quarta-feira, dezembro 31, 2008

2009

ecos de sonhos róseos
murmúrios prateados suaves
nas estações aveludadas
derramam-se intimamente
sobre o coração da felicidade
nenhuma sombra de luar
nenhum sangue sobre a flor
nenhuma criança assustada no espelho
nenhum crepúsculo sobre o mar
tingirão o teu ano...

(basta acreditares)

angel

Os erros de Marx

Agora que muito se fala do regresso do marxismo, deixo aqui aqueles que são, na minha opinião, os dois erros fundamentais do seu pensamento:

- Pretender ser científico. A história não é uma ciência. Ao traçar a evolução da sociedade humana e dizer que os explorados derrubaram os exploradores e com eles trouxeram uma nova etapa social (esclavagismo, feudalismo, capitalismo) e que, portanto, assim sucederá no futuro é indução, não dedução. E Popper explicou que a indução (não é por ter encontrado três patos brancos que o próximo não possa ser preto) não era segura. Logo... não é ciência.

- Explicar à luz da mais-valia que todos os trabalhadores são explorados. O problema é que há trabalhadores que ganham cento e tal mil contos e que num regime em que o Estado numa fase inicial ou os trabalhadores numa fase mais adiantada detivessem o controlo dos meios de produção, nunca eles poderiam ganhar tanto (nem cem vezes menos poderiam ganhar). À luz de Marx, isso não interessa, porque a sua relação produtiva continua a ser de exploração. O problema é que eles estão-se nas tintas para esse intangível e abstracto conceito desde que ganhem bem. E a maioria dos trabalhadores sabe que ganha mais numa sociedade de mercado do que numa sociedade estatizada (mesmo descontando todos os serviços estatais gratuitos). Agora... o mercado tem de ser regulamentado, muito mais do que agora... E, sim, em alguns casos ocorrerão nacionalizações. Mas a extensão do Estado à parte maior do bolo das actividades económicas é a longo prazo paralisante para a economia.
Mesmo quem é ateu deve discutir metafísica e imaginar coisas como Deus, Alma, vida para além da morte. Uma pessoa sem metafísica é como uma pessoa sem poesia.
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.


HH

Okupas com cartões de crédito dourados

- Muito giros os teus ténis.
- Ya são bué alternativos.
- Onde compraste?
- Nem te digo.
- Então... dei quarenta contos.

Bilhete de Identidade

Nunca percas uma oportunidade de exprimir a tua voz - ela é única.

Nunca percas uma oportunidade de na tua acção deixares uma marca tua.

terça-feira, dezembro 30, 2008

Novas tendências

Nas últimas exposições a que tenho ido, tenho entendido que a arte cada vez mais funde géneros (fotografia, pintura, escultura). Cada vez vejo mais obras de arte incatalogáveis. Mesma na escrita, é cada vez mais difícil e acredito que um dia as categorias de prosa, poesia, ensaio, conto cessarão. Lobo Antunes provocatoriamente pus num livro seu Poesia na capa. A tirania dos géneros, já dizia Borges.


- Olha lá, Angel, isto é o quê? - ouvi outro dia numa exposição inúmeras vezes, só conseguindo dar uma resposta em cada dez perguntas.

Já houve até artistas que expuseram seres vivos (estes ao menos identificáveis!).

Claro que no meio disto, há muita-merda-pretensiosa-e-nula-de-valor. Exemplo: ver telas inteiras de azul, sem mais nada, ou de branco sem mais nada. A primeira tela branca que apareceu teve o seu mérito, agora, hoje... não me f****. É como dizer que gravar uma música de silêncio ou não dar título a uma tela é novidade.

Mas há coisas interessantes. Vi um artista que deixou a câmara no quarto a gravar dias a fio o exterior. E a riqueza que ele apanhou!!! Claro que depois fazia a triagem. E foi esse acervo que tornou visível ao público. Uma maravilha.

Todos podemos, a partir do quotidiano, fazer arte. Regista-o. Anda sempre com uma pena, uma objectiva ou um pincel na mente.

Angel-a-arte-é-inesgotável-temos-é-de-reiventar-constantemente-géneros-e-linguagens
Já me disseram que eu tinha uma energia sexual explosiva, que basta olhar para o constatar, e também já me disseram que eu era tudo menos o tipo de pessoa que pensa nisso, sendo capaz de estar com uma namorada só a conversar e a ler livros na sala.

Consegues olhar para uma pessoa e ver logo se tem um nível de líbido alto ou baixo?
C.:

Além dos comentários, perdi o contador...
D.:

«Um excesso de pensamento analítico atrofia a acção.»

Bernardo Soares
Quanto mais poesia lês, mais chaves tens para decifrares as suas portas.

Angel
Não há Natal sem livros.
sometimes you make me feel like i´m living at the edge of the world i said
it´s just the way i smile you said

the cure

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Ainda a propósito de ursinhos

Quando fui à inspecção militar, tive três incidentes que me confirmam o preconceito do anacronismo que são as práticas da Tropa.

