terça-feira, setembro 30, 2008

Muitas vezes não é uma questão de quem-tem-a-culpa-ou-quem-tem-a-razão, muitas vezes é apenas uma questão de comunicação. As palavras querem dizer coisas diferentes para pessoas diferentes.

O ofício do escritor

Jane Austen levou uma vida pacata e recatada e escreveu sobre a natureza humana como poucos na história da literatura. Quando olhamos para a biografia dos escritores, vemos o óbvio: cada escritor é uma pessoa. E cada pessoa é um universo. Tão diferentes entre si como um astro como o Sol pode diferir de outro como a Lua.
Existe o preconceito de que os escritores são criaturas soturnas que escrevem em catacumbas fumegantes, à noite, num qualquer tipo de ambiente nocturno e sórdido. Tantos escritores eram boémios e sociáveis... Também não vale a pena dizer que eram todos ébrios ou drogados, porque há exemplo beatíficos como Borges. Não há padrão.

O que é curioso observar - para mim, pelo menos - é que, sendo necessário viver para escrever, às vezes vidas tão solitárias e recatadas destilaram páginas sobre vidas suculentos de personagens multifacetados.

Como é possível?

1) Porque o escritor é alguém que não passa pelas experiências. É, antes, sujeito-esponja das experiências, procura sempre delas extrair o sumo, significado. Quantas vezes vemos pensamos reincidir ad nauseam nos erros? São pessoas que acumulam experiências, sem lhes atribuirem significados - se reflectirem no fundo. Porque, para reflectir, é preciso parar. E o escritor sabe o valor de parar para pensar.

2) Porque se viaja com a mente, quer sob a forma de memória, quer sob a forma de sonho. E o escritor é antes de mais um grande leitor (nomeadamente dos seus próprios escritos que relê inúmeras vezes para reescrever). Um programador neuro-linguístico explicou-me que a memória (referencial, explicou cientificamente, a memória de todas as referências que temos na vida e que nos permite agir com o meio circundante) diminiu com a idade e que só a leitura a pode aumentar!!! Ler é, portanto, o único antibiótico para a perda de memória referencial.


3) Porque o escritor é muito observador (da mente dele e do comportamento dos outros). E, para observar, ele tem de estar calado - o que levará outros a apelidarem-no de misantropo, pouco sociável e tímido.

4) Porque o escritor tem de ter uma enorme sensibilidade. Dito por outras palavras: atenção ao Outro. E isto implica que o compreenda melhor, ou que o tente fazer.

5) Porque muitas vezes o «viver a vida» é associado a experiências fúteis, vazias, em que não aprendemos nada, em que vamos ao encontro do Outro, em que não elevamos a alma. Podemos estar numa discoteca até ao meio-dia, todos mocados, todos fodidos, e não ter uma conversa com ninguém, não ouvir ninguém, um ponto de vista novo, um ângulo do mundo diferente, uma perspectiva de beleza singular.


Angel
tens um girassol no peito
No hospital, uma criança de cinco anos morta, embrulhada num lençol. Como é possível uma criança morrer? Como é possível ela grita de dor? Lobo Antunes viveu isso, o médico levando-a num lençol, e não numa maca, devido ao tamanho reduzido do ser indefeso. Um pé desprendera-se do lençol e ia balançando, à medida que se afastava do olhar de Lobo Antunes, impávido e em pé, a assistir a tudo. «Vou escrever para esse pé.», prometeu.
queria lembrá-lo, mas o pensamento escapou-se-me... era tão belo, queria fixá-lo na escrita.
As flores do teu sorriso

segunda-feira, setembro 29, 2008

Um funambulista (aqueles que andam ao longo de uma corda lá no ar) explica:

- É tão fácil - garante. - Se traçarmos uma linha no chão, todos conseguimos caminhar ao longo dela. Lá em cima, basta abstrairmo-nos de que o que está à volta dessa linha não é chão, mas ar.

E qual o gozo que lhe dá?

- Sinto a segurança da vida cá em baixo como uma prisão.

domingo, setembro 28, 2008

oh o beijo tão alcoólico e lento...

the cure

O que é isso da inteligência?

Nunca percebi o que é a inteligência porque, também, nunca ninguém ma conseguiu explicar. Porque não há uma definição de inteligência.

Sempre me espantou quem diz de outrem que é inteligente: muito, pouco ou nada.

A psicologia fazia os rídiculos testes do QI em que uma pessoa podia ter resultados brilhantes e não conseguir ter um emprego em que tivesse de lidar pessoas; e então acrescentou-se a inteligência emocional. É mais uma categoria, mas não deixa de ser uma hipersimplificação da realidade.

Já li - e isso achei muito interessante - que ainda dentro da inteligência emocional hajam duas subdivisões: a intrapessoal e a interpessoal.

Gandhi seria o exemplo da interpessoal porque conseguia perceber o que entusiasmava e o que desiludia cada pessoa - sabia interpretar o Outro. Freud era o intrapessoal porque conseguia perceber-se a si próprio muito bem - e, nesse sentido, mergulhando nele descobriu-se tão bem que viu dentro de si o que era universalizável.


Como alguém escreveu: «A inteligência é a mais sobrestimada das virtudes [ou melhor dita: das características pessoais].»

Angel
Deus - ou o que é que é que lhe queiras chamar - existe.
Faz aos outros aquilo que te derretias que te fizessem.
Não vás atrás de modas nem de maralhas.

Espiral

A linha divisória entre o divertimento e a futilidade, entre o prazer e o vício é ténue.

E um dia...
Age de acordo com o grilo da tua consciência e não de acordo com a necessidade de reconhecimento.

sábado, setembro 27, 2008

O escritor é muitas pessoas.

João Tordo

Demagogia, eis a palavra

É tão engraçado ver os políticos a dizer (já foram tantos a dizê-lo) quando interpelados sobre a questão da homossexualidade:

- Isto não é uma questão que preocupe os portugueses, temos é de discutir as questões essenciais.

Ou são a favor sou são contra, agora não tenham medo de dizer que são contra e adiem o problema com esta cobardia dissimulada. Porque, de facto, a institucionalização da discriminação é um problema que afecta muita gente.

A mim desagrada-me que haja 5% ou 10% de pessoas que não possam exprimir em público os sus afectos, que não possam constituir família com os mesmo direitos, que não possam aceder ao mercado de trabalho nas mesmíssimas condições, que não possam jogar futebol ou ir à tropa sem se submeterem a práticas humilhantes.

A pior forma de lidar com esta questão é a frieza gélida de dizer que é uma questão tão de somenos importância que nem vale a pena nomeá-la. Fala assim quem quer manter o statuos quo.

É tremendamente divertido que esse argumento (ver frase acima) só se aplica aos homossexuais. Porque é que não se vem dizer quando se discute coisas como o computador Magalhães, o regime de taxas da ERC, o TGV, o nome Allgarve ou Algarve:

- Isto não é uma questão que preocupe os portugueses, temos é de discutir as questões essenciais.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Tens de te admitir o direito a errar.

Frases certeiras

Uma vez, sentados junto ao rio da expo (estão a pensar em amor? é amizade do que venho aqui falar), eu e um amigo falávamos.

Estava uma tarde soalheira e ele atirou:

- Angel, se me perguntares se me preocupo mais com o meu bem-estar o com o teu, digo-te já que é com o teu.

