sábado, janeiro 31, 2009

Ia num carro com mais quatro pessoas a caminho da praia. Era um belo dia de Verão, eram duas da tarde e na estrada vemos um acidente. Diante de nós, um corpo esfacelado.

O condutor riu-se e gozou o prato. Ainda hoje, se o vejo ou se me falam dele, me lembro deste pormenor. É como uma cicatriz invisível que se desenha sempre para mim no seu rosto. Um outro sorriu perante as piadas e os outros dois não se manifestaram.

Fiz um comentário reprovador e um dos outros dois que não se tinham manifestado atirou-me:

- Não podemos fazer nada por ele, mais vale rires-te.

Na praia, não consegui deixar de pensar naquela imagem e o meu dia ficou estragado. Como estaria aquele homem? E a família? E todos os outros sinistrados? E todos os outros que estavam com dores excruciantes e com a morte no horizonte? E... e... e...

Há momentos em que, diante do sofrimento que não posso alterar e que gostava de compartimentar na minha mente como uma não-preocupação, um não-ruído, um não-peso, penso que gostava de ser como os outros da praia. No fundo, o outro tinha razão. Risse-me eu ou chorasse, não alteraria um átomo da vida daquele indivíduo.

Há momentos em que gostava de ser como eles.
No elevador, raramente consigo entabular uma conversa não-metereológica. Mas esta semana ouvi e registei:

- Está um Inverno invernoso...
Há trinta e seis anos a homossexualidade era uma doença listada pela Associação Psiquiátrica Americana. Há 50 anos um negro tinha de se levantar dos transportes públicos para ceder o seu lugar a um branco.

Em Portugal, há trinta e poucos anos, a mulher não podia ser comerciante sem autorização expressa do marido que lhe podia, por lei, abrir a correspondência da esposa (nem é preciso dizer que o contrário não se verificava). Há 50 anos, a mulher não podia sair do solo português sem documento escrito do seu marido.

A pena de morte há cem anos estava em quase todo o mundo, hoje em menos de metade do globo.

Em muitos sentidos, o mundo regride, mas a nível das instituições, das leis, e com elas, das mentalidades, há um evoluir no sentido da defesa dos direitos humanos e do combate ao preconceito.

Aos homossexuais (e a todos os excluídos pelo preconceito)

Tu não fazes nada de errado, tu não és doente, Deus não te odeia.

Harvey Milk

sexta-feira, janeiro 30, 2009

De quem eu gosto
nem às paredes confesso


Fado

(Clicar para aumentar)

«(...) o rapaz escolhia muitas vezes as zonas do globo para onde se dirigia só por causa do som das palavras, foi à Pensilvânia por causa do som, a Pensilvânia não lhe interessava, interessava-lhe a palavra (...) a sua seda ou a sua aresta, e das cores que as palavras lhe sugeriam»

idem
«há os que tomam o peso à palavra, os que lhe medem o comprimento e a altura, os que cheiram a palavra, os que espreitam para dentro dela, os que se empoleiram nela, os que a trazem às costas, os que a limpam constantemente, que a guardam avaramente na algibeira, que dormem com ela debaixo do travesseiro, que a colam ao céu da boca, que andam na rua com ela a dançar à frente dos olhos e depois dão com a cabeça num candeeiro, que tomam posse dela, de preferência à luz das estrelas, e depois deitam-na fora sem mais nem menos, esta palavra já está, agora venha outra, e há os outros, aqueles que amontoam palavras, que estão atulhados de palavras, caem-lhes palavras do bolso quando tiram o lenço com um gesto abrupto, e cada folha de árvore tem um nome, e cada grão de areia também tem, e as palavras que existem já não chegam, fazem palavras novas com tudo o que aparece, tiram palavras do ombro quando sacodem a poeira, e depois nascem palavras por geração espontânea, são já as palavras que se escrevem a si próprias, umas puxam as outras, nunca mais acaba, e há aquela história, um pouco à Kafka, do homem que se fechou por dentro enquanto as palavras se amontoavam do lado de fora da porta, espalhavam-se pela escada e chegavam à rua, apoderavam-se da cidade e do país, faziam pressão sobre a porta, o homem colocava cadeiras e mesas do lado de dentro para as palavras não entrarem, nunca se chegou a saber o fim desta história(...)»


Dinis Machado, O Que Diz Molero

O meu sex symbol masculino



Quando tinha 12 anos vi este filme e elegi este homem como o modelo de beleza, charme e estilo que eu queria perseguir. Ainda hoje, ao ver este vídeo, sou percorrido por um frémito... (E ainda hoje me pergunto se o sobretudo que uso, igual ao dele, com as abas puxadas para fora, não são as reminiscências de uma homenagem.)

Depois disso, vi grandes filmes dele: Barfly, Rumble Fish. Vi outros que me tocaram menos, mas, apesar da prisão, do boxe, dos vícios, Rourke esteve sempre no cinema e na TV.

É com enorme alegria que leio (em todos os lados) que fez um dos papéis do ano em The Wrestler (que só estreia por cá daqui a três meses), que já ganhou um globo e que é um sério candidato a melhor actor pela Academia.
Era tão boa pessoa que nunca participava em nenhuma competição - tinha medo de ganhar e absorvia a tristeza e a vergonha dos outros até ficar esmagado.
A capacidade de guardares um segredo e de nunca o contares a ninguém. Mais: de nunca sequer te lembrares dele, como se de tão sagrado, o escondesses de ti próprio. Isso é algo que te torna muito forte. Conseguires guardar, sem rebentar, sem precisar de contar ao Outro - desenvolve-te a força interior, a auto-suficiência, o respeito por ti e pelos outros, a paciência.

Pedro da Austrália presenteia a tasca

Conheço pessoas que ouvem vozes. Não me disseram, mas eu sei que as ouvem. Conheço pessoas que foram abusadas na infância ou pré-adolescência. Não me disseram, mas eu sei que foram. E um dia bastou dar um sinal para me confirmar numa esplanada:

- Sim, quando tinha 11 anos.

Se estivermos atento ao Outro, escutamos tudo.
Herberto Helder não dá entrevistas e não aceita prémios. Todos os escritores deveriam ser assim, porque o que importa é a Obra - o homem, a sua vida, as suas tricas são outras coisas completamente distintas. Só a Obra interessa. Com o tempo, tudo o resto é apagado - e se o que fica é a biografia do artista e não a Obra, é porque a segunda é medíocre e não aguentou a erosão do tempo.

Herberto entende isto como ninguém e entende que o prémio é algo exógeno à obra. O escritor escreve. Ponto. Os egos dão entrevistas e recebem prémios. O prémio não acrescenta uma vírgula à obra. Ela continua igual. E, por isso, a sua qualidade continua intacta. Com ou sem prémios. Com ou um sem entrevistas. E quando o autor vem explicar a obra, está a dizer que ela não fala por si - logo é coxa, incompleta, não contem nela própria as chaves da sua decifração. Quando autor a explica, está a matar as infinitas interpretações vindouras - só há uma interpretação, a do autor, que se cola fatalmente à Obra.


Mas a obra e o artista são coisas tão distintas como a mousse deliciosa que o cozinheiro faz e que nós nem conhecemos, mas que apreciamos e adoramos indo àquele restaurante só para provar e a vida conjugal do cozinheiro. O que é que nos deveria interessar isso que o cozinheiro insulta a mulher quando comemos a sobremesa?

Herberto dá-nos um exemplo através da acção. É isso o que ele nos quer dizer através da sua não-presença. Eu escrevo. Ponto. O resto é folclore.

Há contudo um efeito perverso da sua postura. É que no nosso país (e mesmo lá fora, é igual, admitamos), todo o escritor dá entrevistas e aceita qualquer tipo de menção honrosa. O não aceitar torna-o mais alvo das atenções. Explico: ser diferente, ser o único diferente nesta matéria, vai ainda chamar mais a atenção para a vida do autor. E o que tem acontecido com as reportagens que procuram obsessivamente entrevistar todos os conhecidos de Herberto para iluminar tudo o que não é a Obra de Herberto. Ele, que escreveu um dia (cito de memória, talvez falhe): Meu Deus, que eu não deixe nunca de ser um poeta obscuro.
- Vivemos numa época em que há um certo abandalhamento a nível sexual. É a perversão. Parece que há muita gente que só se consegue excitar através da perversão.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Livros recomendados (assunção de amiguismo: é o meu prefaciador)

http://www.fnac.pt/pt/Catalog/Detail.aspx?cIndex=0&catalog=livros&categoryN=Livros&category=bdHumor&product=9789727312436
- O seu livro, Angel, é tão estranho. Ando a relê-lo. É tão estranho e aquele final então... Uma coisa... E depois há a figura feminina... eteréa... Muito curiosa, ela. Eu ando a reler para lhe dizer o que me fez sentir.

Monogâmicos vorazes

Aquela ou aquele que muda de parceiro constantemente, sem trair, mas sempre a mudar de namorad@ é no fundo um polígamo reprimido.
Poder descrever uma montanha,
na sua altura infinita e superioridade,

Escrever um livro que encerrasse em si
a essência da existência.

Gozar o maior prazer espiritual.
saborear a sua plenitude,

Poder tornar o inconsciente,
consciente,

Tocar a imortalidade,
encarar de frente o inesperado.


Lisa Henriques, Aufgang Luz Nebulosa
Um segredo: há posts que ponho só durante alguns momentos, e tiro logo. Às vezes, uma questão de minutos. É para os visitantes da tasca a desoras. Para aqueles que persistem em ficar nela, quando a tasca já fechou, os copos foram recolhidos, os cinzeiros limpos e a vassoura já passou uma última vez pelos restos do chão Pretende ser um rebuçado para a insónia.
- Não é preciso ser-se religioso para se ser interrogativo. E a grande interrogação é: o que é que eu faço aqui?
- A nossa verdade interior é intransmissível; não há nada a fazer quanto a isso.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

- Por debaixo das palavras, há águas profundas. São essas águas profundas que se chamam o sub-texto. O que não é dito, mas está lá. As palavras estão cá em cima, mas escondem um oceano muito profundo.
- O difícil é fazer as palavras transmitirem aquilo que queremos dizer.
- As palavras perderam o peso mágico que as torna vivas.
- Não sou eu que observo que as novas gerações desprezam a palavra, são os professores quem o dizem. A palavra não lhes entra, eles não dão o valor à palavra. E quando não entra é como a música se não entra, não entra. Mas quando entra e nos toca, é maravilhosa. Aquilo não lhes toca, não passa do olho para a cabeça, sabe? A palavra escrita é insubstituível.
- Eu não concordo nada com aquele post do teu blog em que uma pessoa tem medo de ver o que diz no blog. Eu tenho receio do contrário. Estar a falar contigo muito tempo e depois não ver nada na tasca, Angel. Fico a pensar: meu Deus, não disse nada de interessante!

terça-feira, janeiro 27, 2009

Escreve os teus sonhos.
E ele disse:

- Angel, a sua voz apazigua-me. Que bom ouvir essa voz. Você tem uma voz que apazigua as pessoas, sabia?

Bufos

Uma das figuras mais detestáveis típicas da mentalidade portuguesa são os bufos. É próprio das culturas mais pequeninas (quanto menos se tem, mais medo se tem de perder o pouco que se tem) e das mentes mais mesquinhas. Antes, o Estado Novo promovia estes medíocres.

