quinta-feira, dezembro 31, 2009

V. for Vendetta - O Mundo que vem aí...




Os sinais estão à vista e não nos apercebemos. Normalmente, é assim: conseguimos interpretar o passado, mas não o presente - porque este nos tomba de todos os lados a toda a hora. E é preciso tempo, é preciso serenidade de espírito. O mundo actual é muito rápido. Nunca tivemos tantos estímulos como hoje. Tanta informação e tanta falta de rigor em simultâneo. Tanta democratização do lixo.

Porque é que eu acho que o filme V. for Vendetta explica o mundo porvir (e não estou a falar de um futuro longínquo)?

Porque ele soube identificar aqueles que são exactamente os mecanismos subtis de totalitarismo do mundo hodierno. O nazismo hoje tem uma componente residual, o comunismo como o conhecemos não voltará; pelo que o totalitarismo a voltar, terá um rosto diferente do conhecido no passado? E qual é esse rosto?

Em meu entender, é um totalitarismo que se desenvolverá dentro da democracia. Com instituições ditas democráticas, com eleições livres, com os monumentos formais todos. Mas, ainda assim, um totalitarismo.

Voltemos ao filme, porque ele prefigura, em meu entender, o crescimento das plantas invísiveis do terror cujas sementes já estão debaixo da terra.

O filme começa com uma voz assustadora do governo que manda todas as pessoas recolherem às suas casas, porque a cidade está cada vez mais perigosa. Este ponto é fulcral.


Nunca como agora, nos quiseram inculcar tanto medo. Medo da criminalidade, medo das doenças, medo das crises. Os jornais e a televisão são veículos do medo. Não comas isto, não comas aquilo, espirra para o cotovelo, olha o radar, baixa a velocidade, põe creme 8.0, o sol mata, fumar mata, a ASAE quer luvas para partir o pão, os produtos tradicionais não são esterilizados, não os comas, as crianças hoje não podem ter um arranhão, qualquer dia levamo-las em sacos esterilizados à escola para não serem contaminadas (outro dia li que elas estão mais vulneráveis a um conjunto de doenças porque não ganharam imunidades). O medo, o medo, o medo. Um povo com medo aceita a Ordem, aceita a Dominação, aceita que lhe segurem a mão trémula e o levem onde quiserem. No filme, o governo forjava actos de terror: o grupo terrorista x envenenou um grupo de pessoas. Inventavam isto para lançarem o medo e unirem as pessoas em torno do governo, o guardião contra o Mal, a Iniquidade e a Criminalidade. A seguir podes ser tu, não é? Quando há grupo a matar indiscriminadamente, a única coisa que as populações desejam é segurança. As condições materiais, a liberdade, a fruição da cultura... não são exigidas ao Governo. Garante-me que não morro - é tudo. O medo suga tudo o resto.


É por isso que gosto tanto do V.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

- Se tu falares com os teus amigos - e até acho que isto é um exercício muito giro - e lhes perguntares como é que eles te vêem. Se juntares dez opiniões, verás como dirão coisas distintas. Quem és tu, afinal? O somatório do que todos os outros dizem? Mas como se eles são contraditórios? Ou serás o que tu julgas que és? Mas então aí a opinião dos outros não conta? Esta reflexão sobre a ausência de eu, sobre a existência de um ser multifacetado que se desdobra em múltiplas pessoas é fascinante, assustadora e libertadora ao mesmo tempo.

terça-feira, dezembro 29, 2009

A elegância superlativa da noite.
- Amo tanto a minha filha que quando jogamos raquetas, eu fico quase deprimido quando lhe ganho. Adoro perder contra ela, só que como ela topa quando não estou a jogar a sério, às vezes é doloroso ter de lhe ganhar. Não há maior satisfação do que dar o litro e perder.
Um homem forte não faz exibições de força. O pináculo da força é a doçura. Um homem resolvido não esmaga o Outro.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Palavras intraduzíveis por expressarem coisas únicas que só elas expressam

Koi No Yokan - Japanese: a sensação que se tem no primeiro encontro com alguém de que se irá evoluir para o romance; predição do amor.
- Amanhã é segunda e tenho imenso trabalho acumulado mas não deixo que isso me invada. Há como que uma parede infinitamente densa entre este momento e a semana que se avizinha - ela não faz parte da realidade deste aqui e agora - simplesmente, não deixo.

domingo, dezembro 27, 2009

F/M

«Angel, se há coisa que eu não suporto são feministas. Os homens estão a perder, dia após dia, todos os direitos e ainda me vêm falar em feminismo?!»

Não poderia estar mais em desacordo. Em qualquer país do mundo, os cargos de admnistração das empresas, os cargos de representação pública, o salário médio - entre mil e um outros indicadores - demonstram que os homens estão melhores do que as mulheres. Porque o mundo é ainda machista. Menos do que era, é certo.

Ainda no ano passado, li que uma empresa em Portugal pagava - para trabalho igual - um salário diferenciado a homens e mulheres. Sabemos todos que há empresas que nem aceitam seres que engravidam.


Por mais que choque a muito boa gente, defendo as quotas. Há anos que ouvimos a conversa de que são precisas mais mulheres na política, nas empresas, e as coisas mudam milimetricamente.

Por mim, não há mais tempo para esperar. A auto-disciplina não funcinou, está mais do que demonstrado.

Como disse uma feminista: Com leis iguais, passámos eras e eras de inferioridade. Precisamos de leis a nosso favor para provocar um desequílibrio que reintroduza a igualdade.

Claro que o ideal não é ter leis que protegam as mulheres, claro que não. O ideal é o estádio em que as leis são iguais para ambos. Mas, primeiro, é preciso criar um caldo de mentalidade em que homens e mulheres são iguais. E as leis ajudam as mentalidades a evoluir. Alguém duvida de que a homofobia diminui ao fim de dez anos de vigência do casamento gay?

Aos meus amigos escravos da beleza

É um fenómeno universal e intemporal. Os homens - ou a maioria dos homens - sacrificam qualquer característica numa mulher à beleza. Mesmo os que gostam de livros, mesmo os sensíveis, os íntegros, os espirituais - sim, mesmo os espirituais, minha querida.

Primeiro, tentei combater. Depois, tentei compreender.

A beleza da alma vs. a beleza do corpo. Porque é que a segunda é mais valorizada pelos homens?

1. Porque é mais imediata.
2. Porque os homens gostam de exibir troféus.
3. Porque os homens têm a ilusão de que podem mudar uma pessoa («a alma»), mas que a cara e o corpo já é mais difícil.
4. Porque é mais objectiva a do corpo. Os homens - ou a maioria dos homens - são muito básicos nesta coisas: cus e mamas. A beleza da alma... como mensurar? Como fazer ver aos homens que a bondade ou que a cultura não são apenas subterfúgios das mulheres feias para se afirmarem?

Mas a principal razão julgo ser outra:

5. É que a beleza da alma não se condensa, não se coisifica numa unidade instantaneamente tangível, visível, ao alcance da mão e dos olhos. A beleza do corpo, da cara, fica ali. A da alma é interior, o que significa que não se vê, nem se pode fotografar - nem sequer com uma sonda se consegue apanhar.

sábado, dezembro 26, 2009

Já no tempo de Ovídio, já antes de Cristo, o pai do poeta Ovídio lhe dizia numa carta... Queres ser poeta? Com poesia, ninguém ganha a vida. Estuda.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

- Acariciar um livro é como acariciar uma mulher. É preciso uma certa... (fez um gesto vagaroso com a mão)

Velho Ancião

quarta-feira, dezembro 23, 2009

os vinte ou quarenta os poemas de amor têm uma força directa,/e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,/ mas aos setenta e sete é tudo obsceno,/ não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos/ anos horrendos,/ nudez horrenda

Herberto Helder
É uma ilusão competir com o Outro. O verdadeiro terror é estar no ringue com a sombra do melhor de nós sempre presente. O-melhor-que-podíamos-ter-sido-e-não-fomos - a imagem mais terrível e pungente.
Por mais e mais que chamo, não respondes,
e quanto mais te busco, mais te escondes.

Luís de Camões
- Há todo o tipo de corpos femininos, menos um. Sabes qual, Angel? Uma gaja com boas mamas e bom rabo. Há gajas com boas mamas mas sem rabo, gajas com rabo do best, mas sem mamas. As duas coisas juntas nunca vi. Mas continuo à procura.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Uma Mensagem Imperial

O imperador – assim consta – enviou a você, o só, o súbdito lastimável, a minúscula sombra refugiada na mais remota distância diante do sol imperial, exactamente a você o imperador enviou do leito de morte uma mensagem. Fez o mensageiro se ajoelhar ao pé da cama e segredou-lhe a mensagem no ouvido; estava tão empenhado nela que o mandou ainda repeti-la no seu próprio ouvido. Com um aceno de cabeça confirmou a exactidão do que tinha sido dito. E perante todos que assistem à sua morte – todas as paredes que impedem a vista foram derrubadas e nas amplas escadarias que se lançam ao alto os grandes do reino formam um círculo – perante todos eles o imperador despachou o mensageiro. Este se pôs imediatamente em marcha; é um homem robusto, infatigável, estendendo ora um, ora outro braço, ele abre caminho na multidão; quando encontra resistência aponta para o peito onde está o símbolo do Sol; avança facilmente como nenhum outro. Mas a multidão é tão grande, suas moradas não têm fim. Fosse um campo livre que se abrisse, como ele voaria! – e certamente você logo ouviria a esplêndida batida do seu punho na porta. Ao invés disso porém – como são vãos os seus esforços, continua sempre forçando a passagem pelos aposentos do palácio mais interno; nunca irá ultrapassá-los; e se conseguisse nada estaria ganho: teria de percorrer o pátio de ponta a ponta e depois dos pátios o segundo palácio que os circunda; e outra vez escadas e pátios; e novamente um palácio; e assim por diante; durante milénios; e se afinal ele se precipitasse dos mais externos dos portões – mas isso não pode acontecer jamais, jamais – só então ele teria diante de si a cidade-sede, o centro do mundo, repleto da própria borra amontoada. Aqui ninguém penetra; muito menos com a mensagem de um morto – Você no entanto está sentado junto à janela e sonha com ela enquanto a noite chega.

Kafka
Podemos ter um acontecimento exterior muito forte, estrondoso, mas a isso corresponder uma experiência interior pobre. E um acontecimento aparentemente insignificante pode provocar uma tremenda experiência interna profunda e muito significativa. O escritor trabalha a partir de experiências internas - não externas - muito fortes.

