quinta-feira, julho 31, 2008

Em qualquer competição, sobrepondo-se a qualquer outro critério, procuro sempre saber quem é o mais fraco para torcer por ele. Num jantar, quando sinto uma pessoa isolada, vou conversar com ela. Quando alguém é ostracizado ou humilhado, eu estou pronto a defendê-lo antes de saber as suas razões. Mesmo quando o violador de crianças atravessa a multidão, sôfrega de fogo e de pedras, é do lado do criminoso que eu estou. Não é uma escolha racional.

terça-feira, julho 29, 2008

«Seria cómico se não fosse trágico» Brecht sobre Hitler

http://diario.iol.pt/sociedade/gato-vizinho-homossexual-arma-sodomizar-sao-joao-novo/976157-4071.html


Um homem, o dono do gato, deixa o gato três dias na sua varanda. Um vizinho salva o gato. O dono do gato sabendo que o vizinho era homossexual, dispara sobre ele, temendo que este lhe contagiasse a homossexualidade!!! Para tornar tudo ainda mais burlesco, os alvos dos tiros são na vizinha.

segunda-feira, julho 28, 2008

Ornamentos relampejantes do quotidiano baço

- Angel, sonhei com o mal, com aquilo que na língua inglesa se nomeia como Evil. Não era uma pessoa, nem uma situação - era a essência, o mal em estado puro e absoluto. Conheci-o e era horrível.



(na minha cabeça de interlocutor, eu só via vermelho, cor de carnes e chamas... também era horrível... e tu, leitor? fumo negro? a terra devastada? um exército destroçado... repara que ele disse nada nem ninguém)

domingo, julho 27, 2008

Nunca deixará de me espantar a facilidade com que se fala da intimidade dos nossos amigos ou namorad@s a estranhos:

- ele está com uma depressão;

- ela tem só um fiozinho [de penugem] à volta da cona;

- ele é virgem;

tudo isto eu já ouvi.


Angel-ET
Não julgues um homem como bom se não tem poder para exercer o mal.

Nietzsche

Esta frase diz-vos algo? A mim diz-me tanto...

Há quem faça as coisas para e quem faça as coisas por.


Agostinho da Silva
- Outro dia estava a olhar para um jovem e ver a que altura ele tinha as calças... muito abaixo do nível da cintura. Mas que lógica é que aquilo tem? A braguilha não deve estar à altura do pénis?


Velho Ancião.

Leve, leve, leve

Esta semana ouvi, na primeira pessoa, o relato de alguém, oriundo da classe média alta, sem problemas de alcoolismo, prostituição ou toxicodependência na família, relatar a sua experiência de laranja mecânica: uma pessoa cuja adrenalina estava viciada em distribuir pancada gratuita e vandalizar. Ouvi histórias de prisão, de ambulâncias, de sangue, de restaurantes virados do avesso. O grupo dele era viciado neste prazer, como outros são viciados no casino, no sexo, na droga, no álcool, no consumo compulsivo. São formas de fugir à monotonia, trocando-o por uma espiral de prazeres efémeros e momentâneos que só podem provocar azia em seres pensantes e harmoniosos. Como li de um padre, vive-se hoje numa sociedade que «absolutiza o imediato».

Isto tem muito que ver com a tecnologia. Esta geração apanhou, de uma assentada, a Internet (e com ela o MSN, o HI5, os downloads), a Play Station, o telemóvel, os 50 canais. O retirar prazer de algo tem, para elas, de ser automática. Ou uma notícia capta logo pelo lead, ou não é lida. Porque as coisas que a sociedades lhes deu geram no primeiro instante uma satisfação, uma cócega, uma volúpia.

O problema é que os maiores prazeres não são imediatos. Ler um grande romance, aprender a tocar piano: uma seca, claro está.

As coisas que nos elevam a alma. Que nos fazem sentir em contacto com uma centelha celestial. Que nos fazem sentir não desperdiçar o potencial humano. Que nos fazem sentir a dar um abraço a toda a humanidade, como quando ouço o Wonderful World ou o Imagine. Cultura para mim é tudo isso. É este sentimento de irmandade universal, de comunhão, de banquete entre todos os seres vivos. Sabermos a nossa pequenez e diluirmo-nos como uma gota no oceano... Saber que quanto mais sabemos, mais conhecemos a extensão do que ignoramos.


Angel

sábado, julho 26, 2008

Nunca esmagar o Outro pela sabedoria.
Criticar em privado, elogiar em público.

sexta-feira, julho 25, 2008

Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar (...)


Herberto Helder

De onde venho? Para onde vou? Quando o sentido disto?

- ... a religiosidade do século XXI será muito à base das coincidências. As pessoas perceberão que há sinais de um plano cósmico para as suas vidas. Há concidências incríveis. Outro dia, no autocarro, lembrei-me de uma pessoa que não via há mais de 14 anos. Não sei como me lembrei dela - seguramente há anos que não me lembrava. Pumba, na paragem a seguir entra ela. Fiquei gelado!Há coisas que não têm numa explicação racional.

- Eu acho que as pessoas querem atribuir um sentido a tudo e muitas das coisas não têm sentido nenhum. Se eu for para a guerra, um tanque me desfizer uma perna e eu for para a enfermaria e, aí, a mulher que trata de mim e eu nos juntarmos, eu vou dizer que aquilo não foi coincidência, e que eu tinha de ter o acidente para a conhecer. Isto é construído da frente para trás, moldando as coisas para lhes dar sempre um significado positivo - como se não pudessem haver meras fatalidades, coisas intrinsecamente más. É como as pessoas que gostam de se sentirem confortáveis em achar que todas as pessoas que se cruzaram na sua vida é porque tinham de se cruzar. Conseguem, assim, minorar experiências traumáticas com namorados que lhes batiam ou alguém que lhes roubou dinheiro. É duro pensar que a nossa alma gémea poderia ser esta como cem mil outras pessoas quaisquer - por que é que o mundo tem tanta gente, por que é que não é mais pequeno e nós conheceríamos todas as pessoas nele?

- Eu não penso assim. A experiência de Deus, ou do Arquitecto Cósmico, como lhe queiras chamar, só pode ser experienciada por uma porta que não é a da razão, do entendimento. Tal como o amor. Tu só sabes o que é quando o experiencias e quando o experiencias tens a certeza de que é o Amor!!! Mas mesmo vivendo-O, sentindo-O, nunca conseguiremos explicar Deus pela simples razão de Ele é a complexidade última. Como pode uma formiga explicar um homem?

