita inteligência e pouco querer ficou a ver os dias passar. O meu amigo com muito querer e reduzida inteligência labutou, labutou. O que o inteligente percebia à primeira, ele percebeu à quinta e à sexta. E ao fim de inúmeras horas, levou o projecto até ao fim. Até ao fim. E de forma brilhante. Com quilómetros de horas e dias e meses incorporadas.
O querer aguça o engenho.
O melhor fótografo que conheço é maneta (não estou a brincar).
Angel
As pessoas que conheço que têm mais querer são as que fazem mais coisas. E de forma mais bem feita.
Era preciso fazer uma coisa. Muito difícil. Muito trabalhosa.
O meu amigo com muita inteligência e pouco querer ficou a ver os dias passar. O meu amigo com muito querer e reduzida inteligência labutou, labutou. O que o inteligente percebia à primeira, ele percebeu à quinta e à sexta. E ao fim de inúmeras horas, levou o projecto até ao fim. Até ao fim. E de forma brilhante. Com quilómetros de horas e dias e meses incorporadas.
O querer aguça o engenho.
O melhor fótografo que conheço é maneta (não estou a brincar).
Angel
Umas das mais belas imagens da humanidade
Há palavras e gestos que não me afectam directamente - mas que fazem mossa de forma mais sonora e perene. Sou um simbólico. Um sensivelzinho, se preferirem.
Não consigo deixar de pensar, turning on my head, que uma grande grande amiga minha disse o que disse.
- Angel, eu só trabalho para ganhar dinheiro. É aquela ideia neoclássica de que troco uma desutilidade por dinheiro. Trabalhar não me dá prazer nenhum.
- Mas como trabalhas tanto então?
- Estabeleço objectivos. Penso: agora precisava de uns cortinados na sala - e trabalho para isso. E assim sucessivamente.
- E acordas com motivação?
- Sim, pelo que te disse.
- E achas que isso vai durar?
- Não sei.
- Não tens a preocupação de que o teu trabalho seja útil para alguém?
- Isso já não me afecta nada. Na área de marketing, tenho de aumentar a facturação da empresa onde estou. Há uns meses tinha de aumentar a facturação da empresa concorrente. Não tenho ilusões a esse nível.
Não consigo deixar de pensar, turning on my head, que uma grande grande amiga minha disse o que disse.
- Angel, eu só trabalho para ganhar dinheiro. É aquela ideia neoclássica de que troco uma desutilidade por dinheiro. Trabalhar não me dá prazer nenhum.
- Mas como trabalhas tanto então?
- Estabeleço objectivos. Penso: agora precisava de uns cortinados na sala - e trabalho para isso. E assim sucessivamente.
- E acordas com motivação?
- Sim, pelo que te disse.
- E achas que isso vai durar?
- Não sei.
- Não tens a preocupação de que o teu trabalho seja útil para alguém?
- Isso já não me afecta nada. Na área de marketing, tenho de aumentar a facturação da empresa onde estou. Há uns meses tinha de aumentar a facturação da empresa concorrente. Não tenho ilusões a esse nível.
domingo, maio 17, 2009
Baptista-Bastos escreve que o melhor jornalismo que se faz em Portugal é regional. Afirma também que os prémios literários são predeterminados e que se instituem para premiar alguém que se sabe antecipadamente quem é o que servirá de trocar para esse escritor premiado depois fazer outro favor ao júri (que muitas vezes é escritor).
João Pedro George demonstrou com nomes de prémios, nomes de júris e premiados como funcionam os «amiguismos» em Portugal. No ano passado, o António foi júri e o José o escritor laureado. Hoje, José é júri e o António o escritor premiado. Quem se der ao trabalho de ler os seus livros, verá como 2+2 são 4.
O editor da Letra Livre dizia-me outro dia que se um escritor é publicado pela Oficina do Livro ou a D. Quixote é porque o seu livro é mau.
- Ter uma chancela de uma grande editora hoje em dia é garantia de que o livro é uma merda. Há tanta celebridade que nunca leu um livro a escrever que não há espaço para surgirem novos autores.
E onde ficam - pergunto - esses livros de qualidade atirados para a gaveta?
Eu conheço pessoas que escrevem lindamente e que nunca até hoje conseguiram publicar uma linha.
Não é só no jornalismo e na Literatura que isto acontece. O teatro, por exemplo. O melhor teatro que vejo (e vejo muito) é amador.
Há qualquer coisa aqui profundamente errada.
Imaginem o que eram Crime e Castigo, O Grande Gatsby, 1984, Em Busca do Tempo Perdido nunca terem sido publicados? A humanidade estaria mais pobre.
João Pedro George demonstrou com nomes de prémios, nomes de júris e premiados como funcionam os «amiguismos» em Portugal. No ano passado, o António foi júri e o José o escritor laureado. Hoje, José é júri e o António o escritor premiado. Quem se der ao trabalho de ler os seus livros, verá como 2+2 são 4.
O editor da Letra Livre dizia-me outro dia que se um escritor é publicado pela Oficina do Livro ou a D. Quixote é porque o seu livro é mau.
- Ter uma chancela de uma grande editora hoje em dia é garantia de que o livro é uma merda. Há tanta celebridade que nunca leu um livro a escrever que não há espaço para surgirem novos autores.