Marcando a diferença

Em baixo, entrevista a Herberto Helder, o homem que não concede entrevistas (esta é a única excepção, datada de 1964, se exceptuarmos uma feita a ele próprio e que é mais um poema na realidade), nem se deixa fotografar, nem recebe prémios. A obra (e que bem que ele escreve!) é o que conta. A coerência e a integridade também. Isto, apesar de o efeito ser o contrário: com a sua postura, desvia muita gente da Obra, gente que só está interessada em procurar a pessoa, em seguir quaisquer vestígios sobre este... poeta obscuro.

Angel



Entrevista a Herberto Helder(na foto) por Fernando Ribeiro de Mello, publicada do Jornal de Letras e Artes n.º 139, de 17 de Maio de 1964.


«Os cinco livros que até hoje publiquei pouco significam agora para mim!»
- Diz-nos desassombradamente Herberto Helder


Herberto Helder, cujo último livro, «Electronicolírica», veio levantar sérios problemas em volta do conceito que a sua poética parecia anunciar acaba de publicar em conjunto com António Aragão e vários o colaboradores o caderno «Poesia Experimental» que vem confirmar a viragem operada na sua obra.



Fernando Ribeiro de Mello/ Jornal de Letras e Artes – Como considera criticamente a evolução da sua produção poética, desde «O Amor em Visita» ao recentemente publicado «Electronicolírica»?
Herberto Helder – Em certo sentido (que também prezo), não houve evolução. Esse sentido é o de fidelidade às bases da minha experiência – a descoberta do modo – que, fundamentalmente, se cumpriu na infância. A experiência exterior poderá ser considerada simples desenvolvimento ou enriquecimento «em linguagem». A minha poesia processou sempre, como é evidente, exercer-se sobre essa massa central e viva. Mas a experiência humana é apenas ponto de partida, núcleo sólido e permanente onde assenta a experiência posterior da criação. Considero a criação o encaminhamento, até às consequências extremas, de uma experiência em si mesma não organizada. A descoberta do mundo não possui, por ela própria, finalidade ou coerência, nem constitui a salvação desse mundo. Desde que seja possível criar um corpo orgânico em que a experiência, devidamente articulada, se baste, surge uma harmonia entre o sujeito e a sua experiência, quero dizer, o sujeito participa do cosmos. Este esforço da superação do caos exprime-se pela busca de uma linguagem. È aliás na linguagem que a experiência se vai tornando real. Se nela não há, em sentido rigoroso, experiência do mundo. A esta conclusão vem chegando uma moderna filosofia da arte. A formação da linguagem é um paciente, extenso, doloroso e, muitas vezes, desesperante caminho. O erro aparece como uma constante, mas existe a possibilidade de ser sempre menor. Entre um grau máximo e um grau mínimo de erro, situa-se a evolução. Progresso de linguagem, de adequação às finalidades, superação da experiência, purificação do tema – eis onde se pode situar o sentido da evolução. Evolui evoluirci. Suponho que, entre a minha produção até ao volume «Lugar» e a quer me encontro realizando, há um salto considerável. O livro «Electronicolírica» é apenas o início do rompimento com certos princípios que orientavam a procura do estilo. Acho-me no ponto em que não hesito distanciar-me de tudo o que antes escrevi. Mesmo de «Electronicolírica» , aliás, composto há já um ano. Afasto-me, até, da minha colaboração no primeiro número de «Poesia Experimental» que, escrita antes, se situa contudo num momento mais avançado de evolução. Os cinco livros que até hoje publiquei pouco significam agora para mim. O pouco significarem garante-me completa liberdade e isenção, em ordem a uma nova linguagem. Nesses volumes não se exprime propriamente uma evolução, pelo facto de todos eles assentarem em dois preconceitos, a saber: 1) A consideração exclusiva de processos literários para a realização do espaço poético; 2) a preocupação de conseguir uma linguagem comunicativa. Presumo que um poeta dispõe de recursos muito mais amplos do que os meramente verbais e que, utilizando-os mesmo em exclusivo, eles devem tender à organização não apenas literária, ou gramatical, ou rítmica. Compreendo que se possam fazer poemas recorrendo, por exemplo, à expressão matemática, ao grafismo, à técnica comercial e industrial, às máquinas, à música, ou a qualquer outra fonte e tipo de sintaxe. Por outro lado, imagino que as preocupações do poeta se devem libertar da linguagem organizada para o diálogo. Max Bense afirma algo de semelhante, ao acentuar que «no conceito convencional de literatura, põe-se a ênfase na função comunicativa-social dela, enquanto que, no conceito progressivo, se insiste na sua função experimentativa-intelectual». Interessa-me, portanto, chegado que sou à convicção de me haver limitado, nos livros anteriores, a mover-me em círculo sobre uma linguagem esgotada – interessa-me digo, muito menos executar, uma gramática literária, destinada ao diálogo, do que perfazer um organismo internamente coerente e bastante. A comunicação será consequente, se for. De qualquer modo, bani a ideia, do diálogo, no meu estilo. Mas sinto-me ligado aos escritos antigos como alguém se pode sentir ligado a um paciente e doloroso erro...
FRM/JLA – Como explica a publicação do seu último livro, poesia de carácter experimental, após e em face da obra anterior que conquistara inegável prestígio?
HH – A resposta a esta pergunta está incluída na primeira. Resta-me acrescentar que o prestígio que possa ter alcançado (prestígio equivoco no qual se integra a malquerença de alguma gente, que aceito com satisfação) não poderia constituir uma poltrona. O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia.
FRM/JLA – Que pensa da atitude da crítica relativamente a este livro?
HH – A crítica? Bem vê: nas circunstâncias em que me encontro, a crítica não me poderia ajudar. Ela de resto nunca ajuda um autor. Tende afazer de mediadora entre uma linguagem e um entendimento. Ajudará o leitor. Visto que bani das minha preocupações a ideia de comunicação, não considero a intervenção desse primeiro decifrador, do mediador. Porque não estou interessado em que o leitor adira...
Poucas apreciações críticas foram feitas ao livro, até porque só o enviei a três ou quatro críticos, cada um deles representando certo núcleo de opinião. Simples curiosidade da minha parte... A referência que lhe concedeu Álvaro Salema exprime, mais ou menos, a opinião dos neo-realistas a meu respeito e inscrevo-a na categoria dos meus pequenos divertimentos privados. A de João Gaspar Simões, mais esclarecida e esforçada, carece de informação. Não é possível criticar-se um livro de poesia experimental com os instrumentos aplicáveis à poesia convencional. Em todo o caso, Gaspar Simões é um homem atento, e a sua formação de base parece-me menos estreita que a da maioria dos críticos portugueses. Lamento que o seu conceito de poesia se vincule demasiado a alguns postulados da geração presencista.
FRM/JLA – Diga-nos se o seu livro de contos «Os Passos em Volta» constitui uma experiência isolada ou representa uma continuação da sua obra restante.
HH – Esse livro pertence ao mesmo sistema de propostas e soluções dos outros. Inscrevê-lo na designação de contos, ou chamar aos meus outros livros conjuntos de poemas, significa apenas ausência de superfície às categorias estabelecidas. Não me parece necessário referir a crise das classificações literárias. Caminha-se, sabemo-lo todos, para uma visão total da obra literária que se não podem adoptar distinções afinal nunca rigorosas, senão de um ponto de vista didáctico e, assim mesmo, somente em determinado grau de didactismo, «Os Passos em Volta» são a minha primeira tentativa para superar a dictomia prosa-poesia. Marcam também o meu interesse, no momento de referir algumas algumas experiências de facto, em que a circunstância desempenhava papel preponderante. Achei então que o poema, como eu o vinha praticando, não possuía a elasticidade, o ritmo, o clima verbal, capazes de abrange, adequadamente o tecido temático e circunstancial que eu pretendia explorar. Aquele livro permitiu-me tal experiência, tendo sido ele, afinal, um passo decisivo para a abolição dos preconceitos que vinham limitando o meu trabalho.
FRM/JLA – Sobre os cadernos «Poesia Experimental» que se lhe oferece dizer?
HH – «Poesia Experimental», cadernos cujos propósitos são parcialmente expostos no primeiro número e que mais cabalmente irão sendo nos seguintes, constitui o único esforço sistemático e de conjunto para a renovação da poesia portuguesa. Estes cadernos provarão também que existe na nossa poesia uma tradição que nunca foi sequer, de passagem, indicada. Quanto ao corpo de colaboradores, que espero ver presentes no diversos números que se projecta publicar, têm vindo todos eles, privada ou publicamente, tentando alguns meios novos da expressão poética. Salette Tavares ofereceu-nos agora algo que considero extremamente importante, tendo conseguido uma desenvoltura rara na utilização de uma gramática com pouca tradição onde se apoiar. António Aragão propõe um extenso poema-narração, bastante ambicioso,, justo em muitas das suas partes. Há nele uma multiplicidade de experiências que conduzirão a lugares diferentes do experimentalismo. E. M. de Melo e Castro consegue o melhor dos textos que publicou até hoje e onde se purifica a tendência «concretizante» dos seus processos. António Ramos Rosa aparece com textos semantemáticos de grande rigor que marcam corajoso passo em frente, passo aliás adivinhável já em «Ocupação do Espaço». António Barahona da Fonseca liberta-se dos seus vínculos surrealistas e promete o necessário salto mortal, para que, interiormente, se tem vindo a preparar. Quanto a mim, vou um pouco mais longe na exploração do principio combinatório inspirado nas calculadoras electrónicas, considerando no entanto tais experiências ainda pouco ousadas para o que pretendo. Espero conseguir um pouco mais.
Não existe qualquer uniformidade nas experiências em curso entre os colaboradores de «Poesia Experimental». É visível, imediatamente, que duas grandes tendências se desenvolvem no sei da revista. Uma a que poderei chamar «concretizante», que se apoia, digamos, numa concepção materialista da linguagem, procurando a coisificação da palavra. Outra «abstractizante», em que a ambiguidade e o indefinido, provenientes de uma inclinação barroca do espírito, se inserem no processo verbal, criando espaços míticos sobre os quais se pode dizer debruçar-se um sentido do maravilhoso. Esta tentativa de caracterização é de facto rudimentar e assinala apenas diferenças profundas imediatamente observáveis.
FRM/JLA – Quanto a si, quais os movimentos ou tendências da poesia portuguesa actual que lhe parecem importantes, não só do ponto de vista de renovação formal, estética como também sob o ângulo conceptual e humano?
HH – O único movimento poético que me parece moderno é o Experimentalismo. E estou a referir-me tanto ao nosso país como à poesia em geral. Os meus interesses estão de tal modo virados para ela que me é quase impossível dar atenção à poesia convencional, por mais notável que seja, dentro dos seus recursos e propósitos.
Quanto ás expressões «formal», «conceptual», «estético» e «humano», nas acepções utilizadas na sua pergunta, nada tenho a dizer. Representam conceitos não integráveis, desse modo, no meu processo de pensamento. Em poesia, formal, conceptual, estético e humano significam, conjuntamente, «linguagem». E poesia, como diria certo crítico norte-americano, é linguagem. Isolar o implícito, explicitando-o, servirá apenas para estabelecer um sistema insolúvel de situações.