Infelizmente, hoje, no governo de Sócrates, eles voltam a ser recompensados. Na lei do tabaco, os bufos podem obrigar um indíviduo fumador a pagar uma multa de 500 euros se lhe apetecerem. Na DREN, um ou vários bufos lixaram a vida a Fernando Charrua por uma frase inócua. A troco de quê? Da confiança do chefe, de uma promoção. E os exemplos são inúmeros... Ainda outro dia li que um indivíduo foi despedido (num organismo estatal) por reencaminhar um mail que fazia piadas sobre o governo - foi denunciado por um colega.

Estes queixinhas já fermentavam na Escola Primária. Lembrei-me tão bem deles. Ia no final das aulas, depois de verem que todos tinham desertado da sala, falar com os professores e debitar coscuvilhices.

Uma vez, numa empresa, no dia em que colega foi despedido, recebo um telefonema dele:

- Angel, fui despedido. Não há tempo para falar, preciso de gravar as coisas do meu computador.

E eu fui ter com ele e passei-lhe disquetes virgens.

Dias mais tarde, fui chamado à administração.

- Dr. Angel, sabemos que andou a passar disquetes ao Dr. XPTO.

Automaticamente, lembrei-me: como poderiam? A porta da administração estava fechada.

- Eu passei disquetes virgens ao Dr. XPTO. É verdade.

- Foi visto!

- Mais grave do que eu passar disquetes, é haver uma cultura da empresa que promove
os bufos.

(... e o lambe-botismo ou culambismo - expressão de MEC -, faltou-me dizer.)

Os dois admnistradores olharam-me siderados.

Aqueles colegas eram tão-mete-nojo e ficam assinalados dentro de mim como autores das maiores baixezas de que fui testemunha.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Era o patinho feio entre as amigas. Nunca ninguém lhe conhecera um namorado (e só as raparigas sabem o que é essa pressão, esse estigma). Um dia, arranjou um. Falava dele mais tempo do que estava com ele. As amigas nunca o conheceram. Nunca sequer o viram ao longe no carro. Era apenas um nome. Chegaram até a ouvi-la dizer que estava com o namorado e descobrirem que estava em casa sozinha.

Como voltou, desapareceu. Hoje ela é casada. As amigas acham que esse namorado foi uma ficção. Que nunca existiu.

Sobre a crise

http://blog.luxfragil.com/?p=645
- A questão do gira ou feia é relativa, eu até tenho um amigo que diz que não há mulheres feias. Só mal arranjadas. Eu não concordo, mas percebo o ponto de vista dele, Angel. Porque com a roupa certa, a maquilhagem e o penteado certos, ouve, Angel, há milagres. É engraçado porque tu sais à noite com 4 amigas e em 4 noites diferentes uma delas é a mais bonita.
Não há felicidade maior do que a de levar os outros a descobrirem os seus sonhos e a executá-los.

http://osjardinsdababilonia.blog.com/

O Número da Gira que queria muito ter sido penetrada violentamente por ti e nunca o foi…


“I am lost
So I am cruel
But I'd be love and sweetness
If I had you"

Millk, The Garbage







Há-de haver sempre invejas e infâmias e injustiças atrozes a atazanarem a nossa paz.

A de hoje foi simples, nada confusa, linear na minha opinião.


Alguém invadiu o blog de 1 dos meus melhores amigos que, cheio de defeitos como qualquer outro de nós, tem das condutas mais rectilíneas que conheço, uma moralidade completamente orientada por uma profunda necessidade de ser justo, correcto, coerente. Não lhe conheço trapaças. É bem formado, tinha de ter sobrado alguém bem formado. Ele é um deles.



Este episódio decadente, caracterizado por miminhos revanchistas e mal resolvidos que alguém lá deixou sob forma de comments a um post, um alguém que permanecerá cheio de ódio até se desfazer em amor – curiosamente como na música dos Garbage de que me falavas esta semana, o cosmos a lembrar-nos das não-coincidencias da vida – culminou com estas lágrimas de raiva que dizem assim:



“Então Roto? Será ou comedor hipócrita e intriguista, de gajas amigas e depois faz-se passar por moralista e cheio de valores a comer várias amigas ao mesmo tempo... estás fodido!!!”







Sei que é coisa de fãzinha ressabiada, que as há pior que as bruxas, mulher é raça capaz de tudo, vender mãe e pai e até, por vezes, humilhar publicamente um grande amor… Mulher rejeitada ou traída… Ui, meu querido… Não há bicho pior… lol…

Impossível esquecer o episódio do Sexo e a Cidade em que Samantha espalha a fotografia do homem que a traiu por toda a parte, legendada com uma qualquer ofensa…Mas são olhos cheios de olheiras e de lágrimas, os que o grande plano dessa grandiosa amazona urbana nos mostra…




Será mais doloroso ser traído ou rejeitado? Perdoar ou punir? Todos temos o nosso pequenino ou enorme ego. Todos temos a nossa vaidade. A nossa dignidade. E mais é demais. Há quem pontapeie a própria sombra, em dias caóticos. Ou o alvo do seu grande, enorme amor.







Não sei... tenho vindo a aceitar que perceber a alma humana é demasiado complicado para generalizar as suas dores. Cada homem é um mundo. Um verdadeiro universo de unicidade e as suas motivações são, por vezes, terrivelmente ininterpretáveis sem uma auscultação mais profunda…







Compreender deve ser dos processos evolutivos que mais alma envolve. Mais alma, mais contagens decrescentes e cursos de controlo temperamental (no meu caso específico).



Superar a ofensa, posicionando-nos além da dor que esta nos provocou, além da afronta, falta de respeito e todas as outras interpretações emocionais egoístas e auto-focadas dos acontecimentos que, de uma forma ou de outra nos agitam, é o mais cristão dos exercícios que me ocorrem nesta situação específica.



Tentar posicionar-nos ao nível do Outro, em situações que claramente nos prejudicam, é algo de sublime e superior. Algo que só pode ser perseguido por alguém que almeje evoluir, evoluir, evoluir. Ultrapassar-se a si próprio e harmonizar-se com o mundo. Crescer e ser melhor.



Sei que o conseguirás fazer, quando te passarem o espanto e a indignação.







Eu também tento.



Afinal de contas, deve ser para isso que elas tanto rezam…







Daniela Dias

E o que é que tu fazes por elas?

26.01.2009 - 15h36 Lusa
Mais de 963 milhões de pessoas continuam a ter fome ou a passar graves carências alimentares, o que representa uma “grave crise alimentar” que tende a agravar-se e para a qual é necessário um esforço global.
Acordas e tens uma mensagem no voice-mail. Percebes que a pessoa não desligou o telefone e inadvertidamente continuou a falar para a pessoa que estava ao lado. Ainda para mais sobre ti... Ouves o teu nome e é quase irresistível ouvires o que se segue... Porém, o princípio da privacidade tomba sobre ti e desligas de imediato.
Quando temos noção das nossas limitações, nunca somos expostos ao ridículo. A melhor maneira de lidares com as tuas incapacidades, é expo-las. Mostrar as cartas que tens, que trunfos, que naipes, que ases e reis.

Sempre que desconheces o assunto que se discute, deves dizer:

- É um assunto que não domino.


Ninguém te massacrará com perguntas e contra-argumentações.

A melhor defesa é a Verdade. Protege-te.
Não concluíra a licenciatura e dizia mal de toda a gente que tinha a mania só porque era «Dr.».

Dizia mal dos amigos e conhecidos que só arranjavam empregos «à pala da cunha». Um dia arranjou um emprego na câmara com cunha do tio e calou-se.

Dizia mal do pessoal que tinha namorada e «relações muito absorventes». Um dia, arranjou namorada e desapareceu durante três anos.

Dizia mal do pessoal que ia trabalhar para o estrangeiro e deixava cá os amigos. Um dia, arranjou um trabalho lá fora, partiu seis meses e não tornou falar mal do pessoal que ia lá para fora, nem dos Erasmus sequer se atrevia agora.

Demorei a perceber o padrão: dizia mal de todos-aqueles-que-logravam-alcançar-aquilo-que-ele-ambicionava-e-não-conseguia.
Pensou nos piores pensamentos que tivera na vida. Pensou nos seus desejos mais inconfessáveis. Pensou nas suas motivações mais hediondas. Se soubesse essas coisas noutra pessoa, perderia a consideração por ela. Se os outros soubessem isso sobre si... ui, arrepiava-se só de pensar.
É difícil encontrar alguém que associe o trabalho a satisfação. Porque pouquíssimos pertencem ao clube do faço-aquilo-que-mais-gosto. O primeiro requisito é saber-se aquilo de que se mais gosta (o que está ligado a outras questões mais profundas como qual o nosso papel no mundo). O segundo é batalhar, batalhar, batalhar. Sacrificar o dinheiro que ganharíamos a mais, sacrificar o tempo de espera, o desemprego temporário. Até que o sonho se torna realidade.

E o sonho, o sonho tornado real é sempre recompensador - tem o condão de apagar todo o passado, por mais negro e doloroso que ele seja...
O importante não é o que fazes, o importante é fazeres bem o que fazes.
- Ela tinha cenas...
- Feitio?
- Não, coisas tipo... Tinha por exemplo um rabo em forma de pêra. Eh pá e eu dou bué importância ao rabo, percebes?
Espancou-o com flores e puniu-o com beijos.
O teste ao egocentrismo: gostavas que alguém se suicidasse por ti?
Montaigne conta que numa terra as raparigas começaram a suicidar-se, uma após outra. Para estancar a epidemia, os governadores decidiram decretar:

- A próxima que se suicidar, terá o seu corpo nu a percorrer toda a cidade.

Os suicídios foram abrandando. Tal é o poder do pudor, explica GMT.
Somos todos menos inteligentes do que supomos. Porque só temos conhecimento daquilo que entendemos. O que não percebemos - a maior parte das vezes nunca iremos saber que não percebemos, a não ser que nos digam. E isso é tão raro.

Categorias vistas de fora

Conheço algumas, poucas, figuras públicas. Sei de pessoas que vêem essas mesmas figuras públicas como deuses. É engraçado porque no fundo, no fundo, os ídolos - de hollywood, da música, do futebol - não são vistos pelos fãs como pessoas com necessidades fisiológicas, com dramas, com amigos, com família, com podres, com lados negros, com carências de afecto, de amor e carinho. São pessoas vistas de fora, sem substância interior.


Da mesma forma que aplicamos a categoria génio a alguém que não pensa: eu sou um génio! Ao que nós chamamos génio as coisas acodem ao cérebro com naturalidade. E não com uma sensação a acompanhar: eu sou um génio!


Ou alguém que é misterioso. Para esse alguém, não há mistério algum. O mistério é uma categoria vista de fora.
- As prisões são hóteis de luxo.
- É? Então quase vale a pena cometer um crime só para ir para lá.
- Não tenhas dúvidas.
- Já entraste em alguma?
- Não.
- Já leste alguma reportagem sobre alguma?
- Não, mas ouve lá, tu nunca ouviste dizer?
Tinha eu sete ou oito anos e ouvi uma visita de casa apontar:

- Diga lá outra vez o nome do disco - à medida que tirava um bloco de notas e escrevia com um lápis ou uma caneta.