Angel-não-compreendo-as-mulheres-e-os-homens-que-não-têm-perguntas-irrespondíveis-until-the-end...-until-the-end...

quinta-feira, julho 24, 2008

A minha linguagem não é a dos computadores, dos carros, das séries xpto, da tecnologia, dos i-pod. É a das flores, da poesia e dos sentimentos. Um dia vou tornar-me uma excrescência extemporânea - um produto fora da validade.
Eu preciso de ti para egoistamente praticar o altruísmo e me sentir bem.
Vivia no tédio e na solidão. Dizia que costumava imaginar como ficariam os amigos com outra roupa, com outra cor de cabelo - demorava algum tempo a compor na mente outras imagens dos amigos. Era uma maneira de passar o tempo.

Se calhar têm medo de gostar...

Algo que me entristece profundamente é a violência. Como um psicólogo disse, ela é o último degrau da comunicação.

Foi um golpe duro ouvir um amigo contar que um homossexual lhe estava a fazer adeus e a mandar beijinhos ao longe na discoteca, e ele foi lá e bateu-lhe.

Ao escrever, até os meus dedos se movem tristes...

E se fosse uma mulher, ò bronco?

Porra, pá, não devias ter feito isso, pá...

Mesmo os homens auto-proclamados não homofóbicos têm o pânico de algum se meter com eles. É como rejeitar uma mulher de que não gostam - porra, pá, é preciso violência?

Angel-no-fundo-são-como-os-homens-viris-que-fazem-da-mulher-uma-propriedade-unicamente-por-ciúme-unicamente-por-insegurança-será-que-as-pessoas-não-vêem-que-o-mundo-é-todo-um-gigante-baile-de-máscaras

2000.º post

Já escalaste a maior montanha dentro de ti?

terça-feira, julho 22, 2008

Do enamoramento... :)

- É sempre a mesma coisa, sempre que estou interessado com uma rapariga, sou um trapalhão e esqueço tudo o que sei. Fico entaramelado quando estou a falar e não consigo comunicar as minhas melhores ideias...

- Eu é o contrário. Parece que só quando estou interessado é que me consigo elevar, entendes?

segunda-feira, julho 21, 2008

Mergulha em ti. Descobre as coisas que sabes mas finges que não sabes - o que escondes de ti próprio?

sábado, julho 19, 2008

Borges descobriu o passatempo de ler enciclopédias. Dou por mim com o passatempo de ler dicionários.
a eloquência de uma flor
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.


Herberto Helder

...

o terror da árvore vermelha

poemas de um verso

corrente de sonhos na quietude da noite

O Macho protector

Umas das teias aranhas mais difíceis de remover mesmo nas mentes mais desempoeiradas é a necessidade de protecção da mulher. A única diferença biológica entre a mulher o homem é que o segundo é mais forte fisicamente. Por estupidez, extrapolamos que o homem é corajoso e a mulher frágil - e que, evidentemente, o homem terá de proteger a mulher.


Proteger a mulher ecoa melífluamente nos ouvidos de muitas mulheres (há tantas mulheres machistas como homens machistas)... Não percebem que essa protecção é o contraponto de um sentimento de posse. Na China, uma mulher não tem despesas - o homem (mesmo o desconhecido) paga tudo. Mas também não pode sair sem o homem. Mas também, quando o homem vai para o jogo até às cinco da manhã, cabe-lhe a ela manter-se sentada no sofá, à espera do marido para se poder deitar.

Vi uma reportagem sobre o regimes dos talibãs no Afeganistão. Quando um talibã foi interrogado sobre os direitos das mulheres, respondeu, visivelmente irritado:

- Nós, ao contrário de vocês [os ocidentais], protegemos aquilo que é mais valioso. Está a ver esta nota? Esta nota vale muito aqui. Então, o que é que eu lhe faço? Guardo-a bem guardadinha.


É sempre com um propósito nobre que se justificam as necessidades de protecção e se cerceiam as liberdades individuais. Proteger é, sempre, tolher a autonomia. Pode ser bom, pode garantir segurança - mas atrofia o desenvolvimento. E quem acredita que as mulheres têm as mesmas capacidades, deve deixá-las desenvolverem-se livremente.

Tenho um amigo que um dia me contou que no metro, alguém olhou apreciativamente para a namorada dele, e que ele devolveu um olhar de «gajo fodido» e levantou a cabeça em jeito de ponto de interrogação. A namorada não comentou, pelo que não deve ter desaprovado o gesto.

Eu não entendo. Não entendo como é que:

- as pessoas não podem olhar para alguém, homem ou mulher, por ali sentirem um magnetismo qualquer;

- se havia alguém incomodado não seria a pessoa visada dos olhares, e porque é que não era ela a manifestar o seu desagrado.

Detesto frases como:

- Tás a olhar para a minha gaja?

- Na minha garina, ninguém toca.

Para além de haver sempre uma insegurança feroz por trás, há um elemento de perigosidade nestas pessoas. E, claro está, um inequívoco sentimento de propriedade. Há quem diga - e eu concordo - que quem trai é que mais desconfia do parceiro. Não deve der pouco acaso que estes machos protectores sejam uma espécie putanheira, arruaceira e muito amiga de lançar piropos boçais.


Não entendo. Não entendo. Não entendo. E choca-me mais ainda quando vejo este machismo na mulher.

Tinha uma amiga minha que, sendo muito porreira, tinha um faro incrível para só ter como companhia hells angels (grupo de motards de extrema-direita), skins, porteiros de discoteca ferozes, energúmenos em geral.

Numa noite em que saímos, apanhei uns aborígenes dos hells angels. A certa altura, um rosto fechado e duro atirou-me:

- Não te quero ver tocar nela.

Interpelei-a para dizer algo. Ela baixou a cabeça.

Quando o austrolopiteco se retirou, ela e eu discutimos e eu ouvi:

- Angel, compreende, é bom sair com eles porque eles protegem-me sempre, mesmo que às vezes, como neste caso não seja necessário.. Eu sou uma avezinha deles e eles vêem sempre falar com alguém que me vêem abordar, e às vezes afastam a pessoa quando é necessário.

Claro que esta conversa fê-la descer 46 pontos na minha consideração.

Não sei que raio de sítios, em tanta coisa que já vi na noite, possam haver pessoas que, noite após noite, assediem tão fortemente as raparigas que tenham de ser removidos por outros corpos machos. Sempre vi as mulheres darem tampas subtis aos milhares de homens rebarbados que façam dos bares e discotecas um clube de caça.

E - acima de tudo - não entendo como pode alguém abdicar da sua liberdade em troco da segurança. Mas, como alguém escreveu e eu adorei ler, quem procura na liberdade algo mais do que a própria liberdade, não nasceu para ser livre.

