sábado, maio 31, 2008

Um futuro de humanos robôs limpinhos, vestidos de branco e sorridentes

Faço desporto com regularidade. Durmo religiosamente nove horas por dia. Como bastante fruta, vegetais e «comida saudável». Não como carne. Não bebo café. Bebo sumos naturais. Não reconheço, contudo, ao Estado o direito de me impor um estilo de vida saudável. Avizinha-se uma (nova) forma de totalitarismo. É sempre em nome de qualquer propósito nobre (a segurança, o combate ao terrorismo, o controlo das contas públicas) que os totalitarismos surgem.
Os sinais pululam por aí se estivermos atentos. Decretou-se uma lei anti-tabaco que obriga os proprietários dos cafés e dos restaurantes com menos de cem metros quadrados a denunciarem («chamar as autoridades administrativas ou policiais») os clientes fumadores, caso contrário incorrerão numa coima que poderá chegar aos 1000 euros. Para proteger a nossa saúde, claro está. O governo criou um projecto de lei (no qual entretanto recuou) que estabelece a proibição da aplicação de piercings, de tatuagens e de maquilhagem permanente a menores de 18 anos. Para proteger a nossa saúde, claro está. Baixou-se o IVA dos ginásios para incentivar o exercício físico – convém recordar a quem não saiba que todos os ginásios estão altamente preocupados com o bem-estar físico dos seus clientes, tão preocupados que lhes tentam quase sempre impingir um Personal Trainer. Para proteger a nossa saúde, claro está. E – não podia deixar de cá faltar – temos ainda a ASAE que qualquer dia irá determinar a espessura do creme da Bola de Berlim e a postura das costas quando nos sentamos nas cadeiras dos cinemas.
O fundamentalismo irá mais longe e estender-se-á à alimentação, à obesidade, à postural corporal e quiçá (digo «quiçá» porque a cultura do álcool é difícil de desenraizar) ao alcoolismo. Já há sinais de um futuro bacteriologicamente asséptico. Há poucos meses, no dealbar da atmosfera anti-tabagista trazida pela nova lei, chegou-se ao cúmulo de discutir nos órgãos de comunicação social se os fumadores deveriam ficar para trás nas listas de esperas dos hospitais quando as doenças fossem imputadas à sua opção voluntária de fumar! O que é que isto quer dizer? Que, no fundo, mereciam (o verbo é mesmo este) as suas doenças.
Coroando toda esta parafernália de leis, temos um primeiro-ministro que se exibe perante o país a correr e que nos garante – qual menino traquinas jurando não repetir o disparate – que vai deixar de fumar, exemplificando esse paradigma de saúde radiante que todos devemos perseguir.
Dir-me-ão que para um não-fumador, o fumo do tabaco é incomodativo e que há fumadores desrespeitadores. Seguramente que sim. Sendo difícil mensurar o que é mais penoso – se um fumador não poder fumar ou se um não-fumador «levar com o fumo na cara» – pensemos num exemplo em que há conflito entre ambos os interesses. Quando antes se fumava nos aviões, alguém se recorda de não-fumadores que não viajassem por causa do tabaco? Quem nunca ouviu falar, depois da proibição do fumo nos aviões, de fumadores que deixaram de – ou que evitaram – andar de avião?
É sintomático de um individualismo malsão que tantos cidadãos se mostrem intransigentes em não abdicar do mínimo da sua liberdade individual em prol da liberdade do outro.
Isto é tanto mais incongruente quanto o facto de que vivemos numa sociedade que tem a propriedade privada e a liberdade de comércio como valores sacrossantos. Podem abusar de tudo, mas na questão do tabaco… cuidado! Aí, o Estado mete a pata. Nem a quebra de receitas nos bares e restaurantes (nalguns casos de 70%) consegue abalar o seu vigor anti-tabagista. Se só uma clara minoria dos restaurantes é que tem zona de fumadores e se em Portugal há 25% de fumadores, é evidente que o mercado está distorcido – os requisitos legais para ter um espaço de restauração de fumadores ou são onerosos ou ilegíveis de tão complexos, porque os comerciantes não são estúpidos.
Há qualquer coisa de estranho no país de onde isto vem. Um país onde os desempregados alugam a pele para tatuar publicidade de marcas e onde quem acende um cigarro na rua, ergue imediatamente as sobrancelhas dos transeuntes…

Angel

Mourinho e a competitividade

Se o PSD está demonstradamente interessado em privatizar tudo, então, que se privatize o Governo, este e os que se lhe seguem. Contrata-se um bom gestor estrangeiro (como, por exemplo, o que dirige a TAP) e deixem-no à rédea solta. Pelo menos, um homem assim não engana ninguém. Está lá para ganhar dinheiro, tanto quanto for possível e, até, mais do que o possível. Sigam o exemplo do Mourinho. Há dias, na SIC, o treinador de futebol forneceu as regras do triunfo. E indicou os métodos a seguir para se obter todas as vitórias. Foi um dos mais horrorosos momentos de televisão a que me foi dado assistir. Algo de hediondo subjaz àquele tipo de comportamento. O homem não é um símbolo desencarnado: é uma egolatria, uma megalomania levada ao extremo. No fundo, talvez seja a imagem devolvida de uma sociedade cujos padrões assentam na competitividade desenfreada, não na emulação saudável e desejável.

> Mas não é este género de mundo que desejamos. Nem que José Mourinho seja tido como paradigma. A instrumentalização do “êxito”, por parte dos políticos, ou de jornalistas ignaros e preguiçosos, fundamenta um fenómeno contemporâneo, que temos de combater e de vituperar, em nome da sanidade mental. O alarido que a Imprensa, as Rádios e as Televisões estão a fazer, em torno da selecção de futebol, atinge os territórios do escândalo. A reverência acrítica, obsequiosa e sabuja coloca o jornalismo português no ponto mais baixo da sua existência. Os melhores de nós, em nome da ética, do civismo e da dignidade intelectual são chamados a ter de dizer não.


Baptista-Bastos

sexta-feira, maio 30, 2008

O reverso e o verso de acreditar em Deus

Quem acredita em Deus, deve agir como se ele estivesse sempre presente no que diz respeito aos seus problemas. Como diz Cristo no Evangelho de São Mateus:

Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? [...] E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé?

Mas, no que diz respeito ao próximo, deve agir como se Deus não existisse. Porque se acredita nele, acredita na Justiça de Deus e deixa de se preocupar em reparar injustiças... Deus fará tudo pelos irmãos e livrá-los-á da injustiça com o seu infinito amor e infinito poder.

Angel-acredito-mas-reflicto
Das mil e uma razões para haver 2 milhões de pobres em Portugal e para liderarmos as desigualdades na Europa, Bruto da Costa apresenta uma explicação interpretativa muito interessante.


Em Portugal, há a ideia de que são pobres os ociosos e de que não trabalha quem não quer. Isso - alega - é o maior inimigo à aplicação de políticas de transferência de rendimentos para os mais desfavorecidos.

Fome

Ouvi uma criança dizer:

- Porque que é que estas pessoas [na televisão] não têm comida. Elas que venham para cá...

Parece tão uópico, tão infantil, mas a verdade é que se houvesse boa vontade, elas vinham para cá. Sim, há alimentos suficientes para alimentar dez vezes o número de habitantes total do planeta.

Claro que no mundo ocidental se viveria pior. Claro. Muito pior. Mas deixariam de morrer à fome.

Era possível: ou inundar todos os dias aqueles de comida ou ir buscar todos os que passavam fome e trazê-los para a Europa e EUA.

É possível acabar com a fome.

Angel

quinta-feira, maio 29, 2008

Pensamentos às 16.12

Ao início, nós não conhecemos as pessoas - nós conhecemos aquilo que as pessoas querem que nós pensemos que são.


Angel

quarta-feira, maio 28, 2008

O mundo através dos autocarros

No autocarro (22), ouvi duas senhoras nos setentas-e muitos-oitentas a discutir, após uma, arfando afogueada, ter pedido para se sentar...

- Queres-te sentar, mas tu não estás doente.

- Que ordinária. Venho do médico e ataviou-me de imensos comprimidos para a ciática.

- Pois, para te andares aqui a esfregar - apontava lá para fora -, a roçares-te nos homens a dançar a ver se algum te pega... para isso tens saúde!

- Tu também lá andas.


O autocarro parou e as senhoras saíram juntas na Encarnação. Parece que é lá que se passam estes bailes de luxúria geruntófila. A registar, para os seus apaniguados.


Angel

terça-feira, maio 27, 2008

Recortes do Real II

- A única razão que me faz estar viva é destruir-te.

