domingo, agosto 31, 2008

(...) depois do cartão "1 em 4" (ou "1 em 5", não sei ao certo), uma ingerência inadmissível na privacidade do cidadão, que foi um fiasco prático, mas não deixa de ser um abuso político, o Governo resolveu agora introduzir, obrigatoriamente, um chip em cada automóvel. Não se conhece ainda em pormenor a capacidade do chip e o que se pretende dele. O chip tanto pode servir para um fim inócuo, identificar um carro in situ, por exemplo, como para seguir esse carro por Portugal inteiro, coisa que permitiria ao secretário-geral da segurança e, por consequência, ao primeiro-ministro, averiguar em profundidade e pormenor a nossa suspeitíssima vida. Cavaco acha o assunto "melindroso". E a Comissão Nacional de Protecção de Dados, num gesto de uma futilidade, pede que o "alcance" do chip não passe de um "alcance local". Estará a pensar em Vizela ou na Grande Lisboa e no Grande Porto?A vontade de controlar o cidadão não é original, nem uma invenção autoritária do Governo Sócrates. A Inglaterra é o país do mundo com mais câmaras de vigilância por habitante. E é público o assalto aos direitos do indivíduo na América (e também em Inglaterra) depois do 11 de Setembro. A existência de meios leva inevitavelmente o Estado (esteja nas mãos de quem estiver) a pretender regular e dirigir a sociedade. A "pessoa humana", de que a ortodoxia ocidental não pára de falar, é crescentemente definida, limitada e fiscalizada em nome de benefícios a que não aspira e de valores que não subscreveu. Só nos resta esperar que o desleixo indígena atenue, ou demore, o inferno que se prepara.


Vasco Pulido Valente

sábado, agosto 30, 2008

Fico sempre tremendamente bem-disposto, quando algum cliente diz ao lojista:

- Desculpe, deu-me troco a mais.

Reconcilia-me com os girassóis :)
Quando soube ao fim do dia que o meu nome fora aplaudido

no capitólio, mesmo assim nessa noite não fui feliz,

E quando me embriaguei ou quando se realizaram os meus planos,

nem assim fui feliz,

Porém, no dia em que me levantei cedo, de perfeita saúde,

repousado, cantando e aspirando o ar fresco de Outono,

Quando, a oeste, vi a lua cheia empalidecer e perder-se na luz da

manhã,

Quando, só, errei pela praia e nu mergulhei no mar, rindo ao

sentir as águas frias, vi o sol subir,

E quando pensei que o meu querido amigo, meu amante,

já vinha a caminho, então fui feliz,

Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia,

e esse belo dia acabou bem,

E o dia seguinte chegou com a mesma alegria e depois, no outro,

ao entardecer, veio o meu amigo,

E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas

invadindo lentamente a praia,

Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem

felicitar-me,

Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma

manta na noite fresca,

Na quietude daquela lua de Outono o seu rosto

inclinava-se para mim,

E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito - nessa

noite fui feliz.


Walt Whitman
Eu também não fui domesticado, eu também não sou traduzível,
Lanço o meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.

O último fulgor do dia permanece para mim,
Arremessa a minha imagem depois de todas, real como elas, sobre os
desertos, sobre as sombras,
Insinua-me no vapor e nas trevas.

Parto como o ar, sacudo os meus cabelos brancos sob o sol que foge,
Espalho a minha carne em remoinhos, espalho-a em desenhadas rendas.

Entrego-me ao húmus para crescer da erva que amo,
Se me queres ter de novo, procura-me debaixo da sola das tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Todavia dar-te-ei saúde,
E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor.

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Estarei algures à tua espera.


Walt Whitman

sexta-feira, agosto 29, 2008

Não te arrependas de nada nem critiques ninguém - é muito difícil alguém ser diferente do que é.


O que é para ti é fácil, para outro é extraordinariamente difícil, e vice-versa.

Ver deste ângulo ajuda a relativizar

Um amigo, que costumava andar a vestida de uma forma descontraída, com a barba comprida, as calças rotas, ia comigo a passar por uma rua deserta. Uma velhinha cruzou-se connosco com sacos das compras. Casualmente, o olhar do meu amigo pousou nela. Ela acelerou o passo como se tivesse 17 anos e estivesse a treinar para os Jogos Olímpicos.

O meu amigo passou-se:

- Estás a ver, Angel? Foda-se, passo por ladrão. As pessoas discriminam-me pela roupa. Não posso andar livremente sem fazer mal a uma mosca, têm de me olhar de lado, fugir de mim ou chamar a polícia. Isto às vezes é humilhante, meu. Eu não posso entrar na maior parte dos sítios, porque barram-me logo à entrada. Uma vez trabalhei nos inquéritos e chamaram a polícia porque me viram dentro de um prédio. É bué ridicularizante o polícia agarrar-te e tu só tares a fazer o teu trabalho.