O que é que a liberdade traz? - é uma pergunta de quem não estima a liberdade. A liberdade não traz nada para além da liberdade. A liberdade só traz liberdade. Só que esse «só» é imenso».


Angel
Teve uma educação militar. Encara a simpatia e a doçura no Outro como uma fraqueza. Despreza o educado, o pacífico, o delicado. Aprecia o bruto, o frontal, o destemido. Mascara a sensibilidade com uma magnífica brutalidade.

Angel

sexta-feira, julho 18, 2008

Miscigenação inter-sexual

Imagino um estádio de evolução espiritual em que as pessoas não se sintam atraídas em função do sexo, mas em função das pessoas.


As pessoas apaixonarem-se por pessoas e não por sexo masculino ou sexo feminino.


Gostas de homens ou mulheres? Gosto de pessoas - diz o homem e a mulher do futuro.


Também no futuro a divisão de coisas de homem e de mulher cessarão gradualmente. Há-de chegar o dia em que o homem se liberta de ver a mulher como propriedade sua, e em que a traição seja igualmente vista no homem e na mulher. Há-de chegar o dia em que se perceberá que o que afastou as mulheres dos cargos das política e da administração de empresas não foi a testosterana, mas uma sociedade arcaica, bafienta e patriarcal. Em um homem poderá pedir um safari com palhinha na discoteca sem comentários sardónicos. Em que o homem não abra a porta para a mulher passar só por ser mulher. Em que o homem não pagues os jantares à mulher. Em que o homem alargará o seu leque de indumentária ao mundo vastíssimo que é a raoupa e bijuteria feminina. Em que o homem usará maquilhagem e vestidos.


Angel-para-os-mais-cépticos-recordo-sinais-do-presente-:-50%-das-cirurgias-estéticas-são-feitas-por-homens

O lado roséo do cubo tem na face oposta o lado negro

Uma das mais valiosas frases sobre a natureza humana é de Aristóteles. Diz ele que o caminho melhor é o do meio, isto é, a virtude é o que se situa no meio do extremo de duas características antagónicas. Uma pessoa organizada ou uma pessoa desorganizada. Nos extremos, ambos são maus. Uma pessoa muito organizadinha (a pior pessoa para passar férias, especialmente se a casa for dela) é patológica, tensa, e como diz o Saramago, tem o desejo secreto de transpor essa organização para o mundo. Uma pessoa desorganizada perde tempo para fazer um trabalho por falta de método. O ideal estará no meio. Uma pessoa corajosa em excesso é temerária e, no limite, estouvada, porque põe em perigo por tudo e nada a sua vida. Claro que ser um medroso também não é uma virtude.

Paralelamente ao caminho aristotélico, uma frase do Pulido Valente retumbou em mim. As nossas qualidades são o outro lado dos nossos defeitos (e vice-versa). Ok, leitor, é uma inanidade, um truísmo. Não, não é: trata-se de algo muito profundo. Os nossos melhores pontos como seres humanos tem um reverso no qual temos os nossos piores pontos.

Tenho um amigo que é uma excelente - ou uma fenomenal - pessoa, e como tal ajuda os amigos e mesmo os conhecidos em terceiro grau. Qual o reverso desta moeda? O pior defeito dele. Não sabe distinguir entre amigos e conhecidos, por vezes. É constantemente aldrabado. Dispersa energias.

Focalizem-se nas pessoas que conhecem... Veja os pontos bons e maus, e se uns não são indissociáveis dos outros.

Tendemos a ver defeitos e qualidades, como um ponto aqui e outro acoli, mas eles está no mesmo sítio. A cara e a coroa das mesmas moedas.

Angel
O século XXI será o século dos confrontos sociais. Quem tem fome, quem não tem nada a perder, vai sair para a rua, com paus e armas e exigir comida. Não vão atacar os «ricos» como uma luta política, vão simplesmente tirar a comida a quem tiver ao seu lado para a comerem.


Velho Ancião

quarta-feira, julho 16, 2008

Dicionário: Mesquinhez

Nunca percebi se com a idade ficamos mais ou menos tolerantes. Em mim (o caso que posso analisar melhor), noto que cada vez sei melhor o que gosto e não gosto nas pessoas, aquilo que relevo como discordância e aquilo que me agride a identidade.

Não tenho paciência para pequenos oportunismos. Explico. Com as pessoas com quem me dou, vivo em harmonia. Pago eu hoje um copo, um jantar, amanhã pagas tu - vivemos em harmonia sem ser preciso um balancete onde registemos as coisas. Porque sabemos que, entre pessoas de boa-fé, as coisas tendem para o equilíbrio natural.

Desde pequeno, que sempre fui distraído para o que os outros tinham meu (fosse um caderno ou um afia) e muito atento e pronto a devolver o que tinha de outros. É egoísmo, atenção. Cria-me tensão estar a dever dinheiro, ou a ter algo de alguém. Pesa-me como uma toalha molhada. Desde que me lembro de mim, que sempre tive imenso pudor em pedir ajuda a alguém e sempre massacrei os outros para disporem de mim. Mais do que ajudar, sempre tentei identificar os problemas dos outros e agir. Faz-me, talvez por isso, uma tremenda confusão quem viva para sugar os outros de uma forma amoralmente descontraída.

Há pessoas quem não têm pudor em pedir favores aos outros. Há pessoas que estão sempre sempre sempre à espera da borlazinha. Eu não entendo como é que há pessoas que se encostam sempre para que lhe paguem o lachezinho, o café, o jantar, que na hora do táxi ao dividirem as contas fiquem sempre a ganhar um eurinho; e nunca oferecem nada aos outros. Eu não entendo, palavra de honra que não entendo.