E onde ficam - pergunto - esses livros de qualidade atirados para a gaveta?
Eu conheço pessoas que escrevem lindamente e que nunca até hoje conseguiram publicar uma linha.
Não é só no jornalismo e na Literatura que isto acontece. O teatro, por exemplo. O melhor teatro que vejo (e vejo muito) é amador.
Há qualquer coisa aqui profundamente errada.
Imaginem o que eram Crime e Castigo, O Grande Gatsby, 1984, Em Busca do Tempo Perdido nunca terem sido publicados? A humanidade estaria mais pobre.
São tantos dos casos de:
melhor amiga interessada no namorado da amiga
a) porque há muitas cabras?
b) porque há poucas amizades verdadeiras?
c) porque há muita competição entre elas?
d) porque a melhor amiga estar interessada valida que ele é interessante?
e) porque o fruto...?
f) porque há uma convivência mais regular com esse homem. são poucas as pessoas que preenchem o quotidiano de forma regular. o colega de trabalho, o namorado da amiga são entes que obrigatoriamente preenchem uma fatia do espaço e do tempo. no fundo, será uma questão de oportunidade?
melhor amiga interessada no namorado da amiga
a) porque há muitas cabras?
b) porque há poucas amizades verdadeiras?
c) porque há muita competição entre elas?
d) porque a melhor amiga estar interessada valida que ele é interessante?
e) porque o fruto...?
f) porque há uma convivência mais regular com esse homem. são poucas as pessoas que preenchem o quotidiano de forma regular. o colega de trabalho, o namorado da amiga são entes que obrigatoriamente preenchem uma fatia do espaço e do tempo. no fundo, será uma questão de oportunidade?
sábado, maio 16, 2009
NÃO ME DÊEM FÓRMULAS CERTAS
Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei as mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir as minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava da minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas à frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer desaparecer.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já parti pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR!
Clarice Lispector in http://lifeinplastic.blogspot.com/
Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei as mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir as minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava da minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas à frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer desaparecer.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já parti pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR!
Clarice Lispector in http://lifeinplastic.blogspot.com/
sexta-feira, maio 15, 2009
TERTÚLIAS VIRTUAIS - OS CINCO OBJECTOS QUE LEVARIA PARA 10 ANOS NUMA ILHA
Folhas de Erva de Walt Whitman
Bíblia
Papel (muito)
caneta de tinta permanente
you (surprised?)
não acreditas que sejas tu?
o teu nome está em baixo:
Alexandra
Alice
Amélia
Ana
Ângela
Beatriz
Carla
Catarina
Clara
Conceição
Cristina
Daniela
Denise
Diana
Inês
Irene
Isabel
Joana
Leonor
Letícia
Mafalda
Mara
Margarida
Maria
Mónica
Nádia
Patrícia
Paula
Raquel
Rita
Sara
Sílvia
Sofia
Susana
Tâmara
Vânia
Zé
(já sabes quem és?)
espera: vou pensar com muita força..........
isso!
Bíblia
Papel (muito)
caneta de tinta permanente
you (surprised?)
não acreditas que sejas tu?
o teu nome está em baixo:
Alexandra
Alice
Amélia
Ana
Ângela
Beatriz
Carla
Catarina
Clara
Conceição
Cristina
Daniela
Denise
Diana
Inês
Irene
Isabel
Joana
Leonor
Letícia
Mafalda
Mara
Margarida
Maria
Mónica
Nádia
Patrícia
Paula
Raquel
Rita
Sara
Sílvia
Sofia
Susana
Tâmara
Vânia
Zé
(já sabes quem és?)
espera: vou pensar com muita força..........
isso!
quinta-feira, maio 14, 2009
Textos de Leitura Obrigatória
No exame de Português do 9.º ano [em Portugal], os critérios de avaliação permitem que um aluno possa ter dois pontos (em cinco) com «muitas insuficiências» de natureza «ortográfica, lexical, morfológica» e «sintáctica». Ou seja, em última análise, permite que um aluno entre no secundário sem saber escrever. Basta que responda com «palavras soltas», se der uma ideia que percebeu a pergunta e sugerir vagamente a resposta. Não se compreende como um professor consegue adivinhar o sentido de «palavras soltas», com uma ortografia errada, e ainda por cima comparar o mérito, relativo e absoluto, dessas trapalhadas «verbais». Mas, segundo a sra. ministra da Educação, «há uma técnica», certamente miraculosa, para avaliar «competências de leitura e de interpretação». E o primeiro-ministro com certeza acredita.
Toda a gente conhece as mil e uma razões por que as crianças não sabem escrever. Pior do que isso, excepto um ou outro "e-mail" ou SMS, as crianças não precisam de escrever. Se o Estado suprimisse a disciplina de Português (e já agora o Latim, o Grego, a História e a Filosofia), nem a sociedade, nem o PIB sofriam muito. Suponho mesmo que não sofriam nada. Para a espécie de homem, e de mulher, que por aí crescentemente circula, as «palavras soltas» chegam e sobram. Quem viveu na época em que se escrevia (cartas, por exemplo) aprendeu que escrever é um exercício de investigação e de lógica; um exercício que obriga a definir, ordenar e desenvolver o que se pensa. E também uma tentativa para comover, convencer, informar ou instruir o próximo. A espécie de comunicação pessoal e colectiva que hoje se usa dispensa esse esforço.
