quinta-feira, janeiro 31, 2008

O altruísmo egoísta. A honestidade calculista.

Nada vale mais do que dormir de consciência tranquila.

Angel

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Frases que ecoam nos meus ouvidos

- Eu sempre fui um idealista, mas as pessoas sempre me esmagaram com pedras os meus sonhos, obrigando-me a seguir a corrente e a ser como eles. Mas deixei espaço sempre para uma raiz que vai sempre sempre lentamente florescendo. Estou farto de levar banhos de realidade. Angel, obrigado por puxares pelo meu idealismo.

Futebolês

Todas as profissões (médicos, economistas, juristas) têm os seus chavões. No caso do futebol, o léxico dos agentes desportivos (tirando Artur Jorge e Manuel Machado) é muito limitado o que dá um elemento engraçado adicional à prática discursiva de jogadores e treinadores.

Um jogador nunca sabe se vai para o Chelsea ou o Real Madrid - «só sei o que veio na imprensa. Eu tenho contrato com o Porto...»

Um jogador quando faz um hattrick, nunca recolhe os louros - «o que importa é o trabalho da equipa».

Um jogador nunca sente a pressão dos jogos futuros - «é pensar jogo a jogo».

Um jogador nunca, por nunca, desvenda tácticas ou filosofias de jogo - «é trabalho isso aí...»

Conheço pessoas que devoram futebol - o que não é problema nenhum (eu próprio gosto muito do assunto); o problema é quando falam de futebol, lêem de futebol. Como disse uma vez um entrevistado que li: Não há problema nenhuma em falar de mulheres, futebol e imperiais - o problema é falar disso.


Escrevo isto porque assisti a dois pontapés na gramática que, se esta tivesse corpo, ficaria com as pernas negras.

Observação prévia: há palavras que de tão usadas na gíria futebolística, já como que são património do futebol. Quem vê e ouve e respira futebol, já as ouviu. Como não as leu, o que entra de ouvido fica vago e desconexo.

A primeira situação foi de um amigo, pouco lido, amante do futebol que disse:
«Este trabalho é mais calmo do que o outro onde tava, Angel, ali dá para para se fazer mais pausatinamente, percebes?»

Coitado, ouviu tanto vez «a equipa a fazer a transição de bola paulatinamente» que se achou no legítimo direito de a usar.

Na segunda situação, uma pessoa que não conheceu disse ao meu lado:

«Curti ver o Sporting a infringir a derrota ao Porto, curti bué.»

Meu amigo, «infligir derrota» - é isso que os comentadores desportivos permanentemente dizem.


Angel

P.S. Um médico (creio que do Benfica) disse que o jogador x teve uma inflação meotársica no perónio. Isso significa quantos semanas? Dominar um assunto é conseguir explicá-lo a um leigo - é, no fundo, traduzi-lo por miúdos.

Frases que ecoam nos meus ouvidos

- Nunca me tento impor aos outros. As pessoas podem achar o que quiserem de mim. Mesmo que tenham preconceitos contra mim, só os vão desfazer se tiverem a paciência de me conhecer. Eu não rebato sequer a imagem que têm de mim.

...

- As palavras, as palavras... É incrível quando se consegue comunicar através das palavras. Ainda outro dia li «idiossincrasia». Pois claro, as características peculiares e únicas, o timbre, o estilo, o universo pessoal de cada um! Até aí tinha uma vaga impressão do que isto era, mas ao conhecer a palavra, verbalizei aquilo que até então era apenas uma impressão vaga. Cada nova palavra ajuda a arrumar questões, ajuda a definir e a saber o que sentimos e pensamos. Quanto mais palavras conheces, mais ideias e sentimentos arrumas. Por isso me faz confusão que a linguagem simplista das sms, da net, dos kapas e xis mate palavra e com essa morte, se matem ideias e sentimentos...

O livro é o instrumento para a cabeça criar locais, pessoas e mundos

- Quando estás a ler, não é o objecto livros e os olhos. É a cabeça de alguém (escritor) a penetrar na tua cabeça que vai criar lá coisas. Outro dia li a descrição de um floresta num livro do Zola, e eu estava a andar numa floresta, já vi as árvores e até mexia nelas, corria entre elas, deliciado a descobrir aquilo. Mas onde é que aquilo se passava. Porra, não era no papel! O livro cria coisas na cabeça, tudo se desenvolve lá, e se vive lá na cabeça que desenha, imagina e sente... É fabuloso!

Ancião Livreiro

Ter um filho

- Ter um filho é a descoberta do amor como nunca o conheceste. É um amor novo. Tu até aí conheces, se conheces, o amor à namorada ou namorada, o amor à família, aos amigos mais próximos;e depois tens algo... completamente novo e diferente.

Grandes Conversas...

- Quando leio, sublinho sempre as palavras que não sei e das que sei aquelas que gosto de ver como o dicionários as define. Por exemplo, Angel, Amor. Como será que o dicionário a define?

Frases...

- A maior parte das pessoas é refém do futuro. Querem ter um carro melhor, um corpo melhor, uma casa melhor, um emprego em que ganhem mais dinheiro... Eu valorizo tanto o que tenho.

Frases que ecoam nos meus ouvidos

- Viver é uma arte. Não trocava o capital de conhecimento e experiências pela minha juventude ultrapassada. A arte da vida vai-se aprendendo com os anos e é o conhecimento mais espantoso que se pode ter. A vida é esplêndida quando se tem a arte de viver.

Diálogos Reais

- Procurei sempre na vida e procuro sempre, fazer algo com utilidade social para os outros. Convém não nos deixarmos passar pela vida, fazendo as coisas de forma mecânica sem nos questionarmos: que utilidade para os outros tem o que faço?

- A utilidade para os outros e a perenidade. Como diz Pessoa na Tabacaria:

Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas

Gostava de deixar lastro na humanidade e a escrita para mim é a melhor forma de alcançar a perenidade, continuar a influenciar espíritos que influenciarão outros espíritos muito para lá da minha morte.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Frases que ecoam nos meus ouvidos

«Angel, vais acabar por pregar a castidade.»
«O sexo actualmente é, em larga medida, uma transacção de prazer e interesse.»

VPV

Lei da selva urbana

Quanto mais sumptuosos os carros, menor a tendência para os seus condutores darem a passagem aos peões.

Angel
Mesmo assim, ainda prefiro o imoral ao amoral.

Angel

Se

... tivesses de escolher uma só pessoa para habitares o mundo, quem seria?

Angel

Perceber

A revolução que o ensino precisa é: estimular os alunos a perceber e não a decorar. Pela maneira como se fazem as perguntas nos testes, vê-se logo:

- É para perceber;

- É para decorar.

Perceber estimula a elasticidade mental. Decorar ocupa memória útil da nossa mente.

Tinha uma professora que dizia:

«Se decorarem colam com cuspo e depois do teste, a matéria esvai-se num instante da vossa cabeça. O que percebem agora, ao invés, nunca irão esquecer.»

A propósito de «Paleta alargade cores»

Se desabássemos numa ilha só uma pessoa, teríamos uma elevada tendência para com o desenrolar do tempo nos apaixonarmos por essa pessoa. Quando o mundo só tem uma pessoa, o leque de escolhas diminui.

Angel

Frases que ecoam nos meus ouvidos

- Ele quer mostrar-me o que não é e não entende que eu gosto dele, não por aquilo que ele queria ser, mas por aquilo que ele é...

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Amor

«Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.»



Bíblia, I Coríntios

Sonhos

Quando os nossos olhos se abrem - o singelo momento em que não usamos máscaras - temos ainda a impressão do(s) sonho(s), que vai esmorecendo a sua vivacidade, como cores diluindo-se nas águas do esquecimento.

Mesmo os sonhos que nos arrebataram durante a noite, não sobrevivem ao dia - e quando sobrevivem vão-se esboroando e criando, com o tempo, cada vez mais e maiores buracos entre os momentos do sonho - caindo, caindo, caindo nos baús do olvido. Às vezes, às onze da manhã, tenho o sonho fresco e ainda estou tão dentro dele que demoro a perceber que tudo foi um sonho. Quinze minutos depois, a memória é apenas uma impressão, e meia-hora depois só me lembro de uma frase alusiva ao sonho (uma imagem, uma pessoa, uma sensação). Durante o dia desaparece tudo e eu sinto uma vontade enorme (e impossível) de recuperar algo do sonho.

Antes, tinha o hábito de escrever os sonhos, porque há sonhos magníficos e porque são poucos os fragmentos de sonho que sobrevivem perenemente na Memória.

Sonho com pessoas que não existem, pessoas que vi duas ou três vezes na vida, sonhos sempre com as pessoas distorcidas (rostos diferentes, penteados malucos) e com cenários sublimes e irreais.


Angel

domingo, janeiro 27, 2008

Paleta alargada de cores

Quando olhamos para trás, há pessoas de quem já não gostamos mas que foram importantes, e há os «erros».

AS pessoas mudam dentro de nós ao longo do tempo. Conheço casos de pessoas que só descobriram que amavam na ausência, que só descobriram a mulher/ o homem da vida algures lá atrás - muito tempo depois.

As pessoas que cometem erros têm tendencialmente uma característica: conhecem poucas pessoas. Ou: quando cometeram os erros, não tinham muita... escolha.

Não estou a fazer a apologia dos contactos, da futilidade, da matemática de quantos mais pessoas, melhor. Não, nada disso.

