terça-feira, março 31, 2009
Temos sempre de ter esmero
Herman Melville escreve em Moby Dick que mesmo quando os barcos se afundam, mesmo aí quem varre o chão continua a varrer e quem faz as camas continua a fazê-las.
A grande questão da Laranja Mecânica (excelente livro) é: se o mal em determinados indivíduos é muito perigoso para a sociedade, nós podemos mexer-lhe no cérebro, fazer-lhe uma lavagem e retirar-lhe a possibilidade de escolhas dos ditos maus comportamentos. Mas se o Mal não for opção, o Bem não perderá valor?
(eis a questão)
(eis a questão)
Porque a vida é uma espiral
O paradoxo da falta de auto-estima: quando não gostamos de nós é quando mais precisamos que gostem de nós, que o demonstrem com afectos, abraços e palavras. Mas... se não gostas de ti, quem gostará?
(ou: quando estamos na fossa não somos atractivos)
(ou: quando estamos na fossa não somos atractivos)
Poder ser feliz
Guilherme de Melo, jornalista e escritor, é homossexual assumido. Fala e escreve sobre a sua orientação sexual e vemos, pela alegria que tem, pela simpatia que tem que é uma pessoa que vive em paz consigo mesmo. É uma pessoa bem resolvida.
Ouvi-o recentemente a dizer algo que me tocou, dado passar-se há quase cem anos. Disse ele que contou ao pai numa altura em que a palavra era um pecado terrível, uma doença, uma mera ficção para muitos.
A única coisa que o pai lhe disse foi: dou-te todo o meu apoio pela vida toda para que te assumas e sejas feliz.
É bonito.
Guilherme retribui dizendo que - ele que tem uma relação de mais de vinte anos - o pai é a pessoa que mais ama, o seu herói.
Desde esse dia que o ouvi que gosto imenso do pai dele.
Ouvi-o recentemente a dizer algo que me tocou, dado passar-se há quase cem anos. Disse ele que contou ao pai numa altura em que a palavra era um pecado terrível, uma doença, uma mera ficção para muitos.
A única coisa que o pai lhe disse foi: dou-te todo o meu apoio pela vida toda para que te assumas e sejas feliz.
É bonito.
Guilherme retribui dizendo que - ele que tem uma relação de mais de vinte anos - o pai é a pessoa que mais ama, o seu herói.
Desde esse dia que o ouvi que gosto imenso do pai dele.
- A igualdade da mulher? Sim, claro que sim, Angel. Mas infelizmente temos de admitir que quando a mulher ganhou autonomia e saiu da cozinha, do lar, passou a ir trabalhar como o homem, desde aí as crianças são mais desamparadas. Há uma falta de amor enorme nelas... A família com as células pai, mãe e filho tem vindo a esboroar-se e as crianças têm-se sentido cada vez mais perdidas. Quando há um divórcio, é uma luta dos pais. Quando estão com o pai, ele diz mal da mãe. Quando estão com a mãe, ela diz mal do pai. E lutam entre si e esquecem-se do essencial: o filho.
segunda-feira, março 30, 2009
As mãos
Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sequer são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.
Pela noite adiante, com a morte na algibeira,
cada homem procura um rio para dormir,
e com os pés na lua ou num grão de areia
enrola-se no sono que lhe quer fugir.
Cada sonho morre às mãos doutro sonho.
Dez-réis de amor foram gastos a esperar.
O céu que nos promete um anjo bêbado
é um colchão sujo num quinto andar.
Eugénio de Andrade
Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sequer são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.
Pela noite adiante, com a morte na algibeira,
cada homem procura um rio para dormir,
e com os pés na lua ou num grão de areia
enrola-se no sono que lhe quer fugir.
Cada sonho morre às mãos doutro sonho.
Dez-réis de amor foram gastos a esperar.
O céu que nos promete um anjo bêbado
é um colchão sujo num quinto andar.
Eugénio de Andrade
Porque gostava de ser mulher
A infinidade de opções de indumentária. O sortido de cores e formas que elas têm ao seu dispor.
Os seus perfumes são mais inebriantes.
Podem pintar-se... ter os lábios escarlate, as pálpebras daquele azul mágico que vi uma vez, as pestanas bem pretas, as olheiras cinza cintilante.
São tão mais perspicazes a analisar a natureza humana.
É suposto estupidamente serem os homens a cortejá-las, a saltarem-lhe para cima, enquanto elas aguardam passiva e tranquilamente. Que poder!
Entram na noite em qualquer lado.
Podem demorar horas a arranjar-se, podem atrasar-se, podem ter qualquer capricho como desejar um abacaxi às três da manhã, podem olhar-se em todo e qualquer espelho, podem soltar gritinhos quando uma abelha passa por elas, podem fechar os olhos quando vêem um filme de terror sem terem de ouvir:
- Pareces uma gaja!
Os seus perfumes são mais inebriantes.
Podem pintar-se... ter os lábios escarlate, as pálpebras daquele azul mágico que vi uma vez, as pestanas bem pretas, as olheiras cinza cintilante.
São tão mais perspicazes a analisar a natureza humana.
É suposto estupidamente serem os homens a cortejá-las, a saltarem-lhe para cima, enquanto elas aguardam passiva e tranquilamente. Que poder!
Entram na noite em qualquer lado.
Podem demorar horas a arranjar-se, podem atrasar-se, podem ter qualquer capricho como desejar um abacaxi às três da manhã, podem olhar-se em todo e qualquer espelho, podem soltar gritinhos quando uma abelha passa por elas, podem fechar os olhos quando vêem um filme de terror sem terem de ouvir:
- Pareces uma gaja!
George Orwell escreveu que a necessidade de sexo é quase tão imperiosa quanto a da alimentação (algo de que discordo). Diz ele que a prostituição tem uma função social, porque é a única forma de garantir uma espécie de sexo mínimo garantido a todos os homens (não sei se não há homens com deformidades físicas que não sejam, eles mesmos, recusados pelas prostitutas). É algo que às vezes penso: e quem não tem possibilidade de escolha, e quem não é objecto do desejo de ninguém?
Uma amiga minha contrapõe dizendo que «há um tacho para cada panela».
Uma amiga minha contrapõe dizendo que «há um tacho para cada panela».
- Angel, eu já estive na guerra e olha que não guerra os homens revelam coisas que só no palco de guerra vêm ao de cima. É em situações-limite que tu vês o carácter de uma pessoa. Uma coisa que aprendi na guerra é que os mais fracos, os mais inseguros e indecisos, quando se vêem em apertos, são os mais prontos a puxar do gatilho e a matar para defenderem a sua pele.
domingo, março 29, 2009
Todos nós estamos na lama, mas alguns sabem ver as estrelas.
Oscar Wilde
No elevador do meu prédio, assim como nos elevadores de qualquer prédio, raramente consigo entabular uma conversa não-meteorológica. Mas, nos últimos dois meses, ao contrário do que era habitual, dei por mim a ter prazer nestes diálogos meteorológicos e não desperdiço nenhuma oportunidade para lançar os piores anátemas a este frio terrível que me (nos) tem assolado.
– Está um Inverno invernoso... – registei outro dia numa conversa de elevador, pensando para mim que mesmo nos temas mais simples se pode ser eloquente.
Tudo-é-motivo-para-nos-queixarmos parece ser o sentimento mais comum dos portugueses actualmente. Mas com este cenário de frio, chuva, granizo, vento, crise económica, desemprego, emigração, escândalos, digam lá que não é o que mais apetece?
Não sabe mesmo bem estar em casa a amaldiçoar o governo, os políticos, os criminosos, os corruptos, a podridão e a fealdade lá fora, com a pantufa calçada e a consciência pretensamente aliviada?
Às vezes, ouço pessoas dizer tão mal do país onde vivem que só me apetece dizer-lhes:
– Vai-te embora, vai para outro lado. Não precisamos de comodistas instalados como tu. Só sabes dizer mal. Basa daqui. És uma pessoa resignada.
Não nos deixemos contagiar por esta confortável-inércia-da-maledicência-inconsequente-da-culpa-é-sempre-dos-outros. Façamos qualquer coisa útil pela nossa rua, pela nossa cidade, pelo nosso país.