No primeiro teste, tínhamos de responder a um teste psicotécnico. Palavra que gostava que aquelas aberrações fossem mostradas ao país. Perguntavam se tinha tido vontade de matar alguém (se sim, recentemente? seria mesmo capaz de o fazer?). Deviam achar a cruz no «não» garantia da sanidade mental e da não-perigosidade. Desconfio que o Hitler (vegetariano e amigo dos animais) passaria no teste. Quando acabei o teste, pus o lápis (era um lápis que nos davam) em cima da mesa. A mesa era inclinada (aqueles tampos antigos) e o lápis rolou pela mesa e caiu.

- Sua besta!!! Eu disse que não queria ouvir nenhum barulho!!!

Sorri deliciado. Não podia acreditar no que se estava a passar. Sim, ele gritou a palavra «besta».

Em seguida, cá fora, no pátio ao ar livre, acendi o cigarro.

Outro vestido de feijão-frade me gritou e eu atirei o cigarro para o chão. Aí é que ele explodiu e gritou ainda mais. Que aquilo não era a minha casa. Apanhei o cigarro na chão e fui despejá-lo num caixote longínquo (uma atitude ecologicamente, admito, bem mais correcta).

A terceira foi quando nos despíamos. Eu comprara na véspera uns boxers com ursinhos e levara-os nesse dia.

- Mas que boxers são esses?

- Eu só tenho assim destes.

O sargento ou cabo ou o que quer que fosse calou-se perplexo.

Entrei na inspecção médica. A única coisa que me fizeram foi pedir para respirar fundo enquanto tinha um estetoscópio no peito. Peguntaram-me:

- Testículos, tem dois?

- Sim.

E segui.

Parece que com dois testículos e um bom coração teria um futuro garantido naquela instituição. Por azar, passei à reserva...

16 anos depois, um reencontro com uma pessoa que tanto estimo (abraço)

Conversa do meu professor de português do 9.º ano comigo:

- Angek, isto não é como no teu tempo. - disse com ar revoltado. - Hoje, se eu digo que o poeta tem uma arma na pena, ninguém entende a metáfora na turma. Ninguém. E, então, claro que o alimento que tu tens de dar aos alunos é muito pobre... Porque senão eles não comem.

A montanha mais alta é a montanha mais bela

Dei explicações a um rapaz de 12 anos. Não conseguia estar com as mãos quietas. Agarrei no telemóvel e pu-lo num canto da mesa. Sem telemóvel, mexia as mãos constantemente e chegou a partir-me o lápis. No final, marquei-lhe trabalhos. Não os fez. Falei com a mãe. Ela disse:

- Coitado! Eram muito difíceis...

- Eram do livro dele. Fazem parte do programa e vão sair no teste.

- Pois, mas ele já passa o dia todo nas aulas.

Os pais das novas gerações que conheço são hiper-protectores dos filhos. Dizem-me professores que nunca tiveram alunos tão desatentos e tão sobranceiros como agora. Que no final das aulas ligam aos pais a relatarem as falhas dos professores. E que os pais vão a escola sempre defender os filhos, mesmo quando chamam puta à professora ou quando agridem professores. Uma professora disse-me até que já foi proibida de assinalar a vermelho as coisas erradas porque isso era anti-pedagógico e podia traumatizar a criança!

Em compensação, parece-me que os pais nada fazem para impedir os filhos de passar 16 horas em frente à play-station como outro dia li na Sábado, chegando a casos (sic!) de 72 horas!!! Há pais - e não sou eu que o digo - que só se apercebem quando os filhos desmaiam.

Esta geração, a que alguém chamou de geração lead, porque o lead é a parte da notícia que faz um resumo e que procura captar a atenção do leitor. Esta geração, dizia, só consegue prestar atenção a estímulos imediatos. Muito fortes. é o efeito de ter apanhado com Net (msn, hi5, blogs, downloads, etc, etc), telemóvel, 50 canais, i-pod, play stations... Tudo o que não prenda a atenção ao início, morre. E assim vão morrendo os livros, o acto de pensar, de filosofar...

Angel-e-como-serão-os-filhos-quando-os-actuais-filhos-forem-pais

Medos

Perguntaram-me outro dia se tinha medo de alguém. Nunca tinha pensado nisso e pus-me a pensar, a pensar...

Há uma rapariga ruiva que - não sei se morará perto de mim - e que tem um olhar que eu não consigo enfrentar. Não sei que expressões, que segredos, ela esconde atrás daquele rosto frio e perturbante. Sei que tem traços bonitos, mas preversos. Perfura-me com o rosto, não com o olhar - é estranho. E tem o um sorriso que nunca se desenha por completo, que está sempre no princípio - será isso que lhe dá um ascendente sobre mim? Eu baixo o olhar sempre que os nossos se cruzam. Alguém me disse que era louca. Não acreditei. Sei que se a vir de um lado da rua lá ao fundo de costas, inverto a marcha para trás, vá eu para onde for.

Angel
maybe not from the sources
you have poured yours
maybe not from the directions
you are staring at

trust your head around
it's all around you
all is full of love
all around you

Bjork

Segredos desvelados

Quando se passam férias em casa de amigos, partilham-se intimidades involuntariamente (e como eu as escondo). Eu abria a mala (sempre desarrumada) e tirava a roupa que punha no armário.

O meu amigo parou, olhou para mim e disse:

- Angel, tu nunca uses isso quando dormires com uma mulher.