Um ano mais tarde, esse meu amigo foi assaltado numa caixa multibanco nos restauradores e lembro-me que lhe levaram todo o dinheiro que tinha conta.


Andava traumatizado pelas ruas, sempre a olhar em todas as direcções.

Um dia, vou com ele ao Multibanco à noite, e ele cheio de medo. Estávamos no Bairro Alto. Coloquei-me atrás dele, ele ia fazendo perguntas, eu ia respondendo.

- Tá tudo bem, tudo calmo.

E ele lá ia fazendo as movimentações de dinheiro, mas sempre a fazer-me perguntas.

- E agora, não vem ninguém?

- Ninguém.

A certa altura, depois de um silêncio meu, não resistiu e olhou para trás. Ao fundo da rua vislumbrou alguém que vinha a subir a rua e tirou o cartão da máquinha e começou a fugir desalmadamente.

Olhei para os indíviduos em questão e pareciam-me uns freaks pacíficos.
O meu amigo já ia longe.

Os freaks acenaram-me. Porra, eram os nossos amigos! Telefonei ao meu amigo a explicar a situação, ele riu-se e veio ter connosco.


Aprendi nesse dia que duas pessoas podem discutir e ambas ter razão. Quem tem razão?, pergunta-se quando alguém está em conflito, como se ela só pudesse morar num dos lados.

O meu amigo tinha razão quando foi discriminado. A velhinha tinha razão quando se assustou, com o seu orçamento da semana todo, todinho, naquelas compras, ali vulneráveis.

Ambos agiram de acordo com o contexto, com a informação de que dispunham, com os seus medos, as suas expectativas, o seu historial de experiências. Ambos tinham razão.


Angel

quinta-feira, agosto 28, 2008

Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas

Walt Whitman

quarta-feira, agosto 27, 2008

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?
Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?


Eugénio de Andrade

Morpheu

Tem-me acontecido sonhar, e dentro do sonho haver referências a outros sonhos. Sonhei que tinha estado na Alemanha (já lá estive e nem gostei, por que raio sonhei isto?) e, passadas duas semanas, estava a contar a alguém no sonho a minha viagem à Alemanha.

A minha censura ergue-se:

- Ó Angel, não mintas, lembra-te que isso foi um sonho.

O mais incrível é que depois outra voz contrapôs a essa:

- Eh pá, mas isto também é um sonho. E neste mundo - o dos sonhos - isto é real.

Acho isto espantoso. Porque é um sonho que vai buscar outro sonho, mas que age como se fosse real e depois se lembra que é, ele próprio, um sonho.

Podem achar estranho, mas palavra de honra que verbalizei isto num sonho. As sílabas eram tão nítidas...

Amiúde sonho com uma identidade feita de sonhos. Explico: é como se tivesse toda uma memória dos sonhos, e em cada sonho eu sou uma pessoa a quem aconteceu tudo o que sonhou antes. E lembro-me disso. São dois mundos: o sonho e o... real. Mas nmundo do sono, já tenho uma longa vida, vários episódios que me aconteceram, as minhas relações com as pessoas são diferentes no mundo dos sonhos. E elas todas (nos sonhos) sabem sempre o que me aconteceu (no mundo dos sonhos) porque eu vejo-me em diálogos com elas. São pessoas muito importantes nos meus sonhos, pessoas que vejo pouco no mundo acordado.

E de quando em vez, ouço a minha voz, seja num pesadelo ou num sonho maravilhoso:

- Não te assustes, isto é o mundo dos sonhos.

- Não estejas tão derretido... Estás a sonhar, Angel.

Inteiro-me disso perfeitamente, como se estivesse a ver um filme no sofá, mas continuo opto por continuar a ver o filme muito interessado.

Angel-gostava-tanto-de-ser-uma-figura-mitológica-uma-lenda-uma-divindade-que-espreitasse-o-sono-de-todas-as-criaturas-e-entrasse-naqueles-que-mais-gostasse-para-os-tornar-mais-doces-e-originais

terça-feira, agosto 26, 2008

Fios invisíveis que me ligam às pessoas

Quando temos uma característica que nos envergonhamos de expor ao mundo, por vezes de tanto a escondermos nós próprios nos esquecemos dela, o que é útil se considerarmos que ela nos faria alimentar a ideia de que somos uns extraterrestres aqui largados. Assim, quando encontramos alguém que tem essa mesma característica, e de uma forma, digamos, ainda mais excessiva do que nós – isso relaxa-nos os nervos, abana a muralha das nossas defesas e cria-nos uma empatia automática com aquele louco ou aquela louca.