Oscar Wilde
No elevador do meu prédio, assim como nos elevadores de qualquer prédio, raramente consigo entabular uma conversa não-meteorológica. Mas, nos últimos dois meses, ao contrário do que era habitual, dei por mim a ter prazer nestes diálogos meteorológicos e não desperdiço nenhuma oportunidade para lançar os piores anátemas a este frio terrível que me (nos) tem assolado.
– Está um Inverno invernoso... – registei outro dia numa conversa de elevador, pensando para mim que mesmo nos temas mais simples se pode ser eloquente.
Tudo-é-motivo-para-nos-queixarmos parece ser o sentimento mais comum dos portugueses actualmente. Mas com este cenário de frio, chuva, granizo, vento, crise económica, desemprego, emigração, escândalos, digam lá que não é o que mais apetece?
Não sabe mesmo bem estar em casa a amaldiçoar o governo, os políticos, os criminosos, os corruptos, a podridão e a fealdade lá fora, com a pantufa calçada e a consciência pretensamente aliviada?
Às vezes, ouço pessoas dizer tão mal do país onde vivem que só me apetece dizer-lhes:
– Vai-te embora, vai para outro lado. Não precisamos de comodistas instalados como tu. Só sabes dizer mal. Basa daqui. És uma pessoa resignada.
Não nos deixemos contagiar por esta confortável-inércia-da-maledicência-inconsequente-da-culpa-é-sempre-dos-outros. Façamos qualquer coisa útil pela nossa rua, pela nossa cidade, pelo nosso país.
O mais pequeno passo que damos tem consequências irreversíveis e infinitas. O músico de qualidade que, depois de não vender no mercado, decide tornar-se momentaneamente mais comercial só para ganhar o dinheiro e o sucesso que lhe permitam no futuro fazer a música que quer; está a matar uma parte do seu talento.
Ao milésimo cliente, a prostituição torna-se maquinal, e as lágrimas evaporam-se com a vergonha.
Ao milésimo cliente, a prostituição torna-se maquinal, e as lágrimas evaporam-se com a vergonha.
sábado, março 28, 2009
Há pessoas que falam consoante o auditório. Outras há que falam uniformemente qualquer que seja a plateia. Pertenço ao primeiro grupo.
Conheço alguém, bem próximo, que não é vaidosa, nem egoísta, mas que, por mera distracção, é capaz de falar com uma pessoa analfabeta com palavras de cinquenta euros. Já a vi, a falar com a sua empregada que é analfabeta a usar palavras como «inimaginável», «óbice», «enquadramento», «paradoxal». Já me irritei com ela por isso. Eu, que gosto de palavras caras, que acho que as devemos usar para não as matar. Porque cada palavra é uma ideia, um sentimento, um significado, uma representação mental. Quando matamos uma palavra, matamos uma porção do universo.
A questão é outra. Quem comunica sem preocupação pelo interlocutor, não emite palavras, mas sílabas de ar. É sinal de não estarmos atentos ao Outro. De estarmos ensimesmados, entrincheirados em nós, com cera nos ouvidos e ramelas nos olhos que nos impedem de sentir o Outro.
É sinal de estarmos desdenhosamente sós.
Conheço alguém, bem próximo, que não é vaidosa, nem egoísta, mas que, por mera distracção, é capaz de falar com uma pessoa analfabeta com palavras de cinquenta euros. Já a vi, a falar com a sua empregada que é analfabeta a usar palavras como «inimaginável», «óbice», «enquadramento», «paradoxal». Já me irritei com ela por isso. Eu, que gosto de palavras caras, que acho que as devemos usar para não as matar. Porque cada palavra é uma ideia, um sentimento, um significado, uma representação mental. Quando matamos uma palavra, matamos uma porção do universo.
A questão é outra. Quem comunica sem preocupação pelo interlocutor, não emite palavras, mas sílabas de ar. É sinal de não estarmos atentos ao Outro. De estarmos ensimesmados, entrincheirados em nós, com cera nos ouvidos e ramelas nos olhos que nos impedem de sentir o Outro.
É sinal de estarmos desdenhosamente sós.
sexta-feira, março 27, 2009
quinta-feira, março 26, 2009
Hoje alguém me contava uma história real passada na guerra colonial. Ouvi duas palavras juntas e não conseguir parar de rir. Foi algo irracional, mas que, por mais que tentasse, não conseguia conter. Pedi desculpa. O interlocutor repetia abundantemente as duas palavras juntas. Ri-me incessantemente. Era a história do Capitão Abóbora.
O quadro político em Portugal não é animador. Manuela Ferreira Leite despreza a democracia e tem concepções arcaicas sobre família, Paulo Portas é securitário, patrioteiro e anti-imigrantes, Louçã populista, arrogante e não consegue ter compromissos de poder (é contra, sem propor reais alternativas - qual o modelo dele, afinal?), Jerónimo é de um partido que defende ditaduras com a Coreia do Norte.
E Sócrates governa mal.
Portugal tem tido maus primeiros-ministros. O menos mau para mim ainda foi António Guterres.
E Sócrates governa mal.
Portugal tem tido maus primeiros-ministros. O menos mau para mim ainda foi António Guterres.
Longevidade é ver mais coisas há mais tempo
Tendencialmente, a maior parte das pessoas com quem me relaciono são mais velhas do que eu. É espontâneo, sim, mas também é pensado. A verdade é que, regra geral, e especialmente quando é em situações grupais, sinto-me desirmanado quando estou rodeado de pessoas mais novas - as conversas, regra geral, não me agradam. Sempre achei que com os mais velhos se pode aprender mais. A experiência conta.
quarta-feira, março 25, 2009
Padre recusa baptizar "Lucílios"
ARBITRAGEM POLÉMICA CHEGA À IGREJA
A polémica em torno da arbitragem da final da Taça da Liga entre Sporting e Benfica chegou à Igreja quando um pároco em Lisboa, fervoroso sportinguista, anunciou que não irá baptizar meninos com nome Lucílio.
"Aproveito para vos anunciar que, enquanto for responsável por esta paróquia, não faço intenções de baptizar nenhum menino chamado Lucílio. Queiram dispor para tais propósitos dos serviços de uma paróquia vizinha", anunciou domingo o padre João José Marques Eleutério antes do tradicional "Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe".
ARBITRAGEM POLÉMICA CHEGA À IGREJA
A polémica em torno da arbitragem da final da Taça da Liga entre Sporting e Benfica chegou à Igreja quando um pároco em Lisboa, fervoroso sportinguista, anunciou que não irá baptizar meninos com nome Lucílio.
"Aproveito para vos anunciar que, enquanto for responsável por esta paróquia, não faço intenções de baptizar nenhum menino chamado Lucílio. Queiram dispor para tais propósitos dos serviços de uma paróquia vizinha", anunciou domingo o padre João José Marques Eleutério antes do tradicional "Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe".
terça-feira, março 24, 2009
(Se Cristo fosse vivo)
- Mestre, é pecado uma mulher amar outra mulher ou um homem amar outro homem?
- José era casado com Maria. Logo pela manhã, Maria levava a comida a José, ainda esteve estava deitado. Era ela quem o vestia, lhe dava banho e garantia o sustento da casa. Quando José abusava da bebida, coisa que acontecia todas as semanas, batia em Maria, cuspia-lhe na cara e cobria-a de todos os nomes, e deixava-a em casa para ir frequentar um bordel de meretrizes na cidade. Raul e Elísio era um casal que se amavam profundamente. Quando Raul acordava depois de Elísio, este deixara o pequeno-almoço na beira da cama. Quando Elísio acordava depois de Raul, o mesmo sucedia. Toda a vida foram fiéis e só se separam quando Elísio se atirou ao mar e deu a vida para salvar Raul. Qual dos dois casais te parece ter amado mais o próximo?
- José era casado com Maria. Logo pela manhã, Maria levava a comida a José, ainda esteve estava deitado. Era ela quem o vestia, lhe dava banho e garantia o sustento da casa. Quando José abusava da bebida, coisa que acontecia todas as semanas, batia em Maria, cuspia-lhe na cara e cobria-a de todos os nomes, e deixava-a em casa para ir frequentar um bordel de meretrizes na cidade. Raul e Elísio era um casal que se amavam profundamente. Quando Raul acordava depois de Elísio, este deixara o pequeno-almoço na beira da cama. Quando Elísio acordava depois de Raul, o mesmo sucedia. Toda a vida foram fiéis e só se separam quando Elísio se atirou ao mar e deu a vida para salvar Raul. Qual dos dois casais te parece ter amado mais o próximo?
