sábado, fevereiro 28, 2009

Da política internacional

Não pertenço ao grupo de:

a) tudo-o-que-é-norte-americano-ou-capitalista-é-mau. (nem sequer uso a palavra imperialismo de tão mal usada a ver empregue)

b) obamania. o meu candidato democrato era, de resto, o John Edwards (apenas porque li o seu programa). acho até que o entusiasmo de obama deriva mais do fim do regime bush e da sua telegenia (e, sim, claro, do facto de ser negro) do que do seu progrma (que ninguém lê).


Tenho, contudo, de dar palmas a Obama.

O seu orçamento acaba com os benefícios fiscais aos 2% mais ricos da sociedade norte-americana. Foi uma medida de Bush, isentar os mais ricos de impostos para atrair o investimento, algo que não se verificou nunca e que apenas arruinou o défice orçamental. Outra coisa que faz é diminuir as despesas de guerra.

Este aumento dos impostos para os mais ricos articulado com a diminuição das despesas de guerra vai permitir aos EUA (e falo de algo já contemplado no orçamento para o próximo ano) caminharem progressivamente para um sistema de saúde público, gratuito e universal e protegerem o meio ambiente.

Parabéns, Obama.

Surpreende ainda mais: acaba com a pena de morte.
Alguma vez viste um cão só com uma perna a seguir o seu caminho pela rua?
Se tu alguma vez viste um cão de uma só perna então viste-me a mim

Alguma vez viste um espantalho coberto de nada mais do que pó e trigo?
Se alguma vez viste esse espantalho então viste-me a mim
Alguma vez viste um homem com um só braço a esmurrar nada mais do que a brisa?
Se tu viste esse homem com um só braço então tu viste-me a mim


Bruce Springsteen



Que filme, que interpretação, que música, que ternura transbordante.
Uma hora de conversação sobre:

- O que é uma pessoa simples e o que é uma pessoa complexa?


(ninguém me põe na primeira categoria)


Podemos ver o mundo, as pessoas, em tantas categorias. Hoje experimenta pensar nas pessoas que conheces à luz de:

Pessoa simples.

Pessoa complexa.
Victor Hugo escreveu que quando se olha com amor para um corvo se vê uma pomba, e quando se olha com ódio para uma pomba se vÊ um corvo. Tão bonito e tão verdade.

Andy Warhol

O que há no cheiro da terra molhada que me lembra um paraíso inicial que perdura, perdura, perdura...

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

You're such a strange girl
I think you come from another world
You're such a strange girl
I really don't understand a word
You're such a strange girl
I'd like to shake you around and around
You're such a strange girl
I'd like
To turn you
All upside down

You're such a
Strange girl
The way you look like you do
You're such a strange girl
I want
To be with you

I think I'm falling
I think I'm falling in
I think I'm falling in love with you
With you


The Cure
Mostra-lhes o pior para que não se apaixonem (as que se interessam por ele). Inventa um lado besta para que não sofram (as que se apaixonam por ele). Fá-lo por altruísmo. Outros há que se aproveitam delas para terem sexo. Eu compreendo-o. Sofreriam mais se vissem a extensão de beleza dentro dele e ficassem, não seduzidas, mas irremediável e cabalmente conquistadas.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

- Angel, aprendi a tantalizar pessoas contigo e a fazê-las esperar por...
Entre 1998 e 2003, morreram em conflitos étnicos, cerca de cinco milhões de hutus e tutsis no Ruanda. Fala-se disto? Poucos até o saberão. É outra cor, não temos lá familiares, é como se fosse outra espécie - no fundo, não é o ser humano que ali está.

Verdade

E quando não trais fisicamente, mas estás com a mente sintonizada noutra pessoa, é traição?


(é)

tudo o que fazes, dizes ou pensas e o teu parceiro não sabe e se soubesse continuaria a gostar de ti na mesma, vendo-te da mesma forma, é uma questão de privacidade. tudo resto (entendeste?) é... traição.
- Então, o que tens feito?
- Tenho dialogado com as árvores.
- E que tal?
- Tenho tido diálogos espantosos.
A mulher é mais perspicaz do que um homem a ler a natureza humana.
Aqueles momentos em que te sentes verdadeiramente alegre.
Passa os dias a recolher tudo aquilo em que haja humor.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Mesmo o maior ego do mundo, sem o alimento do amor, morreria de fome.
Há verdades que ocultamos de nós próprios. Confronta-te agora com as reais motivações por trás de cada acto. Cofronta-te agora com os teus piores pensamentos. Os teus sentimentos mais mesquinhos. Os desejos mais inconfessáveis. Não te escondas de ti próprio.
- Eh pá, ò Angel, tu arranhas-te no sovaco e, ai!, que vais logo escrever no teu blog.
A femme fatale e o maior sedutor do mundo encontraram-se. Claro está que o segundo perdeu.

Mitos

Jorge Palma, numa entrevista ao analfabeto Rui Unas (que tenta a todo o custo de forma teenager associar virilidade e álcool), desilude quem vê nele um arauto dos excessos e da decadência:

- Não, isso do álcool servir de criação é uma treta. Grande parte do que escrevi sob o efeito do álcool não se aproveitava. E, quando se aproveitava, não passava de uma linha.

- Lamento ter passado tanto tempo a beber. Foi tempo perdido.

- Não beber ajuda a ver as coisas de outra forma, mais lúida, menos alienada; o que é interessante. Bebendo vês as coisas de forma embaciada.

Mesmo os escritores que beberam a rodos(e são inúmeros) nunca confessaram que o álcool era uma musa. Antes pelo contrário: uma puta que os atraiçoava.

Scott Fitzgerald escreveu nos seus cadernos intímos:

«Dava tudo para voltar atrás e rever o último terço de Terna é a noite sóbrio. É a pior parte do livro porque é a que está mais sob o domínio do álcool. Rever ou reescrever é tão importante como escrever e nessa parte você não pode ter uma pinga sequer de álcool.»

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

- Nunca pensei que a frieza pudesse ser aconchegante até te conhecer.
- Tens uma vez quente, cheia, radiofónica.
Tinha o carro cheio de preservativos usados e com esperma. Parece anedota, cinematográfico ou irreal, mas aconteceu: tinha o carro inundado de esperma. Garante que não fez mal a ninguém. garante que deixara o carro num sítio legal, bem estacionado. Garante até que não conhecia ninguém nas redondezas.

Este vandalismo, esta violência gratuita, este prazer-em-fazer-mal-por-fazer-mal dilacera mais a sociedade do que roubar que tem um valor instrumental. É a finalidade per ser que me arrepia: o mal.
«Ama e faz o que quiseres» (Santo Agostinho), lia-se na revista de jovens católicos.
- É uma pessoa que tem uma vida interior riquíssima, você nem queira saber o que é aquilo... Ninguém penetra lá, porque ela não deixa. Aquilo é uma coisa profundíssima, nós não conseguimos sequer ter a noção.
Sofre calada.

The empty bottle

Ele tinha uma revista com uma mulher lindíssima na primeira página. A todos perguntava:

- O que achas?

Perfeita; casa-me com ela; linda, tem fotos lá dentro?


Depois de recolher a opinião, dizia:

- Não existe, é uma imagem gráfica. Hoje em dia é possível [e dizia o nome dos programas] criar rostos e corpos iguais aos humanos.


A beleza sem alma o que vale? Nada. Então, ela não pode ser o mais importante.

domingo, fevereiro 22, 2009

Éramos miúdos, teríamos catorze anos, e estávamos todos sentados.

