domingo, abril 27, 2008

Bonito

Escrevo pela mesma razão que a pereira dá peras.

António Lobo Antunes, Revista Ler
Ontem a atravessar a passadeira, depois de o carro parar, e de eu ter acenado com a mão em gesto de agradecimento, o condutor terá achado que eu andava demasiado devagar e decidiu acelerar!!!

Fiquei incrédulo e tive de correr para não ser atropelado. Se calhar alguém com inimigos a sério, diria alguém o tentou matar. Porque realmente o que passei foi estranhíssimo. Como não tenho a mania da perseguição, acho que isto é um sinal de que as pessoas estão mais perigosas, mais agressivas, mais egoístas, mais momentâneas (o que interessa é o eu, o aqui e agora).


Se eu pensar, há 10 anos atrás não via tanta agressividade, as lutas eram feitas à pêra, hoje uma pessoa retrai-se porque quase todos os que provocam as lutas têm uma faca e uma pistola.

Um amigo meu, em plena hora de trânsito, às seis da tarde, porque fez uma manobra que outro não gostou teve uma pistola apontada à cabeça «por um gajo com muito bom aspecto».

Há qualquer coisa nestes impulsos que é profundamente preocupante.


Angel
Ontem deixou-me muito feliz ouvir dois homens casados contarem, de uma forma que me pareceu autêntica, a sua relação duradoura de casamentos de 12 e 16 anos, sem uma mácula de adultério. Gostei de ver a veemência na defesa da lealdade. E com oportunidades flagrantes(o voto de castidade não vale coisa nenhuma num impotente). Dir-me-ão que as oportunidades só surgem a quem as proporciona/alimenta; não acredito nessa premissa. Há cada vez mais agressividade sexual.


Angel-remando-contra-a-maré-sem-o-mínimo-cansaço

O conforto da casa

- Angel, quando saio do trabalho e vou para casa, a partir do momento em que estou em casa, tomo o meu banho, calço uma pantufinha, estendo-me no sofá com a televisão, um jornal... eh pá, já ninguém me tira dali.

sábado, abril 26, 2008

Vista de fora, a vida é unitária. A sucessão dos dias, a sucessão das semanas e dos anos. «Foi uma boa semana», «foi um ano muito positivo». É como se cortássemos uma fatia do bolo.

Vista de dentro, não há vida. Há uma infinidade de vidas contidas em cada vida. O mais pequeno ponto no tempo é o entrecruzar de uma miríade de vidas que ali confluem, misturadas.

Os milhões de impressões que os outros deixaram em nós, o oceano de desejos que temos, o oceano de certezas, de dúvidas.

Num segundo da nossa mente (e a vida é o que se passa lá dentro), o que vemos é o caudal de imensos filmes que desaguaram naquele instante, naquele fragmento.

Angel
O fim da noite é uma gorjeta da vida.


JAAB

Liberdade

Quem pretender ver na Liberdade algo mais do que a própria Liberdade, não nasceu para ser livre.


Onde-é-que-eu-li-isto?