Simplesmente que se durante a vida toda tivéssemos conhecido quatro ou cinco pessoas, seria entre elas que estava a alma gémea. Se conhecermos mais... E quanto mais diversificado o estilo de todas as pessoas, mais ricos ficamos - e melhor sabemos o que queremos e não queremos.

A oportunidade é fulcral. Tinha um amigo que dizia que aproveitava sempre as fragilizadas (que no fundo são todas e todos em determinada altura da vida).


Angel

Tabacaria

Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido



Álvaro de Campos

Mistério

Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?

Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

Álvaro de Campos

Diálogos Reais ou Haja Prioridades

- Não li, eu não tenho tempo para ler. Viste a operação triunfo ontem?

:)

Sê a mudança que queres ver no mundo.

Gandhi

Para escrever bem

Diz-se que é preciso, em primeiro lugar, despejar o fluxo do inconsciente. E a seguir reescrever de forma lenta, racional, polir, polir, sacudir os advérbios de modo e os adjectivos, as palavras supérfluas - dizer o máximo dizendo o mínimo.

Como diz o Lobo Antunes, o problema não é escrever, o problema é reescrever.

É um ofício doloroso e obscuro (não sabemos de onde vem a inspiração). Mas a inspiração sem a transpiração redunda em nada.

Já tanto tanto tanto foi escrito desde Homero que é preciso, qual elefante em loja da porcelanas, é preciso, dizia, um esforço hercúleo para não recorrer a metáforas gastas (paixão de fogo, olhos rasgados, amor puro), plágios...

Uma professora de português conta que já não aceita redacções que acabem com:

«Abri os olhos e acordei.» O twist final de que foi tudo um sonho era delicioso quando não era usado. Agora que os miúdos abusam dele, esvaziaram-lhe a frescura do novo e imprevisível.

Surpreender torna-se cada vez mais difícil.


Angel-a-escrita-almeja-a-perenidade-e-o-infinito

Angel

sábado, janeiro 26, 2008

Provocador

4 pessoas numa mesa.

Um deles, homem, ensina como se faz sexo manual a uma mulher para que ela ejacule.

Uma rapariga diz que ele está lá perto.

Outra diz que não é bem assim e recorre à sua experiência:

- Eu já comi mais de 30 gajos na vida apesar de ser mais nova do que tu e sei bem como é que se fazem as coisas.

Eu estava calado. Quando me perguntaram o que fazia, disse com ar sério:

- Eu sei fazer broches.

E expliquei pormenorizadamente a fazer um exímio felatio.

Angel-é-fashion-ser-open-mind-mas-a-homofobia-persiste-persiste-persiste-mais-dissimulada-pelos-espartilhos-politicamente-correcto
Porque não nos lembramos da nossa vida até aos 3 anos? Será que existimos até lá?

Angel

Títulos de livros apelativos

Terna é a noite

O sorriso aos pés da escada

Entrevero

Bruscamente no Verão passado

Este lado do Paraíso

O livro do desassossego

Do que leio

Podemos não ficar juntos, mas nunca vamos sair da memória um do outro.

Do que escuto

- Ò Angel, não estás bem a ver. No comboio, entre as estações, imensa gente a sair para ir fumar. Eh pá, um espectáculo só visto. Eu estranhei ver tanta gente a acotovelar-se para sair, depois é que percebi: vai tudo fumar! Sabes que a multa para fumadores em espaços não-fumadores é superior a um gajo que fume um charro na rua?

Angel

Diálogos Reais

- Eh pá, tens aqui bueda livros em casa.

- Se quiseres leva. Gosto imenso de emprestar e de dar livros de que gostei.

- Népia, meu... Eu curto cenas mais práticas.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Para ti

Tens um mundo paralelo, e, por vezes, ausentas-te das pessoas, para entrares no teu mundo. Não penses que és a única pessoa no mundo - eu também sou assim.

Pensas, pensas, pensas, pensas. Se achas que o teu excesso analítico te atrofia a acção, não penses que é só a ti - és cá dos meus.

Tens uma pulsão igualitária, e gostavas de viver num mundo em que todos se tratassem com respeito bonito, ninguém dominasse ninguém, ninguém torturasse ninguém, ninguém invejasse ou competisse com ninguém para além de si próprio - sai da tua solidão, enleia a tua à minha alma.

Se nem uma melga matas quando ela ronda as tuas noites, se nem uma borboleta matas quando tomas banho, desligando o chuveiro até que ela se vá embora - eu e tu somos feitos da mesma massa, da mesma matéria dos sonhos.

Uma vez li uma reportagem que o Príncipe de Inglaterra viu um meteoro passar pela Terra numa ponte mesmo ao lado de um sem-abrigo. «Ambos estavam a olhar para o céu, lado a lado, e naquele instante ambos sabiam que eram iguais» - porque ambos eram dominados pelo medo do desconhecido, ambos eram esmagados pelo mistério cósmico sentindo a sua pequenez, ambos eram partículas finitas da Terra, ambos eram seres habitando o mesmo mundo de transitoriedade, ambos eram sonho e inquietude, ambos efémeros e perplexos perante o universo.

Se esta história te sussurra eternidade, somos irmãos.


Angel

Diálogos Reais

- Mas olha que ela não quer só dar umas quecas...

- Pois não.

- Se estás interessado, avança. Se não... deixa a miúda.

- Há sempre uma hipótese que é espetar-lhe com a cantiga do bandido.

- A cantiga do bandido?

- Sim, dizer-lhe que saí de uma relação longa e que agora não quero namorar...

Angel-ouvindo-os-outros

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Sem comentários

Na noite, alguém encontrou um individuo que se dizia (psicólogo?) especialista em avaliar pessoas pela sua... exterioridade, digamos.

Alguém lhe perguntou o que achava de mim.

Ele olhou-me sem eu o ver e disse:

- Ele tem a mania que é bom.

Acropolis aconselha

O meu amor tem lábios de silêncio
E mãos de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina
O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito
O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Sarou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura.
O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe.

Jorge Palma

Procuro-te

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Curso de relações humanas III (As caixas)

Não se aprende só no palco da vida, também se aprende nos livros. Os livros de Dale Carnegie ensinam muito sobre natureza humana.

No curso de relações humanas que tirei (gestão de stress + falar em público + comunicar com pessoas), aprendi muito.

Vi pessoas evoluírem abissalmente.

Um individuo, o Miguel, na primeira aula, quando chamado ao "quadro", não conseguiu falar com colegas. Uma pessoa que já não era um jovem. Tinha fobia, ou muito mais do que isso: um medo paralisante, de falar em público. Na última sessão (12ª), falou perante uma centena de pessoas num anfiteatro com um à-vontade que lhe permitia soltar piadas.

No curso aprendi que:

a) devemos tratar as pessoas pelo nome (quando conhecemos alguém estamos mais concentrados em antecipar o momento em que teremos de dizer o nosso nome do que em exclusivamente ouvir os nomes - como se nos pudéssemos esquecer do nosso próprio nome);

b) olhar nos olhos;

c) sorrir;

d) elogiar (com sinceridade);

e) é mais fácil comunicar com as pessoas criando-lhes uma reputação positiva que a todo o custo as pessoas tentarão manter do que criticando-as com uma imagem negativa que lhes exigimos que tenham de mudar.

Mas acima de tudo perdi uma coisa:

O medo do ridículo.

Quando sabemos bem quem somos e o que queremos - estamos-nos nas tintas para os outros (na melhor acepção da frase :) )

Nas aulas, éramos obrigados a saltar e pular e a fazer caretas ridículas para perdermos o medo do rídiculo:


- Eu tenho uma caixa muito graaaaaaaaaaaaaaaaaaaaande - dizia fazendo caretas e alargando os braços, saltando para cima e virando freneticamente a cabeça para os lado. Depois dizia exactamente o contrário. - Não, não, eu tenho uma caixa muito pequenaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. - E atirava-me para o chão a rebolar. - Muito pequenaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.


Angel

Pessoas

Tendo a achar mais interessantes as pessoas que não se encaixam em estereótipos. Sempre me rodeei destas pessoas. Que enganam...

Que podem ser vegetarianos, de esquerda, ir a espaços alternativos, mas depois irem à missa; ou que vão à Kapital mas leiam Proust e Kafka (mais raro). Que estilhacem padrões pré-padronizados, passo o pleonasmo.

Um amigo meu falava de um tipo que eu conheço, bêbado, ganzado, e sempre com vontade de partir a loiça; dizendo que fora acólito e que ainda hoje era profundamente católico. Gosto de pessoas que não sejam 100% um produto da sua tribo.

Tive um amigo que era beto e tótó nos gestos, na cara (uma carinha de anjinho), uma vozinha delicodoce, uma roupinha e marca, muito engomadinha, a barbinha sempre feita; e com o tempo foi-me contado que estivera preso e que era heroinómano. Ele ensinou-me perenemente que as aparências iludem mesmo.

Hoje, os estilos vão-se misturando. Pode vestir-se sacoor, e ser-se anarquista; ou pode ter-se piercings e rastas e ser-se beta racista social por dentro.

Quando era pré-adolescente, comprava sempre o jornal blitz. Havia duas páginas com as opiniões que os leitores enviavam (na altura, por carta). Eu próprio enviei textos.

Os leitores dividiam-se entre os curistas e os metálicos. Curistas eram todos aqueles que ouviam Cure. Os curistas e os metálicos vomitam ódio e raiva mútua (os metálicos eram mais agressivos e asneirosos). Considerava-se na altura que metal e gótico eram, como hoje, Bush e Ben Laden. Conto esta história para explicar como hoje TUDO É DIFERENTE; COMO HOJE OS ESTILOS SE CONFUNDEM. Outro dia, em conversa com pessoas mais novas, alguém se auto-proclamou: goth metal. No meu tempo, estas coisas eram antagónicas.