Um de nós olhou os sapatos do outro, puxou a calça e disse:

- Carlos, o que é isso? - disse apontando para as meias.

O Carlos olhou para baixo e perguntou:

- Mas o que é que foi?


- A meia, meu.

- O que é que tem?

- Não se usa meia branca, muito menos com raquetes cruzadas!

Nunca mais o Carlos usou meia branca desde esse dia. Progressivamente, deixou o fato de treino, as camisas interiores a fazer de t-shirt, o boné que nunca tirava.

Hoje, frequentador de meios da alta política, veste só sacoor, gant e afins. É altamente intolerante com a roupa e ralha aos amigos constantemente:

- Tu não podes andar sem cinto;

- Camisa para dentro das calças, tu pareces um bandalho!


Tudo isto e muito mais já ouvi dele. Eu vejo a sua mudança como sinal de uma mensagem positiva sobre a natureza humana: as pessoas podem mudar e mudam objectivamente ao longo da vida.

Este Carlos é uma das melhores pessoas que conheci, mas é altamente influenciável. Outro dia falávamos sobre isso e ele para se defender chamou-me eufemisticamente teimoso: Mas toda a gente é influenciável, menos tu, Angel.

Dir-me-ão: mas qual a importância da roupa para definir a pessoa? Nenhuma, ainda que Oscar Wilde dissesse que mais importante do que a revolução das mentalidades era a revolução do vestuário. Mas o que pretendi aqui focar é o camaleonismo. Se tens uma personalidade e a defendes com afinco, podes perder aqui e ali em cada ambiente particular, mas quando as pessoas virem que és-assim-em-todo-e-qualquer-lado, isso dar-te-á um preço elevado aos olhos do mundo.

Não há nada como criar uma identidade única, inédita e inconfundível.
Há mais de quinze anos que namora com ele. Bate-lhe, insulta-a, traia-a, e proibe-a de sair sem ele. Em 2000 (há quase 9 anos), era amigo dela e sentia os problemas que ela sentia. Nunca me senti ameaçado, mas sei que foi dos pouquíssimos com quem ela tomava café. Estar com um homem inspirava-lhe terror. Sei que em determinada altura ele me perseguiu, em nunca me dirigir a palavra.

Ela chorava, chorava, chorava. Tinha crise enormes. Às vezes recebia uma mensagem e atirava-se para os braços de uma amiga, que nada lhe perguntava. Recebia uns abraços, um silêncio compreensivo, chorava, e depois passava-lhe.

Todas as suas amigas a tentaram demover do quadrúpede. Eu próprio.

Desde 2001 que pouco comunicamos. Vejo-a sempre com ele e faz um gesto mínimo para me cumprimentar, sempre aterrorizada e submissa. Com os anos, percebi que chorar, sofrer e viver num claustro bafiento faz parte dela como o fazem os seus olhos azuis. É um hábito tão enraizado nela que perderia o norte sem ele.
Nunca escreveste nada que não fosses obrigado a escrever?
Quando pensamos em algo como o Nobel ou o Oscar, uma neblina divina e insondável parece trazê-lo do Céu e depositá-los aqui. Obliteramos que são seres humanos, um número muito reduzido, que os escolhe. Poderiam ser muitos outros, entre os seis mil milhões e meio.

Espero que Rourke ganhe logo à noite.

A ingratidão é o sentimento mais feio do mundo

Alguém, movido por generosidade, oferece-me um telemóvel. Este revela-se, ao fim de uns meses, falho em rede, bateria e apresenta algumas outras anomalias. Obrigo-me a usá-lo. O gesto foi muito bonito e, para alguém judaico-cristão, a intenção é que conta. A gratidão é uma prisão - mas é uma prisão linda, cujos materiais são os mais nobres e elegantes sentimentos. Uma vez li que numa tribo quando alguém recebia um presente, fica temporariamente escravo do ofertador.
Presta atenção: a vida sugere-te o inefável.

sábado, fevereiro 21, 2009

- Mas repara: eu com a idade que tenho, tou tramado. É que na minha idade elas começam a ligar à carreira, ao estatuto.
- Eh pá, calma, nem toda a gente é assim.
- É, é, mais do que tu pensas. E mais do que admitem. Claro que não dizem que são materialistas, arranjam a desculpa indirecta: é um tipo sem ambição, sem objectivos. Claro que o que querem dizer é que não se vão juntar a quem tenha menos do que elas.
- Estás-me a dizer que tens de te dedicar às de vinte, então...
- Pois, nunca foi o meu cup of tea...
- Mas pensa que isso pode ser bom, porque, de acordo com o que dizes, então só se aproximarão de ti as que não ligam ao factor carreira/status.
- Sim, que na minha idade são poucas.
- Ah, então existem!
- Residualmente.
- Mas isso permite-te ficar com as que interessam...
- Pois.
- Queres melhor?
- Quanto maior o leque de escolhas, melhor...
- Tu consegues garantir ao não teres dinheiro nem poder que quem se aproxima de ti, o faz pelas razões certas. É logo um atestado de carácter. Mais importante, amigo: de amor por ti.
O verdadeiro sedutor nunca pára. Está sempre a actuar. Tudo é digno de ser um palco. Mesmo quando vai comprar o jornal, e um rapaz insinuante está no quiosque, ele devolve a provocação. Sempre.
- Mas responde-te a uma pergunta: ela deseja o teu bem-estar?
- Não.
- Responde-te a ti.
- Nunca tinha pensado, mas de facto, não. Ela deseja o meu mal-estar.
- Então, como podes dizer que te ama? Isso é paixão, é o que lhe quiseres chamar, agora amor não é.
- Pois.
- Como podes ser feliz com uma pessoa assim?
Desculpa lá, mas se tu não gostas de ti próprio, como é que queres que alguém goste?
- A literatura é tão vasta... Podes ler Oscar Wilde e estás a comer doces, ou podes ler Kafka e experimentares um chocolate preto e sentires prazer no amargo.
- É capaz de ver uma folha outonal desprender-se de uma árvore... e apaixonar-se por ela e ir a correr atrás dela, tentando agarrá-la antes de poisar no chão.
Faltam-lhe livros e princípios. Falta-lhe estrutura.
- Eu até tenho vergonha de dizer, mas sabes, eu nunca vi o Titanic...
- Nem eu.
- A sério?
- Nunca vi o Titanic.
- És a primeira pessoa que encontro. Que bom. E não te sentes mal por isso?
- Não e tu?
- Também não.

(e assim nasceu uma amizade)

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Dois milhões de portugueses vão aumentar, este ano, o número daqueles que precisam de cuidados psiquiátricos. É um algarismo assustador. As causas dos desequilíbrios mentais residem no desemprego, na perda das habitações por incumprimento de compromissos com a banca, de separações devido à crise, as quais provocam ansiedade, angústia, depressão e abuso de álcool.


Baptista-Bastos
Desenvolvi uma enorme armadura, física e mental, uma dureza e uma alienação que na verdade escondiam cacos que tinham a ver com abandono e vergonha.


Mickey Rourke
Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.

E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.

Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.

Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino.
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.


HH
Tinha um tão grande de amar que:

a) rodeava-se permanentemente de pessoas;
b) estava sempre a conhecer novos grupos e novas pessoas;
c) quando começava a gostar de alguém, ataviava-a mentalmente de todas as distorções possíveis que lhe retirassem beleza;
d) proibia-se ter relações longas, arranjando sempre conflitos quando pressentia o zénite da onda da paixão.
Passavam horas a falar ao telemóvel e um dia eu disse:
- Não tens fixo?
- Tenho.
- E ele?
- Não sei.