sexta-feira, abril 25, 2008

Lembre-se como foi

À s vezes apetece-me agarrar em certas pessoas e levá-las numa viagem no tempo. Há filmes para isso, e até séries de TV - do Conta-me como Foi aos domingos na RTP1 à Guerra, o espantoso documento de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial que está de novo a ser transmitido pela RTP2. Mas sei que não funcionam. Nem funcionaria, sequer, uma viagem aos anos pré-1974. Se nem a memória funciona para quem os experimentou, como esperar que alguma coisa funcione? Quando oiço ou leio elogios a Salazar e ao "outro tempo" a gente que tem idade para se lembrar, fico estupefacta. Nunca deixa de me espantar que se considere que "se vivia melhor" ou "havia mais segurança". É que não é uma questão subjectiva: não me venham com questões subjectivas. Nada há mais objectivo que os indicadores do Instituto Nacional de Estatística, e a forma como nos últimos 34 anos as provas do bem-estar dos portugueses aumentaram de modo quase milagroso. A mortalidade infantil e materna, por exemplo: passámos de um índice de país do Terceiro Mundo para um dos mais honrosos da UE. A esperança de vida. A electricidade, a água canalizada, as casas de banho dentro das casas. A quantidade de jovens que conseguem aceder ao ensino superior. Quem acha que isso não tem nada a ver com a democracia e que era inevitável deve questionar- -se, por exemplo, sobre o motivo pelo qual em quase todos os países totalitários, independentemente da sua riqueza, a maioria das pessoas vive tão mal. Porque antes da democracia a esmagadora maioria dos portugueses vivia mal. Havia miséria como não há, nem por sombras, hoje. Havia pobreza como não há, nem por sombras, hoje. Há gente a viver mal hoje, idosos com reformas miseráveis. Mas antes da democracia não havia sequer reforma garantida para todos - lembram-se? E podia não haver carjacking - não havia sequer carros que chegassem para isso - mas havia tropa obrigatória, lembram-se? E minas nas picadas, e emboscadas na selva. Quantos portugueses morreram, obrigados, na guerra? Quantos voltaram deficientes? Quantos tiveram de fugir para não serem enviados para África? Quantos fugiam, "a salto", para tentar uma vida melhor no estrangeiro? Quantos morriam de medo de dizer alguma coisa errada que os levasse a serem considerados anti-regime, a perder o emprego, a serem presos? Era seguro, ser português? Era seguro, viver numa ditadura? Há, claro, sonhos que se perderam e traíram. Não somos todos felizes - mas só nos cartazes das ditaduras toda a gente sorri. Os amanhãs cantaram, mas desafinados para muitos ouvidos. Desafinam ainda, e ainda bem - porque agora depende tudo de nós, e cada voz canta diferente. Sobretudo, não me digam que "há medo de falar" nem usem a palavra "fascismo" a torto e a direito. Porque é ridículo, demasiado ridículo, mas porque, sobretudo, é um insulto a todos os que realmente souberam o que era ter medo e viver num regime totalitário, todos os que no "dia inicial, inteiro e limpo" de Sophia se sentiram, enfim, inteiramente inteiros.

Fernanda Câncio

Nem eu

Não suporto ver o sofrimento da Humanidade.

José Mário Branco

quinta-feira, abril 24, 2008

Talento

Numa conferência, ouvi o Marcelo Rebelo de Sousa (por quem não tenho particular estima dada a superficialidade das suas análises) falar da sua vivência e da sua crença em Cristo. A certa altura, falou da parábola dos talentos e disse:

- A cada um foi-nos confiado um talento. A mim é dara aulas na faculdade de direito, à minha filha ir para África ser missionária, a amigos meus é a Política, a outros a escrita. Cada um de nós tem o seu talento e a primeira coisa é descobri-lo.


Porque é uma alegria fazermos aquilo que é o nosso talento, que aniquila todas as outras coisas quando comparado com elas. Cada vez encontro mais pessoas que:

a) não fazem a mínima ideia do que querem fazer;

b) não se sentem bem a fazer o que fazem actualmente;

Como disse Bernard Shaw, há quem lute por ter aquilo que ama e quem lute por amar aquilo que tem.


Angel-a-escrita-é-o-talento-eu-sempre-quis-ser-escritor

terça-feira, abril 22, 2008

Qual é a tua zona negra?

Qual a mancha mais negra de um acto da tua vida?

Qual o pensamento mais hediondo que te ocorreu?
Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem.


Robert Musil
Ao longo dos anos, desenvolvi um contra-ataque que desarma qualquer pessoa que me diz perante algo que peço com carácter importante e premente:

- Eh pá, pois, mas não vai dar.

- Angel, não tenho tempo.

- Angel, tenho cenas para fazer.


Digo sempre:

- Se te dessem um milhão de contos conseguirias fazê-lo?

Hoje disse perante quem me dizia que era muito difícil fazer uma coisa na próxima semana:

- Se eu te dissesse que te dava um tiro na próxima hora, tu conseguias?

- Pois, claro que sim.

- Então?

- Então, vou fazê-lo.

Quem quer, inventa.

Nunca me esquecerei de quando, por estupidez e cobardia, eu disse a uma professora de Matemática que não tinha feito o TPC porque «acabei o caderno», exibindo o caderno com a última folha escrita com o sumário na última linha.


- Angel, quando se tem vontade, até numa folha de jornal se faz.

segunda-feira, abril 21, 2008

Deixou de se dar importância ao conteúdo das palavras, que passaram a ser tratadas com leviandade. Ficámos só com as cascas das palavras.


José Saramago

sexta-feira, abril 18, 2008

Ao meu amigo Calheiros

Não acredito em bons e maus, mas acredito no Bem e no Mal.

