sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Um narcisista é uma pessoa que está confusa da sua identidade, e que suplica a todos:

- Por favor diz que gostas de mim, que eu sou especial, por valida a minha identidade, devolvendo-me uma que eu goste.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

O fim de um sofrimento ainda maior do que o próprio fim?

Hoje ouvi o caso de pessoas jovens que se atiraram de uma ponte para estrada em movimento. Um suícidio colectivo triplo.

O que poderá levas três jovens, em condições físicas normais, a terem um fim assim? Que violência pesará tão terrível sobre eles? Não os poderíamos ter ajudado? Como poderão sofrer tanto ao ponto de não conseguirem mais e terem de morrer assim?

Não, não é a mesma coisa que se atirarem para o mar, para o líquido. Porra, atirarem-se para o alcatrão! Para os carros em movimentos? O que é que era tão mau que era pior do que isto?

A sociedade tem culpa?

Angel

Firmeza sem arrogância

Basta dizer «acho eu» ou «na minha opinião» para ninguém nos conseguir dizer:

- Mas tu é que sabes o que é?

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Frases que ecoam...

- Ela casou com o trabalho.

Organização de um jantar

Vou organizar o jantar das personagens. De todas as pessoas que conheci na vida, convidarei as que tenham uma maior quota de anormalidade, excentricidade, loucura, densidade psicológica.

Vou puxar pela memória e recuperar algumas... Praticamente, ninguém se conhece.

Haverá duas pessoas normais por jantar. Não podem ser mais de duas para estarem diluídas. E só são convidadas para haver contraste (se bem que há enorme contraste entre as personagens) e testemunhas deste evento para a posteridade.

Angel-está-para-breve

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

«Nunca te esqueças de que quando praticas o Bem, nasce dentro de ti um sentimento absolutamente inexplicável.»

Filipe Esménio, Quem és tu, Zequinha?
A vida é luta e interrogação.

Marcos André
Ainda bem que ganhou um filme baseado num livro dos melhores escritores contemporâneos - Cormac McCarthy. Já o Expiação - vencedor de um óscar e mais duas nomeações - também é baseado num livro de outro dos melhores escritores contemporâneos: Ian McEwan.
E claro - para a estupidez ser completa - a estatueta para melhor actor vem muito depois da de melhor actriz. É que os oscares são apresentados por ordem crescente de importância...

Angel-só-a-uma-mulher-não-tive-de-explicar-porque-não-lhe-abria-a-porta-para-ela-passar

Ninguém repara nisto?

Por que razão há oscar para melhor actor e para melhor actriz? Simplesmente parece-me tão natural haver um oscar de melhor representação.


Angel-eu-penso-que-a-igualdade-entre-sexos-tornar-se-á-banal-uma-amiga-minha-disse-que-a-matrícula-do-meu-carro-será-30-00-porque-eu-estou-um-milénio-à-frente

domingo, fevereiro 24, 2008

«Eu não posso viver sem actividade mental. O que há mais para fazer?»

Sherlock Holmes

Frases que ecoam

- Não sei o que se passa comigo... Ando tão bem. Ainda hoje de manhã, parecia que as coisas eram todas tão leves. Ando com um bem-estar cá dentro. E inexplicável.

A inteligência quadrúpede

Voltam a queimar-se bandeiras da Dinamarca e até um boneco do primeiro-ministro dinamarquês.

Mesmo que se despreze a liberdade de expressão, será que não se consegue entender que os cartoons só podem anatemizar o cartoonista e, quando muito, o editor do jornal que o deixou publicar?

Confundir isto com um país?


Angel
Memento mori.

sábado, fevereiro 23, 2008

O valor é intrínseco mas e se ninguém o reconhecer?

«Isso não me interessa nada.»

Lobo Antunes sobre o Nobel.

Mesmo que não tenha sido sincero, a verdade é que os prémios não acrescentam um milímetro à obra. O valor reside per se. Mas claro, se uma árvore cair na floresta e ninguém estiver lá para a ouvir poderemos dizer que ouve som?

Relativizar

«Na vida, vi pessoas más praticarem as melhores possíveis e vi pessoas extraordinárias
cometerem as piores malvadezas.»

António Lobo Antunes

Concordo.

«É na desgraça que se conhecem os amigos.»

Lenine

Lugares-comuns com classe

- Ela tem um Je ne sais quoi...

Frases que ecoam...

É uma pessoa sem o chip do escrúpulo.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

«Escrever é transportar as nossas ideias, pensamentos, sensações do nosso cérebro para outra cérebro através de um papel impresso.»

Ian Bainks

Um post sobre futebol

Lembro-me como se fosse hoje de uma aula de Matemática do 11.º ano. O Professor pediu a todos os alunos que atirassem uma moeda ao ar, e apontássemos no caderno se era cara ou coroa durante vinte vezes.

A turma, normalmente entediada com a geometria dos senos e dos co-senos, estava delirante. Só se via eram moedas pelo ar.

Uma contínua passou e olhou pela janela.

O Professor riu-se:

«Esta deve estar a pensar: Que rebaldaria que aqui vai!»

Escrevi no caderno:

14 caras, 6 coroas.

O Professor começou a perguntar a todos os alunos o números de caras e coroas ocorridos. E começou a apontar no quadro, somando os números de todos os alunos.

Ao início havia mais caras do que coroas, mas progressivamente, quantos mais alunos iam dizendo os seus números, mais se equilibrava o número de caras e coroas.

Aprendi de forma perene a lei dos grandes números: quando existe uma probabilidade (neste caso de 1/2), quanto maior a amostra, mais ela tende para se aproximar do valor probabilístico real.

Se lançarmos 10 vezes a moeda ao ar, podemos ter 10% de ocorrências de cara; mas se lançarmos 10000000, o número de ocorrências será de 50%.

Vem este exemplo a propósito de uma coisa que no futebol me faz confusão ouvir sistematicamente: tive sorte, teve azar.

Isso acontece e em determinados jogos é determinante.

Mas, por exemplo, uma selecção como a italiana ao fim de 20 anos a ter sucesso, já não pode ser só sorte. É a lei dos grandes números: quanto maior a amostragem, maior o seu valor real.

Em Portugal, ninguém gostava do Trapattoni antes de ele ganhar o título. Antes de ele vir para o Benfica, já todos os seus detractores diziam quando ele ganha títulos: ele teve sorte. Veio para o Benfica e novamente ganhou porque teve sorte. 22 títulos é um número grande, demasiado grande, para ser sempre sorte.

Imagina-se duas pessoas com dois dados perfeitamente iguais. Um diz: «Vou atirar este dado ar até me calhar seis.» Fá-lo dez vezes e nada. «Foda-se, tenta tu. Estou com azar.» «OK, mas tenta tu também.»

Qual a probabilidade maior?


Igual. 1/6.



Porque os dados não têm uma memória lá dentro...



Não há sorte e azar numa bola, porque lá dentro, a bola, também não tem memória.


Angel

Diálogos

- Angel, tu foges do real, não real?

- Fujo, é verdade.

- Porque é que foges do real?

- O mais sinceramente possível te digo: não sei...

Pois, claro, bem visto.

Quando contamos um segredo a alguém, este deixou de o ser.

Conduta de Vida

- Nunca roubar o mínimo que seja, directa ou indirectamente;

- Pagar tudo ao Estado;

- Cumprir sempre a palavra dada;

- Não dizer nas costas o que não se consegue dizer à própria pessoa;

- Não ser lambe-botas e servil com os de cima e sobranceiro e autoritário com os de baixo;

- Não executar vinganças;

- Não estigmatizar as pessoas no sentido de que eles mudam o comportamento e nós lhes devolvermos as mesmas ideias cristalizadas, o mesmo espelho imutável;

- Não explicar, para além do visado, as razões pelas quais estamos chateados - a não ser que sejamos interpelados sobre o assunto;

- Não ser homófobo, racista, ou etnocêntrico;

- Não torturar pessoas ou animais;

- Não matar pessoas ou animais;

- Não permitir que haja quem não tenha casa, roupa, alimentação, cuidados de higine ou saúde mesmo que, por opção, essa pessoa não queira fazer nenhum;

- Nunca expor a intimidade sexual de ninguém;

- Nunca contar a ninguém o que uma pessoa nos diz em segredo, confissão, ou momento de fraqueza emocional;

- Integrar sempre a pessoa que sente mais lobo das estepes num grupo;

- Respeitar os tiques, as manias e as peculiaridades das pessoas desde que não prejudiquem gravemente o próximo;

- Ter um sentimento de partilha sobre as nossas posses materiais;

- Não ocupar o tempo predominantemente com actividades em que não aprendamos algo ou da qual não brote alguma utilidade para os outros;

- Não ser fútil.


Angel-a-utopia-não-é-para-ser-alcançada-mas-para-todos-os-dias-darmos-um-passo-em-direcção-a-ela

Esta geração lê mais do que a anterior?

Argumentos a favor:

- Vendem-se mais livros;

- Publicam-se mais livros;

- Os índices de leitura (com base em entrevistas aos hábitos de leitura) assim o indicam.