Gonçalo M. Tavares

Aos Amigos

Tenho amigos que não sabem o
quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes
devoto e a absoluta
necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais
nobre do que o amor,
eis que permite que o objeto dela
se divida em outros afetos,
enquanto o amor tem intrínseco o ciúme,
que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar,
embora não sem dor,
que tivessem morrido todos os
meus amores, mas enlouqueceria
se morressem todos os meus amigos!

Até mesmo aqueles que não percebem
o quanto são meus amigos e o quanto
minha vida depende de suas existências ….
A alguns deles não procuro, basta-me
saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir
em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com
assiduidade, não posso lhes dizer o
quanto gosto deles.
Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica
e não sabem que estão incluídos na
sagrada relação de meus amigos.

Mas é delicioso que eu saiba e sinta
que os adoro, embora não declare e
não os procure.
E às vezes, quando os procuro,
noto que eles não tem
noção de como me são necessários,
de como são indispensáveis
ao meu equilíbrio vital,
porque eles fazem parte
do mundo que eu, tremulamente,
construí e se tornaram alicerces do
meu encanto pela vida.

Se um deles morrer,
eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam,
eu rezo pela vida deles.
E me envergonho,
porque essa minha prece é,
em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos
sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de
lugares maravilhosos, cai-me alguma
lágrima por não estarem junto de mim,
compartilhando daquele prazer …
Se alguma coisa me consome
e me envelhece é que a
roda furiosa da vida não me permite
ter sempre ao meu lado, morando
comigo, andando comigo,
falando comigo, vivendo comigo,
todos os meus amigos, e,
principalmente os que só desconfiam
ou talvez nunca vão saber
que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.

Vinicius de Moraes

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construimos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder

Sobre Jesus Cristo

Qual foi o núcleo da sua mensagem? A sua revolução consistiu em primeiro lugar numa nova ideia de Deus. Deus não é o Deus longínquo e tenebroso, que quer adoração e submissão, que exclui, que explora e humilha os seres humanos. Pelo contrário, Jesus fez a experiência de Deus como Abbá, paizinho. Embora as crianças se dirigissem com esta palavra ao pai, em Jesus, não se trata, com esta invocação, nem de infantilismo nem de machismo, pois este Deus-Pai tem traços de Mãe.

A partir desta experiência radical, deriva toda a mensagem de Jesus, para quem o decisivo não era a religião, mas a humanidade. Como mostrou recentemente o teólogo José M. Castillo, o centro do interesse de Jesus não foi a religião, mas a saúde, a comida, as relações humanas boas, a liberdade, o bem-estar e a felicidade das pessoas. Com Jesus, revelou-se a humanidade de Deus e que o caminho para Deus é a humanidade. O Deus de Jesus encontra-se, antes de mais, no secular, não no religioso. "O 'sagrado', o 'religioso' e o 'espiritual' são autênticos, aceitáveis e meios para encontrar Deus, na medida, e só na medida, em que nos humanizarem, nos tornarem mais profundamente humanos". Para Jesus, o "sagrado" indubitável neste mundo é o ser humano.

Anselmo Borges

Reescrever é cortar, cortar, cortar

Num das suas cartas, Padre António Vieira escreve no fim: Peço desculpa pela carta longa mas não tive tempo para a tornar mais curta.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Algumas ideias que já recolhi dos meus conhecidos de esquerda

- Se o meu pai estiver do outro lado na revolução, eu mato-o. Um reaccionário não tem rosto.

- Filho meu não há-de nascer num hospital. Sou contra a normalização dos nascimentos que a sociedade me quer impingir.

- O réu devia poder negociar com o juiz a pena que este lhe vai dar.

domingo, dezembro 20, 2009

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela.
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto.
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,

Álvaro de Campos

sábado, dezembro 19, 2009

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.

Luís de Camões
Há qualquer coisa de lógico e terrivelmente racional na loucura dele. Nunca mais olhes para dentro dos seus olhos.
«Nunca ponha ninguém sua esperança
em peito feminil que, de natura,
somente em ser mudável tem firmeza».

Luís de Camões

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Frases que nunca ouvi:

«Não gosto de música.»

«Nunca vi um filme de que gostasse.»

«Sou materialista.»
Uma outra definição da palavra «Frustração»: rires-te imenso com uma situação e sentires que é irreproduzível.
- Não é que não seja boa pessoa. Mas é uma pessoa diante da qual não sinto que possa ser eu. Ou pelo menos eu numa acepção vasta. Há facetas que me restringe, que não compreende, que censura e me obriga a esconder (ou que eu me obrigo a esconder). É uma pessoa que pertence ao grupo das que eu... feel limited in their presence.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Conheces 5 pessoas, conheces 5 verdades. Conheces 500 pessoas, conheces 500 verdades. A verdade não é só uma.
- Influencio tanto algumas pessoas que elas contagiarão o mundo todo com as minhas ideias.
A garridice do dia parecia-lhe uma ofensa para a sua tristeza.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

- O meu maior medo não é morrer. O meu maior medo é a palavra Rejeição.
Ó país de cristal, que longe eu estou, dava um ano de ordenado por um momento da minha inocência perdida

Dinis Machado
Faz uma lista dos dez homens ou mulheres da tua vida. Haverá, certamente, um núcleo duro e outro mais volátil. Terás quatro ou cinco lugares que hesitares em preencher, porque idealmente quererias treze ou catorze.
O que é para ti Carisma?

terça-feira, dezembro 15, 2009

- Gosto de ter exemplos, referências. É muito romântica a ideia de ter uma personalidade própria, mas é muito confortável ter ídolos, pontos de apoio na acção e na inteligência. Dá-me segurança e conforto.
Somos todos uns pássaros bizarros, mais estranhos ainda por trás da nossa aparência do que desejamos que alguém saiba, ou do que nós próprios sabemos. Quando ouço um homem proclamar-se "um tipo mediano, honesto, aberto", fico com a certeza de que tem qualquer anormalidade concreta e talvez terrível, que resolveu esconder.
Francis Scott Fitzgerald

A vida

Por medo de teres 4, deixas-te ficar com 6, quando podias ter 8.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Os Muito Ricos

Deixe-me contar-lhe sobre os muito ricos. Eles são diferentes de mim ou de você. Habituaram-se desde cedo a possuir e a usufruir, e isso modifica alguma coisa dentro deles, faz com que sejam suaves naquilo em que somos duros, cínicos quando somos esperançosos. É difícil de entender, a não ser que você tenha nascido rico. No fundo, acham-se melhores do que nós, porque temos de descobrir por conta própria os refúgios e as compensações da vida. E, mesmo quando mergulham profundamente no nosso mundo ou descem abaixo do nosso nível, ainda assim continuam achando que são melhores do que nós.

Francis Scott Fitzgerald
Andar sempre com um bloco de notas e um lápis ou caneta. Observar algo que se quer registar, ouvir algo que, um pensamento maravilhoso que te surge, uma associação de palavras tão _______ e que tu, nesse instante, só dizes para ti: «Que nunca ninguém tenha descoberto.»

Albert Camus escreveu n´O Estrangeiro que bastaria vivermos 24 horas para termos memórias infinitas para recordar a vida inteira numa prisão.
- Há dias em que acordo e estou negativo. Não é por nada que me tenha acontecido, simplesmente me levantei da cama e sinto-me... em baixo. E depois, às vezes passado pouco tempo, às vezes passado um bocado já, subitamente sinto-me bem-disposto. Este tipo de coisas para mim tem uma base química. E quando algo nos corre mal num dia, e depois parece que tudo corre mal nesse dia. Ou o contrário: um dia em que tudo nos corre bem... Em que a sorte nos sorri. Isso não é o Acaso ou a bruxaria, é a pré-programação da mente «hoje tudo corre bem/mal».

domingo, dezembro 13, 2009

Estávamos sentados à mesa a almoçar. Falávamos de nomes incomuns e engraçados.

A certa altura, um de nós solta:

- O nome mais sui generis que conheci na vida foi um colega de tropa, por sinal um tipo muito porreiro, que se chamava - ouçam bem - Franganito Olho Azul.

(risos da mesa)

- Era nome próprio?

- Não, era apelido.

Passado pouco tempo, um casal da mesa do lado levanta-se, depois de terminada a sua refeição, abeira-se de nós e dirige-se ao interlocutor da história do Franganito Olho Azul.

- Desculpe, mas não pude deixar de reparar no nome Franganito Olho Azul.

- É cómico, de facto, não é?

- Não é que sou Franganito Olho Azul. Somos cerca de quarenta no país. Esse que descreveu da Tropa deve ser o...

(e continuaram a conversa, identificando o tal colega de tropa, que ambos conheciam bem, que era primo direito do da mesa ao lado, e falaram, falaram, falaram)

O mundo é mesmo um bidé.
E quando tu finges que és tu

sábado, dezembro 12, 2009

- O que os outros pensam não me diz nada. A minha mente é unitária, as opiniões dos outros são comos fumos. Só eu sei porque faço o que faço, sinto o que sinto, penso o que penso.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

"So we meet again!" and I offer my hand
All dry and English slow
And you look at me and I understand
Yeah it's a look I used to know

The Cure
Era um homem perigoso. Sabia manejar as palavras como ninguém. Sabia usar as palavras para fins que ninguém conseguia. Desde novo, vira nelas uma arma, uma vida dentro da vida, um poder imenso. Com elas era capaz de fazer chorar, fazer rir - era capaz de matar alguém, era capaz de devolver à vida alguém sempre que queria.
O tempo cura tudo. O tempo apaga tudo. Verdade. Mas só poderás acreditar nela se não tiveres ouvido a história do amor do Tiago e da Cristina.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