Recortes do Real

- Angel, quando saio à noite e vejo pessoas mais bonitas do que eu, fico triste, fico incomodada naquele espaço. Sabes aqueles dias em que sais à rua e não te sentes bem com a tua cara, com o teu penteado ou a tua roupa? Há dias em que me sinto tão sexy e outros em que não me sinto nada de especial...

Sinais de que o mundo está louco

Scolari elogia estrela: «Ronaldo é o melhor do mundo até como pessoa.»

Diário do Narciso

Começou a perceber que tinha uma especial apetência para conquistar desde novo. A certa altura, percebeu que conseguia conquistar quase metade das mulheres que pretendia. Depois, mais velho, viu que mais de metade das mulheres lhe caíam aos pés quando montava a sua rede. Foi-se apurando, destilando a quinta-essência do charme, e quase todas as mulheres tombavam. Foi depurando o extracto desse néctar divino, e desejou que todas as mulheres se lhe sucumbissem. Assim aconteceu. Então desejou ser, no historial das mulheres que o almejavam ardentemente, o homem mais importante das suas vidas. Depois isso pareceu-lhe pouco - queria que a sua importância fosse tão grande que excluísse a reminiscência de qualquer vaga e remota marca de outro, por mínima que fosse.


Angel
Se nos pedirem para agrupar as características de honestidade, simpatia, segurança, auto-estima e inveja em grupos de defeitos e virtudes, poremos as quatro primeiras nas virtudes e a última nos defeitos.

Contudo, a segurança e auto-estima são atributos que nos fazem admirar as pessoas, mas não necessariamente gostar delas. Gostar das pessoas é desejarem-lhe o bem-estar. Cada vez mais constato que as pessoas que expõem as suas inseguranças e fraquezas, geram mais simpatia.

O português não suporta a arrogância. Ser humilde, não-ser-muito-bom-em-nada, gera mais simpatia do que aparentar-segurança-e-auto-estima. Não há meio termo: segurança e auto-estima é sempre sinónimo de altivez em Portugal.

Parece que para gostarmos de alguém, temos de sentir que ele é humano, mortal, parece que temos de nos assegurar de que tem defeitos. Que não é, no fundo, melhor do que nós.

Angel

Coisas do HI5 ou o homicídio e sodomização da Língua

“sou como sou,,, e irei o ser para sempre

nos somos o que somos,,
nao o k os outros querem que nos seijamos,,,,,
dai o castigo que tomamos e dizemos que nao mereseamos,,
MERESES SIM....
nao tas a ser to,,,,,

perdes mais k ganhas,,,,
en pensares que sou otario,,,,,
nunca o vou pensare de ti....

mesmo mostrando que es falso
acredito numa outra vida,,,
assim como acredito numa outra opurtunidade
como o vento tras,,e leva,,
como o sol fas naxer e o fas morrer,,
es como eu ,,,
uma gota nu osiano,,
revoltado ou saturado,,,
acredita nos teus amigos,,,
que tas a ter..
mas nao tas a ver...
NAO VIVES,, E NAO DEIXAS VIVER
deixa te dese mau perder,
e vive o que tens de viver,,,
surri,,,fas surir,,,fas alguem felis,,,
mesmo que nao gostes....
nao seijas invejoso,,,
orgulhoso ,,SIM
tamem o sou....
sonha o k nao tens....
agora nao castigues quem tem,,,
quem sabe viver

nao acreditas em ti ?????
nunca poderas acreditar em ninguem

o meu mor nao ten limites,,
amo o meu pai os meus filhos,
a minha mae,,os meus irmaos,,,,
OS MEU AMIGOS,,,

so por uma coiza,,,
sao os verdadeiros,,,,

NUNCA TOU ONDE NAO ME SINTO BEM,,,,

mesmo que nao me intendas...

DEUS INTENDE “

segunda-feira, maio 26, 2008

Sim, caminha um passo, hoje, e amanhã e sempre para desatares os maus hábitos.

Cada pessoa cultiva o estilo que lhe é mais favorável, mas quando a máscara, o invólucro, está nas antípodas do rosto, da essência - então temos um logro.

Nunca entendi por que razão há homens que cortejam as mulheres fingindo algo que não são (mas gostariam de ser?).

Dou por mim a ver e ouvir pessoas (que conheço) projectarem uma imagem que nada tem que ver com elas. Eu compreendo que um dos motivos dos jogadores da conquista ou da sedução (conceitos bem bem diferentes!!) seja um bilhete de avião para o ego ir a uma ilha paradisíaca. Compreendo-o.

Mas como pode alguém satisfazer-se por outrem gostar de alguém que ele não é?

Uma coisa é projectar uma luz, que outro, qual espelho, nos devolve, mostrando quão bela é. Outra coisa é usar um holofote que não é nosso.

Angel-por-entre-as-miríades-de-luzes-iridescentes-e-miríficas..........

Um dos mais bonitos momentos da Literatura

Lágrimas generosas encheram os olhos de Gabriel. Nunca sentira aquilo por nenhuma mulher, mas sabia que era amor. As lágrimas vieram-lhe em maior quantidade e, naquela escuridão completa, imaginou ver a sombra de um jovem, de pé, de baixo de uma árvore. Outras sombras se aproximavam. A sua alma chegara àquela região onde habitam os vários hóspedes da morte. Tinha consciência deles, mas não compreendia a sua existência vacilante. A própria identidade estava a sumir-se num mundo impalpável; o sólido mundo onde aqueles mortos tinham vivido estava a dissolver-se e a desvanecer-se.
Umas leves pancadas fizeram-no voltar-se para a janela. Recomeçara a nevar. Observou a queda oblíqua dos flocos contra o candeeiro. Chegara a hora de empreender a sua viagem para oeste. Sim, os jornais tinham razão: a neve era geral em toda a Irlanda... Caía em toda a parte, na planície central e escura, nos montes, no Bog of Allen e longe, para o lado do oeste, caía docemente nas ondas escuras do Shannon. Também caía em toda a parte, no velho cemitério, lá onde fora enterrado Michael Furey. Batia com força nas velhas cruzes e nos túmulos, no portão da entrada e nos estéreis espinheiros. A sua alma desmaiava vagarosamente, enquanto escutava a neve tombando com suavidade sobre o universo, sobre todos os vivos e os mortos.


James Joyce, The Dead

sexta-feira, maio 23, 2008

Portugal

O fosso entre ricos e pobres em Portugal é o maior da União Europeia. Em comparação com os 25 parceiros europeus, Portugal regista a maior desigualdade de rendimentos.

De acordo com o último relatório sobre a situação social, elaborado por Bruxelas, a situação portuguesa ultrapassa mesmo a realidade dos EUA, da Polónia, da Lituânia e da Letónia quanto a níveis de desigualdade. O documento revela que Portugal tem 4% do total dos pobres da União Europeia.

Quem está em maior risco de pobreza pode estar empregado ou desempregado, vive só e tem um ou mais filhos. Os cidadãos com mais de 65 anos incluem-se também na faixa dos potenciais ou já verdadeiros pobres. O relatório foi elaborado ano passado tendo em conta dados recolhidos em 2004 e nos anos seguintes.

in Tvi

quinta-feira, maio 22, 2008

THE ONLY ONE

oh eu adoro oh eu adoro oh eu adoro
o que fazes à minha cabeça
quando me levas para cima
e me empurras para a cama
oh eu adoro o que tu fazes à minha cabeça
está uma grande bagunça lá
oh eu adoro oh eu adoro oh eu adoro
o que fazes ao meu coração
quando me empurras de novo para baixo
e depois me afastas
oh eu adoro o que fazes ao meu coração
é o melhor oh sim!

oh eu adoro oh eu adoro oh eu adoro
o que fazes aos meus lábios
quando me sorves por dentro
e me sopras um beijo
oh eu adoro o que fazes aos meus lábios
é tudo tão doce ali
oh eu adoro oh eu adoro oh eu adoro
o que fazes aos meus quadris
quando me sopras de fora
e depois me sorves desta maneira
oh eu adoro o que fazes aos meus quadris
é o ritmo oh sim!

tu és a única pessoa por quem choro
a única que tento agradar
a única por quem suspiro
a única que morria por apertar

e torna-se melhor cada dia
eu brinco contigo
é cá um grito
sim torna-se transcendente cada dia
eu digo que contigo
é tão no extremo
sim torna-se mais fresco cada dia que fico contigo
é como um sonho

Oh eu adoro oh eu adoro oh eu adoro
o que fazes à minha pele
quando escorregas
e deslizas para mim
Oh eu adoro o que fazes à minha pele
Está a corar ali
Oh eu adoro oh eu adoro oh eu adoro
o que fazes aos meus ossos
quando me fazes deslizar para fora
e escorregar para casa
Oh eu adoro o que fazes aos meus ossos
é a paixão oh sim!

tu és a única pessoa por quem choro
a única que tento agradar
a única por quem suspiro
a única que morria por apertar

torna-se mais nebuloso cada dia eu inclino-me para ti
é cá um grito
sim torna-se mais labiríntico cada dia eu brinco contigo
é tão no extremo
sim torna-se mais maluco cada dia
contigo é como um sonho

oh eu adoro eu adoro eu adoro
o que me fazes a mim


The Cure, tradução angel

quarta-feira, maio 21, 2008

Saltei a última barreira que me eliminava de ser um straight edge: fumar.