Argumentos contra:

- As tiragens por cada livro são bastante menores;

- Os professores de português queixam-se de que os alunos cada vez escrevem e falam pior;

- Lê-se pior (Rebelos Pintos e afins);

- Hoje qualquer figura pública, só por ser figura pública (exemplo: Jardel ou Big Brothers) só porque é figura pública tem direito a um best-seller, o que soterra o mercado de livros e impede o surgimento de novos eventuais bons autores;

- A crítica literária é consensual em considerar que já não florescem génios literários com a abundância do século XIX e XX (é fácil enumerá-los);

- A ocupação dos tempos livres dos jovens é muito preenchida com saídas à noite, play station, msn, telemóvel e mp3;


- Comprar livros não é sinónimo de o ler. Na cultura hodierna do descartável, consomem-se pela metade os produtos (e o livro é um produto);

- A geração actual é mais hiper-activa e ou o lead a cativa logo a atenção ou deitam foram. E aos clássicos não se vai pelo lead; há obras-primas da Literatura que «demoram» muitas páginas para verterem o seu sumo...

Ele, eu

- O meu ideal, a minha utopia é as pessoas todas tolerarem-se e compreenderem-se todas. Todos trataram com igual simpatia e respeito. Eu não me identifico com muitas pessoas, mas tento sempre sempre compreende-las, perceber porque é que pensam assim, compreender que os seus valores serem diferentes dos meus não significa que não tenham valores. Se elas pensam e agem de uma determinada forma é porque algo as levou a pensar assim - e eu tento perceber esse processo de construção.

- A minha utopia como tu dizes é menos tauista, não parte de uma posição de compreensão, mas de actuação. Tentar mudar o mundo mudando as pessoas nele. Se mudas o mundo, mudas a árvore, eu prefiro deitar sementes que criarão outras sementes e frutos. Criar felicidade, mas felicidade perene. E quando lanças ideias noutras, esses pensamentos voarão para outros, e através da progressão geométrica, uma ideia pode chegar a sucessivas gerações e gerações. Ainda hoje ouço e me rejo por coisas que vieram do meu trisavô, que por sua vez, deve esses valores seguramente a alguém lá bem atrás. Quero estar sempre actuante. Mudar os outros - não à minha imagem - mas à melhor imagem deles. Só competimos connosco próprios - com o melhor de nós próprios. É a conjugação de dois ideias que me norteiam - brotar felicidade para os outros das minhas acções, palavras e ideias e ter um cunho de perenidade no mundo - uma impressão digital no mundo que perdure muito para lá da minha morte.

Angel

Sobre filmes

- A arte para mim reside no que não é dito. Sempre almejei ver um filme cheio de subtilezas, omissões, delicadezas narrativas. Nunca sentira o não dito mais forte do que o dito. Até ver o Lost in Translation....


- Vi um filme (Qual, David?) em que tudo é normal, excessivamente normal e rotineiro. A vida de uma pessoa, sem mais, o dia banal, como são a maior parte dos dias. O entrar em casa, vestir o fato de treino, os chinelos, deslizar para o sofá, tirar um enlatado e comer. Sem mais. E estás sempre à espera - como em qualquer obra de ficção - da explosão na trama: do imprevisto, do excepcional. E isso nunca acontece. O filme é plano e acaba... plano! Acaba como começou e como se desenvolveu. Não senti que fui ao cinema, senti que, quase que cometi um acto de voyeurismo: que entrei na vida daquela rapariga, o filme era uma janela para um dia normal de uma pessoa normal. Aleatoriamente escolhidos, ambos.

Sobre filmes

- A arte para mim reside no que não é dito. Sempre almejei ver um filme cheio de subtilezas, omissões, delicadezas narrativas. Nunca sentira o não dito mais forte do que o dito. Até ver o Lost in Translation....


- Vi um filme (Qual, David?) em que tudo é normal, excessivamente normal e rotineiro. A vida de uma pessoa, sem mais, o dia banal, como são a maior parte dos dias. O entrar em casa, vestir o fato de treino, os chinelos, deslizar para o sofá, tirar um enlatado e comer. Sem mais. E estás sempre à espera - como em qualquer obra de ficção - da explosão na trama: do imprevisto, do excepcional. E isso nunca acontece. O filme é plano e acaba... plano! Acaba como começou e como se desenvolveu. Não senti que fui ao cinema, senti que, quase que cometi um acto de voyeurismo: que entrei na vida daquela rapariga, o filme era uma janela para um dia normal de uma pessoa normal. Aleatoriamente escolhidos, ambos.

Da Amizade

À pergunta: porque aceitas nele o que não aceitas naquele?

Porque ele é meu amigo.

A amizade distorce, amplifica, menoriza, tudo e qualquer juízo imparcial sobre os outros.

Ambos têm razão

- Não há liberdade sem segurança.

(disse-me uma pessoa de direita)


- Não liberdade quando há tanta a ganhar 300 euros ou menos por mês... 2 milhões de portugueses vivem com menos de dois euros por dia...

(disse-me uma pessoa de esquerda)

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Frases que ecoam...

- Sou muito liberal para os outros, mas para mim, na minha vida, sou muito conservadora.

A verdade existe - se sim: é unitária?

Se houvesse uma pessoa perfeita como seria?

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Auto-retrato

Recortes do Real

- Tu és uma influenciável...

- Não, simplesmente se vou na estrada e vejo quarenta carros na minha direcção, penso que eu é que estou mal.

Natureza Caleidoscopal

Há sempre qualquer coisa que se aproveita nas ideias de quem nada tem que ver connosco. Escreveu Emerson que «todo o homem é-me superior em alguma coisa e, nesse ponto, aprendo com ele».

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Pensamentos às 5.34

Trabalhar para quê, se o trabalho nunca acaba?

(de onde me veio isto?)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Diário de Narciso II

- Pois é, eu sou a melhor coisa que alguma vez não digo existiu, existe ou existirá - eu sou a possibilidade que comigo já se esgotou: a melhor coisa de sempre. Como um aluno de ginástica a quem lhe é pedido para correr 12 pistas em meia-hora e que o faz em cinco minutos e ainda continua depois da 13.ª... Eu atinjo a perfeição, mas ainda a passo, sem ninguém me pedir. Em todas as áreas.

Mediania Dourada

- Ele não é homem para mim, não me estimula intelectualmente; há dias em que estou com ele e é um suplício prolongar o tempo com ele e só me apetece dizer-lhe: «Vai-te embora, desaparece!» Há dias em que fio tão farta dele. Mas, eu não posso cortar com ele. Todo o meu círculo de amigos é comum, a minha vida desabava se acabasse com ele.

Diário de Narciso

- Sempre que vejo uma rapariga a beijar alguém, penso que, se me conhecesse, me beijaria a mim. Como uma vez alguém me disse: «eu reinventei a palavra "perfeição"», retirando-lhe a conotação de «tédio», e dando-lhe cor, frescura, doçura, sabor, excitação.

Palavras bonitas que me derretem a alma


sobredoirar



v. tr.,
dourar superiormente;
exornar;
colorir com artifício para induzir em erro.


mirífico



do Lat. mirificu

adj.,
admirável;
maravilhoso;
portentoso.

domingo, fevereiro 17, 2008

O presidente da uma multinacional norte-americana, multimultimultimilonário, deixou abruptamente tudo - saiu de todas as suas empresas. Vendeu-as num ápice e reformou-se muito precocemente.

«Troquei o dinheiro por tempo, o ego por liberdade, e a necessidade de reconhecimento por satisfação.»

Morte

Escreve hoje Inês Pedrosa «tanta injúria, tanta maledicência, tanta competição para acabarmos todos no silêncio do pó.» (cito de cor)

Diz o Lobo Antunes que o pai dele foi sempre mudando dentro dele. Em vida e em morte. Sempre mudando. E diz que só ficamos adultos quando nos morre o pai - a barreira entre nós e a morte, julgamos. Todos nós acabamos por ficar parecidos com os pais - ou por identificação ou por oposição, a influência deles é inequívoca.

Esteves Cardoso escreveu que sofreu muito a morte do pai porque este não chegara a saber o quanto ele o amara - e que se amássemos plenamente as pessoas em vida e que soubéssemos que elas partiriam cheias do nosso amor, que a morte delas não nos pesaria. É terrível as pessoas não chegarem a saberem quanto as amamos.

Quando era mais novo, pensava, sempre que estava irritado com alguém, que ele tinha acabado de morrer - e então enchia-me de compaixão e tratava essa pessoa com toda a ternura e delicadeza.
Manter as minhas palavras positivas:
As palavras tornam-se os meus comportamentos.
Manter os meus comportamentos positivos:
Os comportamentos tornam-se os meus hábitos.
Manter os meus hábitos positivos:
Os hábitos tornam-se os meus valores.
Manter os meus valores positivos:
Os valores tornam-se o meu destino.

Mahatma Gandhi

Frases que ecoam...

«Cada um cultiva o estilo que lhe é favorável.»

