sexta-feira, outubro 31, 2008

Tudo o que se passa à minha volta eu reparo. Por isso conheço tantas caras que nunca me foram apresentadas. Sim, sou um observador-esponja. E há pormenores deliciosos no quotidiano...

O vulto negro (segunda parte)

O vulto negro caminhava pela praça coberta de neve. Hirto, alto, seguiu pela rua das montras iluminadas. Os seus passos regulares foram interrompidos por uma poça de água onde a lua se reflectia. Baixou-se ligeiramente, passou a mão num gesto rápido pelo fundo das calças, e continuou. Atravessou o aglomerado de casacos, gorros e cachecóis. O vulto furou em linha recta e parou junto à pista. Os risos esmoreceram e uma rapariga cedeu-lhe a sua posição encostada às cordas, levando lentamente uma pipoca à boca enquanto espreitava o vulto negro por cima do ombro. Moveu a cabeça para a direita lentamente e depois para a esquerda lentamente, atirou um olhar para a pista e voltou atrás. Um homem afastava um pouco de neve do cabelo da sua mulher e limpava a humidade do seu rosto. A mulher acotovelou o homem e apontou com a cabeça para o sujeito que passava por eles.
O vulto contornou a praça, subiu uma rua. Parou junto a um prédio, a sua sombra ocupando uma parte da rua, tirou um fósforo, acendeu um cigarro, e abanou a cabeça. Deu um piparote no fósforo, e seguiu.
Estamos juntos no silêncio, apesar desta voz carregada por estas
palavras, apesar das formas todas dos nossos corpos e dos desenhos que
somos capazes de fazer com o olhar.


José Luís Peixoto
Os homens que conheço que passaram a vida com mais companhias masculinas do que femininas são justamente os que falam e agem de forma mais diferenciada com homens e mulheres.
Nos dias em que me sinto poderoso, posso tudo, nada me abala e eu sou o maior. E o meu fogo contagia todos.
Na poesia, ao contrário da prosa, na poesia, digo, nos grandes e magníficos poemas, tira-se uma palavra e estraga-se tudo, acrescenta-se uma e o poema desaba, tenta-se alterar uma e pôr outra... e não se consegue. Parece que foi um trabalho divino.
Há dias

Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer:
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.


idem

Da maneira mais simples

É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes
do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.

Eugénio de Andrade
O que significa: «Estou carente»?
Nascemos todos poetas livres.

Agostinho da Silva

Consistentes, lógicos, racionais... Imaginativos, loucos, sonhadores

A consistência é o refúgio dos homens sem imaginação.

Oscar Wilde
Acordou a meio da noite com um pesadelo. Respirou fundo, sentou-se na cama, e sentiu-se muito contente.

Acordou de manhã de um sonho (que sonho...), abanou a cabeça e exclamou: Foda-se! Afinal, não era real.
- Angel, isso da idade é relativo. Se tem relva, joga à bola.
Whenever I´m alone with you, you make me feel like i´m clean again

quinta-feira, outubro 30, 2008

Auto-retrato 3

Sempre que caminho pela rua e vejo uma casa iluminada penso que seria feliz se vivesse lá dentro.

A L A

Auto-retrato 2

Quem sou eu?

Alguém que... [vai] pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro (Álvaro de Campos)

Auto-retrato

For my part I know nothing with any certainty... but the sight of the stars makes me dream.


Van Gogh
O mal veste-se melhor do que o bem, é mais atraente e sedutor, mas as suas roupas mais depressa se rasgam...
Convoca todos os teus fantasmas, todos os teus medos, todas as pessoas que te induzem sentimentos negativos, todos os espaços, todas as memórias. Vive lá... Até que verás que distorcias a realidade. Quanto mais medos enfrentas, mais te ris deles. Tudo é passageiro e irreal.
O horror. Puro horror. Nada para além do horror. No horror absoluto, não há esperança. Mas tu podes ainda lutar. Podes ainda olhar de frente. Podes ainda não ter medo. E fazer algo. Nunca desistir.
Dá o pior de si para, sendo rejeitado, se consolar com a ideia de que ficou aquém do seu verdadeiro eu.
Só consegue manter relações em suspenso. O sonho dele é que nunca ninguém seja dele mas que nunca ninguém não seja dele também.

4.13 dream

the kiss is infinite and ours alone tonight

underneath the stars

It could've been her golden hair
It could've been her silver skin
I was rapt

sirensong

And I’m tired of being alone with myself

switch

you´re not the real snow white

the real snow white

e agora traduzindo:

os teus olhos negros ardendo lentamente em mim
tão devagar
os sons e as luzes e os outros desvanecem-se
e volatilizam-se longe em simetria


this. here and now. with you


há mais bandas a escrever assim?
Há abraços que são tão mais do que beijos...
- A casa era linda, tinha uma divisão em que tinha uma porta de cada cor...


Para o que dariam todas aquelas portas? Para outras divisões de sucessivas portas e portas de todas as cores... que bonito.


(Esta imagem não me sai da cabeça)
- Deves ser a mulher perfeita para mim. Deixa-me adivinhar, o Axl Rose era o teu ídolo aos 13 anos?

- Sim, era! - disse com sorrisos nos olhos. - Como adivinhaste?

- Era uma armadilha. Já não és a mulher para mim...

quarta-feira, outubro 29, 2008

You’ve got what I want…

The Cure, 4.13 Dream, The Real Snow White
«Eu amo-te» já foi dito triliões vezes triliões de vezes no mundo por pessoas de imensos locais e imensas épocas.

Já ouvi e registei expressões deliciosas que significam uma igual ou superior intensidade de sentimento:

- És a minha preferida;

- Quero que sejas o pai/a mãe dos meus filhos (gasta, mas ainda assim, abana quem a ouve);

- etc, etc.


Hoje li uma (The Cure, 4.13 Dream, Sirensong - A canção da sereia):


Give me your life
or i must fly away
and you´ll never hear this song again


Repito, de tanto gostar da doçura e da violência do apelo:

Give me your life


Haverá algo mais forte do que isto? Dá-me a tua vida para mim, vive por mim, vive o amor, anula-te, deita tudo fora e fica comigo.
Por mais ingratidão que experimente, por mais rancor (terrível palavra) que às vezes nasça, por mais que a sociedade me tente dar a ideia de que o mal compensa, por maior que seja a inversão de valores e o material valha mais do que o espiritual; ainda assim nunca fiz o Bem e me arrependi.
Sonhei com elas as duas num ringue de boxe.
Gostas da tua companhia?
Ela tem pedaços de estrela nos cabelos e uma humidade cintilante no rosto.
Foi então que apareceu a raposa.
- Bom dia! - disse a raposa.
- Bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. – Estou tão triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Ainda ninguém me cativou...
- Ah! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- O que significa "cativar"?
- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?
- Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que significa "cativar"?
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também criam galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?
- Não - disse o principezinho. Ando à procura de amigos. O que significa "cativar"?
- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. – Significa criar laços.
- Criar laços?
- Isso mesmo - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou se não uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me cativares, passaremos a precisar um do outro. Passarás a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passarei a ser única no mundo...
- Começo a compreender - disse o principezinho. - Sabes, existe flor...creio que ela me cativou…
- É bem possivel - disse a raposa. - Vê-se de tudo à superfície da Terra...
- Oh! não é na Terra! - disse o principezinho.
A raposa pareceu ficar muito intrigada.
- Então, é noutro planeta?
- É.
- E nesse tal planeta há caçadores?
- Não.
- Começo a achar-lhe alguma graça...E galinhas?
- Não.
- A perfeição não existe...- disse a raposa.
Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me cativares, será como se o sol iluminasse a minha vida. Distinguirei, de todos os passos, um novo ruído de passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é triste. Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Por isso, quando me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de amar o barulho do vento a roçar no trigo…
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Cativa-me, por favor - acabou finalmente por dizer.
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e muitas coisas para conhecer...
- Só se conhecem as coisas que se cativam - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto...
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a vestir o meu coração...São precisos ritos.
- O que é um rito? - perguntou o principezinho.
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa. - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, têm um rito. Dançam, às quintas-feiras, com as raparigas da aldeia. Assim, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear para as vinhas. Se os caçadores fossem ao baile num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
Foi assim que o principezinho cativou a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ah! - exclamou a raposa – vou chorar...
- A culpa é tua - disse o principezinho.- Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te cativasse...
- É certo - disse a raposa.
- Mas agora vais chorar! - disse o principezinho.
- Pois vou - disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...
Depois acrescentou:
- Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.
O principezinho foi ver outra vez as rosas.
- Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada - disse-lhes ele. –
Ainda ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. Vocês são como a minha raposa era. Era uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e, agora, ela é única no mundo.
E as rosas ficaram bastante incomodadas.
- Vocês são bonitas, mas vazias - ainda lhes disse o principezinho. - Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é perfeitamente igual a vocês. Mas, sozinha, vale mais do que vocês todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi por causa dela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi ela e só ela que eu vi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.
E então voltou para o pé da raposa e disse:
- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. Vou-te contar o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa...
- Sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

terça-feira, outubro 28, 2008

Esforçai-vos por entrar pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela.