Angel

quinta-feira, abril 17, 2008

A obra em si - isso é o essencial na Arte

Um artista quando veicula interpretações da sua arte, está a declará-la insuficiente. Desconfio sempre do escritor, do realizador, do pintor, do músico que vem explicar o seu livro, o seu filme, a sua tela, a sua música. A arte deve falar por ela própria. E se a sua mensagem não é suficientemente intrínseca, ela falhou no seu propósito.

Quando o realizador ou o escritor sentem a necessidade de vir explicar o que o queria dizer - anunciou a sua falência. Pior: matou todas as infinitas interpretações da sua obra deixadas aos infinitos espectadores e leitores. Porque a sua interpretação colar-se-á fatalmente à sua obra.


Angel

terça-feira, abril 15, 2008

Envelhecer é abrandar as respostas emocionais face aos acontecimentos da vida, quer pelo entusiasmo, que pela tristeza.


Angel

segunda-feira, abril 14, 2008

Revolucionários

Se ser conservador por se ser conservador é imbecil, ser-se revolucionário por se ser, também é idiota. Nunca entendi os rebeldes sem causa, a violência pela violência, a sede de destruir sem ulteriormente mudar para melhor.

Se-foi-sempre-assim-é-preciso-mudar, não é lúcido. É de facto melhor andar sob dois pés e não gatinhar; ou dormir deitado ou ter cuidados de higiene.

Já escutei um conhecido meu, freak, okupa e anarca, defender que as pessoas não deviam nascer em hospitais porque «isso é uma normalização». Nem tudo o que é normal é mau, contrapus-lhe sem sucesso.


Angel-e-os-dois-lados-da-moeda-a-tilintar

Reaccionários

Uma vez numa empresa em que trabalhei, uma pessoa dos recursos humanos, conhecida por lixar-ao-máximo-os-trabalhadores-desrespeitando-ocasionalmente-as-próprias-leis, fez-me algo que era ilegal (consultei código do trabalho e um advogado).

Dirigi-me a essa pessoa:

- Manuela, na lei está que este documento não pode ter esta alínea que acrescentou ao contrato. É ilegal.

- Ai mas todos levaram assim.

- O argumento de que «foi sempre assim» não é inteligente se «foi o sempre assim» foi mal feito - disse isto literalmente perante ela e o director de recursos humanos.

O director abriu o código de trabalho e mandou-a tirar a alínea.

Ser conservador para conservar o melhor que já houve, e minimizar as dinâmicas negativas é enaltecedor. Ser conservador por convenção, porque foi sempre assim, é estúpido.

Ange-foi-sempre-assim-até-à-abolição-da-escravatura-logo-porque-não-acreditar-que-poderemos-continuar-sempre-a-libertar-os-homens
Há uma transferência, que não é dos últimos anos, é das últimas décadas ou eventualmente do último século e meio. É difícil precisar quando é que essas coisas começam. Mas é uma transferência da questão da bondade para a questão da competência. É evidente que para mim, neste momento, talvez seja claro e não seja muito injusto se eu disser que a maior parte das pessoas tem mais vergonha de, por exemplo, não dominar o último programa do Windows do que de mentirem. Ou seja, as questões morais começaram a diluir-se um pouco nas questões técnicas e, portanto, há claramente uma transformação de valores, onde a técnica começa a dominar. E a técnica a todos os níveis, não apenas técnica de maquinarias, realmente a técnica de competências. E nesse aspecto, para mim é claro que a moral do século XXI é uma moral completamente diferente do que era a moral, por exemplo, clássica. É evidente que há uma alteração.

idem

domingo, abril 13, 2008

Eu acho que a televisão é um transmissor de passividade. É muito difícil ser activo frente a uma televisão. Enquanto que se pensarmos, por exemplo, na Internet, apesar de tudo, eu acho que a pessoa pode ser muito mais activa, muito mais criativa, em frente a um computador. Mas claro que isto não são regras. Há pessoas que ficam totalmente passivas diante de um computador, e diante da Internet, e há pessoas que podem conseguir através de um programa de televisão estar, ao mesmo tempo, a provocar na sua cabeça alguma coisa de interessante. Tem muito a ver com a forma como nós enfrentamos o objecto técnico.

Gonçalo M. Tavares

sexta-feira, abril 11, 2008

Tenho um polícia dentro do meu cérebro. Sempre que penso mal de alguém, sempre que tenho vontade de fazer mal a alguém, ele aparece, de mãos dadas com a razão.