Angel-straight-edge

segunda-feira, maio 19, 2008

Change of Mind

Sempre me causou imensa confusão, ver mulheres de cara tapada. Sempre fui contra, porque para mim os direitos das mulheres serem iguais aos homens é algo que devem reclamar a universalidade. E não se podem tolerar culturas que tratem a mulher (ou o preto ou o homossexual) como um ser inferior. Está escrito desde 1948...

Entretanto, li uma poetisa malaia e fez-me pensar. Não estamos habituados a que escutar estas culturas muito diferentes da cultura ocidental, e dois poemas bateram-me forte, bem forte:


O Véu Que Sou Eu

O véu que sou eu
É também o meu corpo a minha mente

Nunca imaginei a extensão do meu cabelo
Ou perguntei qual a sua cor
Desvela-o, diz o vento
Mostra a tua poesia

Mas a poesia nunca deve ser escrita para o vento (...)


O Véu, O Meu Corpo


(...)O véu define a minha identidade cultural
O véu é quem eu sou

Os teus insultos e instruções
Para que eu o tire da minha cabeça
É como uma violação do meu corpo
Uma invasão da minha terra

Nor Faridah Abdul Manaf, The Art of Naming

A cultura da irrelevância

Este título podia continuar por todas as páginas do Público. Se o Público fosse feito como um "noticiário" televisivo, o que felizmente não é, todas as suas páginas seriam variantes disto, com mais de mil futebóis e mais crimes, doenças e acidentes. Na página 15, haveria uma pequena coluna com os números trágicos da nossa economia; na página 24, uma faixa minúscula, como a publicidade mais barata, num fundo de página, diria que morreram na China 50.000 pessoas num terramoto; na página 40, perdida numa notícia de página inteira de um treino do Vitória de Guimarães, completa com fotos e uma entrevista exclusiva com o treinador sobre como a equipa está "entrosada", e se não houver "as pressões vindas do sistema", ganhará um jogo qualquer com "tranquilidade" (esta parece-me que é de outro, mas não tem importância), uma declaração do Presidente da República sobre o Kosovo, onde temos soldados nossos.

Em todas as páginas do jornal haveria uma mensagem subliminar: pedimos desculpa ao leitor por ter perdido vinte e cinco linhas do nosso precioso espaço, para falar de umas minudências que não dão audiências, rima e é verdade, como a economia, o preço dos passes sociais, as calamidades nos países exóticos, as malfeitorias do Governo, quando não são engraçadas ou não parecem vindas do sítio dos Fumadores Anónimos. O sítio do noticiário político são os programas de humor, o sítio de "sociedade" são os programas da manhã e os do jet set, o sítio da economia é o Preço Certo. Voltemos pois ao directo da conferência de imprensa do director de futebol do clube, que nos vai anunciar o "plantel" para o jogo de sábado.

Eu sei que já escrevi sobre isto, a mais quixotesca das minhas actividades, ainda pior do que a do PSD, mas isto é mais grave do que se pensa. É um sinal de descontrolo cívico, de atraso político e social, de retrocesso da nossa democracia e da nossa vida pública. Não é só na economia que estamos a andar par atrás, é na cabeça. A cultura da irrelevância está a crescer exponencialmente e todos já esperam que o mesmo aconteça nos próximos meses, em que mais uma vez o país vai parar porque há um Campeonato.

Na última semana, que é igual às últimas semanas, aos últimos meses, aos últimos anos, todos os telejornais em directo foram interrompidos, eu diria mais, foram enchidos, com sucessivas e extensas declarações em directo, sobre as decisões do Conselho Disciplinar da Liga com sanções sobre clubes e dirigentes desportivos, pelo seleccionador nacional anunciando o "plantel", pelo novel director de futebol do Benfica anunciando-se e anunciando umas medidas para o seu clube. A isto acrescenta-se o número de vezes em que quer o "serviço público", quer as privadas dão jogos em horário nobre, atirando as notícias para algures, como se em particular o "serviço público" não tivesse aí obrigações. A RTP é a televisão que mais falta a essas mesmas obrigações, que justificam a superioridade moral do "público" e que, pelos vistos, só serve para receber os muitos milhões que os contribuintes pagam. Mas não é só as vezes em que directos do futebol são o telejornal, é que durante três, quatro dias não nos conseguimos ver livres daquilo. Até aparecer outro directo mais saboroso, temos que assistir a "noticiários" que repetem ad nauseam as mesmas imagens, as mesmas declarações, seguidas por milhões de palavras "escalpelizando" os "factos", em tudo o que é programa de actualidade pela noite fora. O circo está montado na nossa cabeça e nele fazemos o papel do urso amestrado ou dos macaquinhos. Nem sequer o do palhaço pobre.





O mundo agressivo e brutal do futebol, com a sua pedagogia de grosseria e violência, ordinário e vulgar, movimentando poderosos interesses políticos, nacionais, autárquicos e regionais, servindo uma economia paralela, que para nosso mal ainda é a única que funciona em muitos sítios, imerso em corrupção, não aflige nem preocupa ninguém. A começar pelos nossos deputados, que dão a caução institucional da Assembleia da República a um dirigente desportivo acabado de sancionar por "corrupção tentada" e que saía de uma acareação num tribunal. Políticos e dirigentes desportivos ajudam-se mutuamente para impulsionar carreiras políticas populistas que o mundo do futebol protege e apoia, e parecem a única coisa que verdadeiramente mexe em Portugal, junto com os negócios da "alta". Ainda um punhado de inocentes pensava que isso era uma pecha do salazarismo, quando meia dúzia de palavras e imagens de cinco minutos, no fim dos telejornais, passavam por ser um excesso e onde um filme como O Leão da Estrela se limita a descarregar sobre o tampo de uma mesa aquilo que hoje obriga a operações paramilitares de contenção de turbas violentas. Não, não andamos para a frente, andamos para trás, para o país chamado Futebolândia, para a futebolização plena da nossa vida pública.

Mas não é só o futebol, é tudo o resto. É o mundo das telenovelas, com o seu sangue, suor e lágrimas, transformado em "casos", o caso Maddie, uma coisa abstracta e virtual, sem corpo real, já sem a violência do crime, já transformado numa soap opera de plástico, o caso Esmeralda, uma competição absurda à volta de uma menina imaterial, tão abstracta e morta na virtualidade como a "pequena Maddie", onde todos os dias uma inovação aparecida depois do caso Casa Pia, os "pedopsiquiatras", divulga relatórios que deviam ser confidenciais em tempo real, para movimentar as celebridades que vão beijar o sargento e demonizar o pobre pai que só é "biológico", com a justiça a claudicar perante a pressão dos tablóides em que se transformou muito daquilo que conhecíamos como "comunicação social".

E depois o estendal dos acidentes e doenças. Os acidentes são hoje a única coisa que mobiliza directores de informação, pressionados pelo controlo de custos, a atirar a correr para Freixo de Espada à Cinta o "carro de exteriores" à compita com outros "carros de exteriores", para mostrarem camião virado ou, melhor ainda, um autocarro, ou, se andarem depressa, um ferido a ser desencarcerado, ou um morto na berma. E então se houver crianças feridas ou mortas, melhor ainda para as audiências.

Depois há um stock de "notícias" para os intervalos do futebol, as reportagens sobre doenças, de preferência raras, de preferência com "casos humanos" apensos, de preferência com imagens fortes como a de um buraco feito por uma broca na cabeça, tudo interessantes matérias para prender o olho dos ouvintes no meio do jantar. Médicos, assistentes sociais, pedopsiquiatras ou pedopsicólogos, ex-polícias da Judiciária, são profissões com garantia de sucesso televisivo, como também astróloga, hortelão urbano, bruxa e ervanário popular explicando como a sua erva é mais eficaz do que o pau de Cabinda.