Os critérios de avaliação do exame do nosso 9.º ano não passam de um sintoma de uma realidade maior e mais triste: o lento «regresso» do Ocidente a uma nova espécie de barbárie. Nunca se gastou tanto dinheiro em «cultura» e nunca a cultura foi tão universalmente desprezada. A classe média, que desde o século XV foi a sua portadora (e criadora) por excelência, está reduzida a viajar com a penetração de um boi (rico) que olha para um palácio. A linguagem pública (religiosa, política, jornalística, musical, literária, cinematográfica, universitária) empobrece dia a dia. A conversa, como arte, morreu, porque as pessoas não têm que dizer e muito pouco interesse em ouvir. O Estado anda a educar as nossas queridas criancinhas para este mundo. Que outra coisa seria de esperar?
Vasco Pulido Valente
Toda a gente conhece as mil e uma razões por que as crianças não sabem escrever. Pior do que isso, excepto um ou outro "e-mail" ou SMS, as crianças não precisam de escrever. Se o Estado suprimisse a disciplina de Português (e já agora o Latim, o Grego, a História e a Filosofia), nem a sociedade, nem o PIB sofriam muito. Suponho mesmo que não sofriam nada. Para a espécie de homem, e de mulher, que por aí crescentemente circula, as «palavras soltas» chegam e sobram. Quem viveu na época em que se escrevia (cartas, por exemplo) aprendeu que escrever é um exercício de investigação e de lógica; um exercício que obriga a definir, ordenar e desenvolver o que se pensa. E também uma tentativa para comover, convencer, informar ou instruir o próximo. A espécie de comunicação pessoal e colectiva que hoje se usa dispensa esse esforço.
Os critérios de avaliação do exame do nosso 9.º ano não passam de um sintoma de uma realidade maior e mais triste: o lento «regresso» do Ocidente a uma nova espécie de barbárie. Nunca se gastou tanto dinheiro em «cultura» e nunca a cultura foi tão universalmente desprezada. A classe média, que desde o século XV foi a sua portadora (e criadora) por excelência, está reduzida a viajar com a penetração de um boi (rico) que olha para um palácio. A linguagem pública (religiosa, política, jornalística, musical, literária, cinematográfica, universitária) empobrece dia a dia. A conversa, como arte, morreu, porque as pessoas não têm que dizer e muito pouco interesse em ouvir. O Estado anda a educar as nossas queridas criancinhas para este mundo. Que outra coisa seria de esperar?
Vasco Pulido Valente
Zurenz, o inapreensível
Adoro formar sons que não querem dizer nada. Um conhecido meu criou a palavra Nulazh e andava eufórico a falar com os amigos:
- Já viram isto? Nu-láaaaaa-zhhhh. É a melhor coisa que já foi inventada? - dizia rindo-se.
Entretanto, em tudo o que podia deixar a assinatura Nulazh, foi espalhando o lastro: o nick do msn, o mail, pseudónimo...
Tenho uma amiga que sempre que sai à noite com as duas irmãs, honra um pacto: sempre que uma delas é abordada por um homem que a quer conhecer, quando chega a altura de lhes perguntarem a uma das três qual o seu nome, elas dizem:
- Zurenz...
- Como?
- Zurenz...
- O quê?
- Zurenz.
Contou-me essa minha amiga:
- Angel, combinámos que é esse o nome que uma de nós as três diz quando nos perguntam na noite. Demorámos a pensar qual o nome que diríamos e Zurenz é o nome que, no meio da confusão de sons da discoteca, menos perceptível é e ao mesmo tempo mais leva a pessoa a pedir para repetir. É perfeito, porque à noite, não parece que estamos a gozar e por outro lado por mais que o gritemos, parece que ninguém o retém. Parece que por mais alto que digas nunca forma um som. Houve um que me perguntou sete vezes! Tive de repetir sete vezes até que ele foi perguntar às minhas irmãs e elas continuavam: «Zurenz.»
- Já viram isto? Nu-láaaaaa-zhhhh. É a melhor coisa que já foi inventada? - dizia rindo-se.
Entretanto, em tudo o que podia deixar a assinatura Nulazh, foi espalhando o lastro: o nick do msn, o mail, pseudónimo...
Tenho uma amiga que sempre que sai à noite com as duas irmãs, honra um pacto: sempre que uma delas é abordada por um homem que a quer conhecer, quando chega a altura de lhes perguntarem a uma das três qual o seu nome, elas dizem:
- Zurenz...
- Como?
- Zurenz...
- O quê?
- Zurenz.
Contou-me essa minha amiga:
- Angel, combinámos que é esse o nome que uma de nós as três diz quando nos perguntam na noite. Demorámos a pensar qual o nome que diríamos e Zurenz é o nome que, no meio da confusão de sons da discoteca, menos perceptível é e ao mesmo tempo mais leva a pessoa a pedir para repetir. É perfeito, porque à noite, não parece que estamos a gozar e por outro lado por mais que o gritemos, parece que ninguém o retém. Parece que por mais alto que digas nunca forma um som. Houve um que me perguntou sete vezes! Tive de repetir sete vezes até que ele foi perguntar às minhas irmãs e elas continuavam: «Zurenz.»
quarta-feira, maio 13, 2009
Aos possuidores do dom de identificar, entre as meninas de nove a catorze anos, aquelas que realmente são ninfetas, dá-se o nome de ninfoleptos. Os atributos dos ninfoleptos resumem-se a distinguir as características misteriosas, a graça tresloucada, o charme indefinível, astuto, insidioso, que despedaça almas e que distingue a ninfeta das demais moças de sua idade. É preciso que se seja um artista e um louco, uma criatura de infinita melancolia, com um borbulhar de veneno ardente na carne (...)