terça-feira, julho 15, 2008

O melhor lugar do mundo

Transpus de olhos fechados a placa que marcava o início de Areias de Prata. A minha primeira impressão ao abrir os olhos foi de que a beleza fulgurava por todos os lados – jorrando instantânea e torrencialmente para onde eu olhasse. O Sol erguia-se no perfeito céu azul.
Desci pelo asfalto até à areia. Descalcei-me, senti a areia quente e deslizei até ao som do mar, onde as ondas me estendiam os seus braços.
As pessoas vogavam em bóias descontraídas, liam, jogavam, riam. Todas as camadas etárias marcavam presença. Tirei fotografias a um bebé de sorriso largo e a um papagaio de papel que cirandava no céu.
«Aqui e agora, neste momento, com o qual me fundo e me confundo, eu sou a paz que o mundo não tem…» – poetizei no meu bloco de notas.
Quedei-me junto ao mar, o mais verde que alguma vez vira, os pássaros chilreando docemente na minha cabeça, enquanto os meus pés sentiam suavemente a carícia macia da espuma e a amplitude do meu sorriso atingia proporções inéditas. Deixei-me estar assim por vastos instantes, sorvendo todos os pormenores que me rumorejavam levemente as boas-vindas a Areias de Prata.
É um fenómeno curioso da natureza humana. Quando gostamos de qualquer coisa, a nossa inclinação irresistível para ela torna-a monolítica, como uns olhos que não suportassem um quarto com paredes de várias cores – e, então, gostamos de tudo nessa coisa. Eu gostava de gostar e isso ajudava.
Subi até à esplanada. As cadeiras prateadas faiscavam ao sol. Bebi um pouco do azul e da luz à minha volta e levantei os braços para tocar o céu – as nuvens eram um pedaço de macieza tangível.
A realidade tem umas fissuras minúsculas pelas quais espreitamos duas ou três vezes ao longo da vida. Boiando no outro lado do espelho, liberto-me dos ontens e amanhãs, de todos os porquês, perpassado por um clarão de felicidade... leve... leve... como uma pluma...
Vivera demasiado tempo no contraponto de tudo isto, na luz soturna e no betão opressivo da urbe. Oh!, como tudo isso me parecia distante agora, dissolvendo os seus contornos numa bruma de irrealidade.
Sentia o ar quente e abafado de Areias de Prata como a calma agoirenta que nos filmes antecede o homicídio do forasteiro, mas que neste caso preludiava o mais belo dos sonhos.
Caminhei sem rumo, degustando Areias de Prata. Reparei num pormenor delicioso: as horas dos relógios assinalavam tempos díspares, como se cada um pudesse escolher o tempo que mais lhe aprouvesse.
Os meus passos tornaram-se mais lentos ao passarem por um tapete de folhas e flores. Volvi os sentidos em todas as direcções… Estava ladeado de um conjunto de árvores, sublimemente vestidas, entrecruzando-se bem por cima da minha cabeça, onde se formava um longo e majestoso corredor.

Angel


in Tertúlias Virtuais

segunda-feira, julho 14, 2008

O olhar

Desde novo que sonho fabricar o olhar mais marcante de sempre. Com a experiência e o anos, venho apurando-o. Está longe, longe, longe dessa meta mirífica - esse olhar que recolha o olhar da pantera, da esfinge misturado com o olhar meio menino, meio salvagem do rapaz dos bosques. É um olhar que convoca a fera e ave, um olhar que penetra até à medula, e que ao mesmo tempo se esconde. Um olhar que não destile mel, mas um veneno a que não consigamos resistir. Um olhar que convoque o charme de um actor de cinema, a profundidade do escritor, a cintilação de um girassol, a sedução maléfica de uma lolita, a serenidade do oceano a repousar, a alegria de uma criança, a dor de um punhal e o mistério do cosmos desde a noite dos tempos.

Angel
Oceano

Aqui estou eu em lado nenhum…
Balão diletante
… Boiando…
…Boiando …

Conheci todas as coisas, amei todas as pessoas…
Quebrei todas elas
(Como um cristal contendo
Um líquido precioso)
Vertendo a sua essência…
Para os meus lábios sôfregos.

Metamorfoseei-me em todas as coisas,
Passeei por dentro de todas as pessoas...
Mas ao contrário dos outros…
Não ancorei nelas…
Parti sempre para outras…
Os outros hoje vêem a realidade
Pelo seu buraco da fechadura
E eu vejo tudo de lado nenhum.

E tudo o que tenho cá dentro
É mais do que tudo…
Tudo o que li, vi, pensei
Amei, sonhei, agarrei
Vivi.
(Como uma taça transbordando líquidos
Que não existiram em nenhuma garrafa).

Sou a orgia de sexo, comida e riso alarve das dezenas de pessoas nuas na mansão…
Sou o eremita isolado na montanha coberta de neve…
Sou o deus encarnado no artista em cima do palco convergindo os gritos da multidão…
Sou a força do místico contemplando a paisagem e diluindo o seu eu na Alma Universal…
Sou o sorriso libertador do budista que saltou para fora da roda da insatisfação…
Sou o fogo libertino do álcool, da droga, da ausência de regras e amanhãs…
Sou a beleza do comportamento escorreito e das figuras geométricas regulares…
Sou o encanto da vida dupla e dos segredos só contados à noite…
Sou o estado limpo do despertar solar, do exercício físico e do dever cumprido…
Sou o conforto do habitual, o valor da palavra, a lealdade, a verticalidade,
O refúgio do cobertor na chuva, a certeza dos velhos amigos na desgraça…
Sou a frescura das sensações novas, a surpresa, a explosão das cores, a evolução,
O novo gelado do Verão, as alamedas verdejantes, o desabrochar da flor amarela ao Sol…
Sou o romântico ciente de que a melhor experiência do mundo é unitária: o Amor…
Sou o eclético que se libertou da mais ardilosa das construções sociais: a monogamia…
Sou o charme do fumo azul pairando sedutoramente pelo bar…
Sou a melodia da palavra casa para aquele que regressa extenuado do mundo cruel…
Sou a repugnância do nazi pelos fracos, sujos e pusilânimes e o seu fascínio
Pelos belos e fortes que platonicamente devem perdurar a Força e a Beleza…
Sou a solidariedade do socialista e o amor do cristão condensados
Na compaixão do homem bom pelo sofrimento do Outro que é igual ao seu…
Sou a harmonia conceptual dessa manifestação divina que não se vê nem se sente e
Que só funciona desde que ninguém se preocupe com ela: o mercado!
Sou essa coisa que insufla a alma do comunista: o vislumbre de um
Maravilhoso mundo novo sem exploração e sem classes…
Sou o rugido de leão do grito de liberdade do anarquista
Almejando libertar a humanidade de todas as correntes…
Sou a beleza amena que circunda o playboy zen na praia paradisíaca
Rodeado de deliciosas mulheres, areia de prata, luz e altas palmeiras…
Sou o cheiro fétido que perpassa o acampamento dos toxicodependentes
Por entre os montes caóticos de lixo, os rostos irreconhecíveis e as seringas…
Sou a porta escancarada para as largas avenidas do contentamento…
Sou o envelope trémulo nas mãos do doente que receiam a sua sentença de morte…
Sou a vitória saborosa de quem acabou de cometer a longa vingança
Sorrindo perante o inimigo caído ao seus pés…
Sou o abraço compassivo da jovem caminhante
Ao mendigo andrajoso sangrando na beira da estrada…
Sou o pintainho com a pata magoada saltitando amorável por entre a chuva…
Sou o magnetismo emanando do verde docemente enigmático da pantera…
Sou o longo campo de girassóis encharcados de Sol que sabes sorrirem só para ti…
Sou os barcos atracados numa tarde opaca de domingo…
Sou a lua de Inverno, gelo imponente e cintilante, brilhando na noite mágica...
Sou os sonhos de Verão de um mundo porvir sussurrado na praia de ouro…
Sou a onda de mel quente e doce que submerge os namorados no banco do jardim…
Sou o relógio dos amantes batendo fora deste tempo algures fora deste espaço…
Sou o perfume natural do teu ente amado que te ficou entranhado na ponta do dedo…
Sou o som das ondas invadindo aveludadamente o silêncio da praia à noite …
Sou o murmúrio do teu nome arranhando-te a alma na noite encantada…
Sou as flores rebentando no subsolo do mais belo poema
Cuja beleza só o próprio poeta alcançará…
Sou esse não-sei-quê que emana da flauta do encantador de serpentes
Hipnotizando toda a humanidade…
Sou o mistério do outro lado da porta… do templo… sem porta…
Sou a tal grande boca que acolherá os frios e os quentes e vomitará os mornos…
Sou o iate iluminado à noite, deslizando suave e majestático…
Transportando todas as pessoas para o seu destino…
Sou a corda invisível (tu nunca soubeste o que era…)
Que te puxa para as tuas coisas favoritas e para as tuas pessoas preferidas…
Sou o material intangível por detrás da última camada do inconsciente
Fazendo navegar os teus sonhos…
Sou o preconceito irresistível a favor de tudo o que é teu…