A cultura da irrelevância está impante como nunca, espectáculo e pathos brilham no sítio que anteriormente ainda era frequentado, de vez em quando, pela razão, pelo bom senso, pela virtude. Esta é, obviamente, a melhor comunicação social, a melhor televisão para os governos, e o actual cuida bem que não lhe falte dinheiro para as suas quinhentas horas de futebol. Compreende-se: a bola não pensa, é para ser chutada.

Pacheco Pereira

sábado, maio 17, 2008

Estranhamento do mundo

Quando a nossa casa se incendeia, por mais importante que seja a tarefa que tenhamos entre mãos, corremos para apagar o fogo.

Quando alguém está a morrer, a prioridade de chamar uma ambulância sobrepões-se a tudo o resto.

Este olhar simples sobre as coisas revela que o mundo perdeu a lucidez. Porque continuamos obcecados em crescer 1% mais do que a média europeia, quando ao nosso lado morrem de fome.

Como é possível termos 840 milhões de pessoas que passam fome? Que morrem de fome.

Ontem estive seis horas sem comer e senti-me mal, com o estomâgo contraído, uma sensação de fraqueza, desesperado por comida. Imaginar o dobro daquilo excede o meu entendimento, imaginar o triplo daquilo, imaginar... foda-se, como é possível permitirmos a atroz sensação de morrer de fome.

Devíamos andar todos cabisbaixos, todos os que vivemos em país nutridos e «desenvolvidos».

Deixamo-los morrer lá, mas longe, porque cá ele só trazem problemas, e então barramos-lhe a entrada nossos países. Só entram. Os outros que se fodam. Que mundo é este que condena que teve o azar de nascer no meio da fome e doença, a lá ficar - porque é esse o seu país!!! E nós cá, somos outro! E não venham para cá polui-lo!

Puta que nos pariu a todos.

sexta-feira, maio 16, 2008

No osso

Cada vez mais nos afastamos uns dos outros. Trespassamo-nos sem nos ver. Caminhamos
nas ruas com a apática indiferença de sequer sabermos quem somos. Nem interessados
estamos em o saber. Os dias deixaram de ser a aventura do imprevisto e a magia do
improviso para se transformarem na amarga rotina do viver português e do existir em
Portugal.



Deixámos cair a cultura da revolta. Não falamos de nós. Enredamo-nos na futilidade
das coisas inúteis, como se fossem o atordoamento ou o sedativo das nossas dores. E
as nossas dores não são, apenas, d'alma: são, também, dores físicas.



Lemos os jornais e não acreditamos. Lemos, é como quem diz - os que lêem. As
televisões são a vergonha do pensamento. Os comentadores tocam pela mesma pauta e
sopram a mesma música. Há longos anos que a análise dos nossos problemas está
entregue a pessoas que não suscitam inquietação em quem os ouve. Uma anestesia geral
parece ter sido adicionada ao corpo da nação.



Um amigo meu, professor em Lille, envia-me um email. Há muitos anos, deixou
Portugal. Esteve, agora, por aqui. Lança-me um apelo veemente e dorido: "Que se
passa com a nossa terra? Parece um país morto. A garra portuguesa foi aparada ou
cortada por uma clique, espalhada por todos os sectores da vida nacional e que de
tudo tomou conta. Indignem-se em massa, como dizia o Soares."



Nunca é de mais repetir o drama que se abateu sobre a maioria. Enquanto dois milhões
de miúdos vivem na miséria, os bancos obtiveram lucros de 7,9 milhões por dia. Há
qualquer coisa de podre e de inquietantemente injusto nestes números. Dir-se-á que
não há relação de causa e efeito. Há, claro que há. Qualquer economista sério
encontrará associações entre os abismos da pobreza e da fome e os cumes ostensivos
das riquezas adquiridas muitas vezes não se sabe como.



Prepara-se (preparam os "socialistas modernos" de Sócrates) a privatização de quase
tudo, especialmente da saúde, o mais rendível. E o primeiro-ministro, naquela
despudorada "entrevista" à SIC, declama que está a defender o SNS! O desemprego
atinge picos elevadíssimos. Sócrates diz exactamente o contrário. A mentira
constitui, hoje, um desporto particularmente requintado. É impossível ver qualquer
membro deste Governo sem ser assaltado por uma repugnância visceral. O carácter
desta gente é inexistente. Nenhum deles vai aos jornais, às Televisões e às Rádios
falar verdade, contar a evidência. E a evidência é a fome, a miséria, a tristeza do
nosso amargo viver; os nossos velhos a morrer nos jardins, com reformas que não
chegam para comer quanto mais para adquirir remédios; os nossos jovens a tentar a
sorte no estrangeiro, ou a desafiar a morte nas drogas; a iliteracia, a ignorância,
o túnel negro sem fim.



Diz-se que, nas próximas eleições, este agrupamento voltará a ganhar. Diz-se que a
alternativa é pior. Diz-se que estamos desgraçados. Diz um general que recebe
pressões constantes para encabeçar um movimento de indignação. Diz-se que, um dia
destes, rebenta uma explosão social com imprevisíveis consequências. Diz a SEDES,
com alguns anos de atraso, como, aliás, é seu timbre, que a crise é muito má.
Diz-se, diz-se.



Bem gostaríamos de saber o que dizem Mário Soares, António Arnaut, Manuel Alegre,
Ana Gomes, Ferro Rodrigues (não sei quem mais, porque socialistas, socialistas,
poucos há) acerca deste descalabro. Não é só dizer: é fazer, é agir. O facto,
meramente circunstancial, de este PS ter conquistado a maioria absoluta não legitima
as atrocidades governamentais, que sobem em escalada. O paliativo da substituição do
sinistro Correia de Campos pela dr.ª Ana Jorge não passa de isso mesmo: paliativo.
Apenas para toldar os olhos de quem ainda deseja ver, porque há outros que não vêem
porque não querem.



A aceitação acrítica das decisões governamentais está coligada com a cumplicidade.
Quando Vieira da Silva expõe um ar compungido, perante os relatórios internacionais
sobre a miséria portuguesa, alguém lhe devia dizer para ter vergonha. Não se resolve
este magno problema com a distribuição de umas migalhas, que possuem sempre o
aspecto da caridadezinha fascista. Um socialista a sério jamais procedia daquele
modo. E há soluções adequadas. O acréscimo do desemprego está na base deste atroz
retrocesso.



Vivemos num país que já nada tem a ver com o País de Abril. Aliás, penso,
seriamente, que pouco tem a ver com a democracia. O quero, posso e mando de José
Sócrates, o estilo hirto e autoritário, moldado em Cavaco, significa que nem tudo
foi extirpado do que de pior existe nos políticos portugueses. Há um ranço
salazarista nesta gente. E, com a passagem dos dias, cada vez mais se me acentua a
ideia de que a saída só reside na cultura da revolta.


Baptista-Bastos

«Um Deus que inventa o Inferno não é digno do nosso respeito»

Ontem, na rádio VIDA FM, ouvi:

«Quem não tem Deus na sua vida, vai para o Inferno. Aqueles que não abraçam Deus e Cristo na sua vida, coitado, está condenado. Vai para o Inferno, que é um sítio, que é descrito na parábola de Lázaro e do rico, que, é um local de fome e de sede, um local onde ardemos para sempre, e que excede o nosso entendimento do sofrimento que se lá passa. Nem conseguimos imaginar, porque nunca vimos nada assim. Deus nada pode fazer, porque Deus criou o Inferno para isolar o Diabo. Deus ganhou ao Diabo porque lhe arranhou essa prisão, Deus venceu o Diabo e mandou-o para lá. Mas, claro, o Diabo graças à sua astúcia ainda consegue enganar muita gente, que é seduzida pelas máscaras do Mal, e coitados vão ter de ir para lá, para fazerem companhia ao Diabo.»


Sem comentários.

Ainda sobre os monstros fritzlianos

se uma pessoa não tem o livre arbítrio, significa que não pode escolher
se não pode escolher, não tem a OPORTUNIDADE para praticar o Bem
se não tem a oportunidade para praticar o Bem, não tem a culpa
porque a culpa nasce da faculdade de escolha


Angel-quem-alega-que-é-preciso-haver-penas-perpétuas-sem-querer-ao-dizer-que-há-pessoas-
-empedernidamente-más-desculpabilizam-nos

Vasco Pessimista Valente

O Vasco Pulido Valente, com 1001 defeitos, tem uma característica única na escrita: consegue com duas ou três palavras assassinar alguém, descreve algo para o qual outros emprestam milhões de palavras sem o mesmo sucesso.