Vem isto a propósito do Lobo Antunes (a quantidade de coisas que tenho retido da leitura e releitura do livro de entrevistas - tanta coisa, meu Deus). Desde miúdo que julgava ser o único ser vivente que atribuía vida e personalidade aos objectos inanimados.

Que comoção por isso ao ler que o Lobo Antunes também fala com as árvores à noite (aos anos que o faço da minha janela com a minha amiga), que atribui estados de espíritos ao mar (hoje o mar estava com os olhos tristes) - eu já tinha desconfiado nas crónicas quando ele por exemplo descrevia uma mesa, uma jarra ou uma árvore. É que nós conhecemo-nos por sinais ínfimos. Nós, os loucos.


Angel

sábado, agosto 23, 2008

Distopias

Está tudo lá... está tudo lá escrito. Quem ler a literatura do século XX, tem lá o século XXI todo, todinho.

Basta lerem 1984, Admirável Mundo Novo, Laranja Mecânica.

Está lá tudo, meus amigos.


Quem leu, não se surpreende por isso com estas notícias que por aí agora pululam.

sexta-feira, agosto 22, 2008

Alguém me enviou uma sms a dizer que estava num sítio em ruínas perto da estação de Braço de Prata e eu li a mensagem, e construí uma imagem mental - por mais que tente usar as palavras, nunca a comunicarei como quereria - de um sítio com uma beleza aterradora, perpassado por uma subtil neblina.

Foi tão vívida a imagem que nessa noite sonhei que o mundo acabara (a subtil neblina era a mesma). Curioso: consegui imaginar o mundo sem pessoas e fui invadido por uma solidão magnífica. Uma calma invadia-me e as coisas eram mais belas em meu redor.

Seria uma metáfora do meu eu genuíno: por mais pessoas que tenha à volta, não pertenço a nenhum grupo, não me identifico com nada.

Se um artista fizer uma obra de arte e ninguém a entender, ela continua bela? Sim, continua.

Um ET cai neste planeta e não consegue comunicar com ninguém - é assim que me sinto. O problema é maior quando está ataviado de coisas lá dentro.

Estava tão sereno e tão feliz. Só me lembrava do que uma vez escrevera:

Vagueando os olhos pelas poucas janelas iluminadas na noite,
Penso… Divago… Sonho…
E vou atirando perguntas ao céu
Sem qualquer esperança de eco…
(Fui-a largando pelo caminho ao longo dos anos…)
Olho para as janelas dos quartos…
As cortinas dos quartos poderão correr-se pela manhã…
As da alma nunca…
Todas as almas estão envoltas numa cortina opaca
Olho para cima…
E subitamente sorrio…
Terão todos eles os seus segredos inconfessáveis?
O que alimentará as suas almas?
Saberão que existem outras maneiras de viver?
Que todos eles irão morrer?
O que fariam eles se soubessem quem eu era?

Hoje tenho saudades de alguém que não existe…
O amor às vezes visita-me
Mas não me ilude com ninguém…
Às vezes, passeio pelo mundo…
Como o último homem na terra…
Sentado numa rocha sentindo o vento na face…
Tendo tudo mas ninguém…
Às vezes, as pessoas parecem-me tão estranhas…
Às vezes, as pessoas parecem-me tão distantes…
E a vida mais etérea que um sonho…

E a minha única certeza é esta: existo.
Esta luz intangível dentro de mim
Não me deixaria enganar…
Este fluxo ininterrupto…
Intransmissível ao Outro…
Pois são sempre necessárias palavras…
Palavras contaminando o real…

Não sei se é um grande tesouro…
Não sei se é uma grande tragédia…
Ter dentro de mim a maior beleza do mundo
Sabendo que não a poderei partilhar…

títulos de livros imaginários

se pelo menos hoje pudéssemos dormir numa cama de flores (plagiado de uma música)

nebular


o néctar intangível



1,2,3,4


na polpa


as raízes do fingimento


tocado pela noite



pletora


neve preta


o toque suave da noite


o fogo e o riso

quarta-feira, agosto 20, 2008

Se queres conhecer a natureza humana, armazenarás mais sabedoria dedicando-te a conhecer profundamente uma pessoa a vida toda, do que a viajares pelo mundo, conhecendo tudo e todos.

Na torre

Retirado na paz destes desertos,
com poucos, mas doutos, livros juntos,


vivo em conversação com os defuntos,
com os olhos escuto a voz dos mortos.