Mais tarde, perguntou-lhe. Tinha. Passaram a falar. Descobriram que:

a) era mais barato;
b) ouvia-se melhor, as vozes eram límpidas e cristalinas;
c) não havia falhas de rede ou bateria;
d) não tinham dores de cabeça depois de falarem.
- Há dois anos que não a vejo. Acordo a pensar nela, é sempre o meu primeiro pensamento do dia, e deito-me a pensar nela.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.

Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.

Yeats
Voltei a tentar, de muitas leituras agrestes, pegar num livro de Saramago. A viagem do elefante, o último e tão aclamado livro.

O problema continua: as frases mal escritas, a falta de música (indispensável, uma vez que toda a arte aspira à condição de música, como dizia o crítico literário Walter Pate), o deserto de beleza, as palavras onde se tropeça constantemente (e eu segui o conselho do autor: «Leiam os meuis livros em voz alta. Foram feitos para isso» como pedregulhos. Tudo ali é desordem sem beleza, sem graciosidade. Falta-lhe depurar as palvras, cortar gordura.

As ideias, algumas, são originais, o narrador (a boca saramaguiana) tem pensamentos interessantes, mas ele escreve mal. E uma má prosa nunca permitir fazer um bom escritor. E é por isso que concordo com Vasco Pulido Valente que diz que o nosso Nobel (um prémio político e irrelevante em muitos países lá fora) nunca passará de uma «nota de rodapé na História da Literatura». Bloom não concorda com ele, mas o tempo dará razão a VPV.

Céline dizia que todos tínhamos histórias para contar, bastava sair à rua e ouvir o homem do pão, as senhoras na merceearia, o taxista. A diferença para o escritor é que esteve sabuia continuá-las porque dominava o manejo da língua.

Angel

Parabéns...

Ondados fios de ouro reluzente,
Que agora da mão bela recolhidos,
Agora sobre as rosas estendidos
Fazeis que sua beleza se acrescente;


Luís de Camões
- Isto [dos computadores], isto é mecânica! Pode ser chato, mas um tipo dedica-se e aprende. É como um carro. Difícil é Aristóteles! Isso é que é difícil. Não é mecânico!
- Há o temperamento e há o carácter.

(claro, uma pessoa pode ser irascível e boa pessoa, doce e melíflua e manipuladora)

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Às vezes interrogo-me para onde vai o ser humano... na SIC, está a dar um programa tipo isto só vídeo em que mostram pessoas a atirarem-se de prédios e a morrer.

Porra, já tudo é objecto de voyeurismo? Já tudo vale para ganhar audiências no horário nobre? Que pessoas vibram com isto?

E o apresentador diz:

- Tente não se rir.

O quê?

A ditadura do socialmente correcto

Os pais controlavam-na em absoluta. Se ia para a direita ou para a esquerda numa rua assumia contornos de urgência de uma sentença de morte. Com quem estava, onde, a fazer o quê. A dizer o quê e - limite máximo do controlo - a pensar o quê.

Havia uma quantidade de coisas que não podia fazer - porque isso lhe fazia mal à saúde. As pessoas com quem se dava tinham de ter aprovação dos pais - porque, com as pessoas, erradas poderia enveredar por maus caminhos. Tudo o que era perigoso era afastado pela mão dos pais.

Os pais fomentaram que:

a) ela seja imensamente saudável;
b) não tenha amigos drogados, artistas, desempregados, divorciados;
c) tenha sido uma aluna exemplar;
d) tenha tido trabalhos estáveis e bem-remunerados,
e) tenha ficado com um gestor de carreira que ganha bem;
f) seja certinha na aparência;
g) não beba nem fume;
h) não chega a casa depois das 2.00 seja em que circunstância for.
...

Só não conseguiram englobar:

z) que ela seja feliz.

(deixaram inadvertidamente de fora este apêndice, algures perdido na longa lista de requisitos necessários)
Olhava para dentro dos olhos e via o que se passava lá dentro. Mergulhava naquelas paisagens. Havia pessoas que percebia tudo logo - só de olhar. Mas quando entrava numas águas difíceis, que não conseguia furar - aí, pensava: vou-me dedicar a conhecer esta pessoa.
- A família é uma prisão, sabe? Podemos ser mais intímos com amigos do que com os filhos. E há pais que vêem os filhos perpetuamente como uns putos, é terrível, sentimos que aos olhos deles não mudámos.
- Eu quero viver um grande amor - ela disse.
- Uma pessoa não pode ser interessante 24 horas por dia - ele disse.

Ama o teu próximo, mas só se ele for branco, rico, bonito e heterossexual

Se Cristo fosse vivo, sentir-se-ia muito triste com a posição da Igreja de tudo fazer para obstar ao amor entre homossexuais.
O comboio levava as pessoas sonhando acordadas com outras vidas.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

O editor e livreiro (do melhor que por aí há) virou-se para mim e disse:

- Isto é tudo uma merda. Os bons livros, os novos autores estão lixados, não têm hipótese. Hoje ser publicado pela Oficina do Livro ou pela D. Quixote é ter uma chancela que só garante que os livros são bons. As editoras não lêem os manuscritos. Só publicam amigos e livros de merda. Biografias do Bush, da figura pública que não sabe escrever. Você vá a uma FNAC. É horripilante. Vê-se grego para encontrar um bom livro. Já não há, por exemplo, um bom livro de história de arte. Que livros de poesia de novos autores se publicam com tiragens razoáveis? Nenhum. E os prémios literários? Um embuste, uma pré-combinação. Há tempos o João Pedro George mapeou os prémios literários. Um ano, o júri sai da lista e recebe o prémio como autor, no ano seguinte o ex-premiado é júri e premeia o que no ano passado foi júri. Está lá, com os nomes, os anos e os prémios - pode ver! Não há espaço para os autores surgirem. E os jornais e revistas literários porque não falam disto? Porque estão todos comprados pela publicidade dos grandes grupos. Todos! De maneira que só pessoas dentro do meio sabem isto e só têm a palavra oral para comunicar isto a quem os quiser ouvir. Porque é que o Paes do Amaral se meteu nisto? Isto não é um negócio rentável! Não foi pelo dinheiro. Porque é que comprou editoras moribundas? Porque é que comprou tantas e gastou tanto dinheiro? Porquê? Dir-se-ia então: bom é pelo amor aos livros. Um homem que afirma desprezar e passo a citar: Poesia, Filosofia e Literatura. Que desconhece Oscar Wilde! Até as montras, os espaços da FNAC ou Bertrand são comprados. Há um preço para a montra, para a estante mais perto da montra e por aí fora. E os tops literários é tudo criado para promover livros.

A constituição não se aplica à Madeira?

RTP 2009-02-17 08:55:32
João Jardim limita emprego a estrangeiros
Alberto João Jardim cortou o acesso ao emprego a cidadãos de países não comunitários.
Estão disponíveis apenas 20 postos de trabalho que só poderão ser preenchidos se não aparecerem candidatos portugueses ou de outros países da União Europeia.
O Leitor - ou um filme que nos mostra como as nossas certezas são precárias, como as pessoas são tudo menos lineares, como a Verdade é uma simplificação redutora do caos informe do real, como tudo resite à nossa necessidade de categorização.
P. é uma boa pessoa. Quando não está assustado, ajuda o próximo. Tem bons sentimentos face ao próximo. Tem, por outro lado, muito medo. Numa guerra, facilmente pediria que matassem o seu pelotão inteiro para o salvarem. Vive cercado pelo seu próprio medo.
Os intelectuais são pessoas que se tentam pôr mais belas com o raciocíno e os autores que leram.



