domingo, novembro 30, 2008

Prenda 6

Se me queres ter de novo, procura-me debaixo da sola das tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Todavia dar-te-ei saúde,
E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor.

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Estarei algures à tua espera.


Walt Whitman

Prenda 5

Vejo Deus em cada uma das vinte e quatro horas, em cada momento.
Nos rostos dos homens e mulheres vejo Deus, e no meu próprio rosto ao espelho.
Encontro cartas de Deus espalhadas pela rua, todas assinadas com o Seu nome,
E deixo-as onde estão, pois sei que onde quer que eu vá outras irão chegar pontualmente e sempre.

Walt Whitman

Prenda 4

Ode à vida

Toda a noite
com um machado
a dor me feriu,
mas o sonho
passando lavou como uma escura água
ensanguentadas pedras.
Hoje estou vivo novamente.
De novo
te levanto,
vida,
sobre os meus ombros.

Ó vida,
taça cristalina,
de súbito
enches-te
de água suja,
de vinho morto,
de agonia, de desgraças,
de pegajosas teias de aranha,
e muitos crêem
que guardarás para sempre
essa cor infernal.

Não é verdade.

Uma noite lenta passa,
passa um só minuto
e tudo muda.
Enche-se
de transparência
a taça da vida.
Um longo trabalho
nos espera.
De um só golpe nascem as pombas.
Se engendra a luz sobre a terra.
Vida, os pobres
poetas
julgaram-te amarga,
não saíram da cama
contigo
com o vento do mundo.

Sofreram os amargurados
sem te procurar,
barricaram-se
num negro tugúrio
e foram-se atolando
no luto
dum solitário poço.
Não é verdade, vida,
és
bela
como a minha amada
e tens entre os seios
odor a menta.

Vida
és uma máquina plena,
felicidade, rumor
de tempestade, ternura
de delicado azeite.

Vida,
és como uma vinha:
amealhas a luz e reparte-la
em cacho transformada.

Aquele que te renega
que espere
um minuto, uma noite,
um ano curto ou longo,
que saia
da sua mentirosa solidão,
que indague e lute, junte
as suas mãos a outras mãos,
que não adopte nem proclame
a má-sorte,
que a estilhace dando-lhe
forma de muro,
como à pedra fazem os canteiros,
que a corte
e dela faça
umas calças.
A vida espera
todos aqueles
que amam
o selvagem
odor a mar e a menta
que ela tem nos seios.

Pablo Neruda

Prenda 3

Prenda 2

Prenda 1

Parabéns, Denise, é meia-noite. Não te envio sms nem te telefono, deixo-te aqui uma surpresa.

sábado, novembro 29, 2008

Umas amigas minhas, no âmbito de um jornal académico, foram assitir a uma conferência do Saramago para no final irem lá fazer-lhe umas perguntas.

O Saramago falou com a imprensa «conhecida», e, quando chegou a vez delas:

- Eu para vocês não tenho tempo, desculpem lá.

Elas, fãs da Obra e do Homem, sentiram nesse momento que não há queda mais vertiginosa do que a de um ídolo, como escreveu Dinis Machado.

Quando uma pessoa é Grande, o sucesso não a torna mais arrogante, mais sobre-humana.


Ernest Happel era treinador de futebol. Ganhou tudo, tinha convites dos maiores clubes do mundo, onde poderia ganhar rios de dinheiro, mas decidiu ir treinar um clube da segunda divisão do seu país. É um gesto só ao alcance das Grandes Almas.
Bar do Teatro da Comuna. A peça acaba, sou o primeiro a encostar-me ao balcão. A senhora atende uma pessoa que chega depois de mim (actor? encenador?).

- Desculpe, eu já cá estava.

- Pois, mas é que esta pessoa... (e não conclui).

A seguir, atende outra pessoa, presumivelmente ilustre.

Eu volto a reclamar.

E outra e outra e outra...

Até que viro costas e digo de forma audível:

- Foda-se para estes meios de esquerda pretensiosos que são a coisa mais elitista que há!
Um amigo meu estava num arremedo de parque de estacionamento a fumar ganzas com amigos.

A polícia apareceu.

Um membro da autoridade vociferou uma cantilenta contra os malefícios dos charros.

No final, irritado, concluiu:

- Foda-se, com tanta gaja boa que há aí para foder!

sexta-feira, novembro 28, 2008

Miguel Esteves Cardoso escreve que Deus não é socialista e que fez pessoas bonitas e inteligentes (eu acho que a inteligência não é algo inato, mas algo que se desenvolve, se alimenta, nomeadamente com livros). Diz ainda que o mito da inexistência de pessoas bonitas e inteligentes é uma consolação imaginária, uma invenção das pessoas feias e invejosas.

Nicks do Msn que decoro sem querer

Genius lasts longer than beauty.


(aposto quem foi alguém feio que o inventou)




Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.


Luís de Camões, Os Lusíadas


O povo não é democrático nem tolerante. Basta andar de transportes públicos e sentir-lhe o pulsar. A canseira do trabalho. As doenças. A corrupção dos políticos (crença que impulsionou a falência de algumas democracias e o surgimento de totalitarismos). A falta de honestidade (que mora sempre ao lado). O sistema de cunhas (que só beneficia o Outro). A pouca firmeza da autoridade, a criminalidade, a imigração, e com elas a xenofobia e o racismo.
Na ressaca do assalto e sequestro no BES, ouvi nas conversas de café:
– Esse lixo humano devia ser todo banido da sociedade.
– Os ladrões deviam ser todos mortos a ver se os outros depois tinham medo de roubar. E aos pedófilos, antes de os matarem, deviam torturá-los até ao fim.
– Era juntar esses imigrantes e mandá-los todos embora. Só vem para aqui a escumalha.
A SIC apresentou há uns anos uma sondagem em que 90% dos portugueses aprovavam a pena de morte. Se não fosse a constituição (e os partidos políticos) salvaguardarem-nos, a pena de morte, a prisão perpétua e a tortura eram bem recebidas por vastos sectores da sociedade portuguesa.
Será que ninguém se lembra de que Salazar foi a figura do século escolhido no programa dos Grandes Portugueses em que se votava por telefone durante semanas ou meses?
O recente estudo de Bruto da Costa sobre a pobreza revelou que uma das razões para a persistência do fenómeno é o preconceito que os portugueses têm face ao pobre, encarado como ocioso e meliante, o que obsta à implementação de políticas de redistribuição de rendimentos. É raro ouvir alguém falar positivamente do Rendimento Social de Inserção (que, recorde-se, tem uma prestação individual média de 83 euros por mês!), esse instrumento que só serve para alimentar vidas luxuosas de preguiçosos que têm bons carros e imenso dinheiro escondido no colchão.
Mais recentemente ainda, uma sondagem revelou que os portugueses estão maioritariamente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Que indícios é que temos de sermos um povo aberto e democrático?
Não tenho ilusões de que uma parte considerável do povo – esse que se cruza connosco todos os dias na rua e não o do conceito abstracto – despreza mesmo a democracia. O que era preciso era alguém que pusesse isto na Ordem, devolvesse o respeitinho, endireitasse as contas, trouxesse segurança às ruas e nos insuflasse o orgulho de ser português. É por isso que algumas figuras políticas que por aí andam a ressuscitar o espectro de Salazar têm tantos apoiantes…
Por mais razões de queixa que tenhamos dos políticos e das leis, convém não olvidar que são eles que, em muitos casos, nos impedem de cair na barbárie.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Last night I dreamt
That somebody loved me

The Smiths

A faca não corta o fogo, mas arruina a carteira

O Herberto Helder não reedita livros. Reeditar implica reescrever. E quando os reescrever, o livro é outro, tem outro título. Nunca fez segunda edições.

O livro dele A faca não corta o fogo esgotou em duas semanas. 3000 exemplares. Peguei nele numa livraria, sopesei-o (tem cara dura, bem bonita, por acaso) e pensei:

- Estou sem massas, vou pedi-lo para o Natal.


Assim fiz. Entretanto, li e ouvi que ele se esgotou!

Foda-se!

Tentei tudo: ninguém o tem. Nenhuma livraria ainda tem algum exemplar.


Descobri uma livraria (poesia incompleta) onde, no seu blogue, há um leilão do livro.

O livro, que custava 15 euros, já vai em 60 euros. Fecha quinta ao meio-dia.

Os 60 euros que vão na frente do leilão são deste senhor estouvado e irresponsável que aqui escreve estas linhas...


Angel

quarta-feira, novembro 26, 2008

Desafio

«As regras são:
(..) responder às seguintes perguntas com títulos de músicas de uma banda ao nosso critério.»

Do blog da Leooo para o blog do Miguel www.impensamento.blogspot.com

para o blog da Daniela www.eternaloucura.blogspot.com


para aqui...


1 - Descreve-te.

Angel, Massive Attack

2 - O que as pessoas acham de ti?

Black Mountain Mist, The Mission

3 - Onde gostarias de estar agora?

Paradise City dos execráveis guns...

4 - Descreve a tua vida.

My Way, Frank Sinatra

5 - O que esperas de um relacionamento?

Just like honey, Jesus and Mary Chain

6 - O que é o amor, para ti?

Eternal Sunshine, Portishead

7 - Como é a tua sexualidade?

Secretly, Skunk Anansie

8 - Define o teu estado de espírito neste momento.

Help!, Beatles

9 - O teu maior desejo?

Wonderful World, Louis Armstrong

10 - O que te faz sorrir?

The beatiful people, Marilyn Mason

terça-feira, novembro 25, 2008

Será que as pessoas que levam uma existência fútil, mergulhadas no perfume inebriante das posses materiais, será que algumas delas são pessoas profundas, cheias de preocupações éticas e metafísicas, mas que decidiram que precisavam de abafar o ruído das perguntas existenciais e que só mergulhando num oceano de futilidade as abafariam e assim seriam minimamente felizes?

Angel-vivemos-numa-casa-de-bonecas-mas-a-cabeça-presa-ao-céu-por-um-papagaio-de-papel
Buda, perante o sofrimento do mundo, disse que queria ter mil pernas, mil braços e mil olhos para poder ajudar o Outro.
Haverá sempre pessoas que só se importam com o seu nicho (a maioria?). Haverá sempre pessoas que nunca conseguem compartimentar o facto de que algures no mundo alguém está doente, algures no mundo alguém passa fome - mesmo quando são impotentes perante esse sofrimento, isso é um ruído de fundo na sua felicidade.
- É uma pessoa muito exigente nos princípios, mas é só com os outros. É um ethical-one-way.
Parece sempre uma pessoa diferente, a cara dela... não a consigo fixar na minha cabeça. É sempre diferente quando a vejo.
Os amendoados lábios guardavam sonhos
Amar alguém é terrível. O medo de que sofra é um desamparo absoluto.
Seduzir é continuar a acreditar que há sempre algo deslumbrante, uma sensação nova por descobrir, é ver a fachada desmoronar-se mil vezes e ainda assim continuá-la a perseguir pessoa atrás de pessoa, sem nunca ter presente um dos milhares de desilusões até então.

Casanova
Casanova ataca de novo

«Certos indivíduos, homens e mulheres, sentem uma necessidade compulsiva de disseminar a sua energia e o seu investimento libidinal. É preciso multiplicar os parceiros e as experiências, cada um por sua vez, ou, porque não?, simultaneamente. Nenhuma relação parece suficientemente apaixonante para eclipsar todas as outras e, ademais, estas própria disseminação parece um modo satisfatório de conduzir a vida afectiva. Há algo de inebriante na perspectiva de poder multiplicar as conquistas e de avaliar assim os efeitos do seu encanto sobre um número cada evz maior de presas. Se as relações amorosas não têm continuidade, se eles já não se enredam senão em aventuras sem amanhã, é em grande parte porque já consumiram aquilo que o outro lhes podia oferecer, isto é, a sua própria imagem tão avidamente procurada. Um prolongamento da ligação faria apelo a outras motivações e revelar-se-ia sem dúvida ilusório. (...) O reconhecimento de si próprio, que se espera e se encontra nas relações efémeras repetidas, implica também, em contrapartida, o stress de ter de arriscar essa imagem em cada novo encontro. Cada novo encontro apresenta-se como um teste a que o indivíduo voluntariamente se submete, teste que avalia a sua aptidão para criar laços, para abrir novas portas.»