Angel

O Poço

Um dia sonhei que estava num vasto jardim onde encontrava todas as pessoas que conhecia. Falava muito tempo com cada uma, mas depois todas elas iam aos pares para um poço falar. Todas iam para o poço, rodando em grupos de dois.

- Eu estive a falar com a Tina e gosto muito dela.

- Mas tu nunca tiveste o poço com ela.


Eu era o único que nunca fora ao poço - o único.

Será que há uma parte dos seres humanos que não alcanço (ou julgo não alcançar)? Algo em que sou diferente de todas as outras pessoas? Algo que ninguém compreende... - pensei eu ao meditar acordado sobre o sonho.

Alguém me explicou sobre o meu sonho:

- Angel, o poço é o sexo. Tu és virgem.

Talvez seja mesmo isso.

Angel

Escuta, Zé Ninguém!

«Passei décadas e décadas, a lutar para mudar o mundo, cheio de sonhos de solidariedade e altruísmo - até que descobri que pouco podia fazer. Vale mais tentar mudar a vida de uma só pessoa. Dediquei-me a amar a minha mulher. A minha margem de manobra na felicidade dela é maior do que no mundo todo. Desde então que contribuo mais para a felicidade do mundo.»


Presidente do banco de qualquer coisa nos EUA

terça-feira, janeiro 22, 2008

Até onde vai isto?

Há uma discussão em Inglaterra que já é aflorada na Opinião Pública de cá (com muitas zelosos portugueses do lado da "ideia inovadora"): os fumadores devem pagar as despesas da sua saúde e serem preteridos face a pessoas não-fumadoras.

Não costumo aplicar a palavra fascista. Recorrer a ela para apontar males da democracia - banaliza a terrível ditadura fascista. Mas, neste caso, o adjectivo nem é fascista; é «hitleriano».

Uma pessoa que tenha um cancro do pulmão deve ficar na lista de espera uma vez que é "responsável" pela doença?

Temos de ser coerentes e obrigar os diabetes que ingeriram açúcar a mais; os cirróticos que beberam de mais; os cardíacos que não fizeram desporto; os obesos que comeram de mais; todos eles a pagarem as suas despesas e a esperarem que os bem-comportadinhos sejam todos atendidos.

Angel-a-lei-do-tabaco-e-a-ASAE-são-apenas-o-estalar-das-primeiras-faúlhas-do-vulcão

Vale mesmo mesmo a pena

http://www.ala.nletras.com/entrevista.htm

segunda-feira, janeiro 21, 2008

The Lone Ranger

Quando era miúdo, queria ser o Lone Ranger.

Mascarado, ninguém sabia nada dele, andava de terra em terra a combater a injustiça e a opressão. Concluída a luta, abandonava a terra.

As pessoas lamentavam, mas ele tinha de partir, sempre e sempre sempre... Porque no mundo haverá sempre injustiça a combater. No final, as populações locais clamavam que ficasse, mas ele partia para outra terra, outra luta.

Ainda hoje ouço o trotear do seu cavalo a partir no final de cada episódio, com a sua silhueta a desaparecer no horizonte... E o narrador:

The loooooooooooooooooone ranger..... rides again!

Nunca ninguém chegou a saber o seu nome.

Angel
Fiz tudo em função de uma coisa: ser o imperador da minha alma. Quando consegui sê-lo, decidi abdicar.


Alguém disse isto

Diálogos

- Fui a uma festa GLS no Brasil.

- Agora és gay?

- Não.

- Bi?

- Não. Gays, lesbians and suporters. Eu era um suporter.
O sexo esteve na origem de alguns dos piores problemas da humanidade até hoje.

Angel
Ligo a RTP Memória: vejo Miguel Esteves Cardoso nos Raios e Coriscos; e a seguir documentário sobre Eugénio de Andrade, com diversos actores e o próprio poeta a recitar poesia. Que saudades da televisão há uns anos... Que saudades, mesmo. Resta-me procurar as conversas vadias em DVD e ver o RTP Memória.

Angel
Escreve o Gonçalo M. Tavares que há quem repita por obediência - e então obedece a outro e não tem vontade - e que há quem repita por prazer: então é um senhor autónomo, livre, feliz quando a sua vontade decide.
Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

domingo, janeiro 20, 2008

2058


Escola Secundária



Enquanto a professora perorava sobre a lírica camoniana, Sandra e Carlos agitavam-se nas filas da frente.

- Que seca de aula...

- Vamos basar.

- Faz-me um broche.

Sandra aceita o repto.

Ao seu lado, Eduardo tira da sua caneta e clica no botão de filmagem, começando a filmar. Sandra apercebe-se e sorri para a câmara, sem deixar de tomar conta do assunto entre lábios.

Eduardo vira-se para o colega e diz:

- Vou ganhar bueda guita com este.

- Foda-se, broches na aula? Isso nem cinco euros, brother. O Zeca sacou um da prof. de matS a mamar no caralho do contínuo e nem dez euros lhe deram. Sem uma chuva dourada sequer, os vídeos valem pouca guita.

LUX


Sábado, a discoteca estava cheia.

Tomé queria encontrar espaço na discoteca para dançar, mas estava impossível.

Uma mulher e um homem viraram-se para Tomé:

- Queres ir connosco para o carro para nos ver foder? Ficas no banco de trás...

- Népia, obrigado.

Procurou um canto para dançar, desbravando caminho por entre os grupos que fodiam freneticamente desde quatro pessoas a grupos de dezenas. Tomé tinha o seu casaco cheiro de esperma e estava prestes a desistir. Além do mais, apetecia-lhe fumar um cigarro. Olha para o segurança que estava com a cabeça enfiada entre as mamas de uma rapariga. Se calhar, puxaria de um cigarro. Não porra, as cinquenta e duas câmaras não o deixariam, ocorreu-lhe num breve rasgo de lucidez. Tinha mesmo de se ir fechar em casa.


Angel

sábado, janeiro 19, 2008

A Lógica da Batata

- Angel, eu só andei com mulheres bonitas (que frase tão deprimente). Eu não como mulheres feias. Uma mulher bonita e sem nada lá dentro, tu ainda podes transformá-la por dentro, agora por fora tu nunca a transformas, tás a ver a cena? Isto, um gajo tem de pensar...

Pena de morte

Leio na Tabu que já houve 130 mal condenados À pena de morte.

Um indivíduo esteve 21 anos, 21 anos, em isolamentos na cela de 23 horas por dia, sempre à espera da morte, com sucessivos adiamentos, até que... foi inocentado e libertado.

Chegaram a rapar-lhe o cabelo, a despedir-se da mãe e depois, na hora h, a ver um repentino adiamento da execução - conseguem imaginar isto vinte e um anos a fio? Conseguem imaginar o horror de anos e anos a antecipar a sentença de morte, a ver os colegas saírem das celas para nunca mais aparecerem e sabendo nós seremos os próximos? Conseguem imaginar a tortura psicológica da antecipação da morte quando se atravessa o corredor?


Dizia Camus que o Estado conseguía ser mais monstruoso com o sistema da pena de morte do que o mais criminoso dos criminosos. Seria apenas equiparável se um indivíduo tivesse uma mansão onde comunicasse a centenas de indivíduos o seu prazo de morte, e fosse sucessivamente eliminando um e outro...

É preciso ser-se um monstro para defender a pena de morte.

Diálogos

- Se o teu filho ou a tua filha fossem violados, tu não defendias a pena de morte?

- A pior forma de justiça é aquela em que as vítimas são os juízes.

- Mas tu matavas ou não?

- Eu não sei, agora o Estado é que não pode institucionalizar a vingança. E se o teu filho fosse o assassino ou o pedófilo, tu também defendias a pena de morte?


Angel

Frases que ecoam nos meus ouvidos

- Todos temos de ter algo de estranho para sermos interessantes.

Normais e não-normais

Sou contra a ditadura da normalidade (espero por exemplo que um dia os homens se maquilhem, usem saias e pintem os lábios livremente) , mas há coisas «normais» que não me passariam pela cabeça questionar - para as questionar tinha de primeiro reparar nelas.

Tinha um amigo tão freak, tão freak... Ele era contra a «normalização das pessoas nascerem em hospitais».

Deus

O Acaso é o pseudónimo de Deus quando ele não quer assinar.


António Lobo Antunes

Sobre a hodierna concentração editorial

«Se o pobre do Camões vivesse hoje, não tinha nenhuma editora que lhe publicasse Os Lusíadas

Curso de Relações Humanas II

Nunca dizer «mas» ou qualquer dos seus derivativos.

Nas aulas, éramos ensinados a ouvir opiniões contrárias à nossa, sem nunca interromper, esperando sempre o silêncio que garantia não atropelarmos o nosso respeitável interlocutor.

Educadamente dizíamos: «Entendo o que dizes... (silêncio em vez de mas) No outro dia...» E depois contávamos uma história, dávamos uma estatística, citávamos alguém. Enquanto trabalhávamos a saliva com a história, estatística (ou facto), ou citação; o nosso interlocutor, como não ouvira um mas; não criava as resistências, porque não sabia que a opinião era contrária à sua. No final dizíamos:

Esta história, estatística, citação faz-me pensar que...


O modelo de conversação normal é eu penso que-porque... história/estatística(facto)/citação.

Nós invertíamos para: porque história/estatística(facto)/citação - então eu penso que...