Sou essa coisa que só tu sentes...
Intransmissível ao mundo
Invisível por entre as palavras
Que te perpassa agora …
Provocando-te esse doce arrepio…
Desenhando-te esse sorriso…
E eu sorrio ao ver esse sorriso…

Oh! O mistério em todas as coisas…
A noite intemporal, o mar prateado…
O tempo urdindo em silêncio
Por entre o sossego do mundo…
As estrelas e a imensidão lá em cima…
A face visível do inescrutável…
Oh! A beleza em todas as coisas…
O teu sorriso tutti frutti
E os teus seios de baunilha…
Suspensos à porta do infinito…
Oh! Poder cair sempre de novo…
Neste feitiço imortal…

Oh! Eu quero estar sempre aqui...
Eu quero estar sempre sempre aqui...
Aqui em pé
Quando a claridade substitui a noite…
Sentir esta coisa esplêndida
A recomeçar sempre
A vida…
Escorrendo-me por entre as veias
Como a mais fabulosa bebida…
Oh! Eu quero estar sempre aqui …
Eu quero estar sempre sempre aqui…
Imaginar os dias porvir…
Efervescendo algures…
E sorrir…

Vem…
Perde-te na profundidade do meu ser…
Mergulha nestas águas infinitas…
Deixa o teu rosto encostar-se ao meu…
Lá no fundo…
Ele será o teu espelho…

No hotel da minha alma
Haverá sempre um quarto com vista para a tua paisagem favorita…


Angel

Valores inflectidos

Alguém escreveu e eu li: «Nada do que é humano me é estranho.». Não consigo dizer o mesmo e espanta-me quem o consegue afirmar.

Uma pessoa que conheci ascendeu social e economicamente de forma abrupta. Novo-rico e novo-poderoso, numa festa bem, fingiu que não conhecia o amigo de infância, um pobretanas que não condizia com o espaço.

- Não estou a ver quem seja. Desculpe, mas não o conheço - disse, rodeado de fatos armani e charutos.


Parece de um filme, mas é absolutamente real.

Conheço pessoas cujo principal anelo na vida é justamente o dinheiro, a fama. Um amigo meu disse-me um dia para meu espanto:

- O meu sonho é casar com uma gaja muita rica.

E quantos estruturam a sua vida em função do dinheiro ou do poder mas não o verbalizam aos amigos? Quantos?

Parece que o universo cinematográfico influencia e, nalguns casos, modela mesmo a cartografia dos sonhos so cérebro de muitas pessoas. Porque da mesma forma que há muitas raparigas cujo sonho do princípe encantado permanece(rá) indelével; também há muitas que querem ser modelos e actrizes de sucesso custe o que custar. Pise quem pisar. Durma com quem dormim. E há muitos que querem ser gestores de sucesso. Lixem quem lixarem.

Nunca serão felizes, porque nunca a gula do dinheiro ou do poder, ao contrário da gula de comida, é insaciável. E também porque, como já disse, «não acredito numa felicidade que dispense a ética». E finalmente porque a felicidade não deve morar em coisas exógenas: um carro, uma piscina, um cartão com o nosso nome em letras doiradas. Quanto morrermos, não é a isso que nos poderemos agarrar...

O Miguel Portas diz numa entrevista que a única coisa que espera do seu filho é que ele, para obter sucesso, nunca pise o outro. Deviam pegar nas palavras dele e afixá-las em todas as escolas.

Porque é bonito. Porque vale a pena sempre sermos íntegros. Porque não faz sentido vir ao mundo apenas para comer, beber, fornicar e dançar. Porque não faz sentido vir ao mundo para lhe acrescentar mais sofrimento.


As pessoas que têm como valores mais importantes a perseguição de um poder pessoal, o ganhar muito dinheiro (muitas vezes sem terem tempo para o gastar), devem ser dignas mais da nossa piedade do que da nossa inveja. Porque um dia olharão para trás e...

Um dia bate-nos sempre a questão: atirei mais felicidade ou mais dor para a vida dos outros? Seja com a proximidade da morte, seja com a morte dos outros, seja com a doença, um dia percebemos que andamos demasiado depressa sem saber para onde, um dia percebemos que desprezámos o essencial.

O Dalai-Lama diz que devemos preocupar-nos só 50% com os problemas desta vida terrena e 50% com o mundo espiritual, com a vida depois da morte.

Levamo-nos demasiado a sério. Os nosso problemas são uma infíma parte do cosmos, mais pequenos do que um berlinde à escala do universo.

Só cultivando a felicidade de dar; só fazendo do nosso trabalho um instrumento de melhoria da vida dos outros e não apenas uma tarefa rotineira que temos-de-fazer-sem-saber-porquê; só olhando todos os dias para os outros, lendo para lá do seu rosto quais as suas interrogações, quais as suas angústias e fazendo tudo para os ajudar; só praticando secretamente o Bem; só acordando bem-dispostos, alegres com a vida, com o mundo e os outros; só deitando-nos de consciência tranquila; só assim vale a pena.