Milan Kundera escreveu que algumas pessoas vêem as pessoas famosas como portadoras do brilho da imortalidade e que ao se darem com elas, ao chegar ao contacto com elas, ambicionam roubar-lhe um pouco dessa imortalidade. Desejamos ser imortais, nem que seja através da persistência da memória dos outros.
segunda-feira, março 23, 2009
A falência do coração
Depositava nela todas as suas poupanças emocionais que lhe garantiriam a felicidade futura. Se ela falhasse, entraria em bancarrota emocional.
Há psicopatas que são devotos a Deus (qualquer que seja Ele). É algo difícil de compreender: como é que alguém que mata dezenas de pessoas acha que por orar a Deus, ir à missa, e ser cordial para os vizinhos; limpa todo o mau karma?
Outro dia vi um filme que me sugeriu uma hipótese: o psicopata sente que a parte de eu-mato-pessoas é algo que não consegue controlar, que não faz parte do seu livre-arbítrio. Ele sabe que Deus sabe que ele não pode fazer nada quanto a isso. Quanto ao resto (a parte por ele controlável)... ele tenta ser um bom rapaz.
Angel
Outro dia vi um filme que me sugeriu uma hipótese: o psicopata sente que a parte de eu-mato-pessoas é algo que não consegue controlar, que não faz parte do seu livre-arbítrio. Ele sabe que Deus sabe que ele não pode fazer nada quanto a isso. Quanto ao resto (a parte por ele controlável)... ele tenta ser um bom rapaz.
Angel
Ele dizia-lhe: está gorda, pára de comer; tens de ir para um ginásio, andas a adiar; não fumes; uma mulher decente não fuma. Comentava «gajas» que eram melhores do que ela. Contava pormenores sobre a intimidade com ela aos amigos. Ela a tudo assistia emudecida. Ao fim de uns anos, o copo deve ter transbordado e ela deixou-o. Pior: trocou-o.
Bem feita.
Bem feita.
domingo, março 22, 2009
sábado, março 21, 2009
Claro está que ninguém lê os contratos que assina na Internet. E ninguém se lê, ninguém reflecte sobre o que não conhece. E também quem sabe, não se preocupa.
Quando aderimos a um mail da hotmail, assinamos inadvertidamente uns contratos em que aceitamos que todo o nosso correio electrónico não é nosso; é da Microsoft. Nós apenas podemos espreitar por empréstimo, por benevolência do Bill Gates. Mas quando ele quiser - fica com tudo e impede-nos de o consultar.
A privacidade ainda é um valor?
Quando aderimos a um mail da hotmail, assinamos inadvertidamente uns contratos em que aceitamos que todo o nosso correio electrónico não é nosso; é da Microsoft. Nós apenas podemos espreitar por empréstimo, por benevolência do Bill Gates. Mas quando ele quiser - fica com tudo e impede-nos de o consultar.
A privacidade ainda é um valor?
sexta-feira, março 20, 2009
Tenho um amigo que tem um bar/café em baixo de casa. Quando se vai a um sítio muitas vezes, por mais tímido que sejamos, acabamos por conhecer as pessoas. Ou elas acabam por nos conhecer. Mesmo que de vista apenas.
Ele foi conhecendo o dono, os empregados e entretanto conheceu os frequentadores. Um grupo de «meninas bem» frequentava o espaço. Ele começou a reparar que naquele grupo, um dia uma rapariga e um rapaz beijavam-se e que no dia a seguir o mesmo rapaz e a mesma rapariga beijavam outros. Numa semana, havia várias trocas.
Um dia, em conversas de casa-de-banho, um rapaz do grupo «cheio de apelidos bem», «De Sottomayor» que andava com uma «De Vasconcelos» disse-lhe:
- Esta com quem estou é namorada de um amigo meu.
- Namorada e tu estás a beijá-la?
- Sim e ela já me pediu para ir para a cama com ela hoje.
Podemos não participar nas novas realidades, mas eu gosto sempre de estar actualizado e de saber o que por aí se vai passando - para que o mundo não me passe ao lado. Não tapo os olhos ao Real, por maior fealdade que ele me revele.
Mesmo não saindo de casa, podemos - escutando o Outro - estar a par do que por aí vai no jardim zoológico humano. Kant nunca viajou, mas falava regularmente com marinheiros que viajavam pelo mundo para saber de outros mundos. Há novas realidades e se estamos sempre agarrados a velhas certezas, deixamos de entender o mundo.
Nunca fecho os olhos por maior que seja a fealdade.
Angel-perder-a-curiosidade-é-falta-de-humildade
Ele foi conhecendo o dono, os empregados e entretanto conheceu os frequentadores. Um grupo de «meninas bem» frequentava o espaço. Ele começou a reparar que naquele grupo, um dia uma rapariga e um rapaz beijavam-se e que no dia a seguir o mesmo rapaz e a mesma rapariga beijavam outros. Numa semana, havia várias trocas.
Um dia, em conversas de casa-de-banho, um rapaz do grupo «cheio de apelidos bem», «De Sottomayor» que andava com uma «De Vasconcelos» disse-lhe:
- Esta com quem estou é namorada de um amigo meu.
- Namorada e tu estás a beijá-la?
- Sim e ela já me pediu para ir para a cama com ela hoje.
Podemos não participar nas novas realidades, mas eu gosto sempre de estar actualizado e de saber o que por aí se vai passando - para que o mundo não me passe ao lado. Não tapo os olhos ao Real, por maior fealdade que ele me revele.
Mesmo não saindo de casa, podemos - escutando o Outro - estar a par do que por aí vai no jardim zoológico humano. Kant nunca viajou, mas falava regularmente com marinheiros que viajavam pelo mundo para saber de outros mundos. Há novas realidades e se estamos sempre agarrados a velhas certezas, deixamos de entender o mundo.
Nunca fecho os olhos por maior que seja a fealdade.
Angel-perder-a-curiosidade-é-falta-de-humildade
Vergonha
O governo baixou o IVA aos ginásios e health clubs para que estes praticassem preços mais confortáveis e, assim, se aumentasse o número de frequentadores dos mesmos - isto tudo inserido na política da promoção da saúde e do bem-estar. Até aqui tudo bem. Ou tudo mais ou menos.
Os ginásios e health clubs não baixaram os preços - e em alguns casos aumentaram mesmo os ditos - pelo que a medida do governo apenas e tão-somente engordou o lucro dos ginásios.
Como não era este o seu propósito, mas sim o aumento do número de clientes, a Autoridade da Concorrência abriu um inquérito.
Este foi arquivado e nada se concluiu.
Os ginásios e health clubs não baixaram os preços - e em alguns casos aumentaram mesmo os ditos - pelo que a medida do governo apenas e tão-somente engordou o lucro dos ginásios.
Como não era este o seu propósito, mas sim o aumento do número de clientes, a Autoridade da Concorrência abriu um inquérito.
Este foi arquivado e nada se concluiu.
Tenho problemas de fronteiras com os homens. Ou talvez não seja exactamente isso. Para ter problemas de fronteiras, é preciso ter fronteiras, certo? Mas eu desapareço na pessoa que amo. Eu sou a membrana permeável. Se amar uma pessoa ela pode ter tudo de mim: o meu tempo, a minha dedicação, o meu dinheiro, a minha família, o meu cão, o tempo do meu cão - tudo. Se amar uma pessoa, carregarei toda a sua dor por ela, assumirei todas as suas dívidas (em todos os sentidos da palavra), protegê-la-ei da sua própria insegurança, projectarei nela todo o tipo de boas qualidades que nunca cultivou em si mesma e comprarei presentes de Natal para toda a sua família. Dar-lhe-ei o sol e a chuva e, se não estiverem disponíveis, dar-lhe-ei um cheque de sol e outro de chuva. Dar-lhe-ei tudo isto e mais ainda até ficar tão cansada e esgotada que a unica forma de recuperar a minha energia é apaixonar-me por outra pessoa.