Não começar por veicular a opinião significa obrigar o interlocutor a ouvir-nos até ao fim. Porque nós precisamos de encaixar os outros. Sim ou contra o aborto?

Um exemplo de uma discussão na aula. Alguém muito católico falava de como as igrejas eram festas de alegria e muita gente.

Alguém queria contrapor. Se dissesse:

«Sim, mas...»

ou

«Não sou católico»

Tudo o que se seguísse a estas frases, seria boicotado mentalmente pelo ouvinte, que se limitaria a pensar no que ia dizer enquanto fingia ouvir o outro (QUEM NUNCA FEZ ISTO?)


Então, o não-católico (o professor) disse:

- Compreendo essa beleza e poesia que possa ser uma Igreja. Outro dia entrei numa Igreja e estavam algumas pessoas, não muitas, e não havia um único jovem. Então eu pensei se a Igreja não poderia reiventar uma maneira de aproximar os jovens, mudar a sua imagem.


Nunca digo um «mas». Já me sai instintivamente o acto de não o dizer. Tenho tido muitíssimo menos discussões...

Angel

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Sailor 1 aconselha:

Caixa Geral de Depósitos - Os Vampiros do Século XXI* * ou o Socialismo Moderno

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) está a enviar aos seus clientes mais modestos uma circular que deveria fazer corar de vergonha os administradores - principescamente pagos - daquela instituição bancária.
A carta da CGD começa, como mandam as boas regras de marketing, por reafirmar o empenho do Banco em oferecer aos seus clientes as melhores condições de preço/qualidade em toda a gama de prestação de serviços, incluindo no que respeita a despesas de manutenção nas contas à ordem.
As palavras de circunstância não chegam sequer a suscitar qualquer tipo de ilusões, dado que após novo parágrafo sobre racionalização e eficiência da gestão de contas, o estimado/a cliente é confrontado com a informação de que, para continuar a usufruir da isenção da comissão de despesas de manutenção, terá de ter em cada trimestre um saldo médio superior a EUR 1000, ter crédito de vencimento ou ter aplicações financeiras associadas à respectiva conta. Ora sucede que muitas contas da CGD, designadamente de pensionistas e reformados, são abertas por imposição legal. É o caso de um reformado por invalidez e quase septuagenário, que sobrevive com uma pensão de EUR243,45 - que para ter direito ao piedoso subsídio diário de EUR 7,57 (sete euros e cinquenta e sete cêntimos!) foi forçado a abrir conta na CGD por determinação expressa da Segurança Social para receber a reforma.
Como se compreende, casos como este - e muitos são os portugueses que vivem abaixo ou no limiar da pobreza - não podem, de todo, preencher os requisitos impostos pela CGD e tão pouco dar-se ao luxo de pagar despesas de manutenção de uma conta que foram constrangidos a abrir para acolher a sua miséria. *O mais escandaloso é que seja justamente uma instituição bancária que ano após ano apresenta lucros fabulosos e que aposenta os seus administradores, mesmo quando efémeros, com «obscenas» pensões* (para citar Bagão Félix), a vir exigir a quem mal consegue sobreviver que contribua para engordar os seus lautos proventos. É sem dúvida uma situação ridícula e vergonhosa, como lhe chama o nosso leitor, mas as palavras sabem a pouco quando se trata de denunciar tamanha indignidade. Esta é a face brutal do capitalismo selvagem que nos servem sob a capa da democracia, em que até a esmola paga taxa. Sem respeito pela dignidade humana e sem qualquer resquício de decência, com o único objectivo de acumular mais e mais lucros, eis os administradores de sucesso.

Diálogos Reais

- Ai não vou sair.

- Caramba, faço anos e só te vejo uma vez na vida.

- Eh pá, tenho de ir. Ela (a namorada) amanhã às oito da manhã tem de ir às compras com a mãe e eu tenho de ir com elas.

- Porque tens de ir?

- Porque tem de ser?

- Porque tem de ser?

- Tens o ano inteiro para ires às compras. És o meu melhor amigo, não achas que podias estar comigo uma vez no ano que era o meu aniversário?

- Mas amanhã às oito.

- Mas porquê e porquê às oito?

- Porque há menos gente.

- E porque tens de ir?

- Para fazer compras?

- E porque tens de fazer compras amanhã infalivelmente às oito, meu? AManhã a tua namorada não pode ir sozinha com a mãe?

- Eh pá, pois... - hesita - Mas não dá - atalha repentinamente.

- Mas porque tens de ir Às compras?

- Porque são precisas coisas.

- Mas porque é que são precisas?

- Eh pá precisamos de ver um aspirador.

- Mas e não podes adiar?

- Eh pá, já está combinado.

- Mas e se não vires amanhã às oito o aspirador?

- É complicado?

- É complicado, porquê?

- Porque precisamos de um?

- Não podem limpar a casa de outra maneira?

- Podemos, mas era melhor ter um aspirador.

- E se adiares uma semana?

- Pois.

- O que acontece?

- Sei lá... Mais pó.

- E depois?

- Eh pá, é chato.

- Para quem se ninguém vai a vossa casa?

- Pois, não tem ido, é verdade, mas pode sempre aparecer.

- A vossa casa está suja?

- Não.

- Então, qual é o problema de não ires hoje? Um bocadinho de conforto a menos em nome da amizade?

- Eh pá, mas tem de ser...

- Mas tens de ser o caralho. Qual é o móbil da tua vida?

- Pois não sei. Ganhar a vida e sustentar os meus.

- Para quê? Porquê?

- Nunca pensei nisso

Angel
If only i could fill my heart with love


The Cure
Será que quem mata em nome Deus, não entende que está a fazer de Deus assassino?

José Saramago

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Pastilhas

- No Porto, em Viseu e montes de discotecas do interior, vi imensa gente pastilhada. Cheguei a estar em discotecas em que devia ser dos poucos não pastilhados. Quando pedi bebida a um tipo que tinha acabado de conhecer e que ia ao bar, ele perguntou-me: «Queres o teu copo minado?», ao que eu perguntei: «O quê?», e o tipo insistiu: «se queres o teu copo minado» e depois lá me explicou que era uma pastilha XPTO. Eh pá, não imaginas o efeito daquela merda, Angel. Uma vez um bacano deu vinte voltas à discoteca e disse-me: «Não consigo estar parado a dançar, já percorri vinte vezes isto e ainda sinto que tenho de correr isto mais cem vezes.» E lá ia ele, Angel, e voltava de quinze em quinze segundos, a correr pela discoteca. Não, ninguém lhe dizia nada. Havia tantos como ele! No Porto, chegaram a cortar a água dos autoclismos no fim da noite para quem tinha posto ecstasy não ir lá beber... Uma vez, na casa de banho dos homens, no fim da noite, encontrei agachada na sanita, uma rapariga que não tinha mais de dezasseis anos, a beber a água da sanita porque já não tinha dinheiro para uma água, disse-me. Eu disse-lhe: «não achas degradante o que estás a fazer? Toma lá para comprares uma água.» E ela, indignada, atirou: «Tu sabes lá o que é a vida, pá!»

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Qual a melhor metáfora para a vida?

Angel

O livro que mais consulto

Dicionário

Duas visões

- Eu quando tenho mais entusiasmo é ainda antes de falar com uma pessoa; e estar a olhá-la e imaginá-la, idealizá-la como quero. Sonhar com aquilo que quero que seja. Essa doce ilusão é a minha maior fraqueza. Porque todas as possibilidades estão lá.

- Sou incapaz de fazer amor com quem não tenho uma profunda empatia emocional, intelectual, espiritual... O sexo é uma ligação mágica. A sensibilidade não é uma fraqueza. Adoro conhecer as pessoas devagar. As coisas são óptimas quando conheces duradouramente uma pessoa. Atinges outra profundidade na comunhão das almas, mesmo e especialmente no sexo. Porque as pessoas não são o que parecem nas primeiras e segundas e terceiras e quartas impressões.
O que é para ti o essencial?

Frases que ecoam nos meus ouvidos

- Angel, nós somos sempre mais tolerante quando se trata de amigos nossos; temos uma outra margem de tolerância para os mesmo defeitos. Reservamos o nosso juízo mais vezes... Daí não se perceber como algumas pessoas se dão com outras.

Paraíso

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...

E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


David Mourão Ferreira

Publicidade

Há anos que não vejo televisão com o mínimo de atenção. As pessoas falam-me de séries (muito boas garantem-me: os heróis, o...) que eu nem sei onde dão e até me sinto um alien. Envergonhado.

Anúncios então...

Hoje estava a trabalhar no computador e subitamente os meus olhos levantaram-se para o televisor (quem o ligou sem eu dar por isso?)e ficaram magnetizados com a beleza e a poesia de um anúncio - nunca me aconteceu gostar de um anúncio. Adorei este anúncio. Parecia que era transportado num sonho. Num rio de mel.

Adorei.


É o anúncio da Toblerone, esse triângulo que eu tanto gosto.


Angel

«Ser Português», por Miguel Esteves Cardoso

Diz o Miguel Esteves Cardoso que os portugueses quando morrem, são sempre os maiores:

- Uma voz incómoda do regime;

- Nunca se vergou;

- Lutou sempre contra os interesses estabelecidos;

- Nunca se vendeu;

- Uma pessoa de uma ética inexcedível.

Numa frase, MEC resume o ser português:

«Somos quase todos uns pobretanas, mas todos uns bilionários morais.»