É o meu pijama há 7 anos e ainda hoje, quando lavado e engomado, parece sempre pronto a estrear. Tem uns ursinhos alegres e fofinhos com skis. Para além de ser tão confortável, é lindo. Vou usá-lo por muitos anos.
Kafka queria que lhe queimassem todos os escritos não publicados. Se não fosse Max Brod, não existiriam O Processo ou O Castelo. Herman Melville perdeu um livro e dele hoje só consta o nome. Os casos são inúmeros.

Há eremitas que vão anos para as montanhas ler e evoluir espiritualmente. Esse estádio que alcançam... se não comunicarem, não virem ninguém, morrerá com eles.

Haverá obra-primas em gavetas que nunca conhecerão a luz do dia? Se a tal árvore cair na floresta e não estiver lá ninguém para ouvir poderemos dizer que houve som?

domingo, dezembro 28, 2008

Ilusões

Já viram que quando alguém fala da sua vida e das suas amizades e relacionamentos, queixa-se sempre de uma série de desilusões, de pessoas que não prestam, de coisas-que-fizeram-pelas-pessoas... se todos vemos assim as coisas, metade do mundo está enganado.
Há livros escritos com barro, outros com flores. Com diferentes materiais, se pode chegar ao cume da beleza.
Almada Negreiros diz que a condição necessária para alguém pintar é sentar-se. Por alguma técnica especial que só sentado se consegue desenvolver? Não. Porque só sentado se reflete, se pensa, se aprende. Mesmo no silêncio. É preciso parar. Li, num livro de Medicina, que quanto mais horas dormimos mais desenvolvemos as nossas capacidades de criatividade.

Angel-é-no-sono-que-tudo-acontece

Competição

Passei a vida toda a lutar para ser melhor do que Shakespeare. Consegui-o. E depois?

Tolstoi (nos diários)

Não te diminuas. Por ti.

Já vi pessoas em discotecas ao fim de meio minuto em que tomam conhecimento da sua existência enquanto seres humanos beijarem-se e apalparem-se. Há pessoas que dizem: «fui para a cama com ela e nem sabia o nome». O não saber o nome até pode ser muito irrelevante do que o não saber nada sobre a pessoa além do corpo - e, vá lá, do olhar, da linguagem gestual.

Dir-me-ão: mas há imensa gente que se conhece assim na noite e que depois fica junto. Haverá, mas ainda haverá muit@s mais que não ficam juntos. O ponto - para mim - não é esse.


É a inversão da pirâmide. Entendo que beijar e ter sexo é o culminar de um processo de conhecimento, o degrau lá em cima da escada. Não o contrário. Primeiro fodemos, depois tomamos cafés e conhecemo-nos parece-me ilógico, parece-me começar do fim. E começar do fim é estar mais perto do fim - daí que a maior parte das vezes, as pessoas fiquem viciadas nesses encontros de paixões de uma noite. Porque nunca vão encontrar nada de durável nisso, e a única maneira de não o reflectirem sobre isso, é anestesiarem-se constantemente, mergulharem constantemente em novas e novas e novas experiências vazias.

Continuo a achar que, imaginando as pessoas como mapas-mundo, quanto mais continentes e oceanos de uma pessoa conhecemos, mais saboroso depois é atirarmo-nos para dentro da sua terra e dos seus mares...

(como se quando fizessem amor, fosse algo mais do que os seus dois corpos que estivesse ali)


Angel
diria que se afastaram para sempre os
dias antigos,
as suas laranjas,a sua água,
uma cerejeira breve onde os melros cantavam.

José Agostinho Baptista
deixa a flor
do amor
da amizade
da generosidade
roçar
o teu quotidiano
Qual a outra dimensão da vida? A poesia.

O melhor da vida é inexprimível e aquilo que mais se aproxima da comunicação desse inexprimível é a poesia.
O que forma um homem é o modo como lê e o que lê. Tudo, devemos ler tudo, sem cálculo e sem limites. A leitura é um utensílio insubstituível. Prepara-nos, ensina-nos, adverte-nos. "A leitura é uma amizade", escreveu Proust, que li com extrema dificuldade, a mesma com que não terminei o "Ulisses", de Joyce, peço perdão. Mas devorei (é a palavra) "O homem sem Qualidades", de Musil; e "O Processo" de Kafka.

BB

sábado, dezembro 27, 2008

Boomerang de um-só-sentido

O amigo heterossexual disse-lhe:

- Hei-de te fazer passar para o meu lado. Apresento-te aí umas miúdas bem boas...

(por que raio é que o lado dele é o certo e o outro o errado ou doente que precisa de ser convertido?)

- Olha, que desse lado para este já vi muitos passar, mas deste para esse nunca vi.


(De facto, não o consigo contrariar... Contra-exemplos?)

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Por favor, ajudem-me a compreender

Temos de respeitar, sim, todos como seres humanos, mas a parte para mim mais difícil - mea culpa - é ter paciência para seguir os caminhos ínvios e sinuosos que levaram os outros a ter ideias que considero aberrantes.

Por exemplo, e a propósito de conversas natalícias...

Uma pessoa que mora na Guarda conta que as pessoas lá se conhecem todas de vista e que quando vem alguma uma pessoa do sexo masculino (mesmo de uma terra contígua) e na discoteca ou no bar olha para alguma miúda da Guarda leva um arraial de porrada.