Se nem sempre entendidos, sempre abertos,
emendam ou fecundam meus assuntos;
em harmónicos silentes contrapontos
ao sonho de viver falam despertos.


Francisco Quevedo

terça-feira, agosto 19, 2008

Coisas do Espírito

Há uma estátua em Santa Cruz, um busto digo melhor, que sempre me magnetizou. Nele está inscrito que o poeta escreveu nessa terra «alguns dos seus mais belos sonetos». A cara do homem, a barba, o olhar - desde há muito anos que nunca entendi o mistério que me unia àquele rosto, os fios invisíveis que me puxavam sempre àquele busto, perto de um paredão. Passei muito tempo a contemplá-la - àquela estátua que o vento não despenteia, e que tem o mar azul a emoldurá-lo.

Ao ler agora os sonetos completos, compreendo melhor aquele olhar. Porra, o Antero viajou por mundos que nós terrestes não conheceremos. Ele esteve noutras paragens e veio de lá contar-nos. Ele deve ter morrido e ressuscitado. A sua poesia tem uma dimensão celestial, etérea, únicas. Como é aquele de carne e osso pôde conhecer em vida aquilo?

Os seus sonetos não foram, seguramente, escritos na Terra.

Angel-lendo-os-sonetos-completos-de-Antero-de-Quental

domingo, agosto 17, 2008

A minha amiga de 1,80, que não perde uma festa pimba, e que acha que os intelectuais ouvem música pimba como se de um onanismo secreto se tratasse, vai gostar desta:

«Não gosto de um conjunto que anda para aí que canta umas coisas que me dão um sono do caneco - os Madredeus; mas gosto imenso de ouvir o Emanuel ou de olhar para a ágata. (...) Eu adorei ver o Artur Garcia cantar coisas espanholas. (...) Eu cá gosto muito do meu lado de sopeira.»

António Lobo Antunes
... e diz ainda que lança perguntas para obter respostas. Isto é, o que pensam as mulheres? Pergunta. Então, escreve um livro em que as personagens femininas (Exortação aos crocodilos) sejam o narrador para elas lhe darem resposta. Mas elas não vêm dentro dele? A escrita tem mistérios insondáveis. Só assim, ele saberá o que pensam - garante. A mesma coisa com o personagem travesti que criou (Que farei quando tudo arde?): para saber o que pensa um travesti, cria um personagem. Ao contrário do Eça e do Hemingway, que investigavam, quais jornalistas, tudo sobre o que escreviam; Lobo Antunes acha que o escritor tem tudo escrito lá dentro dele. O importante é apontar o espelho às suas vísceras. Scott Fitzgerald escreveu que, se queres saber algo a respeito de alguma coisa, pergunta a um escritor, porque ele tem opinião sobre tudo.
O Lobo Antunes conta que tem de viver com as personagens anos para as conseguir pôr a falar. E gosta delas? Claro, diz, já viu o que é viver tanto tempo com alguém que não gostamos e com quem estamos mais tempo do que qualquer outro amigo nosso?
Gostar muito de alguém (no sentido lato, amig@ leitor), é pensar em determinadas situações:

- Será que ela/ele iam gostar deste meu comportamento?


Penso nisto em relação a algumas pessoas e abdico de fazer, sem que elas saibam, muitas muitas coisas. Penso: o que ele/ela gosta em mim, depois se isso viola a identidade que essa pessoa preserva de mim. Envergonhar-te-ia se soubessem as pessoas que amas? Então, não o faças.
Há pessoas que pensam que o dinheiro compra tudo. Um sujeito rico, barrigudo, o cabelo arrepanhado para trás, besuntado de um gel-produto-sucedâneo-do-óleo-Fula, disse, quando a televisão (RTP1) tinha escrito:

Emissão interrompida devido a uma falha técnica. Retomaremos a emissão logo que possível.

Ele levantou-se e disse aos amigos:

- Carago, vamos para a televisão do andar de cima.

Ao que um dos amigos do charuto contrapôs:

- Mas isto é de lá...

- Porra lá em cima dá de certeza. A televisón custou-me 1000 contos, carago!


Scott Fitzgerald conta em Um diamante do tamanho do Ritz a história de um milionário que dialogava com deus, de igual para igual, oferecendo-lhes produtos no acto da reza/negociação.

Angel-eles-podem-tudo-eles-podem-tudo
Uma pessoa extremamente racional quase nunca decidiria com recurso à razão.


Angel

sexta-feira, agosto 15, 2008

Água - Tertúlias Virtuais

Poucas vezes chorei ao longo da vida. A ler, só uma vez. E, curiosamente, foi quando li a palavra água...