A propósito do racismo só escreve:

«A raça (conceito vazio)»


É a melhor forma de combater o racismo. Ele nem é possível. Porque as diferenças no ADN são tão minúsculos que só podemos falar em etnias; a raça essa é só uma: a humana.
Um amigo meu teve um ano fora e quando voltou disse:

- Estão rigorosamente na mesma. Parece que estive um fim-de-semana fora.

Será do país?

O que há de errado na sociedade? Que epidemia é esta?

Impressiona-me o número de pessoas que conheço entre os 20 e os 40 com depressões.
É uma pessoa não-se-passa-nada.
É uma pessoa inadjectivável.

quinta-feira, maio 15, 2008

Hoje ouvi algo que me impressionou, com uma imagem duradouramente gravada na minha mente. Nos EUA encontraram um homem que estava morto em frente a uma televisão ligada há 3 anos! Só pelo cheiro que emanava para as imediações o puderam descobrir. Nem família, se a tinha, deu pela sua falta, nem amigos, nem inimigos, nem colegas de trabalho, nem vizinhos - nada!

Na Austrália, deu-se um caso igual, também em frente à televisão ligada! Mas «só» durou ano e meio. Também pelo cheiro lá foram.

Como é possível tanta solidão?

quarta-feira, maio 14, 2008

Do filme 88 minutos

- Qual a diferença entre sanidade mental e loucura? O livre-arbítrio.


Al Pacino no papel de um psicólogo forense.



Será que os monstros têm a oportunidade de o não ser? O exercício da liberdade fora do que fizeram até então?

Se responderem sim, não poderão epitetá-los de monstros. Uma tautologia inescapável...

Angel
A melhor definição de cultura foi-me dada por José António Saraiva: cultura é todo o que conhecimento que não é técnico.

Saber montar uma torneira ou analisar o motor de um carro não é, portanto, cultura.
A esta hora, as árvores lá fora, aguardam que todos se deitem, para começarem os seus diálogos eloquentes de silêncio. Falam, falam, falam...


Angel

terça-feira, maio 13, 2008

Intemporal e aespacial

muitos a repreendê-lo e poucos a emendá-lo


Camões sobre o mundo

segunda-feira, maio 12, 2008

Tinha mesmo cara de boa pessoa - Irena Sendler

Tributo a uma pessoa que deixa marcas

Katarina Stolz/Reuters

Sendler chegou a estar nomeada para o Prémio Nobel da Paz





Morreu Irena Sendler, a heroína polaca que salvou 2500 crianças do Gueto de Varsóvia
12.05.2008 - 10h26 Agências
A polaca Irena Sendler, que salvou cerca de 2500 crianças de serem encaminhadas para campos de concentração nazi, morreu hoje, aos 98 anos, informou a sua família.

Sendler foi considerada como uma das grandes heroínas da resistência polaca ao nazismo, tendo estado nomeada para o Prémio Nobel da Paz.

A filha de Irena Sendler, Janina Zgrzembska, anunciou hoje que a sua mãe morreu num hospital de Varsóvia.

Sendler organizou a saída de cerca de 2500 crianças do Gueto de Varsóvia durante a violenta ocupação alemã, na Segunda Guerra Mundial. Ela - que trabalhava como assistente social - e a sua equipa de 20 colaboradores salvaram as crianças entre Outubro de 1940 e Abril de 1943, quando os nazis deitaram fogo ao Gueto, matando os seus ocupantes ou mandando-os para os campos de concentração.

Durante dois anos e meio, Irena Sendler conseguiu ludibriar os nazis e fazer sair do Gueto adolescentes, crianças e bebés - muitos deles disfarçados sob a forma de pacotes - e enviá-los para o seio de famílias católicas, para orfanatos, conventos ou fábricas.

Em Varsóvia viviam 400 mil dos 3,5 milhões de judeus que habitavam a Polónia.

"Fui educada na ideia de que é preciso salvar qualquer pessoa [que se afoga], sem ter em conta a sua religião ou notoriedade", dizia Irena Sendler.

Nascida a 15 de Fevereiro de 1910, a figura de Irena Sendler permaneceu relativamente desconhecida na Polónia, à imagem de Oskar Schindler, que morreu na pobreza, mas que viria a ser imortalizado no cinema pelo realizador Steven Spielberg na película "A Lista de Schindler".

Só em Março de 2007 a polaca foi homenageada de forma solene no seu país, tendo o seu nome sido proposto para o Prémio Nobel da Paz. Em 1965, porém, o memorial israelita Yad Vashem tinha já atribuído a Sendler o título de "Justo Entre as Nações", reservado aos não-judeus que salvaram judeus.

Sinais de que o mundo está louco

Pai esfaqueou rapariga por falar com soldado
Abdel-Qader Ali não tem dúvidas: o mínimo que a filha merecia era morrer. O crime da rapariga de 17 anos? Ter-se apaixonado por um dos 1500 soldados britânicos estacionados na cidade iraquiana de Baçorá. "Se eu soubesse no que ela se ia transformar, tê-la-ia matado logo que a mãe a deu à luz", garantiu este funcionário público xiita, numa entrevista ao semanário britânico The Observer.

Dois meses depois de a morte de Rand Abdel-Qader - sufocada e esfaqueada pelo pai e irmãos a 16 de Março - ter chocado o mundo, Abdel-Qader Ali continua em liberdade. Foi no jardim da sua casa que o homem de 46 anos recordou como teve "o apoio dos meus amigos que também são pais e sabem que o que ela fez é inaceitável". A própria polícia, que chegou a deter Abdel-Qader umas horas, deu-lhe razão. "Todos sabem que os crimes de honra são impossíveis de evitar", disse o iraquiano, segundo o qual "os agentes ficaram ao meu lado o tempo todo a dar-me os parabéns pelo que fizera".

Rand Abdel-Qasser terá conhecido Paul, um militar britânico de 22 anos, numa acção de caridade na cidade do Sul do Iraque, em que ambos participavam como voluntários. Como qualquer adolescente apaixonada, apressou-se a contar tudo à melhor amiga Zeinab. "Ela gostava de falar do seu cabelo louro e olhos cor de mel, da sua pele branca e da sua maneira suave de falar", recordou a rapariga de 19 anos em declarações ao Daily Mail. Para as amigas, o britânico era "muito diferente dos homens de cá, rudes e analfabetos".

Estudante de Inglês na Universidade de Baçorá, Rand tinha a vantagem de poder falar com Paul sem intermediários. E rapidamente começou a usar todos os argumentos possíveis para prolongar o seu trabalho de voluntariado, que lhe dava a oportunidade de estar com ele.

Uma paixão que podia até nem ser retribuída. De facto, Rand e Paul não se terão encontrado mais de meia dúzia de vezes e sempre em locais públicos. "Ela nunca fez nada para além de falar com ele", garantiu Zeinab. Mesmo assim, esta não se cansou de alertar a amiga para os perigos desta amizade: "Disse-lhe vezes sem conta que ela era muçulmana e que a sua família nunca aceitaria que casasse com um soldado britânico cristão." Como confidente de Rand, era Zeinab quem guardava os presentes que este lhe oferecia, como um leão em peluche para o qual diz agora ser "difícil olhar".

E foi o que aconteceu. Quando o pai de Rand soube que a filha se andava a encontrar com o militar, perdeu a cabeça. "Entrou em casa com os olhos raiados de sangue e a tremer", recordou ao The Observer a mãe da rapariga. Quando viu o marido a sufocar a filha com o pé, Leila Hussein chamou os dois filhos, de 21 e 23 anos, para ajudarem a irmã. Mas quando o pai lhes disse o motivo da agressão estes ainda o ajudaram.

Considerada "impura", Rand não teve direito a funeral e os tios cuspiram sobre o seu corpo quando este foi lançado a uma vala. Incapaz de viver sob o mesmo tecto que o homem que matou a sua filha, Leila pediu o divórcio e está, desde então, escondida para evitar a vingança do marido. "Fui espancada e fiquei com o braço partido", disse a mulher, que agora trabalha para uma organização que denuncia os crimes de honra.

Em 2007, 47 mulheres foram mortas por terem violado "a honra" da família só em Baçorá e desde Janeiro deste ano a Comissão de Segurança da cidade garante que o número já vai em 36. Segundo a ONU, pelo menos cinco mil mulheres são anualmente vítimas de crimes de honra em todo o mundo, e, apesar de a maioria decorrer em países islâmicos, estão a acontecer cada vez mais a muçulmanas que vivem no Ocidente.