Elizabeth Gilbert
(do blog da seguidora)
Elizabeth Gilbert
(do blog da seguidora)
quinta-feira, março 19, 2009
As nossas limitações
Quando vejo alguma peça de roupa que gosto e não conheço a pessoa:
- Desculpa, onde compraste essa...?
Só por uma vez um tipo acho que era gozo (mas ainda disse o nome da loja).
Quando vejo alguma peça de roupa que gosto e conheço a pessoa:
- Compro-te essa...
Já comprei (e fiz troca directa também) roupa a amigos.
Há quem veja o mundo e as pessoas como uma enorme montra gigante.
- Desculpa, onde compraste essa...?
Só por uma vez um tipo acho que era gozo (mas ainda disse o nome da loja).
Quando vejo alguma peça de roupa que gosto e conheço a pessoa:
- Compro-te essa...
Já comprei (e fiz troca directa também) roupa a amigos.
Há quem veja o mundo e as pessoas como uma enorme montra gigante.
quarta-feira, março 18, 2009
Estudei o assunto das ONG´s. Trabalhar para qual? Não é fácil a escolha.
Escolhi a Amnistia.
a) ao contrário das outras, não trabalha contra o Estado, ou desprezando o Estado. Actua directamente sobre a Política, os governos. Quer pressionando-os a acabarem com a pena de morte e a tortura; quer divulgando relatórios mundiais sobre a situação das cadeias, dos abusos policiais, etc, etc em todos os países. Haja quem ainda fiscaliza estas coisas. Porque a realidade é: não sabemos o que se passa nas prisões, não se sabemos o que se passa nas esquadras.
b) a AI não é ideológica. Os presos em Cuba ou nos EUA merecem o mesmo e igual tratamento. E há casos de sucesso em ambos os lados.
A AI abrange o mundo inteiro e ainda há quem diga que:
- Pois, pois, só se preocupam com os direitos humanos ao nível das cadeias e das polícias. Mas e quem não tem um tecto para dormir ou comida para comer? Isso não é também um direito humano?
Estas pessoas exigem que a AI resolva todos os problemas do mundo. Imenso já ela faz. Alargar o leque de acção é perder eficácia. A AI é muito eficaz no que faz. Já evitou que muitas pessoas fossem executadas.
Escolhi a Amnistia.
a) ao contrário das outras, não trabalha contra o Estado, ou desprezando o Estado. Actua directamente sobre a Política, os governos. Quer pressionando-os a acabarem com a pena de morte e a tortura; quer divulgando relatórios mundiais sobre a situação das cadeias, dos abusos policiais, etc, etc em todos os países. Haja quem ainda fiscaliza estas coisas. Porque a realidade é: não sabemos o que se passa nas prisões, não se sabemos o que se passa nas esquadras.
b) a AI não é ideológica. Os presos em Cuba ou nos EUA merecem o mesmo e igual tratamento. E há casos de sucesso em ambos os lados.
A AI abrange o mundo inteiro e ainda há quem diga que:
- Pois, pois, só se preocupam com os direitos humanos ao nível das cadeias e das polícias. Mas e quem não tem um tecto para dormir ou comida para comer? Isso não é também um direito humano?
Estas pessoas exigem que a AI resolva todos os problemas do mundo. Imenso já ela faz. Alargar o leque de acção é perder eficácia. A AI é muito eficaz no que faz. Já evitou que muitas pessoas fossem executadas.
terça-feira, março 17, 2009
Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento.
Vergílio Ferreira
Vergílio Ferreira
Um bom amigo meu conta-me uma metáfora que eu já ouvira e que acho das mais poderosas metáforas de sempre:
- Um monge budista está no meio do caos, da tempestade, de ventos que assolam o mundo. Tudo à sua volta é destruição e desordem, mas ele continua impávido e sereno, sorrindo, e com uma vassoura limpando um cantinho da estrada.
Só podemos limpar um cantinho da estrada no peso global do sofrimento do mundo. Mas devemos fazê-lo. E com um sorriso. O monge sabia que era tudo o que podia fazer. So, why worry?
- Um monge budista está no meio do caos, da tempestade, de ventos que assolam o mundo. Tudo à sua volta é destruição e desordem, mas ele continua impávido e sereno, sorrindo, e com uma vassoura limpando um cantinho da estrada.
Só podemos limpar um cantinho da estrada no peso global do sofrimento do mundo. Mas devemos fazê-lo. E com um sorriso. O monge sabia que era tudo o que podia fazer. So, why worry?
O MAR
Antes que o sonho (ou o terror) tecesse
Mitologias e cosmogonias,
Antes que o tempo se cunhasse em dias,
O mar, o sempre mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é aquele violento
E antigo ser que rói os pilares
Da terra e é um e muitos mares
E abismo e esplendor e acaso e vento?
Quem para ele olhar vê-o pela primeira vez,
Sempre. Com o assombro que as coisas
Elementares deixam, as belas
Tardes, a lua,o fogo de uma fogueira.
Quem é o mar, quem sou eu? Sabê-lo-ei no dia
Que se segue à agonia.
Jorge Luis Borges
Antes que o sonho (ou o terror) tecesse
Mitologias e cosmogonias,
Antes que o tempo se cunhasse em dias,
O mar, o sempre mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é aquele violento
E antigo ser que rói os pilares
Da terra e é um e muitos mares
E abismo e esplendor e acaso e vento?
Quem para ele olhar vê-o pela primeira vez,
Sempre. Com o assombro que as coisas
Elementares deixam, as belas
Tardes, a lua,o fogo de uma fogueira.
Quem é o mar, quem sou eu? Sabê-lo-ei no dia
Que se segue à agonia.
Jorge Luis Borges
segunda-feira, março 16, 2009
Sobre o caminho
Enquanto o que te preocupar for só o teu caminho, é porque não estás lá.
Enquanto o que te preocupar for só saber se estás ou não no caminho, é porque não estás lá.
Enquanto tiveres muito orgulho pela estrada que já percorreste, é porque não estás lá.
Enquanto estiveres obcecado com a ideia do caminho, ainda não estás lá.
Enquanto o que te preocupar for só saber se estás ou não no caminho, é porque não estás lá.
Enquanto tiveres muito orgulho pela estrada que já percorreste, é porque não estás lá.
Enquanto estiveres obcecado com a ideia do caminho, ainda não estás lá.
- Eu quando ouço as pessoas dizerem: «Não tenho tempo para nada», penso que não pode haver pior do que eu. Não faço mais nada, mais nada, sem ser estudar e trabalhar. E o tempo em que faço outra coisa é a dormir. Comer? Ando sempre com coisas na mala para ir comendo. Ouve, Angel, eu quando faço o chá à noite, aproveito enquanto está a aquecer para vestir pijama, fazer a barba e cortar as unhas porque é a única altura em que tenho tempo para essas coisas.
Uma voz de sempre
Que chama por mim
Para que eu lembre
Que a noite tem fim
Ainda procuro,
Por quem não esqueci
Em nome de um sonho,
Em nome de ti
Procuro à noite, um sinal de ti
Espero à noite, por quem não esqueci
Eu peço à noite, um sinal de ti
Por quem eu não esqueci
Por sinais perdidos
Espero em vão
Por tempos antigos, por uma canção
Ainda procuro, por quem não esqueci
Por quem já não volta, por quem eu perdi
Sétima Legião
Que chama por mim
Para que eu lembre
Que a noite tem fim
Ainda procuro,
Por quem não esqueci
Em nome de um sonho,
Em nome de ti
Procuro à noite, um sinal de ti
Espero à noite, por quem não esqueci
Eu peço à noite, um sinal de ti
Por quem eu não esqueci
Por sinais perdidos
Espero em vão
Por tempos antigos, por uma canção
Ainda procuro, por quem não esqueci
Por quem já não volta, por quem eu perdi
Sétima Legião
Não se pode falar de literatura sem citar Jorge Luis Borges. Nem sempre foi assim. Em sua Autobiografia, Borges conta que, um dia de 1937, entrou na livraria Viau y Zona que no ano anterior editara seu livro de ensaios Historia de la eternidad e perguntou quantos exemplares haviam vendido. A resposta: 34. Sua reação foi de alívio: podia imaginar 34 leitores.
in revista agulha
in revista agulha
domingo, março 15, 2009
«Winston, você não passa de um bêbedo», disse Lady Astor a Churchill num evento social em que este se mostrava ébrio.