do blog editora-afrodite

Algures li

A imitação é a forma suprema da lisonja.

O...

L...

Encontrei muita graça a

Wednesday, September 10, 2008
If (only) a girl could be an island
Cada vez mais gosto menos de pessoas.
posted by plim at 23:39


do blog www.soparadizerque.blogspot.com

O autor

L...

O autor

L...

Livros que... (e que...)

O autor

Livros que tenho cá dentro (... idem)

quinta-feira, setembro 25, 2008

O autor

Livros que tenho cá dentro (... etc e tal)

O autor (clicar para aumentar)

Livros que tenho cá dentro (... e que me fizeram ser o que sou)

O autor

Os livros que tenho cá dentro (... e que me fizeram ser o que sou)

Cada alma tem um perfume inigualável.

Angel
Desfocamos todos a realidade até que a consigamos suportar.

Angel

Do Real

Bar universitário. Uma rapariga vai ao balcão com um sumo e diz:

- Olhe este sumo está estragado!

A funcionária responde:

- Abrezelio, agora bebezelio.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Não faças nada gratuito - não há nada pior do que temeres enfrentares o espelho.
Não o faças pelas razões erradas.
Hoje sinto-me nostálgico.
Fala-me dos teus problemas.
Às pessoas que ouçam no autocarro dizer:

- No tempo do salazar havia muito mais segurança.



Segurança é uma palavra mais vasta do que a aplicada apenas ao crime, mas isso daria um long post, teria de falar sobre insegurança nos acidentes de trabalho, insegurança no emprego, e mil e uma coisas.


Apenas digo a esses saudosistas que andam no 28:

- Eu sinto-me mais seguro a andar nas ruas de Lisboa à noite do que me sentiria se fosse obrigado a participar na guerra colonial.

Cantigas do bandido

- Saí agora de uma relação e não me quero envolver.

- Deixei de te contactar porque tinha medo de me prender a ti.

- Eu vou deixar a minha mulher e vou viver contigo, tens de me dar tempo.

Alimentam, assim, o que repudiam...

As mulheres apreciam a voz do homem, o olhar a personalidade.

Os homens também, mas se a cara, as mamas e o cu tiverem nota negativa, a mulher está excluída (a não ser que a sua fome seja muita).

As mulheres censuram os homens com razão, lamentando o vazio da sua opção. São todos iguais, dizem...


Não se insurgem, porém, e querem (e esforçam-se por) ter umas boas maminhas e um rabo tonificado.

Sonho

Um casamento numa igreja bela, imponente, fresca. As pessoas aglutinam-se lá dentro. Os noivos estão a prestes a casar-se. Está tudo expectante e feliz.

Um cavalo branco entra na Igreja, troteia um pouco até ao corredor vermelho. Relincha e ergue as patas. (no meu sonho, é o cavalo mais bonito do mundo)

Um homem de veludo, de preto, de máscara nos olhos e chapéu, monta o cavalo.


As pessoas todas desviaram a cabeça dos noivos e do padre no púlpito para aquele ser misterioso que irrompeu vindo-sabe-se-lá-de-onde.

- Will you marry me? - atira o cavaleiro.


Sonhei com isto e hoje penso que quando devotar o amor a alguém, preferia que fosse assim (sendo eu o cavaleiro) e não sob a forma de casamento normal. Acho que seria muito mais emocionante.