Apesar da presença britânica, Baçorá é em parte controlada pelas milícias, que definem regras estritas de comportamento. São elas quem impõem os códigos de vestuário, as práticas religiosas e determinam que a prostituição e a homossexualidade são puníveis com a morte.


In Diário de Notícias

Neusa

Neusa acorda às seis e meia da manhã para apanhar o barco. Muitas vezes, acorda na escuridão. Toma banho, come qualquer coisa à pressa, e vai apanhar o autocarro para ir apanhar o barco para ir apanhar o autocarro que a deixará na faculdade. Quando acaba a faculdade, vai lavar escadas. Quando acaba, regressa a casa. À noite, vai sozinha apanhar o autocarro para apanhar o barco para apanhar o autocarro. Não tem tempos livres e durante o dia aproveita todas as pausas para estudar. Ao fim-de-semana, trabalha noutro sítio.

Cada vez que ouço alguém lamuriar-se, lembro-me do sorriso de Neusa e penso como será possível que ele sobreviva.

Conversas com Agostinho da Silva

- É conservador?
- Depende.
- Então porquê?
- Depende se está a falar da lata ou da sardinha. Eu quero conservar a sardinha, a lata não me interessa para nada. Mas a sardinha quero conservar. O problema é que há muita gente que conservar é a lata!

A beleza no desespero e na melancolia

A quem estiver numa depressão ou a quem tiver alguém próximo num estado de depressão, aconselho o livro A Fenda Aberta, que descreve, como nenhum outro, o que é o colapso, a desintegração de uma pessoa. Brutal.


«A vida, claro está, é toda um processo de demolição»

«Só depois da pancada, e não em simultâneo com ela, reparei que tinha rachado(...)Rachei como um prato velho»


«Não queria ver ninguém. (...) Já tinha tido a minha dose de pessoas»

«Reparei então que, nos últimos dois anos, o meu interesse em preservar algo - que talvez fosse ou não fosse um silêncio interior - me privara de tudo o que eu costumava amar; - e todos os actos da vida, desde a lavagem matinal dos dentes até jantar com amigos, se tinham transformado num sacríficio. Vi que já não gostava desde há muito de pessoas e coisas; e só um pretexto de simpatia, velho e pouco firme, me levava a suportá-las. Vi até que o amor pelos mais íntimos se transformara em qualquer coisa que só era tentativa de amar, que minhas relações acidentais (...) só eram o que eu me lembrava que deviam ser, tendo em atenção dias passados. Um mês bastou para outras coisas, como o ruído de um rádio, a publicidade nas revistas, o chiar dos carris, o silêncio mortal do campo, me encherem de azedume»


«A vitalidade nunca "se pega". Existe ou não existe em nós, como a saúde, os olhos castanhos, a honra ou a voz de barítono»


«Para os que estão na mó de baixo, o remédio habitual é pensarem naqueles que sofrem de verdadeira miséria ou dor física»

«um embrulho esquecido ganha às três da manhã a importância trágica de uma sentença de morte»

«na noite mais escura da alma todas as horas são, dia após dia, três da manhã»

«eu só queria calma absoluta para descobrir a razão de ter dado largas a uma atitude triste perante a tristeza, uma atitude melancólica perante a melancolia, uma atitude trágica perante a tragédia»


«E se vieres morrer de fome por baixo da minha janela, não vou perder tempo: sairei de casa para te oferecer um sorriso e a minha voz (mas nunca um aperto de mão); e por ali andarei à espera que alguém mostre a moeda necessária para telefonar à ambulância»


F. Scott Fitzgerald

Questionar as coisas que nunca são questionadas

Claro que nem todas as convenções sociais são más. Dizer bom-dia ou não cuspir no chão, por exemplo. Mas muitas há que não têm utilidade. Aceitamo-las pura e simplesmente. Assimilamo-las acriticamente.

É quando recuamos no tempo que percebemos que daqui a uns também outros nos acharão rídiculos. Basta recuar 30 anos e em Portugal o marido tinha direito a abrir a correspondência da mulher, que para ser comerciante tinha de ter uma autorização expressa do marido. Não tenho dúvidas que daqui a uns anos, por exemplo, a capa da público «70% dos portugueses considera as relações homossexuais erradas» será motivo de troça ou de estranheza - como hoje não compreendemos que outrora a Igreja Católica defendesse a escravatura porque os pretos não tinham alma.


Angel

O ovo negro cru

É nos trintas que os amigos são mais precisos. Nos quarentas, sabemos que a amizade não nos vai salvar tal como o amor não nos salvou.


F. Scott Fitzgerald

Citações

- É impossível escrever a biografia de um escritor porque um escritor é muitos.

António Lobo Antunes

domingo, maio 11, 2008

Escada de oiro da caridade judaica

Existem oito degraus no dever da caridade:
O primeiro e mais baixo degrau é dar, mas com relutância ou contra a vontade. Esta é a esmola da mão, não do coração.
O segundo é dar alegremente, mas não proporcionalmente à necessidade do sofredor.
O terceiro é dar com alegria e em proporção, mas só depois de solicitado.
O quarto é dar alegremente, em proporção e sem ser solicitado; pondo, entretanto, a esmola na mão do pobre e nele provocando, assim, a dolorosa emoção da vergonha.
O quinto é dar de maneira tal que o necessitado receba a esmola e saiba quem é o seu benfeitor, sem ser-lhe conhecido. Assim agiam alguns dos nossos antepassados, que costumavam amarrar o dinheiro nas abas trazeiras das roupas, para que os pobres o pudessem tirar sem serem vistos.
O sexto degrau, ainda mais elevado, é conhecer os beneficiários da nossa caridade, sem que eles saibam quem somos. Assim procediam aqueles dos nossos antepassados que levavam suas dádivas caridosas para as moradias dos pobres, precavendo-se para que os seus próprios nomes permanecessem ocultos.
O sétimo é ainda mais louvável, a saber: distribuir as esmolas de modo tal que nem o benfeitor saiba quem são os auxiliados, nem estes o nome do seu benfeitor. Isto faziam os nossos avós caridosos no Templo. Pois naquele santo edifício existia um lugar chamado Câmara do Silêncio ou da Inostentação, onde os bons depositavam secretamente o que seu generoso coração lhes sugeria e do qual as mais respeitáveis famílias pobres eram sustentadas, com igual discrição.
Finalmente, o oitavo e mais meritório degrau, é antecipar a caridade, evitando a pobreza, a saber: ajudar o irmão empobrecido, seja com um presente considerável, seja ensinando-lhe uma profissão ou estabelecendo-o no comércio, para que ele possa ganhar honestamente a sua vida e não seja forçado a estender a mão para a caridade.

Boas pessoas

Assim como um bom vinho deve ter determinada temperatura, aroma, paladar, cor, espessura; uma boa pessoa é passível de ser observada se:


a) for honesta ou não for honesta, isto é, se faz uma administração do que não é seu, sem procurar retirar benefícios pessoais;

b) pela lealdade aos amigos, ou seja, se está sempre presente quando o amigo passa mal, se ajuda o amigo quando solicitado e, mais ainda, se antecipa o que amigo possa precisar, se está atento à vida dele, em identificar os seus problemas, em guardar as suas confidências, em criticá-lo em privado e defendê-lo em público;

c) pelo grau de ódio às pessoas de que menos gosta. O cáracter de uma pessoa, a nobreza do espírito de uma mulher ou de um homem, vê-se pela forma como trataria os seus inimigos se estes tivesse presos numa sala onde ele seria rei e senhor.

d) pelo valor da palavra. Uma pessoa que diz faz A e que, com todas as circunstâncias inalteradas, não o faz, é uma pessoa ou instável ou perigosa. É uma pessoa em que não podemos confiar para um negócio ou um acordo de estado, ou sequer para uma amizade. Por haver pessoas assim, é que as coisas em sociedade só tem reconhecimento legal se forem passadas ao papel. Num mundo perfeito...

e) uma pessoa pode ser honesta, ser amiga do amigo, desprovido de ódio perante o inimigo (ou - se preferirem - perante quem não gosta), pode ter palavra; mas pode estar-se a borrifar para o mundo-fora-das-pessoas-por-quem-tem-afecto, ser desirmanado-dos-outros-que-lhe-não-foram-apresentados. Uma vez fiquei chocado com um amigo meu que disse que se fosse milionário, limitava-se a gastar o dinheiro em viajens e consumos hedonistas. A atitude perante quem não se conhece. O ajudar pessoas que não se conhece (o exercício da política é isso, ou o voluntariado). Há pessoas que não sentem o sofrimento quando este não se lhes entra pelos olhos adentro. E há aquelas que nem quando se lhes entra pelos olhos adentro. E depois há pessoas que - não a maioria - não conseguem estar sossegadas quando há pessoas a morrer na guerra, quando há pessoas que morrem de fomem. Essas pessoas têm uma ligação estreita com o que é que o sofrimento humano, de onde quer que ele provenha. E dentro destas, há as que sentem o fardo pesadíssimo que é mudar o mundo e se acomodam, e as que partem, desafiando a nado a corrente pesada dos lobbies, do dinheiro, da corrupção, do sexo, da droga... São os meus genuínos heróis.