Louise Poissant

segunda-feira, novembro 24, 2008

Estava num carro com amiga e amigo. Um indíviduo, protegido pelo gangue atrás, cercou o carro, ameaçou-nos, e garantiu três vezes que me rebentava todo do carro se eu saísse.

Conseguimos resolver o assunto. Com jogos psicológicos e com muita muita sorte.

Quando conto esta história a alguém, dizem-me:

- O condutor devia arrancar com o carro e atropelá-los.

A vida humana não vale mais do que tudo?

Será que há pessoas que vêem uma parte da humanidade como lixo?

Palavras com que faço amor

cielo


(experimenta-a na tua boca devagar)

céu em italiano

A casa de Neruda em Valparaiso


Sugestão

http://www.youtube.com/user/MontyPython
Isso não é um problema, isso é um problemazinho.
Nunca ninguém é atormentado pelo Bem que praticou.
No Brasil, nasceu uma pessoa a quem os pais deram o nome de três vezes nove vinte sete.
- E quando uma pessoa gosta mais da outra, seja numa relação, seja numa fase pré-relação, a que gosta menos tem o poder do domínio sobre a outra.

domingo, novembro 23, 2008

Pedro Mexia, escritor, crítico literário, sub-director da Cinemateca afirma que, ao contrário do que por aí afirmam, gosta de filmes comercialóides.

Quem vive muito a cultura, quem pensa muito sobre as coisas - precisa sempre de um escape, uma espécie de banho turco para o cérebro.

É natural.

Agora, quanto mais filmes comerciais vemos, mais depressa lhes apanhamos os artifícios e eles tornam-se previsíveis - o problema é esse. Já sabemos, por exemplo, que nas comédias românticas, o par fica junto no fim, e que nos filmes do Steven Seagal e Chuck Norris os bons vingam os maus.
A consciência tranquila tem um preço inexcedível.
Constato sempre que as pessoas mais relativistas a nível de ético, mais flexíveis, são sempre as mais dúbias do ponto de vista de carácter, sempre as mais vacilantes nas suas acções - não têm palavra, não se posicionam de um lado sem saber se é o lado vencedor, não arriscam defender algo se isso poder beliscar os seus interesses, são neutrinhas, diplomatas e tíbias a vida toda.
- Ele começou a tomar esteróides e aquilo afectou-lhe a cabeça. Eu notei, andava com ele, até se começou a dar com outras pessoas e a querer ver outro tipo de filmes.

sábado, novembro 22, 2008

Vejo homens de direita dizerem que votariam em Obama. Poder-me-ão dizer que é a necessidade de se encostarem ao poder. Uma coisa é certa. A esquerda é mais inflexível - para o bem e para o mal - do que a direita. Nunca apoiaria o candidato da direita.

Mas, ser de esquerda nos EUA, não é ser de esquerda na Europa. Obama defende a pena de morte e é contra o casamento de homossexuais, por exemplo.

É claro que ninguém lê programas políticos hoje em dia. Eu, por mero acaso, li-os e o programa de John Edwards por exemplo era mais revolucionário do que o de Obama. Sejamos sinceros: se não fosse a cor de Obama, se fosse pelo programa político, haveria metade da excitação em torno do novo Presidente dos EUA?
Como prezo a indepedência de espírito! Como não há nada que pague a liberdade de pensamento, de espírito!

Tenho pena de ver o Pacheco Pereira como o destroço sobrevivente que ainda geme baixinho por Manuela Ferreira Leite.

Como se diminuiu, como se tem negado a si próprio (basta ler os livros que publicou para perceber as negações e contradições neste caso) para se torcer a ele próprio a defender o indefensável.

Perdeu a sua melhor qualidade: a tentativa de produzir juízos isentos.
O mais importante e o mais interessante que se pode dizer, a única coisa que é preciso dizer é o que falta dizer.


Wittgenstein
O que tu vives, vive-o. Não queiras comunicá-lo, não vale a pena. Vive-o. Porque nunca irás conseguir estar à altura do que viveste. E se insistires muito em comunicá-lo, então aí usa a única coisa que pode exceder a vida - a poesia.


Pier Paolo Pasolini

sexta-feira, novembro 21, 2008

- Boa tarde. - disse quando saí do elevador.
Não houve resposta.
- Boa tarde - insisti. A senhora negra limpava as escadas e à segunda vez levantou o olhar do chão tão lenta, tão timidamente.
O murmúrio ter-lhe-á ficado preso algures no fundo da garganta.
Há pessoas que não se consideram dignas de um cumprimento. Há pessoas que não se consideram pessoas. A culpa é nossa.

Citando Eugénio:


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.


HH
OK, ela é boa. Mas se eu fosse no tal fim-de-semana, já viste o que era o horror de acordar ao lado de quem não gostas? Já viste o tédio de não conseguir conversar de uma forma intelectualmente estimulante? De não conseguir ver o filme que não seja pipoca mental? De não conseguir comentar com profundidade uma notícia? Ok, a gaja é boa, mas foda-se isso não me dá vontade de lhe fazer festinhas.
Isto do BPN suscita-me a imemorial dúvida: como há pessoas que dedicam a vida a juntar dinheiro à custa do desemprego, da miséria dos outros?

Como há pessoas que vão para o governo de países pejados de fome e doenças e conseguem roubar esse povo para que eles e só eles vivam em palácios incomensuráveis?

Pessoas houve no BPN que fizeram tudo para enriquecer à custa do bem-estar de milhares de pessoas. O «um» deles parecia-lhes maior do que os «milhões» dos outros.

Ao mesmpo tempo que o escândalo rebentou, eu conheci um sujeito de uma bondade comovente, que trabalha 20 horas em prol do outro, não ganhando mais a partir das oito horas.


No fundo, ele e os meliantes do BPN, trabalhavam em prol de objectivos, e no fundo, ambos deviam achar que aquele era o Bem. Ambos eram egoístas na procura da sua felicidade. O que trabalhava 20 horas a ajudar os desfavorecidos se roubasse o dinheiros dos outros seria profundamente infeliz.

A diferença é que um fazia a pergunta: será que o meu trabalho, que é uma parte integrante da minha vida, uma porção considerável do meu tempo, é útil aos outros, indiferente ou prejudicial?

O Dalai-Lama diz que somos todos egoistas. Uns sensatos e outros insensatos. Os primeiros são os que são felizes procurando o bem-estar dos outros.

Acredito nisso. Mais cedo ou mais tarde, qualquer forma de felicidade que não passe pelo bem-estar do outro desmorona-se e deixa-te vazio.
Há quem faça as coisas para e quem faça as coisas por.

Agostinho da Silva
O insondável seduz sempre. E desvela-se pela neblina em torno da caixa fechada.

Denise Cadete

quarta-feira, novembro 19, 2008




O meu amigo fazia anos. A festa era em casa. Não, ele não tinha 12 anos, tinha mais de 30. O ambiente era fraterno, as pessoas conversavam, trocavam ternura. Altura do bolo. Discurso do pai. Nunca mais na minha vida me esquecerei.Dizia ele que estávamos ali a celebrar o amor, que a coisa mais importante da vida era amar, que sem isso nada valia. E que era lindo estarmos ali todos os anos, irmos buscar amor uns nos outros, alimentarmo-nos dele para a vida. Porra, o mundo pareceu-me tão espectacular, tão bonito e a vida uma dádiva esplêndida. Quando estou triste, ouço estas músicas ou lembro-me do discurso do pai dele. É-me automaticamente devolvida a gratidão à humanidade e tudo se reconfigura belo dentro de mim. Vale sempre a pena viver quando há amor. Porque quando há amor, tudo faz sentido, e aspergimos a vida dos outros de felicidade.

O 8 e 1/2 do Fellini tem uma cena em que o personagem principal, homem, é invadido por todas as mulheres da sua vida.

Todas juntas no mesmo plano, todas desde sempre. Tens de passar por todas. Pior/melhor: todas passam por ti.

Como te sentes?
O politicamente correcto impede alguém de dizer que é racista ou contra a democracia. Não tenhamos ilusões: há muitos racistas apesar de quase ninguém assim se auto-proclamar. Porque é que muitas vezes o último lugar vazio no autocarro é ao lado de um negro? O que Manuela Ferreira Leite expressou foi um desabafo que a traiu mas que, para quem está atento, não é de surpreender se tomarmos em consideração a sua prática discursiva, a sua pose, o seu perfil político. A democracia não é amada por todos.
Miguel Esteves Cardoso está de volta. É uma alegria enorme. Para quem hoje acha Ricardo Araújo Pereira um sujeito tremendamente engraçado (e quem escreve estas linhas gosta dos Gato Fedorento), o humor de MEC, que escreveu dos melhores textos de Herman José e das melhores crónicas humorísticas em língua portuguesa, dá 20-0 a RAP (que verte muito dos textos de Woody Allen e dos sketches de Motnhy Pyton).

MEC tem escrito, lançou um livro (colectânea de crónicas), tem dado muitas entrevistas e... cheira-me... prepara-se ou para aparecer na tv ou escrever um romance.

Está liberto das drogas, da doença, daqui para a frente, se não recair, poderemos contar com ele. É uma mais-valia enorme para esta nação cinzenta. :))

MEC diz numa entrevista à revista LER que não consegue não ficar irritado diante de um texto mal escrito. Seria como alguém que, comunicando oralmente, ao falar se interrompesse, gemesse, gritasse, se levantasse e fosse embora e voltasse.


Angel-muito-efusivamente-contente(mec)
Fala pausadamente, não engulas sílabas. Transparece segurança. Não pontues o discurso com «não sei», «talvez» ou quaisquer derivativos da incerteza. Dispensa as bengalas linguísticas como «podemos dizer», «é assim», «portanto» (esta nunca uses para inicar uma fala!). Lembra-te: mais vale repetires uma ideia dez vezes do que transmitires dez ideias de uma vez. Usa imagens vívidas, nítidas. Sons que se ouvem. Odores que se sentem. Mantém suspense, deixa a ideia de que o melhor do teu discurso está sempre para vir. Sacode o excessivo, o disperso, que afasta o interlocutor do que é o essencial - rasga a carne do osso do teu discurso.

terça-feira, novembro 18, 2008

Da minha amiga Daniela

Novembro 18, 2008
Os olhos do Mundo

Ao meu querido Angel



O meu amigo Angel é o co-autor da mais traumática das patifarias de que fui vítima na pré-primária e que até hoje me provoca pesadelos.

Preciso de me libertar desta angústia: Eu, Daniela, consentia ser metida e rolada dentro de um pneu repetidamente, o que desaguou num stress pós-traumático que me causou uma profunda aversão e pânico pelas aulas de ginástica em geral e as que incluiam cambalhotas para a frente e para trás em particular.


E, consequentemente, traumatizou e entristeceu o meu pai - ex-jogador profissional de andebol, defensor acérrimo da prática do desporto - que lenta e silenciosamente arrastou até hoje a culpa de eu ser molengona e diletante, tendencialmente avessa ao esforço físico.


Esta semana, uma amiga ajudou-me a resgatar esse episódio do pneu da memória, projectando-o, repentinamente, para o meu consciente:


- Mas como é que ele te conseguia convencer a voltar a entrar para o pneu?
- Acho que me dizia que estava lá qualquer coisa dentro...
- E tu voltavas sempre a cair?
- Mais ou menos. Não sei bem. Também me lembro-me de ele dizer: "entra lá outra vez... vá lá... só um bocadinho... eu não rodo..."