Trago o teu coração comigo

trago teu coração comigo (dentro do
meu coração) nunca ando sem ele (onde quer que
eu vá, tu vens meu bem; e o que quer que eu faça
só, é feito por ti também, meu amor)
tenho medo
não destino (porque tu és meu destino, meu anjo) quero
não mundo (porque tu és meu mundo bonito, minha verdade)
e tu és tudo o que uma lua jamais brilhou
e tudo que um sol cante para sempre, isto és tu


e esse é o mistério que mantém as estrelas separadas
eu trago teu coração (eu o trago dentro do meu)

e.e. cummings

sábado, fevereiro 16, 2008

O Cérebro, o Eu e a Liberdade

O que diz alguém, quando diz "eu"? Afirma--se a si mesmo como sujeito, autor das suas acções conscientes, centro pessoal responsável por elas, alguém referido a si mesmo, na abertura e em contraposição a tudo.

Mas há observações perturbadoras. Por exemplo, pode acontecer que alguém adulto, ao olhar para si em miúdo, se veja de fora, apontando como que para um outro: aquele era eu, sou eu?

Há filósofos que se referem à ilusão do eu. Certas interpretações do budismo caminham nesta direcção. No quadro da impermanência e da interdependência de todas as coisas, fala-se da inexistência do eu. Matthieu Ricard, investigador em genética celular e monge budista, deu-me, num congresso no Porto, um exemplo: veja ali o rio Douro. O que é o rio Douro, onde está? Ele não existe como substância, pois não há senão uma corrente de água. Está a ver a consciência? O que é ela senão um fluxo permanente de pensamentos fugazes, de vivências? O eu não passa de um nome para designar um continuum, como nomeamos um rio.

Mas há a experiência vivida e inexpugnável do eu, ainda que numa identidade em transformação, que continuamente se faz, desfaz e refaz. O que se passa é que, não se tratando de uma realidade coisista, é inobjectivável e inapreensível.

É e será sempre enigmático como aparecem no mundo corpóreo o eu e a consciência. É claro que o eu não pode ser pensado à maneira de uma alma, um homunculus, um observador dentro do corpo - o fantasma dentro da máquina. Há, portanto, uma correlação entre a consciência e os processos cerebrais. Mas significa isto que essa correlação é de causalidade, de tal modo que haverá um dia uma explicação neuronal adequada para os estados espirituais? Ou, como já viu Leibniz e é agora acentuado pelo filósofo Th. Nagel, mesmo que, por exemplo, tivéssemos todos os conhecimentos científicos sobre os processos neuronais de um morcego, não saberíamos o que é o mundo a partir do seu ponto de vista? A questão é: como se passa de acontecimentos eléctricos e químicos no cérebro - processos neuronais da ordem da terceira pessoa - para a experiência subjectiva na primeira pessoa?

Apesar de se não afastar por princípio a possibilidade de se poder vir a dar essa compreensão, o filósofo Colin McGinn pensa que talvez nunca venhamos a entender como é que a consciência surge num mundo corporal, a partir de processos físicos. Também o neurocientista W. Prinz disse recentemente numa entrevista: "Os biólogos podem explicar como funcionam a química e a física do cérebro. Mas até agora ninguém sabe como se chega à experiência do eu nem como é que o cérebro é capaz de gerar significados."

E sou livre ou não? É claro que, como escreve o filósofo M. Pauen, se as nossas actividades espirituais se identificassem com processos cerebrais, segundo leis naturais, já se não poderia falar em liberdade - "As nossas acções seriam determinadas não por nós, mas por aquelas leis."

Mas, afinal, quem age, quem é o autor das minhas acções: o meu cérebro ou eu? "Como não é a minha mão, mas eu, quem esbofeteia esta ou aquela pessoa, não é o meu cérebro, mas eu, quem decide. O facto de eu pensar com o cérebro não significa que seja o cérebro, e não eu, quem pensa", escreve o filósofo Th. Buchheim.

Só existe liberdade, se há alguém capaz de autodeterminação. A determinação por um "eu", segundo um juízo de valor, é que faz com que uma acção seja livre e não puro acaso ou enquadrada no determinismo das leis naturais. Como diz P. Bieri - cito segundo H. Küng, em Der Anfang aller Dinge (O Princípio de Todas as Coisas) -, "é inútil procurar na textura material de um quadro o representado ou a sua beleza; é igualmente inútil procurar na mecânica neurobiológica do cérebro a liberdade ou a sua ausência. Ali, não há nem liberdade nem falta de liberdade. Do ponto de vista lógico, o cérebro não é o lugar adequado para esta ideia. A vontade é livre, se se submete ao nosso juízo sobre o que é adequado querer em cada momento. A vontade carece de liberdade, quando juízo e vontade seguem caminhos divergentes".

Anselmo Borges, Diário de Notícias

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Recortes do Real

- És lésbica?

- Eu gosto de pessoas.

A propósito da discussão - o que é mais difícil assumir: o ser-se gay ou o ser-se lésbica?

Creio que é mais díficil assumirmo-nos como homossexuais.

Sobre o argumento de que há mais gays assumidos do que lésbicas... Não sei se é verdade. Lembro-me de poucos casos femininos em Portugal, a Ana Zanatti, por exemplo; e de poucos masculinos (não entra na contabilidade o «toda a gente diz que», falamos em auto-assumir) como o antropólogo Miguel Vale de Almeida.

Pensemos em duas situações.

Primeira. Um casal homossexual masculino a passar na rua de mão dada ou duas mulheres de mão dada na rua. Qual chocaria mais a sociedade? Qual era o par mais provável de ser vítima de violência física? (que acontece muitas vezes contra homossexuais solo) A história que eu contei da mesa na expo. ALGUÉM IMAGINA DOIS HOMENS NUMA MESA DE UM BAR DA EXPO A BEIJAREM-SE?

Não imaginam e não imaginam porque ancestralmente é considerado que a mulher á bonita do que o homem (basta ver ambos nus para o constatar) e que, por isso, duas mulheres juntas são ainda mais bonitas. Este argumento patético (fantasia de muitos homens) explica a dita tolerância para as mulheres e repgunância para os homens.

«Repugnância», escrevi. Escrevi esta palavra deliberadamente porque já ouvi muita gente dizer «dois homens juntos repguna-me» ou «mete-me nojo» e nunca o ouvi aplicado a mulheres (mesmo por mulheres).

Além disso, as mulheres são mais afectuosas entre elas: abraçam-se, beijam-se, tocam-se. Os homens não. Já conheci vários que preferem apanhar um escaldão a que outro homem lhes ponha creme nas costas. Absurdo? Façam a vossa própria sondagem e ficaram supresos. Já conheci homens, nada machistas e evoluídos, que dizem que não vão ao cinema só com um amigo porque «dá aspecto».


Eu já vi muitos pares de lésbicas (sim, cá em Portugal). Só vi duas vezes um casal de dois homens (tirando discotecas gays a que fui).

Segunda situação. Um grupo sai à noite e duas raparigas beijam-se na boca para tirar uma fotografia. Quantas vezes não vi este show-off gratuito? Porque é que dois homens não poderiam fazer esta brincadeira? Porque são sempre as mulheres a fazê-lo?


Porque é que numa discotecas as mulheres podem dançar juntas e roçarem-se e acariciarem e dois homens não?


Uma coisa tão simples como dizer um homem dizer que outro homem é bonito arrebita logo as sobrancelhas dos interlocutores. Digo com isto com experiência de causa porque consigo apreciar homens e sempre que verbalizo esse juízo, noto uma perturbação. Se estou perante alguém que não me conhece, sei que a seguir vão perguntar nas minhas costas: «Olha lá, ele é gay

Qualquer mulher pode dizer que outra mulher é bonita, mas um homem raramente o faz e quando o faz, é imperativo que a seguir diga «eu não gosto de homens, atenção».


Infelizmente, é um grande pecado não ser viril quando se é homem. Uma mulher já se libertou do jugo de ter de ser doce e submissa; mas um homem estupidamente ainda te de ser viriL. E estupidamente acha-se que os homossexuais são pessoas fracas, não se compreendendo que as pessoas que assumem a sua homossexualidade nesta sociedade têm de ser muito mais fortes. Não há qualquer relação entre uma orientação sexual e o carácter da pessoa.

Angel-chegará-o-dia-em-que-a-palavra-homossexual-cessará-de-existir-tornando-se-uma-categoria-residual-do-passado-longínquo-tal-como-hoje-nos-parece-absurdo-que-a-Igreja-questionasse-se-os-pretos-tinham-alma-há-quinhentos-anos

Metáfora e Realidade

Há um bambu na China do Norte que nos primeiros 4 anos não crescem. Ao quinto ano, cresce 2,40 m - no mínimo.

Angel-o-mundo-descartável-e-fútil-não-percebe-que-há-coisas-que-precisam-de-raízes

Que pesadelo

Sonhei que não entrara no concerto de Cure. Acordei tão aliviado.

Os bons sonhos são maus porque acordamos infelizes, os pesadelos são muito bons.

Angel-está-um-dia-tão-solar-só-tenho-coisas-boas-para-te-dar
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Sophia
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.