Jesus Cristo

A rapariga de plástico

Nunca conheci ninguém tão fútil. Gosta de sair à noite para «abanar a pipoca», dançar e «não pensar em nada». É incapaz de não usar uma roupa de marca, mesmo que isso implique estoirar todo o dinheiro da família, sim porque «eu não fui feita para trabalhar». Quando está entendiada, o passatempo é roubar o cartão gold da mãe e passar horas nas compras. Tem sempre o telemóvel topo de gama. Passa batom e maquilhagem de quinze em quinze minutos. Tem uma voz afectada. Não fala, debita expressões em inglês «oh, darling», «not my kind, babe», «absolutely crazy». Diz que nunca leu um livro até ao fim. Só tem relações com homens ricos, preferencialmente mais velhos, que lhe pagam tudo. «Querem o meu corpinho, têm de me dar jantarinhos do melhor.» Adora ir a festas para fazer contactos - contactos que lhe permitirão ir a outras festas. Não tem amigos, tem contactos. Não tem personalidade, tem dinheiro e estatuto sugado dos outros.

Não, uma pessoa não pode ser assim. Se fosse menos fútil, não queria saber dela. Mas, assim, tão tão tão fútil, faz-me ter de a conhecer. Porque ninguém pode ser assim tão desprovido de Alma... Se calhar esconde uma profunda densidade humana que tenta camuflar (não, não acredito nisto). Vou procurar nela o átomo que não seja fútil...


Angel-em-busca-da-ausência-de-futilidade

O mundo em que vivemos...

As mortes por doenças cardiovasculares, cancro e acidentes de viação deverão continuar a aumentar, nas próximas décadas, de acordo com as estimativas da Organização Mundial de Saúde.

Num mundo em que um quinto do total de mortes é de crianças com menos de cinco anos, as patologias do coração continuam a ser as mais mortais, mas as perturbações mentais, com destaque para a depressão, já estão entre as principais causas de incapacidade.

À escala global, as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte, sobretudo entre as mulheres. Os ataques cardíacos e os acidentes vasculares cerebrais são a causa de 32% de todas as mortes no sexo feminino e representam 27% entre os homens, segundo um relatório sobre o estado da saúde no Mundo da OMS, que analisou dados referentes ao ano de 2004. Pelo menos 80% das mortes por problemas do coração e dos vasos sanguíneos poderiam ser prevenidas com alimentação equilibrada, prática regular de exercício físico e cessação tabágica.

Em África, a infecção VIH/sida é a principal causa de morte na população adulta e a subnutrição mantém-se como um importante factor de mortalidade até aos cinco anos, contribuindo para 30% dos óbitos. Infecções respiratórias e diarreias estão entre as doenças que mais matam na infância.

As doenças infecciosas e parasitárias (onde se incluem diarreias, tuberculose e sida) e os cancros surgem, respectivamente, na segunda e terceira posições. Nos homens, o cancro mais mortal é o do pulmão, traqueia e brônquios, seguido dos tumores no estômago e no fígado. Já entre a população feminina, é o cancro da mama que mais mata, seguido do pulmão e do estômago.

As patologias mentais, como a depressão, já afectam cerca de 120 milhões de pessoas em todo o Mundo e a tendência é para aumentar, segundo as projecções da OMS, que alerta, ainda, para o facto de apenas terem acesso a tratamento menos de 25% destes doentes. As perturbações mentais são, juntamente com os problemas de visão e de audição, as principais causas de incapacidade funcional.

Os acidentes de viação são responsáveis por 3.500 mortes diárias, bem como por milhões de feridos graves e incapacitados permanentes, todos os anos. Actualmente, a sinistralidade automóvel é a nona causa de morte, mas as previsões da OMS apontam para que, em 2030, se torne a quinta.

O relatório faz estimativas para o estado da saúde no Mundo dentro de 20 anos, indicando que haverá uma diminuição de mortes por doenças transmissíveis, como a sida, a tuberculose ou a malária. Relativamente à mortalidade provocada pelo vírus da sida, espera-se que aumentem de 2,2 milhões, em 2008, para 2,4 milhões em 2012, mas que, em 2030, baixem para 1,2 milhões.

Os problemas cardiovasculares e as doenças e infecções respiratórias deverão manter-se como as principais causas de mortalidade.

In Jornal de Notícias
À noite, as pessoas despem-se mais.

José Cardoso Pires
Há tantas e tantas e tantas pessoas que, parafraseando Bernard Shaw, lutam para amarem aquilo que têm e não lutam para terem aquilo que amam. Tanta gente que acha a estabilidade como uma valor final e não instrumental - o meio para se viver o amor. Tanta gente acomodada. Tanta gente com mundinhos e vidinhas de trabalho e chinelo. Sem inventarem novas posições, sem paixão. Tanta gente que acha grave estar encalhada. Uma amiga dizia-me que tinha vergonha de estar há 3 anos sem homem. Mas sentes essa necessidade? Sinto a pressão social, respondeu. É sinal de força, de auto-suficiência conseguir estar três anos sem ninguém. É por isso que depois pululam por aí tantos energúmenos com raparigas com Metafísica.
A serenidade do oceano a repousar à noite convoca-me a paz.
O que te faz sorrir assim com esses girassóis todos a cintilar?

segunda-feira, outubro 27, 2008

- Nunca dancei numa discoteca porque nunca me senti à vontade para me expandir na dança à frente das outras pessoas...

- Eu também não danço nem bebo alcóol, como tu.

- A sério? És a primeira pessoa que encontro assim. Pensei que era um alien.
O que espero dos amigos. Dois verbos apenas: que me surpreendam e me amem.
Queres conhecer um quarto dentro de ti do qual nunca rodaste a maçaneta?
Ela para o esquecer tem de o dotar de defeitos imaginários. Agarra-se às suas piores coisas, amplifica-as, e cobre-o de mentiras na sua cabeça.

Quer resolvê-lo acreditando que tem coisas que a chocam.

É um equílibrio instável. No fundo, no fundo, ela ama-o.


Por trás da neve que tomba e se acumula, uma bela flor teima em se erguer.
I´m not scared anymore
I´m not scared of the dark when I sleep with you
I´m not trapped anymore
Between madonna and the whore when I lay with you
And the days run away
Like wild horses run away when I´m with you
And I´m breathing you in
Just like the morning air
You make me happy and I hope you feel the same
And I´m in heaven and it feels like a gentle rain
You make me happy and I want you to feel the same
You make me feel just like a child
A child again

The Mission
Tenho um amigo que desde há 15 anos - acredite quem quiser - não teve nada com mulheres. Acredita que a ex ainda irá voltar. As pessoas dizem que é louco ou homossexual. Secretamente, admiro-o. No dia em que ela voltar, será um dos dias mais felizes da minha vida.
Jantei com ela, durante o jantar não conseguia perceber se a achava interessante, porque vivo muito o presente. Quando janto, janto, quando falo, falo, quando leio, sou o livro, quando vejo um filme, sou o filme.

Definitivamente não consigo avaliar pessoas, só usufrui-las.

O resto vem depois.

Cheguei a casa, dormi. Acordei. Ela não me deixou marcas. Não estou interessado.

Por vezes, demoro 3 anos para perceber minimamente uma pessoa.

Tenho raciocínio lento, mas uma grande acuidada em juízos de longo prazo.

É preciso tempo e é preciso distância. Explico o que entendo por distâncio com um exemplo. Tinha um amigo que namorava. Vivia no estrangeiro e dizia-me:

- Eu estou cá há um ano e não tenho ninguém ninguém para além dela. E como é caro telefonar daqui, nem com os meus amigos falo, Angel. Vivo 24 sob 24 horas com ela (eles trabalhavam juntos).

Um dia perguntei-lhe se estava tudo bem entre eles:

- Sei lá!

A resposta espantou-me.


- Estou sempre com ela, entendes? Precisava de não estar para me aperceber dos seus defeitos e qualidades...
Na quietude da noite, qualquer mínimo murmúrio, que de manhã passaria despercebido, ganha contornos de um grio.
Há sempre mais perguntas do que respostas.

Kevin Nash

domingo, outubro 26, 2008

Diz o provérbio que quem passa muito tempo no estrangeiro, sente-se um estranho no seu próprio país.
Desprezar alguém que nos provoca ou nos insulta é uma forma de agressão só ao alcance dos mais cruelmente perversos.
Portugal é minúsculo. É impressionante como mais de metade das pessoas que acabo de conhecer conhecem alguém que eu conheço (e a outra metade é porque não dissecámos a fundo todas as possibilidades). Uma pequena bolha. Isto sim, dá vontade de emigrar.
Há alguém que te inspira medo?
A ingenuidade para mim é uma virtude.
- Que bom ganhar uma hora! Faz-me lembrar quando eu passava o Verão numa casa de férias e sonhava que a corneta do colégio estava a tocar. Acordava, percebi que estava de férias... e sentia-me tão bem e voltava a dormir.
Adaptando uma frase do Oscar Wilde, direi que as pessoas não se dividem entre inteligentes e estúpidas, mas entre interessantes e enfadonhas.
Falei com uma pessoa famosa e só me reforçou o horror que é a fama. Desde miúdo que sempre pensei que nunca poderia ser famoso sem dar um tiro na cabeça (hipérbole). Andar fora de casa em privacidade, nunca nunca nunca.
- Hoje estou um bocado em baixo. Tinha uma proposta muito boa para sair do trabalho, e vou continuar onde estou. As condições eram melhores, mas o ambiente de trabalho iria ser mau porque o tipo que está à frente daquilo... toda a gente se incompatibiliza com ele. Tou deprimida porque a oportunidade ia ser boa. Sim, mas eu é que escolhi, mas estou deprimida com isto.