Vladimir Nabokov, Lolita
Vladimir Nabokov, Lolita
terça-feira, maio 12, 2009
Não há pior analfabeto que o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. O analfabeto político é tão burro que se orgulha de o ser e, de peito feito, diz que detesta a política. Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política é que nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, desonesto, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
Bertolt Brecht
Bertolt Brecht
Se te dedicares a vida inteira a uma pessoa terás a vida mais nobre de todas.
- Mas só a uma pessoa?
E tu? Já viste a importância que te dás? Tu és só uma pessoa. E já viste a importância da tua vida para ti? Caramba!
O universo não existe, existe e só e sempre apenas uma pessoa. O mundo, a população é uma abstracção. Nada existe para lá de uma pessoa.
- Mas só a uma pessoa?
E tu? Já viste a importância que te dás? Tu és só uma pessoa. E já viste a importância da tua vida para ti? Caramba!
O universo não existe, existe e só e sempre apenas uma pessoa. O mundo, a população é uma abstracção. Nada existe para lá de uma pessoa.
- Desde que trabalho em multinacionais que sinto que não sou dona do meu tempo. A empresa é que é a dona do meu tempo e muito de vez em quando concede que eu vá dormir - pouco, por sinal - e comer. Mesmo aos fim-de-semana, trabalho. Tu não imaginas. E lá é toda a gente assim. Há quem durma quatro horas e não faça mais nada senão trabalhar.
segunda-feira, maio 11, 2009
Connosco entendemo-nos melhor do que com os outros. Por isso há tanta gente que vive na sua concha, com profundíssimos diálogos interiores. Porque explicar aos outros não é a mesma coisa - demora mais, é difícil encontrar as palavras que expressem o que queremos comunicar. É difícil alguém entender o que sentimos. Difícil?
Impossível.
Impossível.
Um só
É uma pessoa simpática e querida quando se conhece na superficialidade.
É uma pessoa áspera e desagradável quando se conhece profundamente.
É uma excelente pessoa, tem ouro puro no coração quando se conhece ao fim de muitos anos.
É uma pessoa áspera e desagradável quando se conhece profundamente.
É uma excelente pessoa, tem ouro puro no coração quando se conhece ao fim de muitos anos.
domingo, maio 10, 2009
Explicou durante quinze minutos o diálogo que estabelecera com uma criança de sete anos que não conhecia e com quem falara por acaso através do arame farpado que circundava a escola. Ele passeava pela cidade e algo na criança despertara a sua atenção. Contou pormenorizadamente o diálogo espantoso que travou com a criança através das grades.
Discutiram a guerra, a política de intervenção norte-americana, o estado do mundo.
- Mas como é que alguém aos sete anos...? - interrogavam-se os interlocutores.
- Eu vi logo que ela era diferente e, por isso, é que parei e entabulei a conversação.
E prosseguiu os diálogos só possíveis no mundo dos adultos.
No final disse:
- Tudo isto se passou em linguagem não-verbal. Nós não trocámos uma palavra.
Discutiram a guerra, a política de intervenção norte-americana, o estado do mundo.
- Mas como é que alguém aos sete anos...? - interrogavam-se os interlocutores.
- Eu vi logo que ela era diferente e, por isso, é que parei e entabulei a conversação.
E prosseguiu os diálogos só possíveis no mundo dos adultos.
No final disse:
- Tudo isto se passou em linguagem não-verbal. Nós não trocámos uma palavra.
Do sânscrito
A melhor expressão que recolhi em tantas que fui ouvindo, lendo e vendo para designar a... li-a no Kamasutra. Yoni.
sábado, maio 09, 2009
É uma pessoa que tem ego fraco mascarado de ego forte. Precisa de dominar. Então, reúne-se de uma corte de indivíduos de baixa-chama à sua volta. Submissos, indefinidos, subservientes. Reverberam a ilusão que ele quer ver reflectida. Os outros como espelho da imagem de si. A que se quer afincadamente agarrar.
sexta-feira, maio 08, 2009
Nicole Diver é uma personagem de Terna é a Noite. Abusada na infância pelo pai, ficou traumatizada por todos os homens que se aproximavam dela de forma doce e melíflua... O pai quando se aproximava dela para ter sexo, procurava ser muito meigo embalando-a em cantigas suaves. Nicole ficou assim céptica e repulsiva perante investidas amigas dos homens. Era preciso ser duro e antipático para um homem chegar perto.
Quantas mulheres conhecemos que não se aproximam quando são maltratadas e se afastam quando são bem tratadas?
Quantas mulheres conhecemos que não se aproximam quando são maltratadas e se afastam quando são bem tratadas?
O Granja passava-nos revistas, livros proibidos, indicava-nos títulos, filmes, espalhava sorrisos e - porque não dizê-lo? - ternura. Ternura, isso mesmo. Não havia, não há outro homem como ele. Até na ausência de ressentimento para com aqueles que o haviam torturado, o Vasco Granja era diferente.