Graças a ele sou melhor pessoa e mais feliz.
A sociedade enaltece muito a diversidade, mas muitas vezes esquece-se de a pôr em prática.


Dalai Lama
A capacidade de apreensão das normas fundamentais da vida é desigualmente distribuída à nascença.

F. Scott Fitzgerald

quinta-feira, abril 10, 2008

amor

substantivo masculino


1. sentimento que predispõe a desejar o bem de alguém;

2. sentimento de afecto ou extrema dedicação; apego;

3. sentimento que nos impele para o objecto dos nossos desejos; atracção; paixão;

4. afecto; inclinação;

5. relação amorosa; aventura;

6. objecto da afeição;

7. adoração; veneração; devoção;

8. coloquial pessoa muito simpática;

amor à primeira vista paixão súbita;


amor carnal amor físico;


(provérbio) amor com amor se paga deve retribuir-se um benefício com outro benefício;


amor livre ligação amorosa que rejeita o vínculo do casamento;


amor platónico amor puramente espiritual, sem desejo sexual;


fazer amor ter relações sexuais;


morrer de amor(es) por estar apaixonado por; gostar muito de;


não morrer de amores por não simpatizar com; não gostar de;


por amor à arte por prazer; desinteressadamente;


por amor de por causa de; em atenção a;


por amor de Deus por caridade;


ter amor à pele não correr riscos desnecessários; ser prudente;


(Do lat. amóre-, «id.»)

quarta-feira, abril 09, 2008

Rotinas

Há um sítio onde costumo passar férias no Verão. 15 noites por ano estou lá. Sempre que lá vou encontro as pessoas mesmas pessoas que conheço há... 12 anos. Essas pessoas (4, 5 pessoas) estão lá todos os dias de todas as semanas, saindo todos os dias para ir tomar café a 2, 3 cafés da pequena vila. É totalmente respeitável, claro. Não deixa contudo de ser curioso que da pequena vila, escolhem sempre o mesmo café.

Sempre que os encontro, desde há 12 anos, nunca os vi sem ser num de dois cafés, sempre 3,4 ou - no máximo - 5. Antes de eu os conhecer já eram amigos de infância e - pasme-se - já iam ao mesmo café. A ideia de irem a outro café na pequena vila desagrada-os sempre que peço, e a ideia de ir para fora da vila aterroriza-os. As conversas deles giram sempre em voltas das histórias do passado que dia após dia repetem. Gostava - palavra de honra que gostava - de me conseguir rir da mesma piada 4500 vezes. Era mais feliz. Ser exigente num mundo que já de si não é bonito, é meio caminho para a infelicidade.

As pessoas têm todo o direito de procurar a felicidade desde que evidentemente não colidam com a aspiração natural dos outros à sua própria. Não há uma receita de equílibrio universalizável. A prova disso é que o equílibrio destes meus amigos seria o meu Inferno.

Outro dia um amigo meu disse-me:

- Tu é que és tão vivido e conheces tantas pessoas, porque não viajas muito?

- Precisamente por essas duas coisas.

Há pessoas que se saturam dos espaços, eu - digo isto sem orgulho - saturo-me mais depressa das pessoas. Precisamente porque dou muito mais valor às pessoas. Mais importante do que o sítio onde vou tomar café é as pessoas com quem tomo café.

Acredito que não saindo de Lisboa, posso conhecer uma maior diversidade de pessoas, uma maior fauna e amplitude da natureza humana, se me dedicar a tentar compreender as pessoas (e mais importante do que tudo, a pessoa que melhor poderei conhecer: eu próprio).

Kant nunca saiu da sua cidade natal.


Angel

Fitzgerald vs. Hemingway

Li o livro com o título homónimo e adorei. Comprei-o porque são raras as amizades literárias, e o livro descreve em pormenor o que foi a amizade entre dois dos maiores escritores do século XX.

Dois escritores com enormes diferenças. Um busca o ornato na forma, o perfume, a textura, a musicalidade, a poesia. O outro procurando o osso da palavra certa, eliminando a carne, despindo a escrita de palavras caras, tentanto dizer muito através de pouco.