Ao longo da noite, vi-o puxar do bloco mais duas ou três vezes.

A certa altura, questionado sobre o objecto, respondeu:

- Sabe, o que ocupa espaço aqui - afirmava apontando para o bloco - não ocupa aqui - apontava agora para a cabeça.

O personagem excêntrico que veio a minha casa jantar não sabe a importância que teve sobre mim. Foi graças a ele que me tornei addicted de blocos de notas e que dispenso a armazenação de toda e qualquer informação irrelevante no meu cérebro.

domingo, janeiro 25, 2009

Jorge Amado era um homem que não tinha medo de ser mulher.


António Lobo Antunes
George Orwell escreveu que a boa prosa é como uma vidraça, e que portanto para se escrever bem é preciso anularmos a nossa personalidade. Scott Fitzgerald entendia justamente o contrário: o preço da boa escrita era a nossa exposição íntima. Havia, segundo o autor, três ou quatro coisas marcantes na nossa vida - e que era sobre estas que deveríamos escrever sempre. Por mais que não quisesse, a Obra de qualquer escritor gravitaria em torno delas.

Orwell escrevia sobre a sociedade com uma intenção política, Fitzgerald escrevia eminentemente sobre sentimentos e pessoas. Ambos, cada um à sua maneira, foram dos maiores escritores do século XX.
David Bowie sempre foi muito questionado sob qual seria a sua orientação sexual (as preocupações que as pessoas têm...). Um dia chocou meio mundo (hipérbole) quando respondeu à pergunta «Onde conheceu a sua mulher?»:
- Andavámos ambos a comer o mesmo tipo.
Mais tarde, cansado dos rumores (o mais famoso dos quais que o dava como amante de Mick Jagger) e dos rótulos bissexual, homossexual, heterossexual, definiu-se como:

- Sou trissexual.

Investiguei na Net o significado de tão inusitado conceito (quem o terá cunhado?), e parece que é alguém que experimenta tudo pelo menos uma vez.
- Mas tu já namoras há muitos anos com ela.
- Há dez.
- Tens estado só com ela...
- Eu? Desde há 7 anos que a minha vida é só trabalho e Ana. Mais nada.
- E não sentes falta de...
- Não sei, porque nem penso nisso. Chego a casa tão cansado que só quero é descansar, sabes? E mesmo fazer um jantar em casa parece que dá tanto trabalho.
- Pois. Pareces que estás numa prisão e que não consegues sair.
- Olha outro dia foi bom. Encontrei uma ex-namorada e descobri que a Ana não faz a mínima ideia de quem eu sou. Senti a pessoa que eu era, ou que sou e que tenho vindo a soterrar nestes anos.
- E não te incomoda estares há 10 anos com quem não te conhece?
- Não penso nisso.
Viciou-se no controlo das pessoas. É um vício como outro qualquer. Ao início, sabe bem - e continuamos, continuamos, até que um dia nos apercebemos (ou não) de que atingimos um ponto demasiado elevado da espiral. O hábito entranhou-se e é extraordinariamente difícil desentranhá-lo. O prazer tornou-se em vício. Patologia? Depende do critério que se definir. Da quantidade que é necessário para.

Ela controla a filha ao centímetro. Vai com a filha para todo o lado. Não a larga um milímetro. Ficou viciada e hoje se os olhos não captam a filha, indaga nervosa:

- Onde está ela? Onde está?

Já não a consegue largar nem por um momento. E é irrelevante a idade que ela venha a ter.
Uma nuance colossal: nem sempre a timidez surge de uma sensação de inferioridade. Há uma espécie de timidez que advém de um sentimento de superioridade. Nunca se sentiram com vergonha pelo vosso interlocutor por ele, por exemplo, discutir um tema convosco em que vocês sabem muito mais do que ele e têm pudor em esmagá-lo e por isso disfarçam, fingem sabem menos do que sabem? Eu já me senti tímido por estar acima e não querer fazer sentir o Outro mal. Acho que se pensarmos já TODOS sentimos isto uma ou outra vez.

Doces Eufemismos

- Não é que as mulheres sejam materialistas, é apenas que os homens pobres têm as possibilidades mais estreitas no que diz respeito a arranjar uma companheira.
Sempre que desconheceres uma palavra, vai ao dicionário. Sempre que assimilas uma nova palavra, acrescentas uma porção de terra ao continente que és tu. O prazer de uma palavra nova! E quando te apaixonas por ela...
Podem estar juntos com dessintonia de pensamentos.

Podem estar separados com sintonia de pensamentos.
A síndrome do autor incompreendido. Quando tens razão, e ninguém te compreende... conheces esse sentimento?

sábado, janeiro 24, 2009

Um dos mistérios mais insondáveis da natureza humana é, para mim, a concomitância com que algumas pessoas com as mesmas mãos que rezam, matam e roubam.

Qual o mecanismo mental que leva os mafiosos mais cruéis a extorquirem dinheiro e matarem a sangue frio e depois irem à missa domingueira orar e comungar?

Não falo dos ritos. Falo da crença. Como é possível amar a Deus ou temer a Deus e fazer aquelas acções?



Muhammad Yunus


Aos anos que divulgo este Senhor. Muito antes do Nobel, já eu oferecia a sua biografia como prenda de aniversário. Não há nada de mais valioso do que criar uma ideia da qual o mundo se apropria.

Inventou o microcrédito e aliviou a pobreza de 6,6 milhões de pessoas no mundo. A avaliar pela velocidade com que a sua ideia se propaga pelo mundo, o exército de pessoas beneficiárias da ideia incrementar-se-á no futuro.

Não há ninguém à face da Terra que tenha feito tanto pelo seu semelhante.

ternura, compaixão, lágrimas felizes

o peixinho e a truta

ajuda-me disse o peixinho para a truta
estava perdido e encontrei-me nadando na tua boa
ajuda-me chefe
eu tenho planos para ti e para mim
eu juro por este regato
eu ajudar-te-ei a sentir novo outra vez

não propriamente o acontecimento do dia-a-dia
o passarinho a tomar café com as formigas

por favor, eu sei que somos diferentes
nós fomos uma única célula no mar no princípio dos tempos
e aquilo de que somos feitos foi o mesmo outrora
não somos assim tão diferentes afinal

ajuda-me disse a águia à pomba
eu caí do meu ninho de muito alto
ajuda-me a voar
eu tenho muito medo tenta
agora acrescido de um medo das alturas
eu rezo para que me ponhas fina

não propriamente o acontecimento do dia-a-dia
o elefante a partilhar os amendoins com os ratos
e eu disse

por favor, eu sei que somos diferentes
nós fomos uma única célula no mar no princípio dos tempos
e aquilo de que somos feitos foi o mesmo outrora
não somos assim tão diferentes afinal

estamos ligados pela história
conectados como uma família

por favor, eu sei que somos diferentes
nós fomos uma única célula no mar no princípio dos tempos
e aquilo de que somos feitos foi o mesmo outrora
não somos assim tão diferentes afinal

A fine frenzy
- Se houvesse uma matrícula com teu nome seria MM-30-00, porque tu estás muito à frente.
- Angel, tu és um coninhas, mas com os horizontes muito alargados.

E se eu vos disser que existe

Não queria ser o mais rico do mundo, o mais poderoso do mundo, o mais bonito do mundo. O seu sonho era ser a melhor pessoa do mundo.

Ficar na história como «a boa mais pessoa do mundo». Depurar ao longo dos anos todos os pensamentos, palavras ou acções que contivessem o mínimo vestígio de maldade. Deixar as más acções, ainda que pequenas, lá para trás, na infância, abafadas pelas toneladas de boas acções posteriores. Fazer o Bem a tudo e todos. Fazê-lo secretamente. Maquiavelicamente. Conspirar o Bem. Não estar um segundo sem pensar ou sem fazer algo do qual resultasse uma melhoria do bem-estar do Outro.

Num dia de chuva, vento e frio, atravessou a cidade inteira para distribuir roupa e comida pelos sem-abrigo. Limitou-se a ficar com umas calças, uns sapatos, cuecas, uma camisola e uma t-shirt. Apesar da chuva, pensou que ainda poderia abdicar da t-shirt. Mas depois pensou:

- E se fico de cama com pneumonia, imobilizado e incapaz de ajudar o próximo durante 2 semanas?

E não deu a camisola.

Vivia na indigência para dar ao próximo. Dormia pouco e perdia tempo nenhum com compras ou a arranjar-se ao espelho - todo o tempo era necessário. O Outro era o imperador e ele o seu servo absoluto.

Um dia, ao tomar banho, viu uma pequena traça na banheira e desligou a água, assustado. Nunca poderia mater um ser vivo, mesmo que inadvertidamente.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Faz-se passar por inocente e ingénua - a sua forma de manipulação passa por baixar as defesas dos outros logo na primeira fase. É sinal de lucidez: se queres manipular alguém, tens de dar a entender que és o oposto de um manipulador, que queres tudo menos manipular - e que melhor máscara poderás afivelar do que a dela?
Todos somos produto de tudo aquilo que vimos, lemos, ouvimos. Biliões vezes biliões vezes (um número tão grande que não caberia no Universo) de impressões que recolhemos deram esta equação que somos nós - única e irrepetível.

Por mais resistente que seja a nossa carapaça, por menos camaleónica que seja a nossa natureza, somos todos influenciáveis. Nenhum homem é uma ilha, como escreveu John Donne.

Mas ainda assim, acho que quando sabemos a origm do plágio devemos nomear a fonte. Quando de forma consciente e lúcida sabemos a autoria, é sinal de respeito pela verdade mostrarmos a assinatura.

Isto a propósito de ver amigos meus contarem histórias alheias como se fossem deles, dizerem piadas de outros como se fossem deles, de apropriarem-se de ideias de outros para as debitarem integralmente em debates como se fossem suas, de nomenclaturas caricaturais e originais para designarem determinado fenómeno ou idiossincrasia originais.

Um dia, ao falar de uma pessoa que é porteiro de uma discoteca e que privilegia os homossexuais na entrada, utilizei a expressão:

- Ele é heterofóbico.

Um amigo meu repetiu esta expressão a n pessoas como se fosse dele, provocando o riso e recolhendo os louros, ufano. Podem achar mesquinho, mas é um pequeno gesto que na minha opinião retira nobreza de carácter. Eu era incapaz de utilizar algo alheio de uma forma tão despudorada como se fosse meu. Não citar a proveniência quando se a conhece é uma imposturice.


É o mesmo tipo de sentimento que tenho quando vejo o plágio descarado que Saramago fez no seu penúltimo livro.

Angel
Saí de lá abananado. Como se até aí desconhecesse quatro quintos da realidade, e se nesse momento esses quatro quintos tivessem desabado sobre mim.
Sofrer é outro mau hábito.

Saul Bellow
Descobriu a pior traição - pior do que fazer amor com outra, ele andava a ler os poemas que lia só a ela a outra.
Não sejas permeável às pressões de grupo, aos códigos de grupo - o grupo não existe, é uma abstracção conceptual. Só existem pessoas - melhor dito, só existe uma pessoa muitas vezes.

Se não alimentas relações a dois, não cresces enquanto pessoa. Se não alimentas relações a dois, não tens amizade. Sem amizades, nunca és feliz.
Uma unha encravada não é uma boa prova da existência de Deus.