Às vezes a liberdade pode ser um óbice, um acréscimo de infelicidade.

sábado, outubro 25, 2008

Sempre achei que funcionava ao contrário do mundo, porque vi que quando as pessoas estiveram na fossa, não tinham ninguém, e quando estiveram no zénite do sucesso tinham muita gente, muitos amigos de longa data que subitamente apareciam... Eu achava - e acho - que é quando os amigos estão na fossa que a nossa presença é obrigatória. É sempre na fossa que eu apareço.
Uma pessoa celebra o seu aniversário, mas muitos dos seus amigos não aparecem, dando desculpas claramente esfarrapadas.

Uma pessoa faz um abaixo-assinado, pede encarecidamente aos seus amigos que divulguem a casa e assinem, mas só dois assinam. Dava muito trabalho perder cinco minutos.

Uma pessoa é despedida da empresa injustamente, os colegas fazem-lhe sentir a solidariedade, mas na hora em que ele pede testemunhas para o seu processo, ninguém vai.

Uma pessoa conta que tem a avó a morrer. Ninguém se lembra de lhe telefonar de propósito nos dias seguintes a perguntar como está ela. Quando ela conta que avó morreu, ainda lhe perguntam amnésicos: «Mas ela estava mal?»

Uma pessoa conta que vai fazer exames médicos especiais no dia x, às yy:zz. Ou ela própria conta os resultados, ou ninguém lhe perguntará.

Uma pessoa está gravemente doente no hospital, e só três pessoas aparecem numa visita de meia hora. «Ando cheio de trabalho...»

Uma pessoa apresenta a sua tese de doutoramento, pede aos amigos que vão assistir, mas só um pode, e no próprio dia nem esse consegue ir.


Já fiz seguramente muita merda na vida, muita coisa demon e nada angel, mas nunca falhei aos outros nestas questões - as que eu considero essenciais.

A Igreja e a Sexualidade

Na minha opinião, note-se bem, na minha opinião, e seguindo o princípio aristotélico de que o caminho do meio é o melhor, sinto-me equidistante da visão de Ratzinger de que o sexo só deve acontecer tem por finalidade a procriação e a visão do sexo-como-na-guerra-do-fogo em que alguém via um cu espetado a lavar no rio e ela devorá-lo.

Nem a visão do catolicismo que vê o sexo apenas para garantir a reprodução da espécie nem a visão do sexo animal puro me puxam.


Falemos da Igreja. Ratzinger fala como um homem medieval. Gostava de lhe perguntar para que é que Deus pôs o clitóris na mulher? Unicamente para o prazer. Compreendo que a Ireja Católica tenha sempre de defender algo contra o mundo. Uma pessoa para seguir uma religião tem de fazer alguns sacríficios, tem de lutar contra algo, não pode simplesmente ir na maré. Cristo disse que muitos seguiam pela porta larga, mas que curta e estreita era a porta da «salvação».

Claro que a Ireja tem de ser a porta estreita, tem de ter regras, tem de empurrar o mundo numa direcção que não a do mero prazer momentâneo, da mera transacção de pessoas como objectos descartáveis e utilitários. Se agirmos como meros animais, será um desperdício termos sido dotados deste cérebro...


Agora, o que Ratzinger tem de perceber é que o sexo entre pessoas que se amam, é um suplemento da comunicação entre as almas («uma saudação trocada entre duas almas», como disse Pessoa). É o culminar de uma série de outras ligações, afectivas, espirituais, intelectuais, emocionais. O sexo com amor, mesmo sem ser para procriar, é muito bonito.

Ratzinger afasta do sexo homossexuais, pessoas estéreis, mulheres a partir dos 40 anos que já não podem ter filhos e todos os homens que vivem com elas para o resto das suas vidas.

Isto não é seguir a porta estreita, isto é uma aberração. Deus exige o difícil aos homens, mas não pode exigir o humanamente impossível.

Agora, a outra visão do sexo como passatempo, também nada me diz. Porque as pessoas degradam-se quando partilham intimidade sem cumplicidade, sem um significado, sem sentimentos. William James escreveu que se agires como algo, tornar-te-ás esse algo. Repetir experiências vazias fará implacavelmente de ti um ser vazio.


Angel
A janela da minha casa permite-me estar colado ao vidro sem que ninguém me veja. Transparente para quem está de dentro de casa a ver o mundo lá fora, totalmente opaca para quem do mundo lá fora quer ver a casa.
Temos uma telepatia filha da puta.

O elogio e a crítica

Uma das minhas grandes divergências com as pessoas é que eu acredito que as pessoas mudam. Porque já vi pessoas mudarem ao longo da vida. Porque já vi pessoas ouvirem observações, concordarem e mudarem.

Há duas maneiras das pessoas mudarem. Uma é o elogio. Quando elogiamos alguém, é como dar uma reputação que ela vai querer manter. Outra é a crítica. As pessoas reagem mal à crítica - umas mais do que outras, naturalmente. Até poderão concordar connosco, mas uma crítica ao seu eu, fere o seu eu que se ergue com a máscara da fraqueza-mascarada-de-força: o orgulho. Então, temos de saber algumas coisas sobre as críticas:

1) Devemos criticar em privado. Em público, pode soar a humilhação;

2) Convém introduzir a crítica pelo meio de uma série de elogios;

3) Tem de se fazer notar que é muito fácil se a pessoa quiser, conseguir remover aquele defeito/problema;

4) Deve-se fazer sentir à pessoa que se eliminar aquilo, ela beneficiará imenso consigo. É de todo o seu interesse;

5) A pessoa que perceba que, se não fosse tão especial para nós, não nos preocuparíamos com ela;

6) Nós próprios temos aquele defeito... exemplificar com n situação em que ele se revelou...

sexta-feira, outubro 24, 2008

Há uma zona obscura em todos nós a que não conseguimos sequer chegar, é esse núcleo de trevas que eu procuro atingir na minha escrita, quase que conhendo a mim próprio algo que só vagamente desconfiava que tinha. Às vezes, os meus amigos dizem-me:«Ando a ler o teu livro» e eu fico triste porque quero é que eles leiam o livro dele. Porque o livro deve se como um espelho: deve reflectir o leitor, por isso que um livro é diferente quando o lemos em idades diferentes porque se trata de leitores diferentes, naturalmente. E deve invadi-lo como um vírus, uma doença, leitor e livro devem-se fundir num só, ele deve ficar absorvido por aquilo que está a ler, aquilo passa a ser parte da vida dele. O ideal era portanto eu encher os livros de silêncios para que os leitores os pudessem preencher, pintar, colorir-lhe as palavras. Como se o livro fosse um jogo que pudesse ser infinitamente modulável e pudesse espelhar aquilo que nós somos.


A L A
Há pessoas que são discriminadas e há pessoas que usam a auto-discriminação como forma de vitimização, de chamar a atenção no fundo.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Dormiam num quarto comum com sonhos separados.


A L A
Porque é que o padrasto é sempre um monstro?
Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o Inverno for tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela, sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade.


José Luís Peixoto
-Preciso de voltar a estar com ele para desfazer esta ilusão, entendes? Preciso de voltar a estar com ele para o matar dentro de mim.
Consegues fingir tudo, menos que és culto quando não o és.

O vulto negro - primeira parte

O vulto negro caminhava pela praça coberta de neve. Seguiu pela rua das montras iluminadas, pisou uma poça de água onde a lua se reflectia, passou a mão num gesto rápido pelo fundo das calças, e continuou hirto e com uma passada regular. Atravessou o aglomerado de casacos, gorros e cachecóis. Um homem afastava um pouco de neve do cabelo da sua mulher e limpava a humidade do seu rosto. O vulto, mais alto do que a multidão, furou em linha recta e parou junto à pista. Os risos esmoreceram e uma rapariga cedeu-lhe a sua posição encostada às cordas. Moveu a cabeça para a direita lentamente e depois para a esquerda lentamente, atirou um olhar para a pista e voltou atrás.
you're begging me to stay
but i'm laughing in your face
you're so desperate
not to let those years of care
all go to waste
but it was you who wanted love
not romance
you have to pay my price
bodies may be made of fire
but souls are made of ice

i'm me
i'm cold
i'm cold
i'm told
i'd love to love you girl
but my body has just been sold


The Cure
- Olá, pá.
- Então, tudo bem? Por aqui?
Poisou o copo e cumprimentou-me.
- Gosto em ver-te. - disse eu.
- Igualmente. Vamo-nos sempre encontrando aqui.
- Sim, mas já para aí há uns seis meses.
- Tás aí com quem?
- Tou aí com pessoal... - e apontei para o fundo.
Entretanto, uma miúda chegou e falou com o meu amigo.
Ela foi-se embora para nos dar tempo de falar.
Ele sorriu triunfante.
Eu perguntei:
- Namorada nova?
Ele:
- Não, é uma gaja que me anda a fazer uns broches.
- E tu falas dessa merda aos teus amigos?
- Foda-se, ela faz cada broche...

quarta-feira, outubro 22, 2008

Às vezes, a tristeza invade-nos e não sabemos porquê. Às vezes, a alegria invade-nos e não sabemos porquê.