Com o seguinte:

(George Orwell, nascido na Índia, à data uma colónia inglesa, era funcionário da Política Imperial Britânica, servindo, para o efeito, na Índia e na Birmânia. Desde cedo repudiou o imperialismo e a pena de morte - bem como qualquer autoritarismo, em geral. Segue-se o relato de uma execução.)

«Um prisioneiro fora retirado da sua cela. Era um hindu, um exíguo dez-réis de gente, de cabeça rapada e olhar ausente e lacrimoso. (...) Observei as costas acastanhadas e nuas do prisioneiro que marchava à frente. Caminhava desajeitadamente com os braços amarrados, mas em passo firme, com aquele passo ondulante do Indiano, em que os joelhos nunca se desdobram completamente. A cada passo, os seus músculos deslizavam correctamente no devido lugar, o anel de cabelo da sua cabeça dançava para cima e para baixo, os pés deixavam marcas no saibro molhado. E, apesar dos homens que o agarravam pelos ombros, desviou-se uma vez ligeiramente para evitar uma poça de água.
É curioso, mas até esse momento nunca me apercebera realmente do que significa destruir um homem saudável e consciente. Quando vi o prisioneiro afastar-se para evitar a poça de água, vi o mistério, o mal indizível de cortar a vida de um homem quando está em pleno florescimento. Este homem não estava a morrer, estava vivo tal e qual como nós estávamos vivos. Todos os órgãos do seu corpo estavam a funcionar - as entranhas a digerir comida, a pele a renovar-se, as unhas a crescer, os tecidos a formar-se - labutando todos em solene inconsequência. As suas unhas continuariam a crescer quando começasse a cair, quando estivesse a cair, com um décimo de segundo de vida. Os seus olhos viram o saibro amarelo e as paredes cinzentas, e o seu cérebro ainda recordava, previa, raciocinava - raciocinava até acerca de poças de água. Ele e nós éramos um grupo de homens caminhando juntos, vendo, ouvindo, sentindo, compreendendo o mesmo mundo; e em dois minutos, com um esticão súbito, um de nós teria partido - um espírito a menos, um mundo a menos.»


«O enforcado» in Por que escrevo e outros ensaios



Angel-porque-as-lágrimas-também-são-água

quinta-feira, agosto 14, 2008

Um dia li alguém dizer que uma casa tinha de ser suficientemente desarrumada para ser uma casa. Lembrei-me disto a propósito do Eládio Clímaco. Estranho?
É que os rostos também têm de ter algo imperfeito, de «suficientemente desarrumado», para terem charme, interesse, para que dêem a ideia de desvelar uma alma espessa e profunda.

Já viram a cara do Eládio Clímaco? É perfeita nas formas, tem tudo o que poderíamos pedir para fabricar um rosto bonito. E contudo não é um rosto nada atractivo. Falta-lhe a imperfeição, a lasca, o detalhe da cicatriz - é um rosto frio, nada quente.


Angel-excesso-de-yin-é-yang
Para se transgredir algo, tem de se dominar na íntegra o que se quer ultrapassar. Um pintor que queira inovar, tem de conhecer tudo o que está para trás. Um escritor que não domine a língua e transgrida, só produzirá textos flácidos. Uma pessoa que transgrida as regras de educação sem as conhecer - é apenas mal-educado.

Faz lembrar algumas pessoas que vestem calças rotas e descaídas, têm penteados blasé, e têm quinhentos contos em cima do corpinho. Transgridem, porque conhecem todas as regras da moda e têm uma sensibilidade estética depurada.

(e uma carteira recheada)

quarta-feira, agosto 13, 2008

Escolher - sem este verbo, não há livre-arbítrio

Um dia li que 90% das nossas acções são feitas sem escolha, mas como rotinas entranhadas que reproduzimos roboticamente.

Gostaria de saber: Quando escolho? Quais esses 10%?

Pensa: em que alturas, hoje, pudeste escolher?


Angel-mesmo-nos-sonhos-eu-nem-sempre-sinto-que-sou-levado-no-caudal-porque-às-vezes-sinto-a-possibilidade-de-escolha-neles-e-a-verdade-é-que-já-acordei-com-sentimento-de-culpa-ou-ressentimento-porque-senti-que-algo-errado
Agostinho da Silva diz que nunca devemos alcançar a verdade - porque se o fizermos, existe o perigo de querermos depois instalar uma inquisição qualquer para que todos cheguem até à mesma verdade.
Envelhecer é, entre muitas outras coisas, decifrar o mundo, ainda que sem a ardência de outrora.