Gonçalo M. Tavares
A vida segue e quer os que seguem e não os que ficam à porta.

Almada Negreiros
É uma pessoa infinita.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

MMDD

Diz um grupo de amigos num livro de Stephen King: mesma merda, dia diferente.
Por uma falha comunicacional, chateámo-nos gravemente. Por orgulho, não nos aproximamos.
eu sou agora uma parte central da paisagem da tua mente

ibidem
quando tu dormires
eu deslizarei vagarosamente
para dentro dos teus pensamentos
como uma dívida
que tu não consegues pagar

idem traduzido
The more you ignore me
The closer I get
You´re wasting your time
The more you ignore me
The closer I get

Morrisey

domingo, fevereiro 15, 2009

O homem pragmático lê as reflexões do tempo e indigna-se:

- Mas essas perguntas já foram feitas por miilhões de pessoas desde tempos imemoriais e nunca trouxeram respostas. ENTÃO - grita -, para quê perderes tempo? Nunca vais saber o que acontece com a morte sem passares por ela e pode até suceder que com ela fiques amnésico e não te lembras do que aconteceu antes. Não penses nisso, não chegas a conclusão nenhuma. É uma pura perda de tempo.

sábado, fevereiro 14, 2009

Tempo - Tertúlias Virtuais

Se a alma é imortal, o tempo é infinito e a nossa vida aqui um pequeno átomo. O que houve antes? O que haverá depois?

Se a é alma imortal, existimos desde sempre. Não temos imaginação para conceber algo sem princípio e, então, temos sempre de fazer a pergunta: desde quando? Outros resolveram este problema com uma tautologia: o universo criou os conceitos de tempo e espaço. Então, não houve antes, «antes» pressupõe a existência de tempo e o tempo «começou» com o universo.

As grandes interrogações permanecem:

- porque é que um minuto cronológico de amor passa num segundo e um segundo cronológico infernal ganha contornos de horas? não é o tempo psicológico o único que nos interessa?

- se o tempo flui como um rio e se não há instante que possamos agarrar de forma estanque, porque ou já é passado ou ainda é futuro, como é que, mesmo assim, vivemos no presente?

- como é que duas pessoas combinam encontrar-se passados dez minutos se esses dez minutos para um foram horas de pânico e para o outro segundos e... mesmo assim, dez minutos de relógio depois estão tangivelmente ali...

Mas a maior interrogação é:

- e depois da morte?

Se há vida depois dela, como é? Mais um estádio? Na Terra? Na galáxia? Num «sítio» fora do espaço? E essa vida, tem outras mortes? Não? A eternidade a seguir? Então mas e antes? Não morremos já uma série infinita de vezes?

E como é a vida lá? Somos imateriais? Agimos? Lutamos? Sonhamos? Pensamos? Temos cérebro? Quem nos acompanha? O que é acompanharem-nos incorporalmente? Como é o dia-a-dia lá?

O quê te apraz: viver para sempre ou morrer para sempre? (Ou ir descansando e acordando, descansando e acordando?)

Angel
- Eu olho para ti e vejo-te a mim, como se lesse em ti o que tenho escrito - ela disse.
- Eu contigo consigo ser a pessoa que mais gosto e que só se desenvolve contigo - ele disse.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Há tantas causas para abraçares... Vou agir na minha eleita a partir de quarta: abolição da pena de morte.
- Bem, não tás bem a ver o vídeo que vi hoje.
- Então?
- Tu podes achar...
- Se tu gostaste.
- Era uma gaja a aviar 15 gajos... E todos a virem-se para ela. Ficou submersa.



Charnine
Já que não posso mudar o mundo
deixa-me sacudir a areia
das tuas sandálias.


Casimiro de Brito
Escreve o seu nome com um moranguinho no a.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

punish me with kisses

The Glove
És uma pessoa subordinada à ditadura do telemóvel?
- Eu hoje acho que adormeci a andar.
- Temos uma amizade quase física. Daquela vez, só por estarmos, fiquei tão bem-disposta.
- Eu já sei tudo sobre mulheres - ele disse do alto dos seus 16 anos.
Há livros que não nos penetram a carapaça, não adianta insistir.


Velho Ancião
Não quero ser triste, como o poeta que envelhece lendo Maiakovsky na loja de conveniência.
Não quero ser alegre, como o cão que sai a passear com seu dono alegre sob o sol de domingo.
Nem quero ser estanque, como quem constrói estradas e não anda.
Quero, no escuro, como cego tactear estrelas distraídas.

Zeca Baleiro, Minha Casa.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

O político, professor e autor de Economia Francisco Louçã quer políticas de pleno emprego. Que coisa boa! Ele diga que a receita, porque só na China há 26 milhões de desempregrados, em Espanha são 16%, e mesmo num país pequeno como o nosso já são mais de meio milhão. Mas, porra, o homem tem a solução! Esperemos que seja, de resto, comportável com uma democracia.

Só que - qual ilusionista -, ele não desvela o segredo. A não ser que seja eleito primeiro-ministro. Mas, paradoxalmente, vai dizendo que o bloco é uma plataforma de oposição e não um partido de governo... então, será que nunca chegaremos a saber a sua panaceia que acabaria com este terrível flagelo?

Porra, Louçã, diz lá... só em 2009, a crise vai produzir 50 milhões de novos desempregados.
Era tão bom, tão elevado, tão acima da vulgaridade que ninguém no mundo através do seu ponto mais alto alcançava o seu ponto mais baixo. Vivia numa profunda solidão.
Herberto inventa palavras no seu último livro. Palavras como abrasadura. Vai buscar acentos circunflexos que há muitos anos já caíram. Usa regras de pontuação de línguas estrangeiras na língua portuguesa. É preciso reiventar a linguagem, seja com recurso ao passado, ao futuro, ao estrangeiro.
Olhar para isto tudo e dispensar algo superior a nós - para mim, absurdo. Porra, não se fazem criações espontâneas desta amplitude e harmonia de uma forma tão casual.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Recuso-me terminantemente a pertencer àquela massa disforme e mole, sem músculo e sem convicções que define o rebanho.

Teresa Ricou
Alguém recitava um poema com orgulho. Enganou-se na segunda estrofe e saltou logo para a quarta, omitindo a terceira. Hesitei. Acabei por não dizer nada. Seria uma pulhice humilhá-lo à frente daquelas pessoas. Estava todo contente e a plateia também. Nem sequer disse que conhecia o poema. Limitei-me a dizer:

- Muito bem.
Manejava as palavras de tal maneira que todos ficavam hipnotizados, desmaiavam perante o ouro, a beleza e a fragância que ele erguia com as palavras.
Estávamos a jogar às palavras. Iam saindo letras e as pessoas tinham de formar palavras.

Primeira letra O, segunda letra O...

E ele disse: Oolítico.

E alguém disse: Não existem palavras começadas por dois ós.

E ele disse: é a única palavra começada por dois ós.

Foram ao dicionário. Existia a palavra e muitas outras começadas por dois ós.
Uma noite em que as estrelas brilhavam cor-de-rosamente no céu.
Muita ignorância requer um certo esforço.