José Alberto Braga
- Angel, tenho medo de te estar a contar uma coisa e que isto vá parar ao teu blog.
Atravessando as palavras, há restos de luz.

Kafka
E, o padre, no púlpito atirou um discurso surpreendente para espanto das muitas beatas:

- E vocês, não pensem que o vir todos os dias à Igreja, o estar todos os dias num quarto bafiento com um tercinho na mão e uma oração na boca é suficiente. Deus não gosta de ratos de sacristia. Aqueles de vós que só querem salvar a sua alminha não a salvarão. Há muitos irmãos vossos que estão neste momento em condições de vida intoleráveis, e o que é que vocês já fizeram? A ajuda não pode ser nem só espiritual nem só material. O neoliberalismo produz vidas desesperadas, fome, miséria, desemprego. A caridade não chega, é preciso a solidariedade - é preciso actuar nas estruturas, é preciso actuar no longo prazo. Não basta dar uma sopinha todos os dias e ir para casa com a alma contente por termos feito o Céu e garantido o bilhete para a Salvação. É preciso - é urgentemente preciso - sentirmos as dores do Outro como se fossem nós. A mensagem do Amor de Cristo assim o exige.
Na peça Calígula, ela pede:

- Jura-me que me ajudarás se precisar.

Ao que ele responde:

- Não preciso de jurar porque eu amo-te.
Detesta-o, mas precisa desesperadamente dele para validar a sua auto-imagem.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

- Você é uma pessoa que bebe pelo seu próprio copo. É engraçado. Os outros que bebam o que quiserem, eu tenho este copo e aqui só entra o que eu quero. E só preciso de o lavar de vez em quando.

Seres Decentes

Quando cumpria o seu segundo mandato Ramalho Eanes viu ser-lhe apresentada pelo Governo uma lei especialmente congeminada contra si.

O texto impedia que o vencimento do Chefe do Estado fosse «acumulado com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência públicas que viesse a receber».

Sem hesitar, o visado promulgo-o, impedindo-se de auferir a aposentação de militar para a qual descontara durante toda a carreira.

O desconforto de tamanha injustiça levou-o, mais tarde, a entregar o caso aos tribunais que, há pouco, se pronunciaram a seu favor.

Como consequência, foram-lhe disponibilizadas as importâncias não pagas durante catorze anos, com retroactivos, num total de um milhão e trezentos mil euros.

Sem de novo hesitar, o beneficiado decidiu, porém, prescindir do benefício, que o não era pois tratava-se do cumprimento de direitos escamoteados – e não aceitou o dinheiro.

Num país dobrado à pedincha, ao suborno, à corrupção, ao embuste à traficância à ganância, Ramalho Eanes ergueu-se e, altivo, descreveu uma esplendorosa bofetada de luva branca no videirismo, no arranjismo que o imergem nos imergem por todos os lados.

As pessoas de bem logo o olharam empolgadas: o seu gesto era-lhes uma luz de conforto, de ânimo em altura de extrema pungência cívica, de dolorosíssimo abandono social.

Antes dele só Natália Correia havia tido comportamento afim, quando se negou a subscrever um pedido de pensão por mérito intelectual que a secretaria da Cultura (sob a responsabilidade de Pedro Santana Lopes) acordara, ante a difícil situação económica da escritora, atribuir-lhe.

«Não não peço. Se o Estado português entender que a mereço», justificar-se-ia, agradeço-a e aceito-a. Mas pedi-la, não. Nunca!».

O silêncio caído sobre o gesto de Eanes (deveria, pelo seu simbolismo ter aberto telejornais e primeiras páginas de periódicos) explica-se pela nossa recalcada má consciência que não suporta, de tão hipócrita, o espelho de semelhantes comportamentos.

“A política tem de ser feita respeitando uma moral, a moral da responsabilidade e, se possível, a moral da convicção”, dirá. Torna-se indispensável “preservar alguns dos valores de outrora, das utopias de outrora”.

Quem o conhece não se surpreende com a sua decisão, pois as questões de honra, da integridade, foram-lhe sempre inamovíveis.
Por elas, solitário e inteiro, se empenha, se joga, se acrescenta – acrescentando os outros.

“Senti a marginalização e tentei viver”, confidenciará, “fora dela. Reagi como tímido liderando”.

O acto do antigo Presidente ( «cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que por aí se tornou comum», como escreveu numa das suas notáveis crónicas Baptista-Bastos) ganha repercussões salvíficas da nossa corrompida, pervertida ética.

Com a sua atitude, Eanes (que recusara já o bastão de Marechal) preservou um nível de dignidade decisivo para continuarmos a respeitar-nos, a acreditar-nos – condição imprescindível ao futuro dos que persistem em ser decentes.

Fernando Dacosta
- Angel, não pense que aos sessenta ou mesmo setenta, um homem deixa de ser atraente para uma miúda de vinte. Não, nada disso. Eu já fui apanhado em ratoeiras até. Acreditei que era deboa fé, era miúdas e de repente sinto que me estão a encostar à parede, à parede... Pedidos de ajuda falsos para um trabalho, por exemplo. Sabe, elas vêem em nós a sabedoria, uma fase mais avançada da vida que lhe podemos dar a conhecer, uma pessoa culta, mais paciente no sexo e nos afectos, mais demorada, sabe?
Only the lonely
Know the way I feel tonight

Roy Orbison
Na arte, os materiais são infinitos. Os temas não o são, são os mesmo desde sempre... porque a gama das emoções humanas não mudou. Temos assim que sendo os temas finitos, são infinitas as abordagens - e que, só por essa razão, a Arte perdurará sempre. É preciso é reinventar sempre - até os meios de expressão (e como já tantos forma utilizados, é preciso cada vez maior imaginação). George e Gilbert fizeram arte notabilíssima a partir de fezes, urina, sangue e saliva. Cummings quebrou todas as regras de gramática (sim, todas, digam uma e testem-na na sua Obra) e fez poesia maravilhosa. Joyce (cujo mérito na Literatura, mais do que o que acrescentou sobre a natureza humana é a revolução que operou na linguagem) inventou palavras, com recurso ao calão e a várias línguas - foi por exemplo, buscar uma palavra alemã e outra francesa e juntando-as criou uma nova - o significado seria uma fusão das duas.
A arte para ser boa, ou é boa ou é o pior do pior. Como aqueles filmes de terror, que de tão fantasmagóricos se tornam cómicos. Como aqueles objectos que de tão kitsch se tornam relíquias.

Ser o mais mau dentro do mau - não apenas ser muito mau -, ser o último dos último requer perícia. Porque implica depurar tudo o que possa haver de bom, todo o ínfimo vestígio - e isso implica conhecer o padrão do bom na perfeição.
O meu livreiro favorito (livraria Lácio no Campo Grande) disse-me um dia:

- Acariciar um livro é como acariciar uma mulher que se ama.

Como bibliófilo, entendi-o. Porque não é só o que está dentro do livro o que fascina o bibliófilo - é o cheiro, a textura, a poeira, o peso, o objecto palpável.

Encontrar um livro que se procura há anos pode ser um prazer tão grande como poucos na vida. Entrar numa livraria e ficar ali horas... Estar sozinho e pensar: «Que bom, finalmente me deixaram em paz para estar com os meus livros.» Deitarmo-nos, apagarmos a luz e continuarmos a sentir os livros que estão ali, a pensar neles (como entes vivos? não, como muito mais do que isso). Adormecermos ainda a pensarmos no que lemos - naquele estado semiconsciente em que o livro é a ponte entre a realidade e o sonho. Segurar um livro de que gostamos, ver uma nova edição dele, uma nova capa, uma tradução que tem palavras diferentes e por isso o livro é outro.

Há livros que associamos ao Verão, livros que associamos a tardes de chuva no sótão - há livros com cabelos de flor de laranja e livros com olhos castanhos escuros. Há livros infinitos. Que são eternamente lidos de forma diferente por cada novo leitor. São livros que encerram toda a vida. Ou: que encerram nas suas páginas mais do que a própria vida - a de todos nós, leia-se.

Os livros que temos dentro de nós. Os mundos que eles nos permitiram criar na nossa cabeça - que coisa espantosa. Estes mundos que eles criam na nossa cabeça e que não estão em lado nenhum. Incrível. Só o livro faz isso. No cinema, as coisas estão ali. No livro, não estão em lado nenhum, desenham-se na nossa cabeça, a partir de letras e da imaginação.


Angel
Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feita de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris... Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração... Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que nunca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta.


Aldous Huxley

O início do livro

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da lingua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas era Lola. Na escola era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.

Nabokov
- Leu o Lolita, Angel?
- É um dos meus livros preferidos. E o filme, o do Kubrick, é muito bom. É um livro espantoso.
- Pois, lá está... O Angel o que é que fazia perante uma lolita daquelas? Porque elas existem.
- Eu não me envolveria com uma miúda de doze ou treze anos.
- Não sabe, é muito complicado. Com uma lolita como a do livro, só pode dizer: que as circunstâncias não se conjugem para que eu me envolva...
- Não, não, nem pensar.
- Não pode saber, só no nomento. Esta coisa cá em cima, esta caixa de pirolitos é muito complicada.

A PERGUNTA ESSENCIAL: QUEM SOU EU? O CAMINHO É TODO FEITO CÁ DENTRO















Dizem que olhando para este rosto, percebemos numa fase inicial que ele nos fita seriamente e que, depois, entramos num estádio em que nos apercebemos que ele faz troça de nós - brinca suavemente com as nossas ilusões, as nossas preocupações pequeninas. Como se: soubesse algo que não soubéssemos.


Guru - Sri Ramana
Guru indiano que nasceu por volta de 1880, e com 17 anos de idade ele sofreu um medo da morte muito grande. Ramana estava sozinho em casa e sentiu este grande medo da morte, e naquele momento através de uma introspecção muito poderosa ele descobriu que era consciência e que o corpo era algo passageiro.


Isto para Ramana foi visceral, ele chegou ao Criador, à comunhão divina, um estado de graça naquele momento que foi irreversível, chamado Sahaja Samadhi. Muitos Yogis atingem este estado, mas depois voltam ao estado normal do ego. O Ramana não, ele atingiu este estado de iluminação e nunca mais retornou a ser uma pessoa comum.


Depois deste evento na casa dele, Ramana fugiu da casa e foi para uma montanha no sul da Índia chamada de Arunachala onde o restante da vida dele ele permaneceu neste estado de graça orientando as pessoas.


A orientação dele era muito curiosa, pois não era através de palavras ou discurso, ele permanecia em silêncio neste estado de graça e as pessoas automaticamente captavam aquela energia e também entravam no estado de Samadhi, não só pessoas, animais, qualquer ser que chegava perto dele também acalmava e ficava neste estado de graça.


Ele morreu em 1950 e dizem que ele foi o último guru indiano a atingir este estado de consciência único, muito elevado.


Qual a importância do Ramana?


Ramana deu uma técnica para o mundo chamada de vichara ou self-enquiry ou auto-questionamento, em que ele falava que se você usar a pergunta “ Quem sou eu?” e meditar sobre esta pergunta você pode chegar a iluminação espiritual.


Fonte: Internet
Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.