- Gosto de ser comandado. Faz-me impressão a democracia porque gosto de que me tracem o caminho a giz no chão: vai por aqui. Evita ter de pensar, a confusão mental, o ziguezaguear...
- Detesto ter de criar. Qualquer coisa. A folha em branco é uma angústia. Na matemática ou engenharia, sinto que as coisas avançam. Isto é assim, depois assim. Na arte ou na filosofia, são só palpites. Tudo vago. Tudo pode ser e... não ser. Não me interessa debruçar sobre coisas em que por mais que reflicta, parece que não há progressão. Estancas - atrofias, no fundo...
A mais completa liberdade [deve] ser garantida a todas as formas de amor e de contacto sexual. Nenhuma sociedade estará jamais segura, em qualquer parte, enquanto uma igreja, um partido ou um grupo de cidadãos hipersensíveis possa ter o direito de governar a vida privada de alguém. [Um dos] prazeres sexuais dos seres humanos tem sido o de reprimir a sexualidade, a própria e a dos outros. Defendo todas as formas de prostituição, como profissão protegida pela lei e vigiada pela saúde pública. Ainda que isso possa chocar muita gente, parece que, desde sempre, houve machos e fêmeas cujo talento na vida, e cuja vocação definida, é emprestarem o próprio corpo. E quem se vende ou quem compra (o que não tem nada a ver com capitalismo, mas com o direito de qualquer pessoa a dispor de si mesma, em acordo com outra) deve ter a protecção da lei contra redes de exploração, chantagens, etc. O que duas pessoas (ou um grupo delas) fazem uma com a outra, fora das vistas dos demais, não diz respeito a esses demais, a não ser que eles vivam na observação mórbida de imaginarem (num misto de horror e curiosidade, que os torna moralistas raivosos) o que os outros fazem. E o que os outros fazem não altera em nada o equilíbrio social. [A pornografia pode ser] um prazer para muita gente e, às vezes, o único que lhes é concedido, pois as pessoas idosas, solitárias, não atractivas, não encontram nunca o chinelo velho para o seu pé doente. Uma prostituição oficializada é obra de caridade para com os feios e os tímidos. [Porque hão-de ser] só os ricos e os de maiores posses a terem acesso à pornografia, e não os pobres? As classes mais desprotegidas deviam ter a sua pornografia mais barata, subsidiada pelo Governo, se o Governo fosse ao mesmo tempo inteligente e progressista nestas matérias. Somos um país imoral, um país depravado às ocultas. Foi isso, no entanto, que nos salvou de mergulhar nas sombras horrendas do puritanismo. Puritanismo que não é parte da nossa herança cultural. Mil vezes a pornografia do que a castração, a prostituição do que a hipocrisia. Se alguma coisa há que deve ser sagrada, é o prazer sexual entre pessoas mutuamente concordantes em dá-lo e recebê-lo, ou negociá-lo. [Os adolescentes e as crianças sempre souberam] muito mais do que os adultos fingem que eles sabem. Raros terão sido os jovens seduzidos na sua inocência. Na maior parte dos casos, o contrário é que é verdade. Se alguma coisa há que deva ser sagrada, é o prazer sexual entre pessoas concordantes em usufruí-lo e partilhá-lo.

Jorge de Sena
- Não estás muito faladora.
- Estou de luto com as palavras.
Jorge Luis Borges diz que a vida é estranha porque o ser humano pode dar mesmo aquilo que não tem: amor, amizade, alegria.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

(corrida no estádio nacional)
O cão ladra
De joelhos
A coleccionadores de velhas imagens
A contrabandistas de atletas cegos
A elefantes iconoclastas nas margens
(obstinado corpo
alugado
de poderoso animal)

Artur Jorge
- Eu tenho um amigo com sessenta e muitos anos que outro dia me disse: vou almoçar com a minha mãe. Fiquei com uma inveja dele do caraças. As pessoas com esta idade que têm mãe ou pai; mesmos os trintões que têm avós, deviam reflectir sobre isso. É um privilégio, é uma maravilha, uma graça. Muito bonito.
Adolfo Luxúria Canibal afirma que o capitalismo não está gerando boas pessoas. Tenho pensado nisso... Há muita competição, em demasia, no mercado de trabalho e muita fraude financeira nesta etapa nova do capitalismo: o capitalismo financeiro em que o capital tem mobilidade total (à distância de um clique) e o factor trabalho nem por isso...
- Espero que não tenho sido uma seca para ti.
- Não, ela fez-me companhia. Foi óptimo.
- A sério? Então ainda bem que demorei.
- Oh, sim... Ela é agradabilíssima.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Ser desequilibrado ou desestruturado é profundamente diferente. Às vezes, até me pergunto se as pessoas com mais dimensões, mais cultura, mais estímulos não têm mais dificuldade em manter o equílibrio. Cuidado com as pessoas sem estrutura...
O criado dele (também motorista) é tão subserviente que quando ele disse:

- Gaspar, este caminho é uma lentidão. Isto é o pior caminho para lá chegarmos.

- Tem razão, soutor. Tem razão. Quer ir por qual, soutor?

- Pela A3.

- Isto é a A3, soutor.

- Então, deixe-se estar. A chuva entope tudo em Portugal. Não adianta mudarmos de estrada. A A3 é a melhor para lá chegarmos.

- Pois é, soutor. A A3 é a melhor, soutor.
Digo que o melhor serviço que um poema ou um escritor qualquer pode prestar ao leitor não é satisfazer o seu intelecto, nem oferecer-lhe algo interessante e refinado, nem pintar para ele grandes paixões, indivíduos ou acontecimentos, mas inculcar-lhe vigorosa e limpa humanidade, religiosidade, dar-lhe, como possessão e hábito central, um bom coração.

Walt Whitman
A intimidade no silêncio junto à lareira. Ninguém fala. Mais: cada um está no seu mundo incomunicável. Um ajeita a lareira, outra lê um livro, outro lê o jornal, outro não tira os olhos da televisão, outro joga play-station. E, contudo, ninguém é mais unido do que eles.

O Lobo Antunes diz que as pessoas de quem mais gostamos - os amigos - são aquelas com quem estamos bem no silêncio.
Não digo que seja mau, que esteja errado - mas digo que está num patamar de desenvolvimentou espiritual - ou humano, se preferirem - raso.
Peguem num livro. Agora coloquem-no em cima de um palco.

Agora, encham a sala de pessoas. Centenas. Que as pessoas se ajoelham diante do livro. Que lhe atirem o ouro, flores, cânticos, orações. Que pelo mundo do todo, haja um minuto de silêncio pela qualidade do livro.

Que esse livro seja proclamada o livro.


Recordem-se de que as letras impressas no livro nem por um instante se alteraram, por mais ouro que se acumulasse nas suas margens. Então, apesar de todas as palmas e louvores, o livro não perdeu nem ganhou um átomo? O seu conteúdo permaneceu intacto.

Compreendem agora porque há autores que recusam prémios? Que vêem as condecorações como factores exógenos à Obra? A Obra fala por si ou não fala. Há até um autor que recusa conceder entrevistas...

Tendo a ver um livro como uma personalidade. Tudo o que digam de fora não belisca nem acrescenta nada ao corpo do livro ou da personalidade de alguém.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

O artista e o atleta trocaram os papéis.

- Desculpe, eu é que sou o artista. O que eu faço é arte. Sou o artista do corpo, do ritmo, da cadência, fazendo uma simbiose de técnica, força, velocidade, harmonia de gestos e movimentos. Já me chamaram, sabe como? Poesia em movimento.

- Olhe, eu sou um atleta. Levanto-me todos os dias de manhã para ir trabalhar com o meu instrumento sentado na mesma arena. Como chego extenuado ao fim de um dia. Não acredito que alguém possa ir buscar mais reservas de forças do que eu. Sou o atleta das palavras.

Pedido de divulgação (livro, página 12)

http://www.jf-canecas.pt/Files/Revista.PDF
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

[...]

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura

Herberto Helder

domingo, dezembro 06, 2009

As nojentas práticas do mundo moderno

Uma pessoa com acesso aos Cuidados Intensivos do Hospital do Funchal tirou fotografias do treinador do Nacional em coma, com um telemóvel, e tem andado a mostrá-las. Director clínico critica violação de privacidade.

Diário de Notícias

sábado, dezembro 05, 2009

E quando olhas para trás e sentes um sentimento inextricável de arrependimento-pela-escolha-mal-feita e ao mesmo tempo a certeza de que na altura era-te impossível agir de outra forma?
Os livros são espelhos que vais erguendo ao longo da vida e que te vão devolvendo diferentes perspectivas do teu rosto.
«Sempre que um amigo meu tem sucesso, uma parte de mim morre.»

Gore Vidal

sexta-feira, dezembro 04, 2009

O Carlos era treinador de futebol. O Fernando era massagista. O Carlos e o Fernando eram bons amigos. O Carlos fui subindo, subindo, subindo na carreira. O Carlos foi descendo, descendo, descendo. Um dia, o Carlos tem uma enorme proposta. Aceita. O Fernando está desempregado. O Carlos convida-o. O clube não quer um massagista com o currículo dele. O Carlos insiste com a direcção. O Fernando é contratado. Seis meses depois, o Carlos é despedido. Pede solidariedade no despedimento ao Carlos. O Carlos recusa despedir-se. E continua no clube.

Contei isto a um amigo meu que não ficou chocado. Diz «mas porque é tinham os dois de perder o emprego? um que o aproveite». Não podia estar mais em desacordo.
- Tens uma escrita muito feminina. Imaginava que era uma mulher - aliás, tinha a certeza de que era uma mulher que escrevia.
- Só tu me fazes ler o que eu tenho escrito.

(metaforicamente falando)
Deves escrever com as vísceras - não com a mente.
Sonhei com as laranjas na terra do ouro.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

- Se não estás na Internet, não existes.
A morte de alguém suaviza-nos o seu julgamento. Lembra-te disso quando estiveres prenhe de irascibilidade, raiva, injustiça, ingratidão ou rancor.
Nasceram junto ao mar. Os pais amam-nos incondicionalmente. São quatro ou cinco amigas e amigos que se amam imenso entre si. Moram numa terra sem stresse.

Não são ricos. Não são poderosos. Não são famosos. Não são bonitos. Não são cultos.

Porque falo deles?

Porque são os mais felizes. Ganham o campeonato da felicidade. Exigem pouco da vida: o essencial. Têm o saúde, o amor dos pais, dos amigos e isso basta-lhes. Em dias extraordinários, ainda têm sol para ir à praia.
Disseram-me ontem que ele está bastante mal no hospital. A heroína roubou-lhe a vida. Não a levou, mas substitui-lha. Sugou-lhe todas as suas dimensões. Transformou-se na Vida. Heroína, a única palavra da sua vida. A sua vida, portanto.

Lembro-me perfeitamente daquela manhã. Perfeitamente. Às vezes, pergunto-me se não foi aí que tudo começou.

Uma manhã com um perfeito céu azul. O ar lavado e transparente. O Sol ameno.

Éramos tão novos os dois. Íamos a sair da escola com a mochila às costas. Vejo-nos aos dois a passar por um terreno de terra batida. O João olha para o fundo e vê uns indivíduos mais velhos do que nós sentados em terra de ninguém.

Um deles levanta-se e grita-nos:

- Hey! Venham cá. Nós não vos fazemos mal.

O João identifica alguém da escola que está com eles, o que automaticamente lhe valida a confiança no grupo.

Damos uns passos em direcção a eles (quatro? cinco pessoas?).

- Venham cá experimentar uma cena. É a melhor coisa que vocês já possam ter conhecido. Tira-vos os problemas todos.