Angel
Quanto mais enterrados os diamantes, mais o pirata quer roubá-los.

Diários de Che Guevara
O hábito transforma o desagradável em neutro.
Será a Verdade o valor mais importante?
A melhor coisa do mundo: conseguirmos surpreender uma pessoa, por mais anos que passem.

terça-feira, setembro 23, 2008

A vitalidade não se revela apenas na capacidade de persistir, mas também na de começar tudo de novo.

Scott Fitzgerald

Auto-inominável

Nunca vi ninguém admitir: «Eu sou uma pessoa materialista.» Contudo, é um qualificativo muito usado para o Outro.

segunda-feira, setembro 22, 2008

A degradação

Fico deprimido quando deixo de ver alguém durante algum tempo e depois encontro essa pessoa e ela está na fossa.


Seja droga, anorexia, uma depressão - há pessoas que ficam irreconhecíveis. Outro dia falei com uma pessoa que desceu a espiral até ao fim.

- É que a certa altura, Angel, já te estás a cagar para tudo. E vais descendo, descendo...


Lembrei-me de quando era muito novo e comprava os caderninhos da escola e ao ínico tinha um cuidado extremo a fazer a letrinha bonita e em não sujar nada. Com o tempo, o caderno ia-se desgastando, a capa ia dilatando, havia inevitavelmente gatafunhos lá dentro, e o cuidado para com o caderno era, sumário após sumário, cada vez menor...


Angel
Gostava de ser padre se as igrejas não estivessem eivadas de conservadorismo. No caso do cristianismo, bastaria que fossem fiel as doutrinas. Aconselho, neste sentido, o livro Jesus, Esse Grande Desconhecido de Juan Arias.

Jesus - Marx

Igreja Católica - Estaline

domingo, setembro 21, 2008

Esta flor irrepreensível fui eu que nutri.


Patrícia Reis

«Tudo está lá, depois da chuva»

Vem aí um livro que só pode ser extraordinário. Isto porque quem o escreve é Lisa Henriques, uma amiga que, por preguiça ou por um sentído auto-crítico demasiado apurado, só escrevia ocasionalmente.


Mas quando escrevia, eu ficava esmagado com o que escrevia. Houve um texto dela que publiquei aqui («Lembras-te do fogo?», esta aqui nos arquivos algures) que, apesar de em papel não ocupar mais de duas páginas, já o li e reli seguramente mais de 15 vezes. Seguramente mais. E cada vez que lá vou, vou buscar coisas novas, como um poço de sumo infinito...


A Lisa trabalha a prosa com esmero de poeta, e o que escreve é difícil de classificar, para além do vago conceito de prosa poética. Muitas vezes leio coisas bem escritas, mas sem conteúdo, com o um vazio bonito, mas vazio. Muitas vezes leio coisas-interessantes-que-alguém-teria-para-dizer pessimamente escritas, com as palavras a esmagarem as ideias. A Lisa consegue ter as duas.

É impressionante o fogo, o perfume, a profundidade da terra que alcança, a a violência, a beleza, e a doçura que verte nas suas linhas...

Finalmente, finalmente, vai publicar um livro, depois de um interregno de dez anos de ter publicado um conto.

Pude ler um excerto. E como tudo o que é dela: é assombrosamente original. A Lisa é assim na vida. Capaz de enviar um mail às quatro da manhã a dizer «Todos os balões/golfinhos», sem assunto no remetente e sem mais nada.

Não basta a qualidade, é preciso ter voz própria. E isso é o mais difícil. Então perante os novos autores... É quase impossível não dizermos «isto tem influência de...» Lisa parece que vem de outro mundo, e se há influências, tão dissimuladas estão que não se lhe encontram vestígios. É sempre uma lufada de um ar fresco e doce ler aquilo que Lisa Henriques escreve - de onde é que isto vem?

A sua obra é trilingue (alemão, português, francês) e tem um nome em alemão. Porque tudo o que ela escreve tem múltiplas interpretações, ela teria de ir buscar o título a essa língua em que uma palavra tem 1001 significados. Aufgang foi a escolhida.


Algo que emergirá, o sol nascente, o despontar, a aurora...

Fatalismo nacional

Uma onda de resignação, pessimismo e vitimização parece ter submergido os portugueses.

sábado, setembro 20, 2008

O Changuito do Bar A Barraca (também teatro), grande recitador de poesia, disse-me um dia:

- A poesia é uma arma para cortejar as mulheres e isso é uma mais nobres actividades a que alguém se pode dedicar.
Ontem andei feliz o dia todo. Sabes quando algo é suficientemente forte para colorir todo o dia de alegria.

Ligaram-me de um sítio para onde trabalho.

- Boa, tarde Dr. Angel, constatamos que não lhe pagámos quando das mudanças na nossa contabilidade.

- Hã... Pois...


Não me lembrava. Não estariam enganados? Insistiram que me deviam. E deviam mesmo. Eu ligo ao dinheiro porque ele de facto faz-me falta para comprar livros, doces, teatros e entradas no Braço de Prata. Como sou cabeça-nas-nuvens, esquecera-me.

Fiquei tão feliz, tão feliz por descobrir a seriedade de pessoas com que lido regularmente. Adoro gente séria. E adoro que velem por aquilo em que sou manifestamente distraído.


Angel

sexta-feira, setembro 19, 2008

«Cultura é tudo aquilo que fica depois de tudo aquilo que se esqueceu.»
«No door should be opened before the previous one has been closed.»
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música, um
pouco mais como uma cor curvando-se (por exemplo
laranja)
contra o silêncio, ou a escuridão...

a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento ,

devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.

(...)

o que é isso que o realejo toca


e. e. cummings
A natureza do homem não foi feita para a derrota.

Ernest Hemingway
Conheci uma pessoa analfabeta (ou já conhecia, mas reparei nela, porque ela entrava-me pelos dias adentro sem eu poisar nela o olhar). Ela conhece as maiores verdades da natureza humana.
A frase que ouvia nos balneários masculinos no meu secundário e voltei a ouvir sábado no bairro alto:

- Comia-te essa cona toda oé oé!!!
Inclina-te para o Bem, se queres ser feliz.
Quando um poema te toca, e tu mostras os versos, e a pessoa olha para ti como se fosses um alien, tu encaras o pragmatismo como uma aberração.
Não te levas demasiado a sério, mas leva a sério o mundo.


Gonçalo M. Tavares

quinta-feira, setembro 18, 2008

Estás triste?, anda cá eu vou confortar-te.
«A presença dela continua enquanto a ausência dela continuar presente.»
- O que eu queria mesmo, Angel, era ficar o resto da vida a fazer bolos e livros.

Saber dizer não

Até Cristo expulsou os vendilhões do templo, insultou-os e afastou-os com o chicote.

terça-feira, setembro 16, 2008

Mandamentos da Amizade

- Ser omnipresente na desgraça;

- Usufruir dos silêncios;

- Intuir o que faz o outro sofrer e antecipar a ajuda antes que nos seja solicitada;

- Guardar até à cova os segredos;

- Não lhe contar tudo, mas ter sempre a percepção de que não há nada que escondamos que se ele soubesse nos veria de uma forma diferente;

- Partilhar as suas alegrias;

- Pensar nele quando estamos sós: O que é que eu posso fazer para melhorar a vida dele? O que lhe falta?