O Coração das Trevas

«Há coisas bem piores», ela dizia e no fundo do seu rosto parecia guardar um segredo. Era uma pessoa magoada e sofrida. Nunca o nomeara. Mas eu intuíra-o. Falava demasiado mal da vida e não tinha razão palpáveis para tal. Escondia algo, pensava. «Há coisas bem piores que um ser humano pode fazer a outro...», voltou a dizer um dia e no fundo do horizonte dos olhos, eu tive a resposta. «Na infância?», perguntei. Ficou pálida. Ambos sabíamos que o outro já sabia.


Gostava de a ajudar. É terrível, mas quem sou eu para o dizer? Tudo o que disser será pouco. Só vivendo-o, saberia a dimensão do Horror que transporta.

Angel

domingo, julho 13, 2008

Agrada-me tanto a ideia de estar na praia de areia branca, sol, mar verde e palmeiras, como a ideia de estar em casa, com o cobertor e um livro, no sótão ou no sofá, a ouvir o som da chuva morna.

sábado, julho 12, 2008

Dois ideais contraditórias, coerentes dentro deles e justos

Há pessoas que não fazem fretes. Que só estão com A quando querem precisamente estar com A. Que só estão com G quando só querem estar com G. Não se riem de uma piada que não gostam. Estão correctos. São frontais e têm coluna vertebral.

Há pessoas que não sabem dizer que não quando alguém lhes pede ajuda. Que, mesmo num dia não, mesmo quando não lhes apetece nada, vão ao aniversário dos amigos. Sentem a amizade também como um dever. Estão correctos. São leais e solidários.
Quando estamos magoados com alguém e não dizemos a esse alguém, acumulamos ressentimentos, esse não-dito é transformado em rancor - e toda a humanidade pagará esse preço um dia. Porque, um dia, o vulcão rebenta...
Para um budista, bater ou ofender alguém por esse alguém nos ofendeu ou bateu é como bater num pau que nos infligiu dor. O pau é o intermediário entre o agressor e a dor, claro está... Para o budita, também a pessoa é o intermediário, o executante das suas ilusões: ódio, inveja, ira.

O cristianismo moderno diz algo similar ao afirmar que devmos odiar o pecado mas amar o pecador.

Ahab queria matar a baleia branca porque esta lhe infligiu dor. Ismael diz-lhe que tal é uma heresia porque a baleia é um ser irracional - e que por isso não poderia optar, ao contrário de Ahab. Seria como vingar-se de um pau.
Diz o Peter Singer que, no mundo ético, as pessoas circulariam livremente e os países desenvolvidos receberiam os que morrem de fome nos países subnutridos até que os níveis de desenvolvimento se equiparassem. Porque é que as 840 milhões de pessoas que passam fome têm de estar sujeito a quotas de imigração em países em que não se morre de fome? Porquê?

Por egoísmo. Morre longe...

quarta-feira, julho 09, 2008

No Laranja Mecânica, a questão do Bem e do Mal é acutilantemente abordada. Um grupo de jovens dedica-se à violência pelo prazer que lhes injecta, tal como a música clássica provoca frémitos no seu mentor. A questão essencial: o prazer, as emoções fortes e tremendas. Qual a maneira que o sistema tem de os integrar (ao ponto do líder do grupo se tornar polícia)?

É através da tecnologia aplicada à medicina, ou à neurologia, acabar com a possibilidade de o cérebro de Alex optar pelo Bem. De um ponto de vista utilitarista, é óptimo para a sociedade, e mesmo para o próprio, induz-lo numa... felicidade amena.

A questão é filosófica: devemos cercear o livre-arbítrio para que não exista Mal?


Penso que devemos deixar a possibilidade de escolha do Mal. Mas a paranóia securitária acabará, mais cedo ou mais tarde, por questionar a redução da liberdade individual, amputando-o quiçá um dia.


Esperemos para ver, cépticos...
No enorme Moby Dick (andamos 600 páginas até saber se encontra a baleia), lê-se que mesmo quando os barcos afundam, os rituais de limpeza, de fazer camas e comidas se mantém.

Quem tiver ouvidos para ouvir que oiça...
Será que também há heterofóbicos?

segunda-feira, julho 07, 2008

Eu gosto imenso de te ouvir

- Rebeldia para mim não é atirar os móveis do quarto de hotel pela janela. Nunca o fizémos. Nunca causámos actos de vandalismo. Simplesmente não vejo qual seria o ponto. Os fãs dos cure têm uma imagem de nós e ficariam muito desiludidos se o fizéssemos.

- Gosto que os fãs da banda o sejam pelas razões que sempre foram: porque é diferente de tudo o resto e porque não é facilmente acessível.


- Nos últimos anos confrontei-me com a ideia de que não existe um eu, porque o que sou é algo dinâmico que muda com cada experiência, cada sensação, cada dia que passa - então não há algo imorredoiro e imutável a que me possa agarrar como um eu.


Robert Smith em entrevista

domingo, julho 06, 2008

Yin mascarando Yang

Há pessoas que, não conseguindo combater os seus vícios, quando os identificam nos outros são cruéis.

Tenho um amigo, cuja elevada sensibilidade lhe fez mossas ao longo da vida. Quando ele vê alguém sensível, afirma que gosta de o pisar e fazer sentir mal.

Conheci uma pessoa que não conseguia chegar a horas ao trabalho, e maldizia todos os dias tal facto. Quando apanhava um subordinado que não chegava a horas, desancava-o até à humilhação.

Um nazi está assim explicado. Combate com crueldade as fraquezas dos fracos - porque, ele próprio, se sente um fraco. Um inultrapassável fraco. Mas que quer ardentemente ser forte.

Ouvi, validei, aprendi e incorporei na minha vida

- Ai eu adoro isto... É tão bom discutir, argumentar a andar. Como os gregos faziam. As pessoas pensam que para discutirem têm de estar paradas. É o contrário... Sentes-te tão mais leve a discutir a andar. Só o acto de falar e pensar a andar... As coisas fluem muito melhor.

sábado, julho 05, 2008

Bio-psico-social

Cinco pessoas falavam. Iam percorrendo vários assuntos. Uma rapariga doce, na casa dos vinte-e-poucos, estudante de psicologia, ia debitando os apontamentos do caderno em todas as conversas. A certa altura, a propósito de qual-a-importância-da-educação-ou-da-genética-no-aparecimento-de-um-psicopata, largou:

- Porque o homem é um ser bio-psico-social. Bio porque é biológico, psico porque é psicológico e social porque vive em sociedade.

Uau!