O João olhou para mim de olhos arregalados. Brilhava de entusiasmo e, nem por uma fracção de segundo, ter-lhe-á ocorrido que eu pudesse dizer NÃO.

Pedi-lhe um tempo para conferenciarmos. Afastámo-nos deles.

- Angel, mas como é que tu...?

- João, eles não são boa onda. Foda-se, não viste logo?

- Angel, deixa-te de merdas. Não queres experimentar a melhor cena da tua vida?

Olhámos um para o outro como que separados momentaneamente por um muro intransponível.

- Vou apanhar o autocarro, João.

Despedimo-nos e eu ainda fiquei com os olhos cravados nas suas costas que se afastavam.

Foi uma partida do João sem regresso. (Pelo menos, até hoje.)

De todas as razões que há para experimentar drogas: por necessidade de transgressão, rebeldia, por um desiderato de inspiração artística, por alienação, fuga, escape, por necessidade de experiências fortes que agitem o tédio, ou simplesmente porque sim - nenhuma delas foi o que impeliu o João.

A curiosidade. O João é a pessoa mais curiosa que conheci na vida. Não havia nada de que ouvisse falar que não quisesse experimentar, conhecer e compreender. Um dia, a propósito de outra coisa, disse-me: «Sinto-me estúpido se não conhecer.» Foi a curiosidade que o tramou.
Quanto mais trabalho tens, mais trabalho consegues arranjar. Quanto menos trabalho tens, menos trabalho consegues arranjar. Quanto mais mulheres tens, mais mulheres consegues conquistar. Quanto menos mulheres tens, menos mulheres consegues conquistar.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Revisitar uma obra de arte que nos deslumbrou nos verdes anos pode ser uma desilusão difícil de gerir.

terça-feira, dezembro 01, 2009

- Uma religão não é um clube. Eu tenho várias. Vou buscar o melhor a cada uma. E aquilo que é comum nelas é muito superior ao que diverge. O amor é o essencial. Desde que se ame muito, está tudo ok. Só quem não conhece as religiões é que pode agir na lógica de clube. Se até no coração dos ateus, Deus mora.
Dois jovens iam sentados à minha frente no autocarro. Desde que me senti, fui o percurso a ouvi-los (mais de dez minutos).

Não entendi nada do que diziam. Não houve uma frase em que não utilizassem um conceito que eu não desconhecesse.

Coisas que nem entendia a que contexto reportavam.

Leap? Refrog? Skilt?

Que estranho, pensei, eis-me diante de putos de uma geração logo a seguir a minha, que se andássemos na mesma escola, eu ainda os teria apanhado (eles na primária, eu no 12.º). E não sei sequer do que falam. Mas teremos mudado assim tanto de uma geração para a outra?

Detesto sentir que não conheço as mudanças - posso não as acompanhar, mas tenho de as conhecer. Por isso, observei-os. Como se vestem todos muito mais homogeneamente hoje... No final da conversa, ouvi armas, blood e mortes, e deduzi que haviam falado de videojogos o tempo todo. Apanhei uma frase de um que dizia (a frase segue truncada porque não apanhei as expressões peculiares):

- Eh pá, matei tóti tóti. Hás-de carregar aajskaj com asjhasjha. O bacano já nem faz ressurrection.

À despedida, não deram um aperto de mão, deram dois toques com as mãos, muito fugazes.

Há qualquer coisa de alienante e desumanizante na forma como a tecnologia molda estes adolescentes.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Julgo que este trecho do poema Lisbon Revisited (1923) serviu de inspiração ao Cântico Negro de José Régio:

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Álvaro de Campos



Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio
Shiva, figura do hinduísmo, é um deus com mil faces. Acham redutor só mostrar uma das faces de Deus.

Deus é cantor, cozinheiro, jardineiro, advogado, psicólogo, assistente social.
Para o budismo, não há Deus, mas leis do Universo.
Deus, a última palavra além da qual não há mais nada. Temos dificuldade em fazer caber nos limites compreendidos entre as paredes da nossa mente a maior das abstracções. Deus.

Descrevemo-lo sempre como uma entidade, uma instância intermédia. Antropomorfiza-mo-lo. Deus dá uma força. Deus está triste com. Deus também deseja que.

Parece que há sempre qualquer que lhe escapa nas nossas descrições Dele. Não, Deus é o que está acima disso. É o que tem o controlo da situação. O que está acima de acima de acima. O que não luta. O que não sonha. Não deseja. Deus é a força absoluta.
Porque é que existe algo e não nada? Porquê sequer a possibilidade de existir algo ou não existir nada?

domingo, novembro 29, 2009

If you want a lover
I´ll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I´ll wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
I´m your man

Leonard Cohen

sábado, novembro 28, 2009

Do Real

Ele escreveu um livro. Mal o terminou, colocou-o num site que funciona como mostruário de livros. Depois de colocar no site, escreveu no seu hi5: «Já publiquei o meu livro no PBooks. Amigas, quem chegar com o meu livro impresso ao pé de mim, tem direito a um cunnilingus
A desonestidade não é regenerável.
Perdeste uma batalha, mas irás ganhar a guerra.

sexta-feira, novembro 27, 2009

- Aquilo que nos excita é insondável. Claro que eu gostava de dizer que me excita uma miúda a ler um livro, mas não é isso que se passa. São coisas muito mais irracionais e absurdas. Ninguém é diferente neste aspecto. E não vale a pena tentar racionalizar. As pessoas mais racionais, mais rígidas, menos espontâneas, que lidam com menos naturalidade com as suas pulsões, desenvolvem muitas vezes parafilias. Com o tipo que começou por tentar moderar a sua obsessão sexual por uma mulher. «Não posso pensar tantas vezes nela.» Como era difícil resistir à sua obsessão, arranjou um artífico: «Vou pensar nas cuecas dela.» E tanto insistiu neste exercício, que acabou por só ter prazer sexual com as cuecas em roda do pénis, com o seu cheiro e aroma. O excesso de culpa e contenção deu origem ao pervertido das cuequinhas.
- Se te disser, depois não dormes à noite.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Jornal de Negócios Online


A partir de 1 de Dezembro vai realizar-se uma liquidação total dos "stocks" existentes na extinta Livraria Buchholz, também conhecida como Livraria Alemã.

A oferta é constituída por dezenas de milhares de livros, destacando-se o “stock” de livros estrangeiros a "preços únicos de liquidação".

Os livros estarão à venda a partir de um euro. Esta acção irá decorrer durante o mês de Dezembro, de segunda-feira a domingo, das 10h00 às 20h00, nas antigas instalações da Livraria Buchholz, junto ao Marquês de Pombal em Lisboa.
O jornalismo e a Literatura tem tanto que ver com o clitóris e um cacto. O primeiro lida com a efemeridade - ou nem isso, com a quotidianidade - e o segundo com a intemporalidade.

quarta-feira, novembro 25, 2009

- Podes, mas com suavidade.
Os olhos da noite percrutam-lhe a alma limpa.

terça-feira, novembro 24, 2009

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
[…]
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
[…]

Eugénio de Andrade

A importância das palavras vai-se soterrando debaixo do mundo mercantilista e tecnológico.
Nos jornais, os erros sintácticos e ortográficos, de tão recorrentes, tornaram-se banais e já não fazem a página suja. (Só as legendagens dos filmes conseguem excedê-los.) Cada vez é mais difícil encontrar um opinante que prime pela sua escrita. Vejo-me sempre obrigado a ler os da velha guarda quando quero ler algo «bem escrito».
Uma crónica do Baptista-Bastos (que escreve primorosamente) exaltava o naco de prosa que era a imprensa desportiva. Acredito, caro Baptista-Bastos, mas esses tempos são idos. Abra hoje um jornal desportivo…
Nos livros, há inundações de vipes, jogadores de futebol, caras bonitas, apresentadoras e apresentadores da treta que agora são autores (ou pseudo-autores que apenas dão o nome) e que vêm atafulhar o mercado e tirar espaço a que possíveis novos autores de qualidade possam emergir.
Nas letras de música, 99% é lixo.
A própria prática discursiva dos políticos tem-se afunilado, esvaziado de imaginação, aparentando-se a um amontoado de clichés dignos da linguagem futebolística.
O escritor Philip Roth profetiza que os leitores do romance vão acabar por morrer. Afirma que primeiro foi o ecrã do cinema a desviar-nos da palavra escrita, depois o da televisão, e finalmente o do computador.
Não vou tão longe quanto Philip Roth. Prefiro acreditar em Paul Auster: «O romance é uma forma inexaurível. Nunca irá morrer. Porque o romance é o único lugar no mundo em que dois estranhos se podem encontrar em termos de intimidade absoluta.». Mas acho que qualquer coisa está a mudar. Assusta-me, por exemplo, que os livros de Aquilino ou Camilo tenham palavras que já não venham dicionarizadas. Deixar de utilizar as palavras é assassiná-las. Fazê-las desaparecer. A mutilação das palavras será tanto maior quanto menor for o léxico usado. E o léxico de quem emprega a palavra escrita e oral vai-se estreitando, ano após ano.
Qual o problema?, dirão muitos.
O problema é que cada palavra é uma porção do mundo, um continente único, especial e insubstituível. Imaginem quão pobre seria o mundo sem algumas palavras…
José Rodrigues da Silva, o ex-editor do Jornal de Letras, recentemente falecido, disse: «Façam amor com as palavras.»
Acho que é precisamente isso que nos está a faltar.
George Steiner diz que um crítico é um escritor eunuco.
- O meu amigo gostou muito de ti.
- Falámos pouco.
- Ele gostou de tu expores os teus defeitos. Disse que era prova de seres honesto.

Já Balzac dizia que só um homem forte é capaz de expor as suas fraquezas.

segunda-feira, novembro 23, 2009

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto


teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa


ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;


nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira


(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda do que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

e. e. cummings

sábado, novembro 21, 2009

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.


Alexandre O´Neill

sexta-feira, novembro 20, 2009

Norman Mailer, em entrevista à Paris Review, disse que o demónio que incorporou por completo - ou quase quase completo - a vida de Hitler, aparece na vida de todos nós um pouco. Dá um exemplo: quem é que nunca sentiu o poder do demónio ao dar uma foda?
A mentirinha, a fácil falácia, a pequena omissão, não são graves. Toda a gente o faz. E por isso, coloca-nos no nível mediano de todos os outros. Descemos do pedestal de semi-deuses e passamos a ser ordinários, a pertencer à grande massa. É o preço a pagar.

Luís Serra Santos
Nada sucede ao homem que a sua natureza não seja capaz de suportar.