- Estar lá em todos os momentos simbólicos ou pelo menos dar-lhe um sinal de que nos lembramos(quando faz anos, quando acaba o curso, quando realiza um objectivo/sonho);

- Confortá-lo na véspera do momento decisivo;

- Pensar no amigo, transportá-los connosco em todas as viagens que fazemos, em todos os momentos bons que vivemos e comunicar com ele sem ele saber: «quem me dera que soubesses o que estou a viver»;

- defendê-lo sempre que alguém o ataca e nunca lhe dizer nada;

- criticá-lo em privado naquilo que desaprovamos;

- manifestar-lhe com frequência o nosso amor infinito e incondicional por ele;

- elogiar aquilo que gostamos nele;

- dizer «tu és uma pessoa especial»;

... e quando ele disser:

- Salta.

Só perguntar:

- Quanto?


Angel
- Ele é giro, mas não me atrai nada. Tem uma beleza muito Ken.
- Todas acreditamos no Príncipe Encantado, Angel. Lemos a história dele na infância e isso marca-nos para sempre.
Era uma pessoa tão tolerante tão tolerante que era equidistante de qualquer ponto de vista. Conhecia-a, admirava-a, mas aos poucos percebi os defeitos da sua qualidade: era inodora, incolor, insípida.

Todos os assuntos são poucos

Qualquer conversa ou texto que não verse sobre política, terá de versar sobre Deus, morte ou amor.


Pacheco Pereira

Desintegração

oh eu sinto falta do beijo da traição
o desavergonhado beijo da vaidade
o suave e o negro e o aveludado
apertados contra o meu lado
e boca e olhos e coração todos sangram e fluem
para engrossantes correntes de cobiça
à medida que a pouco e pouco
desponta a necessidade de largar apenas o meu pedaço da festa

oh eu sinto falta do beijo da traição
o beijo dorido antes de eu alimentar
o fedor de um amor por uma carne mais jovem
e o som que isso faz quando dilacera bem fundo
o sustentáculo em joelhos curvados
o vício das duplicidades
à medida que a pouco e pouco
desponta a necessidade de largar apenas o meu pedaço da festa

mas eu nunca disse que iria permanecer até ao fim
então eu deixo-te com bebés e à espera frequentemente
gritando assim na esperança do sigilo
gritando-me outra e outra e outra vez
eu deixo-te com fotografias imagens de engano
nódoas na carpete e nódoas no cenário
canções sobre felicidade murmuradas em sonhos
quando ambos sabíamos como o fim seria...

então está tudo a voltar juntando-se para a separação outra vez
quebrando-me como se eu fosse feito de vidro outra vez
fazendo-o nas minhas costas outra vez
sustendo a minha respiração pelo medo de dormir outra vez
segurando-o atrás da minha cabeça outra vez
dilacera bem fundo até ao coração do osso outra vez
às voltas e às voltas e às voltas
e está tudo a desfazer-se de novo outra e outra e outra vez

agora que eu sei que me estou despedaçar
eu arrancarei o meu coração e dá-lo-ei de alimento a qualquer um
chorando por simpatia
lágrimas de crocodilo pelo amor da multidão
e os três vivas! de toda a gente
caindo do céu para
o vidro do telhado para
o telhado da tua boca
para a boca do teu olho
para o buraco da agulha
é mais fácil para mim chegar perto do paraíso
do que voltar a sentir-me inteiro outra vez

eu nunca disse que iria permanecer até ao fim
eu sabia que te deixaria com bebés e tudo mais
gritando assim no vazio da sinceridade
gritando-me outra e outra e outra vez

eu deixo-te com fotografias imagens de engano
nódoas na carpete e nódoas no cenário
canções sobre felicidade murmuradas em sonhos
quando ambos sabíamos como o fim seria...

como o fim sempre é...


The Cure (tradução angel)
Uma pessoa perfeita seria assexuada.
Percorro a tua alma
com os meus dedos espantados
nem um centímetro de futilidade


Angel
Como será a vida interior por trás daquela cara?
Bem-vind@ à minha alma.

Ler a atracção feminina

O Nuno, namorado da minha amiga Daniela, completou uma frase minha com uma tirada que tenho de deixar escrita para a perenidade.

- Nuno, o pior adjectivo que uma mulher pode dizer de um homem do ponto de vista da sua atracção por ele é que ele é «querido».

- Sim, Angel, e o melhor é o «cabrão».

domingo, setembro 14, 2008

Tertúlias virtuais - Solidariedade

Os dois valores que mais marcaram a minha mente e a minha conduta foram sempre a solidariedade e a honestidade.

Por honestidade, entendo uma filosofia que nunca prejudica o próximo para maximizar o seu interesse individual. Num mundo em que fôssemos todos sempre honestos, ninguém prejudicaria (intencionalmente, claro está) o Outro. Seríamos neutrais na vida uns dos outros.

Faltaria portanto algo. A solidariedade. Mais do que não-neutrais, devemos ser pró-activos. Isto é: interferir positivamente na vida do Outro. Acredito nisto: a maior(o que digo? a única...) felicidade que podemos alcançar terá de passar por uma consciência de que contribuímos mais para a felicidade alheia do que para a infelicidade (ou lá o que é que é que lhe queiram chamar...).

Com todos os objectivos individuais realizados, se a percepção desse balanço for negativa... coitado desse indíviduo. É por isso que nunca invejei quem tem muito dinheiro, é famoso, tem o BMW... No momento da morte, o único alimento que recolhemos (na vida, naturalmente) que nos poderá dar uma morte feliz é o que demos aos outros.

Quer dizer então que devemos ser solidários sem medida? Não. A solidariedade é um valor positivo, mas como Aristóteles nos disse, qualquer virtude levada ao limite é um defeito.

A linha divisória entre a solidariedade excessiva e a obrigação nascida pelo hábito repetido é ténue.

Um amigo meu abriu um bar. Pediu aos amigos que lá fossem. Eu ia lá quase todos os dias falar com ele e consumir colas, até que fui lá numas férias todos os dias. Outro grande amigo dele ia lá quando o rei faz anos e, cada vez que lá ia, fazia o dono do bar, seu amigo, sentir-se especial:

- Eh pá, vir cá hoje foi só mesmo porque sou teu amigo;

- Ando cheio de trabalho, vim cá so mesmo dar-te um abraço.

Eu ia lá, ia lá, ia lá, levava pessoas que levavam outras pessoas, pagava do meu bolso tudo.

Acabadas as férias, o meu amigo zangou-se comigo por não já ir lá todos os dias! Quando ia, ele já não agradecia. Quando não ia, cobrava. O outro, como tinha uma solidariedade pontual, não gasta, não banalizada à força do hábito, quando lá punha os pés milenarmente, tinha tudo de graça e em dez minutos que fosse ouvia sempre:

- Obrigadão por teres vindo.

Quando somos SEMPRE solidários com alguém, esse alguém banaliza, acto após acto, a nossa solidariedade, até chegar ao dia em que, quando falharmos, cobrar-nos-á.