Este meu amigo que eu conheço assim, assim como podem ver por entre esta história, é hoje considerado uma das grandes promessas da literatura portuguesa como podem verificar ao longo desta entrevista que lhe foi feita pelo Carlos Pinto Coelho para o programa Acontece, cujo link vos envio: http://www.sendspace.com/file/69kfbr


Eu vejo-o exactamente como quando me enfiava dentro da roda, brincalhão e sorrateiro, desde a pré-primária, malandro e provocador, por detrás daquela parede de valores morais e bons costumes, numa boa onda meia católica meia saudável, numa loucura de cantarmos o Nossa Senhora do Marco Paulo no La Calle todos os anos no meu aniversário, de combinarmos mascarar-nos em pandan, um dia de José Castelo Branco & Alexandre Frota, outro de Nelo & Dália. Nas turras e desturras de deixarmos de falar até um de nós orgulhosamente ceder como quem não cede, como quem só esteve afastado pelos muitos afazeres e vidas complexas e depois sentarmo-nos ou cara a cara ou ao telefone e contar todas as histórias das semanas que passámos longe, umas mais insólitas que outras, nossas e das nossas avós.



Eu fico sempre muito orgulhosa dos meus amigos. Principalmente daqueles que na sua clarividência permanecem humildes e puros de coração como eu espero e sei que o Angel vai permanecer.


É surpreendente - para mim surpreendente - ver os meus amigos que eu amo e sempre amei se tornarem grandes também aos olhos do Mundo, ao darem corpo social a um estatuto que para mim sempre tiveram.


Demanda ou A Cor Nunca Vista, do meu Angel Angel Angel.

Afinal, não sei apreciar homens

Considerado em 2008 como o homem mais bonito do mundo (mundo, leia-se hollywood):


Nunca podes competir com o Outro - só podes competir com o melhor de ti próprio.
Éramos racistas para com os racistas, fascistas para com os fascistas. Combatíamos os de direita porque não queríamos dividir o mundo entre bons e maus, mas dividíamos o mundo entre bons e maus de acordo com as ideias políticas. Éramos fascistas das ideias. Não só dividíamos as pessoas como lhes atribuíamos intenções. A direita era desumana, a esquerda que ocupava o poder era traiçoeira, cedia aos interesses dos poderosos. A direita era insensível porque não se ralava com a fome no mundo e tratava os pobres e os imigrantes como se fossem lixo humano. A sua única preocupação era que os patrões gulosos enchessem o bandulho.
Nós éramos o Bem. É um truísmo dizermos que a Esquerda era o Bem, se não repare-se: preocuparmo-nos que uma pessoa, independentemente do seu dinheiro, pudesse aceder ao sistema de saúde, que os filhos dos desfavorecidos tivessem as mesmas oportunidades na educação, que os miseráveis tivessem de comer, que os toxicodependentes tivessem camas de hospital imediatamente disponível quando quisessem abandonar o vício, que as mulheres tivessem os mesmos direitos que os homens, que os ex-reclusos fossem perdoados e reintegrados no mercado de trabalho e na sociedade, que os deficientes tivessem as infra-estruturas adequadas às suas necessidades.
Tão imbuídos estávamos da nossa verdade e da nossa posição moral correcta que tínhamos uma obstinada recusa em reavaliar as nossas verdades. Os livros, os jornais, as pessoas que não fossem de esquerda eram desprezíveis. (E a esquerda perto do centro já não nos interessava, era tíbia, instável e sem coluna vertical.) Lembro-me de emprestar um livro sobre história da cultura e de me perguntarem:
– Ouve lá, este autor é de esquerda?
– Sim.
– Tens a certeza?
– Tenho.
– Ok, vou ler.
O importante quando se ouvia uma argumentação não era confrontar o que nos era dito com o que sabíamos, mas colocar rapidamente uma etiqueta: esquerda ou direita. Se era a segunda, colocávamos todas as pedras que dispuséssemos à porta dos ouvidos do cérebro.
A nossa visão parcial do mundo ia-se acentuando. Quando só se ouve uma versão da história, seja de um dos membros do casal ou de duas pessoas que discutiram seja da história de uma guerra, nós concordamos com o nosso interlocutor. Não é preciso mentir, basta empolar um facto, omitir pormaiores como se fossem pormenores. Lembro-me de uma vez, munido de informação à esquerda, ter participado num debate político em que apontava o despudor de haver uma nova lei que impedia que um trabalhador cujo despedimento fosse declarado no tribunal sem justa causa reintegrasse a sua empresa caso esta não quisesse. Do outro lado da mesa, um direitista contrapôs:
– Mas essa lei é só para empresas com menos de dez trabalhadores porque se entende que causaria mau ambiente na empresa.
Haverá sempre detalhes omissos para quem só conhece um lado da moeda.
Estuda como se tudo dependesse de ti, mas reza porque tudo depende de Deus.

São Tomás de Aquino

segunda-feira, novembro 17, 2008

Ninguém merece ser muito infeliz.

domingo, novembro 16, 2008

Uma torre imponente de força e doçura,
despojada de adornos
os seus olhos generosos
apontam para uma sociedade
sem preconceitos
sem classes e prenhe de amor
e brilham e brilham e brilham
na escuridão
penetram as superfícies
iluminando as raízes intangíveis
munida de livros
derruba o exército da futilidade
em seu redor
e a sua ilha brilha e brilha e brilha...
- Eu não tenho one-night-stands.

- Eu tenho. É o que mais gosto. Porque quando não conheces a pessoa, tens o espaço todo em branco por preencher da imagem dela. E, então, tu podes pintar tudo como quiseres, podes idealizar...

- Agarras-te deliberadamente a uma ilusão.

- Muitas vezes, sim. Outras até talvez não.

- Eu não consigo. Para mim, o sexo é o complemento de uma ligação afectiva, espiritual, intelectual, emocional. Quanto mais tempo demoro a conhecer uma pessoa, a saborear a sua alma, quanto mais cumplicidades se descobrem, melhor é depois. É tão bom entregares-te quando há amor, quando não há defesas...
- Há 5 anos que namoro e não conheço nenhuma miúda a não ser amigas ou primas da minha namorada. Só tenho pena porque quando quiser cortejar alguém, já estarei enferrujado. Precisava de recuperar o engenho. Praticando, claro está...
De uma forma teimosamente lenta, lá fui interiorizando a ideia de que para o grupo do pátio, liberdade de expressão, algo tantas e tantas vezes reclamado, era a liberdade concedida às suas ideias.
Lembrei-me de Jorge Luís Borges e do choque que me causara o argumento de que aderira ao partido conservador por ser aquele que, devido à sua natureza, era o menos capaz de gerar fanatismos. No zénite do afunilamento da minha mente, chegara a pensar: «Como é que um vulto da literatura, como é que uma pessoa da cultura, pode ser de direita?» Agora, ainda que o resultado da escolha me continuasse a causar desagrado, eu entendia o argumento. Antes via uma linha longitudinal, onde de um lado estava a esquerda e do outro a direita. Quanto mais avançávamos para a esquerda, mais a liberdade aumentava. Quanto mais avançávamos para a direita, mais a liberdade se obliterava. Observando a mesma linha, as conclusões mudavam. Quanto mais nos afastávamos do meio da corda, menos liberdade de expressão havia. Nos extremos, praticamente não havia liberdade – aí morava a verdade e a sede de usar o poder para instalá-la.
Era terrível chegar a essa conclusão. O preconceito, a discriminação, pejavam a prática discursiva da esquerda de tal forma que estava genuinamente convicto de que nós éramos quase imunes a eles. Afinal, esses conceitos, atacados no abstracto como conceptualmente negativos, existiam no concreto. Um preconceito (demorei a entender algo tão simples) não é apenas uma generalização abusiva, um juízo de valor negativo predeterminado contra os negros ou os homossexuais. A definição de preconceito, a substância do mesmo, mantém-se quando as realidades distorcidas são as figuras de autoridade, os patrões, os ricos ou os católicos.
Para atenuar a desilusão e não ficar órfão, agarrei-me a outra conclusão: a de que ninguém é imune, por completo, a ideias segregacionistas, a falsas crenças, a sectarismos. Muitas coisas fui compartimentando, mas outras houve que violavam a minha identidade mais profunda – aquela polpa que não pode sofrer sequer um arranhão.
Era próprio daquele grupo uma maneira particular de discutir. Massacrava o interlocutor com perguntas, fazendo-o entrar num comboio de lógica que no final o esmagava, e que culminava com a ironia de uma superioridade intelectual. Não se podiam hierarquizar pessoas pelo estatuto social, pela beleza, pelo dinheiro, mas podiam-se humilhar pessoas pelas suas (in)capacidades intelectuais.
– Eu pago-te o psiquiatra – lembro-me de ouvir um de nós dizer, cercado de gente do pátio, perante um interlocutor sozinho, isolado, que tinha acabado de ser humilhado em grupo, e que nos final, desmontada a sua argumentação, se sujeitava à piada, que funcionava como o pontapé final e supérfluo no inimigo já estendido no chão e que ainda provocava a hilaridade grupal.
Voltando à metáfora do ringue de boxe, se eu torcia sempre pelo mais fraco, torcia só até ao ponto em que o fraco não espanca o mais forte. Meus amigos, depois disso não contem comigo. É o risco na areia que não transponho. Nunca aprovarei presos políticos, tortura, pena de morte ou métodos de terroristas para alimentar qualquer revolução, nem linchamentos de fascistas, milionários ou patrões sem escrúpulos. Pensava que a universalidade da dignidade humana era mesmo… universal. Já sabem até onde eu vou, se quiserem levem-me convosco.
Um dia fui positivamente surpreendido quando alguém no pátio interpelou o resto do grupo:
– Nós somos muitos intolerantes para com a intolerância. Acho que o esforço que fazemos, por exemplo, para compreender as causas sociais do crime, a ideia de que ninguém é mau por natureza, deveríamos tentar fazê-lo também para perceber as causas que levam a que uma pessoa seja racista ou de direita. Isso ajudava-nos a compreender essas pessoas e a não ver de forma cega essas pessoas como reaccionários empedernidos. Não leva a lado nenhum ver as coisas assim…
O grupo olhou-o com espanto. Estaria ali um inimigo? Algumas, poucas, cabeças moveram-se, nem para a frente, em jeito de sim, nem para o lado, em jeito de não. Talvez se tivessem a confrontar com uma lucidez incómoda.