Marco Aurélio
eu levo o teu coração comigo (eu o levo no
meu coração) eu nunca estou sem ele (a qualquer lugar
que eu vá

[...]eu não quero
nenhum mundo (pois linda tu és o meu mundo, a minha verdade)
e tu és o que quer que seja que a lua signifique
e tu és qualquer coisa que um sol vai sempre cantar

aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe
(aqui é a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida, que cresce
mais alto do que a alma possa esperar ou a mente possa esconder)
e isso é a maravilha que está mantendo as estrelas distantes

eu levo o teu coração (eu o levo no meu coração)


e. e. cummings

quarta-feira, novembro 18, 2009

Lembram-se?

We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman, "O me! O life!... of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless... of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life?" Answer. That you are here - that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse. That the powerful play *goes on* and you may contribute a verse. What will your verse be?
As pessoas que têm uma relação egoísta, mesquinha e picuinhas com as suas possessões materiais. Pedimos algo emprestado e torcem o nariz. Tocamos em algo delas e ficam comichosas. São pessoas com péssimos orgasmos. Algumas morrem agarradas a notas.

terça-feira, novembro 17, 2009

Quando praticamos um crime grave, expandimos uma parte da mente - a parte que nos diz que a humanidade e o coração das trevas habitam em todos os espíritos.

Carta ao meu filho

(agora que a semente é cada vez mais a realidade de um filho, a ti me dirijo):

Procura fazer aquilo de que mais gostas, ciente de que quem te ama só pode ficar feliz quando tu estás feliz.

Reúne todos os materiais para a concretização dos teus sonhos, mas sem, nunca por nunca, pisares o Outro.

Nunca escondas o teu eu, a tua voz, as impressões digitais da tua alma por medo ou vergonha do julgamento da plateia. (Quando sentires muito a pressão do grupo e estiveres prestes a ceder, lembra-te do meu infinito amor pelo teu eu, e sente a minha tristeza em jeito de censura leve - se te ajudar, vê o meu rosto a pairar como um espectro e pensa no quanto gostaria de que conseguisses ser tu).

Que o timbre da tua voz e o teu sorriso sejam iguais ante o Presidente da República e o cantoneiro.

Faz todo o tipo de patifarias, mas nunca critiques ninguém numa situação em que não estejam apenas - e só - os dois.

Nunca reveles os segredos que te são depositados.

Não exponhas ao mundo as fragilidades dos teus amigos.

Se te apetece chorar, chora. Se te apetecer vestir um vestido, veste. És verdadeiramente homem quando fazes algo, sem te preocupares com o que os outros irão pensar.

Lembra-te de Lenine: é na desgraça que se conhecem os amigos. Nunca vires costas a quem pede esmola, a quem tem fome, sede, a quem está na prisão ou no hospital, ou fechado em casa com os estores fechados.

Nunca te gabes das pessoas com quem foste para a cama. A mulher não é um troféu nem um objecto.

Sê compassivo com os fracos e firme com os fortes.

Lembra-te de que todos os dias em que não lês, o teu espírito estiola.

«De cada vez que te apetecer criticar alguém, lembra-te de que nem todos neste mundo gozaram das mesmas vantages que tu.» (Francis Scott Fitzgerald)


Evita as experiências vazias.

Cultiva a tremenda alegria de Dar.


Angel
Do ponto de vista das perguntas essenciais irrespondíveis e das emoções humanas, nada há nada de novo debaixo do Sol desde os primórdios do Homem.
Jorge Luis Borges dizia que só há quatro histórias para contar: uma história de amor entre duas pessoas, uma história de amor entre três pessoas, a busca pelo poder e uma viagem.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Nada do que verdadeiramente conta pode provar-se nem refutar-se.

Unamuno
Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim.

Jesus Cristo

domingo, novembro 15, 2009

Coerente: um sujeito que nunca teve outra ideia.

Millôr Fernandes

Contradigo-me? Muito bem, então contradigo-me. Sou imenso, contenho multidões.

WW

sábado, novembro 14, 2009

... and follow me to where the real fun is...

The Cure

sexta-feira, novembro 13, 2009



Desculpem se pequei por excesso - apaixonei-me pela arte de quem consegue dotar o utensílio mais despojado e frio, de vida e sentimentos intensos.

O artista dos pregos

idem

Mais Vlad Artazov

- Já me tinha esquecido do quão maravilhoso é falar contigo.
Para o escritor, tudo o que não seja a sua escrita é perda de tempo. Nenhum outro ofício é assim para o seu executante.
Haverá sempre ecos de ti em todas as almas, Walt.

Mãe velando por filho doente (Vlad Artazov) - como é possível expressar isto através de pregos?

quinta-feira, novembro 12, 2009

Pode a racionalidade apagar o desejo?
Estávamos em casa à noite e a conversa recaiu sobre o Inexplicável.

- Uma vez ia a andar com a minha namorada numa ribeira e ao longe vislumbramos um vultos que não pareciam humanos, demasiado grandes e com braços que aparentavam ser de ferro. Alguém ou algonos apontou um feixe de luz enorme. Vinha lá ao fundo de duzentos metros. Iluminava todo o caminho até nós e encadeou-nos a vista. Era como que um holofote gigante. Ela entrou em pânico. Eu disse-lhe: «Calma, eles estão ali e nós estamos aqui.» A distância era grande. Então, ao fim de cinco segundos ouvimos um estrondo seco e um cogumelo prateado gigante iluminou toda a ribeira numa cascata de uma estranha luz... Toda a vila ficou iluminada... Quando aquilo acabou, os vultos haviam-se esfumado... Em instantes, haviam-se esfumado. Ainda fui até lá e vi a erva no chão queimada.

- Eu, a minha experiência mais bizarra teve lugar no Porto. Ia com uma amiga, andávamos perdidos. Era de noite e não passavam táxis. Pedimos boleia. Uma mulher parou e perguntou-nos para onde queríamos ir. Indicámos o nome da residencial. Ela conhecia. A mulher andou um pouco mais com o carro para a frente e estacionou na berma da estrada. Vamos a pé, eu e a minha amiga, atá ao carro da senhora. Isto demorou menos de um minuto num trajecto de poucos metros. Entramos no carro e só lá dentro... vimos outra pessoa no lugar do condutor: um homem. Já estávamos trancados lá dentro. O homem depositou-nos no mesmo sítio. Disse: «Boa boite, divirtam-se.»

Estas conversas fascinantes ocorreram à noite e são ambas relatos de episódios vividos à noite. Como disse Hemingway, há conversas do dia e há conversas da noite. Há coisas que só existem á noite.

Além de não imaginar ter estas conversas durante o dia com amigos, também não as imagino a acontecerem fora de casa.

Casa e Noite são sinónimos de intimidade.
A conversa versou sobre pessoas com identidades falsas. Parece que toda a gente conhece alguém que.

Um piloto que não é piloto e passa a vida a contar estórias das viagens, a mostrar fotos de gajas lá de fora com quem fez isto e aquilo e que são apenas pessoas a quem pede para tirar fotografias na noite.

Um tipo que não tem onde cair morto que inventa um curso, uma carreira, constantes viagens de emprego a África.

Um outro que tem duas mulheres oficiais.

Como conseguem estas pessoas ter alguma serenidade?

Achar-se-ão tão abandonadas, ostracizadas, diminuídas que precisam de forjar uma identidade? E porque escolhem logo o lado material?

Que graça tem gostarem de nós por aquilo-que-não-somos-mas-gostaríamos-de-ser?

quarta-feira, novembro 11, 2009

Penso que deveria haver uma palavra para definir o oposto de solidão. A sensação de sermos sufocados pelo Outro, pelo excesso de massas que nos atropelam a trote a alma. A ânsia de estarmos a sós connosco... o momento que nunca chega. Chamar-lhe-ia pletorização.

Receita para uma obsessão

Pega na tua agenda. Escolhe uma pessoa aleatoriamente. Começa a pensar nela a todo o instante. Começa a falar dela a toda a gente. Começa a pensar o que faria ela em cada decisão que tens de tomar. Pensa em cada momento no que estará ela a fazer. Cumpre o ritual quotidianamente até que a tua mente te devolva a pessoa sem esforço.
- As pessoas não gostam de mim, Angel.
Normalmente, o prazer que uma boa frase dá ao leitor é proporcional ao sofrimento e ao esforço que o escritor arrancou das suas vísceras.
Ele conseguiu fama, riqueza, sexo, filhos, carreira, poder. Esqueceu-se apenas de um pormenor: a felicidade.

terça-feira, novembro 10, 2009

Onde reside o núcleo do seu encanto?
«A sucata dos sonhos», dei por mim a escrever em determinado texto. Gostei tanto da expressão que até pensei que poderia dar - se não o título de um livro - o título de um capítulo ou sub-capítulo ou de um poema.

Relendo um livro que muito prezo (Reduto quase final de Dinis Machado), deparo-me com a expressão...

O plágio, às vezes, pode não ser mera desonestidade intelectual.
Paul Auster, antes de ser escritor a tempo inteiro, fez de tudo um pouco. Diz que nesses trabalhos aprendeu imenso. Conheceu gente interessantíssima que o alimentaram com reflexões que verteu para a sua escrita. Afirma que descobriu que as pessoas intelectualmente mais estimulantes não estão em grandes cargos. «Não por terem menos capacidades, mas porque têm menos ambição.»

segunda-feira, novembro 09, 2009

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico


Adília Lopes

sábado, novembro 07, 2009

O escritor deve procurar uma força centrípeta no centro do papel - uma força colossal que sugue tudo, toda a vida, todo o mundo, todas as casas, todas as pessoas, todos os acontecimentos, para o centro da folha; vertendo tudo o que existe sob a forma de palavras.
Lendo compilações e compilações de escritores, há determinados pontos comuns a todos:

a) todos começaram por escrever escrevendo poemas na juventude;

b) o primeiro livro dizem todos que foi abertamente uma mescla dos escritores que mais os incendiavam - lutando depois contra essa influências nas obras posteriores e encontrando a sua voz;

c) escrever é o Paraíso, reescrever o Inferno;

d) todos alegam indiferença aos críticos.
O tornozelo dela era o caule de uma folha.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Quando procuro um livro durante anos e todas as suas edições estão esgotadas, todos os alfarrabistas fazem:

- Puuuuuu... Isso é uma relíquia.

E, subitamente, um dia, encontro-lo nalguma prateleira... então, olho para ele como perante a mulher amada, desaparecida e reencontrada. Acaricio-o, encosto-o ao peito e levo-o dentro de mim para onde quer quer vá.
Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.