A ingratidão é um sentimento filha da puta. Talvez no próximo patamar da minha evolução enquanto ser vivente e pensante, já não pense assim. Sei que o meu homo ideal , que perseguirei sempre, não espera retorno nas ajudas e pensa: «O que importa é que eu me sinto bem com a minha consciência... Nada mais importa!» Mas, para já, é o que... sinto.

Como não quero terminar com um apontamento noir, contarei um episódio da minha ida a Londres. Nunca na minha vida tinha estado tanto tempo a olhar para um quadro. Uns girassóis de Van Gogh que nunca encontrei em lado algum a não ser naquele museu. O amarelo claro vívido - uma coisa espantosa. Meia hora, meia hora inundado de... um sentimento de...

Só ao fim de meia hora olhei para o pequeno cartão que servia de ilustração. Dizia (em inglês, naturalmente): O artista pintou este quadro para expressar a ideia de gratidão. Puta que o pariu!, que bonito. Não deve haver no mundo, à excepção do amor, um sentimento mais nobre, mais elegante e mais bonito do que esse.


Angel
Bairro alto, fim de noite, degradação absoluta. Bêbados a importunarem as pessoas, dizem frases sem sentido, alguns são violentos, as pessoas riem-se (do quê?), quando os bêbados são pretos ouve-se «foda-se, estes pretos». Rapazes metem-se com raparigas, como cães com o cio, querem foder, elas são pedantes na resposta (não poderiam ser só assertivas ou simplesmente ignorarem-nos?). E o ruído sempre presente. Gritos, gritos, cânticos de coisa nenhuma, a boçalidade enjoativa do «comia-te essa cona toda» e seus quejandos, vómitos,uma miúda caída no chão e ninguém dá por ela (eu próprio já não faço nada, antes ia lá e chamava ambulância). E o ruído sempre presente. (Esta geração é mais ruidosa do que a anterior, penso.) Puxo do telemóvel para ver as horas e alguém me diz: «Cuidado, olha que aqui roubam muito os telemóveis.» Piropos sem poesia, a banalidade feita regra. Onde estão as tertúlias de que Dinis Machado associa ainda hoje ao Bairro Alto (deve ser o Bairro Alto da tua juventude, Dinis). E o ruído sempre presente. Regresso, só quero apanhar um táxi, um casal está à minha frente na paragem, passam indívuos bêbados ou drogados e gozam com ele:

- Tu és muita peludo... És feio. Como é que tu tás com ele? (perguntam à rapariga).

Ele não responde, eles são muitos.

Um táxi leva-os, eu aguardo um táxi. Dez minutos parecem-me uma eternidade naquele caos que sou obrigado a observar. E o ruído sempre presente.

Chega o táxi. Aleluia! Um rapaz e uma rapariga a seguir a mim na fila (chegaram pelo menos cinco minutos depois) querem-me roubar o táxi.

- Desculpem, estou na fila antes de vocês.

- Nã, nã, nã... - diz ela.

Fico atónito. Como é possível tamanha mentira, tamanha falta de respeito?

- Chegaram cinco minutos depois de mim.

- Nem vou discutir contigo senão chateio-me. - diz o rapaz.

Não consegue abrir a porta do táxi (bêbado? mocado?).

Eu abro a porta, entro.

A rapariga segura o rapaz que ainda quer entrar no carro.

Dou a morada. O táxi arranca. Não volto ao Bairro tão cedo, prometo a mim mesmo.

Vou-me deitar, evoco imagens de Buda, de Cristo, de girassóis e de golfinhos.

Amai-vos uns aos outros, vou sonhar.

Angel-velho-do-restelo

As palavras que ecoaram na minha cabeça durante a noite de hoje

Mas um velho, de aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:


(quem quiser saber o que disse o Velho do Restelo, leia o final do capítulo IV d´Os Lusíadas)

sábado, setembro 13, 2008

Poesia com violetas

Todos os afazeres da mente
não se comparam a uma violeta

e.e. cummings


A mais bela violeta que amanhece no vale


Camões

in love, até os nossos quadris são percorridos por uma doce delícia

oh eu adoro eu adoro eu adoro o que fazes à minha cabeça
eu adoro o que fazes aos meu quadris
e torna-se mais labiríntico cada dia
torna-se mais doido cada dia
contigo isto é simplesmente um sonho


the cure
AND HER HEART MAY BE BROKEN
A HUNDRED TIMES
BUT THE HURT WILL NEVER DESTROY
HER HOPE…

THE HAPPY EVER AFTER GIRL
ONE DAY FINDS THE PERFECT BOY


The Cure

quinta-feira, setembro 11, 2008

As pessoas são diferentes, mas tu deves desenhar a tua personalidade.


Não há só uma Verdade, mas tu deves procurar a Tua.
Ela, ele é estranho.

É um adjectivo visto de fora, porque dentro dela, dentro dele, ele, ela, não é estranho.
Recebi o convite do seu casamento
Com letras douradas num papel bonito
Chorei de emoção quando acabei de ler
Num cantinho rabiscado no verso
Ela disse meu amor eu confesso
Estou casando mais o grande amor da minha vida é você


Karametade, Convite de Casamento
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Álvaro de Campos
Sou imenso, contenho multidões.

Walt Whitman

quarta-feira, setembro 10, 2008

And sometimes it happens that you are friends and then
You are not friends,
And friendship has passed.
And whole days are lost and among them
A fountain empties itself.

And sometimes it happens that you are loved and then
You are not loved,
And love is past.
And whole days are lost and among them
A fountain empties itself into the grass.

And sometimes you want to speak to her and then
You do not want to speak,
Then the opportunity has passed.
Your dreams flare up, they suddenly vanish.

And also it happens that there is nowhere to go and then
There is somewhere to go,
Then you have bypassed.
And the years flare up and are gone,
Quicker than a minute.

So you have nothing.
You wonder if these things matter and then
As soon you begin to wonder if these things matter
They cease to matter,
And caring is past.
And a fountain empties itself into the grass.
Nasceu velho. As coisas nunca o atingem com muita intensidade. Nem euforia nem disforia. Nem entusiasmo nem desânimo. Num funeral ou numa festa, o seu semblante apresenta variações infinitesimais.

terça-feira, setembro 09, 2008

Princípes do sofrimento

Um homem está no corredor da morte, chama-no para a execução, ele pede um cigarro, concedem-lho e ele diz:

- Obrigadíssimo.

Um treinador de futebol leva 5-0 em casa, aparece na conferência de imprensa e diz:

- A responsabilidade é totalmente imputada a mim. Jogámos pior, podíamos ter perdido por mais, o guarda-redes é que evitou uma hecatombe maior.

Uma pessoa ouve o namorado acabar com ela e diz:

- Sim, eu não te mereço, vou sofrer muito, mas não te mereço.


Uma mulher ouve o médico diagnosticar-lhe 15 dias de vida e pergunta:

- O doutor poder-me-á atender amanhã? Se não for muito incómodo.

(a voz não vacila, a educação não se esvai)


Li um dia que um traficante de droga foi detido, que não tentou fugir, que foi correctíssimo para os polícias (que falaram dele deslumbrados) e que educamente perguntou:

- Importam-se que vá só à casa de banho? Podem vir comigo quantos quiserem.

Os polícias recusaram e ele disse:

- Concerteza, irei na esquadra. Compreendo perfeitamente o vosso receio.


É preciso ter dignidade no sofrimento, é preciso ter elegância quando se é derrotado. Porque é bonito. Porque me faz chorar.