E, passado um momento, passou. Porquê?
Às vezes, a tristeza inavade-nos e não sabemos porquê. Às vezes, a alegria invade-nos e não sabemos porquê.

E, passado um momento, passou.
- Posso não concordar contigo em muita coisa, mas nada em ti me choca, sabes?
Andando de autocarro, ouço o motorista a rir-se a ouvir uma notícia por uma espécie de telefone interno:

- Eh eh eh então foi uma das batidas das grandes.

E depois virando-se para os passageiros ia anunciando:

- Há ali uma batida no cruzamento a seguir.

A cara dele era de júbilo, de riso.

A seguir abriu o vidro e falou para o colega do autocarro ao lado:

- Queriam-se conhecer e não sabiam como.

E riu-se. O outro colega sorriu.

Palavra de honra que nunca entendi o fenómeno das pessoas que vêem alguém a cair ao chão e param a rir.
De facto, os livros actuam de maneira misteriosa, como Deus. E, alguns, ainda de forma mais misteriosa, mas mais humanamente explicável, como o Diabo. Não faz mal, sem eles seríamos certamente muito piores e menos interessantes.


Pacheco Pereira
Despersonaliza-te por momentos. Despeja-te de todas as ideias, de todas as experiências. Agarra-te afincadamente ao ponto de vista de alguém e tenta ver o mundo pelo seu olhar. Depois de mergulhares na cabeça de alguém, experimenta outra cabeça. Vai expandir-te a mente e devolver-te a virgindade do espírito-em-lugar-nenhum-sem-preconceitos.

terça-feira, outubro 21, 2008

- Angel, chove lá fora, a podridão nas ruas, o trânsito, a violência, a corrupção, e eu tão feliz por ter a minha casa já toda equipada, vou passar um Inverno fantástico, aqui aferrolhoado.
tantalizar | v. tr.



tantalizar

Conjugar


v. tr.,
fig.,
causar o suplício de Tântalo a;

provocar desejos irrealizáveis em.



Estar cada vez mais perto e nunca lá... Subir umas escadas que conduzem ao tesouro, estar todos os dias mais perto e nunca lá.


Tântalo, na mitologia greco-romana, convidou os deuses para um banquete para lhes testar a omnisciência. Assim, matou o filho e misturou-o com comida. Se os deuses descobrissem a infâmia, seriam omniscientes.

Aconteceu que os deuses elogiaram o lauto banquete e Tântalo sorriu e pensou:

«Ah, eu logo vi que não iam descobriar. Afinal, não conseguem saber tudo.»

A meio da refeição, um dos dos deuses queixou-se da estranheza do paladar. Outros se lhe seguiram até que alguém atirou:

«Está aqui carne humana!»

E depois:

«Tu mataste o teu filho e deste-nos a provar.»

Tântalo foi castigado ao pior dos castigos. E - curioso - para tal foi enviado para o melhor dos mundos.

Um belo local com um belo lago e belas árvores carregadas de frutos. De cada vez que se baixava para beber água, esta inflitra-se nas entranhas da terra, e de cada vez que levanta mão para colher um fruto, o vento soprava-o na direcção contrária.
- Namorava com uma pessoa do BES, mas não era um bancário, era uma pessoa de gabinete, próxima da admnistração.
Quando estamos contentes, é mais fácil sermos atentos ao Outro. Quanto temos muito, é mais fácil darmos.

Então para estarmos bem com os outros, temos de estar bem connosco mesmos.

Mas... para estarmos bem connosco, é preciso igualmente estarmos bem com os outros. Não acredito mesmo numa felicidade que dispense a Ética.

É preciso contudo um equílibrio dentro desta simbiose.
- Angel, olha, ela vem aí, olha bem para ela.

Eu olhei para a rapariga por quem ele estava apaixonado.

- Foda-se, ela é linda...

Não via nada disso, mas tá bem.

- Já viste bem? A maneira como ela se move... É daquelas pessoas que se recortam de tudo à volta, tem um brilho especial... Foda-se, tu não vês o mesmo?

- Eh pá, não...

- Estás a mentir, Angel. Foda-se, tu olha bem, meu... É impossível não ficares siderado. Nem que estivessem aqui 5000 pessoas.

segunda-feira, outubro 20, 2008

Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.

Fernando Pessoa
No labirinto, vamos caminhando. Andamos, falamos, trabalhamos, dormimos, comemos – sentindo a falta de outro alimento. Ninguém percebe porque queremos a chave. Quando nos cruzamos no labirinto, os olhares ecoam mutuamente o âmago que não pode florescer a partir do mundo.
Um milhão de minutos sem nos cruzarmos, mas um segundo fulgurante ganha contornos de eternidade. É cada vez melhor saborear o outro devagar. É cada vez melhor procurar a imagem do outro no labirinto. É cada vez melhor entrever o espelho no peito do outro.
Hoje sou o fogo e tu uma flor. Amanhã serás o fogo e eu o oceano. Depois serei o vulcão e tu o perfeito céu azul.
Sorrimos, assim, roçando a face de Deus.

(Ó código para entrares na tua alma está escrito algures debaixo da minha pele...)
- Angel, eu andei com o amigo dele para lhe fazer ciúmes, para o fazer reparar em mim, para lhe despertar qualquer coisa, percebes? E também para estar mais perto dele.


Foda-se, ainda tenho muitos vestígios de ingenuidade para não conseguir conceber algo assim, no zénite da perversidade, antes de o ouvir.
Ir dormir com a sensação de dever cumprido.
Consultando o dicionário onomástico, verifico que 90% dos nomes são desconhecidos. Só conhecemos os nomes mais recorrentes. Bozz (serei só eu a associar algo de artístico a este nome?) Alguém imagina que isto é um nome próprio, português? Parece apelido e inglês ou italiano. E Artaxerxes? E Sardanapalo? Não, nem todos têm este grau de comicidade... A minha memória selecciona os que provocaram o riso.

Ainda assim, os meus favoritos:


Diana, Joana, Lisa, Daniel.
Uma lenda árabe diz que no princípio dos tempos, não havia sexos, e que as pessoas foram divididas em dois, parte feminina e parte masculina, e as partes foram separadas pelo mundo. Cada um deve encontrar a sua, na fusão daquilo que alguns chamam de alma gémeas.


Acreditas nisto? Já encontraste a tua?

domingo, outubro 19, 2008

Ninguém é estranho. Tu é que não te dignaste conhecê-lo. O teu nevoeiro de preconceitos obnubilou-te a visão. É por isso que o que não toleras nos outros, toleras nos teus amigos, porque sabes o-que-o-levou-a-ser-assim, o que desperta nele a bondade, o que desperta nele a maldade, a ira, o riso, a efervescência, o tédio e o amor.

Solidões encontradas

A noite nada sabe dos cantos da noite
É o que é como sou o que sou:
E em percebendo isto percebo-me melhor a mim

E a ti. Só nós dois podemos trocar
Um no outro o que cada um tem para dar.
Só nós dois somos um, não tu e a noite,

Nem a noite e eu, mas tu e eu, sozinhos,
Tão sozinhos, tão profundamente nós mesmos,
Tão mais além das casuais solidões,

Que a noite é apenas um fundo para nós,
Supremamente fiel cada um ao seu próprio eu,
Na pálida luz que um sobre o outro derrama.

Wallace Stevens
Já te sentiste tão diferente de tudo que tenhas concluído que por mais pessoas, por mais etnias, por mais continentes que haja, ninguém será como tu? Que ninguém compreenderá essa tua cena? Que tu, e só tu, és único.

sábado, outubro 18, 2008

Aquele brilho outrora tão resplandecente
Dos meus olhos se ausentou para sempre
E agora, apesar de perdido o esplendor na relva
E o tempo de glória em flor,
Em vez de chorarmos, buscaremos força
No que para trás deixamos.


William Wordsworth

Crítica Literária (demanda ou a cor nunca vista)

Ora bem, em primeiro lugar ressalta o mais óbvio: o romance faz jus à capa. É um romance extremamente visual. Eu diria até mais: é um romance que contém em si uma concepção neo-platonista das coisas, e nem sequer me parece – ao contrário daquilo que pareceu ao José Alberto Braga – que o romance se refira a amor.
O narrador encontra-se na figura de um personagem, aparentemente simples, mas que revela uma insuspeitada complexidade. Esta advém justamente da complexidade da sua “demanda”: trata-se obviamente de uma viagem mental (“mente” tem 37 ocorrências!!!), mas não tanto no mundo dos conceitos e das ideias, mas no mundo do imagético.
Existe um triângulo, uma espécie de “santíssima trindade conceptual” na obra: SS ------ visão ----- corpo. Sendo que este triângulo se encontra subordinado ao tema central da vida. Para o Daniel, fotógrafo compulsivo, é a visão que domina todos os seus outros sentidos, e ele no fundo alimenta-se de imagens como de pão para a boca.
E como demonstrar que existe em Daniel um primado do mundo das imagens sobre a realidade do corpo físico? Como explicar que os seus movimentos corporais, o seu mimetismo, o movimento da sua carne e do seu sangue, são constantemente carburados pelas imagens? Há duas passagens aqui que julgo lapidares:

“De vez em quando suspirava, desesperado, e de vez em quando, como uma torrente, algo fluía da cabeça para o meu braço e do meu braço para a mão frenética.”