Algo que julgo ter aprendido: é sinal de uma inteligência de primeira água ater-se a duas ideias contraditórias e não perder a sua capacidade de funcionamento (Scott Fitzgerald). Assim, aprendi que quanto à minha velha interrogação: as pessoas mudam? - o melhor é:


Quando ao verbo julgar, devemos ver as pessoas como que sem hipótese de mudar. Todos temos defeitos, e nós tendemos a reconhecê-los mais prontamente no próximo do que em nós. Calma, por isso a julgar. O que achamos que é fácil no outro mudar, é extraordinariamente violento, virtualmente impossível. O labirinto de coisas inextricáveis e infinitas que nos levam a ser assim... Só para as compreender, tínhamos de ter outra vida (e onde caberia o mapa do tamanho do mundo?)

Quanto ao verbo agir, devemos - ou eu pelo menos ajo assim - acreditar piamente que as pessoas mudam. Detectar os problemas espirituais, emocionais, de toda a índole e feitio dos outros, e actuar sobre eles. Praticar o Bem não é apenas dar condições materiais, é também actuar sobre o espírito, fazer o Outro sentir-se mais próximo dos bons sentimentos (a generosidade, a honestidade) que são verdadeiramente libertadores.
Indicações

Talvez uma sensibilidade maior ao frio,
desejo de voltar mais cedo para casa.
Certa demora em abrir o pacote de livros
esperado, que trouxe o correio.


(...)

Carlos Drummond de Andrade
Acontece, por vezes, sonhar com uma pessoa que é corporalmente uma, mas que eu sei ser outra. É estranho. Aparece-me uma pessoa no sonho, a cara e o corpo, e intimamente eu sei que é outra.

É como se, também nos sonhos, existisse um mecanismo de censura. Freud, e esta passou-te ao lado?

segunda-feira, agosto 11, 2008

Poema de Deus

Um movimento dos teus olhos...
e eu derreter-me-ei sem deixar cinzas
A antecipação de um pensamento...
evolar-me-ei logo que queiras, obliterando os meus passos...
Com os teus materiais, construirás a tua casa
Não moverei um dedo para mover a rocha do teu ser
Esculpirei uns desenhos suaves num cantinho
- mas apenas se me deres todo um flanco.
Quando caíres, não te levantarei
Quando chorares, não estarei lá
Mas quando me chamares, aparecerei à primeira sílaba do meu nome
Quando a minha voz te perseguir,
Por mais que me tentes mandar embora
Lembra-te: a luta acontece dentro de ti.
Viro-te as costas, sem olhar para trás
mas nada poderei fazer
se o meu olhar e o meu sorriso
te incendiarem o mais fundo dentro de ti...
Digo-te: procura a felicidade.
Segue todas as estradas que entenderes.
Não contes comigo...
Abandona-me, aniquila-me.
Mas se estiveres triste e só,
se sentires que te traíste a ti próprio
se me reclamares a pureza...
Aí, propor-te-ei o meu abraço
(Mas sem conversa de vendedor
Que exagera as qualidades do seu produto)
Se, no meio da multidão, olhares em volta
e o meu fantasma surgir enorme,
desenhando-se a partir do fumo azul...
É contigo que terás de te debater.
Deixo-te um vislumbre do oiro da tua Alma.
Deixo-te o roçar de uma flor.
Deixo-te a porta para a tua Verdade
Deixo-te a coragem para o Amor.
Segue, vai para onde quiseres,
Não estarei lá onde quer que estejas para te espiar.

Angel

A boy i never knew

Robert Smith, vocalista dos The Cure, tem 49 anos e desde os 14 que namora com Mary Poole. Garante que ainda hoje está apaixonado por ela. Apesar de gostar de estar no papel da mulher dele, acho lindo o seu romantismo. Numa determinada altura da vida, falaram sobre filhos, e decidiram não ter. O Robert Smith diz que o facto de ter dezenas de sobrinhos diminuiram-lhe a vontade, porque um tio é sempre «um gajo porreiro» e, como pai, teria simultaneamente mais responsabilidade e menos legitimidade para «fazer disparates» com os miúdos. Não se podem fazer disparates todos os dias, explica.
Hoje, com a mulher quase cinquentona, sem poder ter filhos, escreveu a seguinte canção. Diz que ao início chorava sempre ao cantá-la:

To have his arms around me, to sense his perfect trust
I’d give all I ever had… all I ever had…

I’d love to see him dream, I’d love to watch him sleep
To have his arms around me,
Held his arms in mine, sense his perfect trust
I’d give all I ever had for a moment of his love

He’s my heart and my soul
He’s my blood and my bones
He’s my prayers and my hope
My wishes and dreams
Seems so long ago, so long ago…