José Alberto Braga
- Preciso muito de falar contigo.
- Diz.
- Preciso de estar contigo. Podes descer?
- Já vesti o pijama, estou mesmo instalada já, percebes?
- Não, não estás a perceber? Eu preciso mesmo de estar contigo. Eu vou aí, não precisas de te vestir, vou ao teu prédio. Fumamos as duas um cigarro.
- Mas diz lá o que é.
- A sério, eu não insistia se não precisasse mesmo. Podes só dar-me uns minutos? Por favor, preciso mesmo.
- Vá, diz lá, depois combinamos ao vivo noutra altura.
- Não estás a perceber...
- Hoje não dá mesmo. Mas diz.
- A sério...
- Vá, diz lá, amanhã ou depois encontramo-nos.
- Deixa estar.
redivivo | adj.



redivivo


do Lat. redivivu


adj.,
que voltou à vida;

ressuscitado;


fig.,
renovado, remoçado;

rejuvenescido.

O patinho feio

«Todos aqueles de que ela gostou apaixonaram-se por mim. Foi uma coincidência. Não sou nenhuma femme fatalle. Mas ela nunca me perdoou. Eu não lhe levo a mal. Se fosse ao contrário, não sei como reagiria.»
E assim ela relativizou tudo o que a «amiga» lhe tinha feito ao longo dos anos para a prejudicar.
«Porque naquilo em que ela não compete comigo, ela é boa pessoa.»
A vingança do de baixo é sempre mais demolidora do que a do de cima. As pessoas mais fracas acumulam, acumulam, acumulam o ressentimento e o ódio e quando explodem, aí vai tudo a eito. «Não há revolta como a do carneiro», diz o povo...

2

Há dois tipos de pessoas dentro dos egocêntricos: os que brilham à sua própria custa e os que brilham à custa do Outro. Quanto aos primeiros, devo dizer que conheci muitos altruístas, muitas almas bem intencionadas que precisavam incessantemente de brilhar. So what? Egocêntrico e egoísta são coisas distintas. A segunda categoria? Bem longe de mim.
Reconcilia-te contigo próprio antes de te reconciliares com o Outro. Reconcilia-te com o Outro para te reconciliares contigo próprio.
Palavras começadas por O que gosto: Onírico, Ontológico
- Angel, nós devemo-nos dar, eu sei que vais achar isto horrível, mas devemo-nos dar com pessoas com quem não tenhamos uma grande clivagem, seja a nível de beleza ou de cultura, porque quando há essas clivagens, há sempre inveja, competição, ressentimento.
Claro que não é fácil continuares a ser bonzinh@ quando todos te pisam - mas por não ser fácil é que tem mais valor. Quem te pisa, oferece uma oportunidade única de testares a tua resistência, a tua perseverança, a tua força. Quebrares as tuas defesas, tornares-te um deles - é atirares a toalha para o ringue e concederes-lhe a vitória. Se não houvesse Mal, como poderias diferenciar o Bem?
Fizeste o que tinhas para fazer hoje?
Os dias que estou sem ti são todos iguais

J A

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Uma pessoa que conheço descreveu-me a sua visita ao hospital para ver um doente que tinha o horizonte temporal dado pelo médico de «uma semana», esquelético e com dores excruciantes constantes. Essa pessoa, que não se tinha de pé, conseguiu arrastar-se até à casa de banho para ir vomitar na sanita. E nunca, por um singelo momento, se lamuriou da sua condição.
É sempre possível ter dignidade, ter elegância, por maior que seja o oceano de sofrimento em que mergulhámos. É sempre possível ter uma nobreza de gesto na mais funda desgraça.
Tinha 14. Ela 12. Cortejávamo-nos por palavras. Íamos ao dicionário sempre que o Outro apresenta uma palavra desconhecida. Já nessa altura, andava sempre com uma nuvem de palavras à minha volta. Como diria Dinis Machado, quando tirava o casaco, caíam-me palavras, quando passava a mão pelo ombro, esvoaçavam palavras, adejando sem cairem no chão. Estava sempre cercado de palavras à minha volta, permanentemente em mutação.´

Assim continuo.


Groundhog Day, ou «O feitiço do tempo», ou um dos melhores filmes do cinema. Uma obra-prima. Alguém que vive todos os dias o mesmo dia.
Mais uma minha profecia do futebol cumpriu. Queiroz segue dentro de momentos...
a Lua, de onde tinha caído um leão


Jorge Luís Borges
ANTES DE AMAR-TE



Antes de amar-te, amor, nada era meu:

vacilei pelas ruas e coisas:

nada contava nem tinha nome:

o mundo era do ar que esperava.



E conheci salões cinzentos,

túneis habitados pela lua,

hangares cruéis que se despediam,

perguntas que insistiam na areia.



Tudo estava vazio, morto e mudo,

caído, abandonado e decaído,

tudo era inalienavelmente alheio,

tudo era dos outros e de ninguém,

Até que tua beleza e tua pobreza

De dádivas encheram o outono.

Pablo Neruda
coruscante - a palavra por que me apaixonei ontem
Há pior, ela pensava sempre.

Há melhor, ele pensava sempre.

É fácil concluir qual dos dois era mais feliz.

(aquele a quem lhe bastava o dedal cheio de água, enquanto o outro, com mais água, tinha sempre o seu copo pela metade)


angel-já-pensaste-que-se-calhar-és-demasiado-exigente
A L A diz que o bom escritor é aquele que sacrifica um parágrafo a uma excelente pirueta verbal. Como é difícil deitar fora aquele lampejo por não se enquadrar no contexto! É difícil deitar fora o sublime - dá sempre vontade de o embutir à força.
- Estou a fazer uma tese sobre um ano de vida de um partido.
- Uma coisa muito específica.
- É na especificidade que aprendes a generalidade.
- Olha, eu pelo contrário, ando a ser um especialista na generalidade: saber um pouco de tudo.
- Engraçado, eu tenho caminhado para a ideia precisamente oposta: que quanto mais conheces uma coisa a fundo, mais sabes sobre tudo, porque no fundo, no fundo, as coisas são mais parecidas do que aparentam à superfície.
- Compreendo, mas acho que só sabe sobre uma coisa nos limita a visão. Acredito na interdisciplinaridade, no complemento de todos os saberes. Qualquer visão de um só ponto de vista torna-se maniqueísta e perigosa. Em Economia, aprendemos que, se não analisarmos sob outros pontos de vista, chegamos à conclusão que é o bombeiro que ateia os fogos: é ele quem mais lucra com eles... Então são precisas outras ferramentas de análise, não é?
- Entendo-te, mas repara: eu também tenho chegado a outra conclusão: que mais vale conheceres poucas pessoas a fundo do que muitas na superficialidade.
- Aí eu também concordo. Mas acho que deves conhecer pessoas de diferentes paletas. Isso torna-te mais rico e mais flexível.
Não devemos dizer «mas» nem qualquer expressão adversativa como «porém», «todavia», «contudo». Quando as utilizamos, o nosso interlocutor sente que nos vamos opor à ideia dele - e a oposição à ideia, é a oposição à sua identidade, ao seu eu; e ele colocará todas as pedras que forem necessárias aos ouvidos do cérebro.
Li algures que uma pessoa não conhece o mundo (ou a vida, ou a natureza humana, se preferires) enquanto não conhecer uma prisão. Nunca lá estive e curiosamente sempre senti essa lacuna. Esta frase devolveu-me o sentir da necessidade que tenho de suprir.
Sabes que tenho uma grande amizade por ti, mas: Um homem seguro dele próprio não precisa de ser machista.

(e quantos machistas-ciumentos-inseguros não há...)

domingo, fevereiro 08, 2009

- Mas quantos cafés é que já tomaram?
- Seis.
- E nada?
- Nada, porquê?
- Ai, isso não é normal. Isso é altamente bicha.

sábado, fevereiro 07, 2009

Quem não tem inimigos, quem não vinca a sua personalidade, quem não intervém, quem não diz não - consguirá mais consensos, mas despertará menos paixões.