«E você, minha querida, é feia. A diferença é que eu amanhã eu já estarei sóbrio», ripostou Churchill.
Num debate, Lady Astor disse a Churchill: «Se eu fosse sua mulher, punha veneno no seu chá».»
Churchill respondeu: «E se eu fosse seu marido, bebia-o.»
«E você, minha querida, é feia. A diferença é que eu amanhã eu já estarei sóbrio», ripostou Churchill.
Num debate, Lady Astor disse a Churchill: «Se eu fosse sua mulher, punha veneno no seu chá».»
Churchill respondeu: «E se eu fosse seu marido, bebia-o.»
Cavaco em Belém
Vasco Pulido Valente
Por falta de assunto ou por espírito comemorativo, anda toda a gente por aí a fazer o balanço dos quatro anos de Sócrates (com melancolia, suponho) e dos três de Cavaco. Cavaco mereceu menos conversa. O país já não se lembra da campanha eleitoral do Presidente ou do ar patético do seu "Não me resigno!". Não se resignava (hoje parece irónico) à miséria e à estagnação de Portugal. Em 2009, perante o desastre, o tom mudou. Agora o Presidente, segundo ele próprio confessa, está "triste" e o extraordinário seria que não estivesse. O homem do "milagre económico", o sapientíssimo professor, assistiu inerme a um endividamento externo "explosivo" (palavra dele), a uma crise mundial que não previu e a um escândalo crescente de corrupção e fraude de que ninguém, nem ele suspeitava.
A presença de Cavaco em Belém, com a sua solenidade e o seu provincianismo, não serviu para nada. Não atenuou, como por exemplo a de Soares, a óbvia prepotência do Governo PS ou sequer protegeu quem lhe resistia. A "cooperação estratégica" (que era a negação da "força de bloqueio") durou, e só durou, enquanto foi do interesse de Sócrates (que não desceu a uma única concessão de essência) e acabou no momento em que as circunstâncias forçaram o primeiro-ministro a virar à esquerda. No estado comatoso da sociedade portuguesa, os "roteiros de inclusão" roçam o grotesco. E o prestígio internacional do Presidente começa lamentavelmente por não existir. Com 15 vetos (sete políticos, oito constitucionais), Cavaco ficou firmemente na irrelevância.
Vasco Pulido Valente
Por falta de assunto ou por espírito comemorativo, anda toda a gente por aí a fazer o balanço dos quatro anos de Sócrates (com melancolia, suponho) e dos três de Cavaco. Cavaco mereceu menos conversa. O país já não se lembra da campanha eleitoral do Presidente ou do ar patético do seu "Não me resigno!". Não se resignava (hoje parece irónico) à miséria e à estagnação de Portugal. Em 2009, perante o desastre, o tom mudou. Agora o Presidente, segundo ele próprio confessa, está "triste" e o extraordinário seria que não estivesse. O homem do "milagre económico", o sapientíssimo professor, assistiu inerme a um endividamento externo "explosivo" (palavra dele), a uma crise mundial que não previu e a um escândalo crescente de corrupção e fraude de que ninguém, nem ele suspeitava.
A presença de Cavaco em Belém, com a sua solenidade e o seu provincianismo, não serviu para nada. Não atenuou, como por exemplo a de Soares, a óbvia prepotência do Governo PS ou sequer protegeu quem lhe resistia. A "cooperação estratégica" (que era a negação da "força de bloqueio") durou, e só durou, enquanto foi do interesse de Sócrates (que não desceu a uma única concessão de essência) e acabou no momento em que as circunstâncias forçaram o primeiro-ministro a virar à esquerda. No estado comatoso da sociedade portuguesa, os "roteiros de inclusão" roçam o grotesco. E o prestígio internacional do Presidente começa lamentavelmente por não existir. Com 15 vetos (sete políticos, oito constitucionais), Cavaco ficou firmemente na irrelevância.
- Angel, você falta-lhe ter um animal. É a sua maior perca. Não imagina o que é a companhia de um animal. Não sabe o que é passar uma noite inteira com um animal. Nunca estou só, sabe? E a comunicação, a cumplicidade que estabelecemos é uma coisa espantosa. É uma companhia excelente e não fala; se falasse era muito chato.
sábado, março 14, 2009
Já é a segunda pessoa que encontro que me diz isso... Que não se apaixona por homens ou por mulheres, mas por pessoas.
Rejeitam o termo bissexual.
- Eu não gosto de homens, mas entre uma pessoa que eu goste e uma pessoa que eu não gosto, prefiro envolver-me com uma que goste - ele tinha-me dito há uns anos.
- Eu não gosto de homens nem de mulheres; eu sinto-me atraída por personalidades - ela disse-me agora. Não tenho essas prisões do sexo.
Para eles, o sexo com que uma pessoa geneticamente nasceu não é uma barreira a não amarem essa pessoa.
Rejeitam o termo bissexual.
- Eu não gosto de homens, mas entre uma pessoa que eu goste e uma pessoa que eu não gosto, prefiro envolver-me com uma que goste - ele tinha-me dito há uns anos.
- Eu não gosto de homens nem de mulheres; eu sinto-me atraída por personalidades - ela disse-me agora. Não tenho essas prisões do sexo.
Para eles, o sexo com que uma pessoa geneticamente nasceu não é uma barreira a não amarem essa pessoa.
sexta-feira, março 13, 2009
- Eu pautatinamente vou fazendo as coisas - ele disse.
- O quê?
- Pautatinamente, não conheces o significado - perguntou, orgulhoso.
Era uma pessoas que adorava futebol. Como também gosto do assunto, sei que «paulatinamente» faz parte do jargão dos comentadores desportivos.
- Ouviste isso na bola?
- Ya.
(Há sedimentos que só a leitura cria.)
- O quê?
- Pautatinamente, não conheces o significado - perguntou, orgulhoso.
Era uma pessoas que adorava futebol. Como também gosto do assunto, sei que «paulatinamente» faz parte do jargão dos comentadores desportivos.
- Ouviste isso na bola?
- Ya.
(Há sedimentos que só a leitura cria.)
Dentro do meu partido de esquerda, ouvi a vox populi quando uns cartazes apareceram:
– Isso devem ter sido os pretos…
Fiquei siderado a olhar para as outras caras, mas ninguém parecia fazer caso. Pregador que era contra o racismo, o sexismo e a homofobia, levei o assunto a uma reunião e o que ouvi, perante a anuência geral, foi:
– Esse indivíduo é um motorista de autocarro. Não tem muita instrução nem cultura. É natural que seja mais permeável ao racismo da comunicação social.
(Longa cantilena contra os jornais, a televisão, a discriminação do nosso partido…)
Havia sempre uma lógica infalível e demolidora nos discursos da esquerda. Em cada um deles, tinha sempre razão. Uma razão inatacável. O problema é que, vistos os argumentos holísticamente, a culpa era sempre exógena e os inimigos quase sempre os mesmos.
– Isso devem ter sido os pretos…
Fiquei siderado a olhar para as outras caras, mas ninguém parecia fazer caso. Pregador que era contra o racismo, o sexismo e a homofobia, levei o assunto a uma reunião e o que ouvi, perante a anuência geral, foi:
– Esse indivíduo é um motorista de autocarro. Não tem muita instrução nem cultura. É natural que seja mais permeável ao racismo da comunicação social.
(Longa cantilena contra os jornais, a televisão, a discriminação do nosso partido…)
Havia sempre uma lógica infalível e demolidora nos discursos da esquerda. Em cada um deles, tinha sempre razão. Uma razão inatacável. O problema é que, vistos os argumentos holísticamente, a culpa era sempre exógena e os inimigos quase sempre os mesmos.
Uma vez, munido de informação à esquerda, participei num debate político em que me opunha a uma nova lei que impedia que um trabalhador cujo despedimento fosse declarado no tribunal como um despedimento sem justa causa reintegrasse a sua empresa caso esta não o quisesse de volta. Do outro lado da mesa, um direitista contrapôs:
– Mas essa lei é só para empresas com menos de dez trabalhadores porque se entende que poderia causar mau ambiente na empresa.