Hemingway e Fitzgerald são dois modelos absolutamente distintos como pessoas (e isso reflecte-se na sua escrita). Hemingway escrevia sobre guerra, touradas, pesca, caça, boxe. Li algures que a melhor biografia de um escritor é a que está contada nos seus livros. Porque uma pessoa gravita sempre em torno das suas obsessões e paixões. Hemingway gostava de tudo isso. Obra e vida confundem-se. Mesmo a fanfarronice de alguns dos seus personagens é a sua própria. A virilidade era o seu mote (o livro explica que tal foi derivado de uma desilusão amorosa e de uma má relação com a mãe que o vestia e penteava à menina até aos 5 anos).

Quando um crítico literário disse mal dele, desafiou-o para um combate de boxe (do qual Fitzgerald foi árbitro). Recentemtente, encontraram-se cartas de guerra de Hemingway onde ele se comprazia do número de mortos: «Já matei (não sei quantos)!»

A sua escrita reflecte isso e a mim não me diz muito, tirando «Os assassinos» e «O velho e o mar».

Fizgerald era uma pessoa que expunha as suas vulnerabilidades. Normalmente as suas personagens femininas eram figuras com perfil inatingível, os seus livros estão prenhes de sensibilidade das descrições físicas, nas descrições de lugares.Quando o seu olhar se delonga em algo, é para descrever a beleza, a delicadeza, a suavidade. Escreveu um livro «A fenda aberta» onde expõe os seus fracassos e inseguranças. Hemingway considerou-o um texto indecoroso porque era próprio de um homem não chorar.

Eu concordo com Balzac: só um homem forte consegue expor as suas fraquezas. Hemingway não as expunha e talvez por isso tenha sofrido mais. Acabou com um tiro na cabeça, suicidando-se aos 61 anos, já depois de uma prévia tentativa mal-sucedida. Se calhar a fragilidade que tentava sempre criticar em Fitzgerald(que comparou no livro Paris é uma Festa a uma borboleta) era apenas a raiva dirigida contra a sua própria fragilidade dissimulada.


Angel-nunca-quis-ser-um-machão-a-tendência-do-futuro-é-para-o-protótipo-hemingway-ser-cada-vez-menos-apreciado
Tive numa garagem de uma vivenda duas vezes recentemente. Com poesia, teatro, conversas, risos, luzes acesas, luzes apagadas. Não imaginam o quanto me diverti. O alimento da diversão pode ser tão simples.

Há quem não consiga deixar de picar o ponto em discotecas. Depende do que se procura na noite. Há quem procure gajas, há quem procure gajos, há quem procure alienação, bebendo e abanando o capacete até não se lembrar de nada. Conversar, conhecer as pessoas, até porque «à noite as pessoas despem-se mais. Há uma atmosfera de pecado amável» (José Cardoso Pires).


Angel
Anedotas do Woody Allen como metáfora de

A vida:

- Duas velhinhas estão num refeitório. Um diz para a outra: estas refeições são péssimas. A outra: E ainda por cima em quantidades tão pequenas.


O amor:

- Um sujeito diz ao doutor: O meu sobrinho pensa que é uma galinha. - Traga-o cá para o internarmos - diz o doutor. - Não posso, doutor. Preciso dos ovos.


Angel-precisamos-de-acreditar-em-ilusões-para-que-a-vida-não-seja-um-filme-a-preto-e-branco

terça-feira, abril 08, 2008

O músculo no cérebro

Diz o Miguel Esteves Cardoso que todos os dias devemos ler e escrever. E que não é preciso começar pelos clássicos. Devemos ler jornais gratutitos, revistas de moda, prospectos comerciais, folhas contidas dentro de medicamentos (sic). O importante é ler, ler. Satisfeito com alimentos fáceis ao paladar, depressa o refinaremos e exigiremos mais. «Portanto, os escritores ditos light podem fazer muito pelos escritores clássicos». Devemos também - diz - escrever, escrever, escrever. «Todos os dias escrevo bilhetes à mulher-a-dias para treinar a escrita. Podem fazer o mesmo caso não tenham mulher-a-dias, com listas de supermercado. Escrevam parágrafos com o que precisam de comprar. Esmerem-se a escrever mesmo na coisa mais simples.»

Deus está apaixonado por mim e por ti

Diz Borges que acreditar em Deus para ele é como ver alguém apaixonado mas multiplicado por todos os seres. Ou seja: quando estamos apaixonados concentramo-nos em alguém como se ele fosse absolutamente único, quando esse ser passa diante de nós, recorta-se de tudo o resto e nós nem conseguimos acreditar que as pessoas em nosso redor não vejo o mesmo. Deus vê-nos a todos nós individualmente assim. Como se estivesse apaixonado por mim, por ti.

segunda-feira, abril 07, 2008

A cultura do álcool

Estive numa festa em que havia bêbados em elevado grau de alcoolismo. Faziam de tudo: cantar músicas pimba, gritar, atirar-se para o chão, cheirar as pessoas, dizer meias frases, insistir até à exaustão com que não queria beber, dizer «aí a ganda besana», exprimir «uhhhhhh!» Não houve uma reacção de alguém sóbrio que não fosse sorrir e rir.