sábado, novembro 15, 2008

Outros episódios houve, contudo, que não deixaram esbater por completo o jantar da lua-cheia em minha casa, formando ligações com ele, e apresentando-me um padrão que eu não queria, de modo algum, ver.
Passeando com um dos meus melhores amigos do grupo do pátio pelos corredores da faculdade, vi-o bruscamente arrancar um cartaz.
– Então? – perguntei atónito.
– Tavam a anunciar uma reunião de jovens monárquicos.
– Foda-se, meu, eles têm liberdade de expressão.
– Foda-se, digo eu, pá! Se um patrão tem a liberdade para explorar os trabalhadores à vontade, para que é que me vens falar de liberdade? – respondeu cheio de ferocidade.
Mas a violência da esquerda senti-a quando tivemos poder. Modificando a frase de um filósofo, direi que não podemos julgar como inofensivas as pessoas que nunca tiveram a possibilidade de exercer o poder.
Era uma reunião cheia de agitação no ar para a constituição do jornal da faculdade. Os habitantes do pátio eram contra a existência da figura de editores, de redactores, colaboradores.
– O quê, bases e cúpulas? – soltou alguém, gerando o caos na reunião.
Depois, quando se falou dos nomes a entrevistar, um rosto irado e um dedo em riste levantaram-se da cadeira:
– Essa mulher nunca será entrevistada para o jornal! Ele é a co-autora do despedimento do meu pai.
Mais importante do que construir algo, era sentir que os nossos princípios não cediam à flacidez.
Consegui fazer um jornal, mas o grupo do pátio nunca deixou de tentar meter a pata. Quando convidei uma pessoa de direita moderada a escrever para dar uma nota dissonante daquela sinfonia monocromática em que inadvertidamente eu deixara o jornal se transformar, o grupo do pátio veio ter comigo:
– Isto é uma vergonha para ti, pá. Este gajo é mêmo ridículo.
– O jornal tem de reflectir as várias tendências que existem na faculdade.
– Mas se tu não concordas, porque é que publicas?
Um elemento do pátio entregou-me um texto para dizimar o opinante de direita. Tinha-lhe dado, como a qualquer pessoa, um limite de caracteres. Entregou-me um artigo cheio de ódio que excedia o dobro do espaço reservado. Pedi-lhe que reduzisse um pouco o texto, recordando-o do número de caracteres acordado. Falei com ele diversas vezes. «Não consigo reduzir isto, não dá. Diminui o tamanho da letra não me importo.» Procurei explicar-lhe o absurdo do pedido. Que cortasse algo, aumentava-lhe o limite de caracteres, mas ele que cortasse uma parte. Insisti, insisti, insisti. Garanti-lhe que se ele não o fizesse, teria de ser ele a fazê-lo – algo que me desagradaria imenso porque nunca até então cortara ou modificara uma linha. À data do fecho, voltei a massacrá-lo. Nada. Antes do jornal ir para impressão, tirei as partes mais inócuas do texto. Quando o artigo foi publicado, vim tristemente a saber que ele andava a espalhar:
– Há censura no Contacto e eu senti-a na pele.
Não levei a mal. Conhecia o sentimento – oh, conhecia-o tão bem! – por trás dessa atitude. O grupo do pátio excitava-se quando a censura lhe era aplicada, quando a repressão se abatia sobre ele. Era o mesmo tipo de prazer que o impelia a fazer tudo numa manifestação para que a polícia o agredisse só para se poder vitimizar. Era o sabor de navegar contra-corrente, o orgulho (porque de orgulho se tratava) de ser silenciado, vilipendiado, agredido, e ainda assim gritar: «Viva a liberdade!»

sexta-feira, novembro 14, 2008

Na faculdade, juntei-me a uma tribo de esquerda. Passávamos tardes ao ar livre, no verde do «pátio», fumando charros e conversando sobre política, arte, filosofia e coisa nenhuma.
Sentíamos a universidade como algo mais do que uma fábrica de aulas. Faltávamos a algumas cadeiras para tertuliarmos, felizes por podermos estender o corpo e a mente na relva e descalçarmo-nos ou usarmos calçar rotas.
Éramos livres, independentes, irreverentes, com a mente aberta e vasta como o céu, convencidíssimos de que o mundo seria um local bem melhor se as nossas ideias se aplicassem.
Todos os meses, no primeiro dia de lua-cheia, marcávamos um jantar e um convívio. Nos «jantares da lua-cheia» como lhes chamávamos, brindávamos à Lua, à liberdade, à fraternidade, à poesia, e à nossa imensa cumplicidade enquanto seres superiores, à frente do seu tempo, despojados dos preconceitos que empoeiravam as mentes dos seus coevos. Em noites mais etílicas, uivávamos fervorosamente
à Lua, num grito de libertação pelas almas aprisionadas.
Uma noite, marquei o jantar da lua-cheia em minha casa. Quando ia a entrar em casa, cruzei-me com um vizinho, amigo meu, e convidei-o para se juntar. Passada meia hora, a campainha tocou e umas calças de ganga, uma camisa aos quadrados metida dentro das calças, uns sapatos rasos e um cabelo de risco ao lado foram suficientes para gerar um silêncio tenso. Apresentei-o como meu amigo, seguro de que isso amenizaria o ambiente.
Fui à cozinha preparar o jantar e quando voltei à sala, ele estava num canto. Chamei-o para junto de mim e, na cozinha, ouvi murmúrios: «Temos betaria aqui hoje», «O gajo tem toda a pinta de ser daquelas meninos mesmo buéda conservadores». Falava com ele para abafar os sons vindos da sala. As vozes foram-se silenciando e quando voltámos à sala foi com agrado que reparei que um membro do pátio entabulava conversa com o meu amigo. Não demorou muito tempo, contudo, para que ele viesse ter comigo à cozinha:
– Ó Alexandre, desculpa lá, posso fechar a porta? É que queria falar uma coisa contigo… Eh pá, tá-me toda a gente a olhar de alto a baixo, a fazer piadas do beto… «Olha o beto não vai gostar, olhar o beto isto, olha o beto aquilo.» Eh pá, nunca me aconteceu uma cena assim, pá.
Depois dessa noite, registei na mente o que alguém mais perspicaz já deveria ter intuído: o grupo do pátio não era misturável com uma grande fatia do «resto do mundo».
No dia seguinte, falei com o grupo do pátio. Era um dos meus princípios de vida: sempre que estivesse chateado com alguém, dir-lhe-ia. Só assim as pessoas poderiam evoluir, pensava, esperando que fizessem o mesmo comigo. Por outro lado, achava que tudo aquilo que nos incomodava no Outro, tudo aquilo que nos fazia sofrer e que nós guardávamos connosco, era atirado para um canto de nós onde se fabricava uma bola de rancor que se ia agigantando com os materiais do nosso silêncio.
Falando de pé para um conjunto de pessoas sentadas nas cadeiras do pátio, vi-me na triste figura de pregar um sermão. Quando acabei de falar, estava aliviado por ter dito o que pensava. O sermão mudava da minha cabeça para a deles – eles que reflectissem se quisessem.
O meu sentimento tribal não fora abalado, mas a primeira fenda fora sulcada: num ponto eu não estava em sintonia com o grupo do pátio. Se eu não gostava de ser discriminado por usar calças rotas, de igual modo não gostaria de viver na ditadura das calças rotas.
Com o tempo, percebi o que podia esperar e não esperar do grupo do pátio e, evitando os embates do grupo com o resto do mundo, fui vivendo-o por dentro até ao tutano. O deslumbramento de descobrir que havia pessoas como eu, com os mesmos códigos e linguagens, à medida que me reforçou o sentimento de pertença ao grupo do pátio, foi-me enclausurando progressivamente num gueto – algo de que só muito mais tarde me apercebi.
Em qualquer competição, sobrepondo-se a qualquer outro critério, procuro sempre saber quem é o mais fraco para torcer por ele. Num jantar, quando sinto uma pessoa isolada, vou conversar com ela. Quando alguém é ostracizado ou humilhado, ergo-me pronto a defendê-lo antes de saber as suas razões. Mesmo quando o violador de crianças atravessa a multidão, sôfrega de fogo e de pedras, é do lado do criminoso que eu estou. Não é uma escolha racional.
Desde novo que algo muito forte dentro de mim me levou a acreditar que poderia mudar o mundo e salvar todas as pessoas infelizes que se cruzavam comigo.
A política, na sua acepção mais alta, parecia-me um terreno obrigatório para quem estava tão carregado de ideais e assim dediquei uma parte da minha vida a ela, montando casa na esquerda.
Porquê a esquerda?
Por uma emoção.
No ringue de boxe, o homem de esquerda tem um preconceito sistemático, uma inclinação irresistível a favor do que leva mais pancada. Depois disso, vêm as reflexões racionais, os longos tratados, teorias e sistemas que os suportam, mas na origem dessa escolhas, como na origem das grandes escolhas em geral, está uma crença, uma opção estética, um sentimento.
Qualquer arrazoado, qualquer estudo, tese de doutoramento, investigação ou mera opinião mais não é do que o encadeamento lógico de premissas e conclusões que contêm, em determinada altura, axiomas não demonstráveis. É por isso que conseguimos arranjar cem estudos para validar uma opinião e outros cem estudos para validar a opinião contrária, e quanto mais a sociedade de informação se desenvolve, mais estudos aparecerão para cada um dos lados.
Havendo sempre buracos irracionais nos nossos sistemas de crenças – sejam elas pessoais, éticas, políticas ou religiosas –, as nossas opções estão sempre algures escoradas em algo que extravasa a razão. Se assim não fosse, teríamos todos as mesmas opiniões, o mundo reger-se-ia uniformemente pelas mesmas leis e pelos mesmo modelos políticos e económicos, porque a razão aferiria todas essas coisas, a todos demonstrando a sua evidência.

Angel-reflections-in-rewind
Angel, às vezes imagino-te à noite, numas catacumbas, assim numas grutas enevoadas... a escrever com uma pena. E depois esfumas-te ao alvorecer, e vais para a praia e transformas-te noutro ser, o ser que as pessoas vêem durante o dia.
Vista de fora, a vida de alguém é apreendida nebulosamente. A luz interior, a corrente subterrânea e ininterrupta, escapa-nos sempre.

Não era nada disto que eu queria dizer…

Tantas vidas dentro de uma vida. Cada momento é um feixe de muitos planos, visíveis e ocultos, actuando em simultâneo. O que se segue são fatias recortadas de cinco anos da existência de uma pessoa. Ao se juntá-las de forma que apareçam como um todo apresentável, criar-se-á a ilusão de uma realidade una e linear – dando a provar ao leitor um bolo que nunca existiu.

Uma ideia maior sobreexcitou-me, mas as palavras esmagaram-na.

Não há bons e maus, mas há Bem e Mal.

Péssimo. Soa a cliché.

(três maneiras de começar e nenhuma delas a satisfatória)
I wouldn´t like to live in a perfect world - but so imperfect?

Angel-a-quem-me-disser-que-não-só-apontarei-a-fome

Plágio

Tenho sabido de histórias descaradas de plágio e algumas feitas por pessoas que usurpam coisas via Internet. Juro que não entendo. Sermos admirados por algo que sabemos não ser nosso?


Angel-os-raios-do-sol-que-não-vêem-do-sol
Faltam-lhe leituras.

O Vulto Negro (terceira parte)

O vulto negro caminhava pela praça coberta de neve. Hirto, alto, seguiu pela rua das montras iluminadas. Os seus passos regulares foram interrompidos por uma poça de água onde a lua se reflectia. Baixou-se ligeiramente, passou a mão num gesto rápido pelo fundo das calças, e continuou. Atravessou o aglomerado de casacos, gorros e cachecóis. Furou em linha recta e parou junto à pista. Os risos esmoreceram e uma rapariga cedeu-lhe a sua posição encostada às cordas, levando lentamente uma pipoca à boca enquanto espreitava o vulto negro por cima do ombro. Moveu a cabeça para a direita lentamente e depois para a esquerda lentamente, atirou um olhar para a pista e voltou atrás. Um homem afastava um pouco de neve do cabelo da sua mulher e limpava a humidade do seu rosto. A mulher acotovelou o homem e apontou com a cabeça para o sujeito que passava por eles.
O vulto contornou a praça, subiu uma rua. Parou junto a um prédio, a sua sombra estendida ao longo de toda a rua, tirou um fósforo, acendeu um cigarro, ergueu a cabeça para uma janela iluminada e meneou-a. Deu um piparote no fósforo, e seguiu.
Andou sem parar até chegar a uma porta escura, onde entrou, limpando a neve dos sapatos no tapete.
Ela, gelo róseo e prateado à espera de derreter na Primavera.


F. Scott Fitzgerald, O Último Magnata
«-Eu amo-te mas não dessa maneira.
- O que significa dessa maneira?
Jenny hesitou, os olhos distantes. - Tu não me... perturbas, Jake. Não sei, houve homens que me perturbaram de alguma maneira quando me tocaram, dançando ou uma coisa assim. (...)
- Apaixonei-me.
- Estás a querer dizer que te apaixonaste por mim?
- Não.
- O terrível monossílabo pareceu levar uma eternidade para cruzar a pequena distância que os separava na mesa: "Não - não - não - não - não!".»



idem
«O seu rosto, o rosto de uma jovem virginal, pairava fragilmente sobre a poeira etérea da tarde. (...) nem ele jamais tinha visto uma textura tão pálida e imaculada como a de sua pele, tão fulgente e vistosa como a dos seus olhos.(...) Mas ele estava gostando da humanidade naquela noite, sob o luar de verão dos Borghese Gardens. A lua parecia um ovo radiante, macio e suave como o rosto de Jenny Delehanty do outro lado da mesa, enquanto uma brisa salgada soprava de leve sobre as mansões da região, como que recolhendo o aroma das flores e depositando-o ali no relvado do restaurante. (...)»