O Lobo Antunes diz que a coragem é elegância. Eu acho que é a forma suprema de elegância.

Vi uma reportagem de uma pessoa que morreu com cancro e que nos últimos dias tomou sempre banho, nunca andou de pijama, roupão ou chinelos e que fez questão de vestir o fraque e comer principiscamente com a família nos últimos dias da vida. Tentou manter um gesto elegante até ao final.


Aquilo em que mais luto para ser um homem é precisamente essa dignidade na derrota, essa nobreza nas humilhações que a vida nos impõe. Hemingway escreveu que a natureza de um homem não é feita para a derrota. Como dizia uma cantiga popular, com a cabeça a sangrar mas levantada...


Angel
As ditaduras de esquerda tiveram sempre uma complacência de análise que as de direita nunca mereceram. Isso aconteceu porque os fins de umas eram louváveis, o que fez com que muitos intelectuais as apoiassem numa cegueira que não via que nem que os fins eram alcançados e que os meios trucidavam populações. Pacheco Pereira escreveu que esta simpatia pelas ditaduras de esquerda tem que ver com a obsessão pelo Bem que a esquerda apresenta, ao invés do nazismo que apresenta claramente uma paixão pelo Mal.


A verdade é que, como Koestler escreveu no Darkness at Noon (que título!), quando uma bota esmaga alguém, é indiferente que a insígnia do uniforme do agressor seja uma foice e um martelo ou uma cruz suástica - trata-se, isso sim, de uma bota a esmagar alguém. Wilhelm Reich tem uma expressão deliciosa ao falar dos fascismos negros e vermelhos.

O culto da democracia não se compadece com a ausência de um juízo equânime face às autocracias.

Esta ideia foi-me reforçada depois de concluir a leitura de uma obra sobre os infames Khmer vermelhos. Pol Pot e a sua cáfila mataram 1/5 da população do Camboja. Hitler não matou proporcionalmente tanto! Os comunistas do Cambodja instalaram um regime que acabou com a propriedade privada, como nos outros lados, mas que teve especificidades como acabar com o dinheiro! As pessoas trabalhavam para o Estado e recebiam bens, o dinheiro não servia de permeio nas trocas, não valia nada.

As pessoas eram treinadas para não terem emoções. As lágrimas eram severamente punidas! Ninguém se queixava, por isso, no trabalho, a certa altura (depois de várias punições). As pessoas habituavam-se, de facto, a não chorar nas grandes provações. O ser humano habitua-se a tudo.

Outra pecularidade impressionante: a família foi destruída, os filhos eram afastados dos pais e educados pelo Angkar. Não havia cá cuidados maternais, nem amor de pai ou de mãe. Mais: os filhos eram instruídos a não gostarem dos seus horríveis progenitores.

Angel

segunda-feira, setembro 08, 2008

Santíssima Trindade

- Tem umas mãos...

- Apaixonei pelo sorriso dele.

- As covinhas que faz quando se ri matam-me.

- Gosto muito dos dedos deles.

- Tem o olhar de uma pessoa profunda e isso fascina-me.


Estas afirmações já eu as ouvi (e quem for atento ouviu também) a mulheres falarem sobre homens.

Infelizmente, quando são os homens a falar-do-que-repararam-na-mulher o que lhes ocorre salientar não foge 95% das vezes à tríade cu-mamas-pernas.

Angel

Leve

Os lábios do sonho sussuram-me
No meu sono, incorporal, ela aparece
Desligada do material, desligada do ego
Vive na estratosfera e só desce
Por amor à humanidade
Não sei o que a liga aos humanos...
Ela que nada tem de humano...
Nenhuma possessão
Nenhuma inveja
Não conhece, tão-pouco, o preconceito
Ela mostra-me que o caminho difícil
íngreme escarpado cinzento e monótono
conduz sempre
a um território doce plano e suave...


liberta-te da fama
liberta-te do ego
liberta-te da luxúria
liberta-te do dinheiro


depois das fragas cantarão as flores


Angel

domingo, setembro 07, 2008

Admiração - sentimento perante o que achavas que devias ser corporizado em alguém mas não és. («ainda» - acrescenta sempre)
A certa altura, precisámos de um redactor que percebesse de economia. Fui encarregado de os entrevistar. Com a paciência que a minha tradicional impaciência julgava improvável, lá fui escutando os candidatos, para aí uns dez. Até que me surgiu pela frente, desenvolto, sem medo e sem fadiga, um rapaz cheio de gel, e vestido a preceito: fato cinzento, sapatos pretos envernizados, e botões de punho numa imaculada camisa. Entregou-me um currículo assustador. Pela acumulação de empregos onde já estivera e pela acumulação de erros gramaticais, de sintaxe e de bom senso. Devo dizer aos meus Dilectos que não cultivo a compaixão ante a ignorância nem a condescendência perante a soberba. Antes de começar a entrevista, o moço advertiu: «Quero ganhar seiscentos contos livres de impostos, cartão de crédito, e carro.» Ergui-me, estendi-lhe a mão: «Também eu queria.» O rapaz, que era apenas gel e sapatos pretos envernizados, chegou a director de duas publicações e, mais tarde, foi assessor de ministro. Perdi-lhe o trilho, mas mantive a memória.


Baptista-Bastos

sábado, setembro 06, 2008

Ouvi alguém contar:

- Angel, eu não volto a tar com aqueles dois [um casal]. São impossíveis, houve tiveram pelo menos meia-hora a falarem e namoricarem, sem me dignarem uma palavra! Eh pá, é horrível meu... Eu era incapaz por mais apaixonado que tivesse. Eu só queria basar dali, só queria um pretexto mínimo para basar. Depois fomos a uma café que tava cheio, e ela pediu a empregado se lhe arranjava uma mesa. «Quantos são?» «Dois», disse ela. E o namorado prontamente corrigiu «três». Já viste, era como se eu nem existisse? Acho que nunca me tinha sentido tão insignificante, tão reles...



Angel-fiquei-tão-sensibilizado-o-sentimento-de-isolamento-de-desamparo-do-pintainho-com-a-pata-magoada-a-saltitar-à-chuva-enche-me-de-ternura
Um amigo meu disse algo que me chocou profundamente:

- Angel, pá ouve - disse com um sorriso nos lábios e no rosto -, não deve haver uma coisa que me pudesse fazer sentir melhor do que alguém suicidar-se por mim... Bem, deve ser uma cena... Uuuuuuuuuuuuuuuuuuu...