I’d love to watch him dream, love to see him sleep
To have his arms around me, feel him as he breathes
Hold his hands in mine, sense his perfect trust
I’d give all I ever had for a moment of his love

He’s my heart and my soul
He’s my blood and my bones
He’s my prayers and my hopes
My wishes and dreams
Seems so long ago…

He’s my blood and my bones
He’s my heart and my soul
He’s my prayers and my hopes
My wishes and dreams

A boy I never knew
And the man I’ll never know
I’ll never know, I'll never know…

To have his arms around me, sense his perfect trust
I’d give all I ever had…
Vigia sempre os teus próprios pensamentos. Quando algum negativo vier, corta-o por antecipação. Não te deixes ir atrás deles... Vê-os à nascença: e deita fora os maus, antes que te enleies neles.

domingo, agosto 10, 2008

As pessoas dividem-se entre as sedutoras e as entendiantes.


idem
A consistência é o último refúgio das pessoas sem imaginação.

Oscar Wilde

quinta-feira, agosto 07, 2008

- Se duas pessoas tivessem o mesmo património genético, o mesmo ambiente circundante, exactamente os mesmo estímulos, teriam precisamente a mesma vida.

- Somos então marionetas, fantoches, sem livre-arbítrio, mas que, como não vemos as cordas que nos manipulam, julgamos ilusoriamente ser livres?

- Justamente!!!

- Custa-me a acreditar nisso.

- Claro que isto retira a beleza das coisas, mas a verdade é crua e difícil de erguer à altura dos olhos.

- É verdade. Agora repara: o que dizes é impossível, porque existe o espaço.

- Hã?

- Sim, duas pessoas para terem a mesma vida tinham de ocupar simultaneamente o mesmo espaço. Mesmo no limite do limite dessa possibilidade, o que é que aconteceria: duas pessoas que nasçam pegadas uma à outra, não vêem tudo da mesma maneira porque uma está à esquerda e outra à direita, e sol pode incidir de um lado e a sombra noutra. Olhando para o mesmo vestido, um verá uma tonalidade mais clara do que o outro.

Angel-passamos-pelos-dias-sem-reflectir-lá-diz-um-dos-meus-versos-favoritos-que-nadando-nas-mesmas-águas-profundas-que-tu-é-difícil-os-afogados-no-raso-perdem-menos-do-que-nós

Cortinas opacas vedando a alma

Outro dia ouvi duas pessoas amigas de outra de longa data falarem dessa pessoa da forma mais antitética possível:

- Mas essa não é a pessoa que conheço há 8 anos, desculpa, mas não é...

Observando de fora, pareciam falar de duas pessoas completamente distintas (mas o que é isso de duas pessoas serem diferentes? o que é isso de duas pessoas serem parecidas? que raio de coisas que as pessoas inventam...)

Intervim:

- Uma pessoa desenvolve diferentes facetas com diferentes pessoas. Se eu fosse mil anos com uma pessoa para um ilha deserta que não tivesse, digamos, o chip da poesia, eu nunca conseguiria mostrar-lhe poemas que me arranham a alma, porque nunca os iria... sentir... e haveria sempre uma parte de mim que não seria desenvolvida nesses mil anos na ilha. Além disso, mesmo que, supúnhamos, uma pessoa tivesse sempre estado com duas outras nas mesmas alturas e ambas tivessem visto e ouvido o mesmo dela, assistido aos mesmos comportamentos, mesmo aí ambas reteriam coisas diferentes dela. A memória seleccionaria diferente fragmentos e o próprio ângulo de análise de cada indivíduo, mesmo perante os mesmos factos é sempre como o BI: pessoal e intransmissível. Por isso é que o Lobo Antunes diz que perante o mesmo livro há livros diferentes nas cabeças das pessoas. Diz ele que cada livro deveria ter, juntamente com o nome do autor, o do leitor, porque o leitor tem a sua chave, e ele constrói sempre um livro único na sua cabeça. «Os pássaros doirados sobrevoavam a sua cabeça triste.» - Nenhuma imagem construída a partir da leitura desta frase seria idêtica em nenhum dos seis mil milhões de cérebros seria idêntica.

Angel

quarta-feira, agosto 06, 2008

sometimes you make me feel like i'm living at
the edge of the world like i'm living at the edge
of the world "it's just the way i smile" you said

idem
o amor em estado puro...