Kubrick

Quando leio a notícia de jovens entre os 12 e os 16 que filmava agressões a jovens e idosos, lembro-me do livro de Anthony Burgess, a obra-prima Laranja Mecânica que deu origem também ao maravilhoso filme de Kubrick. Se virmos a obra de Kubrick, vemos que ele foi um profeta. O mundo de hoje (e do futuro ainda mais) está lá todo, todinho:

- a violência gratuita, juvenil e grupal de Laranja Mecânica;

- o sexo grupal, extra-matrimonial, as festas da Alta da Sociedade de Eyes Wide Shut;

- a pedofilia de Lolita (também tirada da Literatura).


- a inteligência artificial, os robots no filme que Spilberg acabou (e estragou);

- a era espacial de 2001.

Estas tendências serão ainda muito mais kubrickianamente reais no futuro.

Diário do Narciso

Todas as pessoas do mundo, contavam aos seus amigos na intimidade as suas fraquezas, fantasmas - ele não. Ele não tinha fraquezas. Nos momentos de intimidade, contava o seu maior segredo. Sentia-se superior a todas as pessoas, tão superior que a distância era inalcançável... Onde os outros eram severos, ele era macio e condescedente; onde os outros eram orgulhosos, ele era tolerante.

O que eu procuro

Já tanto foi dito à face da Terra, já tanto foi escrito, já tanto foi pensado, vivido, criado. É cada vez mais difícil ter uma ideia nova.


Angel
Dava tudo o que sei por metade do que ignoro.


Descartes

Os segredos

F. Scott Fitzgerald escreveu que «Toda a gente suspeita que tem pelo menos uma das virtudes cardeais». Eis a minha: saber guardar um segredo.

Saber guardar é: não contar nunca a ninguém. E isso inclui o marido, a mulher, os filhos, o gato, o canário e o periquito. Mesmo que deixemos de falar com a pessoa, mesmo que essa pessoa se torne o inimigo, na altura em que nos contou o segredo, para mim é como um pacto de sangue.

Há coisas que sei, há coisas que não sei, e há os segredos. Os segredos estão numa zona da minha mente muito profunda e obscura. Ando lá soltos, não os enfrento, não os procuro, espero que eles não interfiram muito na produção de ideias da mente...


Angel

Laranja Mecânica

Funchal - Jovens agrediam idosos/crianças para mostrar na net
Grupo identificado pela PSP pode ser alvo de sanções tutelares
Funchal: adolescentes filmavam agressões e punham imagens na Internet
04.07.2008 - 21h08 Lusa
Um grupo de jovens do Funchal, entre os 12 e os 16 anos, atacava idosos e crianças, filmando as agressões com telemóveis que colocava depois em sites de partilha de vídeos, revelou hoje a PSP, que adiantou ter neutralizado o bando.

O comissário Roberto Fernandes, do comando regional PSP da Madeira, precisou que o grupo era composto por seis jovens, “todos devidamente integrados em estruturas familiares de classe média” e que os actos de “violência gratuita” eram praticados no concelho do Funchal, junto a parques públicos, zonas balneares ou recintos escolares.

O responsável explicou que “comportamentos desviantes” foram “sinalizados há cerca de três ou quatro meses”, tendo a PSP actuado criminalmente depois de “algumas queixas formalizadas pelas vítimas ou pelos encarregados de educação”.

O comissário sublinhou que os agressores escolhiam como vítimas “pessoas que não podiam oferecer resistência”, tanto entre portugueses como estrangeiros. “Este é um caso inédito em termos de gravidade na região”

O caso está agora nas mãos do Ministério Público, revelou o comissário, adiantando que os adolescentes incorrem em sanções “tutelares e educativas”, que em último caso poderão ir “até ao internamento em centros educativos”.

Num comunicado emitido antes, a PSP revelava que o grupo foi identificado esta semana, sendo suspeito de “prática de vários actos ilícitos qualificados pela lei como crime, designadamente de ofensas à integridade física, dano e difamação”.

“Os menores em causa, de forma organizada e deliberada, preparavam complexas combinações de substâncias químicas e alimentares, de forma a obterem cocktails viscosos e com forte potencial de toxicidade, utilizando seguidamente essas matérias para violentar gratuitamente as suas vítimas na via pública”.

Adianta que as vítimas eram pessoas “muito mais novas ou mais velhas” e que escolhiam “parques públicos, recintos escolares e imediações de complexos balneares” para efectuar as agressões, “provocando fortes prejuízos no vestuário e outros artigos afectados directamente pelas referidas substâncias”.

Realça que os actos eram “filmados por um ou mais membros do grupo, através dos seus telemóveis, para depois serem colocadas e difundidas na Internet, num site de fácil e grande acesso público, com o objectivo de humilhar publicamente as vítimas”.

O fascínio do Mal e o tédio do Bem

Gosto de matar, cortar o pescoço e ouvir o som do sangue a escorrer... Não há prazer maior do que ouvir este som.

(Psicopata Serial Killer cujo nome não registei...)

Foda-se, esta merda ficou-me... E quanto mais quero afastar, menos sai... (Uma espécie de fruto proibido ao contrário). Já que estas palavras maníacas me perturbam, ao menos lanço a interrogação: Como será o som?
Somos o povo europeu com os mais baixos rendimentos, com uma taxa de iliteracia alarmante, com uma faixa de desemprego que se alarga, com uma emigração que regressa aos níveis da década de 60 - e o que se lê são editorialistas sem perigo, articulistas estipendiados, gente com medo de escrever o que vê e que, em consciência, deveria denunciar.

Baptista-Bastos

sexta-feira, julho 04, 2008

Por mais que a Ciência avance, nunca nunca nunca responderá às questões essenciais (as existenciais): o que fazemos aqui?; há vida para além da morte?
A maior felicidade é a que advém do alívio. Não consigo conceber uma felicidade maior do que aquela que Ingrid Betancourt viveu ontem.
Diz o Paul Auster - e eu concordo - que se andarmos sempre com uma caneta, aumentamos gravemente a probabilidade de termos algo importante para escrever.

Sobre o trabalho - um ângulo diferente.

Dale Carnegie escreveu que ao longo da vida, o cidadão médio só toma contacto com 5% dos empregos que existem. Aconselhava ele que as pessoas procurassem emprego, entrando em empresas, perguntando por todas as funções lá, e dizendo depois: «Eu quero trabalhar aqui como x...»

Se pensarmos bem, como dizia um amigo meu, há coisas que aparecem feitas mas têm trabalhos invisíveis. Tem de haver alguém que escreva os diálogos dos filmes pornográficos e tem de haver alguém que cria o formato do novo magnum do Verão.