Eu ainda perguntei à pessoa que me contava:

- Mas esse rapaz de fora meteu-se com ela?

- Não, só olhou.


Desculpem, mas não compreendo. Desculpem, não consigo descortinar sequer um motivo para tal. Pessoas de Torres Vedras garantem-me que lá o espírito é idêntico, e dizem-me que as freguesias da Portela e dos Olivais também funcionaram neste esquema há uns anos, assim como os colégios do Académico e do Moderno. O que eu não percebo é: e quando elas querem ter alguma coisa com alguém de fora, eles protegem-nas não as deixando, cerceando a sua liberdade para o seu bem?!!!

Estes cobardes (porque só actuam por terem na sua terra as costas quentes), machistas, territorialistas deviam ser presos. A boçalidade e a violência, quando juntas em quantias extremas, aproximam-nos mais do animal não-racional do que racional.
O meu entendimento da minha alma com a tua é tão... que só é comparável a ele mesmo.

O Outro

Podes pensar por um bocadinho? Tens tempo?

O que é que tu já fizeste pelos que passam fome, pelos que são torturados, pelos que andam em cadeiras de rodas, pelos cegos, pelos que vão ser condenados à morte (por exemplo mulheres adúlteras que são apedrejadas, enterradas vivas até à cabeça que é apedrejada até morrerem)? Se não fizeste nada, então ao menos quando te lembrares de te queixares da bandolete que se partiu ou das calças que não havia o teu número, pensa nisso.

Já fizeste o plano do que queres melhorar enquanto ser humano para 2009? O que já melhoraste este ano? O que tens de bom para lembrar deste ano? O que tens para agradecer aos outros que te fizeram este ano? Sim, tens, todos temos. Não o reconheceres é sinal que estás doente.
- Mas para mim, família é que eu escolho, os meus amigos. Porque esses eu escolhi e depurei ao longo de anos, não me foram impostos, entendes?

O momento perfeito

A família, cerca de 20 pessoas reunidas à volta da lareira, a luz da sala tornava a atmosfera íntima e mágica, os sofás brancos, a comida de todas as formas e sabores, uma fraternidade tão terna entre outros. A conversa, o fogo da lareira. Pelas janelas, entrava o amor que vinha de outros lares e se acumulava mais espesso do que o ar.

- Isto é o céu - disse uma senhora de 86 anos. Estou tão bem aqui.

- Só falta nevar para...

[ser um momento perfeito] todos lemos.
- Quando esse momento acontecer, por favor, não transaccionemos palavra.s
- Porque tu és tão diferente de tudo o resto, que quando uma pessoa entra na tua dimensão, aos poucos torna-se tão viciante.
Tantos pensamentos, mas longe do computador, esqueci-me deles e agora... jamais os recuperarei?

terça-feira, dezembro 23, 2008

Os dois sábios que quero dar a conhecer ao mundo

Duas das pessoas mais cultas do país são: Castro Ferreira e o livreiro André da livraria Lácio no Campo Grande.

Quando falo com eles, falo horas. São pessoas muito acima do que para aí se escreve nos livros e jornais, que recusaram o mainstream, que podiam ser conhecidos mas não são - recusando, sei-o, imensas coisas, ainda recentemente do Jornal de Letras. Estes intectuais na sombra, do melhor que o país tem, crème de la crème, têm de ser conhecidos e só em que confiam se dão a conhecer. Obrigado pela confiança.

Ambicionava entrevistar ambos. Consegui o Castro Ferreira, de quem fiquei imediata e eternamente amigo. Foram sete horas de conversa. Entretanto, já voltámos a falar. Não resisto a aqui deixar excertos.

Eu não sou um homem linear», diz a certa altura o diácono Castro Ferreira da Igreja Cristo-Rei da Portela. Foi muita coisa ao longo da vida: estudante de Agronomia, Product Manager da indústria farmacêutica, estudante de Teologia, vendeu cursos de inglês e francês, professor de Educação Moral. Hoje tem 68 anos, está reformado da indústria farmacêutica, mas continua ligado à Igreja, sendo a pessoa da nossa freguesia que mais sacramentos exerceu, mais baptizados, casamentos e funerais. No passado, foi marxista e budista. É, acima de tudo, um homem cultíssimo. Uma biblioteca viva com quem dá gosto falar. No meio da entrevista, cita de cor poemas, canções e excertos de livro na íntegra (o entrevistador conhecia Liberdade de Fernando Pessoa e garante ter ouvido o poema na totalidade). Doou recentemente 8000 livros à Biblioteca da Igreja. Mas nem isso aliviou o peso das prateleiras da sua casa, pejadas de livros e de filmes.


Veio da Liga Comunista Internacionalista para a Igreja Católica. Como foi essa transição?

O comunismo era um modo de eu exercer a minha militância porque eu sou uma pessoa que necessita de causas por que militar. Quando conheci o Cardeal Ribeiro, senti que ele foi fundamental para a minha entrada para a Igreja. Conheci um católico muito culto e a partir daí fiz muitas leituras e descobri muitos católicos cultos.

Chegou à fé com que idade?