F. Scott Fitzgerald, A Escada de Jacob
(há nomes para tudo menos para aquilo que sinto)

idem
As pessoas de quem mais gostamos são as pessoas com quem estamos bem no silêncio.

A L A

quinta-feira, novembro 13, 2008

As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, Outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga ―
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.


Herberto Helder
Quando estou zangado com alguma mulher, penso sempre: «Porra, mas um mundo sem mulheres era o tédio absoluto. A humanidade seria um bocejo.»

Velho Ancião
Estamos juntos, mesmo quando nos separamos pelas ruas e, dentro de nós, somos um exército de segredos, mesmo quando nos escondemos do mundo que desejámos e que desejamos indescontroladamente, desincomparavelmente, como um silêncio que mente e mente e não mente.

Estamos juntos no silêncio, apesar desta voz carregada por estas palavras, apesar das formas todas dos nossos corpos e dos desenhos que somos capazes de fazer com o olhar. As nossas mãos procuram-se à noite, dentro das luzes apagadas. As nossas mãos, nossas, encontram-se agora e são invisíveis. Sabemos que os nossos dedos tocaram outros dedos, tocaram nomes e cordas de guitarra. Sabemos quem somos. Somos muitos e sabemo-nos reconhecer. Assim, como aqui, esperamos a madrugada, sabendo que fomos nós, juntos, que a construímos. Esperamos muito mais do que a madrugada. Temos força de para sempre, aprendemos a renúncia de nunca mais. A disciplina está enterrada naquilo que não é medo, é força, e que nos protege, que nos protegemos a nós próprios. Esta voz, se eles conseguirem entender esta voz, mudaremos de língua. Esta voz é esta sala. Esta voz são os caminhos que fizemos à margem de cidades e de argumentos razoáveis. As palavras são pedras. As certezas perseguiram-nos e abrandámos para que nos alcançassem. Agora, controlamos pontes e quotidianos. Agora, esta voz dirige-se ao teu rosto. Nada nos é impossível. Nem mesmo o impossível nos é impossível. Explicamo-nos uns aos outros e, sem que ninguém nos perturbe, encontramo-nos sempre como agora, aqui, assim, como agora, aqui, assim.

José Luís Peixoto
Mas tens de me deixar que te ajude.
Ainda não percebi se é estimulante ou desgastante querer reparar todas as injustiças do mundo.

Shades of sunlight (Pino)

Mulher da vida (substituam por homem e é igual) é aquela pessoa que perpassa ao longo de muito tempo (para sempre?) toda a nossa vida sentimental.

O nosso coração é grande, e ao longo da vida, temos várias namoradas, e vamos amando, ou estando apaixonados, ou o que quer que seja, por diferentes pessoas. Mulher da vida é aquela que fica, quando todas as outras desaparecem do coração. É aquela que continua sempre. Ténue, mas incessante. Ténue? Para durar tanto tanto tempo, não pode ser escaldante. Nenhuns pés aguentam a areia a escaldar muito tempo. Mas por vezes ela queima também. E nunca desaparece. É, insconscientemente, o nosso referencial para - vem aí uma palavra horrível - comparar todas as outras.

É uma ferida perenemente aberta, mas é uma ferida doce, uma delícia nos nervos, uma massagem suave na parte de trás do pescoço, um afagar do tornozelo que está sempre lá quando necessário...


Quem não o tem (e presumo que a maioria não a tenha), dificilmente entede.

Porque gosto tanto do Fight Club?

Porque é uma metáfora do escapismo.

Todos precisamos de escapes: o jornal da manhã, o cinema, o futebol, as novelas, as festas, as saídas à noite, o Expresso ao fim-de-semana, os jantares-e-almoços-de-coisa-nenhuma.

O Fight Club é o estímulo da vida paralela, as rosas no horizonte do dia de trabalho cansativo, monótono e mecânico, os girassóis na borda do dia baço que torna todo o trabalho suportável, o rebuçado no fim do caminho, a sorrir lá ao fundo, gigante :)
Quando não tiveres propósitos na vida, dedica-te à santíssima trindade: sexo, droga e alcóol.

Se tiveres dinheiro, poderás dedicar-te ainda ao consumo compulsivo e ao jogo.
- Rezei poucas vezes na vida, mas quando rezei, porque estava mesmo atrapalhada, rezei logo a todos: ao Buda, ao Alá, a Jesus, a todos...
- Eu apaixonei-me por ele quando descobri que ele dizia que jogava no Benfica e era tudo mentira. Dizia que tinha um curso e não tinha o 12.º A fragilidade que estas mentiras pretendiam encobrir... Senti um carinho tão grande pelo seu medo, a sua insegurança. Senti amor por aquele desamparo, consegues imaginar o quão pequenino ele se sentia? Aquela vergonha dele fez-me amá-lo e dar-lhe força.
- Angel, a Sofia Salgado é real?
O mundo tudo irá fazer para que o teu doce eu idealizado se afaste cada vez mais da pureza, da verticalidade - tens de remar, mais força, mais força, mais força.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Luta, luta, luta

Tentar não pensar: as pessoas que alimentaste quando todos puseram de parte, que só vêem ter contigo quando precisam de alimentar, e que te mordem quando já não precisam.

Tentar que isso não te corroa.

Tentar que isso não muda o teu eu.

Tentar viver sem rancor.
E qual foi o teu pior pensamento?
E qual foi a tua pior acção na vida?
E a melhor?
E a mais repetida?
O que poderias ter mudado e não mudaste?
Que marcas deixaste no mundo?
O que fizeste sentir às pessoas que mais te eram próximas?
Como influenciaste positivamente a vida dos que te rodeiam?
Como influenciaste negativamente a vida dos que te rodeiam?
Quando recusaste ajuda a alguém?
Quando prestaste ajuda a alguém?
Quando por egoísmo te deixaste estar no teu ninho?
Quando por cobardia fugiste?
Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verosimilhança." Um bom exemplo disso está num verso de Manoel que afirma que "a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso." E quem pode garantir que não é? "Descobri que servia era pra aquilo: Ter orgasmo com as palavras."

Projecto Releituras
Troca

Por vezes parece
que deixei de ser eu
e sem uma palavra
tornei-me num outro alguém
impregnado de desejos necessidades sonhos
e vontades
por uma vida
de presunção e fraude
e repetir e reescrever
incerto sobre quem era
antes deste eu se mudar
mas agora sei que este eu
não é realmente o que era...

amigos como estranhos
e estranhos como amigos
e sinto como se estivesse enrolado num porquê
sim os meus amigos como estranhos
e os estranhos como amigos
e eu sinto como se estivesse perdido numa mentira

e todos os dias o meu mundo torna-se mais lento
e mais frio e mais pequeno
e mais velho e mais baixo
e todo o dia
o meu modo de agir torna-se cada vez mais uma brincadeira
sim o mundo torna-se mais lento
e mais frio e mais pequeno
e mais velho e mais baixo

e eu estou farto de estar sozinho comigo mesmo
e estou farto de estar sozinho com todas as outras pessoas
sim estou cansado...
como se estivesse doente

nenhuma das minhas coisas favoritas
são coisas certas
para o homem do espelho
gritando-me
no ódio de outra
falsa partida
sujo puído e gasto
para cima e para baixo
até cair no chão
desintegrado
tão confuso
todo feito na crença
de que eu sou o mesmo
como são os mesmos olhos no vidro
mas eu vejo os meus olhos mudarem...

e toda a noite o meu mundo torna-se mais rápido
e mais leve e mais pequeno
e mais apertado e mais artificial
e a minha verdade torna-se mais perto de uma ameaça

e eu estou farto de estar sozinho comigo mesmo
e estou farto de estar sozinho com todas as outras pessoas
como se tivesse cansado?
como se tivesse assustado...


the cure

Estado Líquido

- Bem, parece que o tempo nem passou. Estamos aqui sentados a falar...
- Não estamos sentados, estamos a boiar.
- Sim, a boiar, é lindo. Nem sem onde estou e com quem estamos. Esta conversa foi... a sério... mágica. Linda. Foi um momento fora do tempo.
- Vai ficar sempre comigo.
- Connosco.
- A minha roupa tem personalidade própria. Um dia é aquela blusa que tenho de vestir, outro dia o verde é o destino incontornável daquele dia. É engraçado porque olhei-me ao espelho e detestei a roupa, mas passadas duas semanas, passei o dia a pensar que tinha de levar aquela roupa para a noite. E naquele dia tens de levar aquela camisa e não há nada a fazer e no outro dia por mais que tentes combinar a camisa, esquece, não dá, hoje não é dia da camisa. É como se houvesse um fluxo de energia entre mim e ela.
O prazer de descobrir um novo autor.

(último: Manoel de Barros)
Quanto mais trabalhas, mais vontade tens de trabalhar. Quanto menos trabalhar, menos vontade tens de trabalhar.

Quanto mais tempo livre tens, mais tarefazinhas desnecessárias e múltiplas preenchem o teu dia, desde os vendedores que tocam à tua porta todos os dias, ao banho do cão, às compras, ao cabeleireiro, aos inquéritos de rua.
- Não sei se era capaz de ficar com um homem muito feio porque eu penso muito na questão dos genes. Ter filhos feios, credo, coitados. Tenho de ter um progenitor com boas feições para garantir uma boa linhagem.
- Eu não. Não como gajas feias.

o caminho do «bem» vs. o caminho do ego, das pessoas, do prazer

durmam quando eu estiver morto, anjos
eu dormirei quando estiver morto

mas até lá...

eles disseram-me que poderia viver eternamente
se eu me mantivesse limpo
eles disseram que eu seria o escolhido
se levasse alguém pelo bom caminho

sim é a única forma de ser
nunca pensar que não é justo
é uma escalada de pânico de olhos verdes
para a beira de nada

dêem-no às galinhas
e vejam se cola
sim dêem-no aos gatinhos
e vejam se pega
depois dêem-no ao maravilhoso
maravilhoso eu
e eu direi quando regressar
como é que é
com todos os rapazes e raparigas felizes
sim o mundo inteiro feliz
e o amor que eles sentem por mim
sim o amor que eles sentem por mim

durmam quando eu estiver morto, anjos
eu dormirei quando estiver morto

eles disseram que poderia ter o mundo
se me mantivesse calmo
eles disseram que eu poderia ser o homem
se simplesmente deixasse de ter isso em vista

Trajado para o efeito outra vez
a divertires-te com todos os teus amigos
oh, como uma hora casual
pode recuperar todos os pedaços deste mundo

dêem-no aos coelhinhos
e vejam se encaixa
sim dêem-no aos cãezinhos
e vejam se dá
depois dêem-no ao maravilhoso
maravilhoso eu
dir-vos-ei quando voltar
como é que é
com todos os outros rapazes e raparigas
sim todo o outro incrível
mundo por explorar...

e a maneira como isso se revolve cá dentro
e o porquê de nunca arder à noite
e o modo como eles fazem a subida
e o modo como nunca imploram tempo
e o modo como eu me mostro surpreso
e a razão porque nunca fecho os olhos
sim tal e qual como é...

durmam quando eu estiver morto, anjos
eu dormirei quando estiver morto

mas até lá...

bem...
eu deveria pelo menos sentir-me cansado, penso
antes de me estender para sonhar...



The Cure
Todo o prazer traz um taxímetro embutido.