Sophia

Recortes do Real

- Eh pá, Angel, a miúda era altamente angelical, eu curti bué o sorriso dela, memo genuíno, tás a ver? Foda-se a gaja teve a contar-me que já tinha tido 3 bacanos. Foda-se eu pus-me a imaginar a gaja a ter relação... iaaaaaaaa, caralho, custou-me tanto. Imagens do inferno. Eu conhecia um gajo. Acordei a meio da noite com suores frios, tipo falta de ar, foda-se a imaginar o gajo a... Iaaaaaaa, meu, que pesadelo, que imagens do inferno! Horrível, horrível, Angel, horrível...

Frases que ecoam...

- Angel, ela chamou-me a atenção porque não queria chamar a atenção, entendes?

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Num café da Expo...

Num café da expo, duas raparigas beijavam-se numa mesa atrás da mesa onde estava. Infelizmente, a minha mesa ficou em efervescência e um amigo meu olhava deliberadamente para trás.

Pedi-lhe que não o fizesse.

- Isso é má-educação. Deixa-as em paz.

Ele comentava e ria-se. Para mim, é um atitude boçal. Incomodou-me sobremaneira ser associado a pessoas que gozam, que se espantam - que tão somente REPARAM em algo que deveria ser «tão natural como os desenhos criados pelo pólen nas asas de uma borboleta...»

A empregada do café, brasileira, comentou com a nossa mesa:

- Se isto fosse no Brasil, havia um linchamento público... Não saíam vivas. Em qualquer parte do Brasil!


Gosto imenso de saber que os casais homossexuais começam a poder viver os seus afectos de forma livre, igual aos heterossexuais. É para aí que temos de caminhar.

Mas o mais difícil é a aceitação dos casais homem-homem.

O argumento:

- Eh pá duas gajas ainda curto ver, agora dois gajos, man... Foda-se, mete-me nojo!

Este argumento é um auto-atestado de atrasadice mental profunda. Pronunciarmo-nos sobre os direitos das pessoas com base num critério de agradibilidade visual é tão superlativamente quadrúpede.


Angel

Recortes do Real

- Ela queria ir para o ginásio, eu não deixei, tá calado, Angel, anda lá toda a gente o quê, meu, foda-se então a gaja vai para lá imagina fazer peitorais e tou memo a ver os mans todos a olharem p´ás mamas e a comentares. Foda-se atão, não é? Naquilo que nós fazemos vemos os outros fazerem.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Confissão/Caleidoscópio

... E então lembrou-se da frase de Oscar Wilde «Cria uma marca e depois desaparece». Criar um marca... Pois era isso que lhe faltava. Ter um estilo próprio. Único. Inconfundível. Inimitável. Deixar as suas impressões digitais no universo.

Descartes dizia que a vida era um floresta escura na qual nos encontrávamos subitamente. Íamos para a frente, ou para o lado esquerdo, ou para o lado direito, ou para trás - ou simplesmente não saímos do sítio. Quem poderia dizer qual o melhor caminho? Ninguém. Então uns seguiam por aqui, outros por ali, seguros na sua absoluta insegurança. A partir do momento que seguíamos um caminho, ainda que sem razão aparente, era útil que continuássemos... Porque era mais provável chegarmos a algum lado do que se recuássemos para o mesmo sítio. Ao menos até ali já tínhamos feito caminho. Então vai, vai, vai... Esquece-te da insegurança e vai, vai, vai...


Ele lembrou-se, uma a uma, de todas as pessoas que passaram na sua vida - absolutamente todas, mesmo as que só se cruzaram de raspão uma vez no elevador há muitos muitos anos... Todos os bons-dias que lhe foram dados por todos os porteiros e por todas as recepctionistas vieram nítidos à sua mente - mais nítidos do que na altura.


Pensou em todas as pessoas que conhecia e começaram a vir-lhe à mente todas aquelas que tinham deixado uma marca. Não eram necessariamente as mais próximas - algumas já nem via há anos. As pessoas de personalidade mais definida em alguma divisão do hotel das suas almas.


Todas as pessoas que na tinham seguido um caminho, qualquer que ele fosse, na floresta escura, e sem saberem para onde íam, continuaram, continuaram na senda do ímpeto inicial...


Começou a escrevê-las. Fez uma lista das pessoas que conhecera que criaram uma marca.

Lembrou-se do João que «sugava o tutano da vida». Lembrou-se do seu optimismo, da sua alegria e sorriu. A sua mera presença era um contágio físico, orgânico de alegria. Como Borges dissera, «no passado cometi o maior dos pecados: não fui feliz.» O João era o joie de vivre. Um dia dissera-lhe que mesmo que soubesse daí a semana, viveria essa semana em grande, experimentando tudo o que lhe faltara. Mas depois viu nesse anelo da semana aquilo que não gostava nele: a falta de um substrato ético, a não inclusão do Outro nos seus objectivos pessoais. Sem ele, ao contrário do João, não conseguia ser feliz.

Lembrou-se do Nascimento que se desligara do mundo, da sociedade, das convenções. Dispensa o trabalho, a escola, tudo, para ser um poeta livre. Bastavam-lhe uma casa, amigos, e fazer o que queria na vida com imenso tempo e pouco dinheiro, para ser feliz. Levantava-se quando queria, deitava-se quando queria, fazia todos os dias coisas novas - tinha total liberdade (a restrição financeira era minorada por um outro biscate). Contudo, lembrou-se que há 5 anos ele não podia ir ao cinema, que já passara fome, que não comprava um livro ou um jornal (os outros davam-lhe jornais fora de prazo), que nunca pôde ir jantar fora com amigos, e pensou que não conseguiria abdicar de tanto conforto material. Muitas vezes via o Nascimento como alguém feliz, mas depois lembrou-se do campo deserto que vira no seu olhar no fim-de-ano quando todos faziam objectivos para o ano vindouro e o Nascimento tremera, entrevendo o vazio que era a liberdade sem metas, sem objectivos, sem luta.

Lembrou-se da Bea, que mudavam de pessoas de ano em ano (às vezes menos, outras vezes pouco mais). «Farto-me das pessoas.» Pensou que ela é que estava sempre bem, sempe divertidas, com a sede de deslumbramento e mistério sempre carregada de néctar... E quando a sede murchava, as pessoas eram substituídas, de maneira a que as pessoas a surpreendiam sempre, a fascinavam sempre. Conseguia, dizia ela, desenvolver mais facetas de personalidade assim e a vida para ela era uma constante supresa. Detesto as pessoas que me querem pôr amarras. Pensou, contudo, que ela faria sofrer os outros - e que essa postura não o deixaria dormir em paz.

Lembrou-se do Filipe que vivia mergulhado em prazeres momentâneos que o faziam esquecer de tudo: viajens, grandes carros, muito sexo, alguma droga, noite após noite. Ele representava tudo o que ele desprezava. Só o inquietava como poderia alguém, nos intervalos dos prazes, não cair em sim - e vomitar perante a sua imagem no espelho?

Lembrou-se da Inês que, essa sim, era uma boa pessoa. Não julgava ninguém, não criticava ninguém, praticamente não sabia dizer que «não». Não havia uma pessoa que ela excluisse - para ela todos eram realmente iguais. Não dava uma opinião - a não ser que encarecidamene lhe a pedisse. Não violentava ninguém a ser de determinada forma. Contudo, a Inês parecia-lhe uam flor inodora, insípida, cuja ausência de julgamento podia radicar num vácuo no centro dela própria - o espaço vazio onde não morava nenhum eu... No fundo, o medo tolhia-a e era a expressão primordial da sua vida. O medo, por exemplo, expresso na parcimónia exagerada da sua reserva de juízos. Receava talvez que ao julgar os outros, os outros devolvessem o julgamento - ou, pior do que isso, que ela própria ao começar por julgar/avaliar as pessoas, acabasse por se julgar/avaliar também a si.

Lembrou-se do António, pessoa de valores e princípios escorados no mais fundo da polpa do seu espírito. Uma pessoa que agia, determinada, focada, devotamente. Nada fazia em vão. Grande parte do seu tempo e energia mental era dedicada a causas que considerava úteis para os outros, para a sociedade, para o mundo. Vivia em permanente missão. Mas depois lembrou-se que este feitio escondia um monstro narcísico que fazia as acções boas sempre de luz acesa, e nunca no escuro do quarto, e percebeu a necessidade do som das palmas. Lembrou-me também de que o António estava muitas vezes revoltado, senti-se incompreendido, sentindo todo o peso da ingratidão do mundo sobre si. Uma vez chegara a comparar-se a Cristo. Ainda assim este rancor não o mergulhava numa apatia - e ele continuava sempre a lutar. O pior era os tiques nervosos, a caspa derivada dos nervos (segundo o médico), e a pele a cair pelo stress (pelos nervos, também segundo o médico).