Herberto Helder

quinta-feira, novembro 05, 2009

Numa altura em que se mastiga sobre o assunto da Bíblia espoletado por uma comentário anódino e repisado de Saramago, gostava de explorar um Ângulo sobre o Deus do Antigo Testamento.

É um Deus que não é Deus. Porque não é omnipotente e omnisciente, postulados da sua definição enquanto Deus. É demasiado antropomorfizado.

Logo no início da Bíblia, lê-se:

«Deus disse: "Faça-se a luz!" E a luz foi feita.

Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas.»

A parte essencial é «Deus viu que» que significa «Deus descobriu». Ora só se descobre o que não se conhece e Deus não pode não conhecer algo.

O que transparece é que Deus estava a brincar com os objectos, testando-os e vendo o que é que dava. Olha, a luz é boa, porreiro, vou aproveitá-la!

Então, havia algo que Deus não controlava, que não sabia, que precisava de experimentar para saber... Mas Deus é justamento o topo do topo... Isso é paradoxal.

Volto a Álvaro de Campos:

Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto construem, desfazem ou se construi ou desfaz através deles.
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino —

Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino.
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas
De todas as vidas, abstractas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar porque é um tudo,
Porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas ideias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstracto
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gémeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gémeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Porque não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.
O romance é uma forma inexaurível. Nunca irá morrer. Porque o romance é o único lugar no mundo em que dois estranhos se podem encontrar em termos de intimidade absoluta. O leitor e o escritor fazem o livro juntos. Nenhuma outra arte pode fazê-lo. Nenhuma outra arte pode capturar o essencial da intimidade da vida humana.

Paul Auster

segunda-feira, novembro 02, 2009

Sempre que ia a casa deles, estavam a ver o Big Brother. Sentados à mesa, diziam:

- Isto é uma vergonha.

- Como as pessoas se expõem.

- Não têm uma conversa com pés e cabeça.

- Isto são só atrasados mentais na casa. Aliás, isto é feito para os atrasados mentais verem.

- É o pior programa da televisão.

Há pessoas que se relacionam com outras e que têm a mesma atitude que esta família ante o Big Brother: nunca largam e só dizem mal.
Entras na casa dela. Pensas: «Como será o seu quarto?» Sentes que vasi finalmente conhecê-los e vives essa delícia por antecipação... O quarto dela que tantas noites, na cama, antes de dormir, te aparecia... E agora, dentro de pouco tempo, ele será real, concreto e palpável, secando para sempre a fonte da tua imaginação.

Pé ante pé, ela conduz-te. Pisas o chão sagrado do corredor devagar. Vais entrar nele. Ela vai dizer algo e tu antecipas na tua mente: «vai pedir desculpa pela desarrumação».

E ela diz:

- Ai, isto está uma bagunça.

Fecha a porto com estrondo. Tu imploras que te deixe entrar. Dizes que o teu é, seguramente, mil vezes pior. Dizes ainda que detestas pessoas organizadas. Que veneras o Caos. Que ele te fascina.

Nada a demove.

sábado, outubro 31, 2009

O cardápio das emoções humanas é invariável - qualquer que seja a cultura ou a época.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Palavras que é preciso lascar, lascar, lascar até nos ser devolvido o seu brilho original. Por exemplo: Bondade.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Se deres o teu máximo em tudo, nada mais te pode ser exigido. Então, não és menos do que Deus.
Estás em baixo. No desespero sem portas. Falas com aquela pessoa. Bruscamente devolve-te a confiança confiante. Bruscamente abre-te a porta do poço e tu vês o arco-íris. Quando alguém te arranca assim do negrume, é tão limpo e doce e amplo e alegre o ar que respiras. Essa pessoa ganha então um estatuto divino.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Tem uns olhos negros profundos fabricados com os segredos da noite.
- Eu não posso mudar o mundo que está torto e pô-lo direito, mas sempre que posso dou-lhe uma porradinha. É essa porradinha que todos, na nossa esfera de influência, devemos diariamente dar de modo que o mundo se torne cada vez menos achatado.
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade

terça-feira, outubro 27, 2009

Uma personalidade forte gera sempre paixões e ódios. E quanto mais forte, mais o ódio se agita por não a poder destruir - e mais se insufla.
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.

Teixeira de Pascoaes
Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino como serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)

Walt Whitman

segunda-feira, outubro 26, 2009

Tocas o meu pensamento com a madrepérola do teu sorriso.

domingo, outubro 25, 2009

- Sabes o que é aquela pessoa a quem tu contas as coisas e só então elas se tornam reais? Quando perdes essa pessoa, as coisas que te acontecem, só porque não lhas contam deixam de existir. Entendes?
Cada pessoa tem o seu arco-íris. Nunca encontramos outra com quem nos completamos nas cores todas. Se encontramos alguém que jogue com três ou quatro cores nossas, já é bom e é a essas cores que nos devemos agarrar na relação.

António Lobo Antunes

(Consta que aquele que procura há anos por alguém com as suas sete cores, continua só.)
- Esfalfo-me a trabalhar de segunda a sexta, durmo pouco e chego ao fim-de-semana e é o aniversário deste e daquele, a inaguração, o aniversário do filho, eh pá, eu já só quero descansar ou ter tempo para as coisas que me dão prazer... Não ando a aguentar. Tenho de fazer uma economia de amigos.
- Desculpe, importa-se de que lhe tire uma fotografia à alma?

sábado, outubro 24, 2009

As fraquezas do Outro parecem-nos sempre tão facilmente removíveis e as do nosso Eu tão inultrapassáveis.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Perguntam sempre ao Lobo Antunes da rivalidade com o Saramago. Como se o escritor, quando sentado à mesa para escrever, lutasse contra alguém que não ele próprio. Ele não escreve a pensar no rival - o rival é ele próprio. Só a ele próprio se pode exceder.

Falei da escrita. Poderia falar da vida. A nossa única competição possível é sempre com o melhor-de-nós.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Roubar a juventude

- Estás impecável! Não conheço ninguém que pareça ser tão mais novo do que é como tu, pá! Qual é o teu segredo?
- É o do Drácula?
- Do Drácula?
- Sim. Bebo o sangue das vítimas.


(Já tinha ouvido alguém dizer que tinha 26 anos quando estava com uma mulher de 26 anos e 30 quando estava com uma de trinta.)

quarta-feira, outubro 21, 2009

Porque é que Saramago não fala do Corão? É tão óbvia a resposta.

terça-feira, outubro 20, 2009

José Saramago disse que a "a Bíblia é um manual de maus costumes" e que "tudo aquilo [a Bíblia, bem entendido] é absurdo e disparatado".



Penso que o «amai-vos uns aos outros» não é absurdo nem disparatado. Assim como não o é (Antigo Testamento) a ideia-matriz definidora da religião: «Prefiro a misericórdia ao sacríficio.» Saramago confunde a prática institucional das igrejas com a sua essência doutrinária. Pôr no mesmo saco Cristo e a Inquisição, seria como confundir Marx e Estaline.

segunda-feira, outubro 19, 2009

- Não inventem regras que impeçam a felicidade. Bolas, a vida já tem tantas barreiras naturais à felicidade: as doenças, a morte dos entes amados, o desemprego, o stress, as falhas na amizade e no amor. Para quê criar mais limitações, mais barreiras artificiais? As pessoas têm medo de ser felizes, muitas acham que é um pecado. Pecado é não ser feliz por medo!
Se há alguma coisa contra que me revoltei, foi contra o ódio.

Amin Maalouf

domingo, outubro 18, 2009

Osho diz para nos lembrarmos a nós mesmos de que somos únicos, especiais e insubstituíveis.

sábado, outubro 17, 2009

Quanto mais exigente fores para com a Vida, menos usufruirás dela.
Já por várias vezes li personalidades da política ou da cultura elogiaram a mulher, o sexo feminino como superior ao masculino - porque mais inteligente, ou mais subtil, ou mais arguto, ou mais delicado, sensível ou tolerante.

Se o contrário acontecer, isto é, se alguém substituir o feminino por masculino, será condenado em praça pública e etiquetado de «machista».

Sou igualitarista até ao mais ínfimo átomo do meu ADN e acho que isto é desigual.

Pensem só: qual a palavra que tem conotação mais pejorativa - machista ou feminista?

É fácil, não é?

Pela mesma razão, os homens não podem dizer que as mulheres são isto&aquilo&aqueloutro sem ouvirem - e bem - que isso é um preconceito, uma generalização abusiva, etc. Mas as mulheres podem tranquilamente dizer que os homens são desarrumados, que só-pensam-com-a-pila ou que ligam demasiado à Beleza.

Ser dúplice na condensdência em função da desigualdade conforme em ela for em favor do sexo oprimido ou do sexo opressor - é, para mim, reconhecer uma irreconhecível inferioridade intrínseca.
O mar rolou as suas ondas negras. Sobre as praias tocadas de infinito.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, outubro 16, 2009

Descobri que é possível comandar o mote inicial dos sonhos. Dormindo a sesta ou dormindo à noite, penso antes de adormecer numa ideia, numa pessoa, num local, num acontecimento. Agarro-me fortemente a essa âncora, procurando que nada me desvie dela, até que o sono se torna invencível. Quando mergulho no sono, aquilo a que me agarrei enquanto acordado e semi-acordado continua no sonho. Porém - curioso - o sonho distorce-o.

Outro dia, antes de adormecer, e só para testar o que o sonho faria, pensei no meu dentista até à exaustão. E no sonho ele apareceu. Mas não era ele. Quer dizer: era a cara, o corpo dele, até a indumentária. Porém, ele não era dentista. Era o senhor do salão em que me encontrava, cheio de bambus, e que servia o chá de laranjeira aos presentes sentados.
Patrick não encontrava a namorada certa. A cada relação, era sempre o mesmo: deslumbramento ao início e depois todas as emoções fortes se volatilizavam... e fartava-se.

Um dia Patrick, abandonou a procura e lembrou-se: todas estas namoradas mais não são do que atalhos para esquecer a mulher da minha vida. Há muito tempo que não se confrontava com esta verdade, tentando soterrá-la com um amontoado de mulheres que não conseguiam abafar o canção imortal que emanava os seus lábios...

Procurou-a. Encontrou-a. Viveu com ela novo amor. Até o matar. Lembrou-se então de algo que não tinha sequer emergido ao seu consciente: esta «mulher da minha vida», conhecida na juventude, foi na altura uma repetição do meu amor de adolescente. Sim, aí estava a sua grande e verdadeira paixão. Lembrava-se agora de que nunca sarara essa ferida. Recordava-se agora de que se apaixonara pela mulher da juventude unicamente porque esta lhe fazia lembrar a rapariga de sonhos da sua adolescência. Sim, era o prazer da repetição que Freud falava.