José Alberto Braga, Pensamentos & Reflexões
As pessoas não param. Não reflectem. Agem sem saber porquê. Têm trinta anos um trabalho e quando alguém lhes pergunta: «O teu trabalho foi útil a alguém?», estranham-nos como se fôssemos loucos. Assimilam acriticamente. Não pensam: «o que faço bem?», «o que faço mal?»
O problema não é escrever, o problema é reescrever.

A L A
Este castelo é vasto e infinito... percorre-o à tua vontade. Muitas portas estão fechadas e a chave terá de ser inventada. Nenhum labirinto te leva a lado algum. Os quartos mudam de lugar de quando em vez. E há sempre um quarto que te agrada, porque tu podes sempre construi-lo à tua medida - outros há que não tocas. Os armários estão carregados de coisas, se os abrires, afasta-te das portas para que não te caia tudo na cabeça.

Bem-vind@ ao meu eu.
O escritor António Lobo Antunes, Prémio Camões 2007, disse que o romance "A Vida Num Sopro", o último livro de José Rodrigues dos Santos, "é uma grande merda".

Citado pela agência Lusa, Lobo Antunes confessou durante um debate em Oeiras que fica "assombrado com pessoas que escrevem livros em dois meses", num país "onde todos são escritores". Referiu que ele é "lento", até porque não gosta de livros "fáceis (...), como as mulheres fáceis que nos piscam o olho".

Durante o colóquio, moderado pelo jornalista da TSF Carlos Vaz Marques, o autor de "Fado Alexandrino", sublinhou que lhe interessa falar das coisas "para as quais não existem palavras", porque a Literatura "é uma forma de pôr cá para fora as emoções".

Definindo-se como "um solitário", António Lobo Antunes revelou que trabalha actualmente 12 a 13 horas por dia numa garagem, por cima de um bar de alterne, na Rua Conde Redondo, em Lisboa, sem telemóvel e sem computador "e com o dinheiro nos bolsos como os ciganos".

Lobo Antunes lançou no início deste mês um novo romance ("O Arquipélago da Insónia").


Agência Lusa
I saw you this morning.
You were moving so fast.
Can’t seem to loosen my grip
On the past.
And I miss you so much.
There’s no one in sight.
And we’re still making love
In My Secret Life.


L C

terça-feira, novembro 11, 2008

If you want a lover
I'll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I'll wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
I'm your man

If you want a boxer
I will step into the ring for you
And if you want a doctor
I'll examine every inch of you
If you want a driver
Climb inside
Or if you want to take me for a ride
You know you can
I'm your man

Ah, the moon's too bright
The chain's too tight
The beast won't go to sleep
I've been running through these promises to you
That I made and I could not keep
Ah but a man never got a woman back
Not by begging on his knees
Or I'd crawl to you baby
And I'd fall at your feet
And I'd howl at your beauty
Like a dog in heat
And I'd claw at your heart
And I'd tear at your sheet
I'd say please, please
I'm your man

And if you've got to sleep
A moment on the road
I will steer for you
And if you want to work the street alone
I'll disappear for you
If you want a father for your child
Or only want to walk with me a while
Across the sand
I'm your man

If you want a lover
I'll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I'll wear a mask for you

Leonard Cohen
Kant não saiu da sua cidade-natal e produziu a filosofia que produziu. Uma das explicações que se dá é que Kant vivia ao pé de um porto marítimo e ia lá muitas vezes beber as histórias dos marinheiros que iam e vinham de vários pontos do mundo.

Às vezes, penso que tenho a sorte de o meu quarto dar para uma escola. Sem sair de casa, posso acompanhar tantas vidas e sucessivas gerações...

Angel-o-meu-porto-marítimo-é-a-escola-gaspar-correia
Nem sempre os teus sonhos rechaçam nas fragas da realidade. :)) so happy...
Ouço a ministra da Educação responder a críticas políticas:

«Os insultos ficam com quem os pratica.»

Mas de que cátedra fala este governo? Que arrogância é esta que qualquer crítica é sempre devolvida como «anti-moderno», «má-fé», «velho do Restelo pertinaz»?

Este governo tem de levar um banho de humildade nas urnas.
A sua assinatura são reticências.

Tarados sexuais vs. tarados mentais

- Angel, a minha fraqueza são as mulheres inteligentes. É assim, o que hei-de fazer? Fraquezas são fraquezas. Adoro escarafunchar lá dentro daqueles cérebros, andar lá a mexer. Sou fiel, mas não resisto a em cinco minutos andar lá a esgravatar, a esgravatar... Ai-a-a-a-a--a adoro, adoro.

Socrático

Quando vê pessoas muito seguras de um ponto de vista, gosta de fazer perguntas e perguntas até reduzir ao absurdo a sua posição - desvelando um axioma indemonstrável ou uma incoerência lógica. Quando estilhaça uma verdade absoluta na cabeça de alguém, sente-se feliz.
Sempre quis ser escritor.
Um dito popular em que eu não acreditava e que a realidade me teima demonstrar que estava errado: se queres perder um amigo, empresta-lhe dinheiro.
- Estou de ressaca há três dias. Quando penso nisso, fico angustiado. Então bebo mais e esqueço logo... e tá-se bem.
Os sonhos desprendendo-se dos que dormem... que belos todos eles... os sonhos lindos... flutuando na noite... no silêncio... em que só eu estou acordado.

She has to...

- gostar de poesia e literatura.
- ser igualitarista entre os sexos.
- as conversas de metafísica não a poderão entediar.
- gostar de Sol.
- gostar de chuva.
- ter um sorriso sincero.
- não pode ter vestígio de homofobia ou racismo.
- um bom programa caseiro agrada-a.
- não pertencer ao clube do sexo-pelo-sexo.
- ser capaz de uma grande gargalhada.
- ter um toque, pelo menos um atomozinho, de excentricidade.
Era rico e famoso. Tinha imensos amigos. Caiu em desgraça. Já ninguém o conhecia nem se lembrava de ter ido às suas festas («alguém me arrastou para lá, eu não me identicava com aquilo»).
Abomino pessoas que martirizam os mais fracos e bajulam e são subservientes para com os mais fortes.
Let's swim to the moon, uh huh
Let's climb through the tide
Penetrate the evening
That the city sleeps to hide
Let's swim out tonight, love
It's our turn to try
Parked beside the ocean
On our moonlight drive

The Doors
She lives on love street
Lingers long on love street
She has a house and garden
I would like to see what happens
She has robes and she has monkeys
Lazy diamond studded flunkies
She has wisdom and knows what to do
She has me and she has you
She has wisdom and knows what to do
She has me and she has you
I see you live on love street
Theres this store where the creatures meet
I wonder what they do in there
Summer sunday and a year
I guess I like it fine, so far
She lives on love street
Lingers long on love street
She has a house and garden
I would like to see what happens
La, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la

The Doors

segunda-feira, novembro 10, 2008

Porque magoamos quem precisamente mais amamos?

Porque o amor é contíguo do ódio (pouco crível).

Porque vivemos mais próximos de quem amamos, e quando se vive mais próximo, mais omnipresentemente, os defeitos vêm ao de cima e, desiludidos com a quebra da máscara (da nossa perante o outro e a do outro perante nós), tornamo-nos ásperos e defensivos.

Porque as pessoas não sabem manifestar o enorme amor que contêm. São desajeitadas a expressá-lo. Sabem expressar melhor a ferocidade e a crueldade. O amor é, para muitos, uma fraqueza - ficamos vulneráveis quando amamos, dependentes, o nosso bem-estar é duramente afectado pelo bem-estar do ente amado.

Porque temos raiva do quanto a pessoa que amamos nos faz sofrer - porque tem uma condição de mortal, porque adoece, porque viaja, porque está longe, porque nos pode abandonar um dia.


Angel

A Canção da Sereia

poderá ter sido o seu cabelo dourado
que me deu a volta à cabeça
eu não olhei para a fitar
como se estivesse hipnotizado
mas fiquei preso
na maneira como ela apontou lentamente para baixo
e para baixo me afundei
e ainda sem um som
o mundo estava longe
e eu fora enganado

poderá ter sido a sua pele prateada
que me afogou
eu não pretendia andar às voltas
como se estivesse deslumbrado
mas fui raptado
sem um nome e sem memória
esperei ali
demasiado assustado até para respirar...

ela cantou... ela cantou... ela cantou...

ela cantou
«diz que me amas
e implora-me para ficar»
ela cantou
«diz que me amas
antes que seja tarde»
ela cantou
«dá-me a tua vida
ou eu terei de voar para longe
e tu nunca mais ouvirás esta canção outra vez»

poderão ter sido os seus olhos de cristal
que me fizeram parar
eu não queria suspirar
como se tivesse estupidificado
mas eu foi atirado
e no ponto de não retorno
a minha vida inteira
ali suspensa
de uma única palavra
ser dela para sempre
ou ser meu

the cure, 4.13 dream
A infelicidade é contra natura.
Quando ouves a história de alguém, de como é injustamente maltratad@, tendes sempre a concordar com o teu interlocutor. Os maus são sempre sempre sempre os outros.

Lembra-te de que tu deves ouvir sempre as duas versões da história.


Angel

Deveria haver censura?

Uma notícia diz que um homem teve relações com uma miúda de dois anos e que, não conseguindo penetrá-la, cortou-lhe os lábios antes de a violar. Haverá horror maior, mesmo que imaginado? É esta a mesma natureza humana que alberga o sentimento do bombeiro que dá a vida para salvar a criança, do cavaleiro que dá a camisa ao pobre no dia de tempestade, de quem parte para África para ajudar o semelhante e lá morre de doença.

Criacionismo

Fecha os olhos. Pensa que nada poderia existir. Porque é que existe algo? Porque é que tu estás consciente disso? Porque é que houve um momento em que algo começou a existir?

Como começou... Quando foi? E antes, o que existia? O nada? Não, o nada nem sequer é nomeável. E o nada não dá origem a algo. Todo o efeito é precedido de causa, então como explicar que houve um momento em que algo surgiu? O que havia antes? Ok, sempre existiu então - é o único corolário lógico.


O livro Breve História de Quase Tudo respondeu-me... é que a criação do universo implicou a criação do tempo e do espaço, surgiram ambos com o universo. Eliminam-se automaticamente os termos «quando», «onde». E antes? Não há antes, o tempo surgiu ali.

São abstracções difíceis de ter, mas necessárias.

Se fecharmos os olhos, perceberemos que há uma recessão infinita e que é mais fácil que tudo tenha começado com Deus, com uma causa primordial que organizou isto tudo do que o nada. O nada ou Deus são axiomas não demonstráveis, pelo que só com a mente poderemos sondar esse cosmos primordial.

E se foi Ele quem criou, Ele definido tautologicamente como causa primordial, é expectável que Ele ou Ela tenham continuado presentes. Fiz o universo e depois caguei... Pouco crível.

E o que fazemos aqui? Qual o sentido disto? Se tudo à nossa volta obedece a regras, se toda a natureza está em harmonia, se todos os dias o sol se põe, se sempre que lanço um objecto ao ar, ele cai ao chão, não deverão haver igualmente regras no mundo do espírito?

É um privilégio estarmos aqui. Jostein Gaarder garante que para estarmos aqui é porque uma linhagem de biliões de pessoas sobreviveu e que em milhões de espermatozóides de biliões de biliões de pessoas só um garantia sucessivamente a nossa possibilidade. Se uma dessas pessoas tivesse morrido, não estaríamos aqui. Conclui que a probabilidade de estarmos aqui é como a regra à excepção de que não se pode ganhar a lotaria mil vezes seguidas só com um bilhete.

Aproveitemos a vida para ser felizes e fazer do mundo um local mais belo para se viver.

Angel
- Acho o corpo humano masculino horrível, o pénis então. Nenhuma mulher se excita só de ver o corpo de um homem.
A rapariga de 7 anos, filha de um amigo, não me larga e vem sempre atrás de mim aos gritos:

- Estranho, tu és estranho.