Lembrou-se do Tiago que era feliz, fazendo todos os dias a mesma coisa, indo todos os dias aos mesmos sítios, vendo todos os dias as mesmas pessoas e nunca saindo do seu cantinho (desde que não acontecesse nenhum cataclismo no seu cantinho, todos os dias eram bons!). Para Tiago a amizade - estável e duradoura - era sacrossanta e uma fonte quotidiana e inesgotável de felicidade. Bastavam-lhe amigos todos os dias no café, amigos todos os dias a ver a bola, amigos todos os dias para estar, falar, brincar, jogar, cafezar, rir - e era muito feliz! Como dizia o inspector do O Barão de Branquinho da Fonseca: «Ir todos os dias ao mesmo café, ver as mesmas coisa todos os dias! Se soubessem a felicidade e paz de espírito que isto dá a um homem! Como as ideias adquirem continuidade e nitidez. A natureza rege-se pela quietude. As árvores não são móveis. Os animais também não se mexem, a não ser movidos pela necessidade física, de clima ou alimento.» Contudo, o tiago tinha as vistas muito curtas, faltava-lhe mundividência - e com ela, a tolerância. No fundo, fazia como a avestruz...

Lembrou-se da Didi, da sua crença em Deus - e essa pareceu-lhe a maior segurança que alguém podia ter. Acreditar na Inteligência Cósmica, fazer tudo o que podia pela sua vida e pela dos outros - e deixar Deus tratar do resto. Viver essa leveza. Viver o amor pelo próximo. Mas depois lembrou-se da impotência perante o sofrimento do outros nos casos mais difíceis, como a impossibilidade de agir em África... Até que ponto deveria embotar a sua sensibilidade perante o sofrimento do Outro, sempre que o sofrimento do Outro estava fora do seu alcance?


Angel-cheguei-exausto-ao-fim-deste-texto

O Nirvana para o qual caminho...

Sair do meu eu - ver tudo de lado nenhum. Ser todas as pessoas e ao mesmo tempo, e por isso, nenhuma.

Expressões intraduzíveis

Uma expressão em língua estrangeira que adoro, que me anima só de ler, e que acho absolutamente singular e magnífica:

Joie de vivre.


Imagino girassóis quando esta palavra brota no meu quotidiano.

ANgel

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Out of this world

When we look back at it all as I know we will
You and me, wide eyed
I wonder...
Will we really remember how it feels to be this alive?

And I know we have to go
I realize we only get to stay so long
Always have to go back to real lives
Where we belong
Where we belong
Where we belong

When we think back to all this and I'm sure we will
Me and you, here and now
Will we forget the way it really is
Why it feels like this and how?

And we always have to go I realize
We always have to say goodbye
Always have to go back to real lives

But real lives are the reason why
We want to live another life
We want to feel another time
Another time...

Yeah another time

To feel another time...

When we look back at it all as I know we will
You and me, wide eyed
I wonder...
Will we really remember how it feels to be this alive?

And I know we have to go
I realize we always have to turn away
Always have to go back to real lives

But real lives are why we stay
For another dream
Another day
For another world
Another way
For another way...

One last time before it's over
One last time before the end
One last time before it's time to go again...

The Cure

O inominável fim

- Ninguém está preparado para morrer. Se já pensei nisso? Uiiiii uma porrada de vezes. Já sonhei até com a minha morte. Eu no caixão, as pessoas a chorarem à minha volta, as viúvas a puxarem do lenço, o padre, tudo vestido de preto, e eu ali deitado no caixão. Mas é diferente - é diferente porque para eu ver isto tudo, eu tinha de estar vivo. Eu via as coisas todas em meu redor. Era espectador da minha morte. Sabes, Angel, mesmo as pessoas mais religiosas que dizem «Sim, sim, eu vou para o céu» resistem doentiamente a morrer. É impressionante! Então, mas se vais para o céu, já tens idade e estás a sofrer, porque queres ainda não morrer? Sabes o que é Angel? É a carapaça animal a debater-se. Quando ouve falar em morrer, a nossa carapaça animal eriça-se toda. Percebes?

Velha Ancião

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

2058

Segunda-feira 8.00, 11 de Fevereiro de 2058

Seis homens armados entram num prédio a verificar se todos as pessoas já estão acordadas. No prédio em Benfica, apenas um condómino estava na cama. Foi multado com 5000 euros. Dos restantes diurnos, apenas um não tinha passadeira em casa - e por isso foi preso preventinamente.

A ASAE apresentou números esmagadores:

- Desde que fiscaliza as casas privadas, que houve uma melhoria na saúde pública. Menos 4501 ataques cardíacos, menos 1923 AVC´S, e a esperança de vida aumenta 3,7 anos.

Os manifestantes pela «beradade» (derivativo de um anacronismo «Liberdade»), esse conceito abstracto e pernicioso do passado que só trouxe mortes e doenças, foram ataques com jactos de água salina, 100% pura.

O primeiro-ministro desvalorizou o acidente:

«Querem voltar ao passado e aumentar os problemas cardiovasculares, o sedentarismo, a obesidade, o alcoolismo e o já erradicado tabagismo? Esses manifestantes são pessoas do passado... Nem sequer os dentes lavam de manhã! Penso que este pormenor diz tudo sobre essa escumalha! Obrigado.»


Angel

Vida Real e Ficção, a ténue linha do sonho

Aquilo de que uma pessoa se envergonha, normalmente dá uma boa história.


Todos nós temos na vida três ou quatros histórias marcantes - e é sobre elas que devemos escrever.


F. Scott Fitzgerald

domingo, fevereiro 10, 2008

Vertendo ternura pelos que chamam de «monstros»

Um dia li uma carta que o Unabomber (o terrorista contra a tecnologia que viveu duas décadas nas montanhas a enviarem bombas artesanais contra pólos tecnológicos) escreveu à sua mãe.

Nela fazia uma catarse dos seus traumas, que fizerem dele um homem solitário e triste que foi viver para a o meio da Natureza, desistindo da sua carreira brilhante de matemático na universidade (doutorado com distinção).

- Mãe, quando éramos mais novo, na aula de educação física, dividiram a turma entre quem ia jogar futebol e basquetebol. Eu não fiquei em nenhuma e ninguém reparou. Eu não contava... E tu mãe e o pai sempre se preocuparam em ter um filho brilhante, mas não feliz.

Quantos pais procuram ter filhos brilhantes, mas não felizes?

Angel

Charlotte Sometimes IV

she hopes to open shadowed eyes
on a different world
come to me
scared princess

Charlotte Sometimes III

she was crying and crying for a girl
who died so many years before...

Charlotte Sometimes II ou Auto-retrato

sometimes i dream
where all the other people dance

Charlotte Sometimes I

charlotte sometimes dreams a wall around herself
but it's always with love
with so much love it looks like
everything else
of charlotte sometimes
so far away
glass sealed and pretty
charlotte sometimes

Charlotte Sometimes

sábado, fevereiro 09, 2008

A mim não me enganam

- Podem vir com as mulheres, com os filhos, ao fim de dois minutos de convivência, topo-os logo!

Guilherme de Melo

Frases que ecoam

- Angel, o homem é mais tarado do que uma mulher, tem mais energia sexual. Agora imagina o que é dois homens juntos! Quando dois homens estão na cama, é o máximo de tesão que possas imaginar!

Homossexualidade

- Angel, eu não quero discriminar os gays, mas já viste que eles são muito mais promíscuos?

Um heterossexual não se dá, regra geral, ao trabalho de pensar como seria a sua vida caso fosse homossexual. E é precisamente por nunca ter feito esse exercício, que lhe parece que não há discriminação e que eles podem ter uma vida normal.

Que eu saiba, muito muito poucos serão os pais que farão sentir como irrelevante aos filhos que lhes decidam dizer:

- Mãe, Pai, sou gay.

Já imaginaram a pressão de alguém que o diga numa instituição militar? Num clube de futebol? Ou de alguém que monitorize crianças (dado que há tanta gente a confundir pedofilia com hmossexualidade).

O Expresso uma colocou na primeira página em letras garrafais:

Portugal tem um milhão de homossexuais (neste cálculo, incluíam-se os bixessuais também).

Se são 10%, como explicar que todos já vimos milhares e milhares e milhares de pessoas de mão dada na rua e apenas um ou dois casais homossexuais (há mesmo que nunca em solo português o tenha visto - conheço pessoas assim)?

Pela pressão da sociedade como é óbvio. Pelo opróbrio social que ainda é, pese embora a prática discursiva do politicamente correcto.

Alguém já imaginou a tortura que é uma pessoa ter de viver a sua afectividade na clandestinidade?

É natural que a clandestinidade atraia mais promiscuidade.

Porque um homossexual para conhecer outros, tem mais dificuldade que um heterossexual. Em primeiro lugar pela menor expressão numérica de homossexuais face a heterossexuais. Em segundo lugar, pela estúpida e absurda discriminação.

Primeiro, têm que descobrir quem é homossexual, depois têm de cortejar na sombra, depois têm de amar entrincheirados.

Dos homossexuais que conheço, alguns vão à net e outros a bares gays. Outros há também que não fazem nenhuma das duas.

Como vivem cerceados, é natural que quando se possam expandir, expludam...

Para além de que, para quem diz que os homens são menos fiéis do que as mulheres; estamos a falar neste caso de dois homens...

Espero ter respondido ao meu amigo que acha, a meu ver erroneamente, que a condição promíscuo é constituinte da condição de se ser homossexual.