Aos 35 anos. Jesus com certeza que já me tinha batido à porta muitas vezes e eu não tinha ouvido. Eu já tinha sido aluno dos Maristas e sabia muitas orações de cor e ajudei muita gente a morrer, recitando-lhe as orações. Dava-lhes a mão, recitava-lhes e até lhes cantava orações.

Ratzinger, o Papa Bento XVI, não representará um retrocesso da Igreja Católica no diálogo ecuménico com as outras religiões, na questão da sexualidade que só é aceite por ele enquanto associada a uma intencionalidade de fecundidade ou procriação, e depois em questões civilizacionais, como a não condenação absoluta da pena da morte, que é admitida em alguns casos?

Há um breve que foi publicada com a assinatura dele que diz que a única religião que importa é a católica. Quanto à sexualidade, há o método das temperaturas, que é muito complexo e que só dá num casal muito bem entendido. Eu sou contra a pena de morte em qualquer caso, mesma a morte justa. Onde é que estava o homem adúltero quando a mulher estava a ser apedrejada? Estava a pagar uma multa, uma coima! A única pessoa que pecou foi ela. E onde é que estava Jesus? Estava ao lado da parte fraca…

Álvaro Cunhal afirmou que se Cristo fosse vivo, sentir-se-ia mais próximo dos comunistas. Concorda?

Concordo com ele no sentido em que aqueles que militavam em certo grupo eram, de facto, mais íntimos. Entre toda a esquerda que conheci, as minhas saudades vão para a malta do PCP. Nunca encontrei uma camaradagem, uma solidariedade tão viva como no PCP. O PCP era estalinista, era muito dogmático, mas os camaradas eram estimados. Mesmo quem saísse e não traísse, nunca era mal visto. Agora, noutro sentido não. Nós costumávamos dizer que não dávamos esmolas porque não éramos franciscanos. Era a teoria do quanto pior, melhor, e isso não é cristão. O que Álvaro Cunhal queria dizer é ninguém se preocupava em ser preso, nem mesmo com o sustento dos seus filhos. O problema era a pessoa falar, porque havia métodos muito sofisticados de pôr uma pessoa a falar, que vinham da Gestapo.

Que métodos eram esses?

Não era só o espancamento, era também o vencer pelo cansaço. Ao fim de três dias de interrogatório, ao fim de 72 horas, as paredes começam a não ter contornos e se lhe der para ver bichos, vê, e pensa que as aranhas vêm ter consigo – entra-se num mundo de alucinação total, como os que Huxley descreve depois de tomar psicotrópicos.


Referiu quem saía do PCP… E quem sai da Igreja como é encarado?

Quem sai da Igreja e tenta lutar de fora, só faz mal a ele próprio e à Igreja. O ideal é lutar a partir de dentro e nunca tentar abater a Igreja. Mas deixe-me lhe contar uma história. No outro dia, o Edmundo Pedro [resistente antifascista] veio ao baptismo do neto, e eu, antes de começar o baptismo, disse que o queria cumprimentar. Identifiquei-me, falei de nomes do nosso passado comum, e ele começou a chorar e a dizer: «Na Igreja fazerem-me isto.» Eu disse: «Ò homem, a Igreja tem pessoas de muitos lados e com muitas experiências.»

Quando era mais novo, pertenceu a grupos de tertúlia, aos quais pertenciam grandes vultos da Literatura Portuguesa, como Herberto Helder. Hoje esse espírito perdeu-se?

O Herberto ia para o Monte Carlo, onde neste momento está a Zara, ao lado do cinema Monumental. Era um café muito comprido. Encontravam-se aí o Herberto, a Luíza Neto Jorge, o Nuno Júdice, o Batarda. O Herberto é um homem muito afável. Depois havia uma parte que servia jantares onde jantava, por exemplo, o José Saramago. O Herberto nunca jantaria com o Saramago, e se lhe perguntasse, especulo que diria o mesmo que a Sophia de Mello Breyner disse quando uma jornalista a interpelou aquando da morte da Natália Correia: «Não a conheço.» Hoje esse espírito perdeu-se porque não há tertúlias, há bares.

para quem quiser conhecer mais: http://skocky.spaces.live.com/

Imagens que ficam

- Às vezes, dizem-me, mas porque é que Cristo não se manifesta mais... Não é possível, ficávamos chamuscados, porque a intensidade da sua luz é tão forte que nos queima, porque queima qualquer vestígio de pecado. Eu tive isso por breves instantes e foi uma coisa... um instante que revoluciona a vida, de uma intensidade inigualável. Não dá para suportar tanta luz, só em brevíssimos instantes. É um raio de beatitude que chamusca o pecado. O contacto de frente com Cristo matar-nos-ia por isso.

Words don´t come easy

Cristo nunca escreveu, a não ser na areia com um pau algo que não chegou até hoje. Sócrates era contra a palavra escrita porque, ao contrário da palavra falada, o logos oral, não podíamos interpelar com perguntas um texto escrito - mas uma pessoa sim. A escrita era para Sócrates morta, ao contrário da pessoa «viva», o conversador - o que, em seu entender, permitia um processo de reflexão dinâmico.

Será um ângulo interessante, que ainda hoje, por exemplo, Agostinho da Silva subscreve. Mas se não fosse Platão ter escrito sobre Sócrates e registado o seu discurso oral na escrita, se os evangelistas não tivessem escrito o que Jesus disse -estes não seriam hoje Sócrates e Jesus.