Quando alguém morria, os gregos perguntavam: - Tinha paixão?
I feel that this award was not made to me as a man, but to my work - a life's work in the agony and sweat of the human spirit, not for glory and least of all for profit, but to create out of the materials of the human spirit something which did not exist before. So this award is only mine in trust. It will not be difficult to find a dedication for the money part of it commensurate with the purpose and significance of its origin. But I would like to do the same with the acclaim too, by using this moment as a pinnacle from which I might be listened to by the young men and women already dedicated to the same anguish and travail, among whom is already that one who will some day stand here where I am standing.

Our tragedy today is a general and universal physical fear so long sustained by now that we can even bear it. There are no longer problems of the spirit. There is only the question: When will I be blown up? Because of this, the young man or woman writing today has forgotten the problems of the human heart in conflict with itself which alone can make good writing because only that is worth writing about, worth the agony and the sweat.

He must learn them again. He must teach himself that the basest of all things is to be afraid; and, teaching himself that, forget it forever, leaving no room in his workshop for anything but the old verities and truths of the heart, the old universal truths lacking which any story is ephemeral and doomed - love and honor and pity and pride and compassion and sacrifice. Until he does so, he labors under a curse. He writes not of love but of lust, of defeats in which nobody loses anything of value, of victories without hope and, worst of all, without pity or compassion. His griefs grieve on no universal bones, leaving no scars. He writes not of the heart but of the glands.

Until he relearns these things, he will write as though he stood among and watched the end of man. I decline to accept the end of man. It is easy enough to say that man is immortal simply because he will endure: that when the last dingdong of doom has clanged and faded from the last worthless rock hanging tideless in the last red and dying evening, that even then there will still be one more sound: that of his puny inexhaustible voice, still talking. I refuse to accept this. I believe that man will not merely endure: he will prevail. He is immortal, not because he alone among creatures has an inexhaustible voice, but because he has a soul, a spirit capable of compassion and sacrifice and endurance. The poet's, the writer's, duty is to write about these things. It is his privilege to help man endure by lifting his heart, by reminding him of the courage and honor and hope and pride and compassion and pity and sacrifice which have been the glory of his past. The poet's voice need not merely be the record of man, it can be one of the props, the pillars to help him endure and prevail.


Nobel Banquet Speech, William Faulkner
«O desenvolvimento das intimidades é assim. Primeiro, damos a nossa melhor imagem, o produto polido e acabado, corrigido com simulação, falsidade e temperamento. Depois exigem mais detalhes e pintamos um segundo quadro, e um terceiro - passado pouco tempo as linhas melhores desapareceram - e por fim, o segredo é revelado; os planos dos quadros interligaram-se e denunciaram-nos, e embora pintemos sem parar já não conseguimos vender um único quadro. Devemos contentar-nos em esperar que os relatos fátuos que fazemos de nós próprios à mulher e aos filhos e aos sócios de negócios sejam aceites como verdadeiros.»



Belos e Condenados, Francis Scott Fitzgerald
O que tem mais força: a meritocracia ou a cunhocracia?
Rezar por alguém é como meter uma cunha na mais alta instância.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Gosto do personagem Lobo Antunes que se mostra nas entrevistas. Gosto dos seus livros (não dos iniciais). Gosto das crónicas (na última das quais ele descompõe Deus). Não posso deixar de notar, porém, a sua tremenda capacidade auto-elogio:

- Não há na literatura portuguesa quem me chegue aos calcanhares.

(Camões incluído?)


- Aquele que escreve os livros não sou eu. Eu não escrevo assim tão bem.
I went away alone
With nothing left
But faith

The Cure
Sempre que vejo alguém a fumar droga depois de muito mocado ou a beber depois de muito bêbado, muito raramente vejo alguém intervir. É paternalista, é à-cota, não é nada cool mas às vezes intervenho:

- Como é que vais conduzir assim?

- Eu vou pela rua tal e ali sei que não há polícia a esta hora...

- A questão não é haver polícia...

E depois, quando não batem, acham que tiveram razão. Não, não tiveram. Poderiam ter batido. E é nessa probabilidade estupidamente elevada que reside o absurdo do risco que, em meu entender, não vale a pena correr.

A última vez que vi intervi tratava-se de uma pessoa de 16 anos que gosto muito e vi-o beber café atrás de café e red bull atrás de red bull e cigarro atrás de cigarro. Quando o ouvi dizer:

- Estou de directa e ainda não comi nada hoje.

Disse-lhe:

- Deita o red bull fora. Ou então o café.

A mesa da esplanada caiu-me em cima:

- É jovem, Angel, tem de aproveitar.

- Mas tu és tutor dele?

- Ele precisa de speed para bulir, queres o quê. Bebe lá isso e caga nele.


O jovem bebeu e levantou-se e foi-se embora. Estranhei levantar-se assim tão subitamente. Fui ver dele. Teve um coma cardíaco e foi reanimado pelo patrão que tinha o curso de socorrismos.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Dinis Machado conta (pela voz do narrador) que deixou de fazer planos quando um dia, na véspera de ir para os Alpes esquiar, partiu uma perna.
Saberias explicar a alguém que não sabe ler o que é a magia de determinados textos? Saberias transmitir a quem nunca amou o que é o amor? Saberias contar a um cego as cores de uma forma que ele as visse? Como num filme que vi de extraterrestres, em que a certa altura alguém queria intepretar os sinais e alguém lhe dizia: Esquece. Não consegues. Poderá um homem explicar-se a uma formiga? (subentendia-se que o homem seria a formiga dos marcianos).

Só vivendo, só sentido, podes saber o que é. Daí eu gostar de dizer: quero-experimentar-tudo.
- Estás lento a responder... O que fazes?
- Imprimo.
- Eu só imprimo sonhos.
- Angel, o meu avô tem duas tiradas geniais. Uma é: a droga e a paneleirice, não experimento porque tenho medo de gostar. E a outra é: mais vale uma boa punheta do que uma foda mal dada.
Há pessoas que têm situações na vida que lhes causam profunda tristeza e que, por paradoxal que possa parecer, bastaria moverem uma mão e cessariam os problemas. Mas, no fundo, elas já se habituaram ao sofrimento, no fundo elas preferem o sofrimento à mudança - no fundo, no fundo, acham que ser feliz é pecado.

(há muito mais pessoas assim do que possamos imaginar)
A neurociência chegou à conclusão (conclusão sempre precária e falsificável numa lógica popperiana) de que nascemos com um índice de felicidade. Esse valor de felicidade é o nosso estado normal em que somos ou ligeiramente tristes ou ligeiramente felizes.

Acontecimentos fortes como ganhar a lotaria (exemplo materialista, é certo - mas quem não gostaria de ganhar a lotaria, nem que fosse para doar à UNICEF?) ou a morte de um ente querido podem fazer-nos desviar do nosso indíce, mas - dizem o especialista, em apenas alguns meses (é bom saber), normalizamos sempre... gravitando sempre à volta do nosso índice de felicidade.

O que é a felicidade? É tudo o que fica cá dentro depois de tudo o que se vai embora. Melhor dizendo: é o sentimento que sobrevém depois de todos os sentimentos intensos provocados por factores exógenos e transitórios cessarem.