Nirvana

Não quero alcançar o nirvana. Quero ter sempre desafios. Nirvana é a cessação da aprendizagem. A cessação dos problemas e alegrias.

Eu quero estar sempre na escada. A escada do sobe e desce - em que ao fim de muitas vidas, vá subindo uns degraus. A escada da evolução, da queda, da aprendizagem, da subida, da queda.

Se eu alcançasse o nirvana, o mundo tornar-se-ia supérfluo - e eu deixaria de poder ajudar os outros a serem felizes.

Buda quando se auto-libertou e ao lançar o olhar de despedida ao mundo, sentiu esse dilema, essa pulsão de ainda ver tantos sofrimento e disse:

- Não, eu não me quero libertar da sucessiva e infinita reencarnação, em que vida após vida, cá volto eu. Não consigo fechar os meus olhos sabendo que me libertei, porque se os abrisse veria tamanho sofrimento. Não quero trancar os ouvidos, sabendo que se os abrisse, ouviriam os gemidos de dor ao qual a minha compaixão não resistiria. Quero reencarnar com mil braços, mil olhos e mil pernas - para poder auxiliar todos os seres sencientes, meus irmãos.

Angel

Diálogos

- Será que há más pessoas?

- Eu penso que sim.

- Eu penso que não.

(silêncio)

Ambos pensavam na questão, apesar de categoricamente lhes ter saído a ambos afirmações fortes (antitéticas, é certo, mas fortes) e definitivas sobre natureza humanas. No silêncio, adensaram-se-lhe as dúvidas, como um nevoeiro brumoso que ia liquefazendo as certezas sólidas.

- Mas tu detestas o X. Esse não é má pessoa?

- Pois.

- O X teve uma infância tenebrosa, uma adolescência de rejeição por toda a gente, um pai que não é pai, uma mãe que...

- É verdade, mas não consigo racionalizar. E tu, odeias o Y.

- Eh ódio não faz mesmo parte do meu léxico.

- Detestas, então. O Y foi mal-tratado pelo padrasto física e psicologicamente , as namoradas - que ele tratava que nem princesas, que nem princesas, nota bem - deixaram-nos; o Y tem mazelas profundas, já foi a psiquiatras... Ainda hoje vai, aliás.

- Sim, não são casos únicos. Se soubéssemos a história de cada uma das pessoas que compõem o mundo, compreenderíamos todas, e por isso, amaríamos todas.

- Que bela maneira de acabarmos a noite, não digas mais nada. Um abraço.

- Um abraço, amigo.


Angel

terça-feira, janeiro 15, 2008

Cristo, o Humanitário, o Esquerdista, o Compassivo

Desde há muito que advogo que a Esquerda e a Religião deviam caminhar juntas. Ambas persistem em situar-se nos opostos. A culpa é mútua, resulta de longas ofensas de parte a parte - e, claro está, de a Igreja (agora falo da Católica) se situar sempre ao lado do Poder.

Tomemos o cristianismo na sua essência doutrinária.

Tomemos um partido político de esquerda.

Agora vejamos um conjunto de propostas e pensemos: Cristo subscrevê-las-ia?


- Benefícios fiscais para empresas que acolham ex-reclusos;

- Obrigatoriedade da entrada das faculdades e escolas ter acesso para deficientes;

- Possibilidade de ensino gratuito para desempregados de longa duração;

- Rendimento Mínimo Garantido;

- Imposto sobre as Grandes Fortunas para financiar aumento da comparticipação estatal nos medicamentos da SIDA;

- Imposto ecológico para os bens penalizadores do ambiente;

- Aumento do número de camas para toxicodependentes que se queiram curar e apoio psicológico gratuito às suas famílias.


A minha resposta a todos os pontos supra é o «Sim» de Cristo. Pois bem, foram todas tiradas de partidos do espectro político mais à esquerda.

Que país...

Estive a ler os programas políticos norte-americanos dos candidatos presidenciais.

Há mais de uma dezena de candidatos nos EUA.

Nem um defende a abolição da Pena de Morte. Só um defende o casamento de homossexuais: John Edwards.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Poetas Livres

«Os únicos que têm o tempo verdadeiramente livre, aquilo a que hoje se chama os "desempregados", são aqueles que podem fazer aquilo para que realmente nasceram: serem poetas livres.»


Agostinho da Silva

Trust

there's no-one left in the world
that i can hold onto
there is really no-one left at all
there is only you
and if you leave me now
you leave all that we were
undone
there is really no-one left
you are the only one
and still the hardest part for you
to put your trust in me
i love you more than i can say
why won't you just believe?


The Cure

A Thousand Hours

For how much longer can I howl into this wind?
For how much longer
Can I cry like this?

A thousand wasted hours a day
Just to feel my heart for a second
A thousand hours just thrown away
Just to feel my heart for a second

For how much longer can I howl into this wind?


The Cure

domingo, janeiro 13, 2008

A mais estranha criatura

Tão estranhas as mulheres: ausentam-se permanecendo, regressam partindo.

António Lobo Antunes

Curso de relações humanas I

Uma vez tirei um curso de relações humanas (caro como tudo). Tinha lido vários livros que me tinham entusiasmado e matriculei-me à aventura.

Dir-me-ão que o que se aprende sobre pessoas se aprende no palco da vida. Nem só. Garanto-vos.

A estruturação do curso tinha três módulos: gestão de stress, relações inter-pessoais e falar em público.

Na gestão de stress, o princípio basilar era viver cada dia, cada momento, cada resolução de um problema como um compartimento hermeticamente fechado. Ainda hoje quando coisas do passado ou do futuro interferem na execução de algo no presente, tendo a lembrar-me do princípio e... serenar, como uma pluma caindo lentamente.

Na segunda parte, das relações, da comunicação com os outros, aprendi imenso. Saber fazer um elogio. Olhar no olhos e dizer:

- Há uma coisa que aprecio em ti. (Enunciar a qualidade de forma pausada.) (Fundamentar com uma atitude da pessoa que ilustre a qualidade.)

Tudo isto sempre feito com Verdade! Sem verdade, somos sempre apanhados - diziam-nos.

Nas discussões, nunca nunca nunca dizer:

- Não tens razão;

- Não estás a perceber.

E havia uma problema ABSOLUTAMENTE PROIBIDA: «Mas» - e todos os seus derivativos: porém, contudo, todavia, por outro lado...

Sempre que alguém expõe uma posição e o interlocutor diz:

- Sim, tens razão, mas...

A partir do «mas» já sabemos que vem o exército de ideias opositoras. O nosso ego ressente-se porque sente as nossas ideias como dele e ao atacarem as suas ideias, produto dele, atacam-no a ele. Então ele não vai ouvir, vai, isso sim, a partir do momento em que ouve o «mas», mentalmente obrigar o cérebro a pensar mentalmente nas ideias a contrapor, enquanto finge que ouve o outro.

Numa discussão, a maior parte das pessoas não quer trocar ideias - quer convencer o o outro da bondade e superioridade daquilo por que toma partido. Nem toda a gente é assim! Mas muita gente é assim. A maior parte das pessoas quando ouve um «mas» abranda inconscientemente a atenção acurada do ouvido.

Como fazer então? O post continua...


Angel

sábado, janeiro 12, 2008

Relativizar

Uma miúda de 19 anos, filha de amigos, com um belo sorriso, foi violentamente esmagada por um comboio quando atendia o telemóvel ao passar pela linha.

Os pais nada disseram no funeral - choraram, choraram, choraram. Estão destroçados.

A maior parte das nossas tragédias comezinhas, dos nosso dramas quotidianos, não valem um caralho.

Angel
I would die for you
I would die for you
I’ve been dying just to feel you by my side
To know that you’re mine


I will cry for you
I will cry for you
I will wash away your pain with all my tears
And drown your fear


I will pray for you
I will pray for you
I will sell my soul for something pure and true
Someone like you


See your face every place that I walk in
Hear your voice every time I am talking
You will believe in me
And I will never be ignored
I will burn for you
Feel pain for you
I will twist the knife and bleed my aching heart
I’ll tear it apart
I will lie for you
I can steal for you
I will crawl on hands and knees until you see
You’re just like me


Violate all my love that I’m missing
Throw away all the pain that I’m living
You will believe in me
And I can never be ignored


I would die for you
I would kill for you
I will steal for you
I’d do time for you
I would wait for you
I’d make room for you
I’d sail ships for you
To be close to you
To be a part of you
’cause I believe in you
I believe in you
I would die for you


Garbage
I am lost
So I am cruel
But I'd be love and sweetness
If I had you

I'm waiting
I'm waiting
For you

Garbage

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Um post diferente

A maior parte das pessoas vive a vida sem pensar muito. Interessa-lhes mais o para do que o por; o como do que o porque.

Qual o sentido que queremos que a nossa vida tenha? Porque estamos a aqui? Para onde vamos? O que é isto de existir - que só nos garante que temos de respirar, alimentar-mo-nos, beber...

Todos os dias penso nisto. Todos os dias procuro o que a Inteligência Cósmica, Deus, ou o Universo têm para me dizer. Todos os dias procuro alimentar o espírito. Todos os dias procuro ser melhor pessoa. Todos os dias tento ajudar os outros. Todos os dias procuro algo que eleve a minha existência. Todos os dias procuro ver por detrás do maya das ilusões. Todos os dias procuro estar de consciência tranquila.

Alimentar-me com leituras profundas, alimentar-me com a reflexão do dia que passou quando me deito, ver o que fiz bem, o que fiz mal, fixar o que quero mudar do que fiz mal.