You and me
Are the world
She said
Nothing else is real
The two of us
Is all there is
The rest
Is just a dream


The cure

terça-feira, agosto 05, 2008

É importante ser original - também na forma

Valter Hugo Mãe escreve sem maiúsculas. Lobo Antunes escreve em polifonia - como pensamos, não sequencialmente, mas com múltiplas vozes, primeiro parágrafo sobre A, segundo sobre C, terceiro sobre B, quarto sobre A (lembras-te do que falou? não, então vai lá atrás; tens de estar mais atento doravante), quinto sobre D, sexto sobre sobre A (sim novamente). Cormac McCarthy aboliu o uso dos travessões nos diálogos, as pessoas identificam naturalmente o que é diálogo, o que é narrativa e o que é descrição. Saramago escreve como quem fala - sem virgulação, diz que quero ser lido em voz alta.

A arte é inesgotável, e não basta sermos tremendamente bons, temos também de deixar um marca nova - a nossa.
Pensa nos melhores momentos da tua vida. Agora, nos piores.

São sempre mais negros do que os mais róseos.

Ganhar a lotaria, casar com a mulher/homem dos sonhos, realizar um sonho não chegam aos calcanhares da morte dos entes queridos, dos cancros, dos acidentes de carros.


E é por isto que o Bem está sempre mais longe do que o Mal. Repara: podes ir à porta do teu vizinho e dar-lhe um tiro e matá-lo. Consegues conceber uma acção contrária tão positiva face ao teu vizinha como é negativa dar-lhes um tiro?
Dois psicólogos acabam de fazer amor.

Ele vira-se para ela:

- Olha tu gostaste e eu... gostei?

segunda-feira, agosto 04, 2008

O vazio sobrevém quando o prazer se esgota. É tão vazio o vazio.
Não é preciso ser-se quarto para se ser assombrado.

idem
O cérebro é mais vasto do que o céu.

Emily Dickinson

sexta-feira, agosto 01, 2008

Que marcas vais deixar no mundo? Quanto tempo durarão os teus vestígios antes de serem obliterados? Quem afectarão positivamente?

Living on the edge

Quando era muito mais novo, lembro-me de ler a biografia do Jim Morrison, de todos os excessos que cometera, desde as drogas constantes, a dar um concerto com pai e mãe (com quem deixou de falar) na audiência e em que disse que «Father, i want to kill you... Mother, i want to fuck you». O ataque cardíaco aos 27 anos parecia-me o corolário normal daquela vida.

O livro dizia isso mesmo num verso, qualquer coisa como a morte apanha mais depressa quem persegue o risco e a aventura, mas tem uma vida coxa quem não tem o perigoso e o destemido como irmãos.

Como não podemos comer o bolo e ficar com ele, não podemos lamentar a morte destas pessoas como algo que as desresponsabilize. Elas sabiam que a morte rondava sempre ao lado dos seus prazeres. O James Dean nos automóveis, o Jim Morrison e o Kurt Cobain nas drogas - a parte boa que experienciavam é indissociável do risco de morte que comportavam.

O velho adágio de que morre cedo quem os deuses amam é apenas um consolo para quem fica cá a chorar quem partiu... Como os carecas inventaram que é deles que elas gostam mais. A sociedade é que torna a imortalidade de quem morre jovem, mais doirada, mais bela, mais perene, mais misteriosa. Qualquer daqueles três vultos supra, se fossem hoje velhos carcomidos (ainda que o charme nos homens destile sempre), não seriam lendas...

Freud dizia que tudo o que fazemos é para evitar a depressão. Será talvez mais fácil para os living on the edge tombar nela. Por isso é que se diz que os muito ricos, os muito famosos, cuja fama e dinheiro já lhes permitiu experimentar quase tudo, têm caprichos muito peculiares, como comer criancinhas ou fazer orgias.

Este tipo de vida, hedonista, alicerçada no culto do risco, pode ser extraordinariamente veloz e inebriante. A espiral é muito rápida de ser escalada. Numa sociedade em que os jovens têm cada vez menos de tirar uma casca dura a um fruto, por melhor que seja o seu interior, em que cada vez mais só têm mãos para tirar cascas leves, bem levezinhas... É fácil falar com alguém do futuro e perceber que as drogas, a velocidades dos carros, o alcóol, o sexo grupal - a sociedade do futuro vai engrossar nestes sectores.
- Eh pá, ainda outro dia um gajo tava a olhar para a minha namorada na rua, de forma insistente, e eu perguntei logo ao gajo com a cabeça: «O que é que queres, meu»? Eu não papo grupos.

- Acho que essa força é uma fraqueza mascarada de virilidade. Se te sentisses seguro em relação aos sentimentos dela, não agirias assim.

- Um gajo tem de se impor.

- Ela é que escolhe, ela é que manifesta a escolha e não és tu que falas por ela, estrangulando-lhe a voz. Claro está que é mais fácil pensar assim quando se confia que o outro lado gosta de nós.