Yeats

quarta-feira, janeiro 21, 2009

A ameaça mais bizarra que já ouvi

Um amigo meu, o Miguel, conta-me que estava com outros amigos junto a um prédio e que inadvertidamente terão feito barulho o que originou que o porteiro saísse de casa e lhes gritasse:

- Ou vocês param ou eu dou duas bofas na minha mulher!
Acordaste bem-dispost@?
Podes afastá-lo, podes esconder-te e fugir dele, podes até aniquilá-lo. Mas nos recessos mais esconsos da tua mente, insinuar-se-á, do substrato dos teus sonhos ele emergirá, rompendo todas as correntes a que o ataste, explodindo no teu coração, ribombando na tua cabeça... A sua voz perseguir-te-á quando tapares os ouvidos, nas esquinas esperar-te-á a sua silhueta incorpórea, o espelho o olhar dele devolver-te-á.
Falámos de tudo menos daquilo - e então isso transformou-se no mais importante.
Não há problema que não se resolva no tempo.
Quando o ódio te invadir, dá um passeio pelos cemitérios.
- Este meu amigo - disse ela -, apresento-lhe, ele tem muita coisa escrita e o sonho dele sempre foi ser escritor. Tem de ler as coisas dele.
- Quer ser escritor? - perguntou o editor ao recém-apresentado.
- Sim.
- E escreve porcarias ou coisas assim-assim?
- Como estás?
- Mais ou menos. Eu estou quase sempre mais ou menos.
Sem Amor (no sentido lato), de facto, não vale a pena viver.
O não acreditar em Deus ou em algo superior não deve afastar-nos das questões metafísicas.

No futuro, as pessoas tenderão a deixar o templo, o ritual da religião A e B, e passarão a ter uma religiosidade vivida mais no individual, sem nomear Deus ou Alá, sem falar dos profetas - será uma religião mais interior, menos colectiva, mais alicerçada na É-T-I-C-A.
Alguém afirmou que tudo o que escrevemos é sobre o amor ou a morte.
O tempo cura tudo? Mesmo os danos irreparáveis da morte e do amor?

Hoje, diante de 2 milhões

Esta é a fonte da nossa confiança – o conhecimento de que Deus nos chama para moldar um destino incerto.

Este é o significado da nossa liberdade e do nosso credo – é por isso que homens e mulheres e crianças de todas as raças e todas as religiões se podem juntar em celebração neste magnífico mall, e que um homem cujo pai há menos de 60 anos não podia ser atendido num restaurante local pode agora estar perante vós a fazer o mais sagrado juramento.

terça-feira, janeiro 20, 2009

- Sonhei que me caía a pila.
- Eu também já sonhei isso.
- A sério?
- Sim, já. Se calhar, já todos sonhámos isso.
- Era estranho. Estava com ela na mão. Como se fosse desmontável.
- E conseguias encaixá-la?
- Não, andava para ali às voltas.
- Pois, no meu ela tinha-me caído abruptamente e nem me lembrei de encaixá-la. Era uma sensação muito estranha o não ter pila.

O Ouro do Azul, Miro

Maternidade, Almada Negreiros

Realidade enevoada

Li outro dia que nos inclinamos reverentemente a beleza nas pessoas porque lhe tendemos a associar qualidades pessoais e até morais, e que estas têm consequentemente mais facilidade no trabalho e na sociedade.

Temos tantos preconceitos. Por exemplo, que um homem corpulento é necessariamente corajoso. Ou, como têm algumas pessoas, que os muito ricos são seres superiores. Ou que as pessoas famosas não têm os mesmíssimos dramas que nós. Ou que os homossexuais são pessoas frágeis.


Conseguir perceber dentro de nós as ligações entre uma característica e outra, perceber a ligação por trás do preconceito é o primeiro passo. O segundo é ver se ele não carece de fundamento.

Ilusões sobre ilusões, pressupostos irreais sobre pressupostos irreais...
Era tão sensível que teve de aprender a ser frio. A sensibilidade em quantidade elevada incita à acção. Quando excessiva, paralisa - ficas esmagado pelo sofrimento do mundo e não ages.

Bill Murray




Este é o meu actor. De Niro, bom, Edward Norton muito muito bom, Robin Williams e Al Pacino geniais.

Mas Bill Murray é diferente.

Há actores que são bons mas fazem sempre o mesmo papel, como é o caso de Jack Nicholson (há algum filme em que ele não seja tresloucado?). Há outros de uma versatilidade incrível, como Edward Norton.

Bill Murray , insisto, é diferente. Porque ele, Bill Murray, é um personagem que criou uma marca.

Quando ele entra num filme, não interessa qual o papel que desempenha - é o personagem Bill Murray que está ali: cínico, sarcástico, alguém que já viveu tudo e que não se deslumbra nem se arrepia com nada, alguém que era idealista mas que foi esmagado pela vida, mas que ainda assim sorri. Ele é isto tudo e é-o no mais pequeno trejeito do rosto, no mais subtil movimento do sorriso, do olhar. A expressão facial dele é estática e o menor movimento ali denuncia logo na perfeição um sentimento.

Eduardo Prado Coelho escreveu que ele era o melhor actor porque justamente conseguia expressar o máximo de uma emoção no mínimo de um gesto.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Quando passas a tua mão na minha cabeça, é tudo tão verdade.

Almada Negreiros
O beijo é sexo?
A amizade é o amor sem sexo.

José Alberto Braga
Não podes dizer que és amigo de alguém enquanto não tens muitos momentos em que estás só-tu-e-essa-pessoa.

Podes estar a 20, a 8, a 4, mas se não tens encontro a 2 (sendo tu uma dessas pessoas), então não fabricarás amizades.
As pessoas que andam à volta dela. Não consigo desassociar a sua identidade das pessoas que a circundam. Só quando estamos a sós. Prefiro pensar que ela não tem critério, que a escolha é arbitrária e aleatória do que o filtro ser aquele.

Eras capaz de ser amig@ de um@ nazi?
Ela é a carta que nunca chega.
Sou muito exigente. Hoje lembrei-me de que isso pode ser antagónico da tolerância... Hum, talvez não. Mas da passividade. Eu puxo sempre pelo máximo das pessoas - os nossos limites estão sempre um quilómetro depois do que imaginamos.

domingo, janeiro 18, 2009

- Essa foi a frase da noite.
- Tu dizes muito isso: a frase da noite, o momento do dia, o...
- Ya, nunca tinha pensado nisso.
- Devias registar isso por escrito. Esses momentos ou frases.
- Não.
- Então?
- Os melhores momentos são aqueles que ficam gravados na memória.
- Isso é como dizer que os melhores números são os que ficam gravados na cabeça.
- Sim, e eu sei-os de cor.
- Mas se usares agenda, libertas espaço na tua cabeça.
- Ok, um número é desnecessário - admito. Mas um momento não.
- Mas tu não penses que consegues decorar todas as frases. A memória é selectiva...
- Decoro as melhores das melhores...
- Mas escrever não é só isso. Escrever é também deixar o registo para a perenidade. Não só para ti. Para os outros.
- Se calhar, sou egoísta (risos).

Snow Leopard

Estigma é continuarem a chamar-te os mesmos nomes quando tu mudas as tuas acções.
Os pelinhos louros no fundo do pescoço.
Engolfei-me no azul-cinza.
I´m lost so I´m cruel
But I´d be love and sweetness if I had you
I´m waiting
I´m waiting for you

Garbage
Não gosto de surrealismo, regra geral não me dá prazer em nenhuma forma de arte, tirando a pintura.

Mas vou tentar:


laranja esplêndida véu do mundo

semáforo da minha vida: azul preto vermelho

antes navegavam amigos cabeças antigas tiravam ali riamos indo no amor nada amor nada amor

fogo extinto dos povos antepassados fosforecendo pontos ancestrais a luz das lareiras que ainda faz clarão no mistério dos tempos

Só falta a categoria do Humor

Finalmente se começam a redifinir os testes de Q.I (agora até já há de Q.E.). Nunca percebi o que é isso de pessoa inteligente. Qualquer pessoa tem inteligência. O Ronaldo tem no calcanhar, outros no ouvido, outros nas mãos.

Agora, estipulam-se sete: a linguística, a musical, a espacial, a matemático-abstracta, a cinestésica (do corpo, por exemplo o bailarino que acompanha harmonicamente o ritmo da melodia), a intrapessoal (saber interpretarmo-nos a nós mesmo, cujo exemplo que se dá é o de Freud) e a interpessoal (saber interpretar os outros, cujo exemplo que se dá é dos líderes como Gandhi).


Angel-Deus-é-socialista-e-estamos-todos-uniformemente-distribuídos-de-inteligência-ainda-que-em-áres-totalmente-diferentes-e-ainda-que-muitos-não-a-trabalhando-a-entorpeçam
O melhor fotógrafo que conheci - tenho aqui fotos espantosas que olho e reolho - só tinha um braço. A dificuldade aguça a perícia. O excesso de capacidades ou de talento muitas vezes é o melhor convite à preguiça. Uma vez ouvi um presidente de um clube de futebol dizer que não queria que um milionário injectasse dinheiro no seu clube - porque se tal sucedesse, ele desaprenderia a sua melhor qualidade: o rigor com que aplicava os recursos.

Empirismos redutores

Nunca deixo de sorrir quando alguém diz:

- O importa é a experiência de vida, não o que vem nos livros.

Chamemos a esta corrente o vidalismo e aos seus militante os vidalistas.

Em primeiro lugar, dá logo vontade de perguntar ao vidalista que o afirma:

- Mas há outra experiência para além da inerente à vida?

Se a vida é tautologicamente definida como toda a actividade de um indivíduo, a «experiência de vida» é um truísmo como os «dedos da mão» ou os «animais do reino animal».

Normalmente, quem profere este tipo de dislate não é uma pessoa versada em livros. E, com a hostilidade que votamos às coisas que ignoramos ou que não somos capazes de fazer, os vitalistas agarram-se a esta ideia como o coxo que lança o anátema sobre os corredores olímpicos. É desejável e útil desvalorizar aquilo em que, dito de uma forma simplista, «não-somos-bons» para nos sentirmos melhor connosco e com o mundo.

Mas o vitalismo encerra uma outra ideia mais profunda. A ideia de que o intelectual é um ser macambúzio, uma alma núbia que deveria abanar mais o capacete, praticar mais sexo e pensar menos. Quem quer que leia a biografia dos maiores escritores da humanidade, encontrará lá imensos que viveram a vida na forma como os vitalistas a concebem.

Para dar alguns exemplos. James Joyce era frequentador assíduo de putas. Sobre escritores alcoólicos nem vou elencar exemplos de tão longa ser a lista. Scott Fitzgerald ia regularmente a festas de três dias seguidos e percorreu o mundo com a sua mulher Zelda, ficando para a história como o casal autor das maiores extravagâncias dos anos 20. José Cardoso Pires passava as noites em bares até às tantas da manhã (aos sessenta como aos vinte). Hemingway (que não aprecio) viajou pelo mundo como ninguém, caçando, pescando, praticando desporto, indo à guerra. Herberto Helder foi todas as profissões que um homem pode ter.

Porque, parafraseando GGM, para contar a vida é preciso... vivê-la.
A impotência é a pior forma de culpa.
- É uma atracção muito clean, percebes?
- Gosto dele, Angel, mas de uma forma amena.