A certa altura, percebi que ele não se sentia bem no emprego. Falei, então com António Ramos (saúde, velho António!), editor da Bertrand, "um príncipe da Renascença", como era designado pelo Urbano Tavares Rodrigues, e cuja elegância moral e intelectual era lendária. Logo, o Ramos contratou o Granja para a Bertrand, empresa na qual desempenhou um papel ímpar no conhecimento e na divulgação de grandes nomes da Banda Desenhada.
Baptista-Bastos
A certa altura, percebi que ele não se sentia bem no emprego. Falei, então com António Ramos (saúde, velho António!), editor da Bertrand, "um príncipe da Renascença", como era designado pelo Urbano Tavares Rodrigues, e cuja elegância moral e intelectual era lendária. Logo, o Ramos contratou o Granja para a Bertrand, empresa na qual desempenhou um papel ímpar no conhecimento e na divulgação de grandes nomes da Banda Desenhada.
Baptista-Bastos
O destaque da notícia foi o golo triviela de Mourinho. O grande golo de Mourinho. Para mim, o vídeo mostra outras coisas: a má-educação e a competitividade doentia de Mourinho que sempre demonstrou mau perder (pondo as culpas no árbitro, no adversário) e mau ganhar (arrasando quem perde e falando de si como o melhor do mundo) enquanto treinador.
Mourinho jogava com colaboradores do Inter, colegas, no fundo. Era uma brincadeira entre amigos. Ainda assim, fez o que fez e decidiu deixar de jogar quando quis porque já tinha ganho e brilhado.
Num país pequeno como o nosso qualquer pessoa que ganhe e faço o discurso do sucesso é um ídolo. Mesmo que não respeite os adversários, mesmo que use métodos escrupulosamente dúbios, mesmo que nunca tenha contribuído um átomo para o bem-estar da humanidade.
Angel
Francis Scott Fitzgerald conta na ficção o que fazia na vida: juntar, por gozo pessoal, as pessoas mais díspares e colocá-las precisamente em frente das outras. Não era preciso mais nada. O incêndio estava garantido. Um nazi em frente de um comunista. Bastava estarem frente a frente para pouco tempo depois perceberem quem eram e, evitando a cerimónia, explodirem.
quinta-feira, maio 07, 2009
Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n 'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
Almeida Garrett
E eu n 'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
Almeida Garrett
quarta-feira, maio 06, 2009
Isto é que é uma paródia
ESTUDANTES
86 comas alcoólicos em dois dias de Queima
por ANA BELA FERREIRA Hoje
Cortejo e Serenata da Queima das Fitas de Coimbra levaram aos Hospitais da Universidade 127 estudantes, a maioria devido ao álcool.
Nos dois dias mais concorridos da Queima das Fitas de Coimbra chegaram aos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) 86 estudantes em coma alcoólico. No total, deram entrada 127, a maioria no último domingo durante o Cortejo, segundo disse ao DN fonte hospitalar, que sublinha, contudo, a normalidade dos números.
86 comas alcoólicos em dois dias de Queima
por ANA BELA FERREIRA Hoje
Cortejo e Serenata da Queima das Fitas de Coimbra levaram aos Hospitais da Universidade 127 estudantes, a maioria devido ao álcool.
Nos dois dias mais concorridos da Queima das Fitas de Coimbra chegaram aos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) 86 estudantes em coma alcoólico. No total, deram entrada 127, a maioria no último domingo durante o Cortejo, segundo disse ao DN fonte hospitalar, que sublinha, contudo, a normalidade dos números.
Deixamos muito mais sementes do que imaginamos
Muitas vezes ouço pessoas dizer:
- Todos o fazem.
Usam esta frase - ou outra parecida - para justificarem (perante os outros? perante eles?) que fazem o que fazem não porque concordem mas porque o mundo é assim.
Aproveitar-se de dinheiros públicos, usufruir de cunhas, trair a namorada:
- Não, vou ser o único tanso.
Devemos ser, como Gandhi e Kant explicaram, o que achamos que é o dever-ser.
Quando cedemos ao mundo, destruímos a nossa personalidade. E não é só por uma questão de vaidade e orgulho que não devemos abdicar da nossa personalidade.
É porque a nossa personalidade faz todas as outras pessoas questionarem a sua. E sem exemplos de honestidade, solidariedade, não há referências.
Destruir uma personalidade é destruir uma série de outras... no presente e na perenidade.
Angel-deixamos-sementes-em-outras-pessoas-que-deixam-sementes-em-outras-que...
- Todos o fazem.
Usam esta frase - ou outra parecida - para justificarem (perante os outros? perante eles?) que fazem o que fazem não porque concordem mas porque o mundo é assim.
Aproveitar-se de dinheiros públicos, usufruir de cunhas, trair a namorada:
- Não, vou ser o único tanso.
Devemos ser, como Gandhi e Kant explicaram, o que achamos que é o dever-ser.
Quando cedemos ao mundo, destruímos a nossa personalidade. E não é só por uma questão de vaidade e orgulho que não devemos abdicar da nossa personalidade.
É porque a nossa personalidade faz todas as outras pessoas questionarem a sua. E sem exemplos de honestidade, solidariedade, não há referências.