“Tacteei o espaço com os olhos (…)”

O CÍRCULO EXISTENCIAL DE DANIEL:

…..ÓRIAS------ VISÃO -----MEMÓRIAS ------ MENTE --------- CÉREBRO ----- BRAÇOS ----- MÃOS ------- MÁQUINA FOTO -------- >IMAGENS ------VISÃO ------- MEM…. --

Cérebro-Braços-Mãos: é este o encaminhamento lógico da actividade quotidiana de Daniel. Por sua vez o cérebro alimenta-se de imagens. É de facto interessante o quanto a insistência na alternância entre a “mente” (37 x) e o conjunto [“cérebro” + “cabeça”] (45 x!). Para o autor – e aqui contrariando um pretenso platonismo – o físico é constantemente invocado, como que em jeito de recordar o leitor de que não existe alma sem corpo, e portanto, não existe um mundo inteligível distinto do mundo sensível. O ideal é, na verdade, indissociável dos detalhes.
É este casamento, esta relação “complexa” no sentido que Morin dava à palavra, entre o sensível e o inteligível, que subverte a lógica comum do pensamento ocidental tradicional. Daniel, na sua interminavel viagem mental, procurava “A Cor Nunca Vista” (que podia ser muito bem o nome do romance!), a contingência que resumisse toda a contingencialidade, a temporalidade intemporal. Era exactamente esta temporalidade intemporal que ele procurava sequiosamente na figura de SS.
Isto torna-se muito interessante também visto de um ponto de vista Shopenauriano. Na verdade, a experiência de Daniel é anti-trágica por excelência. Ele procura no mundo a Vontade no seio da própria Representação, justamente porque não dissocia as duas. Daniel, é no fundo, um explorador das catacumbas do tempo de Apolo, procurando não o que está por detrás do Véu de Maya, mas antes o tecido do próprio véu. Daniel numa “dança de detalhes” (expressão deliciosa algures!!) paira, plana sobre as nuvens procurando o branco total, onde já nem terra nem céu sejam visíveis, e onde o tempo possa ser esquecido.

Daí a sua repugnância pelo “mundo real”, pela “vida prática”, que na verdade é uma crítica, também ela estranhamente complexa: os fúteis para o autor não são aqueles que vivem das aparências. São, antes, aqueles que vivem NAS aparências, sem procurarem 1) nem a “Vontade”, o “ser” oculto por DETRÁS das aparências (como procuram os intelectuais ocidentais); 2) nem o “Ser” DENTRO das próprias aparências.
Daniel quer pescar o Ser dentro das próprias aparências. Ele procura SS, a encarnação da inutilidade no seio de todas as inutilidades. Areias de Prata é um lugar mágico, onde o silêncio impera na luz (em contraposição à “noite”, que é uma constante na cidade), onde ele de facto “plana sobre as nuvens, à procura do branco total”.
Nunca se pode voltar atrás. Mesmo quando a nosa existência é circular.


Pedro Filipe Santos
Qual a outra dimensão da Vida?


A Poesia.


Como é possível viver sem ela?

sexta-feira, outubro 17, 2008

Se os outros te fizeram mal, a certa altura da vida relevas - o importante é a fidelidade dos teus comportamentos, palavras e pensamentos aos teus valores.
Vamos viver para as montanhas, lá a qualidade de sono é tão boa...
Acordar, depois de nove horas de sono repousado e ininterrupto, é como a sensação de um ofício bem cumprido.
Alguém escreveu que o suícidio é atirar fora a toalha preta da existência.
nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas


e.e. cummings (tradução de campos)
É quando mudas de opinião que percebes que o fanatismo é sempre uma defeito, uma inquisição potencial, e a tolerância (não no sentido paternal, de cima para baixo) uma virtude.
Nunca te aconteceu olhares para trás e lamentares algo, mas ao mesmo tempo, uma cadeia de pensamentos percorrer o teu cérebro:

-Não-sinto-que-pudesse-na-altura-com-o-que-sentia-e-sabia-ter-feito-as-coisas-de-outra-forma
Estás num estádio de evolução espiritual pueril enquanto não perceberes que: só podes competir com o melhor de ti próprio e nunca com o Outro. O que é fácil para ti é impossível para o Outro e vice-versa. E, sim, há impossíveis.
- Angel, foi aos 50 anos que comecei a ver as coisas de forma diferente.
Não acredito na meritocracia. Basta ler os jornais de hoje e não ver uma notícia sobre o despedimento do Queirós. A maior parte das pessoas tem emprego não porque enviou cv e foi a entrevistas, mas porque conhecia alguém. Mesmo nas editoras, meio que me é conhecido, quem se recruta são predominantemente miúdas novas e giras sem literatura. A belezocracia e a cunhocracia são tão ou mais importantes que a meritocracia.

E é sempre mais importante parecer que se sabe do que se saber mesmo. Podes estar a rebentar de inseguranças, mas quando chega o momento de decidir, ninguém pode suspeitar de que tens um átomo de dúvida. O ser-se-muito-bom-em-é nada mais é do que uma questão de imagem. Tomemos o exemplo de um perito. A sociedade, cada vez mais pulverizada, vai gerando novos e micros áreas atomizadas do saber. Como podemos avaliar o que alguém sabe sobre bombas atómicas ou crise das galinhas na Malásia senão pelo ar ufano e confiante que nos transmitem?

Vejo tanta gente a iludir os outros com pretensos conhecimentos. Vejo até pessoas que trabalham meia-hora por dia dizerem que passam o dia a trabalhar. O sucesso, escreveu Fitzgerald, é apenas uma questão de atmosfera. De maneira que... como li numa revista: ande sempre com um papel na mão quando circule pela sua empresa, com um ar fatigado e imerso numa hipotético problema, e quando alguém o solicitar diga sempre, mesmo que esteja a jogar copas, «de momento, não posso... cheio de trabalho (suspiro)».

Angel
É emocionante o processo de descobrimento das pessoas por trás das fachadas. Cada surpresa!

quinta-feira, outubro 16, 2008

- Angel, uma mulher é como uma sombra, quando vais atrás dela, ela foge, quando tentas fugir dela, ela não te larga.
Quando era novo, lembro-me de um personagem fascinante da série Mcgyver: o Murdoch. Caía de uma falésia, explodia dentro de um carro, era enforcado - e reaparecia sempre. Para os telespectadores pensarem que ele se sumira de vez, as situações da sua morte eram cada vez mais levadas ao limite do limite... Lembro-me de uma vez acreditar piamente que ele morrera, com o Mcgyver a abanar a cabeça como que a sente compaixão pela sua morte. Contudo, ele reapareceu noutro episódio... Uma vez, quando a sua morte era evidente, o Pete disse ao Mcgyver: «Desta vez, foi-se...» Ambos olharam um para o outro, consentindo com algum pesar. O telefone tocou, ninguém falava até que se ouviu o riso de... Murdoch!

Há relações que são assim como o Murdoch. Parece que acabam de vez... e das cinzas, renasce sempre uma fénix.
Melhor do que seduzir, só ser seduzido.

Melhor do ser seduzido, só ser conquistado.

Melhor do que ser conquistado, só ser reconquistado.

A lógica inversa

- Então e vais convidá-la para jantar?
- Eu não, espero que ela me convide para jantar.

Machismo para o c******

Auto-elogio

Sou mau em muita coisa: não sei dançar, conduzir, nadar, não percebo nada de computadores, carros, transferências bancárias, spreads (e quantas vezes já me ensinaram pessoas pacientes e com a cabeça organizada), nem sei apertar atacadores (olha para baixo e já estão soltos), cozinhar, perco-me 100 vezes, 100 vezes que vá a uma rua ou a casa de alguém, mas sou muito bom a predizer o futuro numa área.
Explico-me: sou um profeta da bola.
É verdade...
Quando o Trapattoni foi para o Benfica, disse (e apostei, vejam lá): o Benfica vai ser campeão.
Antes do Euro, disse: a Espanha será a campeã.
Quando o Queirós foi para a selecção: isto vai ser um fracasso.
Hoje, antes do jogo, perguntaram-me: Como é que isto vai ficar?
- Um empate.
E depois da expulsão, voltou a pergunta:
- Então e agora, Angel?
- E agora o quê? É um empate.