A vida é uma escada. E isto é só uma passagem. O que fazemos, dizemos, queremos, pensamos tem sempre consequências, molda a maneira distorcida como vemos o mundo, e deixa impressões na mente que nos acompanharão karmicamente durantes muitas almas.



Angel

Lovesong

Whenever i'm alone with you,
you make me feel like i am home again.
whenever i'm alone with you,
you make me feel like i am whole again.
Whenever i'm alone with you,
you make me feel like i am young again.
whenever i'm alone with you,
you make me feel like i am fun again.
However far away,
i will always love you.
however long i stay,
i will always love you.
whatever words i say,
i will always love you;
i will always love you.
Whenever i'm alone with you,
you make me feel like i am free again.
whenever i'm alone with you,
you make me feel like i am clean again.
However far away,
i will always love you.
however long i stay,
i will always love you.
whatever words i say,
i will always love you;
i will always love you.

The Cure (prenda de casamento do Robert Smith para Mary Poole)
E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.

Luís de Camões, Os Lusíadas

O amor em Pessoa II

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de *dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


Fernando Pessoa Ortónimo

O amor em Pessoa I

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Manuel Caldeira Cabral
Fechar meio país ou fechar a ASAE?
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A ASAE ao tornar a fiscalização mais eficaz salientou a falta de adequação da
legislação em vigor ao país. A lei é para ser aplicada, mas será que encerrar
meio país era a intenção do legislador? Ou há aqui um excesso de zelo da ASAE?
Será que a ASAE está a criar valor ou a ameaçar destruir demasiada actividade
económica? E em nome de quê?
A concentração de competências dispersas por várias entidades numa única – a
ASAE – foi uma medida interessante, trouxe maior eficácia à fiscalização e
permitiu uma visão integrada dos diversos problemas que se concentram em
qualquer actividade económica. A fiscalização é uma actividade importante. Deve
ser exercida de forma discreta, sistemática, regular, com bom senso e precaução,
garantindo a segurança e dando confiança aos consumidores. A confiança cria
valor, estimulando a actividade económica. A actuação da ASAE, pelo contrário,
tem sido espalhafatosa e mediática, criando desconfiança nos consumidores e medo
nos proprietários de estabelecimentos, destruindo, neste sentido, valor.

Veja-se o exemplo dos restaurantes chineses. As pessoas ao saberem que a ASAE
estaria mais atenta à actividade de restauração deveriam diminuir as suas
reservas e jantar fora com maior segurança e frequência, nomeadamente nos
restaurantes chineses. Na realidade o que aconteceu foi o contrário. Ao fazer da
fiscalização uma operação mediática, a ASAE lançou a desconfiança sobre todos os
restaurantes pertencentes a um grupo étnico. E os restaurantes que cumpriam a
lei e que continuaram abertos (a maioria) ficaram praticamente sem clientes
durante meses, não sendo certo que tenham já recuperado. Um enorme prejuízo
criado pela actuação de uma entidade cuja função é dar confiança e não lançar
pânicos infundados.

A ASAE pertence ao Estado, e numa sociedade liberal e democrática o Estado deve
proteger as minorias étnicas e combater os preconceitos racistas. Uma acção
directa contra um grupo étnico desta natureza teria levado a demissões em
qualquer país europeu. Em Portugal, os jornalistas reportaram acriticamente esta
operação, sendo cúmplices de um dos piores actos de racismo promovidos pelo
Estado português nos últimos anos.

Se a forma de actuação em relação aos restaurantes chineses foi totalmente
errada, há outros casos em que a ASAE poderá estar apenas a fazer cumprir a lei,
actuando dentro das suas competências. No entanto, pergunto se o está a fazer
com proporcionalidade e bom senso ou se tem pecado por excesso de zelo.

Quando o seu presidente afirma que metade dos estabelecimentos de restauração
poderão fechar, pergunto-me onde ficou o bom senso? Será que em Portugal há uma
situação generalizada de intoxicações alimentares que justifique algo tão
draconiano? Ou será que estamos a apontar como mínimo padrões de qualidade que
deveríamos reservar para restaurantes de luxo?

A culpa aqui não é só da ASAE, é também dos legisladores. Os legisladores
portugueses gabam-se, demasiadas vezes, de fazerem leis iguais às mais avançadas
da Europa, esquecendo que estas vão ser aplicadas num dos menos avançados países
do continente. Existe nos legisladores e nos fiscais a ideia de que leis mais
exigentes aumentam a qualidade. Os primeiros acabam por fazer leis com normas
demasiado rigorosas. E os segundos, num claro abuso de poder, transformam muitas
vezes o que apenas são recomendações em normas adicionais, que pelo sim pelo não
“quem não quiser ter problemas” tem de cumprir. O resultado são custos para os
estabelecimentos, gastos em alterações que pouco acrescentam em termos de
higiene, e que muitas vezes tornam os estabelecimentos menos agradáveis. Os
azulejos que enchem as paredes de cafés e restaurantes por Portugal fora são um
bom exemplo disso. Nenhuma lei obriga a que os estabelecimentos os tenham, mas
muitos proprietários optam por esta solução, com receio das interpretações mais
exigentes dos fiscais. O resultado: cafés e restaurantes descaracterizados,
frios, feios e com elevados índices de ruído. Tudo em nome da qualidade e da
higiene.

Outro problema dos excessos dos legisladores e fiscais é a criação de
importantes barreiras à entrada e à concorrência, quando esta é uma das opções –
tantas vezes esquecida – para melhorar a qualidade. De facto, se deixarmos
diferentes estabelecimentos concorrer, os clientes poderão escolher os que mais
lhes agradam e os que mais se adequam ao seu padrão de consumo. Mais, a
qualidade promove-se com leis que facilitem a entrada de novas formas de oferta
no mercado, e com uma fiscalização que não torne proibitiva a continuação de
ofertas a baixo preço ou de estabelecimentos de pequena dimensão. A fiscalização
e a regulação devem concentrar-se nos aspectos que poderão pôr realmente em
perigo a saúde pública e deixar a escolha dos consumidores fazer o restante
trabalho.

Quando se fala de fechar metade dos estabelecimentos e obrigar os que permanecem
a importantes obras, estamos ultrapassar claramente esse limite, com enormes
custos para os proprietários, trabalhadores e consumidores. Tal representaria
uma redução brutal da oferta, que resultará em menor diversidade, menor
qualidade, menor concorrência e, consequentemente, preços mais elevados. Terá
alguém estudado o custo destas medidas em termos de emprego, falências, aumento
da inflação, impacto no turismo, etc? Está a ASAE a decidir o que os
consumidores devem escolher? Quem encomendou este serviço, e onde está afixado o
seu preço?
- Ler é uma coisa entre o papel e, não é os olhos, a vista, nada disso, é isto cá dentro (as mãos pairam por cima da cabeça). Eu lembro-me de estar a ler Zola e de ele descrever uma floresta com isto, com aquilo e... de repente, eu já estava lá. Eu andava lá!!! Andava de um lado para o outro, passava por aqui e por ali. Ler é uma coisa espantosa. E reler também - que na minha idade é que o se faz. Eu leio devagar, às vezes volto atrás só para saborear a prosa de um tipo.

Velho Ancião
- Quando se ama, tudo parece diferente. Olha-se para isto - aponta o céu, as árvores, as pessoas - e... Puta da criação que isto é tudo magnífico! Ouve-se uma música qualquer e aquilo é uma coisa que mexe cá dentro... Todo o mundo é diferente.


Velho Ancião

Diálogos

- Há virtudes que se estão a perder colectivamente.

- Pois há. O altruísmo - se fizessem uma sondagem, quantas pessoas saberiam o que é esta palavra? Saber sequer o que significa.

Frases que ecoam nos meus ouvidos

Gosto de tudo menos porrada.
O rasgo, o fogacho, a surpresa, o imprevisto.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Coisas que ninguém explica

- Como podem os casinos terem lei de excepcionalidade face à Lei do Tabaco? O constitucionalista Jorge Miranda já disse tratar-se de algo inconstitucional?

- Como podem os ginásios (onde a preocupação com a qualidade de vida e a saúde cada vez dão mais lugar à vigorexia e ao culto do corpo) verem o seu IVA diminuído, quando simultaneamente o Estado os desresponsabiliza das mortes dos seus utentes, atirando a nova lei para a responsabilidade individual do utente?

Que interesses, que lobbies nos governam?

1984

«(...) mesmo ao ar livre, há casos de proibição na lei e que, mesmo em casa de cada um, nada exclui que, tal como previsto na lei, "por determinação da gerência" do condomínio, se possa proibir o fumo em todo o prédio.»

Miguel Sousa Tavares, Expresso
I went away alone with nothing left but faith...


The Cure

Eu e os outros

Tanta coisa cá dentro. Tantos universos cá dentro. Muito mais do que lá fora. Infinitamente mais.

O ser humano não é tanto uma caixa que vai guardando coisas sobre coisas sobre coisas, estáticas, novas e antigas; é mais um sumo que esteja sempre a espichar - sempre novo,
fresco, suculento e diferente.

Angel
Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da lingua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas era Lola. Na escola era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.

Lolita, Vladimir Nabokov
Dava um ano de ordenado por um momento da minha inocência perdida.