Destruir uma personalidade é destruir uma série de outras... no presente e na perenidade.
Angel-deixamos-sementes-em-outras-pessoas-que-deixam-sementes-em-outras-que...
terça-feira, maio 05, 2009
Sou contra a traição. Ou as pessoas têm relações abertas e dizem a verdade ao parceiro, aceitando-o no parceiro (sim, machistas, é para os dois lados), ou então... a traição é enganar, mentir, magoar pelas costas.
Ainda assim, choca-me mais ver a mulher do John Edwards (que foi candidato a candidato a Presidente dos EUA) a contar ao mundo a traição do marido do que ele traí-la.
Ainda assim, choca-me mais ver a mulher do John Edwards (que foi candidato a candidato a Presidente dos EUA) a contar ao mundo a traição do marido do que ele traí-la.
Uma pessoa muito ambiciosa quer sempre mais e por isso nunca está satisfeita. E mesmo quando consegue o que quer, isso mata aquilo que a move - falta-lhe ter algo por que lutar. Se está em segundo lugar, quer ultrapassar o primeiro. Se está em primeiro, pensa SO WHAT? Então e agora? Um bicho sempre em torno da sua cauda...
Sem coluna vertebral
Léo era jogador do Benfica. Os adeptos adoravam-no. Sempre titular, era por muitos considerado um dos melhores da equipa. Enquanto apreciador de futebol, achava-o um belíssismo jogador. Este ano, com a entrada do treinador Quique Flores, Léo foi estranhamente remetido para o banco, até que saiu do clube para ir para outro.
É natural que esteja magoado com Quique (apesar de não sabermos as suas razões), e a verdade é que o seu substituto só tem aumentado as saudades de Léo.
Até aqui tudo bem. O que meteu nojo foi ler que os ataques pessoais que Léo dirigiu a Quique (que segundo o jogador não percebe nada do futebol português e não é um comandante). Porquê o nojo?, perguntam. Pela altura.
Léo escolheu o momento em que Quique está mais fragilizado para o atacar. É oportunista. É mesquinho. É cobarde. É como aqueles elementos dos gangues que só atacam quando alguém já estão no chão inerte a levar pancada de dez. Quem só pontapeia aquilo que já tombou para o chão é inultrapassavelmente soez.
É natural que esteja magoado com Quique (apesar de não sabermos as suas razões), e a verdade é que o seu substituto só tem aumentado as saudades de Léo.
Até aqui tudo bem. O que meteu nojo foi ler que os ataques pessoais que Léo dirigiu a Quique (que segundo o jogador não percebe nada do futebol português e não é um comandante). Porquê o nojo?, perguntam. Pela altura.
Léo escolheu o momento em que Quique está mais fragilizado para o atacar. É oportunista. É mesquinho. É cobarde. É como aqueles elementos dos gangues que só atacam quando alguém já estão no chão inerte a levar pancada de dez. Quem só pontapeia aquilo que já tombou para o chão é inultrapassavelmente soez.
Da boçalidade com imaginação
Comer e calar é comer duas vezes.
As namoradas dos meus amigos são homens para mim... mas umas paneleirices de vez em quando!
As namoradas dos meus amigos é como a cebola: choro mas como.
As namoradas dos meus amigos são homens para mim... mas umas paneleirices de vez em quando!
As namoradas dos meus amigos é como a cebola: choro mas como.
segunda-feira, maio 04, 2009
F. praticamente não falava com raparigas. Quando interagia com elas, era para:
a) lhes saltar para cima
ou
b) dizer qualquer coisa como: wanna fuck with me?
F. não era tão ingénuo ou tão boçal que não soubesse a consequência de tal postura: afastá-las.
F. era impotente e esta era - achava - a sua melhor máscara.
a) lhes saltar para cima
ou
b) dizer qualquer coisa como: wanna fuck with me?
F. não era tão ingénuo ou tão boçal que não soubesse a consequência de tal postura: afastá-las.
F. era impotente e esta era - achava - a sua melhor máscara.
- Angel, tu navegas contra a corrente demasiado. Não gostas de nada do mainstream.
Desmentindo isto, direi que há verdades do mundo que subscrevo:
a) o Messi é o melhor jogador do mundo (apesar de o Villa não lhe ficar muito atrás);
b) os Monthy Pyton têm, de facto, piada;
c) o Edward Norton e o Al Pacino são grandes actores;
d) Camões é o maior poeta português;
e) a Angelina Jolie é muito gira;
f) o Mugabe é um ditador intolerável;
g) vive-se melhor no pós-25 de Abril do que antes.
Desmentindo isto, direi que há verdades do mundo que subscrevo:
a) o Messi é o melhor jogador do mundo (apesar de o Villa não lhe ficar muito atrás);
b) os Monthy Pyton têm, de facto, piada;
c) o Edward Norton e o Al Pacino são grandes actores;
d) Camões é o maior poeta português;
e) a Angelina Jolie é muito gira;
f) o Mugabe é um ditador intolerável;
g) vive-se melhor no pós-25 de Abril do que antes.
domingo, maio 03, 2009
Sangue na Guelra
Manoel de Oliveira aos cem anos faz um filme que - diz - sempre sonhou fazer. Parece que aos cem anos ainda se concretizam sonhos. Mário Moura aos 84 anos, depois de 55 anos no meio editorial, vende a sua editora (Pergaminho). Pensa toda a gente que arrumou as botas. Não. Depois de a vender, cria uma nova (Vogais & Companhia). Enquanto temos projectos, somos imorredoiros...