Como é possível que o alimento que o ego peça dispensa o próprio valor da vida alheia?

quinta-feira, setembro 04, 2008

Estava lá e assisti

Durante o jogo, o José fez imensas perguntas sobre futebol: Como se ganha um campeonato? E uma taça? Quantos jogam de cada lado? A certa altura, perguntou quantos cartões haviam e explicaram-lhe que haviam dois: o amarelo que, quando exibido por duas vezes, expulsava o jogador, e o vermelho que expulsava imediatamente o jogador. Depois perguntou o que levava a que o árbitro mostrasse cada um destes cartões e explicaram-lhe. O António ia respondendo a tudo, ao mesmo tempo que queria fixar a atenção no jogo. Quando pensou que já estava tudo explicado, o José soltou:
– E não há mais cartões?
– Há o cartão azul quando se diz asneiras ao árbitro. O jogador tem de ficar com as mãos nos bolsos até ao fim do jogo – no semblante do António não se divisava o escárnio.
– E como é que eles conseguem correr? – perguntou o José perplexo.
Os presentes na sala entreolharam-se contendo o riso.
Depois perguntou ainda quanto tempo demorava um jogo. Explicaram-lhe as variantes desse factor, acrescentando que havia jogos que não podiam terminar empatados.
– E quando nenhuma equipa marca um golo?
– Tem de acabar. Outro dia, na Argentina, um jogo acabou ao fim de trinta e seis horas.
(Silêncio que serviu para introduzir pausadamente o que veio a seguir…)
– E só acabou porque morreu um jogador em campo… – disse o António.
- Ai credo… coitados… O futebol é mesmo desumano.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Tu és único, sabias?

Kafka, traumatizado com o pai, a sua timidez, a sua figura física franzina, e a sua falta de inserção na infância e juventude, gostava de ler à noite com uma vela, mas os pais quando o apanhavam tiravam-lhe a vela e o livro, pelo que ele ardilosamente começou a pôr a vela debaixo do lençol e a ler aí debaixo, para que assim a luz da vela não projectasse pela fresta da porta e a sua leitura não fosse assaltado.

Escreveu Kafka que a educação, a dele, e a educação em geral mais não é do que (gostei tanto desta expressão):

«Apagar as pecularidades de cada um. A minha era ler à noite com a vela na cama.»

Num mundo cada vez mais uniformizado e vigiado, «apagar as pecularidades» é o mote de ordem. Sejam elas fumar, não fazer exercício, ingerir colestrol, ter um corpo feio.

Os pais apagam as pecularidades dos filhos para que eles sejam máquinas de sucesso, brilhantes mas não felizes. Mas a verdade é que quem é mais cruel com as pecularidades são as próprias crianças e adolescentes. Não é politicamente correcto dizê-lo, eu sei. São elas que arranjam alcunhas para estigmatizar o «badocha», o «caixa de óculos», o «maricas».


Angel-o-desconhecido-oferece-sempre-perigo-por-isso-quanto-mais-conhecemos-mais-desempoeirados-mais-livres-e-menos-medrosos-somos-o-medo-é-a-raiz-da-intolerância-a-ignorância-é-a-raiz-do-medo
- Porque, sabes Angel, faz-me imensa confusão as pessoas que só pensam nelas. E ela quando quer sair de casa, nunca pensa que outras pessoas que vão ter ao café connosco, não têm carro, e nós se temos cinco lugares, podemos levá-los. A única coisa que automaticamente pensa é na gasolina, no dinheiro que vai gastar, e eu detesto pessoas assim, entendes? Não que ela se lhe pedirem não ajude, mas podia antecipar os problemas que os outros irão ter, sem eles terem de pedir, percebes, Angel?
- Angel, eu estou tão descrente das pessoas. Estou a atingir o meu limiar mais baixo na confiança na natureza humana. O amor incondicional, ou amizade incondicional que é uma forma de amor, é tão raro. Dou por mim a desenvolver a ideia de que as pessoas gostam dos amigos, mas não de forma incondicional, e que só gostar de forma incondicional é que amar. Amar é algo muito raro nas amizades, não achas? Os amigos gostam, mas verdadeiros amigos quase não há e isso vê-se nas situações de aperto. Nem amizades, nem relações de namoro, nem irmãos, acho que a única forma de amor é de um pai ou de uma mãe pelo filho, mas, mesmo aí, só sob a forma da descendência, acho que no sentido de relação ascendente filho/pai ou mãe, mesmo aí isso não acontece tanto assim.

terça-feira, setembro 02, 2008

Costumamos ouvir dizer «eu não sou racista», «eu não tenho nada contra os homossexuais», e de tanto ouvir isto acreditamos que vivemos num país sem discriminação.

Se isso fosse verdade, as lésbicas e o gays sentir-se-iam à vontade para expressarem os seus afectos em público. E só uma pequeníssima minoria o faz. Porque é ainda tão raro ver casais de homossexuais? Porque é que há ainda tanta gente a apelidar de promíscuo que dois homens se beijam (já sabemos que a boçalidade condena os homens como um acto repugnante mas excita-se com as mulheres) e de amor quando são mulher e homem?


O Expresso publicou uma vez na primeira página «Portugal tem um milhão de homossexuais». O número é distorcido, porque incluía também as pessoas bissexuais, e tudo para chegar ao número estrondoso e redondo do milhão. Milhar a mais, milhar a menos, a questão é que há centenas de milhares de pessoas em Portugal que querem viver o seu amor e a sua sexualidade com alguém do mesmo sexo.

E essa percentagem não se reflecte na paisagem urbana. Dividamos por metade o número do expresso e temos 5%. Mesmo 5% significaria que vemos na rua um em cada vinte casais homossexuais. Temo que a proporção que vemos nem de um para duzentos... E, vamos ver as coisas como elas são, fora de Lisboa, se formos então para o interior do país, então aí... «não há paneleiros».

Como disse o António Oliveira «no futebol, não há cá disso»; ouvi eu uma pessoa de Viseu dizer:

- Em Viseu não há homossexuais.

(Comentários para quê?)


Cada vez que fizermos uma piada negativa sobre homossexuais, cada vez que associarmos estupidamente a homossexualidade a promiscuidade ou a fraqueza, e a heterossexualidade a virilidade e sentimentos, cada vez que olhamos de lado homens efeminados e mulheres masculinizadas, cada vez que empregamos palavras boçais como roto, fufa, panilas ou maricas, estamos a contribuir para que muita gente tenha de viver reprimida e clandestina. Seria um inferno termos de esconder a nossa heterossexualidade. Pensem nisso.

E acabo com uma história. Um amigo meu, homossexual, sempre que sai comigo demonstra-me que há muitos muitos mais gays do que os heterossexuais iluminados julgam. Porque esses só atribuem a homossexualidade a quem tem gestos, voz, e indumentária feminina. Estão muito enganados.

O meu amigo às vezes conta-me de homens que passam por nós, muito machos:

- Olha este galou-me todo.

- Olha este olhou-te demoradamente para o rabo.

- Olha este encostou a mão a mim e deixou-me lá estar.

Há sinais em todos os grupos que têm de viver na clandestinidade. Eles reconhecem-se mais facilmente. O que eu tenho aprendido com esse meu amigo...


Angel

segunda-feira, setembro 01, 2008

E digo à humanidade: não sintas curiosidade por Deus,
Porque eu que tenho curiosidade por tudo não sinto curiosidade por Deus,
(Não há palavras que possam definir a paz que sinto em relação à Deus e à morte).

Escuto e contemplo Deus em cada objeto, ainda que não O entenda minimamente.
Nem entenda que possa existir alguém mais maravilhoso do que eu próprio.

Porque é que desejaria ver Deus melhor do que este dia?
Vejo algo de Deus em cada uma das vinte e quatro horas, e vejo-o em cada momento que passa,
Vejo Deus no rosto de homens e mulheres e no meu próprio rosto ao espelho,
Encontro cartas de Deus espalhadas pela rua, todas assinadas com o seu nome,
E deixo-as onde estão pois sei que vá para onde for,
Chegarão sempre outras pontualmente


Walt Whitman