A única diferença entre um homossexual e um heterossexual é que o primeiro gosta de pessoas do mesmo sexo que o seu.

Angel
A estabilidadezinha não me diz nada.

Angel

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

O homem que se sentia losango

- Como estás?
é uma bela questão. Normalmente respondo
-Sei lá
porque não gosto de mentir. E sei lá de facto. Umas vezes estou redondo, outras quadrado, outras cheio de picos, outras liquefeito, outras não estou sequer: deslizo por aí armado em nuvem.
- Como estás?
e é impossível de responder
- Deslizo por aí armado em nuvem
de modo que me calo(...)

António Lobo Antunes, Visão

Frases que ecoam...

- Angel, as mulheres mais bonitas não são as mais intelectualmente estimulantes. Parece que Deus é socialista ah! ah! ah! ah! e nunca distribui por completo todos os atributos positivos na mesma mulher. Talvez porque uma mulher quando é bonita, se acomoda e, por preguiça, acha que não precisa de ser muito culta para ser interessante porque já é muito bonita. Ou, então, porque as mulheres bonitas são as que mais trabalharam o corpo e enquanto trabalharam o corpo, não cultivaram naturalmente a mente. Passar horas numa passadeira não te exercita os neurónios, não é?

Pessoas que se reconhecem por pontinhos imperceptíveis aos outros

Há pessoas que têm um mundo interior muito rico e profuso. Vivem mais nele do que cá fora.

Uma vez fui apanhado. Sim, sou dos que tem um mundo paralelo.

Uma amiga minha, que também tinha um mundo paralelo na sua cabeça, apanhou-me. Ela costumava ausentar-se de repente... Estava muito embrenhada na conversa e subitamente víamos que apesar de nos fitar, já não estava connosco.

Uma frase fazia-lhe lembrar algo que lhe fazia lembrar algo... e ela deslizava deslizava para dentro da sua concha.

Um dia ela apanhou-me:

- Angel, eu reparei pelo teu olhar quando te conheci que és como eu: tens um mundo teu. O teu olhar desvia-se e ficas a pensar no teu mundo, alheio de tudo à toda volta, dentro do teu mundinho.

Angel

Just Like Heaven

you... soft and only

you... just like heaven


The Cure

Em todos os livros se aprende algo

Ao ler um livro de marketing, descobri que estamos separados de qualquer pessoa do mundo por apenas seis pessoas. É mesmo verdade o que tomara por um rumor infundado. É matemática a explicação.

Imagina alguém que gostasses de conhecer. Por exemplo, o Johnny Deep. O teu dentista é vizinho do primo de um professor da américa cujo filho é colega de escola de uma rapariga que namora com o vizinho de baixo do filho do Deep.

Outra coisa que aprendi: todos nós temos vontade de fazer coisas que reprimimos socialmente (truísmo) e cada um tem o seu limite inconsciente do número de pessoas que precisa de ver fazer o que deseja fazer para o fazer.

Confuso? Seguramente, muito confuso.

Imaginemos um exemplo. Um café onde as pessoas morrem de calor, mas não há esplanada. Pela porta entreve-se uma ventoinha lá fora.

Alguém pega numa cadeira e vai para fora do café sentar-se junto à ventoinha. Passado um bocado outra pessoa, gotejante de suor, junta-se-lhe (o seu limite era um)e leva a sua mesa, a sua bebida e a sua cadeira.

No café, os clientes espreitam para fora e... vão se levantando... vai seguindo outra pessoa para fora, e outra, e outra. Até que o café está todo lá fora, desinibido e feliz, à medida que as pessoas limite 10, as pessoas limite 11, as pessoas limite 12 vão saindo...

Qual o teu limite-de-pessoas-que-precisas-de-ver-fazer-o-que-queres-para-teres-coragem-de-sair-da-tua-zona-de-conforto?

Angel

O perene, o fútil e a demanda...

O Ratzinger ou BENTO XVI (li livro com todo o seu pensamento estruturado) tem posições e fundamentos para as mesmas muito mais retrógradas que João Paulo II.

Na sexualidade (o ponto mais conservador de João Paulo II), a coisa mantém-se e o fundamento é o seguinte: Só pode haver sexualidade quando haja uma intencionalidade de fecundidade.

Isto significa, logo à partida, que todos os homossexuais e lésbicas estão excluídos, são proscritos pelo Deus que Bento XVI decidiu monstruosamente inventar.

Em segundo lugar que as pessoas que se amam só devem ter (depois de casarem pela Igreja) relações para procriar - para terem filhos. Isto significa que um mulher a partir dos trinta e tal anos, deixa de poder fornicar. Ela e o seu cônjuge, naturalmente.

Porquê? Se duas pessoas se amam, porque não poderão fazer amor? O sexo, escreveu Pessoa através do heterónimo de Bernardo Soares, é uma saudação entre almas. É uma consubstanciação do Amor.

Claro que os católicos estão-se nas tintas para estas imposições inadjectiváveis do "seu" Papa. E o divórcio entre a cúpula e a base vai aumentando...

O que devia a Igreja fazer?

A meu ver, proclamar o sexo indissociável do amor. Isso, sim, tem fundamento espiritual!

O sexo seria portanto a fusão de dois corpos, duas mentes, duas almas. Porque o sexo enquanto experiência vazia é um prazer momentâneo, carnal, animal. O sexo, quando implica um conhecimento do parceiro, intelectual, emocional, espiritual - é muito mais saboroso, muito mais lento, muito mais... completo.

Cada vez mais os jovens procuram a satisfação momentânea, e não procuram o perene - o alimento primordial da alma. Era isto que a Igreja deveria trilhar... Tinha muito para desbravar. Espero que o entenda.

Porque, de facto, os prazeres momentâneos não são conducentes a nada para além deles próprios. E os prazeres têm uma linha divisória muito ténue na areia, onde começa a praia dos vícios.

E porque é que os prazeres nos podem afastar da senda espiritual?

Dou o meu exemplo. Quando vou para uma vivenda de verão, faço sempre muito mais meditação do que quando estou na azáfama do quotidiano. Há dez anos que noto essa diferença abissal... Na vivenda, não tenho televisão, DVD, MP3, Internet - quando a distracção sensorial é menor, olha-se mais para dentro, reflecte-se mais no que queremos, no Universo, na nossa relação com os outros (a isto tudo, eu chamo meditação).

E os prazeres, sejam dos vídeojogos, de beber compulsivamente, de comer compulsivamente, do sexo casual compulsivo - tudo isso nos afasta da busca do perene, repito, do olhar para dentro, da busca, repito, do alimento primordial da alma.

Não é por acaso que os artistas de elite, que as elites da televisão, da moda, que já experimentaram cocaína, entrar em orgias de sexo, viagens de iate - cada vez ficam mais sumptuosos nos seus caprichos. Para algo os satisfazer, tem de ser uma novidade. E para estes meninos ter a sensação de frescura de algo novo, tem de ser algo muito rebuscado. É que eles já experimentaram tudo. É neste contexto que às vezes cedem ao bizarro:

- Hoje, apetecia-me um miúdo.


Angel

Palavras Bonitas que escondem Ideias Feias

- Eu sou tolerante para os homossexuais.

Tolerante? Foda-se, não quero que sejas. Tolerar é condescender, ter ascendência sobre algo - e exercer magnanimamente a escolha da compreensão, do perdão da falha.

Mas qual falha? Não tens que tolerar nada.

Alguém ser homossexual ou heterossexual só te deve deixar indiferente como alguém ser do Sporting ou do Porto.

Angel

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

A vida é, toda ela, um acto de demolição.

F. Scott Fitzgerald, A Fenda Aberta

Comunicar em Poesia

Diz a Adília Lopes que se na adolescência um trolha lhe tivesse dito «ò boa, comia-te toda», hoje ela seria uma mulher segura de si.
Balança

No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

Eugénio de Andrade

Frases que ecoam...

«É sinal de inteligência de primeira água a mente ter duas ideias contraditórias e manter a sua capacidade de funcionamento.»

«Na noite mais escura da alma, são sempre três horas da manhã.»

F. Scott Fitzgerald, A Fenda Aberta

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

«Qualquer pessoa que tenha trabalhado em publicidade,terá de admitir que o seu contributo para o bem-estar da humanidade é zero.»

F. Scott Fitzgerald

A liberdade

No Prós e Contras, uma senhora defendia o direito dos fumadores e o seu argumento não colhia: a liberdade.

Pois, claro, numa época materialista e pragmática, essa história da liberdade é demasiado etérea, intangível, abstracta...

Apresente dados minha senhora!

Mas a liberdade...

O número de enfartes baixou.

Mas e a liberdade.

O Centro Comercial Colombo era um sítio onde ninguém podia ir.

Mas a liberdade de escolha, senhores?


Um dia li que quem procura ver na liberdade algo mais do que a própria liberdade, não nasceu para a liberdade.

Angel

Comunismo acabou, mas os mercados não podem funcionar sem regras e sem Estado

Cristiano Ronaldo vai ganhar qualquer coisa como 160 000 mil contos por mês (fora todos os extras, todos os prémios de jogo, todos os balúrdios dos seus direitos de imagem).