Mal cheguei a casa, fui procurar toda a informação política de que dispunha. Caramba, tinha lido tudo, tudo, tudo de informação à esquerda. As parangonas lá estavam:
«Patrões vêem consagrado na lei o impensável.»
«O despudor total foi alcançado: acabou a justa causa para reintegrar o trabalhador.»
«A lei da vergonha: o patronato já pode ver-se livre de um empregado para sempre se acordar maldisposto.»
E nada sobre aquela restrição da lei.
Continuei à procura, telefonei a várias pessoas de esquerda. Ninguém sabia de nada. Se calhar, o conservadoreco tinha inventado aquilo…
… até que, num folheto, uma nota de rodapé, um asterisco pequeno cá em baixo dizia: «Lei aplicável para empresas de menor dimensão.»
– Mas essa lei é só para empresas com menos de dez trabalhadores porque se entende que poderia causar mau ambiente na empresa.
Mal cheguei a casa, fui procurar toda a informação política de que dispunha. Caramba, tinha lido tudo, tudo, tudo de informação à esquerda. As parangonas lá estavam:
«Patrões vêem consagrado na lei o impensável.»
«O despudor total foi alcançado: acabou a justa causa para reintegrar o trabalhador.»
«A lei da vergonha: o patronato já pode ver-se livre de um empregado para sempre se acordar maldisposto.»
E nada sobre aquela restrição da lei.
Continuei à procura, telefonei a várias pessoas de esquerda. Ninguém sabia de nada. Se calhar, o conservadoreco tinha inventado aquilo…
… até que, num folheto, uma nota de rodapé, um asterisco pequeno cá em baixo dizia: «Lei aplicável para empresas de menor dimensão.»
quinta-feira, março 12, 2009
Muitos escritores compararam o acto da escrita a uma obsessão, a uma doença, a algo terrível sem o qual não conseguem viver. Lobo Antunes diz que se sente culpado quando não escreve. Kafka escreveu que tudo o que não tinha que ver com Literatura não o interessava. Para Goethe, era necessário ter um monstro para escrever.
George Orwell conclui que escrevemos porque somos guiados por um terrível demónio que não conseguimos resistir ou tão-pouco compreender - e que o instinto que nos leva a escrever é o mesmo que compele o bebé a chorar e berrar para ter atenção.
George Orwell conclui que escrevemos porque somos guiados por um terrível demónio que não conseguimos resistir ou tão-pouco compreender - e que o instinto que nos leva a escrever é o mesmo que compele o bebé a chorar e berrar para ter atenção.
Ele estava noutro país e falou-me de duas raparigas para as quais estava emocionalmente balançado. Envia-me a fotografia de ambas. Eu disse:
- Cuidado, esta é uma cabra. Gosta de jogar ao dá-e-tira. Prepara-te.
- Mas como raio podes dizer isso só por uma foto?
Passados uns meses, dizia o que eu disse, mas com adjectivos mais vernáculos.
Claro que as pessoas lêem isto e acham que é preconceito, e que não se pode tirar juízos de valor assim, mas se tivermos a intuição muitas vezes é um atalho.
Lembrei-me disto novamente ao ver um conjunto de caras (cerca de trinta), e dizer:
- Aquele - apontando a foto - é o mais boa-pessoa.
- Pois é! De longe... Conheces?
- Nunca o vi na vida. Mas basta olhar para a cara.
E um terceiro exemplo (poderia dar milhares). Fui ao sítio onde trabalha uma amiga minha. Vi um colega dela e disse-lhe:
- Cuidado com ele, vai-te prejudicar logo que possa para brilhar por cima de ti.
- Falaste com ele?
- Não.
Não demorou um mês até me dar razão.
Não, não tenho um dom especial. Sou de raciocínio lento em muita coisa, nem tão-pouco me considero perspicaz. Sou apenas atento.
E se formos atentos conseguimos tudo o que exemplifiquei acima e muito mais ainda. Basta não estarmos fechados em nós, estarmos atento ao mundo e às pessoas que nos rodeiam.
- Cuidado, esta é uma cabra. Gosta de jogar ao dá-e-tira. Prepara-te.
- Mas como raio podes dizer isso só por uma foto?
Passados uns meses, dizia o que eu disse, mas com adjectivos mais vernáculos.
Claro que as pessoas lêem isto e acham que é preconceito, e que não se pode tirar juízos de valor assim, mas se tivermos a intuição muitas vezes é um atalho.
Lembrei-me disto novamente ao ver um conjunto de caras (cerca de trinta), e dizer:
- Aquele - apontando a foto - é o mais boa-pessoa.
- Pois é! De longe... Conheces?
- Nunca o vi na vida. Mas basta olhar para a cara.
E um terceiro exemplo (poderia dar milhares). Fui ao sítio onde trabalha uma amiga minha. Vi um colega dela e disse-lhe:
- Cuidado com ele, vai-te prejudicar logo que possa para brilhar por cima de ti.
- Falaste com ele?
- Não.
Não demorou um mês até me dar razão.
Não, não tenho um dom especial. Sou de raciocínio lento em muita coisa, nem tão-pouco me considero perspicaz. Sou apenas atento.
E se formos atentos conseguimos tudo o que exemplifiquei acima e muito mais ainda. Basta não estarmos fechados em nós, estarmos atento ao mundo e às pessoas que nos rodeiam.
Tenho um amigo que está a fazer uma tese de mestrado sobre o Desejo Sexual e o Funcionamento Mental em estudantes universitários, só precisam de preencher um questionário que não deve demorar mais de 10 minutos. O questionário não tem perguntas certas ou erradas, e é totalmente confidencial.
O link é:
http://spreadsheets.google.com/viewform?key=p8eRlKCUiZbiibO2p_VKIfA
p.s: se poderem passem também a amigos vossos que estejam ainda na universidade também.
O link é:
http://spreadsheets.google.com/viewform?key=p8eRlKCUiZbiibO2p_VKIfA
p.s: se poderem passem também a amigos vossos que estejam ainda na universidade também.
Peter Singer explica o «paradoxo do hedonismo»: os que buscam o prazer mais freneticamente são os que menos o encontram, porque os seus apetites tornam-se cada vez mais vorazes e o seu período de satisfação mais efémero.
Precisamos de princípios para ser felizes, concluí, porque só eles nos dão uma perspectiva mais alargada da nossa existência e nos fazem sentir mais irmanados com as coisas e os seres humanos. Úteis, no fundo.
Precisamos de princípios para ser felizes, concluí, porque só eles nos dão uma perspectiva mais alargada da nossa existência e nos fazem sentir mais irmanados com as coisas e os seres humanos. Úteis, no fundo.
quarta-feira, março 11, 2009
segunda-feira, março 09, 2009
A crise - também ortográfica e sintáctica
Como é possível o Magalhães ter erros primários? Como é possível que a parte do português tenha sido dada a quem foi? Como é que possível que tenham demorado tanto a detectá-los?
Tecnologia vale 100 pontos, Língua vale 0, não é?
Tecnologia vale 100 pontos, Língua vale 0, não é?
domingo, março 08, 2009
sábado, março 07, 2009
Em criança (e em adolescente, e em adulto) não havia jornais na minha casa mas havia jornais nas casas da minha família. Na do meu avô paterno lembro-me do Debate, monárquico, impossível de ler porque estava sempre dobrado e com a cinta posta. Na do meu tio Elói, aí sim, abertos, os semanários da sua terra, o Ecos de Pombal e o Notícias de Pombal.