- Ò senhor estranho que é amigo do meu pai.

Já me disse isto seguramente mais de vinte vezes.
Os dois formaram o casal mais desparafusado dos anos 20:
Juntos, Scott e Zelda beberam champanhe contrabandeada, tiraram a roupa em teatros da Broadway, mergulharam em fontes públicas, queimaram móveis de hotéis e foram profetas da intoxicação e da irreverência escandalizando a sociedade americana. Iam a festas de pijama e, em uma delas, chegaram sem ser convidados andando de quatro e pedindo para alguém aceitá-los como cachorrinhos de estimação. Em outra ocasião, pegaram as jóias e relógios dos convidados e colocaram numa panela com molho de tomate.

Carlos Marques
«É raro encontrar beleza e inteligência na mesma pessoa (...) Quando isso acontece, ela tem de passar a primeira parte da vida com o medo terrível de que a chama que possui tenha que se extinguir um dia; e às vezes passa o resto da vida tentando reavivar essa mesma chama... um dos fósforos é a beleza que perdeu e o outro é a inteligência que não cultivou – e os dois fósforos juntos não acendem nem mesmo um fogo de artifício.»

Francis Scott Fitzgerald
Tenho lido sobre pessoas bipolares, até porque conheço algumas clinicamente diagnosticadas, e porque muitos artistas que admiro, com Zelda e Scott no zénite, tinham essa síndrome. Poderia escrever imanso sobre... deixo um pormenor que para mim resume tudo.

Quando estão na fase eufórica, sentem tudo que têm tudo tão ilimitadamente que chegam a comer o dinheiro. Lindo.

Tocados pelo fogo, o livro que aconselho.
As pessoas são estranhas quando tu és um estranho
os rostos afiguram-se horríveis quando estás só
as mulheres parecem-te traidoras quando não és desejado
e as ruas desiguais quando estás em baixo

The Doors
Há alturas em que vemos coisas tão estranhas debaixo do céu... que a única conclusão é: eu já não sei nada.

Nos últimos tempos, procuro-me agarrar à ideia de que não entendo nada de nada.

Digam-me lá se não é uma conclusão válida quando uma pessoa vê coisas como:


a) uma pessoa que tira boas notas e que empresta voluntariamente os seus apontamentos. Ninguém melhora e todos acham os apontamentos sofríveis. Um dia, um colega descobre em casa os apontamentos verdadeiros e é um escandâ-lo. Ele fazia aqueles de propósito

b) quando uma pessoa namora com alguém só para despertar o interesse do amigo.

c) quando uma pessoa vai ao dentista comigo e senta-se e não abre a boca e diz ao dentista: peça-me tudo, mas a boca pode ter a certeza que não abro. E depois, perante a estranheza do pedido, vai-se embora e paga a consulta.

d) quando uma miúda me diz que adorou estar com y mas que disse a y que ele beijava pessimamente só para... ver.

e) quando vejo uma pessoa toda nua, à chuva, a fumar um cigarro.

domingo, novembro 09, 2008

Sobre uma pessoa que o auditório conhecia, ele disse:

- Ela a foder é mais ou menos, tem um fiozinho na cona, toda rapadinha, faz bons broches (sim, engole tudo) e bate excelentes punhetas.
- Onde é que foste sair?
- Ao loft.
- Mas isso não é só putos?
- Foda-se com a cardina que tava podia tar em qualquer lado...
- Então, a noite?
- Uma merda. Zero gajas.
Leio no Expresso um crítico tímido dizer que Saramago é perifrástico (para dizer algo que poderia ser dito em poucas palavras, tem de usar centenas delas), e dá um exemplo. Há um terrível medo em ferir susceptibilidades quando se trata do nosso Nobel. Até o PCP que expulsa militantes por tuta e meia, lhe permite apoiar Mário Soares, apelar ao voto em branco, rejeitar Cuba, e dizer que a esquerda não faz puto ideia do mundo em que vive. Só a Saramago tais liberdades são concedidas no PCP. Todos iguais, todos iguais, mas calma que o homem é Nobel. Saramago não é perifrástico, é chato. Muito chato. Ilegível em alguns livros. Além disso, é um ser humano desértico, rancoroso, e ufano, e a sua escrita é desértica, rancorosa e ufana.
Desde novo que algo muito forte dentro de mim me levou a acreditar que poderia mudar o mundo e salvar todas as pessoas infelizes que se cruzavam comigo.

Angel
A neurociência vai-se querendo arvorar na ciência do século XXI, arranjando uma explicação para tudo o que ao funcionamento do cérebro diga respeito. Mas este, como escreveu a poetisa, é mais vasto do que o céu...

Agora parece que o cérebro dos animais já foi estudado e «descoberto». Já viram as luzes que se acendem e se apagam, já perceberam os fluxos que vão desta para aquela parte do cérebro, já perceberam tudo, mas uma coisa nunca conseguirão: a essencial. Ver o mundo através dos olhos de um coala ou de uma girafa.


Angel
Quando tens uma folha de papel em branco, tu podes preenchê-la com o que quiseres. És totalmente livre e a folha contém todas as possibilidades. Assim também a tua vida.
Diz-me como ocupas o teu tempo e eu dir-te-ei quem és.

Provérbio Angel
Com a idade, as alegrias são menores e as inquietações mais brandas. Envelhecer é seres atingido com menos intensidade pela vida.

sábado, novembro 08, 2008

Lado Evil

As pessoas entendiam-me. Acabam sempre por repetir os mesmos gestos, as mesmas palavras, as mesmas ideias ao fim de algum tempo. Preciso de reciclar as pessoas de dois em dois anos.

Quinta-essência

Se aquilo que eu gosto em alguém não muda, eu gostarei sempre desse alguém.

Lado Angel

Crio ligações eternas. Quando amo alguém, amo para sempre. Este fogo nunca se apaga.
Deves seguir o teu caminho, contra os ventos do mundo. Se fosse fácil, não tinha piada. Se ajudas os outros sempre que precisam e se eles não te ligam quando não precisam, se passas a vida a ajudar os outros e quando precisas nem uma pessoa está lá - acredita que na história da humanidade isso aconteceu a biliões de pessoas. O difícil reside em continuares a ser o mesmo depois disso ou desistires e passares a ser um deles. O importante é conseguires ver-te sempre ao espelho.

Haverá sempre quem passe pela vida, sem a ver de fora, sem pensar nos propósitos maiores que possa encerrar, simplesmente vivendo mecânicamente, acriticamente, a vidinha do dia-a-dia, sem pensar, procurando maximizar o seu interesse em cada momento. Aceita isto. Segue em frente. Tu. Não te tornes aquilo que criticas nos outros.


Angel

sexta-feira, novembro 07, 2008

Da minha janela, vi dois miúdos a enrolarem uma corda em torno de uma árvore e a puxarem-na, fazendo a árvore desprender-se aos poucos (o tronco não era robusto). Apesar de não ser um ser senciente, tive compaixão por ela e berrei. Eles ignoraram-me.

Eu gritei com a voz mais grossa:

- O que é essa merda? Saiam já daí!!!

Acabrunhados, foram-se embora.

Há alturas em que para sermos bonzinhos, temos de ser firmes e duros.

Cada vez que não fazemos algo que o nosso eu sente correcto por medo das consequências, diminuimo-nos. E isso deixa sempre uma marca.
Se eu mandasse, haveria uma cadeira de Ética nas escolas.
Em 1927, Al Jolson pintou a cara de negro para ser "O cantor de Jazz", o primeiro filme sonoro norte-americano. O enredo era inverosímil, mas nada se comparava ao absurdo de colocar um branco a fazer de preto. Preto, nos Estados Unidos, estava impedido praticamente de tudo, menos de ser espancado, humilhado, vexado, desprezado.


Quarenta anos mais tarde, Stanley Kramer realizou "Adivinha quem vem jantar?", filme no qual o negríssimo Sidney Poitier beijava uma alvíssima Katharine Houghton. Este terrível requisitório contra o preconceito racial foi perseguido, proibido de ser exibido em numerosos Estados americanos, alvo de artigos sulfúricos assinados pelos mais cotados comentadores de Direita, um dos quais, Clark Silverston, invocava a purificação das labaredas para a película, o seu realizador e todos os seus intérpretes, entre os quais Spencer Tracy e Katherine Hepburn.

Hollywood vivia, ainda, sob o que restava do Código Hayes, um documento regulador do que devia e não devia ser filmado. Georges Sadoul, o grande historiador e ensaísta cinematográfico francês, conta, em "Le Cinéma", a incongruência das medidas restritivas contidas no Código. Claro que a inclusão de negros era severamente vigiada, e apenas permitida em circunstâncias muito especiais: pertenceriam, sempre, às classes mais inferiores. A infâmia do documento representa, afinal, a imagem da sociedade, cuja hipocrisia, provincianismo e conservadorismo religioso constituíam fortes elementos. Eis um dos itens: "O nu completo não é admitido, em hipótese alguma. A proibição é, também, para o nu de perfil e toda a visão licenciosa de personagens do filme. É igualmente proibido mostrar órgãos genitais de crianças, inclusive de recém-nascidos. Órgãos genitais masculinos não devem sobressair. Caso um tema histórico exija uma calça justa, a forma característica dos órgãos genitais deve ser suprimida, na medida do possível. Os órgãos genitais da mulher não devem aparecer, nem como sombra, nem como sulco. Toda a alusão ao sistema capilar, inclusive as axilas, está proibida."

O puritanismo desabusado desta América moldou-lhe o perfil e estruturou-lhe a alma. Há trinta anos, um negro tinha de se sentar nos fundos dos autocarros. Um miúdo, em Alabama, foi assassinado a tiro, porque assobiara à passagem de uma rapariga branca. Um grande jornalista português, J.M. Boavida-Portugal, natural de Porto de Mós, na altura subchefe da redacção de "O Século", foi aos Estados Unidos, a convite do Departamento de Estado. Era um homem extremamente afável, de tez escura, e grande apreciador da grande nação e da sua cultura. Não o deixaram entrar num hotel de primeira, e as autoridades tiveram de encontrar uma solução intermédia para o seu convidado, instalando-o numa espécie de pensão mexicana.

Todos nós sabemos de casos aberrantes, que mancham de opróbrio o imenso país. O nascimento do macartismo não foi o menor, nem o último dos males. Mas a América do Norte dispõe de energias, igualmente poderosas, que colmatam situações de escândalo. E o cinema tem contribuído, com eficácia persistente, para que os direitos e deveres sejam iguais entre as raças.

Eis porque a vitória de Barak Obama, saudada em todo o mundo pelas forças do progresso e do futuro, é muito mais do que um episódio singular. Ela representa o embate entre o antigo e o moderno, entre o passado e o devir. E, também, o ânimo de um homem que parece ter tudo contra si e, de repente, incarna a História, desafia-a e às suas influências ocultas, arrasta consigo uma avassaladora onda de juventude e fornece ao mundo um novo perfil de sonho.

Segui, com emoção, as transmissões da CNN e da Sky: escutei os comentadores e aduzi as razões deles às minhas próprias razões. E, fazendo "zapingue", lá dei com aquelas figuras do Eça de Queiroz, numa coisa chamada Quadratura do Círculo, que me pareceu uma manifestação de sonambulismo. O Pacheco Pereira está cada vez mais parecido com o Pacheco Pereira: enfatuado, soberbo, exibindo uma aura de superioridade inteiramente aceite pelos outros. O António Lobo Xavier não é um comentador: é um modelo do Rosa & Teixeira. Dizem-me que é bom chefe de família; eu recordo-o a entoar, apopléctico de gozo, o sambinha "É o bicho, é o bicho!", acompanhando-o com lascivos gestos corporais. Quem pode tomar a sério um cavalheiro assim? O António Costa, é o Costa que há, o Costa que existe, o Costa que o PS tem. O Carlos Andrade foi um jornalista respeitável e até estimável. Falo por mim. Agora, rabeja uma espécie de malícia incompreensível. Não modera: é sacudido. Faz o que pode. E o que pode é muito pouco. O que aquela gente disse, sobre Obama e as eleições americanas, é de bradar aos céus. Nos tempos em que havia chefes de redacção e não editores executivos, qualquer deles ia, durante meses, atender telefonemas, na perspectiva de que seriam aproveitáveis. É uma gente cheia de naftalina, irritada com a marcha das coisas, rangendo os dentes porque julgaram invencíveis as teses que defendiam.