Será que o Estado não deveria regular isto?

Angel

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Arte Infinita

Stanley Kubrick disse que toda e qualquer explicação do artista sobre a sua obra, vai limitar - ou mesmo eliminar - todas as infinitas interpretações do público, reduzindo-se a única interpretação da obra à do artista.

Concordo em absoluto. E, para além disso, uma obra de arte que não se «explique» por si; é incompleta. A chave tem de residir nela, não fora de ela. Explicá-la é acrescentar-lhe um bocado que ficou esquecido.

Tudo o que está fora dela é excedentário face a ela. Herberto Helder compreende isto. E vive assim. Não dá entrevistas e não recebe prémios. Porque sabe que as entrevistas e os prémios nada acrescentam à Obra - e que só ela interessa para o artista.

Angel

Privacidade & Hipocrisia

Em conversa com uma pessoa que tem um restaurante, eu disse:

- Eh pá, uma coisa boa que o teu restaurante não tem é câmaras! - disse eu, convencido de que depois de um amigo meu me ter explicado como detectar câmaras dissimuladas, conseguiria descobri-las.

- Ai não tem, Angel?

- Não. (e expliquei como as detectar)

- Pois, fica sabendo que tenho 16 câmaras aqui. (e mostrou-mas)


Nós não imaginamos a maneira como somos controlados. E não imaginamos o que quem está detrás das câmaras, a ver as imagens faz. Sei de um ginásio onde até os balneários eram filmados (confirmado pelo proprietário). E casas de banho de discotecas? Isso é é o prato do dia.

O último reduto da privacidade morre. O Lobo Antunes numa entrevista diz que, quando saiu do hospital, na fase do cancro, foi repetidas vezes fotografado por telemóveis, gulosos do dinheiro que as revistas lhe poderiam pagar. «Magro e curvado», diz Lobo Antunes com pesar.

Paralelamente à morte da privacidade como valor fundamental (mais do que a privacidade, a intimidade); aumenta o escrutínio sobre o carácter e os vícios privados das figuras públicas como forma de validação ou não dos mesmos.

Vejam-se os políticos. Eu não gosto do Sócrates, nem pessoal, nem politicamente, mas já me mete nojo esta perseguição do Público ao homem. Coincidentemente, depois da OPA do Belmiro ter sido chumbada.

Nos EUA, o Bill Clinton foi corrido por ter tido relações extra-conjugais. O que é que isto tem que ver com a política interna e externa dos EUA?

Com o aumento dos paparazzi
e o desprezo da privacidade pelos media (e pelos leitores que compram esses media), vai recrudescendo o conhecimento que as populações têm da vida pública dos políticos - tornando-se a sua vida privada um elemento a ter em conta nas votações.

Há-de chegar o dia em que se implantam chips no políticos para que nós acompanhemos 24 horas por dia os seus bons e maus pensamentos.

Angel

Os Neutrinhos

«Quando vejo unanimidade à minha volta, pergunto-me logo o que terei feito de errado.»

André Gide

Twilight Zone

Nos EUA, os candidatos a Presidente têm acessores e acessores e milhões e milhões de dólares com imagem (não falo do marketing, falo dos consultores que dizem o que fazer e o que dizer). O próprio Jay Lenno tem todo o "seu" humor escrito por outros!

Isto é um mundo de fantoches e marionetas puxados por cordas invisíveis.

Ver tudo de lado nenhum

Estamos tão imbuídos de nós, tão mergulhados em nós, que dificilmente conseguimos ver as coisas com os olhos do Outro.

Todas as nossas ideias são véus que encobrem o mundo e outros. Maya, no fundo.

No Amor, é quando estamos mais perto de entrar noutra cabeça, noutro coração.

Às vezes saio de casa e olho para as pessoas como se não fosse eu, como se fosse o universo. Ajuda a compreender, ajuda a amar.

Angel

Ainda há censura...

http://www.clubedejornalistas.pt/DesktopDefault.aspx?tabid=1109

2

Há pessoas que acham que tudo se auto-regula, que as coisas equilibram e que não se deve «mexer na fruta». É esta a filosofia do tauismo: não procurar bulir na harmonia das coisas.

Há pessoas que precisam de ter uma actuação sobre o curso da corrente - para se sentirem vivas. Há pessoas que vêem na passividade, muitas vezes um crime.

Há pessoas que só dão opinião quando lhe as pedem. Há pessoas que acham uma violência dizer que uma ideia é melhor do que outra, e que, como tudo é relativo, devemos respeitar as opiniões dos outros e nunca discutir.

Há pessoas que não têm medo de expor as suas ideias e de as verter para o mundo: vai-pensamento...

Há pessoas que acham que as pessoas não mudam. E que, quando mudam, mudam por elas próprias.

Há pessoas que acham que as pessoas mudam. E que podem mudar por influência dos outros.


Angel-situo-me-alínea b)

Frases que ecoam nos meus ouvidos

- Angel, eu andei com ele e na altura não quis continuar. Ele não era uma pessoa que preenchesse minimamente. Passados seis meses, comecei a sentir um apelo enorme, uma vontade enorme de estar com ele, uma saudade incrível, comecei a vê-lo de uma forma bonita como nunca o vira.

Inês

- O meu pai só foi aceite por mim muito depois da sua morte. É curioso:as pessoas vão mudando dentro de nós. Às vezes na sua ausência, gostamos, não gostamos, gostamos... As pessoas vão mudando cá dentro, entende? Não sei se lhe acontece o mesmo?

Lobo Antunes

Aconteceu-me num bar

- Queria um Baileys.

- Isso é bebida de menina. Diz lá o que queres. - diz-me a barmaid.

- Um Baileys com gelo.

- Vou ficar a pensar que és maricas. Não queres antes um whisky ou um vodka?

(silêncio da minha parte)

Ela lá trouxe o Baileys.

A Arte de Viver sendo Frontal

Uma grande parte dos problemas entre as pessoas, dos afastamentos, das zangas e incompreensões deriva apenas da falta de comunicação.

Tudo aquilo que não dizemos ao Outro e que nos magoou, é - mais cedo ou mais tarde - metamorfoseado em rancor. E o ressentimento mata.

Angel

Temos a percepção ao contrário, não é?

O orgulho é uma fraqueza disfarçada de força. As pessoas que não se deixam nunca, por nunca, pisar, serem insultadas; que reagem a todos os ataques ao seu ego - se calhar, são essas as mais frágeis.

As passivas, pacientes, que aguentam a injúria, que não respondem a todas as críticas, que admitem ser gozadas - se calhar, são as mais fortes.


Angel

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Conselho a quem escreve

Usar um ponto de exclamação é como rir da própria piada.

F. Scott Fitzgerald

e.e. cummings ou a beleza das coisas simples ou o poeta que assinou o seu nome em minúsculas

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

(...)

pois sempre que os homens têm razão não são jovens

domingo, fevereiro 03, 2008

A minha religião

Acredito que aquilo que atiramos para a vida dos outros, um dia nos será devolvido, como um boomerang.

Acredito que o mundo do espírito e o mundo da matéria são coisas distintas. Esta luz intangível, este fantasma na máquina (Descartes) é intangível - mas existe - e, tal como a matéria, que nunca se perde, nunca se ganha, sempre se transforma; também o espírito nunca se ganha, nunca se perde, sempre se transforma. Daqui a dizer que a vida continua depois da morte vai um pequenino passinho.

Acredito que cada pensamento, cada palavra, cada acto, por mais pequeno que seja, deixa impressões na mente que podem durar anos, décadas, sucessivas vidas. Acredito que aquilo que mais desejamos deixa uma impressão na mente da próxima vida.

Acredito que o sentido da vida é a evolução, a progressiva escada, a libertação, vida após vida, do egoísmo, do materialismo, dos prazeres. Acredito que os prazeres facilmente se tornam prisões. A preguiça, o sexo, a ambição - vamos cedendo, vamos subindo a espiral e afastando-nos do caminho espiritual que conduz à verdadeira felicidade, à verdadeira liberdade.

Acredito nas energias positivas e negativas. Acredito que é possível sentir a energia num determinado espaço mesmo de olhos fechados e ouvidos trancados. Acredito que os espaços, as pessoas e as flores têm energia - em constante mutação.

Acredito que quando temos um dilema, se estivermos atentos, o universo nos sussurrará sinais de qual o caminho a trilhar. Não acredito na sorte e no azar. Não acredito em coincidências - acredito em peças soltas do Grande Puzzle que podemos montar.

Acredito que os maus sentimentos nos perturbam a saúde. Acredito que uma simples manifestação de ira aumenta a minha probabilidade de um pequeno acidente, como tropeçar nos próprios pés, ou trincar a língua e fazer sangue.

Acredito que o maior prazer não é receber, é dar.

Acredito que a Vida não faz sentido se o balanço que fazemos: a felicidade que proporcionámos aos outros, o sofrimento que infligimos aos outros - não for positivo. Para que viemos então ao mundo?