Sempre sempre que vejo alguém falar numa bebedeira que apanhou, vejo sempre os interlocutores das peripécias rirem e sorrirem.

- Eh pá não vi nada, tava todo fodido...

- Sei lá como era a música, tava com uma besana nos cornos...

- Desgracei-me todo. Cheguei a casa nem abria porta.

Ouvi sempre sempre sempre sempre sempre estas frases com ecos de riso e de alegria partilhada. Sempre em todas as pessoas. É incrível porque pessoas de todo o género e feitio, parece que sentem uma obrigação social de darem um feedback positivo.

Cheguei a ouvir um amigo meu contar que chegou a casa, que a mãe o teve de deitar e de ele ter vomitado a mãe toda. Isto, palavra de honra, que em pessoas cultas e serenas, provocou um gáudio colossal (para mim inexplicável).

Tinhas um amigo que tinha dupla face: bêbado e sóbrio. Nem me apetece escrever sobre isso. Digo apenas que por duas vezes podia ter tido acidente de carro se não fosse a sorte, num caso, e no outro, um amigo que deitou a mão bruscamente ao volante. Uma vez ouvi o Sr João dizer:

- Se em do álcool fosse a droga, mesmo que uns charros, que o fizessem arranjar as confusões na noite, pessoas que lhe querem bater, acidentes de carro, iriam dizer que era um drogado e seria estigmatizado e visto como um marginal. Como é álcool, isso passa a ser tudo recreativo, engraçado; sociável...

Angel-90%-das-pessoas-que-conheço-ficam-mais-desinteressantes-com-o-álcool

sábado, abril 05, 2008

Um dia, vi duas pessoas que estavam a ter uma conversa calmíssima (sobre tapeçaria, que um tapete era comprido, bom para o quarto) zangarem-se para além das palavras.

Um interrompeu o outro, o outro disse «deixa-me só acabar esta ideia» e o outro fez uma cara irreproduzível por palavras. Uma cara de desprezo absoluto, de asco. Um ligeiro franzir da cara, a boca aberta, os lábios descaídos para baixo, os olhos revirados para cima por um instante.

O outro começou aos gritos:

- Não me faças essa cara! Prefiro que me mandes para o caralho! Tu nunca mais me faças essa cara.


Por mais exagerado que pareça, eu concordei com ele, sem tomar partido na altura.

Lembrei-me deste episódio quando pensava porque não gostava de um indíviduo. Não gostar? Não é isso. Eu gosto de toda a gente no sentido que a toda a gente desejo (e elas que contem comigo no que eu puder) que satisfaçam a sua aspiração natural: que sejam felizes à sua maneira. Simplesmente há pessoas cuja companhia dispenso. Porque o tempo é escasso.

Uma dessas pessoas fez-me pensar. Caramba, não havia «razão» para tal. Esquadrinhando acções e palavras, nada encontrava de fútil, materialista, homofóbico, machista, nenhuma defesa da pena de morte. Nada de nada.

Depois tive com essa pessoa e um instante devolveu-me a minúscula centelha: eram expressões faciais. Que não duram um segundo tão pouco.


Uma expressão que condensa tudo o desprezo, toda a arrogância, toda a indiferença. É como se naquele segundo eu visse alguém a passar junto de alguém a morrer de fome. Quem passa tem óculos de sol, todo bronzeado, muito penteado, dentes branquinhos, pose altivo. A certa altura, perante o indíviduo no seu estertor de morte diz:

- Este esterco vai morrer aqui, como é que eu agora tiro o meu BM?


Angel
Se nós nunca tivéssemos sentido «entusiasmo», «excitação sexual», «medo», «ciúme», «orgulho», como poderíamos saber o significado destas palavras?

Pelo menos numa fracção de instante tivemos de os sentir, se não não os reconheceríamos quando os lessemos ou ouvíssemos.


Angel
Uma vez li que a imitação é a melhor forma de lisonja e hoje, depois de uma reflexão, concluo que a calúnia é muitas vezes a máscara predilecta da inveja.