Scott Fitzgerald

Quem vem a esta tasca, seguramente já se deparou com o nome supra, talvez o mais referenciado escritor aqui. Aos anos que pugno por divulgar a obra genial deste autor que não escreveu uma linha má em cinco romances, uma peça de teatro, e mais de cento e sessenta contos.

Como contista, li coisas dele em inglês e português do brasil que nunca entendi porque não eram traduzidas em português. O filme que anda para aí do Benjamim Button que verei esta semana é tirado de um conto dele. Tiveram de fazer em Hollywood o filme para a Editorial Presença se dignar traduzir o livro.

Trata-se de um escritor absolutamente cintilante.
O amor é um vírus que apanhou a razão distraída.

Virginia Woolf
Why each of us must choose
I´ve never understood
One special friend
One true love
Why each of us
must loose everyone else in the world


The Cure
«Tu não tens de me justificar nada» - leia-se: estou desejosa de saber tudo sobre a tua vida sentimental.
Os quatro pontos cardinais são três: o sul e o norte.

Vicente Huidobro

sábado, janeiro 17, 2009

Já escolhi aquela que há-de ser minha para sempre.

Almada Negreiros
we shall be together

the cure

sexta-feira, janeiro 16, 2009

A vida é uma espiral. Estamos a um pequeno passo da glória e da auto-destruição. Como escreveu Pessoa, se a certa altura tivesse voltado à esquerda e não à direita, tudo seria diferente...


Isto a propósito de histórias de vida de pessoas que desaguaram a dormir na rua, a prostituirem-se, a morrerem no Casal Ventoso. Outrora, eram felizes, eram até «pessoas de sucesso». Houve uma curva na espiral que desceram e a partir daí foi estonteante.

Passamos por eles no meio da rua e afastamos o olhar. Já vi um indivíduo a esvair-se em sangue deitado no bairro alto com a cabeça partida, o braço ao alto a pedir ajuda, a multidão a passar (tanta gente naquela rua) e ninguém a deixar de falar, de beber, de andar, de rir.

São pessoas de carne e osso tal como tu. As histórias que conheço. Os pormenores que ditaram... como o dedo que derruba uma peça de dominó que vai derrubar todo um conjunto de peças (já viram essa na televisão de certeza, são construções magníficas que desabam com o toque na primeira peça). Digo apenas : «Porque as circunstâncias deles foram aquelas, hoje são assim. Eu estaria pior».
- Ando a sofrer bué.

- Então, saudades dela? Isso só com o tempo.

- As mamas dela punham-me louco.
O seu desprendimento escondia um medo terrível de amar - amar é ser vulnerável. Quando o ser amado, sofre, nós sofremos também.
Quando estou com uma rapariga num café e eu peço um sumo e ela uma imperial, quando quem traz as coisas não é quem registou o pedido (e mesmo muitas vezes o que aqui vou contar sucede com o mesmo empregado que registou o pedido), a imperial é invariavelmente posta à minha frente e o néctar de pêra à frente dela. Chamem-lhe o que quiserem, eu chamo-lhe machismo.

Da vez mais recente, depois de um lanche, o empregado traz a conta e... encosta-a a mim.

Temos de tornar visíveis as nossas ideias ao mundo pelas palavras pelas acções se queremos que ela se espalhem e multipliquem (lembra-te que através seis pessoas estabeleces conexões com todas as pessoas do mundo).

Eu disse, sem tirar o sorriso:


- Isso era antigamente - e estiquei a conta para o meio da mesa, num gesto obviamente simbólico.
Se desprezares a forma, centrar-se-ão no conteúdo.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

és uma ilha selada pelo teu próprio brilho

HH
Pensamento frustrado sublimado em orgulho: aqui o que conta são as ideias, daí o aspecto minimalista, daí a ausência de publicidade (as compras no link é para ajudar a promover a arte - com qualidade - de uma amiga), daí a ausência de referências a outros blogs.
Do meu tempo de secundário, tenho uma memória vaga de ter tido no final dos períodos duas ou três negativas. E tenho quase a certeza que foram a Trabalhos Manuais (e uma a Educação Visual?). A minha inteligência manual sempre foi um desastre. Sou um inepto no mundo prático. O Lobo Antunes diz que gostava de conseguir trabalhar com um cartão multibanco. «É preciso uma magnitude de mão que não tenho». Esta lenga-lenga de merda para dizer: NÃO SEI MEXER NUM BLOG, AGORA FIZ A PORCARIA DE ADICIONAR ACHO ISTO DIVERTIDO, ACHO ISTO FANTÁSTICO, SEM QUERER. JÁ APAGUEI O CONTADOR. GRRRR
- Chiça, há dias em que mais valia não termos saído da cama - ele disse. E depois, nesse dia, saiu-lhe a lotaria.

Winter Nights



Maxfield Parrish
At night
I hear the darkness breathe
(...)
Listen to the silence
At night
Someone has to be there
Someone has to be there

Someone must be there


Robert Smith

O meu lado negro

Outro dia vi o número de pessoas que já bloqueei no msn e assustei-me comigo próprio.

Respeito todas as pessoas e todos animais e a todos reconheço o direito À felicidade, o direito à satisfação das necessidades básicas. A ninguém, nem ao meu pior inimigo, desejo o mal. Em questões de saúde, então, desejo que toda a gente recupere e no que de mim depender ajudarei qualquer pessoa que esteja em sofrimento extremo.

Agora, só meu dou com quem quero. O meu tempo é escasso, não é elástico, e a vida já tem associada inerentemente a ela um conjunto de coisas tristes e horríveis, para eu ainda lhe acrescentar outra: o ter de me dar com quem não me dá prazer estar.

Para estar bem com os outros, preciso de estar bem comigo, e para estar bem comigo preciso de me sentir rodeado de pessoas não-materialistas, não-racistas, pessoas honestas, solidárias. Afastei pessoas da minha vida. Pratiquei um cruel darwinismo ético das amizades - só os mais capazes eticamente sobreviveram. Sim, tenho um preconceito irresistível a favor das boas pessoas. Não me consigo dar com quem não considero boa pessoa. Não quero ter defesas, não quero jogar xadrez, não quero fazer cálculos na amizade. E se o amigo te disse salta, tu só deves responder:

- Quanto?
- Outro dia deram-me dinheiro a mais na papelaria e eu disse que se tinham enganado, e o homenzinho logo: «Eh pá, ainda há gente séria!». Quando perdi a carteira no autocarro, disseram-me logo nos perdidos e achados que com sorte só encontraria os documentos. O dinheiro nunca. Mas a maior parte das pessoas não é séria? Será que foi sempre assim ou as coisas pioraram? A ética individual de cada um, não sei... Se calhar, até melhoraram.

- Para que perdes tempo a pensar nisso, é o mundo que temos. Aceita-o, se não ficas um velho a vida toda, ficas amargurado e ressentido e as pessoas amarguradas e ressentidas não são felizes nem interessantes. Se as coisas não fossem assim, as boas pessoas - digamos assim - eram menos diferenciáveis das outras e a bondade, a honestidade, a generosidade não se destacariam tanto. Não sei se me faço entender...
- Para mim, ter amigos é uma segurança. Explico. Um amigo pode criticar-me a mim em privado, mas para fora, para o resto do mundo eu sou o maior, sei que ele me defenderá sempre. Eu faço isso com os meus amigos. De uma forma incondicional, Angel. Uma das grandes vantagens de ter amigos é justamente essa segurança da activação desse mecanismo de defesa por instinto; que é o que leva por exemplo os jogadores a irem defender o jogador da sua equipa perante o árbitro e os adversários da outra ainda antes de saberem o motivo. «Que é esta merda, pá» dizem logo e isso é bonito; isso é tão bonito, Angel.

O direito à desilusão

Não concordo com «amigos uma vez, amigos para sempre». As pessoas mudam e nós podemos mudar o juízo que fazemos delas a partir dessas mudanças - e com a mudança do juízo, a mudança do sentimento.
- Porra, o blog dele irrita-me.

- Mas o quê, não concordas com ele?

- É isso e depois ainda para mais tem a mania. Irrita-me tanto.

- Vais lá há muito?

- Há um ano e tal.

- E sempre te irritou?

- Sempre.

- Para que vais lá?


Se substituirmos «blog» por «pessoa», este raciocínio pode ser aplicado a tanta gente...

terça-feira, janeiro 13, 2009

Compartimentar o que é impossível de mudar por mais que quisesse - não lhe dedicar um átomo de espaço dentro de mim.
A amizade é a sublimação do útil.

Epicuro
José Luís Peixoto diz que quando lemos, confrontamos tudo o que sabemos com todas as novas informações e que, depois de ver se há colisão, filtramos e vamos absorvendo sempre algo. Quanto mais lemos, maior o exército de defesas, mais resguardados estamos perante a estupidez torpe.
Um conhecido meu tinha vários bilhetes para um espectáculo. Vai vê-lo num dia e fica com bilhetes de sobra. Oferece a outros amigos. Sucede que no último dia dos espetáculos, é feito um sorteio - que o meu conhecido ignorava. Sucede também que o bilhete premiado é o de um amigo a quem ele oferecera o bilhete. Sucede ainda que por acaso esse amigo fora no último dia e lhe calhara a sorte grande sem estar à espera. Ganhou um valor monetário significativo - qualquer coisa como 5000 euros. O meu conhecido foi avisado por ele. Acho que mais do que avisado, o prémio era dele. O outro achou que não. Levaram a questão a terceiros. Ninguém arriscou uma opinião. Até hoje não se tornaram falar. Ambos juram a pés juntos que agem por princípios e não por dinheiro.

Quem tinha razão? E se dividissem salomonicamente o prémio? E se doassem ao Banco Alimentar ou à Amnistia Internacional?

Como escreveu José Alberto Braga, «a moral do outro contém sempre qualquer coisa de imoral».
- Uma pessoa só é feliz quando descobre que o prazer de fazer uma assistência ao outro para marcar golo pode ser superior ao prazer do próprio golo, Angel.
- Angel,a vida é como um jogo de snooker. Tu dás uma tacada com uma determinada intenção e força, calculas a direcção e pensas que depois jogarás de outra forma e a seguir de outra, mas entretanto as bolas reposicionam-se de uma forma totalmente diferente e tu tens de agir de forma totalmente diferente. Angel, tu não consegues controlar tudo, as bolas estão sempre a mudar, e não vale a pena planeares muito.
Saramago (leia-se a Obra de Saramago) e Lobo Antunes (leia-se a Obra de Lobo Antunes) não poderiam ser mais diferentes.

Saramago vê-se que escreve essencialmente com o cérebro, com a razão. Lobo Antunes com as vísceras, as entranhas. Lobo Antunes sente mais, Saramago pensa mais.

Lobo Antunes é caótico, saltita de assunto - escreve como quem pensa - e quer transmitir o fluxo da consciência para a escrita, é irracional, contraditório. Saramago escreve como quem fala - sem pontuação - pedindo as leitores que leiam os livros em voz alta. Saramgo é lógigo-dedutivo.