A questão é que... as conversas leva-as o vento e a escrita é o modo mais seguro de atingir a perenidade.

Angel
E o membro da Igreja Católica virou-se para mim, fez uma pausa, e disse:

- Sabe, falta na Igreja um teologia do animal. Animal vem de alma... Não me digam que isso não é vida.
Nenhum homem é uma ilha isolada;

cada homem é uma partícula do continente,

uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar,

a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório,

como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria;

a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano.

E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;

eles dobram por ti.


John Donne
E ali estivémos, a noite passada num strip tease das almas.
Pensa, logo falas.

Pensa, logo ages.

Sente, logo pensas.

Paz

Ser-se a pessoa mais só do mundo não é mais infeliz do que ser-se a pessoa mais solicitada do mundo.
Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade

Herberto Helder

Sim, gosto

Só faz sentido habitares o planeta Terra, enquanto gostares de pessoas.

Ouvidos do cérebro sem cera

Uma vez estava indisposto, com a sensação de que a digestão estava a ser mal feita, e ela disse:

- Põe três dedos abaixo do pulso e pressiona, aqui, deste lado.

Fiz isso e instantaneamente fiquei bom. Era medicina chinesa, explicou - um conhecimento ancestral.

Mais tarde, soube de uma mulher que suava, suava, suava... Os médicos ocidentais nada faziam. Ela, dizia, chegava a ter camisas molhadas como se colocadas debaixo do duche! Curou-se, por completo, na medicina tradicional chinesa.

Hoje, um vizinho veio cá a casa. Contou que lhe iam amputar uma perna. Desesperado, procurou vários médicos: o parecer era tragicamente consensual. Até que foi a um acupunctor (acho que está mal escrito) que lhe prescreveu argila. A perna não foi amputada e o meu vizinho esculpiu uma estátua com a cara dele no fundo do seu coração.


Angel-recusar-ideias-novas-leva-ao-afunilamento-da-mente

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Histórias de taxistas

Quinta-feira, 18 de Dezembro. Cinco da manhã. Uma fila de gente junto ao pior bar (café?) do mundo (a Botica, em Santos). Os táxis tardam em aparecer. A fila vai aumentando e quem passar por ali naquele instante ficará pasmado com a extensão da mesma. Um táxi passa do outro lado da rua e apanha umas raparigas e um rapaz. O meu amigo Luís que estava na fila corre indignado para o táxi.

O táxi vai arrancar e o que faz o meu amigo? Num rasgo de lucidez, a única coisa simultaneamente não-violenta e que impeça o táxi de sair dali. Põe-se em cima do capot. Chama a polícia pelo telefone.

Entretanto, um rapaz dentro do táxi atira ao meu amigo:

- Eh, coitado foi para lhes dar boleia a elas. São mulheres.

(O argumento mais imbecil que podia ter usado, tanto que na fila havia outras mulheres.)

A polícia dá razão ao meu amigo! O taxista ainda reclama:

- E o meu capot?

- Tem alguma amolgadela? - pergunta o polícia. - Não, então é melhor estar calado. Sorte já o senhor tem de não apresentarmos queixa de si. Arranque, mas sozinho, não leva nenhum passageiro consigo.

O meu amigo voltou para a longa fila e... recebeu uma ovação de aplausos e frases encomiásticas. Tipicamente zé povinho: reconhece a atitude bem feita no outro, mas é demasiado instalado para ir lá...

Não é uma cena que nunca tivesse visto. Um táxi evitar ir à fila para apanhar umas raparigas. Vi várias vezes, já. O que nunca vi foi a atitude que define uma posição. A complacência é o alimento ideal das ditaduras e das enfermidades do status quo.

Dois dias depois, o meu amigo Luís viu à porta do Lux o taxista! Estava fora do carro, correu para dentro, e desapareceu sem ninguém lá dentro.
A serenidade do amanhecer
E o conceito efémero
De um gesto azul
e rosa (...)


ibidem
Mas eu não soube interpretar a noite
Boca benigna dos sentidos


João Esteves Pinto, Ficaram pregos pelas paredes
with every kiss, there comes a promise


the mission
Alguém me poderá dizer como poderei recuperar os comentários do blog? :(

domingo, dezembro 21, 2008

«A música é som a que alguém deu mais valor do que aos muitos outros sons que cabem num dia. Há som borboleta que encanta meninas adolescentes e há som que é quase silêncio que costuma encantar os mais velhos.»

idem
«Impossível amar a mulher indiferente à poesia (...) é como a obsessão de cheirar a flor sem cheiro (...) não percas tempo: as mulheres realistas são realidade a mais.»


Gonçalo M. Tavares
Li algures que a ingratidão é o teste supremo para a robustez do Bem.
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.


Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias:
os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.



Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus.



Eugénio de Andrade
Se eu pudesse viver novamente minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais. Mais tolo ainda do que tenho sido. Na verdade bem poucas coisas levaria a sério....
Seria menos higiénico..... Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios....
Iria a mais lugares onde nunca fui, comeria mais gelado e menos lentilha. Teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida; claro que tive momentos de alegria... Mas se eu pudesse voltar a viver trataria de ter somente bons momentos. Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora....
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termómetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se eu voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças... se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas vejam, já tenho 85 anos, estou cego e sei que vou morrer...