Ok, querem mais profecias? A selecção da República da Irlanda vai dar que falar.
- O meu pai tem um orgulho insuportável. Se ele diz algo, mesmo que veja depois que está errado, vai sempre tentar ser coerente com o que disse ao início. Outro dia ia começar um jogo de televisão e a televisão estava granulada. Eu perguntei se podia mexer na antena. Ele gritou: «Não!» Tivemos de ver o jogo com a imagem a saltar, cheia de grão, até me doiam os olhos. No final do jogo, levantei-me, dei um toque mínimo na antena e a imagem ficou perfeita. Olhei para o meu pai, carrancudo no sofá, mas não disse nada.
Se queres perceber o comportamento de uma mulher, escolhe uma amiga e deixa-a interpretá-la. Ninguém perceberá tão bem uma mulher como outra melhor. Não tenho dúvidas de que os orgasmos entre lésbicas são superiores a qualquer relação homem-mulher.
O que aprecio nos outros: a capacidade de saber guardar segredos.
A uma dada altura, o importante é seres bom naquilo que a sociedade aprecia. Depois, tu eleges o que é importante, e és indiferente aos outros, tão indiferente como rei instalado no seu palácio perante os latidos do cão a 10 mil milhas de distância.
Nalgumas coisas sou uma alma antiga. Para mim, o valor da palavra tem o valor de um pacto de sangue. Se disse a alguém que faria A, fá-lo-ei. Detesto pessoas sem palavra. Num mundo que se regesse pelo valor sacrossanto da palavra, os contratos seriam desnecessários.
- Sê tu próprio em cada palavra, em cada gesto. Ninguém gera consensos e, como alguém disse, um homem sem inimigos é um homem altamente desconfiável. Não desperdices nenhuma oportunidade para expandir o teu eu. A certa altura, todos te respeitarão, a tua marca será deixada e outros copiarão o teu estilo.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Lovesong

Quando quer que seja que estou a sós contigo
Tu fazes-me sentir como se eu estivesse em casa outra vez
Quando quer que seja que estou a sós contigo
Tu fazes-me sentir como se eu fosse inteiro outra vez
Quando quer que seja que estou a sós contigo
Tu fazes-me sentir como se eu fosse novo outra vez
Quando quer que seja que estou a sós contigo
Tu fazes-me sentir como se eu fosse engraçado outra vez

Por mais longe que eu esteja
Eu amar-te-ei sempre
Enquanto eu permanecer vivo
Eu amar-te-ei sempre
Quaisquer que sejam as palavras que eu diga
Eu amar-te-ei sempre

Quando quer que seja que estou a sós contigo
Tu fazes-me sentir como se eu fosse limpo outra vez
Quando quer que seja que estou a sós contigo
Tu fazes-me sentir como se eu fosse livre outra vez

Por mais longe que eu esteja
Eu amar-te-ei sempre
Enquanto eu permanecer vivo
Eu amar-te-ei sempre
Quaisquer que sejam as palavras que eu diga
Eu amar-te-ei sempre
- Mas anda, vai ser um fim-de-semana muito bom. À tarde no meu jardim, lá há em Sol em qualquer estação do ano. Descemos as rochas até à praia ao amanhecer, vamos até ao som do mar ver o Sol nascer... À noite, vemos um filme debaixo do cobertor, com a chuva a cair lá fora, e depois dormimos no sótão. Ainda podemos dar uma volta para sentir o cheiro da erva molhada e deitarmo-nos a contemplar as estrelas... A qualidade do sono é tão boa que vais acordar com os músculos tão doces e os nervos percorridos por uma delícia... Vens?
Se tivesse um filho, não o deixaria aplicar o verbo comer a algo que não fosse do género alimentício.

Visceralmente

Pessoas de quem não gosto: Carlos Queirós, Alberto João Jardim, Cavaco Silva, Bruce Willis, Steven Seagal, Tarantino, Merche Romero, Luís Figo, Axel (Axl?) Rose, Margarida Rebelo Pinto, João Baião, Jorge Jesus, Miguel Ângelo (Delfins), Rosa Lobato Faria, José Mourinho, Ricardo Costa, Vitor Pereira, Miguel Guilherme, Fernando Rocha, José Figueiras, Lobo Xavier, Dias Loureiro, Fernando Ulrich (Ull? Ulrr?).
De cada vez que te apetecer fazer algo que sentes que that´s-is-not-you, pensa o que sentiriam as pessoas que tens dentro de ti se soubessem.
Hoje fiz banho turco e tenho um bem-estar indestrutível.

terça-feira, outubro 14, 2008

Voar - Tertúlias Virtuais

Flutuando aqui
Desta forma contigo
Debaixo das estrelas
Alinhado
Com 13 biliões de anos
A vista
é bela
e nossa apenas nossa esta noite

Vendo sombras
derreterem a luz
tão cintilante
emanando dos nossos olhos

Sussurra nos ouvidos, um desejo
«Nós poderíamos vaguear até tão longe»

Voando aqui
Desta forma contigo
Debaixo das estrelas
Alinhado
Com 13 biliões de anos
A vista
é bela
e nossa apenas nossa esta noite

Para sempre como um só
Nos braços um do outro
Tão distantes e tão perto
Juntos como agora
Debaixo das estrelas

À medida que as ondas rebentam...


The Cure, Underneath the Stars (nova música, com excertos seleccionados e traduzidos por Angel)
Aqueles momentos em que te sentes tão inexplicavelmente bem...

O maior ensinamento

O eu não existe.


Buda
- Eu tava na merda e só de falar contigo fiquei logo muito melhor. É óptimo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.


HH

Ângulos de beleza

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade
É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações

Eugénio de Andrade
Já te aconteceu o sentimento se-ninguém-gosta-de-ti-eu-vou-gostar?

Ventos que mudam... e trazem esperança

Parece que o liberalismo económico está a passar de moda. Depois da nacionalizações na Europa do último mês, depois da crise financeira, agora o Paul Krugman, um raro economista norte-americano bem de esquerda nas antípodas de Hayek e Friedman, é Nobel.

segunda-feira, outubro 13, 2008

A vida de qualquer pessoa pode ser vista como um combate entre uma vontade de irreprimível de sermos bons e um conjunto de acontecimentos que nos impelem em sentido contrário.
Já encontraste a tua pessoa-espelho, que te permita ler o que tens escrito?
Kundera escreveu que pena é querermos eliminar o sofrimento de alguém, olhando-o de cima para baixo, e que compaixão é queremos erradicar o sofrimento de alguém, olhando-o de igual para igual, sentindo-o como se fosse nosso.
Conheci uma pessoa que falava das suas relações como de discos de músicas:

- Não, Angel, isso foi passageiro, foi um b-side completamente.
Homem que é homem não medo de mostrar as lágrimas.

Erros reincidentes dos homens com as mulheres

Responder a provocações.

Ficarem irritados quando o propósito é irritarem-nos.


Serem bananas.


Angel-o-cavalheirismo-tem-origens-no-machismo-porque-o-tratamento-diferenciado-é-contrário-ao-igualitarismo
Pazes :)
- Angel, as pessoas que discriminam pessoas racistas, também estão a ser racistas num certo sentido.

domingo, outubro 12, 2008

De homem para homem

Quando alguém me faz bem, Angel, sinto-me em perigo, vulnerável. Fico sem defesas e eu dou tudo quando não tenho defesas.
Gosto de gostar.

Protegidos por uma esfera que ninguém pode tocar

Não consigo entender quando leio no jornal ou vejo na televisão que um indíviduo matou duas pessoas por causa de um lugar de estacionamento, ou que um miúdo entrou numa escola e assassinou umas quantas pessoas. Tento compreender tudo (sem justificar), mas coisas há que... enfim.

A vida humana deveria ser um direito inviolável. Nada deveria justificar que alguém pusesse fim a ela (este é o meu princípio para ser contra a pena de morte). Gostava que isto fosse um princípio universal e incondicional que todos compartilhássemos. Algo inerente a todas as culturas. Poderemos todos ter a nossa tábua de valores, mas todos devemos comungar da ideia de que ninguém tem o direito de pôr fim à vida de ninguém (animais incluídos, mas isso é uma outra longa história).

Numa época de relativismo cultural, de falta de referências éticas, dos escombros deste mundo tão confuso, dever-se-ia erigir o princípio inviolável da vida.

Porque a vida é tudo, todo o horizonte de possibilidades se esgota nela., E não há causa maior do que ela, porque quando ela cessa, tudo cessa.

Uma vida não vale nada, mas nada vale uma vida.
Quando alguém te faz mal, isso pode tirar-te uma boa noite de sono. Mas quando tens a consciência tranquila, a qualidade de sono, mais cedo ou mais tarde, é garantida.
É impressão minha ou o Carlos Queirós é pedante, vazio de ideias, cabotino, artificial, pouseur, incompetente e muito limitado?
Foda-se, que sorriso.
- Não, hífens e travessões são coisas diferentes.
Não se pode viver sem: Ética, Amor, Livros.
Para além de escritor, só conceberia ser padre (de uma nova religião).
Quem levarias para uma ilha deserta se só pudesses levar 10 pessoas? E 9? E 8? E 7? E 6? E 5?

O solipsista

Acredito que a maior parte da nossa vida interior não flui para o Outro. Tantos livros que leio e sobre os quais não falo (e se falasse, como reproduzir as emoções que me provocam?), tantas músicas que me tocam, tantos momentos num dia, tantos pormenores que detestei e adorei e ninguém soube, tantos que ficam de fora nas conversas, tantos pensamentos no banho, que nunca ninguém irá escutar, tantos sonhos que ao acordar já não lembro, tanta experiência solitária. E quando a vida corre bem, queres agradecer ao mundo, e quando tudo corre mal, queres que o mundo se afunde contigo.
Quero ser puro e viver num mundo puro. Quero tanto tanto tanto...


Anjo-sem-mácula

sábado, outubro 11, 2008

Um homem anda atrás de uma mulher imenso tempo. Ela despreza-o, usando-o aqui e ali, dando-lhe gotinhas de esperança, que lhe garantem favores quando precisa.

Ela rejeita-o, rejeita-o, rejeita-o, mas quando o vê com alguma amiga, reaproxima-se, rouba-o, e fazendo o beicinho, volta a levar tudo dele.