Das coisas que mais me entristece em Portugal é a corja a que está entregue o sector dos livros. As editoras, as publicações literárias (tão fraquinhas), os livros de merda que se publicam. Basta ser uma celebridade que nunca leu um livro para garantir um best-seller. Claro que isto tem consequências num mercado que não é propriamente gigante... e os novos eventuais autores de qualidade não têm espaço.
Leio que na Feira do Livro um debate sobre «os livros podem ajudar-nos a sair da crise» teve como orador Camilo Lourenço. Deixem os livros a quem os ama. Pleaaaaaaaaaaaaase.
Leio que na Feira do Livro um debate sobre «os livros podem ajudar-nos a sair da crise» teve como orador Camilo Lourenço. Deixem os livros a quem os ama. Pleaaaaaaaaaaaaase.
Eu nem quero imaginar o que pode fazer uma variante de uma PIDE moderna com os instrumentos e as bases de dados a que pode aceder no estado, desde a do ADN, à da Via Verde, ao Cartão do Cidadão e os seus "números" interligados, com as escutas e procuras na Internet e nos telemóveis, às câmaras de videovigilância que proliferam por todo o lado, etc., etc. De manhã à noite, todo o meu percurso, o dinheiro que gasto, os livros que compro, onde almoço e com quantas pessoas, se passo pela Rua do Carmo, se entro no Sheraton ou se vou a um bar de alterne, que palavras procuro no Google, os bilhetes de avião ou comboio, tudo, tudo, tudo pode hoje ser procurado, sistematizado, devassado.
Pacheco Pereira
Pacheco Pereira
Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti
(...)
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte...
Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —
Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.
Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.
Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
(...)
Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.
(...)
Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas ás emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
A cadela a uivar de noite,
O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,
O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,
A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
Ó fome abstrata das coisas, cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida!
(...)
Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.
Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.
Álvaro de Campos, Passagem das Horas
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti
(...)
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte...
Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —
Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.
Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.
Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
(...)
Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.
(...)
Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas ás emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
A cadela a uivar de noite,
O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,
O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,
A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
Ó fome abstrata das coisas, cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida!
(...)
Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.
Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.
Álvaro de Campos, Passagem das Horas
sábado, maio 02, 2009
Quem diria
Robert Smith diz que a coisa de que se arrependeu ao longo da carreira é de chamar à banda The Cure. Como chamaria então à banda se voltasse atrás? Mike, Tolly and Bob.
Há personagens de ficção que conheço melhor do que pessoas. Vejo-as (personagens) como pessoas que habitam dentro de mim.
Nero Wolfe é uma delas. Foi Rex Stout que o criou, mas Nero Wolfe é maior do que o seu autor. Porque as personagens têm vida própria. E basta existirem na cabeça de um leitor para existirem de facto. Porque tudo existe - existe na cabeça de alguém. (A eterna questão filosófica de Berkeley: se uma árvore cair na floresta e não estiver lá ninguém para a ouvir, podemos dizer que houve som?)
Muitas vezes penso em Nero Wolfe, como muitas vezes penso num amigo (a propósito: em quem já pensaste hoje? Em quantas pessoas pensas durante um dia?)
Nero Wolfe é detective. Nunca sai de casa. Tem outros que fazem o trabalho fora de portas. Ele pensa. Gosta de ler, de cuidar das suas orquídeas, de comer - o momento da refeição é sempre um momento de júbilo vagaroso, e de beber cerveja. Conheço bem a sua casa. Pesa perto de cento e quarenta quilos. É tão gordo que criou um elevador para descer de casa. Não lida bem com mulheres. É muito racional e a volubilidade delas irrita-o. É honesto. Atento ao mais ínfimo pormenor. Só fala com as pessoas quando os seus olhos estão ao nível dos dele. É irascível. Irrita-se com a estupidez. Tem um bom coração, mas não mostra. Pouco afectuoso, não estendE a mão para cumprimentar as pessoas. Evita ao máximo o contacto físico. Conheço bem o seu quarto onde o vejo tantas vezes no seu pijama de seda amarelo a comer o pequeno-almoço com cabelo ainda desgrenhado.
(Para quem tiver interessado, há inúmeros livros de Rex Stout - mais de setenta - com Nero Wolfe.)
Nero Wolfe é uma delas. Foi Rex Stout que o criou, mas Nero Wolfe é maior do que o seu autor. Porque as personagens têm vida própria. E basta existirem na cabeça de um leitor para existirem de facto. Porque tudo existe - existe na cabeça de alguém. (A eterna questão filosófica de Berkeley: se uma árvore cair na floresta e não estiver lá ninguém para a ouvir, podemos dizer que houve som?)
Muitas vezes penso em Nero Wolfe, como muitas vezes penso num amigo (a propósito: em quem já pensaste hoje? Em quantas pessoas pensas durante um dia?)