Angel-curvando-se-perante-a-beleza-e-a-coragem-da-generosidade

Recortes Dourados do Real

- Quando tu saltas de pára-quedas, Angel tu percebes, ou melhor tu sentes como todos os teus problemas, inseguranças ou motivos de orgulho, são minúsculos no cômputo geral do universo. Tu és tão pequenio e o mundo é tão grande...

A acuidade da cultura - na vida (culto), na cabeça (enciclopédia)

Uma das grandes interrogações (as maiores questões são aquelas que não têm resposta) que percorre a obra de Steiner é se a cultura é um antídoto contra os males da humanidade, se a cultura aproxima o ser humano do sofrimento do seu semelhante.


Eu creio que sim. Porque a cultura alarga os horizontes, mostrando quão pequenos e insignificantes são os nossos códigos, as nossas referências, como pensamos de uma determinada maneira por estarmos circunscritos a uma educação e cultura que enformam apenas uma pequenina parte do mundo. A poesia, por exemplo, desenvolve a sensibilidade do belo (mesmo do belo nas coisas tristes e desesperadas). A literatura alarga as possibilidade de compreender a natureza humana. E desenvolver a sensibilidade, desenvolver a compreensão, é o melhor caminho para entender o ser humano.


Uma distinção bastante importante para categorizar o conhecimento foi-me dada por Pessoa. Há os eruditos que armazenam o conhecimento enciclopedicamente e há os cultos que incorporam o conhecimento como parte integrante da sua vida. No fundo, o erudito sabe muito mas não muda a sua vida pela cultura que tem. O culto, funde a acção e o conhecimento, e a sua vida reflecte aquilo que sabe.

Angel

Expressões que registo por achares peculiares

- O que achaste do filme?

- É um filme muito mais ou menos.

sábado, maio 10, 2008

2108

O Expresso tem hoje nas primeiras páginas um estudo sobre os jovens, os seus consumos e preferências. Diz que em Lisboa um entre oito jovens se afirma homossexual.

É estranho como na paisagem urbana não os vemos (ou vemos residualmente).

Diz-se por aí que já ninguém discrimina, que toda a gente aceita, mas raspando a superfície, ainda há muita homofobia.

Há um clima generalizado que ainda impede as pessoas do mesmo sexo de namorar livremente.

sexta-feira, maio 09, 2008

Letras de música que são autênticos poemas

Silver and gold and it's growing cold
Autumn leaves lay as thick as thieves
Shivers down your spine chill you to the bone
'Cos the mandolin wind is the melody that turns
Your heart to stone

The heat of your breath carving shadows on the mist
Every angel has the wish that she's never been kissed

A broken dream haunting in your sleep
And hiding in your smile a secret you must keep
Love cuts you deep

Love breaks the wings of a butterfly on a wheel
Love breaks the wings of a butterfly on a wheel

There's no scarlet in you, lay your veil down for me
As sure as God made wine, you can't wrap your arms
Around a memory
Take warmth from me, cold Autumn winds cut sharp as
a
knife
And in the dark for me, you're the candle flame that
Flickers to life

Love breaks the wings of a butterlfy on a wheel
Love will break the wings of a butterfly on a wheel

Wise men say all is fair in love and war
There's no right or wrong in the design of love
And I could only watch as the wind crushed your wings
Broken and torn crushed like the flower under the snow
And like the flower in spring
Love will rise again to heal your wings

Love heals the wings of a butterfly on a wheel
Love will heal the wings of a butterfly on a wheel

quarta-feira, maio 07, 2008

«O não-vivido constitui sempre um irresistível apelo.»

Lidia Rosenberg Aratangy, O anel que tu me deste

segunda-feira, maio 05, 2008

Nunca tive um instinto pedófilo ou de matar alguém. Nunca desejei ter relações sexuais com a minha família de sangue.

Porque digo isto?


Reflecti na questão de Fritzl. Ele, ao ter os desejos acima expressos, já tem algo diferente de mim. Eu não tenho de lutar contra desejar ardentemente praticar pedofilia, incesto e rapto. Está fora da minha esfera de possibilidades. Logo, a tentação dele é uma oportunidade para o mal (evil como dizem os ingleses)que ele teve o azar de ter e eu tive a sorte de não ter. O que decidiu que assim fosse?

(pergunta aberta)


Angel
Quem acredita que há pessoas intrinsecamente más, sem querer, é quem as legitima e defende.

Porque diz que elas, no fundo, não têm possibilidade de escolha.


ANgel
Somos todos tão parecidos.


António Lobo Antunes

Ainda a propósito de Josef Fritzl

A grande incompreensão do caso tem por origem o paradigma judaico-cristão. Porque nos vemos o mundo com noções de culpa, livre-arbítrio, arrependimento e perdão. Cristo é o profeta do perdão e do arrependimento. Disse ele que um amigo nosso pecasse e sete vezes ao dia nos viesse mostrar arrependimento, que lhe deveríamos perdoar.


O problema é que estas noções não entram neste caso. Fritzl mostra-se impassivo, sem arrependimento porque sente-que-fez-o-melhor-que-podia-ter-feito-para-proteger-a-filha que era muito mal comportada e que poderia ter caído na droga (sic!).

É difícil ver este caso com olhos judaico-cristãos, porque não há arrependimento,; não há perdão, porque nós, por mais cristão que sejamos, não conseguimos perdoar este homem.

E mais do que tudo isso, parece que há pessoas que são intrinsecamente más, o que contraria o livre-arbítrio. E não sentem remorso, são amorais, desafiam a lógica do bem e do mal, sitaundo-se fora dele.


O mundo e a natureza humana são muito complexos.

Letras de Músicas que são Poemas

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou prá descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego...


Chico Buarque

Sinais de que o mundo está louco

JOANA DE BELÉMAMIN CHAAR Um Jaguar colidiu ontem à tarde com uma composição do Metro do Porto, que descarrilou e embateu num muro da rede do metropolitano, condicionando durante várias horas a circulação da Linha Azul. Catorze pessoas ficaram feridas, três delas em estado mais grave. O acidente deu-se por volta das 18.00, junto à estação de Pedro Hispano, em Matosinhos, e, alegadamente, ter-se-á devido ao desrespeito do sinal vermelho pela condutora do veículo ligeiro. Segundo testemunhos recolhidos no local, a mulher, com cerca de 50 anos, terá ultrapassado os veículos que aguardavam autorização do semáforo, acabando por embater na composição. A condutora não sofreu ferimentos, mas onze passageiros da composição ficaram ligeiramente feridos, tendo sido transportados para o hospital Pedro Hispano, a escassos metros do local onde ocorreu o acidente. Outras três pessoas, com ferimentos mais graves, foram para o hospital de S. João, no Porto. Após ter assinado um termo de responsabilidade, a condutora desapareceu da área, onde entretanto se juntaram centenas de curiosos. O marido apareceu alguns minutos depois, para se inteirar das consequências, alegando que a mulher "não sabia que era preciso ficar" no local. O embate foi forte e, no fecho desta edição, prosseguiam as operações com uma grua para recolocar a composição na linha do metropolitano, prevendo-se que a circulação fosse retomada cerca das 22.00. Ao acidente acorreram duas corporações de bombeiros, o INEM, a Protecção Civil e a PSP.|_________________________________________________________________

domingo, maio 04, 2008

Sinais de que o mundo está louco

Futebol Internacional
Gene de Cristiano Ronaldo é um mito, diz especialista alemão
Henning Wackerhage, perito alemão em medicina desportiva, diz que «o gene de Cristiano Ronaldo não existe» e considera «absurdo» recorrer a análises genéticas para se obter um sucessor do internacional português do Manchester United.



AP
«Não há, nem vai haver um teste para se descobrir o gene de Ronaldo», frisou Wackerhage ao semanário germânico Der Spiegel, comentando assim a alegada solicitação de um clube europeu, cujo nome não revelou, para a detecção de futuras estrelas.