Em Saramago, a ideia central, em alguns casos prenhe de imaginação, que subjaz à narrativa é fundamental: uma metáfora condensada num mundo em que todos ficam cegos, um país em que a morte deixa de ocorrer, um homem que encontra um outro igual a si, a vitória do voto em brancos numas eleições. Como o próprio afirmou, «escrevo muitas vezes a partir de uma impossibilidade». Em Lobo Antunes, a atmosfera é muito mais importante do que a história. Pode-se abrir os seus livros ao acaso que em alguns deles não fará grande diferença. O importante é mergulhar na cabeça de quem fala - nos últimos livros, há múltiplos narradores, são polifónicos, diz o escritor. Em sua defesa, alega que os grande romances partem de ideias básicas. Moby Dick é um caçador de baleias que se quer vingar da baleia que lhe levou uma perna, Madame Bovary é a história de uma mulher que não ama o marido e lhe é infiel, O Grande Gatsby a história de um homem que não pode casar com a mulher dos seus sonhos por falta de dinheiro. Como aifrmou Céline, histórias todos temos para contar - o importante para o escritor é saber como contá-las. E nesse como reside toda a diferença.

A nível de estilo, ainda que nenhuma deles seja excessivamente seco, como o é Gonçalo M. Tavares nem excessivamente ornamentado como um Aquilino Ribeiro, a Lobo Antunes foge-lhe o pé para o chinelo para o adjectivo, Saramago é mais enxuto, apesar de também nele se encontrarem palavras caras. Lobo Antunes por vezes navega mesmo na Prosa Poética e no seu livro Não entres tão depressa nessa noite escura colocou na capa, como uma chancela de género: Poesia. De resto, diz que o que escreve não são romances, mas que também não sabe o que são.

Lobo Antunes não é panfletário, Saramago é muito político - os seus livros querem intervir na realidade, tal como o homem Saramago que já criou uma fundação de defesa dos direitos humanos para a posteridade. Lobo Antunes foca-se na natureza humana, observa o eu. Saramago observa o mundo e alvitra caminhos. Está preocupado com o destino da raça humana, afirma. Lobo Antunes não sabe porque escreve, mas que se não escreve sente-se culpado: «Escrevo pela mesma razão que a pereira dá pêras». Saramago também se deve sentir. Cheio de dinheiro, continua a escrever outro romance (!) depois de publicar livro aos 85 anos. E não devo ser o dinheiro que o move.


Angel

Fazer amor com as palavras

Gosto desta palavra: engolfar.
és um fluxo insubstancial que percorre a corrente sanguínea das minhas noites

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Experiência = vivência + atribuição de significado

O escritor V. S. Naipul diz que estar de olhos bem abertos é mais importante para a escrita do que ter uma imaginação brilhante. Claro que este «ver» do Naipul significa ver com olhos de ver - interpretar, reflectir, filtrar. O problema é passarmos pelas coisas sem as ver, como dizia o Eugénio...
Parece que agora quando entramos no HI5, sabemos tudo o que essa pessoa fez. Os comentários que fez nas fotografias ou nos perfis, o que alterou no seu perfil, se está lá neste momento (tudo nos denunciará um dia destes se estamos on-line)... Passo a passo, a privacidade perde-se. E todos os dias - para quem está atento -, todos os dias dizia, se corta mais uma fatia da privacidade com um novo instrumento.

Passeava outro dia com um amigo na expo, e parei a olhar para uma nova urbanização.

- Isto já está habitável?

- Sim, já.

- Estranho, as casas não têm cortinas ou persianas.

- É assim, é.

- As pessoas estão na montra.

- E qual é o problema?

Vi uma notícia em que já há equipamento que consegue ver a roupa interior de determinadas texturas de indumentária. Daqui a umas décadas, havemos de ter relações sexuais com o mundo inteiro a poder ver - e não nos poderemos esconder de todas as câmaras e aparelhos.

«E qual é o problema?»
Veste-se com correntes de ouro, meias brancas, tem a barba por fazer, pinta de labrego, para os eufemísticos, pinta de chulo para os frontais. Tem um andar jingão e uma voz de pintas. Quando fala, se atentarmos ao conteúdo, é culto, progressista, e sensível. É um choque para tanta gente! Estou convencido de que cultiva a aparência precisamente para provocar esse efeito.

Tenho uma amiga que me diz que gosta de me ver de camisa e porque depois a surpresa é maior quando as pessoas me ouvem falar.

Quanto mais pessoas conhecemos, mais inanes se tornam os rótulos, especialmente quando alicerçados em superficialidades da forma.

Uma montanha azul debaixo de um céu castanho

- Eu quando observo uma paisagem da natureza que me esmaga com a sua beleza, seria incapaz de escrever, porque tudo o que pusesse no papel era tão pouco que seria como uma ofensa àquela beleza.

- Mas tu, quando escreves, não falas da tua paisagem preferida, da noite maravilhosa que tu viveste.... Mas falas de forma a que o leitor vá ele, através das tuas palavras, viajar na sua paisagem preferida, na sua noite de amor maravilhosa, de uma forma que nem ele próprio as tinha sentido assim até então. Percebes a força que é a poesia? O que tu comunicas é algo teu, é certo, o poço de onde tiras as coisas é sempre de ti, mas essas coisas têm, na sua singularidade, algo de universalizável.
Um bom cu não tem sexo.

Mao Zedong
- Tu divagas? - pergunta ela.
- Não - disse ele.
- Como? Isso é impossível!
- Não divago.
- Mesmo que não quisesses divagavas, nem que seja no duche, ou quando estás à espera para ser atendido no consultório do dentista.
- Não, eu dos 14 aos 17 anos tinha muitas questões, estava sempre a pensar se havia vida depois da morte, se existia a Alma, como é que o universo tinha surgido, se Deus existia... Era uma espiral que não me levava a lado nenhum e eu, para sobreviver, deixei de pensar. O meu pensamento é praticamente nulo. Grau zero, mesmo. Estou sempre ocupado a fazer alguma coisa e penso até nas coisas em que vou pensar no dia seguinte. Estou sempre a pensar em resolver coisas ou a fazer coisas.
- Angel, tu sabes que eu gosto de ajudar as pessoas, mas sabes que às vezes chamam-me ingénua e demasiado pura, e é como se houvesse uma parte de mim que dá tudo a uma pessoa para saber até que ponto que ela vai, até que ponto ela é capaz de a abusar - há uma parte de mim que as está a testar.
Tínhamos concepções antagónicas da amizade. Ele: poucos direitos, poucos deveres. Eu: muitos direitos, muitos deveres. Se eu ia à praia, como ele adorava praia, eu ligava-lhe espontaneamente sempre que ia. Se ele precisava de imprimir algo e a impressora avariava, eu ia a casa dele com o meu cartucho. Em contrapartida, se eu tivesse uma dor súbita de dentes - e dou o exemplo para exagerar a minha posição de forma que a percebam - ele tivesse ao meu lado, pedia-lhe que me levasse à farmácia se estivesse de carro e ficaria f***** se ele me dissesse: «agora, não me dá jeito, vou andar de bicicleta». Ao contrário, ele nunca pedia quase nada, e nunca se queixava quando pedia e lhe falhavam. Só podia contar com ele nos bons momentos. Só podia estar com ele quando o interesse pessoal dele coincidisse com o meu.

Ele acreditava genuinamente que éramos amigos. E eu respeito imenso isso. Mas o meu dicionário, igual ao dele em muitas outras coisas, era diferente na palavra amizade. Talvez eu sinta demasiado as coisas.

Lembrei-me da nossa relação (sim, a palavra pode não ter conotação afectivo-sexual) por alguém me ter dito que eu era a pessoa mais desprendida do mundo. Irónico.


Angel

A lenda pessoal

Há um sonho que há muito te persegue e que provavelmente abandonaste e afastaste até do pensamento. Poucas pessoas vão atrás dos sonhos, por entre as adversidades da vida, o julgamento do olhos dos outros, a vergonha da puerilidade do sonho ocorrido em criança.

Sempre quis ser escritor. E assumo isso, grito-o ao mundo, deliberadamente expondo-me à ideia de fracasso se não concretizar o meu sonho (será por isso que as pessoas têm tanto medo de assumir os sonhos?).

Já passei por momentos de falta de dinheiro e continuei. Já recebi muitas e muitas e muitas negativas e muitas e muitas até que finalmente publiquei um romance. Mesmo que mil editores e mil amigos me digam: dedica-te antes à pesca, eu continuarei até aos cem anos a tentar ser escritor. Mais: todas as outras actividades a que me dedico são apenas meios de me sustentar até me conseguir libertar delas e viver só da escrita. E essas actividades implicam livros, porque o melhor alimento para um escritor escrever bem é ler quem escreve bem. Qualquer escritor que contrarie esta humildade será perenemente sofrível - na melhor das hipóteses.

E já tenho muitos livros na cabeça, e outros até no computador e numa pasta com uma fotografia belíssima (a rapariga ruiva de vestido branco, que baixa a cabeça para não nos enfrentar com o olhar).

Paulo Coelho (gostem dele ou detestem-no, a frase é boa) escreveu que o universo conspira a favor dos nossos sonhos. Luta até ao fim.


Angel-e-a-eterna-fonte-das-forças-inexauríveis
Pensa em todas pessoas que conheces. Pensa naquelas que iriam gostar de se conhecer. Apresenta-as.

Pensa em todas as pessoas que conheces desempregadas, sub-empregadas ou a realizarem algo que não as satisfaz. Pensa bem em todas as pessoas que conheces que, de forma directa ou indirecta, lhes poderiam abrir portas. Consulta portais de emprego e para cada emprego, pensa numa pessoa tua conhecida cujo perfil se encaixasse - e dá-lhe a conhecer essa oportunidade.
Há personagens secundárias da nossa vida, figurantes até, que nos marcam, que não esquecemos por alguma qualidade ou característica (para ser neutral na valoração) exaltada, qualquer manifestação exagerada de um traço de personalidade.

A pessoa mais doce, mais-não-há-qualquer-problema. Telefonou-me só para me perguntar:

- Peço imensa desculpa de te incomodar. Diz-me só o nome do teu amigo para eu o tratar pelo nome logo quando chegar.

Ele. A pessoa mais educada que vi na vida. Nunca vi uma coisa assim. Cruzei-me com ele numa festa e ainda hoje, quatro anos volvidos, comento com um amigo que esteve lá presente:

- Lembras-te daquele muito educado?

E esse meu amigo outro dia, voltou a ele, um sujeito que vimos uma vez na vida:

- Eu nunca me hei-de esquecer do exagero daquele tipo.

Sim, ele, entre muitos outros pormenores, segurava uma porta a uma pessoa que viesse a duzentos metros de distância. Homem ou mulher. Não era essa coisa asquerosa e putrefacta perfumada de um encantamento... um cavalheiro (um machista com boas maneiras). Uma pessoa deve ser educada e simpática - ou pelo menos cordial - para toda a gente, e não por género sexual ou raça. É tão estúpido para mim discriminar pela positiva como pela negativa. Por ser mulher, negro ou homossexual. Esse indivíduo era educado para todos.
Estará alguém acordado a esta hora?
Um dia, recebi uma mensagem que, por um embotamento qualquer da minha sensibilidade na altura, não entendi:

Obrigada pelo passeio. Subir a rua contigo não custa nada.