Angel
As boas pessoas quando explodem, deitam mais lava. A revolta do carneiro é a maior revolta porque podemos passar anos a dar-lhe pontapés, e há um dia em que, literalmente, vai tudo a eito.

Cada vez que há um acto de ingratidão, uma ofensa, um destrato, a boa pessoa, munida de paciência e compreensão, releva. Mas cada acto desses vai abrindo uma brecha minúscula, vai residualmente tirar um pouco de cal ao edifício.

Nada retrata melhor este lado da natureza humana do que o filme Dogville.


Angel

Imagens da Poesia

Pólen de fogo

Eugénio de Andrade
É sinal de inteligência de primeira água uma mente alimentar duas ideias contraditórias sem perder a sua capacidade de funcionamento.


F. Scott Fitzgerald
Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
(...)

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Eugénio de Andrade, Pequena Elegia de Setembro
«A grande questão filosófica é: se uma árvore cair na floresta e não estiver lá ninguém para a ouvir, poderemos dizer que houve som?»

Ricardo Araújo Pereira escreveu esta frase na crónica da Visão da semana passada.

Ela está num livro do Woddy Allen.

sexta-feira, abril 04, 2008

Paradoxos das Religiões Monoteístas II

Se perguntarem a algo porque é agnóstico ou ateu, uma resposta que ouvirão muitas vezes é que:

- Com tanta desgraça e injustiça no mundo, como posso acreditar em Deus?

O Papa João Paulo II tentou responder na sua penúltima encíclica a que tal era uma consequência da liberdade que ele dera aos homens.

O budismo tem outra resposta. É o karma de outras vidas. Pode parecer chocante, mas o que é mais cruel: um Deus que controla tudo (por definição axiomática) e que deixa aleatoriamente nascer criança deficientes e cegas que duram um mês ou um Deus (na forma das leis dos karma e do equílibrio cósmico) que só deixa nascer assim quem fez merda a sério noutras vidas?

Quem acredita em Deus, tem de escolher um destes dois pratos.

Outro ponto incongruente: a omnisciência e o livre-arbítrio. Se Deus sabe tudo e se concomitantemente me deu liberdade para agir, para pensar, para escolher; como pode ele saber o que eu vou escolher amanhã, o que eu vou dizer amanhã, se me deu liberdade?!

Agora o último ponto e para mais o mais importante: como é afectada a nossa relação com o outro a partir do momento que cremos em Deus ou na Inteligência Cósmica?

Analisando de um ponto vista das grandes religiões como o Judaísmo, o Cristianismo ou o Islamismo, temos que Deus é infinitamente justo (esta noção é temperada pelo infinito amor o que abranda a impiedosidade da justiça). Então, se é assim, é óptimo. Porém, isto, no limite leva à inacção. Porque eu deixo nas mãos de Deus ele resolver a injustiça. Se Ele garante isso, não é que eu me deva preocupar com isso - é que eu simplesmente, por mais que queira, não o consigo fazer. O Tauismo explica isto - não tentes tão pouco interferir no equílibrio do Universo.

Do ponto de vista do oriente, do hinduísmo e do budismo, há uma incongruência, que sob outros nomes é similar na essência. As leis do karma, dizem, são indestrutíveis e não há forma de lhes escapar. O que eu penso, o que eu faço, o que digo tem um duplicado sempre - repercutir-se-ão as suas vibrações nesta e noutras vidas.

Tudo aquilo que me acontece - de positivo ou negativo - é fruto, é consequência das minhas acções no passado. Seja ganhar a lotaria ou partir uma perna. Numa análise superficial, isto pode parecer lógico. Contudo, pensemos num exemplo. Uma pessoa leva um tiro de outra. Segundo as leis do karma, está a pagar por pensamentos e acções do passado em que desvalorizou ou sonegou a vida de outrem. Mas isto é só do ponto de vista unitário de uma pessoa. Porque quem lhe deu o tiro nesta análise, aparece apenas como um mecanismo de cumprimento do karma. Mas e essa pessoa não está a acumular karma negativo? Para as leis do karma se verificarem, tem de haver pessoas a fazer o mal para castigar os outros.