Patrick não se apaixonara pela mulher da sua juventude; ela era apenas um rosto, um corpo, um suporte, um objecto de devoção para poder continuar a amar a mulher da sua adolescência a partir de uma base tangível. Patrick permanecera amando a mulher da sua adolescência.

Procurou-a. Estava fútil, pragmática e cruel. Patrick depressa se desencantou, pensando que, no fundo, no fundo, ela nunca tivera nada que ver com ele.

Um relâmpago rebentou estrondosa e subitamente dentro de si! Ah! A Mariana Rosmaninho! A miúda com quem brincava na escola primária. Como amara dolorosa e solitariamente esse manancial de delícias!

Era ela a raiz de tudo. A raiz de toda a sua demanda. Da sua infinita procura.

Lembrava-se bem de, quando apaixonado pela rapariga da sua adolescência, ter pensado: julgo que estou apaixonadíssimo, porém, se a Mariana Rosmaninho me aparecesse, não tenho dúvidas sobre quem escolheria...

E tudo fez para a procurar. Ligou para a escola primária. Os dados eram confidenciais. Procurou, procurou, procurou. E encontrou-a via Internet. À terceira pergunta:

- Estás solteira.

- Sim. Estou.

Mariana Rosmaninho estava igual. A mesma cara cheia de gotículas de chuva brilhante, o mesmo cabelo sedoso, a mesma pele que nunca envelhecia.

Depois de muitos chats, veio o café. Depois de muitos cafés, veio o beijo. E viveram felizes para sempre.
O que será que levou aquele homem, hoje à tarde, a estar de tronco nu e em cuecas no parque de estacionamento do centro comercial?

quinta-feira, outubro 15, 2009

Ufa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Obrigado, Mónica

Facebook normally allows users only to "deactivate" their accounts, leaving their information intact. But what if you want to permanently delete your account? Here's how:

Now you can delete your account by going to "http://www.facebook.com/help/contact.php?show_form=delete_account
O segredo mais delicioso foi-me revelado.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Quando ajudas alguém - quando dás tudo, tudo, tudo de ti -, e depois, um dia, és tu a precisar e não recebes nada, nada de quem outrora tanto ajudaste, tens vontade de dizer:

- Quando tu precisaste, eu estive lá.

Arriscas-te então a ouvi a pior frase do mundo:

- Fizeste porque quiseste. Não te obriguei a nada.
Quando lemos um livro, desligamo-nos da realidade e depois voltamos à realidade em melhores condições. Ao escrever, sempre aprendo algo novo - ou sobre o tema ou sobre mim.

Luis Sepúlveda
Ter o Folhas de Erva de regresso à minha cabeceira é como ter um comprimido para a felicidade e a tranquilidade nocturnas.

terça-feira, outubro 13, 2009

Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava.»

Nelson Rodrigues

O direito à privacidade (e à intimidade) vai morrendo todos os dias um bocadinho.
Quase todos os nossos movimentos já, de resto, estão registados – do cartão de crédito, dos e-mails, dos números de telefone para quem ligamos e enviamos mensagens, até as nossas deslocações na rua são, grosso modo, filmadas.
As razões são sempre nobres: o combate à criminalidade e ao terrorismo, a simplificação da vida. Alguém se vai opor à Via Verde ou ao cartão 5-em-1? Casuisticamente, todas estas coisas trazem vantagens, e é só nessa perspectiva que tendemos a (e que somos induzidos a) ver as coisas, descurando que elas têm aumentado brutalmente o controlo sobre o cidadão e tornado cada vez mais exíguo o tão minguado espaço de privacidade.
As câmaras, por exemplo, vão proliferando como cogumelos pela urbe. Um amigo meu mostrava-me outro dia as quinze câmaras escondidas no seu restaurante. Reparei na camuflagem que as envolvia e, desde então, tenho detectado esse mesmo invólucro em bares, cafés, restaurantes. Até nos sanitários, tenho deparado com tais objectos.
Não se pense, porém, que a perca da privacidade é ditada apenas pela videovigilância. Tomemos o exemplo da Internet.
Todos os meses, recebo na minha caixa de correio electrónico fotografias e vídeos realizados por namorados ou ex-namorados que decidem expor ao mundo a vida sexual das suas parceiras. Pergunto-me como é que estes criminosos andam aí à solta, sem serem presos ou sequer obrigados a pagar uma indemnização. (O único caso de que tive conhecimento foi o de um jogador de futebol, David Reynolds, obrigado a pagar indemnização por publicar 57 fotos da ex-namorada nua no Facebook. Quanto acham que foi a indemnização? Riam-se: menos de 300 euros.) Imagino que devesse haver uma punição prevista no Código Penal para quem expusesse a intimidade do Outro. O crime contra a intimidade, se não está, deveria estar tipificado.
Como ficará a auto-estima de uma rapariga que viu um vídeo da sua vida sexual a circular por milhares ou milhões de pessoas? Já houve casos noticiados de suicídios. O que será preciso ainda acontecer para que se perceba a gravidade de tais actos?
Os novos meios tecnológicos tornaram imediatamente acessível a exposição da intimidade a uma larga escala. Os telemóveis que fotografam e filmam são baratos e, a seguir à recolha de imagens, basta fazer um download e um forward e… voilá!, eis que meio mundo vê a «gaja da Escola Secundária de Santo Tirso apanhada a relinchar que nem um cavalo».
Não era difícil apanhá-los. Conheço alguém que processou uns indivíduos que o insultaram no MIRC e os obrigou a pagar uma considerável maquia. Simplesmente gravou a conversa, instaurou um processo criminal e eles foram localizados pelo IP e obrigados a compensá-lo materialmente por ofensas.
A Internet, como tudo o que é novo, tem inúmeros e colossais virtudes e perigos que ainda não foram devidamente estudados. O HI5 e o Facebook são mostruários da privacidade com efeitos tenebrosos que se escondem de mansinho sob a capa de sermos todos amigos uns dos outros, de sermos mimados com muitos elogios, de recebermos convites-para-tudo-e-mais-alguma-coisa.
Uma amiga minha que trabalha numa empresa de recrutamento em Londres conta-me que esta, antes de analisar os currículos, vai ver o Facebook (sim, eles conseguem entrar mesmo não estando conectados como «friends») dos candidatos. Quantos não foram já excluídos por fotos de bebedeiras... E quantos casos não foram já noticiados de divórcios que usaram o Facebook como um prova ou que nasceram de uma infelidade nele descoberta.
Sentado numa aula de jornalismo, ouvi um professor dizer:
– Quando cada um de nós cria uma conta na Hotmail, aceita um contrato em que cede todas as mensagens da sua caixa de e-mail à Microsoft. Aquilo não é nosso. É-nos emprestado. Apenas nos concedem o direito de irmos lá ver os e-mails. Podemos espreitá-los, até quando eles quiserem, note-se bem, até quando eles quiserem porque aqueles mails não nos pertencem; são deles…
E se um dia eles quiserem reclamar aquilo que aceitámos inadvertidamente ser deles?
No meu blog, instalei um contador de visitas. Este permite-me saber todos os computadores que lá foram, a que horas, quanto tempo, qual o tamanho do seu ecrã, e – pasme-se! – que palavras digitaram no Google antes de lá chegares. «Mamas, Marisa Cruz», escreveu alguém antes de ir lá parar, e eu fiquei a saber.
A revista Sábado publicou uma reportagem sobre o mercado negro dos aparelhos de escutas a telemóveis desvelando que por 150 euros qualquer pessoa pode escutar permanentemente outra.
O problema não é como estamos, mas como vamos estar. Já sabemos que, em 2010, seremos obrigados a usar um chip no carro que fará com que alguém saiba sempre por onde andamos…
George Orwell escreveu o 1984 para denunciar o totalitarismo. Meio século depois, ele é o melhor espelho que podemos erguer às ditas democracias ocidentais.

P.S. Paralelamente à morte da privacidade como valor primacial, aumenta o escrutínio sobre o carácter e os vícios privados das figuras públicas como forma de validação ou não dos mesmos. Nos EUA, discutiu-se mais que Bill Clinton tivesse amantes do que tivesse mandado bombardear a Sérvia, e Eliot Spitzer, Governador do Estado de Nova Iorque, foi demitido por ter recorrido à prostituição. O que é que isto tem que ver com a política interna e externa dos EUA?
- Eu sei que também não és atilado nem metódico.
- Sabes?
- Sei.
- Então?
- Os malucos reconhecem-se uns aos outros ;)

domingo, outubro 11, 2009

Quanto mais alastras a sabedoria, mais terrivelmente as certezas recuam, retrocedem medrosas, e mais as dúvidas nascem e crescem de todos os lados.

Queima os livros. A felicidade é tudo.
A constância e a intensidade a que dedicas o teu pensamento ao Inimigo dá-te a dimensão da tua derrota ante o Inimigo.
Pelo rosto de pedra impassível, entrevi-lhe a alma gelada.

sábado, outubro 10, 2009

Uma pessoa ser isenta implicaria despir-se de todas as suas paixões, ódios, emoções. Ninguém o consegue - mesmo quando julgas que compartimentaste as emoções, elas estão lá.
«Quem persegue a outra pessoa priva-se a si mesmo de repouso.»

Provérbio escandinavo
"Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?" As perguntas, tornadas um pungente requisitório, foram, há dias, formuladas por um trabalhador da France Telecom, numa manifestação contra o processo de "reestruturação" da empresa, cujos...


"Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?" As perguntas, tornadas um pungente requisitório, foram, há dias, formuladas por um trabalhador da France Telecom, numa manifestação contra o processo de "reestruturação" da empresa, cujos resultados têm conduzido à barbárie. Vinte e quatro trabalhadores suicidaram-se, nos últimos dezanove meses, e mais treze foram socorridos quando se preparavam para pôr fim à vida.

Em nome da "competitividade" e em obediência às leis do mercado, um "gestor", Louis-Pierre Wenes, procedeu, a partir de 2005 (ele entrara na empresa em 2002), adjuvado por Didier Lombard, à "modernização" da empresa, o terceiro operador de telemóveis da Europa e o primeiro fornecedor de acesso à Internet.

A brutalidade das decisões não olhou a meios para justificar os fins. Diz a France Press que "o plano redundou num controlo cerrado dos funcionários, dos tempos de pausa, uma pressão insuportável por ganhos de produtividade e desumanização nas relações laborais. Os comunicados dos sindicatos sublinham a incerteza organizada sobre a permanência de cada posto de trabalho, mudanças forçadas de funções, pressões insidiosas para que os trabalhadores se demitissem ou aceitassem despromoções, tentando fazê-los responsabilizar-se por essas novas situações."