Eu não estivera com ela, eu não subira rua nenhuma... Só mais tarde percebi. Tudo se passara no pensamento. Foi das mensagens mais bonitas que alguma vez recebi.
A sua ausência é uma presença.
Sentir saudades pode ser um sentimento positivo, que traz alegria.
Éramos amigos e estávamos regularmente. Começou a namorar e os amigos a vê-lo menos. Casou e sumiu-se. Ao fim de 7 anos separou-se. A mulher apaixonara-se por um colega de trabalho. Procurou os amigos. Os amigos estiveram lá. Alguns, pelo menos. Pergunto-me sem resposta conclusiva se as pessoas que agem assim continuam a merecer a amizade.

Porque há tantos amigos que desaparecem quando arranjam uma namorada? E também amigas - ui, lembro-me tão bem da M. Das 1001 teorias que se podem avançar, estou convencido de que as pessoas mais inseguras são as mais propensas a este tipo de relações ultra-absorventes. Por medo de perderem o parceiro. Se eu não tiver vida -ele também não tem - logo fica mais dependente de mim - logo tens menos oportunidades de conhecer outras pessoas.


São opções, dir-me-ão. Pois são. E a dele foi mulher e trabalho a 100%. A questão é: continuam eles a dispor dos amigos eternamente, dispensando-os os durante anos a seu bel-prazer, e um dia - o dia em que acabam relação - têm toda a legitimidade para requerer o apoio dos amigos?

Esse meu amgio descurou a amizade por completo e só se lembrou dela quando estava aflito. Os amigos não são pedras, mas flores que têm de ser regados e até acarinhados como bonzais.


Disse uma frase terrível:

- Ando a pensar em matar-me...

É o que dá quando-se-vive-exclusivamente-em-função-de-uma-pessoa-e-se-a-perde.

Significados

Ela é uma puta.

Ela é frígida.


Tradução: Porque-é-que-ela-não-quer-nada-comigo?

domingo, janeiro 11, 2009

és uma estrada iluminada sem fim
Citar é convocar cúmplices.

Jorge Luís Borges
Está aí um filme A Onda em que um professor propõe instruir os alunos no fascimo. Parece difícil a proposta do professor, como nos parece impossível que o nazismo retorne. No filme, o professor consegue criar uma turma de fascistas? Irreal? Nada.

Até Michael Schimdt, jornalista de esquerda, quando se infiltrou nos neo-nazis admitiu que deu por si a entoar cânticos nazis no banho.

Em cada um de nós há uma costela fascista. Autoritária. Totalitária.

Eu já pisei cocó de cão 7 vezes e jurei:

- Se eu mandasse, os donos dos cães que não apanhassem os dejectos seriam presos!

Quem não pensa numa área qualquer da vida: Se eu mandasse...

Há verdades que queremos impor ao mundo - podemos não admitir aos outros, mas se reflectirmos, encontrá-las-emos.

Assisti a um coro tão belo... todos vestidos de igual, todos a uma só voz, e o maestro a mandar em todos (na União Soviética acabou-se com a figura do maestro na orquestra). Há uma pulsão de Ordem em cada um de nós. De uniformização. Porque isso sossega e serena. Tenho um amigo que um dia quando me viu tirar a roupa da mala, me disse:

- Nessa mala, cabia o dobro da roupa se arrumasses de outra forma.

E arrumou-ma.

Quando via umas folhas empilhadas e fora do sítio, isto é sem estar milimetricamnente umas em cima das outras, ia lá e limava as arestas. Como seria ele se tivesse poder?

José Saramago escreveu que quem tem vontade de ordem na sua vida, no fundo gostaria de a transpor para o mundo.

No fundo, o comunismo e o nazi-fascismo tinham ambos uma pulsão de ordem e uniformização. O nazismo eliminava os fracos para que todos fosse fortes e belos. O comunismo também não suportava os fracos, e queria eliminá-los: tornando os proletários em burgueses. Mesmo no comunismo os parasitas sociais e os loucos eram internados compulsoriamente - por isso, não havia mendigos ou sem-abrigo. Os extremos tocam-se, não é?

sábado, janeiro 10, 2009

Meterologia: notícias animadoras

Consultando sites metereológicos, fico a saber que esta semana é que vai ser duro, duríssimo na quinta-feira, mas que depois do fim-de-semana, vem aí a bonança. Está quase, está quase...

Uma pergunta: quando dizem o dia mais frio do ano (hoje), estão a referir-se a um de dez dias (se é só isso, não assusta).
Sonho fabricar o olhar.
Um olhar que aponte para uma meta mirífica, trespassando o horizonte, para depois pousar em ti como se nada de mais valioso existisse. Que goteje o mistério do cosmos, da esfinge, da pantera, do templo. Que exale a doçura de um menino perdido no mundo, de uma mãe a amamentar o seu filho. Que condense a cintilação das estrelas, a gratidão dos girassóis, a serenidade do oceano a repousar na escuridão, um fogo a arder na noite, sempre, sempre, sempre, noite após noite, após noite, sempre, sempre. Um olhar que te penetre até ao osso do coração para te devolver a tua melhor poesia, de ti desconhecida. Que te dispa sem que possas fugir ou esconder-te. Que não destile mel, mas um veneno a que não consigas resistir. Que convoque o charme do actor de cinema, a profundidade do escritor, a omnipotência do juiz supremo, a sedução maléfica de uma lolita, a compaixão de Buda e de Cristo, a sabedoria de todos os livros.
Há pessoas quem, sabendo que têm outras à espera, continuam a degustar o prato que têm com a mesma intensidade, a fumar o cigarro com a mesma lentidão - nem um milímetro de ansiedade os percorre sabendo que o Outro está à chuva e ao frio à sua espera.

Há pessoas que devem dinheiro a outras e são capazes de ter gastos luxuosos - não lhes pesa o mínimo na consciência que o fiador passe fome.

A ética é um fardo, os outros um instrumento, e a vida qualquer coisa ligeira, leve, qualquer coisa para não ser levada muito a sério...


(aceita que há pessoas e aceitar que iremos deparar-nos com elas ao longo da vida diminui a irritação e a animosidade quando as conhecermos.)

Angel
leite, estrelas, sedas, danças, sonhos, cisnes

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Que grande grande gargalhada (aliteração) hoje. Sacrificar um pouco de bondade por uma excelente piada - a não repetir. É assim que se fica insensível à crueldade.
- Mas o que é isso da loucura? Quem estabelece a linha, o risco na areia, a partir de qual se usa a categoria, o nome da loucura? As patologias em Psicologia definem-se por quantidade e não qualidade. Então, a partir de que grau infinitesimal se define a loucura? Eu adoro conhecer pessoa extremas, pessoas... excêntricas no sentido fora do centro, nem que seja porque, em última análise, são elas que me permitem definir, fugindo ao padrão, qual é o padrão.
Oh, meu Deus, faz de mim uma pessoa pragmática!
Se o mundo vos aborrece, sabei que primeiro do que a vós, me aborreceu a mim.

Jesus Cristo

E qual o nome com que tu tratas a tua pessoa preferida?

Pediu-me o telemóvel, precisava de enviar uma mensagem. Passei-lho para a mão e afastei-me. Ele sentou-se a um canto a escrever. Depois veio ter comigo e deu-me o telemóvel.

Olhei e estava algo no ecrã. Pensei que era para mim.

Li: Bom dia, pudim.

Num instante, percebi. Era a mensagem que ele escrevera (naquele modelo de telemóvel era preciso apagar a mensagem depois de se escrever).

Não lhe disse nada e fingi que não reparara.

- Obrigado - disse-me.

E eu sorri como se o favor fosse mínimo e ele me fizesse o mesmo. Mas lembrei-me do verso do Pessoa: Todas as cartas de amor são rídiculas.
Ela jura que não voltará para ele. «Nunca mais», disse 56 vezes e 56 vezes voltou. Admira-se - e irrita-se - por eu não acreditar que à 57.ª «é de vez».
O que te impele a pensar nessa pessoa todos os dias? O que te impele a querer saber os seus passos (e a segui-los...)?

Arma: ironia Alvo: sociedade do ter Missão: Sociedade do ser

Juan Mateo e Josemi Valle escrevem que hoje em dia se confunde o que somos com o que fazemos profissionalmente. Somos o nosso estatuto, portanto. Aconselham a quando nos perguntarem:

- Qual é a tua ocupação?

Devolvermos outra pergunta:

- No meu tempo livre ou no tempo remunerado?

Se não os podes vencer, confunde-os...
Tem uma necessidade de que toda a gente goste dele. Faz sentir, em privado, cada uma das pessoas como especial. Sorri largamente e mostra-se muito interessado perante quem despreza - e mesmo perante quem genuinamente não gosta. Dá prendas. Distribui simpatia excessiva. Tudo para que gostem dele - algo que ele não consegue.
Wake up for the reality of dreams. Yes, this is not a dream...
Com tanto frio que sejamos brindados com a visita da neve.

Era deixá-los morrer de fome e de frio

- Mas o que é que esses gajos [os sem-abrigo] contribuem para a produtividade do país? Eu tenho de contar o dinheiro todos os meses e trabalhar que nem um cão para pagar a prestação da casa com a minha mulher!
- É nos sonhos que esboço muitas ideias, muitos poemas, filmes e fragmentos de ideias que congeminam moldes que concebem utopias... Acordo sobressaltada e aponto tudo.
- Eu, ao contrário de vocês, tenho mais compaixão pelo filho que cá ficou do que pelo pai que partiu.

Elegia do Amor

Ainda hoje te escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!

(...)

Não encontro uma flor,
Sem o teu nome ouvir.
Não posso olhar o céu,
Sem me lembrar de ti!

(...)

Beijo o rochedo e a flor,
A noite e a claridade.
São estes, sobre o mundo,
Os beijos que te dou.
Hás-de senti-los, sim,
Doce mulher de outrora.
Ó roxo lírio de hoje,
Ó nuvem actual!
Como dantes teu rosto,
A rosa ainda hoje cora;
Beijo-te, sim, beijando
A rosa virginal.

(...)


E vejo, no meu quarto,
O sol entrar, sorrindo,
Julgo ver, ante mim,
Teu corpo resplendente,
Tua trança de luz,
Teu gesto suave e lindo.
Descubro-te, mulher,
Na Natureza inteira,
Porque entendo a floresta,
A névoa, o céu doirado,
A estrela a arder, no Azul,
A lenha, na lareira

(...)

Todo eu fico a cismar
Na louca voz do vento,
Na atitude serena
E estranha duma serra;
No delírio do mar,
Na paz do Firmamento
E na nuvem, que estende
As asas, sobre a terra.
Todo eu fico a cismar,
Assim como que esquecido,
Ante a flor virginal
E o sol enamorado.
Ante o luar que nasce,
Al longe, dolorido,
Dando às cousas um ar
Tão triste e macerado.
Todo eu medito e cismo.
Um vago e etéreo laço
Prende-me ao teu imenso
E livre coração,
Que abrange o mundo inteiro
E ocupa todo o espaço,
E que vai povoar
A minha solidão.
Por isso, eu vivo sempre,
Em doce companhia,
Com o pobre que pede
E a estrela que fulgura;
E, assim, a minha alma,
Igual à luz do dia
Derrama-se, no céu,
Em ondas de ternura.

(...)

Vivo a vida infinita,
Eterna, esplendorosa.
Sou neblina, sou ave,
Estrela, Azul sem fim,
Só porque, um dia, tu,
Mulher misteriosa,
Por acaso, talvez,
Olhaste para mim.

Teixeira de Pascoaes