Ou seja: quando há pessoas, tudo se complica. Porque ou temos capacidade de interferir na vida dos outros, e nada garante a Justiça a 100% - e então temos de nos consolar com a ideia de que podemos agir para melhor a vida dos outros mas que o mundo não é justo; ou temos de nos consolar com a ideia de que o mundo é justo mas, que numa aparente corolário pernicioso dessa consequência, naquilo a que chamo o Paradoxo da Justiça, nós não temos possibilidade de interferir na vida dos outros.


Angel-suando-as-estopinhas-para-perceber-e-decifrar-isto-tudo


Angel

quinta-feira, abril 03, 2008

Programas a tua mente, que programa a tua vida, mais para evitar a dor ou experimentar o prazer?

quarta-feira, abril 02, 2008

- Ò Angel, mas tu julgas o quê?! Elas querem foder da mesma forma que os homens. São quase todas assim... Tou-te a dizer. Foda-se, não é o quê? Quantas gajas não andam aí só mesmo à procura de foder. Não contam é como os homens contam. Mas muitas fodem aqui e ali com um gajo que mal conhecem, com um amigo. Então as que vivem sozinhas, gostam sempre de lá ter um gajo que as foda de vez em quando...

:)

- Ele não tem mau fundo.

- O que é isso de ter bom ou mau fundo?

- Quando estás com quatro amigos e te queres sentar à mesa de um café e os cinco não cabem numa mesa de dois, e pedes educadamente à pessoa que estão sozinha ou acompanhada de uma pessoa se se importa de passarem para a outra mesa para que você se possam sentar, se essa pessoa deixa tem bom fundo.

- E vice-versa...

- E vice-versa...

Angel
«O meu pecado favorito é a vaidade.»

Diabo
Segundo Pacheco Pereira, «não vai ser fácil porque vai mesmo ter que ser «à bomba», dado que em 2009 há dezenas de lugares apetecidos para distribuir e para cada lugar há cinco pessoas da situação a quem este foi prometido e dez que acham que lá podem chegar no meio da guerra civil».


Se fosse o Alberto João Jardim a dizê-lo, era um energúmeno boçal. Assim, vindo de um auto-proclamado intelectual...

Angel-estigma-é-as-pessoas-mudarem-de-comportamento-e-nós-chamarmos-lhe-os-mesmos-nomes

terça-feira, abril 01, 2008

Angel, quando eu morrer, só há uma pessoa que me pode julgar: sou eu.

Velho Ancião

Dormir

Um tópico presente nas minhas preocupações com os outros é saber se eles dormem. Sempre atribuí uma grande importância a dormir para a saúde física e psicológica das pessoas.

A concentração, a lucidez, a atenção desperta, a velocidade do raciocínio são no meu caso pessoal directamente proporcionais ao número de horas de sono dormidas.

Claro que numa sociedade que não tem tempo, que tem pressa de ter pressa; as pessoas acham que podem viver tudo dormindo o mínimo.

Não podem.

A propósito do Dia Mundial do Sono, li na Visão e no Expresso dois artigos escorados em dois estudos. Um demonstrou que os melhores alunos do técnico eram o que mais dormiam (que mais tinha «tempo para assimilar»). Outro demonstrava uma relação entre a esperança média de vida e o número de horas que se dorme em média.

Achei incrível que a mestranda no assunto diga que pura e simplesmente não estudava o sono, sendo ela pioneira - e que, por isso, a sua investigação terá tido os holofotes a incidir. De facto, o único estudo que conhecia era o de trabalhadores de uma empresa que dormiam 20 minutos a sesta e outros não; e que os primeiros tinham o dobro da produtividade dos segundos.

A investigação destrói ainda outro mito que super-heróis como o Marcelo auto-propalam: são pouquíssimas as pessoas que podem dormir menos de 8 horas por dia. É uma franja mínima e mesmo essas, diz o estudo, têm a ruína da sua saúde se dormirem por sistema 5, 6 horas.


Outra coisa que me despertou interesse foi a frase «morre-se mais por falta de sono do que por falta de alimentos ou de sede». Há imensa gente que desconhece que ao dormir em média 6 horas por dia, está a cortar anos de vida.

A vida é feita de escolhas, não se pode ter tudo. Não se pode afinal «cortar no sono» para trabalhar mais ou aproveitar mais o dia.


Angel-dormir-a-sesta-é-tão-delicioso
Li que 14 horas do nosso dia é passado em diálogo mental interior. Incrível! Conhecer alguém é muito difícil... mesmo que fosse feito um mapa tal e qual o mundo (do tamanho dele, portanto), onde caberia ele?

Angel