Até ao dia, em que depois de mil e um tampas, mil e um jantares pagos (a estupidez empedernida do cavalheirismo), ele parte para outra e namora com uma rapariga, ainda que dizendo aos amigos:

- Mas de quem eu gosto ainda é da...

Ele vai deixando de a ver, de a contactar, e nos dois primeiros meses está quase sempre com a namorada.

Até que os três se cruzam.

A namorada dele está num dia mau. Eu espero que ele converse com ela, ou que vá para casa se ela assim desejar. Está num dia triste, ela. Ele reconforta-a. Entretanto, chega a chupista.

Chegou o momento expectante.

Faço preces para que ele não sucumba, sei que ela vai querer iludi-lo, marcar território, mostrar a namorada quem é boa. Eu peço por tudo que ele se mantenha firma com a namorada, que não volte a acreditar na canção da sereia, ainda para mais quando a namorada está assim.

Ela chega e grita o seu nome, repete-o e deixa-o desvanecer-se num murmúrio de prazer... Os olho dele brilham.

Mau sinal, penso. Ao menos não te levantes!

Ele levanta-se, dão um abraço enorme, ela vira-se para a namorada dele e diz:

- Ai eu tenho de falar com ele! - dá-lhe a mão e afasta-se com um enorme sorriso na cara.

Eu fico com a namorada dele, falo com ela, provoco o riso. Ambos desejamos secretamente liquidá-los.
A competição de egos

(faz-me tanta confusão)

sexta-feira, outubro 10, 2008

Gratidão

Obrigado pela noite de ontem, Cristina, Daniela, Maria, Miguel Pinto, Miguel (e, não esquecer: Narciso). Ficará gravada dentro de mim.

Labiríntico

S. não acreditava no livre-arbítrio, na possibilidade de escolha. Achava que se, por hipótese impossível, conhecêssemos todo a vida de alguém, todos os estímulos que recebera, todo o património genético, diz ele que preveríamos todos os seus comportamentos. A alcunha de S. nalguns meios é o Robô.
A tese dele, sem beleza, diz que temos ilusão de liberdade, mas nenhuma liberdade. Ninguém, então, escolhe ser o que é ou fazer o que faz - num determinado ângulo, isto conduziria à tolerância infinita.
A provar-se certa, a tese dele também poderia levar à apatia, porque ninguém gosta de saber que - afinal! - é um fantoche.
Recentemente, lembrei-me dele. Um programa sobre a evolução do cérebro (e do conhecimento que temos sobre ele) explicava como a neurologia caminhava para defender (como já Espinosa no campo da Filosofia, sem explicações científicas, avançara) que quando tomamos uma decisão, ilusoriamente vemo-nos a hesitar e a decidir, mas que isso se processa autonomamente da nossa vontade. O cérebro decide e quando nós pensamos que estamos a decidir, instantes antes de a decisão aparecer como fruto da nossa vontade, já ele decidiu...

quinta-feira, outubro 09, 2008

Cada vez que te leio, sinto-me tão poderoso e bem-disposto

Desta hora em diante, ordeno a mim mesmo que me liberte de limites e linhas imaginárias,
E, como meu próprio senhor total e absoluto, caminharei para onde eu quiser,
Ouvindo os outros, considerando bem o que eles dizem,
Parando, investigando, recebendo, contemplando,
Gentilmente, porém com irrecusável vontade,
Despindo-me dos embaraços que me poderiam entravar.
Sorvo grandes tragos de espaço,
O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul também me pertencem.
Sou mais extenso, melhor mesmo do que pensava,
Não sabia que em mim havia tanta bondade.

Tudo parece belo para mim,
Posso repetir a homens e a mulheres, pois tanto bem tendes feito a mim que eu gostaria de fazer o mesmo a vós


Wal Whitman
Ainda não foi desta que o Herberto arrecadou o Nobel.
O artista, um homem de longa barba e longo cabelo branco, disse-me:

«Eu tenho sessenta anos, a minha conta bancária é tão pequenina quase sempre. Faço o que gosto - e isso não tem preço. E sempre andei como senti que devia andar. Aos 14 anos, já tinha o cabelo pelos pés. O que eu ouvia a atravessar as ruas! Depois deixei de ouvir! Não deixei de ouvir na realidade, deixei de ouvir... Entende, o quero dizer, não é? Isso.. Uma pessoa deve sempre combater até conseguir fazer aquilo que realmente quer. Tem de sofrer, tem de bater no fundo, tem de penar muito tempo, mas consegue! Eu disse sempre isto aos meus filhos: podes passar fome, mas faz o que queres fazer! A minah filha desde oa 10 anos que é bailarina e o meu filho desde os 15 que faz teatro. Sou assim e nunca tomei um xanax na vida (risos)»
Quando era miúdo, acreditava que as miúdas de quem mais gostava, não tinham necessidades fisiológicas. Genuinamente, ainda hoje alimento essa crença mirífica.

e agora mais completo

Fica comigo este dia e esta noite e possuirás a origem de todos os poemas,
Possuirás o que há de bom na Terra e no Sol (há milhões de sóis),
Não terás coisas em segunda ou terceira mão, nem verás pelos olhos dos mortos, nem te alimentarás dos espectros dos livros,
Nem através dos meus olhos verás, nem de mim terás as coisas,
Escutarás tudo e todos e tudo em ti filtrarás

WW

quarta-feira, outubro 08, 2008

Um escritor que não aprecio escreveu algo fantástico:

«Amávamo-nos profundamente, mas de vez em quando ambos tínhamos necessidade de estar sós, e tínhamos ciúmes um no outro dessa necessidade.»


Ernest Hemingway
Queria conhecer todas as pessoas do mundo.
É difícil ter cada vez mais auto-confiança e ao mesmo tempo mais humildade. Nunca deixes de ir por aí...

O lobo das estepes

Ter algo cá dentro que não conseguimos comunicar a ninguém - as palavras contaminarão o nosso núcleo mais intímo,intransferível ao Outro. Quanto maior esse núcleo, mais alien me sinto.

O quintal e o latifúndio

Quando uma pessoa com escrúpulos defronta uma sem escrupúlos, a segunda vence sempre. Porque, no acto do combate, os recursos da segunda são ilimitados -a primeira tem os recursos limitados pela Ética.
E se nada nunca acabasse nunca?

segunda-feira, outubro 06, 2008

É tão estúpida esta esquerda, só lhes dá força

Lisboa

Autarquia exige retirada de cartaz do Partido Nacional Renovador
Hoje às 15:13
O vereador da Câmara Municipal de Lisboa, José Sá Fernandes, deu um prazo até às 18:00 de hoje para o Partido Nacional Renovador (PNR) retirar o cartaz contra a imigração que está colocado na praça de Entrecampos na Capital.


Esta Esquerda não percebe em primeiro lugar que liberdade de expressão não é a liberdade concedidade às ideias que defendemos, mas a liberdade que concedemos às ideias a que mais somos hostis - e que, no limite, nos repugnam.

Em segundo lugar não percebe que este partido dos nazis encapotados não tem expressão em Portugal (0,2% ou qualquer coisa assim) e que só é conhecido porque lhes tiraram o cartaz e o Gato Fedorento disse estupidamente dar-lhes fama. Num livro que li sobre neo-nazis, Michael Schimdt dizia que os neo-nazis instruíam os iniciados dizendo que não havia diferença entre os democratas e eles, dando o exemplo da falta de liberdade de expressão para as suas ideias. Senhor Sá Fernandes, não lhes dê esta oportunidade!!!!

E não me venha com a constituição, porque ela na altura em que foi feita, era simpática para as ditaduras de esquerda, para os hitlers vermelhos (estaline) e é uma incoerência permitir manifestações e partidos estalinistas e não fascistas. Não seja um fascista vermelho.

Obrigado.

Odiei ver o PNR a vitimizar-se e a dizer «As ideias não se apagam» num segundo cartaz (após a vandalização do primeiro). Por favor, não lhes dê razão para eles se queixarem da democracia.
No it´s not like any other love
This one is different because it´s us

The Smiths

domingo, outubro 05, 2008

Tríptico





Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que quer dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas de melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha cara ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.



Herberto Helder
- Mas então, se é assim tão mau, porque é que te dás com ele?
- Sei lá, ele penteia-me o ego.
O fim da noite é uma gorjeta da vida.

idem
Uma mulher repudiada é um exército em ebulição.

José Alberto Braga
A manifestação de uma agressividade que é inerente à espécie que somos, e que em tempos pensámos, pela educação, haver controlado, irrompeu brutalmente das profundidades nos últimos vinte anos em todo o espaço social, estimulada por modalidades de ócio que viraram as costas ao já simples hedonismo para se transformarem em agentes condicionadores da própria mentalidade do consumidor: a televisão, em primeiro lugar, onde imitações de sangue, cada vez mais perfeitas, saltam em jorros a todas as horas do dia e da noite, os video-jogos que são como manuais de instruções para alcançar a perfeita intolerância e a perfeita crueldade, e, porque tudo isto está ligado, as avalanchas de publicidade de serviços eróticos a que os jornais, incluindo os mais bem-pensantes, dão as boas-vindas, enquanto nas páginas sérias (são-no algumas?) abundam hipocritamente em lições de boa conduta à sociedade. Que estou a exagerar? Expliquem-me então como foi que chegámos à situação de muitos pais terem medo dos filhos, desses gentis adolescentes, esperanças do amanhã, em quem um “não” do pai ou da mãe, cansados de exigências irracionais, instantaneamente desencadeia uma fúria de insultos, de vexames, de agressões. Físicas, para que não fiquem dúvidas. Muitos pais têm os seus piores inimigos em casa: são os seus próprios filhos. Ingenuamente, Ruben Darío escreveu aquilo da “juventud, divino tesoro”. Não o escreveria hoje.