Dinis Machado, O que diz Molero

terça-feira, janeiro 08, 2008

Luiz Pacheco - o grande editor e escritor que recebia subsídio por mérito cultural do Estado disse:

Politicamente, economicamente, podemos estar numa má altura. Mas há coisas que não voltam para trás. Uma coisa que eu tenho reparado é numas figuras de raparigas que nós nesse tempo não apanhávamos. Há agora um novo tipo de mulher. Mulheres formadas, algumas com dois cursos, com empregos, com uma ginástica de se desenrascarem formidável. São mulheres muito diferentes das do meu tempo. Sabe o que é? Começam a funcionar muito mais cedo. Não haja dúvida nenhuma que a repressão aí era tenebrosa. Fui parar à cadeia 5 vezes por causa disso. Não era bem puritanismo. Era estupidez e a Igreja católica. Eram valores como a virgindade, o pudor... Havia muita hipocrisia. Mas a gente também se governava. Eu fui parar à cadeia porque arrisquei. Se eram virgens? Bem, eu não fui lá ver se elas eram virgens.

Quando uma rapariga é menstruada, a Natureza já lhe dá o estatuto de mulher. Pode ser mãe! Já não é uma miúda, enquanto que um puto de 14 anos pode ser um pateta alegre. Não viveu nada, uma mulher com 14 anos? Essa é boa! Não viveu mas começa a viver! Com a minha primeira mulher, ainda uma menina, eu ia para o pinhal ler e ela fazia uma gracinha que era mandar uma pedrada no livro. Era um assédio sexual! Era a estopa ao pé do lume. Eu disse isso numa entrevista que dei. Sabe o que é que saiu? A sopa ao pé do lume! Agora publicaram isso em livro e já foi emendado. Estas entrevistas gravadas é uma chatice. Às vezes não é nada inteligível. E depois é também uma questão de linguagem. No meu tempo já não havia estopa, isso era uma frase que o meu pai usava. É um português que não é arcaico mas é antigo. Uma rapariga de 30 anos não entende essa linguagem. Ora, a estopa é uma coisa inflamável.

Bom. A vítima, a infeliz donzela, essa nunca se denunciava. Antigamente fazia-se uma coisa que era 'a prova da coelha'. Injectava-se numa coelha urina da presumível grávida e a coelha tinha uma alteração de temperatura ou coisa que o valha. Antigamente, rapazes e raparigas entendiam-se como se entendem hoje. Não tinham era o à vontade que há hoje. Você não faz ideia do pavor que era namorar! Vocês hoje não têm a mínima noção disso. Vocês vivem no paraíso!


Entrevista à Pública


K: Acha que a sua homossexualidade é uma pulsão?

Sim, pode ser uma pulsão, mas também aí há uma espécie de autoflagelação. O Libertino demonstra isso. O que eu procuro primeiro são raparigas e quando as raparigas falham todas agarro-me ao primeiro corpo que aparece, que é o magala. Quer dizer, eu andei à procura de facto de raparigas, levei sopa, sopa, sopa, até que também levo sopa do magala. E como é que acaba? Acaba na masturbação, acaba numa morte que é o fracasso total. Eu não me considero homossexual lá por ter tido 10 ou 15 aventuras. Agora, os gajos que andam aí, de facto, ó tio, ó tio, andam aí à caça. É o caso do Mário. O Mário passou muito mais como homossexual do que eu passei como libertino, do género de andar com miúdas muito novas. O Mário passou muito mal, teve um período em que todos os meses tinha que ir ao Torel apresentar-se, isso era uma coisa que o destruía mentalmente. O Bernardo Lima dizia com muita maldade: «É o único poeta português que vai à revista». A revista era ir lá apresentar-se, dizer «cá estou eu», e perguntavam: «Então tem trabalho? Mora no mesmo sítio? Pode-se ir embora». Isto que é tão simples, a ele destroçava-o completamente. Mas estava a falar de homossexualidade. Não sei se é pulsão ou não. Eu não sou um tipo potente com as mulheres, não sou o chamado garanhão, não sou daqueles que têm muito cabelo na peitaça. Nem tenho pêlos aqui nas pernas, bem, aqui já não está nada. Sou um tipo mais sensual do que sexual. Talvez por isso escolhi mulheres mais novas. A mãe deste tinha 14 quando ficou à espera, depois teve-o com 15, teve outro com 16, depois teve outro com 17, depois chateou-se, estava com 19 anos. Ela podia ser minha filha, aquilo era um caso incestuoso mesmo, podia ser minha filha.

Entrevista à K
«O Pai Amaral é alguém que não tem sensibilidade para o livro, não se pode meter nisto - isto faz-se por amor. O livro é diferente dos outros negócios. Leya com y? Enfim... Agora dá cem mil euros para o prémio literário. É o raciocínio simplista do gestor: se damos mais dinheiro, captamos os melhores. Nada disso! Estamos a falar de Literatura. Os melhores, como o Lobo Antunes, já estão a debandar. Este senhor é primário e perigoso.»

Velho Ancião

Diálogos

- Mas, isso, a ciência ainda não demonstrou.

- O que não dizer que um dia não demonstre.

- Popper... Pode demonstrar ou não.

- Há-de haver um dia em que a ciência conseguirá explicar por que é que nos somos assim; por que é eu me visto desta maneira e tu dessa maneira; por que é que há assassinos; por que é nos apaixonamos por A e B; a ciência há-de explicar tudo.

- Não creio. Somos tão complexos, além de que perderia toda a piada.

- Um dia vai acontecer. Até Deus se vai explicar.

- Não faz sentido. Dizes isso porque não acreditas. Porque se admitires conceptualmente a existência de Deus, terás de reconhecer que um ser mais complexo gera outro menos complexo que não consegue compreender e explicar cabalmente o que o gerou.


Angel

O artista incompreendido

Havia um artista de cujo trabalho ninguém gostava. Nenhum crítico o apreciava, nenhum consumidor comprava o seu trabalho - mesmo os seus próprios amigos execravam a suas obras.

Contudo, a sua arte era a melhor coisa alguma vez feita e a melhor coisa por fazer - cuja beleza estava fora do alcance de todos.

Como diz o Woddy Allen, a grande questão filosófica é:

- Se uma árvore cair na floresta e ninguém nem nada existir, podemos dizer que ouve som?


Angel

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Sonsises

Não há criaturas mais irritantes do que as sonsas.

Vi um filme (ligações perigosas ou algo parecido) em que uma miúda usava uma máscara de miúda da igreja, profundamente puritana e angélica, e que na realidade era uma fera. Há um situação em que vai à casa de banho e abre o terço que tinha ao pescoço para snifar coca.

A dualidade, a hipocrisia é o teste último à resistência da minha paciência.

Ponho este post porque recentemente ouvi um indivíduo que se faz a todas na noite, que é brejeiro, putanheiro e bêbado, criticar violentamente à frente da mamorada (claro está) os amigos dele que olhavam para raparigas na rua.

Tive de me levantar e fingir que ia atender uma chamada.

Angel
Diz o Miguel Esteves Cardoso que, tendo duas culturas (inglesa e portuguesa), a principal diferença entre um inglês e um português tem que ver com a forma como ambos contam uma história na primeira pessoa.

Um inglês conta a história em que no final sai ridicularizado, embaraçado, patético - não conseguindo fazer algo que todos conseguem ao alcance de um gesto mínimo. O português relata uma situação muito difícil em que no final sai como herói - resolvendo algo que ninguém conseguiu.

Angel
i am a tree that grows hearts
one for each that you take

Bjork

Frases que ecoam nos meus ouvidos

«Angel, uma mulher também trai como o homem, mas, ao contrário dele, quando ama não trai.»


Velho ancião

(A new) Imagine

Imagine there's no competition
It's easy if you try
No human being
to exceed
Imagine all the people
Living for each other

Imagine there's no animmal suffering
It isn't hard to do
No death penalty or torture
And no sex without love
Imagine all the people
Living life in love...

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one

Imagine there´s no violence
I wonder if you can
No need for domination
The end of all hierarchies
Imagine all the people
Sharing all their´s possessions

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one


Angel
"The most important words in the English language are not 'I love you' but 'it's benign.'"

Woody Allen
Diz o Saramago que as pessoas muito organizadas, metódicas e esquemáticas, têm tod@s o anelo de transpor a organização da sua casa para a dos outros - e para o mundo.

domingo, janeiro 06, 2008

Como eu gosto de pessoas descontraídas

Nunca conhecemos cabalmente uma pessoa antes de entrarmos em casa dela. Podemos ter uma relação óptima, descontraída e aberta, com uma pessoa e sermos surpreendidos pela tensão que sentimos em casa dela. Porque é mesquinha a partilhar as suas coisas, porque é fundamentalista higiénica - ou porque simplesmente não gosta de pessoas na sua redoma.

Há pessoas que conheço mal e que me fazem sentir plenamente confortável e à-vontade (a expressão mais adequada é mesmo esta) em sua casa. Há pessoas que conheço bem e que me fazem sentir como se estivesse nu em cima de uma porco de espinho quando entro nas suas casas.

Esta semana fui conhecer a casa de um longo amigo meu onde vive com a mulher.

Mal entrei (eu e outro amigo dele):

- Tenham cuidado com os pés. Eh pá ó angel tem cuidado!

Senti o ambiente de contenção, reforçado pelo seu olhar para os meus pés.

A seguir, estávamos na sala, e eu tirei um pinhão (sim, um pinhão - minúsculo, macio e branquinho).

- Eh pá não sujes a casa!


- Mas não posso comer? - perguntei perante a mesa posta.

A certa altura, com o nervosismo da sua presença inquisitorial, deixei cair um pinhão, minúsculo, macio e branquinho, no chão. Apanhei-o. Mas tive de ouvir em maus modos:

- Eh pá, a Lena [a mulher] detesta que sujem a casa!