Pensa num emprego rebuscado agora tu...

quinta-feira, julho 03, 2008

Pessoas neutrinhas

Naturalmente, gosto de pessoas compreensivas. Há, porém, uma sub-espécie de «pessoas compreensivas» que gosta de mascarar o vácuo da sua ausência de personalidade e opiniões numa pseudo-tolerância e compreensão individuais. Que não julgam os outros não por uma maior liberalidade de espírito nem por terem uma alma magnânima, mas porque têm receio do boomerang - e a última coisa que elas querem é serem perscrutadas e apreciadas. São pessoas inodoras e incolores. Apresentam-se equidistantes de todos os pontos de vista. Ou melhor: compreendem-nos a todos, concordam com todos e não se agarram a nenhum. São tolerantes com todas as pessoas. Cuidado com as pessoas que não apresentam vestígios de hostilidade.

Usam um chapéu fundo de abas largas com a etiqueta da marca «tolerância», e nele afundam o seu próprio rosto...

Angel

Hoje ouvi:

- Eh pá, ò Angel, um gajo quando tem pessoas sob as suas ordens, não lhes podem dar tudo. Porque elas abusam. Eu dou tudo aos amigos, mas se dás tudo a quem está abaixo de ti, estás tramado. Porque se facilitas hoje és um gajo porreiro; se facilitas, hoje, amanhã e depois, és um banana - e os teus subordinados passam a confundir trabalho com bandalheira.
Era uma pessoa tão pragmática que nunca sonhara acordada.

Angel

Ribombando nos meus ouvidos

- Angel, hoje é muito difícil a qualidade aparecer em novos autores, porque o mercado editorial está soterrado de porcaria. Qualquer figura pública - seja da moda, do futebol, ou uma socialite como por aí se diz - tem direito logo a um livro! O mercado está inundado. Não encontras quase figuras públicas que não tenham livros. Não importam se não sabem escrever! Sabem que vendem e é o que importa! Mesmo aqueles do Big Brother - têm cinco minutos de fama e cagam logo um livro! É claro que depois quem quer escrever e tem qualidade - aí podem demorar anos a tentar e pode nunca se quer o conseguir porque outros, indevidamente, roubam-lhe o espaço. Não há lugar para todos, até porque em Portugal não se lê muito.


Velho Ancião

quarta-feira, julho 02, 2008

Lucidez

Marcha HeteroSexual para reivindicar o quê? Igualdade no acesso ao casamento? À adopção? À reprodução medicamente assistia? Contra os ataques heterofóbicos? Contra uma sociedade construída na base do privilégio LGBT? Para contrariar a invisibilidade hetero? Para que as crianças não aprendam desde a nascença a insultar os heteros só por o serem?

miguel vale de almeida

8002

Hoje, quando olhamos para o século XVI e lemos as encíclicas da Igreja Católica a defenderem a escravatura porque «os negros não têm alma» - horrorizamo-nos. Hoje, quando olhamos para as lei que impedia o divórcio no salazarismo e quando vemos que os partidos de direita já em democracia obstavam à autorização do divórcio com medo do que acontecesse às criancinhas que - coitadas! - iam ser discriminadas na escola; hoje quase que nos rimos...

Contudo, o socialmente aceite e consensualmente veiculado anestesia-nos - e não conseguimos inferir que também daqui a umas décadas nos acharão rídiculos. Em quê? Por exemplo, nos homossexuais, um preconceito tão estúpido como o racismo. O discurso da Ferreira Leite é paradigmático: não tenho nada contra (era suposto ter?), agora claro que o Estado não lhes pode atribuir os mesmos direitos. O argumento das crianças divorciadas que seriam fatalmente estigmatizadas é ainda hoje aplicado para evitar a adopção dos casais homossexuais!!! Outras coisas que serão rídiculas: os homens não se maquilharem, haver quotas para a imigração e divertimo-nos com touradas.

Angel-se-ainda-houver-homens...
02.07.2008 - 20h52 PÚBLICO
A associação ILGA Portugal, Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero, classificou hoje de homofóbicas as declarações de Manuela Ferreira Leite em entrevista ontem à TVI, sobre as uniões entre homossexuais e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

No que classifica de “defesa do apartheid legal no acesso ao casamento civil”, a ILGA afirma, em comunicado, que a actual líder do PSD “parece ignorar que a Lei de Uniões de Facto de 2001 - que abrange casais de pessoas do mesmo sexo - concede exactamente o mesmo estatuto fiscal a unid@s de facto e a cônjuges, pelo que as famílias constituídas por casais de pessoas do mesmo sexo já usufruem das referidas "medidas fiscais".

Em resposta a declarações de Manuela Ferreira leite, que afirmou que aceitava as relações homosexuais, mas que não podiam ter o memso estatuto legal que as uniões entre pessoas do mesmo sexo, a ILGA apela à atenção dos sociais democratas para os vários tipos de família que a sociedade já comporta.

“Admito que esteja a fazer uma discriminação porque é uma situação que não é igual. A sociedade está organizada e tem determinado tipo de privilégios, tem determinado tipo de regalias e de medidas fiscais no sentido de promover a família", disse Manuela Ferreira Leite explicando que essas medidas eram "no sentido de que a família tem por objectivo a procriação".

Para a ILGA, que, na mesma lógica, lança a questão a Ferreira Leite sobre os benefícios fiscais a atribuir a casais heterossexuais inférteis, a posição do PSD é, numa última análise, inconstitucional: “Manuela Ferreira Leite ignora sobretudo a Constituição da República Portuguesa que proíbe explicitamente a discriminação com base na orientação sexual desde 2004. Aliás, a revisão do artigo 13º (Princípio da Igualdade) fez-se com os votos favoráveis do PSD. Para proteger cidadãs lésbicas e cidadãos gay, e precisamente porque há quem pense que gays e lésbicas são ‘diferentes’, a Constituição proíbe a discriminação. Não é possível manter por isso um apartheid legal”.

A ILGA sugere ainda a todos os partidos que esclareçam qual a sua posição sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo para que, em 2009, as famílias constituídas por casais homossexuais saibam em que partido devem depositar o seu voto.

terça-feira, julho 01, 2008

A brilhante expressão

Há pessoas que são individualistas, egoístas, entrincheiradas nelas próprias - mais preocupadas com um milímetro delas do com que um quilómetro das outras. Querem é «safar-se» e julgam que os outros querem o mesmo. «Atão, não!»

Pensamos neste paradigma aplicado a uma pessoa - mas não a duas. Há, no entanto, imensos casais assim... Os franceses perceberam-no e inventaram a expressão égoisme à deux.

Angel