Na secção necrológica do Ecos li uma ocasião uma notícia que começava assim: faleceu oportunamente no Brasil o senhor Fulano de Tal, tio do nosso estimado amigo Não Sei Quê Não Sei Quê. Na do meu outro avô, em Nelas, era o Diário de Notícias, que chegava no comboio da meia-noite e trazíamos, de bicicleta, da estação. O meu outro avô, de casaco de linho branco, passava horas a lê-lo na varanda para a serra. Depois do casaco de linho morrer a minha avó substituiu o Diário de Notícias pelo Almanaque da Sãozinha, cheio dos milagres da dita, relatados por crentes agradecidos. Num desses prodígios uma senhora contava que, de pobre que era, olhava em lágrimas as panelas vazias do almoço. Veio-lhe a Sãozinha à ideia, rezou com empenho, entrou-lhe de imediato uma lebre pela cozinha dentro, fechou a cozinha, matou a lebre à paulada e regalou-se a comer prodígio divino de cabidela. Confesso que esta dádiva da Sãozinha me fez um bocado de impressão, ao imaginar o assassinato do bicho. Até ao fim da sua vida a pagela da santa dos roedores ocupou um lugar importante no oratório da minha avó: uma adolescente de aspecto virtuoso, cheia de medalhas, que ofereceu a sua existência terrena em troca da conversão dos pais. Jesus fez-lhe a vontade arrebatando-a, estou a citar, ao nosso convívio, e os pais incréus descobriram o Altíssimo que, mesmo através da cabidela e do fricassé, se manifesta à gente, ou não mesmo, de preferência através da cabidela e do fricassé, misturando o Céu com o micro-ondas e os mandamentos com batatinhas salteadas.
Na ideia de entender o interesse do meu outro avô pelo Diário de Notícias comecei a folheá-lo, não era aos quadradinhos e portanto aborreceu-me. Troquei-o por pilhas antigas das Selecções do Reader's Digest em que achei nacos de prosa fascinantes: "Encontrei o Amor no Hospital Ortopédico", "Eu Sou o Testículo de João", "Ao Ficar Cega a Sua Existência Ganhou Sentido". Mais tarde A Bola e o Record, sobretudo A Bola onde trabalhavam grandes jornalistas
(Carlos Pinhão, Aurélio Márcio, Vítor Serpa, as extraordinárias reportagens da Volta à França de Carlos Miranda que bem mereciam estar reunidas em livro e nada devem às de Antoine Blodin) e quando esta geração deixou de escrever eu fui deixando de ler. Ao PÚBLICO devo o ter começado a ensaiar prosinhas em forma de crónica, graças ao convite de Vicente Jorge Silva, que eu não conhecia e me convidou para o suplemento dos domingos, salvando-me, porque a editora, à época, não pagava, de vender Bordas de Água nas pastelarias ou arrumar automóveis
- Trôça, troça
na zona do Saldanha, a coçar a magreza com o debrum preto das unhas. Agora não leio jornais: vejo o teletexto, a única coisa, aliás, que vejo na televisão desde que o futebol deixou de ser um desporto, a política uma ocupação digna e a cultura se transformou em banalidades veementes, uma estrebaria de porta aberta em que toda a gente entra, como dizia D. Francisco Manuel de Melo, autor muito do meu afecto. Vejo as capas e as primeiras páginas no quiosque frente ao restaurantezito onde como e passo à frente. As prosinhas do PÚBLICO aparecem hoje na Visão, onde sempre me trataram com extrema delicadeza. Há pouco abri um exemplar e dei com umas tantas frases acerca de mim, estúpidas, desonestas e ignorantes: fiquei curado. É pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta: devia ser reservada aos profissionais sérios, como os nomes de que há pouco falei, e que decerto existem. Conheço alguns. Estes parágrafos para o PÚBLICO são uma homenagem a esses nomes. O que me assusta é o facto de qualquer pessoa estar à mercê de criaturas medíocres, sem possibilidade de rectificar a pulhice. Faleceu oportunamente no Brasil: ao menos o Ecos de Pombal era sincero. A lebre para a esfomeada com fé: ao menos o Almanaque da Sãozinha dava esperança a quem almoça um carioca e um salgado ao balcão. Ao ficar cega a sua existência ganhou sentido: ao menos as Selecções do Reader's Digest animavam os que tropeçam. Se tornar a meter o olho entre páginas e receber sinceridade, esperança e sentido com certeza que lerei. E se o testículo de João for o testículo de António, então, juro, não perco uma sílaba. Desde miúdo que me dá vontade de abrir os brinquedos, a verificar como funcionam. E tenho um par de tais apêndices de que ignoro o mecanismo e nos quais suspeito
(não estou seguro)
que não existem parafusos nem roscas. Foram um presente dos meus pais e como quase tudo em mim continuam a ser um mistério. Devíamos vir com manual de instruções, como os electrodomésticos.
António Lobo Antunes
Na secção necrológica do Ecos li uma ocasião uma notícia que começava assim: faleceu oportunamente no Brasil o senhor Fulano de Tal, tio do nosso estimado amigo Não Sei Quê Não Sei Quê. Na do meu outro avô, em Nelas, era o Diário de Notícias, que chegava no comboio da meia-noite e trazíamos, de bicicleta, da estação. O meu outro avô, de casaco de linho branco, passava horas a lê-lo na varanda para a serra. Depois do casaco de linho morrer a minha avó substituiu o Diário de Notícias pelo Almanaque da Sãozinha, cheio dos milagres da dita, relatados por crentes agradecidos. Num desses prodígios uma senhora contava que, de pobre que era, olhava em lágrimas as panelas vazias do almoço. Veio-lhe a Sãozinha à ideia, rezou com empenho, entrou-lhe de imediato uma lebre pela cozinha dentro, fechou a cozinha, matou a lebre à paulada e regalou-se a comer prodígio divino de cabidela. Confesso que esta dádiva da Sãozinha me fez um bocado de impressão, ao imaginar o assassinato do bicho. Até ao fim da sua vida a pagela da santa dos roedores ocupou um lugar importante no oratório da minha avó: uma adolescente de aspecto virtuoso, cheia de medalhas, que ofereceu a sua existência terrena em troca da conversão dos pais. Jesus fez-lhe a vontade arrebatando-a, estou a citar, ao nosso convívio, e os pais incréus descobriram o Altíssimo que, mesmo através da cabidela e do fricassé, se manifesta à gente, ou não mesmo, de preferência através da cabidela e do fricassé, misturando o Céu com o micro-ondas e os mandamentos com batatinhas salteadas.
Na ideia de entender o interesse do meu outro avô pelo Diário de Notícias comecei a folheá-lo, não era aos quadradinhos e portanto aborreceu-me. Troquei-o por pilhas antigas das Selecções do Reader's Digest em que achei nacos de prosa fascinantes: "Encontrei o Amor no Hospital Ortopédico", "Eu Sou o Testículo de João", "Ao Ficar Cega a Sua Existência Ganhou Sentido". Mais tarde A Bola e o Record, sobretudo A Bola onde trabalhavam grandes jornalistas
(Carlos Pinhão, Aurélio Márcio, Vítor Serpa, as extraordinárias reportagens da Volta à França de Carlos Miranda que bem mereciam estar reunidas em livro e nada devem às de Antoine Blodin) e quando esta geração deixou de escrever eu fui deixando de ler. Ao PÚBLICO devo o ter começado a ensaiar prosinhas em forma de crónica, graças ao convite de Vicente Jorge Silva, que eu não conhecia e me convidou para o suplemento dos domingos, salvando-me, porque a editora, à época, não pagava, de vender Bordas de Água nas pastelarias ou arrumar automóveis
- Trôça, troça
na zona do Saldanha, a coçar a magreza com o debrum preto das unhas. Agora não leio jornais: vejo o teletexto, a única coisa, aliás, que vejo na televisão desde que o futebol deixou de ser um desporto, a política uma ocupação digna e a cultura se transformou em banalidades veementes, uma estrebaria de porta aberta em que toda a gente entra, como dizia D. Francisco Manuel de Melo, autor muito do meu afecto. Vejo as capas e as primeiras páginas no quiosque frente ao restaurantezito onde como e passo à frente. As prosinhas do PÚBLICO aparecem hoje na Visão, onde sempre me trataram com extrema delicadeza. Há pouco abri um exemplar e dei com umas tantas frases acerca de mim, estúpidas, desonestas e ignorantes: fiquei curado. É pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta: devia ser reservada aos profissionais sérios, como os nomes de que há pouco falei, e que decerto existem. Conheço alguns. Estes parágrafos para o PÚBLICO são uma homenagem a esses nomes. O que me assusta é o facto de qualquer pessoa estar à mercê de criaturas medíocres, sem possibilidade de rectificar a pulhice. Faleceu oportunamente no Brasil: ao menos o Ecos de Pombal era sincero. A lebre para a esfomeada com fé: ao menos o Almanaque da Sãozinha dava esperança a quem almoça um carioca e um salgado ao balcão. Ao ficar cega a sua existência ganhou sentido: ao menos as Selecções do Reader's Digest animavam os que tropeçam. Se tornar a meter o olho entre páginas e receber sinceridade, esperança e sentido com certeza que lerei. E se o testículo de João for o testículo de António, então, juro, não perco uma sílaba. Desde miúdo que me dá vontade de abrir os brinquedos, a verificar como funcionam. E tenho um par de tais apêndices de que ignoro o mecanismo e nos quais suspeito
(não estou seguro)
que não existem parafusos nem roscas. Foram um presente dos meus pais e como quase tudo em mim continuam a ser um mistério. Devíamos vir com manual de instruções, como os electrodomésticos.