De acordo com o jornal, o pedido tinha como objectivo encontrar «o próximo Cristiano Ronaldo», mas o cientista lembrou que os laboratórios seguem questões de ética laboral, além dos objectivos científicos: «Seria inaceitável que um patrão analisasse geneticamente os seus empregados.»

Apesar disso, o professor na Universidade de Aberdeen, Escócia, considera que, «teoricamente», a procura genética poderá funcionar em desportos como o atletismo - provas de 100 metros, por exemplo - nas quais estão presentes menos variantes do que em relação ao futebol.

À frente no tempo III

Ao contrário de Ratzinger e da estrutura católica, o Dalai-Lama vem alertando para a urgência de desenvolver uma ética que não seja património exclusivo de uma religião (qualquer religião abrange uma minoria do mundo) e nem tão pouco seja património exclusivo dos religiosos. Quer uma ética que possa chegar a todos.

Porque é possível não acreditar em Deus, mas ter princípios e valores. Ser boa pessoa.


Angel-não-me-choca-nada-dizer-boa-pessoa

À frente no tempo II

O Dalai-Lama, portador da palavra de Buda, diz, citando o próprio Buda, que um budista não tem de tomar tudo das escrituras como válido unicamente pela credibilidade da fonte. Buda disse: «Não tomais o valor das minhas palavras por quem as profere, mas testai-as como o ourives testa se os materiais são: queimando-as, agarrando-as, amassando-as. Vede por vós a sua validade. E escolham as que vos aprouver.»

À frente no tempo

O Dalai-Lama explica que um budista não pode converter ninguém. É contrário às sagradas escrituras. Não há, por isso, missionários na história do budismo. Um budista apenas deverá falar sobre a doutrina budista, se alguém lhe colocar uma questão directamente. Então aí, responderá.

Pessoas como nós mas sem um chip

Este caso da Áustria é um história que não se pode comparar com nenhum outro crime porque tem ingredientes que excedem largamente qualquer outro vagamente parecido: em longevidade, na construção do cenário, na manipulação, no disfarce, no engenho.


Nestas alturas, vem-me sempre a questão à cabeça:

- Há pessoas amorais?, há pessoas desprovidas do chip do remorso?

A única maneira de compreender estas pessoas é pensar que elas não têm a capacidade de se identificar com a dor/sofrimento e o prazer/felicidade das outras. E quando não se sente o sofrimento do outro, abre-se um vasto campo de possibilidades...


Angel-Deus-deu-nos-a-liberdade-por-isso-o-Mal-existirá-sempre

sexta-feira, maio 02, 2008

Um dos meus maiores prazeres

Rir

Com os ouvidos

- Angel, uma amizade é uma relação. É uma relação!!! E as relações têm partilha comum, regras, respeito. Há que cultivar as relações, surpreender os parceiros da amizade, não deixar, como no amor, amizade cair no marasmo.

A pequena, subtil diferença.

Há pessoas fanáticas de esquerda como há pessoas fanáticas católicas ou pessoas fanáticas de um clube de futebol que não usam a razão para filtrar o conhecimento, cuja cegueira as faz defender o que nunca defenderiam em outra área da vida.


Conheço pessoas que defendem coisas porque lhes associam uma etiqueta «isto é de esquerda» e não porque é o que defendem ou acreditam. É um clube para eles. Um clube de superioridade moral e intelectual.


Angel-prezo-tanto-a-independência-de-espírito

Para os curistas

«Oh i love love love what you do to my head»

The cure, The only one (o novo single)


Os cure vão lançar um novo álbum de originais dia 13 de Setembro. Até lá vão lançar um novo single todos os meses a partir de dia 13 de Maio (com lado A e lado B) até às últimas músicas em Setembro que serão simultaneamente o lançamento do álbum. A simbologia não é inocente. É o 13ª álbum de originais da banda.

Precisamos do eco

A felicidade só é real quando é partilhada.


Christopher McCandless’s

Acutilante até magoar

Julgamo-nos livres porque desconhecemos as forças obscuras que nos dominam.

Espinosa

Conversa como um Arte

- Porque escreves?

- Para alcançar a perenidade. Para que depois da morte continue a actuar sobre o mundo e a humanidade, continuando a alimentar espíritos.

- E a parte material não interessa? Tipo ires para África?

- Claro que interessa. Não há nada de importante quando as necessidades básicas das pessoas não estão satisfeitas. SOS emergência da fome e o mundo não se preocupava com nada, absolutamente nada, enquanto todas as pessoas de todos os lugares do mundo deixassem de morrer à fome. Já imaginaste o que é morrer à fome?

- Eu tive uma manhã sem comer e foi horrível. Nem consigo imaginar...

- Como diz o Saramago: a fome é a suprema obscenidade.


Angel

Sociedade sem estratificações (a minha utopia)

Há pessoas que falam de cima para baixo por auto-defesa: para mascarar a sua fragilidade.

Há pessoas que falam de cima para baixo quando são investidas de poder. Conhecíamo-las e eram pessoas serenas e humildes. De repente são chefes e tornam-se despóticas, inebriadas pelo poder. Já morava um tiranete dentro delas.


Há pessoas que falam de cima para baixo porque de facto se crêem seres superiores.


Há pessoas que falam de cima para baixo para conservar uma posição de poder. Infelizmente nalguns casos será a estratégia mais eficaz. Há pessoas subalternas que se o chefe é permissivo, fazem dele um banana e não o respeitam. Existem pessoas que desrespeitam a hierarquia quando ela não é autoritária. Prestam assim um tributo ao autoritarismo e democracias musculadas.

Há pessoas que são subservientes e bajuladoras com as de cima e cruéis e mesquinhas com as de baixo. É um comportamento que desenha o carácter.


Angel-devemos-todos-falar-com-todos-de-igual-para-igual

Fragmentos do Real

Tem uma beleza sem chama.



Tem uma beleza fria.



Angel-numa-fotografia-quem-emerge-não-é-necessariamente-a-ou-o-mais-bonit@

Assimilar acriticamente

A tradição é a personalidade dos imbecis.

Cristina Fialho citando alguém...

quinta-feira, maio 01, 2008

Nada de novo entre o céu e a terra - todas as possibilidades estavam contidas lá atrás no plano real e no plano ideal todas as possibilidades existem.

Construímos as coisas a partir dos materiais que existem. Um truísmo. Os homens do Paleolítico não poderiam ser realizador de cinemas, claro está. Contudo,é sabido que na natureza nada se ganha, nem nada se perde: tudo se transforma.

O computador ou o telemóvel não vieram do nada. Vêm de uma longa cadeia de evoluções em que no início só havia campo e deserto. Desses materiais, houve evolução para o fogo, para a electricidade, para os robôs... O que significa que a possibilidade da Internet já estava contida na própria Natureza. Nenhum efeito dispensa uma causa. E na causa original estava a Natureza. Claro que era difícil prever a alguma do Neolítico que houvesse um dia telemóvel...


Na Ciência, como na Arte. Quando Ovídio, Homero fundaram a Literatura, criaram as metáforas originais. É um poder extraordinário. O fogo do amor, os olhos ardentes, a pomba da paz, o oiro da felicidade - tudo isso hoje está gasto, é banal, vulgar e corriqueiro, porque já foi repetido por milhões (sim, milhões) de poetas.

Também na Literatura somos descendentes de Homero e Ovídio. Porque quem escreve, tem de ler muito. E aprende a escrever através do que lê. Não na escola, mas pelo que leu por si. Qualquer escritor o dirá. Logo, a qualidade da escrita, ou a originalidade deriva do grau de subtileza na dissimulação das influências.


Angel-atemporal-e-aespacial

Dar, o melhor verbo

Uma vez, num curso de relações humanas, aprendemos a técnica (compreendo perfeitamente que neste contexto a palavra não soe bem) de ser simpático. Aprender a ser simpático para toda a gente. Para toda a gente implica para a porteira, para a vizinhança, para quem nos vende o pão, o jornal, que nos põe a gasolina, o motorista da carris, a pessoa do talho.

Começámos por simular uma reunião de vendas (em que éramos simpáticos com interesse próprio). Quando o instrutor contou o episódio de ter ajudado uma pessoa a descobrir uma rua e de a levar até lá, alguém perguntou.


- Mas qual aí qual foi a vantagem que obteve?

- A vantagem que obti? Ficar feliz por ter ajudado uma pessoa. Era um turista, nunca mais o irei ver. Se estás aqui com o objectivo de só ser simpático de quem queres colher benefícios, podes-te ir embora. Nunca serás feliz assim!


Angel-a-gratuitidade-no-amor-é-dos-melhores-sentimentos-que-se-podem-experienciar