Acredito que tudo o que fazemos deve ver testada a sua validade, verificada pela resposta à seguinte pergunta: - Qual a utilidade disto para os outros?

Acredito que a maior experiência do mundo, aquilo que nos liga ao universo, aquilo que confere sentido à nossa existência é o Amor - especialmente na forma de Ágape.


Angel-a-lei-de-causa-e-efeito-também-rege-o-mundo-imaterial

Da Educação

Os rankings das escolas estão escorados nas notas dos exames nacionais. É um critério imparcial.

As notas dadas na escola são variáveis de acordo com o grau de exigência de cada escola - e o grau de exigência de cada escola depende sempre da bitolo dos discentes. Se os alunos forem muito maus, naturalmente que os professores não os chumbam todos, tendo de diminuir o grau de exigência.

Os exames nacionais são, por isso, uma forma de contrabalançar esta arbitrariedade - porque são iguais para todos.

Descobriu-se o que já se sabia: que as melhores escolas são colégios privados. Desta evidência, alguns homo economicus têm tirado conclusões que convém rebater. Estes economistas economicistas ( que não conhecem mais nada para além dos axiomas da necessidade de maximização dos lucros das empresas e o princípio de que os mercados se auto-equilibram) têm afirmado:

- É claro que as privadas são as melhores porque são as mais caras. Se têm um preço de entrada mais caro, é porque ministram o melhor ensino. Quem quer ter o melhor ensino? Os melhores alunos.

Isto pode parecer lógico, mas é monodimensional e deixa o essencial de fora.

Quem frequenta colégios, tem normalmente papás com dinheiro. E isso significa que têm dinheiro para comprar os livros todos. Significa que têm possibilidade de ter explicações. Significa que os alunos, regra geral, têm tempo e disponibilidade mental para estudar - não trabalhando durante o dia numa pizzaria ou num call-center como os chungas da escola pública. Significa que muitas vezes os trabalhinhos que levam para casa são feitos pelos papás.

Um conhecido meu, indefectível da Universidade Católica, dizia que esta tinha uma taxa de empregabilidade alta porque «tem os melhores professores e tem alunos génios».

Ignora ele, por certo, que os meninos da católica têm pais com contactos influentes e que o factor cunha é, de uma forma pouco cristã, usado impunemente pelas mamãs e papás para porem o filhinho no banquinho da opus deizinha.


Angel

Uma estranha, perturbante, máxima

Não te leves demasiado a sério, mas leva o mundo a sério.

Gonçalo M. Tavares
«Durante a vida de Scott Fitzgerald O Grande Gatsby vendeu 14 mil exemplares. Agora vende 16 milhões por ano. Ele estava adiantado em relação ao tempo dele. Tudo pode acontecer. É o tempo que faz a escolha e não sabemos que espécie de escolha fará.»

Entrevista de António Lobo Antunes à Tabu

sábado, fevereiro 02, 2008

Amigos dormindo juntos

Quando era mais novo, e tinha visitas em casa, nunca compreendia quando elas moravam longe, porque não pernoitavam na minha casa. Imaginava uma cama enorme onde todos comunitariamente dormissem.

Ainda hoje penso muito vezes nisso: uma cama larga e comprida, do tamanho de uma casa, onde pudessem dormir todos os meus amigos.

Citando Vinicius:

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos

O antídoto contra impantes

Perante as pessoas que não sabem discutir. Perante as pessoas ufanas e intolerantes. Perante as pessoas que dizem: «Tu não estás a perceber»; «Esta é que a verdade!»; «A ver se te consigo explicar». Perante estas pessoas, repetidas vezes tenho usado a seguinte frase, desmontando sempre estes Senhores da Verdade que ficam subitamente desarmados:

- Tens a verdade no bolso?

Angel-try-it

Um ângulo diferente mas muito importante

Gosto de ti, mais do que pela pessoa que és, pela pessoa que sou contigo.

Frases que ecoam...

- Angel, qualquer mulher já inventou dores de cabeça.

:(

Há tantas mulheres machistas.

Angel

O Mundo ou A percepção que temos dele

Um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, reinos, montanhas, baías, navios, ilhas, peixes, habitações, instrumentos, astros, cavalos e pessoas. Pouco antes de morrer descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.

Jorge Luis Borges

Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

E aqui anda a noite à roda, à roda e eu com ela como um papelinho com que o vento brinca, apanha-me, larga-me, empurra-me, corre, mais adiante, a prender-me nos dentes, esquece-se de mim, torna a lembrar-se, poisa-me uma pata em cima, vai-se embora. O vento. Em certas alturas, dantes, na casa velha dos meus pais, estremecia os caixilhos, na de Nelas batia um ramo contra a janela e eu deitado no escuro, com medo, enquanto o ramo falava sem cessar. Dizendo o quê? Nunca entendi o vento. Ontem, no fim do almoço das quintas-feiras no restaurante onde me junto a um grupo de amigos, o Vitorino e o Janita Salomé cantaram uma moda de Natal onde, a propósito dos Reis Magos, a letra pergunta que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? Eles dois um grupo inteiro, a voz do Janita borda por cima da voz do irmão e nós a escutarmos, encantados. Estes dois versos não me largam: que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? Gostava de usá-los como título de um livro: tocaram não sei onde, no mais fundo de mim, e eu comovido como tudo, com lágrimas dentro. Porquê? Vou repeti-los mais uma vez dado que não cessam de perseguir-me: que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? É quase Natal, uma época em que me lembro ainda mais do meu avô. Ruas iluminadas que tornam a noite triste, grinaldas de lâmpadas, uma festa que tremelica no escuro. Há horas recebi a notícia da morte do meu editor francês, Christian Bourgois. Era meu amigo, trabalhávamos juntos há vinte anos, depois da sua operação ao cancro fui por diversas ocasiões a Paris estar com ele. Uma manhã disse-lhe

– És um grande editor

ele respondeu

– Não há grandes editores sem grandes autores

e a modéstia das suas palavras alegrou-
-me. Tinha um imenso faro para descobrir talentos, não se tornou nunca um comerciante, os livros constituíram sempre a sua razão de ser. Não há muitos editores que eu estime e respeite. Que horrível coisa perder um amigo: e as grinaldas de lâmpadas a tremelicarem no escuro, a tremelicarem no escuro, a tremelicarem no escuro.
A melancolia das lâmpadas, gente por todos os lados, enervada, com pressa. Desde que cresci o Natal tornou-se uma multidão de gente enervada e com pressa. Que não fazem sombra no mar. Não fazem sombra em parte alguma, zangam-se apenas: deve tratar-se do espírito da quadra. Não fui eu que perdi um amigo, foi o Christian que perdeu tudo. Canta, Janita: que cavalos são aqueles? Negócio sinistro, o da Literatura, as maldades, os meandros, o dinheiro.
A quantidade de alturas em que me vêm ganas de não publicar mais nada. Isto para não falar daquilo a que chamam autores. Mas noventa e nove por cento desses, tal como a multidão de gente enervada e com pressa, não fazem sombra no mar. Há tão poucos escritores capazes disso. Canta, Vitorino: cubram-me de Alentejo até não sentir frio, de oliveiras a perder de vista, de campos. Quero ser um papelinho que o vento apanha e larga, empurra, prende nos dentes, esquece, quero um ramo contra a janela a falar sem descanso. Dá-me uma mãozinha, Janita: que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?


António Lobo Antunes



De onde tirou Lobo Antunes esta expressão/verso:

“Cantar os Reis”

Quais são os três cavalheiros
Que fazem sombra no mar
São os três do Oriente
Que Jesus vêm buscar

Não perguntam por pousada
Nem onde irão noitar
Perguntam por Deus Menino
Onde o irão achar

O senhor Zen

Um amigo meu contou-me a seguinte história:


Era uma vez, numa remota e longínqua povoação, uma família ancestral viu ser oferecida ao seu rapaz, por um forasteiro, um cavalo. Era nada mais nada menos do que o sonho do miúdo. A família exultou de alegria. O senhor Zen, porém, foi mais retraído:

- Se é bom ou mau, vamos ver, vamos ver...

- Então mas o miúdo sempre quis um cavalo e este cavalo é belo; é um portento da Natureza!

- Vamos ver, vamos ver... - dizia o senhor Zen.


O miúdo aprendeu a montar a cavalo e dava largos passeios pela terra, entusiasmado e alegre como nunca.

Um dia tropeçou do cavalo e partiu uma perna.

A família foi ter com o senhor Zen:

- Senhor Zen, aconteceu ma desgraça. O nosso rapaz partiu uma perna.

- Se é uma desgraça ou não, não sei... Vamos ver, vamos ver...

Os anos passaram e a fractura não melhorou, deixando o miúdo de andar a cavalo. A família refez-se do desgosto as poucos e o miúdo habitou-se a coxear.

Um dia, a guerra estalou, dizimando populações inteiras. Todos os jovens foram chamados, menos os não aptos fisicamente.

A família foi ter com o senhor Zen:

- Se não tinha a perna, lá tinham enviado o nosso rapaz. Esta guerra é um horror, senhor Zen.

- Vamos a ver, vamos a ver...