António Lobo Antunes
sexta-feira, março 06, 2009
O factor geográfico
Outro dia alguém me dizia que leu que a maior parte das pessoas se conhece devido ao «factor geográfico» (como lhe chamava), de escola e de trabalho. O artigo desenvolvia a ideia que mais de 90% das pessoas se conhecem nesses factores: ou são vizinhos ou estudaram ou trabalham juntos, sendo o primeiro o maior dos três.
Engraçado. Logo eu que conheço tantos amigos de amigos de amigos, pessoas que vi em conferências uma vez.
Porque é que temos tanto pudor em ir falar com as pessoas no metro, na rua, enquanto esperamos pela nossa vez no dentista?
Engraçado. Logo eu que conheço tantos amigos de amigos de amigos, pessoas que vi em conferências uma vez.
Porque é que temos tanto pudor em ir falar com as pessoas no metro, na rua, enquanto esperamos pela nossa vez no dentista?
quinta-feira, março 05, 2009
- É um escroque.
- Ai, não fales assim...
- Mas porque é que temos de ser tão politicamente correctos? Porque é que não podemos dizer que não gostamos de quem gostamos. É libertador e salutar.
- É agressivo, não sei...
- Não penses que eu retiro a universalidade dos direitos humanos quando digo que alguém é um escroque. Simplesmente não quero esse alguém no meu círculo próximo.
- Ai, não fales assim...
- Mas porque é que temos de ser tão politicamente correctos? Porque é que não podemos dizer que não gostamos de quem gostamos. É libertador e salutar.
- É agressivo, não sei...
- Não penses que eu retiro a universalidade dos direitos humanos quando digo que alguém é um escroque. Simplesmente não quero esse alguém no meu círculo próximo.
quarta-feira, março 04, 2009
terça-feira, março 03, 2009
segunda-feira, março 02, 2009
A direita tem uma vantagem sobre a esquerda. Aquilo que defende pode ser egoísta, desumano, mas é exequível. No limite, pode por exemplo defender que se castrem quimicamente os violadores ou que hajam escolas divididas por etnia – e através das leis, da polícia, isso concretiza-se. A esquerda, se disser que vai acabar com o desemprego, com a pobreza, com a desigualdade homem-mulher, não consegue garantir com que meios o alcançará.
Lembro-me de um rapaz dos subúrbios, que estudava e trabalhava, um dia se virar para mim:
– Acho muita piada aos teus amigos intelectuais de esquerda. Eu gostava de ter os carros deles e não ter de gastar horas em transportes todos os dias. Eu também me dava ao luxo de ser comuna, garanto-te... Quem me dera não ter de trabalhar de manhã à noite e ter tempo para reflectir nos problemas do mundo…
Não havia nenhuma incongruência para mim entre ter um bom carro e querer combater as dores dos desfavorecidos desde que haja um sentimento de patilha sobre esses mesmos bens, pelo que o seu discurso assentava num logro. Contudo, esse rapaz acrescentou algo que me bateu:
– Ainda outro dia me viram na paragem, tava a chover comó caralho, mas como era preciso fazer um desviozinho mínimo, cagaram em mim e seguiram. Não têm tempo, deviam tar ocupados com a revolução…
– Acho muita piada aos teus amigos intelectuais de esquerda. Eu gostava de ter os carros deles e não ter de gastar horas em transportes todos os dias. Eu também me dava ao luxo de ser comuna, garanto-te... Quem me dera não ter de trabalhar de manhã à noite e ter tempo para reflectir nos problemas do mundo…
Não havia nenhuma incongruência para mim entre ter um bom carro e querer combater as dores dos desfavorecidos desde que haja um sentimento de patilha sobre esses mesmos bens, pelo que o seu discurso assentava num logro. Contudo, esse rapaz acrescentou algo que me bateu:
– Ainda outro dia me viram na paragem, tava a chover comó caralho, mas como era preciso fazer um desviozinho mínimo, cagaram em mim e seguiram. Não têm tempo, deviam tar ocupados com a revolução…
domingo, março 01, 2009
É um dos meus princípios de vida (Autor: que proclamação tão solene): sempre que estou chateado com alguém, comunico-lho, explicitando as razões.
Sinto que devo estar permanentemente a contribuir para a evolução do Outro enquanto ser vivente e pensante, e peço aos que me rodeiam que façam o mesmo comigo (Autor: acrescento embutido à força para não te tomarem como sobranceiro ou dono da verdade.) Podemos fazer uma pessoa reparar em algo que cem anos de auto-análise não descobrirão (e quantos de nós farão reflexões sobre a sua evolução enquanto seres éticos?). Claro está que a crítica, para ser escutada, tem obedecer a um conjunto de regras, ou o orgulho fará um barulho ensurdecedor – o ataque à identidade é o ataque ao eu, o bem mais precioso de muita gente. Fui depurando os meus truques: embrulhar a críticas em muitos elogios, reconhecer o defeito igualmente em nós, e mostrar como essa falha é tão espantosamente fácil de remover.
De um ponto de vista mais egoísta, criticar é aliviar-me do fardo que são os outros. Tudo aquilo que nos magoa, tudo aquilo que nos faz sofrer e que guardamos só connosco, é atirado para um canto de nós mesmos onde se fabrica uma bola de rancor que se vai agigantando, agigantando com os materiais do nosso silêncio. Será também, talvez, em recessos mais negros da mente, uma maneira de ao nivelarmos os outros por baixo, nos sentirmos superiores.
Sinto que devo estar permanentemente a contribuir para a evolução do Outro enquanto ser vivente e pensante, e peço aos que me rodeiam que façam o mesmo comigo (Autor: acrescento embutido à força para não te tomarem como sobranceiro ou dono da verdade.) Podemos fazer uma pessoa reparar em algo que cem anos de auto-análise não descobrirão (e quantos de nós farão reflexões sobre a sua evolução enquanto seres éticos?). Claro está que a crítica, para ser escutada, tem obedecer a um conjunto de regras, ou o orgulho fará um barulho ensurdecedor – o ataque à identidade é o ataque ao eu, o bem mais precioso de muita gente. Fui depurando os meus truques: embrulhar a críticas em muitos elogios, reconhecer o defeito igualmente em nós, e mostrar como essa falha é tão espantosamente fácil de remover.
De um ponto de vista mais egoísta, criticar é aliviar-me do fardo que são os outros. Tudo aquilo que nos magoa, tudo aquilo que nos faz sofrer e que guardamos só connosco, é atirado para um canto de nós mesmos onde se fabrica uma bola de rancor que se vai agigantando, agigantando com os materiais do nosso silêncio. Será também, talvez, em recessos mais negros da mente, uma maneira de ao nivelarmos os outros por baixo, nos sentirmos superiores.
Do Eça de Queirós
Numa viagem de comboio, alguém lê as notícias do jornal para os passageiros sonolentos.
Desgraças mundiais... guerras, calamidades... Coisas que provocam milhares de mortos.
Ninguém reagia. A plateia continuava apática e inerte.
Até que...
«A Luísa partiu a perna» - leu o leitor do jornal.
«O quê? A Luísa partiu a perna?»
«A nossa vizinha, coitada!»
Desgraças mundiais... guerras, calamidades... Coisas que provocam milhares de mortos.
Ninguém reagia. A plateia continuava apática e inerte.
Até que...
«A Luísa partiu a perna» - leu o leitor do jornal.
«O quê? A Luísa partiu a perna?»
«A nossa vizinha, coitada!»
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