O "mercado", o "neoliberalismo" e a globalização atingiram novos patamares de infâmia. Em Portugal desconhece-se a estatística de suicídios causados por compulsões semelhantes, e o facto de estarmos à beira dos setecentos mil desempregados deveria preocupar, seriamente, aqueles que nos governam. A desumanização que se regista no mundo do trabalho explica-se pelo facto de o "homem de organização", quero dizer: o "gestor", não pode permitir-se ter princípios ou escrúpulos: deve, isso sim ter reflexos.

A degradação da vida empresarial resulta dessa cartografia de horrores que consiste nos objectivos a atingir, nas etapas que se tem de percorrer, e dos lucros que terão de ser rápidos e vultosos. O "gestor" é muitíssimo bem pago para ser um cão-de-fila. Um universo sem paixões, gelado, uma mistura de indiferença humana com uma selvajaria abstracta.

"Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?" As dramáticas perguntas adquirem um novo relevo, quando se sabe que as "soluções" aplicadas pelos tais "gestores" revelam-se ineficazes e conduzem as empresas, mais tarde ou mais cedo, à falência. À falência económica e financeira, porque a falência moral já habita no corpo de quem as dirige.

A "organização", o "grupo", correspondem a esse capitalismo predador, que mantém uma "democracia de superfície", feroz e impositiva, que tem aniquilado sindicatos, partidos progressistas, organizações cristãs recalcitrantes, homens e mulheres, sobrepondo uma cultura que provoca a renúncia de pensar. O poder económico a sobrepujar o poder político.

Baptista-Bastos

sexta-feira, outubro 09, 2009

Quero que sofram

O restaurante era uma esplanada em cima de uma falésia de 20 ou 30 metros. A nossa mesa (a minha e a da minha mulher) estava encostada ao gradeamento exterior da esplanada (ou muro, não me lembro bem) e dava directamente sobre o mar. Não havia nenhuma mesa a menos de quatro ou cinco metros. Jantámos. No fim, resolvemos fumar uma cigarrilha. De repente, apareceu uma cabeça entra nós dois, que disse, a tremer de raiva, em americano: "Espero que tenham um cancro. Espero que morram. Espero que sofram". E, depois, fugiu. Ainda lhe gritei "Drop dead". Mas não serviu de nada. O homem já cumprira a sua missão. Como é evidente, as nossas cigarrilhas não podiam prejudicar ninguém. Não se tratava dos supostos malefícios do fumo indirecto. A coisa era uma explosão de ódio contra dois seres que o indivíduo considerava moralmente inferiores, dignos de morrer depressa e, de preferência, da pior maneira imaginável.

O fanatismo contra o tabaco - o único sentimento (não merece sequer o nome de "ideia") que os políticos do Ocidente conseguiram este século, pouco a pouco, incutir na populaça - chegou a um extremo inquietante. Em Nova Iorque, por exemplo, uma das cidades mais poluídas do mundo, o inominável sr. Bloomberg (o do "canal"), candidato à presidência da câmara, incluiu no seu programa a proibição absoluta de fumar na rua. Na rua, repito. Isto, como o acidente do restaurante, não é um acto de saúde pública, é pura e simplesmente um acto de perseguição, que uma intensa propaganda inspira e sustenta. Basta ver um filme ou uma série americana, ou mesmo um noticiário, para constatar o fervor dessa particular missão.


A campanha pela imortalidade do corpo toma rapidamente a forma das campanhas pela imortalidade da alma. No liberal e democrático Ocidente, nenhuma dissidência é tolerada, nem (por sensata que seja) ouvida qualquer razão de ordem médica, económica ou política. Se o deixassem, o sr. Bloomberg queimava os fumadores na praça pública. Como Sócrates, que, sempre atrás de Zapatero, se propõe agora "endurecer" as leis contra o tabaco, que acha demasiado permissivas. Impotente para acabar com o desemprego, aumentar a produtividade ou reformar a justiça, Sócrates ficou, pelo menos, com uma "causa" aparentemente justa - e a consoladora faculdade de proibir. O zelo religioso contra o fumo, julga ele, compensará o óbvio fracasso do país. Punir os maus (ainda por cima para seu próprio benefício) é um método provado para exibir a virtude de quem manda. E, de caminho, esconder a realidade.

Vasco Pulido Valente
Um livro - ou um texto - ou te:

a) desassoga, te inquieta, abala as tuas certezas e deixa-te confuso, com um lugar vazio no sítio onde estavam as tuas certezas;

ou

b)verbaliza algo que depois de leres descobres que tinhas em ti. Eu sabia/sentia/intuía isto mas nunca o formulara. Aquilo era teu, mas precisaste do espelho para ler o que tinhas escrito.
Olhei para o homem na repartição de finanças. Todos somos mentalistas se formos atentos. A cara dele dizia:

- Sou autoritário e machista.

Passado instantes, deu uma palmada na mão da funcionária que estava no computador.

- Quieta!
Andava na escola primária, e, tendo a sorte desta escola apostar muito na cultura, passeava por uma exposição de pintura.

Lembro-me de a certa altura, do alto dos meus sete anos, ter dito:

- Este quadro é feio!

A organizadora da exposição concordou comigo, mas acrescentou:

- Os quadros maus quando têm assinatura de um bom pintor valem mais do que os quadros bons de um mau pintor.

Até hoje, lembro-me sempre destas palavras. Quando vejo escritores escreverem excrementos elogiados pela crítica, quando fui ver o último filme do Manoel de Oliveira (eu que gostava dele), quando os humoristas mais conhecidos (e que têm piada) fazem squetches sem piada e todos se riem.
Se todos lessem A Odisseia ou Dom Quixote, o mundo não seria o mesmo.

António Lobo Antunes
Albert Camus, n´O Estrangeiro, quando Mersault está na cadeia, diz que bastaria a um homem viver um dia com as suas vinte e quatro horas para ter memórias que enchessem a sua vida inteira na cela.
O Grande Gatsby começa com um conselho que o pai deu ao narrador quando ele ainda era novinho e vulnerável:

- De cada vez que te apetecer criticar alguém, lembra-te de que nem todos nesta vida gozaram das mesmas vantagens que tu.

É difícil - extraordinariamente difícil - viver o dia-a-dia sem apontar o dedo, sem denunciar, cair na má-língua, julgar e, até, condenar.

Mas, de facto, quando ouvimos - aliás: escutamos - o Outro, quando percebemos tudo o que levou a ser assim...

Nem todos foram amados com tu. Nem todos tiveram as tuas facilidades.

E se o teu pai te violasse? E se tu fosses o patinho feio da família? E se tu fosses humilhado nos balneários da tua escola secundária onde te batiam com tolhas molhadas enquanto gritavam «paneleiro»? E se @ tua/teu noiv@ te tivesse deixad@ pendurad@ no altar?

quinta-feira, outubro 08, 2009

Leio que o desemprego em Portugal tem a sua principal causa na inadequação entre as habilitações de quem procura trabalho (as empresas) e quem oferece (as pessoas ou os trabalhadores).

Não me custa a acreditar que seja esta a principal causa, mas, dentro desta, há uma sub-ramificação que não temos coragem de denunciar.

Sucede que muitos portugueses recusam fazer trabalhos abaixo das suas qualificações. Noutras palavras: se têm um canudo, então não sujam as mãos.

Uma amiga minha foi para Barcelona viver e disse-me:

- Lá em Barcelona, trabalhava num bar para pagar o mestrado. Se fosse cá, devia haver quem achasse estranho. Lá toda a gente, faz tudo, sem vergonha.

Quantos desempregados com licenciaturas, pós-graduações, mestrados, doutoramentos e pós-doc. que atravessam dificuldade materiais, alguns até passam fome, e se recusam a ir trabalhar para um call center ou uma perfumaria?

No filme A leitora, Kate Winslet prefere esconder num julgamento que não sabe ler e escrever e assumir por isso a barbaridade de ter a seu comando campos de concentração, cujos relatório, assume falsamente, ter escrito. Sentia mais vergonha por ser analfabeta do que por estar à frente de campos de concentração nazis. Também alguns portugueses preferem passar fome do que fazer trabalhos que consideram «menores».
Ano após ano, o prémio Nobel da Literatura vai perdendo credibilidade.
Há alturas em que o que sinto em relação ao país se resume a uma palavra: nojo.
Tenho nojo deste país quando o Isaltino, condenado a sete anos de prisão, se prepara, segundo as sondagens, para ser reeleito com maioria absoluta!

Quando o Alberto João Jardim manda impunemente e ditatorialmente na Madeira. Alguém viu as imagens da pancadaria com o PND? Ainda restam dúvidas de que aquilo não é uma democracia?

quarta-feira, outubro 07, 2009

- Gosto dele sem reservas. É o melhor elogio que lhe posso fazer porque é tão difícil gostar de alguém sem reservas. Encontrar uma pessoa de quem se gosta sem reservas já é muito. E é tão tão bom... De quantas pessoas gostas sem reservas?

segunda-feira, outubro 05, 2009

Estou chocado: nunca se pode desistir do facebook desde que se entra.

sábado, outubro 03, 2009

- Tenho uma memória visual filha da puta. Nunca me esqueço de uma cara. Nunca. Mesmo as pessoas que nunca me foram apresentadas, se as vir mais de duas vezes num sítio, decoro-lhes logo a cara. Quando vejo um rosto e esse me é familiar, sei logo que já o vi algures. Ainda outro dia vi uma pessoa, andei à procura na minha biblioteca de caras e percebi que não estava nas prateleiras das pessoas que conhecia. Não desisti de tentar, esforcei-me e ao fim de algum tempo lá me consegui lembrar que há dois anos vi aquele rosto algumas vezes num bar.
they laugh, they make money
he's got a gold watch
she's got a silk dress
and healthy breasts that bounce
on his italian leather sofa


she doesn't care
whether or not he's a good man

Cake
- O país está a produzir analfabetos escolarizados.

Velho Ancião

quinta-feira, outubro 01, 2009

Com a derrota do PSD, o Pacheco é, por sua vez, olhado de viés, e os ajustes de contas não tardarão. Que faz correr, e ter atitudes intelectualmente reprováveis, este homem calculado, gelado e inteligente? O atabalhoamento com que tenta atenuar a derrota da sua estratégia chega a ser uma piada cruel, como abundantemente ficou demonstrado anteontem, na SIC-Notícias, no encontro com Pedro Silva Pereira.

Baptista-Bastos