Evidentemente, a vitória de Barak Obama nada tem a ver com o socialismo. Mesmo o cumprimento das promessas vai-lhe ser difícil. Porém, a dinâmica é outra, porque a origem diferente. Como ele disse: "Não possuo status. A minha formação veio do afecto e do amor." Há muitos anos que não ouvíamos um político dizer coisas tão simples e tão maravilhosas como estas.


Baptista-Bastos
Quando algo te deixa profundamente irritad@ e te vêm dizer:

- Deixa lá, não penses mais nisso.

Tu queres, mas não consegues deixar de pensar, de sentir.

Porque a arma da razão é, regra geral, menos eficaz do que a arma das emoções.

Então, dá lugar à tristeza quando ela te visita, acolhe a ira quando ela te percorre - só assim te livrarás delas.

Como diz o MEC: Quando estamos na fossa, não queremos ouvir do nosso amigo «levanta-te da fossa», queremos antes que ele venha para a fossa connosco, fique lá um bocadinho para depois lentamente nos erguermos os dois...
Woody Allen diz que a vida se divide entre o triste e o horrível. O horrível são os cancros, as doenças, os acidentes de carro, as mortes. O triste é tudo o resto.

Escrevo isto a rir.
Independentemente do sítio, independentemente das pessoas, ela conseguia sempre get the most out of things. Os namorados procuravam puxá-la para baixo.

«Têm inveja da minha felicidade, achas normal?»

Acho. Passo a vida a deparar-me com a inveja. Passo a vida a ouvir:

«Tu não sabes o que é sofrer.» Como se fosse justo que por eles terem sofrido imerecidamente, eu também o devesse ter.
Eu sei o que é que tu queres que pense que és.
Nunca ninguém soube o seu nome ou conheceu alguém que o conhecesse.

Ornamentos da vida... leva-os o vento

Quem não escreve, como regista os momentos especiais, as grandes frases, o pormenor de poesia que se nos depara todos os dias?
É uma pessoa que estimula o mal nas outras.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Que cave é esta tão cheia de gente, com fumos brancos, com tanta gente feliz lá dentro... que aparece tantas vezes nos meus sonhos?
- Quando eu quero um gajo, eu faço tudo até o ter.
Nunca mais, escreve o que te digo, Angel.

Ela ligou e ele foi e...
Um infinito de possibilidades espreita sempre dentro de mim.
Uma epidemia de loucura está a varrer Portugal.
A ideia de que o homem deve proteger a mulher implica acreditar numa fraqueza intrínseca dela que me recuso a aceitar.

Espiral infinita?

O Woody Allen tem um texto, vá lá um conto (muito muito bom) em que dois actores de uma peça de teatro discutem o argumento em cima do palco. Um acha que devia ser A, outro que devia ser B. Quando um se enche de jactância, o outro irrita-se e atira-lhe:

- Cala-te, não passas de uma personagem fictícia.

E discutem. São ambos produto do escritor da peça. Mais: o escritor da peça é ele próprio personagem de um texto que está a escrever o autor (Woody Allen). Como no tabuleiro de Borges, uma peça de xadrez é movida pelo jogador que, sem o saber, é peça de outro tabuleiro, movida por outra mão, e assim sucessivamente... Seremos também nós peças aprisionadas de outros jogadores, ilusoriamente controlando as nossas vidas?

Angel

Isto. Aqui e Agora. Contigo (4.13 dream - hora a que escrevo, incrível)

isto
aqui e agora
contigo...

«oh por favor não me perguntes quem sou
ou quando e onde a minha vida começou
ou porque acabei assim ou como
não me perguntes quem era antes
se eu era alguma coisa de todo
não é nada que possas saber
sobre mim agora»

tu seguras a minha cabeça estonteando para me fitares
e me despires até à nudez de memória
os teus olhos negros ardendo em mim
tão vagarosos
os sons e as luzes e outros desbotam
e desvanecem-se em simetria
os teus olhos negros ardendo avidamente
e sem medo, eu sei...

tudo aquilo que eu sempre desafiei esquecer está aqui
demasiado assustado antes nunca o enfrentei
esta noite será tudo o que precisava
todo o local onde nunca tentei ir está aqui
demasiado cansado para alguma vez lá ir
este noite haverá tudo para sentir
todas as vezes que tive remorsos estão aqui
demasiado cauteloso para os ter
esta noite será tudo o que sonhei
não há nenhum ontem
amanhã começa um novo dia
isto aqui e agora contigo é como
sempre devia ter sido

isto
aqui e agora
contigo

«eu não consigo acreditar que se tornou real
eu estou tão perto de te beijar
um folêgo de nunca ir para casa
eu não me lembro de chegar aqui
parece que será algures no próximo ano
espero que não me estejas a...
deixar sozinho?»

«oh por favor não me digas quem sou
ou quando e onde a minha vida começou
ou porque acabei assim ou como
não me digas quem era antes
se eu era alguma coisa de todo
não é nada que possas saber
sobre mim agora»

tu aproximas o meu corpo trémulo para perto de ti
o mais tangencialmente possível
eu mordo a tua boca tão amedrontadamente
e degavar
o sabor de verões ainda por cintilar
uma altura perfeita para mudar o cenário
eu mordo a tua boca com urgência
e aterrorizado, eu sei

tudo aquilo que eu sempre desafiei esquecer está aqui
demasiado assustado antes nunca o enfrentei
esta noite será tudo o que precisava
todo o local onde nunca tentei ir está aqui
demasiado cansado para alguma vez lá ir
este noite haverá tudo para sentir
todas as vezes que tive remorsos estão aqui
demasiado cauteloso para os ter
esta noite será tudo o que sonhei
não há nenhum ontem
amanhã começa um novo dia
isto aqui e agora contigo é como
sempre devia ter sido

isto
aqui e agora
contigo

Robert Smith by Angel

Acabou (4.13 dream)

eu levanto-me
e está tudo terminado
está tudo terminado sempre
chove e estou queimado
e é tarde e tu partiste
e eu mal me consigo lembrar
dalguma coisa que tenha feito ou dito
ou como perdi outra semana
deve haver algo que se está a passar

um sentido perturbante de vergonha
eu não consigo explicar
um sabor acre a tabaco e sangue
e lágrimas e drogas
e não há um centímetro de mim que não esteja em carne viva
e está sempre tudo fodido e acabado
chove e estou cego
e é tarde e tu partiste

eu não consigo voltar a fazer isto outra vez

continuar aqui
está tudo terminado
está sempre tudo terminado
chove e estou rachado
e é tarde e estás fora
e não me consigo lembrar bem
de algo que tenha dito ou feito
ou como perdi outro ano
deve haver algo que está a desabar

uma inquietação docemente azeda
é quase uma paródia
um sonho destruído de culpa e medo
e cuspo e ferro
e todos os pedaços de mim a sofrer
e está sempre tudo fodido e acabado
chove e tenho frio
e é tarde e tu saíste novamente

dar voltas com a minha cabeça
como se eu soubesse que sinto a sua falta
«mas eu quero sempre fazê-lo agora»
ela disse-me num sussurro
eu tento tão esforçadamente encaixá-lo
imaginar porque é que o sinto
quando enviar-lhe as flores bonitas
talvez a faça acreditar

dar voltas com a minha língua
oh o sabor é algo mais doentio
«mas tu sabes que tens de o fazer agora»
ela disse-me num sussurro
demora apenas um segundo
mas o segundo pode durar para sempre
"fecha os olhos
e deixa-me empurrar-te para baixo..."

e levanto-me
e está tudo terminado
está tudo teminado sempre
e chove e estou arruinado
e é tarde e tu...

Não eu não me consigo lembrar
de algo que tenha dito ou feito
ou como perdi outra vida

Eu perdi outra vida
Oh eu não consigo voltar a fazer isto outra vez

Não
Eu não consigo voltar a fazer isto outra vez

Robert Smith by Angel

Feng Shui

O local faz a conversa. Não são só as pessoas, é a atmosfera. Se estiveres num bar rodeado de livros, mesmo que não pegues em nenhum, mesmo que não espreites a lombada. Noto isso porque cada vez que ia ao van grogue, um bar pejada de coisas místicas, de piano, de uma luz especial, as conversas eram sempre sobre metafísica ou sobre amor. Aquelas conversas que ficam connosco para sempre, em que tudo os elementos da noite se dissolvem e somos apenas duas pessoas num só todo orgânico, e tudo o resto não interessa. As melhores noites são essas: aquelas que, independentemente da música, das pessoas à nossa volta, a nossa companhia chega-nos perfeitamente, que tornam tudo o resto supérfluo. Aquelas em que não há é preciso nada para nos entretermos além de nós próprios. Caramba, há diálogos fantásticos! Falava do Van Grogue. Fica na Ericeira, a cinco quilómetros, numa terra chamada Sobreiro. Em qualquer dia, tirando sexta e sábado, reina lá uma atmosfera... é inevitável ir lá e falar do sentido da vida, da alma. Eu achava que era coincidência e tive de lá ir com pessoas diferentes para confirmar o repetidamente óbvio. O bar propicia as conversas. Assim como o braço de prata, na sala pejada de livros. Isto, apesar do recente mercantilismo de cobrar dinheiro só para penetrar naquele reduto de cultura (um bloquismo caviar muito alternativo e muito sofisticado). Mas são espaços ideiais para ter conversas profundas, para levar alguém que ser corteja, o que se namora, enquanto lá fora a chuva cai, e nós ali, com um cobertor imaginário e livros. E, depois, voltar para o carro, a atmosfera de magia a perdurar connosco, fragmentos de intimidade que levamos para casa. É por estas coisas que vale a pena viver.


Angel
Precisa dela, porque gosta da imagem que os-olhos-dela-devolvem-dele.

A pergunta obrigatória

Quando alguém conhece alguém: «O que é que fazes?»


Diz-me-a-tua-ocupação-profissional-e-eu-dir-te-ei-quem-és
Cada pessoa deixa-te uma marca. Ela, a pessoa mais genuinamente igualitarista homem/mulher que conheci.
E, passada uma hora, sentiu-se inesperadamente alegre.
Haverá alguém que gosta mais de ouvir do que de falar?
- Angel, tu só atrais gente louca. Gente excêntrica.
A loucura é um edifício bem organizado em torno de uma premissa que se considera errada.

A L A
- Eu penso todos os dias na existência de Deus, que para mim é indissociável da crença na vida para além da morte, porque não é possível acreditar que a existir, Deus daria dois dias de vida a crianças com tumores ou um mês a outras que morrem de fome. Não, não dá, não dá. Dou por mim é, por vezes, a interrogar-me: o que é que aquilo que eu acredito modifica a minha maneira de agir, isto é o que é que o facto de eu ser religiosa muda as minhas acções no dia-a-dia? Mas, o importante é mesmo ter questões, significa que penso sobre isso, não é? Que lhe dou valor. É o primeiro passo para fazer algo. Quando tenho dúvidas de fé, lembro-me do meu tempo de criança, e aí tenho a certeza absoluta, e que Deus se revela aí, porque uma pessoa tem menos defesas... Com a idade, ficamos mais desconfiados, mais racionais e Deus não se quer mostrar aos sábios mas aos pequeninos. Agarro-me à crença que está desse período, intacta.