José Saramago
O fénomeno do século XXI: o escapismo. As novas tecnologias criarão somas perfeitos. O tédio morrerá. Haverá vozes reclamando contra a artificialidade feliz?
Tantas vidas tristes...
As paredes da mente não permitem entender tudo.
Por quanto mais tempo poderei eu uivar neste vento?
Por quando mais tempo
Poderei eu chorar desta maneira?

Mil horas perdidas por dia
Só para sentir o meu coração por um segundo
Mil horas simplesmente atiradas fora
Só para sentir o meu coração por um segundo


Por quanto mais tempo poderei eu uivar neste vento?


Cortesia de Mr. Robert Smith em tradução angeliana

sábado, outubro 04, 2008

Quando era miúdo, o meu quarto enchia-se de gente para jogar o hide and seek ou quarto escuro. Era electrizante esconder-me debaixo da cama com outros miúdos e miúdas, ou no armário, ou atrás da cortina, e sentir o medo que era também um frémito de prazer dos passos a aproximarem-se... Ainda hoje revivo com emoção esses momentos. Entretanto, as pessoas casam, têm filhos, e acham que há uma idade certa para cada coisa. Eu não penso assim e adoraria continuar a jogar ao quarto escuro no meu quarto. A vontade, a emoção, e o companheirismo (o conhecer as pessoas noutras facetas que não se desenvolvem no quotidiano) ainda moram cá...
Há em mim um desconhecido que me persegue e que pensa que sou eu.

José Alberto Braga
Há pessoas muito exigentes para consigo - normalmente são mais exigentes para com os outros.

Há pessoas muito flexíveis com os outros - normalmente dão menos de si aos outros.

Há pessoas muito críticas face aos outros - têm uma sensibilidade enorme às falhas dos outros, são facilmente magoáveis porque sentem que fazem tudo pelos outros.

Há pessoas muito liberais nas relações com os outros - dão pouco, esperam nada.
O conhecimento advém do interesse, pelo que é natural que tenhamos conhecimento sobre aquilo em que tenhamos interesse.


Francis Scott Fitzgerald

sexta-feira, outubro 03, 2008

Os ciganos ou os alentejanos detestam ouvir quem não é cigano ou alentejano dizer anedotas sobre eles, mas dentro das suas comunidades dizem mais piadas do que nós sobre ciganos ou alentejanos. Sabemos os nossos defeitos, mas não gostamos de ser criticados. Atacar a nossa identidade é atacarem-nos a nós.
Um bom actor acredita nas suas mentiras, e elas tornam-se para ele verdades temporárias.
Imagino quando ando pela rua um mundo em que ninguém passasse fome, ninguém tivesse preso, em que todos se tratassem por tu e pelo nome, sem títulos - em que todos se tratassem como iguais e em que ninguém se sentisse feio, gordo ou rico. Pensar assim ajuda a que o mundo seja melhor.

Faltam 10 dias...




4.13 dream

Quem não se sente pequenino?

Vivemos num planeta que pertence à Via Láctea. A Via Láctea é apenas uma galáxia entre cem mil milhões delas. Cada galáxia contém cem mil milhões de estrelas, sendo que uma delas pode conter oito planetas, que poderão, individualmente, ser maiores do que a Terra.

Extravasa o entendimento da mente humana... Não temos imaginação para conseguir sequer conceber estas realidades - tão duras quanto verdadeiras.

É preciso uma fé hercúlea e cega para não acreditar em que em algum desses biliões de sítios não haja um em que se reúnam as condições para a produção de vida. Qual vida? Não sabemos, mas seguramente vida. Ou não?
Não avalies pelas palavras, mas pelos comportamentos - dizem os Antigos.

Digo mais: não avalies pelos comportamentos, mas pelas intenções.


Angel-anti-utilitarista

quinta-feira, outubro 02, 2008

Sedutores

Um dia chamei-lhe sedutora e ela reagiu mal. O que ela não sabe é que eu só provoco (com) quem simpatizo. Reagiu mal, porque eu o adjectivo era certeiro. Mas, passado efeito imediato de fricção, demo-nos ainda melhor - ela sabe que eu sei que ela sabe.

E ser sedutor é perigoso. Porque os outros podem ficar hipnotizados, magnetizados, tantalizados por desejos inconsequentes - como quem desembrulha um rebuçado, aproximando-o lenta e suavemente da boca e... quando separamos os lábios, sorri guardando o rebuçado.

Não deixa de ser uma palavra bonita, que esconde ingredientes de manipulação, narcisismo, e embuste. Cruel? É a natureza dos sedutores, como na história do escorpião... (reticências é o sinal de escrita que mais deve ser usado pelos sedutores).

As cartas da sua vida preferidas são o mistério, a beleza, o romance, o inesperado e a aventura.

O que os moverá? Porque gostam de abrir e fechar cortinas, de jogar xadrez constantemente, de dar-e-tirar, de nunca deixar uma porta completamente aberta ou fechada - de, enfim, nos deixarem eternamente suspensos?

Não, agora já não estou a escrever sobre Ela.

Uma poema que alerta para os perigos da sedução:

Barca Bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!


Almeida Garrett
Quem merece ganhar mais: a empregada da limpeza competente ou o professor universitário incompetente?
Quando uma pessoa tem personalidade, passa num sítio e parece que há um círculo à volta dela. É como um fogo que a cerca. Os seus contornos recortam-se e a realidade circundante desvanece-se... Quando entra na escuridão, é a pessoa que brilha. A sua pele emana um oiro muito delicado...

quarta-feira, outubro 01, 2008

Quem baixo ama, alto lhe parece

Ela falava do novo namorado. Como o mundo é pequeno, eu achei que o conhecia.

- Pela descrição parece-me ele. E tem cabelo claro, não tem?
- Tem e é magro.
- É ele, é. Sei que é. É baixo, não é?
- Não, é da tua altura.
- Ah, então não é de certeza.

Mais tarde, vejo a pessoa-que-eu-pensava-que-era-até-ouvir-a-palavra-«alto». Aproxima-se e beija-a. Tem pelo menos menos 10 cm do que. 15, talvez.

What was her point?

Não há nada que se faça que não se venha descobrir, disse Cristo.
Muito já foi transposto da natureza humana para a literatura universal. Uma execepção: o fluxo do pensamento humano (não, nem Joyce, nem Virginia Woolf). E mesmo os diálogos não são credíveis, porque na literatura são sempre mais ordenados e lógicos (não, nem os norte-americanos).
a minha independência tem algemas

Manoel de Barros

As figuras tristes que nós fazemos

Observei hoje um riso artificial. Um empregado que tentava agradar ao patrão, rindo-se de algo a que não achava graça.
Explicar ao Outro a atmosfera de um sonho, de um livro, da quinta-essência que vemos em alguém e que - como cordas invísiveis - nos puxa, nos puxa... Eis a tarefa mais inglória.
Explicar ao Outro a atmosfera de um sonho, de um livro, da quinta-essência que vemos em alguém e que - como cordas invísiveis - nos puxa... Eis a tarefa mais inglória.
- Então, não estás a beber?
- Não. [Desculpa?]
Tentar sempre ser uma boa pessoa.
Só te envolvas quando gostares muito.
- Desmontava-te toda.

- Não sou uma peça Lego.
Se a razão fosse o comandante supremo, todos votaríamos no mesmo partido, torceríamos todos pelo mesmo clube e teríamos todos as mesmas ideias. Felizmente, nos recessos mais profundos e esconsos da mente, nunca é a razão que manda.

O teu bem-estar é o meu bem-estar

- Tive um dia bom hoje.
- Eu nem por isso.
- Então?
- Nada de especial, melhores dias virão. E tu porque estás com essa cara?
- Por nada.
- Estás triste?
- Estou.
- Então, mas não tiveste um dia bom hoje?
- Tive, mas estou triste porque estás triste.
- Não estejas. Fica contente por eu estar contente por tu estares contente. A sério, isso pôs-me contente e como te preocupas comigo, deves ficar contente.
http://www.dois.tv/programas/camaraclara/


Francisco José Viegas e Isabel Alçada... um dos melhores programas da televisão portuguesa nos últimos anos. Vale a pena verem o vídeo.

O mundo muda tão rápido...

11. Post-Menopausal Barbie. This Barbie wets her pants when she sneezes, forgets where she puts things, and cries a lot. She is sick and tired of Ken sitting on the couch watching the tube, clicking through the channels. Comes with Depends and Kleenex. As a bonus this year, the book "Getting In Touch with Your Inner Self" is included.

O Cão Amarelo

Outro livro a ter em atenção, desta vez do impensamental (uma nova revolução artística com substância) Flávio Andrade. Um livro com muita filosofia, muita poesia, muita fotografia, muito amor, muito muito sexo, belas paisagens... Promete, promete.

http://flankus.wordpress.com/