Nero Wolfe é detective. Nunca sai de casa. Tem outros que fazem o trabalho fora de portas. Ele pensa. Gosta de ler, de cuidar das suas orquídeas, de comer - o momento da refeição é sempre um momento de júbilo vagaroso, e de beber cerveja. Conheço bem a sua casa. Pesa perto de cento e quarenta quilos. É tão gordo que criou um elevador para descer de casa. Não lida bem com mulheres. É muito racional e a volubilidade delas irrita-o. É honesto. Atento ao mais ínfimo pormenor. Só fala com as pessoas quando os seus olhos estão ao nível dos dele. É irascível. Irrita-se com a estupidez. Tem um bom coração, mas não mostra. Pouco afectuoso, não estendE a mão para cumprimentar as pessoas. Evita ao máximo o contacto físico. Conheço bem o seu quarto onde o vejo tantas vezes no seu pijama de seda amarelo a comer o pequeno-almoço com cabelo ainda desgrenhado.
(Para quem tiver interessado, há inúmeros livros de Rex Stout - mais de setenta - com Nero Wolfe.)
Queria ter um compromisso - por necessidade de amar e ser amado.
Queria ser solteiro - para ter a estrada larga da liberdade...
Havia uma hipótese que conciliava os dois benefícios anteriores: ser infiel. Mas ser infiel corroer-lhe-ia os princípios - o ser. E ele gostava muito de se olhar ao espelho...
Queria ser solteiro - para ter a estrada larga da liberdade...
Havia uma hipótese que conciliava os dois benefícios anteriores: ser infiel. Mas ser infiel corroer-lhe-ia os princípios - o ser. E ele gostava muito de se olhar ao espelho...
Alguém que muito estimo disse-me:
- Angel, para mim as coisas são assim: uma vez amigos, amigos para sempre. Estás lixado, porque vais ser sempre meu amigo quer queiras quer não.
Não funciono assim. Não acredito no amigos-uma-vez-amigos-para-sempre. Pode ser, mas também pode não ser. Há que dar espaço à desilusão. Além de que as pessoas mudam e nós também. Felizmente.
Angel-não-quero-estar-preso-a-não-ser-que-por-vontade
- Angel, para mim as coisas são assim: uma vez amigos, amigos para sempre. Estás lixado, porque vais ser sempre meu amigo quer queiras quer não.
Não funciono assim. Não acredito no amigos-uma-vez-amigos-para-sempre. Pode ser, mas também pode não ser. Há que dar espaço à desilusão. Além de que as pessoas mudam e nós também. Felizmente.
Angel-não-quero-estar-preso-a-não-ser-que-por-vontade
sexta-feira, maio 01, 2009
É certo que ninguém lê os contratos que assina, especialmente os muitos longos com letra minúscula. Não fujo à regra. Por sorte, os meus olhos, numa leitura diagonal, captaram algo de um um contrato que fazia com a tmn:
«obrigatoriedade de pagamento de prestação bimensal no pagamento do seguro do telemóvel»
Chamei a atenção da menina, que me explicara que só tinha de pagar de dois em dois meses.
- Mas aqui diz que é duas vezes por mês.
- Não, não. É de dois em dois meses.
- Desculpe, diz aqui «bimensal».
- Então, é o que lhe estou a dizer.
- Não, bimensal é duas vezes por mês. Bimestral é que é de dois em dois meses.
- Pois, não sei.
A questão aqui não é a funcionária não saber. A questão é:
Como é que uma multinacional deste tamanho com tanta gente a trabalhar lá comete um erro destes? Das duas uma: ou a ignorância atravessa toda aquela multinacional e é assustador o grau de desdém pela língua nas grandes empresas; ou então trata-se de um embuste. Tenho de ir a ver as contas...
(uma coisa é certa: se me cobrarem a mim e a todos duas vezes por mês, nada poderei fazer)
«obrigatoriedade de pagamento de prestação bimensal no pagamento do seguro do telemóvel»
Chamei a atenção da menina, que me explicara que só tinha de pagar de dois em dois meses.
- Mas aqui diz que é duas vezes por mês.
- Não, não. É de dois em dois meses.
- Desculpe, diz aqui «bimensal».
- Então, é o que lhe estou a dizer.
- Não, bimensal é duas vezes por mês. Bimestral é que é de dois em dois meses.
- Pois, não sei.
A questão aqui não é a funcionária não saber. A questão é:
Como é que uma multinacional deste tamanho com tanta gente a trabalhar lá comete um erro destes? Das duas uma: ou a ignorância atravessa toda aquela multinacional e é assustador o grau de desdém pela língua nas grandes empresas; ou então trata-se de um embuste. Tenho de ir a ver as contas...
(uma coisa é certa: se me cobrarem a mim e a todos duas vezes por mês, nada poderei fazer)
Conhecimento é uma coisa, Cultura outra
José António Saraiva, alguém que transborda para a escrita toda a sua vaidade e sentimento de eu-detenho-a-Verdade-Ei-la, escreve, a propósito da dificuldade que é definir o que é a cultura, que cultura é tudo aquilo que não visa a técnica, ou seja a produção de algo.
Na mesma linha, um século antes, Oscar Wilde escrevia que toda a arte é absolutamente inútil.
Saber quais os componentes de um transistor é útil e necessário à vida de muita gente, mas nada tem que ver com as coisas do espírito.
Na mesma linha, um século antes, Oscar Wilde escrevia que toda a arte é absolutamente inútil.
Saber quais os componentes de um transistor é útil e necessário à vida de muita gente, mas nada tem que ver com as coisas do espírito.
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