Angel-looking-for-hapiness-como-tod@s-@s-outr@s
Noventa e nove por cento das guerras, dos conflitos, das guerras, dos problemas da humanidade seriam resolvidos se procurássemos sempre em qualquer situação ver as coisas pelo ponto de vista do Outro.
Não pecar sem ter tentações é fácil.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

- Tens escrito?
- Não. Estou numa fase de assimilação.
os seus sonolentamente amorosos olhos

Scott Fitzgerald

de www.paralelasconversas.blogspot.com

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009
A felicidade
O que é a felicidade?Como se pode ser mais feliz ou menos infeliz? São questões que todas as pessoas gostariam de saber a resposta. Foi hoje o tema da Prova Oral, com a participação de um filósofo, que vai ministrar um workshop sobre a felicidade. Fiquei logo apreensivo, pois não me parece que esse senhor seja o detentor da felicidade, e que não a saiba mais do que qualquer outra pessoa, será que a filosofia tem a resposta para a felicidade? Acredito que nos ajude muito a esclarecer e a compreender melhor a vida, e que seja fundamental para o conhecimento mas não nos vai dar essa resposta.

Siddharta Gautama, mestre budista, dizia que o sofrimento é decorrente do desejo em todas as suas formas. Penso que a grande questão está aqui. Como também foi dito pelo filósofo alemão Artur Schopenhauer, temos três fases que comandam a nossa vida, o desejo, o prazer e o tédio, e assim ciclicamente. Logo penso que a melhor forma de procurar a felicidade é não procurá-la. As pessoas passam demasiado tempo a pensar e preocupadas em como ser mais feliz, em vez de simplesmente viver a vida como sabem.

Voltando à filosofia budista, crê-se que quando se deseja algo e não se obtem a frustração gera o sofrimento, assim como quando se obtém o que se deseja há o desejo de manter o objeto do desejo, e quando se consegue manter acaba-se por se tornar banal, e volta-se a desejar outra coisa. Por exemplo uma pessoa pode-se considerar feliz quando a sua equipa ganha um jogo importante, e vai querer que ela continue sempre a ganhar e a jogar bem, mas quando falha, entra-se num estado de enorme tristeza e desilusão. Não se deveria continuar feliz pelas vitórias que ja teve anteriormente e pelo que conquistou?
O que se passa hoje em dia, é que a felicidade é gerada em pequenos acontecimentos, tudo o que não cause prazer no imediato não é bom, ou é aborrecido, logo se a minha equipa não ganha hoje, logo hoje que eu até fui vê-la ao estádio é a pior equipa de sempre e não valem nada...Ah mas a semana passada era a melhor do mundo porque fez um grande jogo??!!

Tiago Prates

Confissão da vergonha

Há uma coisa em que sou altamente permeável, uma autêntica meretriz. O-importante-é-o-que-tu-achas-sobre-o-que-fazes não se aplica aqui. O que importa aqui é o que os narizes alheios validam. Uso David Off porque, por alguma subtil e misteriosa razão, parece que todas as mulheres se inebriam com tal fragância.
- Eu quando alguma ex-namorada minha arranja namorado, o meu receio é de que ela arranje alguém mais interessante do que eu.
- Mas o que é isso de ser interessante? O que é interessante para uma pessoa é desinteressante para outra e vice-versa. Aquilo que há são afinidades.
- Mas tu não consegues racionalizar isso.
- Olha, eu sinto o contrário. Se alguma ex-namorada minha anda com algum energúmeno, eu fico decepcionado. Eu acredito no diz-me com quem andas...
- Eu não. As pessoas podem errar.
- Pois, podem. Mas eu não consigo desassociar a identidade das pessoas dos seu bem-amados. Não são compartimentos estanques. E se são, então a Madre Teresa poder-se-ia apaixonar pelo Hitler? É como se, quando elas andam com alguém racista, machista, materialista, é como se... eu não conseguisse suportar a angústia de ter amado alguém que nunca existiu.
- Entendo, mas não lhe dou essa importância. O meu receio é apenas de ser inferior à pessoa com que estão agora.
- Olha que esta angústia, este vazio se calhar é pior do que essa insegurança. É como estilhaçares uma ilusão e nem sequer poderes ficares com os cacos, porque são cacos de um holograma.
- Cada um sabe das suas desgraças.
(risos de ambos)
Um pseudo-intelectual é como um orgasmo fingido.
As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos clássicos. Recomendo o paliativo. Eis-me às voltas com as Viagens na Minha Terra. Garrett não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o porque, a seguir, revisitei o terceiro volume de As Farpas, onde Ramalho reproduz uma conversa com Herculano. O historiador retratou assim o seu companheiro das lutas liberais: "Por cem ou 200 moedas, num dia de apuro, o Garrett seria capaz de todas as porcarias que quiserem, menos de pôr num papel, a troco de todo o ouro do mundo, uma linha mal escrita."

Desaprendeu-se (se é que, vez alguma, foi seriamente aprendido) o vocabulário da língua. Lê-se o por aí publicado e a pobreza lexical chega a ser confrangedora. Não se trata de simplicidade; antes, desconhecimento, incultura, ausência de estudo. "Foge de palavras velhas; mas não receies o uso de palavras antigas." Recomendava Garrett. Palavras velhas, travestidas de "modernidade", são, por exemplo: expectável, incontornável, enfatizar, implementar, recorrente, elencar, factível, plafonamento, exequível, checar, fracturante, imperdível, abrangente, atempadamente, alavancar, empolamento - e há mais.

Reconheço o meu verdete por certas palavras e expressões. Não é embirração de caturra, nem rabugice de um recta-pronúncia. Será o gosto da palavra, a alegria de com elas trabalhar há longuíssimos anos, a circunstância de ser um leitor com fôlego, o facto de ter tido professores como o gramático e linguista Emílio Menezes, goês paciente, sábio e afável; e de haver frequentado alguns dos maiores escritores do século passado, para os quais o acto de escrever representava moral em acção. Lembro, com emoção e orgulho, Aquilino, José Gomes Ferreira, Miguéis, Sena, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Abelaira.

Esta crónica foi, também, um pretexto para os lembrar.


BB
No cartaz do Expresso, o filme Second Life é considerado «o pior filme da história do cinema português».
No mais recente filme do Woody Allen (que ainda não vi), falaram-me de uma personagem secundária que achei deliciosa:

Um poeta que nunca publicava porque odiava tanto a humanidade que não a queria iluminar com a sua poesia.
- Angel, o importante é ter paciência. Eu desenvolvi a teoria dos 100 passos. Por isso nunca levo uma rejeição. Repara: há muitas com quem não consigo nada, mas a questão que comigo é diferente é que eu não chego a tentar beijar, porque já fui eliminado nos passos antes. Subidas de degraus muito muito subtis e graduais que só eu sei que vou conseguindo.
Passada uma semana, o «homem da sua vida» era outro.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Indícios de uma intensidade oculta
De uma felicidade ulterior
Eternamente porvir
A matéria do mundo não chega
Não enche o sonho
Haverá sempre melhor…
Não, não haverá…
A noite suave, as estrelas e o rosto dela
São tudo…
Há sempre qualquer coisa que me move nas estrelas…
Há sempre qualquer coisa que me move na música…
- Eu sou contra os pseudónimos.
- Porque tens um nome utilizável...
- Não é isso. Todos temos.
- Olha que...
- Todos. Há sempre várias combinações possíveis para os vários nomes que temos. Mais abreviaturas, etc. Múltiplas combinações.
- O que farias se te chamasse José Fontinhas Rato?
- (risos)
- Era o nome do poeta que escolheu o pseudónimo Eugénio de Andrade.
Quem usa a cultura para se impor, para esmagar o Outro, para estabelecer um território de dominação - não nasceu para a cultura. A cultura é uma fruição, um suplemento da vida, não uma arma de subjugação. A cultura tem um valor final, per se, não-instrumental.
- Uma pessoa desconfiada é sempre uma pessoa perigosa.
- Você é muito romântico. Não mostra, esconde isso, mas lá no fundo é uma pessoa muito romântica.