Jorge Luis Borges (autoria incerta)
Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira de um homem?...

Noites Brancas, Dostoievski
A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo.

Oscar Wilde
Aproveitar o lado bom deste frio:

- o som da chuva

- livros debaixo de cobertores

- dvd´s debaixo de cobertores

- a luz que vem do aquecedor é tão bela e cheia de esperança

- doces

- abraços

- chás quentes
Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.


Camilo Pessanha
Quem me ensinou mais sobre o sexo feminino foi a minha gata: quando ia atrás dela, procurava outro colo. Quando não queria saber dela, imerso em alguma actividade ou pessoa, não me largava.
Prefiro a tristeza à inquietação.
- Se não fossem os meus gatos, havia dias em que não abria a boca.

sábado, dezembro 20, 2008

Por brincadeira, uma amiga minha, a aniversariante, decidiu contar a outra que eu era um psicopata. Contou-lhe histórias terríveis de facas e outros quejandos, com a suspeita de que em tempos idos matara uma rapariga.

A minha amiga fê-lo porque gosta de testar os meus dotes de representação e queria ver se eles eram bons o suficiente para convencer a amiga de que eu era um terrível psycho.

Não encarnei papel nenhum essa noite, fui eu próprio, mas a amiga dela engoliu a história em pleno. Não tirava os olhos de mim. E, não, infelizmente não era repulsa, era curiosidade e fascínio...

Não me lembro, de resto, um magnetismo tão grande sem que tenha precisado das palavras.
Não te afastes do caminho.
... e a crise ética?


Angel

sexta-feira, dezembro 19, 2008

E, do alto dos seus 68 anos, disse-me:

- As pessoas a partir dos 40 não me interessam. São umas instaladas. Seja sempre um adepto da transumância, Angel. Nunca tenha uma morada eterna; nunca se instale.
Os nomes penetram-nos até aos ossos.

Ernest Hemingway
Palavra de honra que não entendo como é que alguém pode dizer que se enrolou (fuga ao verbo «comer») com alguém sem ter tido nada (se mesmo quando têm, já não acho piada nenhuma). Mete-me nojo. Nem tenho conseguido olhar para a cara dele.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Conversas interceptadas na H&M

Quinta à noite, numa loja. Véspera de Natal e os subsídios a incomodarem as carteiras femininas. Duas amigas actualizam-se por entre cabides e peças soltas em que pegam sem critério ou sentido aparente, gravitando por entre estilos e cores e padrões… Mais um trapo, um bate boca, um diálogo de alcova…

- Já sabes onde vais para o fim-de-ano?
- Não! Mas quando bater a meia-noite, espero estar bem acompanhada de preferência na cama com um gajo bom!
Por entre gargalhadas, a ousada protagonista cruza propositadamente comigo o seu solitário mas esperançoso olhar. Ok. Ganhaste. Dou-lhe o feedback:
- Faz muitíssimo bem.

Pisco-lhe o olho, sorriu e avanço dali para fora. Solidariedade, que palavra tão bonita.
Ajudei-a a recriar a esperança, numa falsa imagem de amor emergido de bom sexo e badaladas.
Pode ser que hoje, pelo menos, consiga adormecer sem chorar.


Daniela Dias
- Quando for velhinha, ainda vais gostar de mim e não vais cobiçar as mais novas?

Prazeres da Leitura (Almada Negreiros)

Qual o estímulo maior do teu dia de hoje?
A essência do romance é a incerteza.

Oscar Wilde

Erotismo

Harmonia universal movendo-se

Quem tu tiveres de conhecer, acredita que vais conhecer.
Conheço todas as pessoas que queria conhecer. Ou que era preciso conhecer.
«-Porque estou aqui? digo, dirigindo as palavras lentamente para Hermann Hesse. Porque tenho a felicidade de encontrar-me em sua casa, comendo em sua companhia, vindo de tão longe?
Hesse conserva seu semblante hierático e sem sair da luz invernal que o envolve, responde:
-Nada sucede por casualidade; aqui só se encontram os convidados certos: este é o - CÍRCULO HERMÉTICO.»


MIGUEL SERRANO, «O CÍRCULO HERMÉTICO» - HERMANN HESS A C.G. JUNG
Quando for octogenário, quero ser assim: reunir jovens à minha volta, junto de uma lareira não-eléctrica e contar histórias eivadas de lições morais e de infinitas interpretações.
- Eu amava o gato, percebe? Dei 300 contos para a sua urna.
ontem não te vi em babilónia
Na altura do Natal, as figuras públicas, comos jogadores de futebol ou os actores, ídolos de crianças e pré-adolescentes, visitam deficientes e crianças com cancro. Não pensem que o impacto é meramente pontual, que é apenas um dia melhor na vida dessas pessoas.

Não, para elas a visita do ídolo, o amor demonstrado por ele, é algo que fica gravado perenemente dentro delas e que suavizará sempre a sua vida, como uma lembrança-bálsamo a que podem sempre recorrer.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Não tenho esse encantamento, o espanto que vocês têm perante o que apresento, porque todas estas coisas me surgem de forma natural no meu cérebro - diz o génio.
A perfeição, não, porque é constante e entediante... Para além da perfeição, porque é transgressivo, subversivo.
- As pessoas preocupam-se tanto com o que os outros pensam.
- Sim, precisam dos outros como de espelhos que validem a sua imagem.