Mas como é que um pinhão depois de apanhado pode ter sujado um chão?

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O que vivi esta semana fez-me lembrar uma vez que fui a casa de uns amigos que tinham uma vivenda. Eu bati-lhes à porta e eles mandaram-me dar uma volta para entrar. Dei a volta e estava numa garagem. Não entendi.

A garagem abriu-se e os dois irmãos chamaram-me.

Entrei.

- Quanto calças, Angel? - perguntou a irmã.

- 44. - respondi, ignorando o alcance da pergunta.

O irmão abriu um armário na garagem onde estavam dezenas de pares de chinelos castanhos claros e felpudos para quem penetrava no terreno sagrado da sua casa.

Pediram que me descalçasse, pusesse os chinelos castanhos claros e felpudos. Era esta a senha para entrar no seu domicilio.


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Esta mentalidade delirante agora julga-se mais importante e moderna com a ASAE e a Lei do Tabaco - é por isso natural que cresça e se desenvolva, e que saia à rua menos tímida.

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Uma história com um timbre de esperança:


- Desculpa, posso fumar no teu carro?

- Oh pá até te podes esporrar no meu carro!

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Angel-a-strange-grows-apart

sábado, janeiro 05, 2008

EUA

O meu candidato: John Edwards.
and we shall be together...

the cure
o suave o negro o aveludado
arremessados contra mim
e boca e olhos e coração todos sangram amor

e agora que sei que estou a despedaçar-me
eu arrancarei o meu coração
e dá-lo-ei de alimento a qualquer um

caíndo do céu
para o vidro do telhado
para o telhado da tua boca
para a boca do teu olho

é mais fácil para mim chegar mais perto do Paraíso
do que alguma vez me sentir inteiro outra vez...

The Cure, Desintegração
nadando a mesma água profunda que tu é difícil

os afogados nas águas rasas perdem menos do que nós...


The Cure, A mesma água profunda que tu


Quem são os afogados nas águas rasas? Todos aqueles que dispensam o amor, a beleza, o romance, a poesia, que acham que a profissão, o dinheiro, o carro, o futebol e as gajas é que tudo o que a Vida tem para lhes dar.
Eu ergo os meus lábios de te beijar
para beijar o céu
nuvem suave e azul
e lento o Sol derrete-se
nas tuas palavras douradas para mim

Eu ergo os meus lábios para te beijar
e beijar o amplo azul mais profundo do céu
e lenta a Lua
nada nas tuas palavras douradas para mim

nunca ninguém irá tomar o teu lugar
eu estou perdido em ti
nunca ninguém irá tomar o teu lugar
tão apaixonado por ti


The Cure, Jardim Crepuscular

Sonho

As pessoas andavam pela rua a lerem livros. Passavam, tranquilas e concentradas, lendo. Flutuavam. E delas desprendiam-se imagens. De cada uma (todas andavam e liam de pé ao andar) desprendiam-se imagens diferentes... que iam sucedendo umas às outras.

Percebi que eram as construções mentais das leituras. Eram as imagens que representavam na sua cabeça através da leitura.

Depois tentei ver as capas dos livros... Era o mesmo livro!

Cada pessoa ao ler um livro, vive um livro diferente.


Angel

O Amor em visita (excertos angel)

Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.


Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.


E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.


E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.


Helberto Hélder
Hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço
e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país,
o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar.
invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre,
à janela, ou partir com as marés e jamais voltar...
releio o que escrevi há doze anos, neste mesmo lugar:
as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei
onde. as borrachas já não apagam a melancolia das palavras.
a escrita que inventámos evadiu-se do corpo.
o vazio devora-nos. onde estivemos este tempo todo?
voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?




Al Berto

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Eu, às vezes

«(...) o fim do dia sempre me trouxe, sei lá porquê, uma espécie de tristeza mansa, um desejo vago de coisas mais vagas ainda, uma inquietação doce, um estado de alma impossível de exprimir, não inteiramente agradável, não inteiramente desagradável, estranho apenas, um
(como dizer?)
sorriso com uma lágrima tranquila dentro, percebem? Tão difícil traduzir as emoções em palavras (...) começa a anoitecer tão cedo, as árvores do dia que nada têm a ver com as árvores da noite, misteriosas, densas, falando, falando, a engordarem de pássaros.»

António Lobo Antunes

Os novos campos de concentração

Entrei no meu centro comercial e fiquei espantado: à chuva, concentravam-se dez pessoas cá fora.

Fui lento a pensar... De repente, um padrão: todos de casaco. Imediatamente a seguir, outro padrão: todos com um cigarro.

Ainda assim - confesso a minha lentidão de raciocínio... - não percebi.

Só depois de entrar no centro, me lembrei:

- Ah! É a nova lei.

Sabia conscientemente que a lei entraria em vigor dia 1. Mas talvez por a repudiar como absurda, ela nunca "entrou em mim".

Não vou invocar argumentos bloquistas, de fascismo e coisas assim - para não ser apelidado de maníqueista. Vou invocar um argumento capitalista a que as pessoas não têm recorrido. Capitalista, disse.

A propriedade privada não encerra a possibilidade de serem os donos dos restaurantes a determinarem se se pode ou não fumar no espaço deles?

Angel

P.S. No norte, fizeram uma sondagem e só 1% dos restaurantes irá ter área para fumadores. Sabendo que 25% dos portugueses fumam, é lógico que as imposições para fumar só podem ser exageradamente restritivas e inexequíveis.
Com rigor, porém, penso que seria bom renascer em todos nós um pouco de ternura.
Que a compaixão e a bondade não andassem por aí, desempregadas, e também elas
tontas e aflitas, por tão sós. Que a felicidade fosse possível. Que tão poucos
não tivessem tanto, e tantos não tivessem tão pouco. Que a paz interior não
fosse, apenas, resultado da solidão, mas a certeza de uma verdade temporal. Que
a necessidade de verdade se transformasse numa urgência diária. Que a
sinceridade constituísse a vontade de se ser verdadeiro. Que a vida não se
traduzisse uma infusão de falsos valores e de promessas de eternidade duvidosa,
mas sim que o conhecimento tivesse a conformidade das exigências sociais e
éticas.

Baptista-Bastos in Jornal de Negócios
As pessoas são como os chocolates embrulhados - cada um revela algo diferente do que as cores do embrulho anunciam.

Angel

As virtudes indispensáveis

Honestidade e solidariedade.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Aconselho vivamente:

http://www.ala.nletras.com/entrevista/GLOBO1107.htm
«O meu avô era monárquico, salazarista, católico e reaccionário. E foi a pessoa mais tolerante e mais democrática que conheci. Com ele aprendi que a escolha dos partidos políticos é de natureza afectiva, não racional - tal como um clube de futebol.»

António Lobo Antunes

Comunicação entre sexos

- Se A então B, se B então D. - diz ele.

- A? - pergunta ela

- A! Logo B! B, logo D!

- A?

- Sim, se A então B então D.

- Mas A?!

- Sim e outra coisa se H então J. Ontem H! Logo J! J e D, achas pouco?

- Mas A, tou chocada...

- E se F logo Z. F... Z! Repara bem: D, J e Z. Se D, J e Z, então P!

- O que raio te deu para dizeres A? Deve ter sido

- Mas porque encalhaste no A?


Angel-as-mulheres-são-mais-intuitivas-e-emocionais-os-homens-mais-lógicos-e-racionais-a-comunicação-entre-ambos-os-sexos-não-é-fácil

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Dualidade inquebrantável

«Um homem só é verdadeiramente homem quando não tem medo de ser mulher.»

António Lobo Antunes

Menos machismo mas também menos respeito pela privacidade

Uma vez, um sexagenários cuja amizade prezo, culto e afável, disse-me:

«No meu tempo, Angel, as coisas com as raparigas eram muito diferentes. Não havia esta oferta que há agora. Nós, rapazes, passávamos anos a cortejar uma mulher, a dedicar-lhe serenatas. Outro dia passei por uns jovens que estavam a dizer quem tinham comido. No meu tempo, se alguém tinha alguma coisa com uma miúda, nunca, mas nunca contava a ninguém! Isso era uma desonra para a rapariga.»

A sociedade era machista. Hoje é-o ainda, mas menos - e isso é colossalmente positivo. Evoluímos. Mas noutro sentido regredimos. O valor da privacidade desapareceu.

Quase nenhum jovem se indigna com a videovigilância omnipresente em todo o lado (claro, para fins nobres como a luta contra o terrorismo onde cabe tanta coisa...).

É banal, banalíssimo, as pessoas - homens e mulheres - exporem sexualmente a intimidade dos seus parceiros. Ninguém censura quem expõe fotos da namorada nua ou a foder - isto é um crime e essas pessoas deveriam ser presas. Sim, presas. Há pessoas que se suicidam depois de ver fotos suas expostas.

As sociedades mudam, mas não evoluem (palavra com conotação de mudança positiva) sempre. Houve uma contenção, um respeito, um apego ao valor da privacidade e da intimidade como chão sagrado que se perdeu nesta geração.

As coisas antes eram mais lentas, mais saborosas depois quando se provavam, não eram apenas corpos a roçarem-se.

Hoje, miúdas de catorze anos, transaccionam dez euros no telemóvel por uma masturbação em directo.

Apesar da estúpida convenção do sexo só depois do casamento (não era mais bonita: sexo só entre pessoas que se amam), apesar do machismo, reparem como um homem não andava a expor as mulheres com quem dormia. Há aqui um elemento nobre... que se esvaiu.

Angel