O vulto negro (quinta parte)

O vulto negro caminhava pela praça coberta de neve.
Hirto, alto, seguiu pela rua das montras iluminadas. Os seus passos regulares foram interrompidos por uma poça de água onde a lua se reflectia. Baixou-se ligeiramente, passou a mão num gesto rápido pelo fundo das calças, e continuou. Atravessou o aglomerado de casacos, gorros e cachecóis. Furou em linha recta e parou junto à pista de gelo.
Os risos esmoreceram e uma rapariga encostada às cordas cedeu-lhe a sua posição. O vulto moveu a cabeça para a direita, e depois para a esquerda, atirou um olhar para a pista e voltou atrás. Um homem afastava um pouco de neve do cabelo da sua mulher e limpava a humidade do seu rosto. A mulher acotovelou o homem e apontou com a cabeça para o sujeito que passava por eles.
O vulto contornou a praça, e subiu uma rua. Parou junto a um prédio, tirou um fósforo, acendeu um cigarro, ergueu a cabeça para uma janela iluminada e meneou-a. Deu um piparote no fósforo e seguiu.
Andou sem parar até chegar a uma porta. Limpou a neve dos sapatos no tapete e entrou.
No dia seguinte, à noite, o mesmo sobretudo preto comprido atravessou a praça. Virou numa rua e entrou numa taberna. Bebeu um leite quente e comeu uma sande, sem nunca largar a mala rectangular.
Passou pela pista de gelo, atirando olhares longínquos e regressando à rua da véspera, onde nenhuma janela iluminada brilhava na noite.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Um excesso ou uma falta de auto-estima são lentes distorcedoras do real.

Uma falta faz-te ler incapaz onde diz capaz - mergulhando-te na inacção.

Um excesso faz-te ler capaz onde diz incapaz - expondo-te ao ridículo.
A natureza do homem não foi feita para a derrota.

Ernest Hemingway

domingo, fevereiro 01, 2009

Tenta-se combater a droga dizendo que ela é má. Isso é falso. Se ela fosse má, uma pessoa experimentava e largava e estava resolvido. As drogas não são más. Não vale a pena iludir as pessoas. O problema das drogas é que elas são muito muito boas.

Miguel Esteves Cardoso
Outro dia estava a ler o José António Saraiva a dizer que era casado há trinta e cinco anos. Lembrei-me de uma pessoa, marido de uma professora, que um ia chorou *a minha frente:

- Desde que ela... [já lá iam 3 anos] que eu nunca mais... Eu não consigo. Foram 55 anos. 55 anos não é brincadeira nenhuma.

Nunca deixo de me espantar perante estes números. Admiro imenso quem os alcança e acho que é necessária uma Arte para manter esses relacionamentos tão longos. A vida é uma Arte, de resto.

Tenho muitas dúvidas que seja uma tendência que se mantenha nas hodiernas gerações. Segundo as estatísticas, mais metade dos casamentos actuais desagua em separação. Dos casamentos a que fui, 2/3 já estão separados. Tal como o conceito de emprego se perdeu para dar lugar ao de trabalhar.
- O tempo que interessa é o interior, o cronológico não interessa para nada. Bergson explorou isso como ninguém e Proust incorporou essa descoberta maravilhosamente no seu Tempo Perdido.
Deixem-me falar-vos dos muito ricos. Eles são diferentes de mim e de vocês. Encontram-se face a face com o prazer mais cedo e este faz qualquer coisa com eles, amolece-os mesmo quando são ríspidos e torna-os cínicos antes aquilo em que nós confiamos (...) Julgam-se, bem no fundo do seu ser, melhores do que nós porque nós tivemos de descobrir as compensações e refúgios da vida à nossa própria custa. Mesmo quando se atolam na nossa realidade ou se afundam sob os nossos pés, continuam a julgar-se melhores.

Scott Fitzgerald
Temos todos os pés na lama, mas alguns conseguem ver as estrelas.

Oscar Wilde
Quando me deparo com um homem proclamando-se como «um fulano normal, honesto e de vistas largas», sinto-me verdadeiramente seguro de que ele possui uma qualquer específica e ou talvez terrível anormalidade, que procura, a todo o custo, ocultar (...)


Scott Fitzgerald
Acaso é um Deus que não aceita orações.

José Alberto Braga
- Eu era a mais nova de todas e era ignorada por isso. Sentia muitas vezes que ninguém me ouvia. E a escrita era para mim uma maneira de eu falar; uma maneira de me fazer ouvir. Foi por isso que comecei a escrever.
Não gosto da palavra putativo. Deve ser por causa das primeiras duas sílabas.
- Deus é infuso, Angel. Um ateu pode ter mais Deus no coração do que um beato.


(sim, se Deus é Amor, um ateu pode ter mais Deus do que muitos crentes)

Excelente ideia, logo ele que fala de tanta coisa ao mesmo tempo e que não tem temas concretos, ensaistícos

- Angel, eu agora para treinar a escrita e puxar pela cabeça, obrigo-me sempre a escrever depois de ler a crónica quinzenal [na Visão] do Lobo Antunes. Leio o que ele escreve e depois vou escrever sobre aquilo que ele escreveu à minha maneira. Faço sempre isso, não tenho falhado uma: a minha opinião sobre o que ele evoca.
- Nunca deixe de andar de transportes públicos, porque é através deles que se conhece o povo: o seu pensamento e o seu pulsar.
nunca deixes de escrever - a escrita é um músculo

exercita-o todos os dias

(mesmo sem pontos finais e maiúsculas)

Nutrientes da felicidade

Era demasiado exigente. Conheceu mulheres muito interessantes, mas achava sempre que the one teria mais requisitos. Faltava sempre qualquer coisa a cada uma delas. A mesma coisa com os amigos. A família? «A família não se escolhe», dizia, matando o assunto a priori. Raramente aceitava um trabalho e quando o aceitava, demitia-se passados poucos meses - não, aquilo não era para ele. O ambiente de trabalho, os colegas invejosos e competitivos, a sabujice, o lamber o cu dos de cima e o pisar impiedoso dos de baixo. Não, não - rejeitava o mundo empresarial. E rejeitava também ter um trabalho que não fosse artístico. E um trabalho que não fosse útil para os outros. E um trabalho para o qual não sub-aproveitasse o seu cérebro.

Chegou aos 96 anos sem um amigo, uma mulher, um trabalho de longa duração. Mas ainda andava à procura. Ao fim de tanta depuração, seguramente estaria mais perto do idela de perfeição em cada uma dessas áreas da sua vida.

Chegaria com sorte aos 100 anos com as mãos da alma livres de qualquer vestígio de imundície do contacto com a fealdade, a maldade e as impurezas. Mas poder-se-á dispensar o alimento humano?


Angel-se-não-aceitarmos-nem-por-uma-vez-as-seconds-choices-na-vida-acabaremos-como-esse-senhor
- Você sente muito, e quem sente muito sofre mais.

Velho Ancião
A sensibilidade é a pior protecção contra o sofrimento.
Não confundir diferenças de estilo com diferenças de conteúdo.

Nomes para personagens

Dean M.

Alessandra Clepsidra

Luana Laranja

Estela Prates

Artur Ávila