Isso é um problema para depois

Compartimentar - um dos verbos mais importantes na vida.

Uma história de que me lembro recorrentemente e que procuro que seja inspiradora dos meus dias é a do sujeito britânico, dono de uma empresa, que indo tranquilamente de fim-de-semana numa sexta-feira de uma semana agitadíssima, se lembra subitamente de que não enviou um fax que tinha de seguir naquele dia!

Inverteu a marcha, voltou à empresa, subiu os degraus apressado, enviou o fax, e quando se preparava para sair depara-se com um papel em cima da secretária do director financeiro:

«Tentei contactá-lo por telefone, a empresa entrou em falência técnica e será encerrada.»

Depois de ler o papel, pousou-o onde estava e disse:

«Muito terei de me preocupar na segunda-feira».


(e, calmamente, alegremente, lá foi de fim-de-semana. a problem at each time, as they say...)
Se não fosse a hipocrisia, 90% das relações cordiais desmoronavam-se. Alguém escreveu que ela é o pilar da civilização.
A imaginação... permite-nos ir ao Paraíso mais belo ou ao mais horrível Inferno.
A sms dizia: «Partilha comigo o que estás a fazer neste momento.»

Naquele momento, genuinamente não o podia fazer :)
Farto do frio
Hoje alguém me chamou «Velho Lobo do Mar» três vezes. Fiquei tão confuso que nem lhe perguntei o porquê. Alguém sabe a simbologia?

Há coisas enigmáticas. Como uma vez alguém (quem?) que me chamou «capitão de águas doces».


Ele há...

terça-feira, dezembro 16, 2008

- Cada vez que penso nela e no que me fez, fico cheio de raiva.
- Então, não penses nela.
Ela diz que pressente cada vez que ele está mal e que não é preciso ele dizer-lho - mesmo à distância, mesmo sem o telefone. Ele acha isso um disparate.
Matei-o. Era mais inteligente, mais culto, mais bonito do que eu.


Max Aub,Crimes Exemplares
Causa-me estranheza e repugnância quem, metaforicamente, consegue compartimentar o grito lancinante do vizinho e dormir tranquilo.
- Tem uma inveja de mim, uma coisa... Aposto que é por causa das minhas mamas.
Deus é amor e também humor, porque Deus ri-se tanto dos disparates que nós consideramos pecado. O grande pecado é a negligência face à fome, à guerra, à miséria.

Manuel Martins, Bispo de Setúbal
um fogo a arder mansamente sobre os telhados da noite


angel
A gaiola saiu em busca do pássaro.

Kafka, Aforismos
Sinto como se tivéssemos nascido na mesma casa, mas eu tivesse saído pela porta da frente e ele pela das traseiras.

Capote

segunda-feira, dezembro 15, 2008

(Na altura do Natal, parece que temos por hábito convocar os temas da solidariedade, do amor, da ética. Não vou fugir à regra.)


Vi um filme (baseado num caso real) chamado Gangster Americano com uma personagem, um polícia, que me marcou. Contra tudo e contra todos (inclusive a instituição onde trabalhava), lutava pela honestidade até ao fim, no meio de um sistema corrupto, pondo em perigo a sua vida e o seu bem-estar. O polícia honesto era gozado por todos como sendo um fraco, um totó, alguém movido por um móbil incompreensível. Mas manteve-se inflexível. Não se vendeu. Mesmo perante a raiva da sua mulher, cansada por a sua honestidade não trazer nada de palpável, que, num acesso de raiva, lhe atirou:
— Tu não és diferente dos outros, não penses que és melhor do que eles por isso.
Aristóteles dizia que o melhor caminho era sempre o do meio, e que as características humanas deveriam ser, por isso, moderadas. Um excesso de coragem é tão nocivo como um excesso de cobardia, por exemplo. Contrariando Aristóteles, direi que a inflexibilidade dos nossos valores é sempre uma virtude, por mais excessiva que seja. A auto-destruição ou caminho para a glória começam sempre com um pequeno passo.
O músico de qualidade que, não conseguindo vender no mercado, se decide tornar mais comercial só para ter o sustento suficiente que lhe permita depois fazer a música de boa qualidade; está a matar irreversivelmente uma parte do seu talento. O escritor que decida fazer algo light para vender mais, está a prostituir a sua escrita. Porque a máscara que afivelamos, como dizia Pessoa, cola-se à cara.
O nosso cérebro habitua-se ao que nós fazemos e os sentimentos de repulsa normalizam-se. A prostituta que vai para a cama por dinheiro, transforma o opróbrio num acto maquinal e neutro.
O coração bondoso e puro de amigo meu estava magoadíssimo com uma pessoa. Queria-se vingar.
— Não o faças. A vingança é um acto negativo. Tu nunca fizeste uma vingança.
— É só esta, a sério.
Soube-lhe tão bem que repetiu. Hoje é uma pessoa vingativa.
Ou aquele outro que traiu a namorada e passou noites insones de remorso. Anos mais tarde, traía com o máximo do despudor:
— Só custa a primeira — explicou.
É como as pessoas que fazem uma dieta, e que dizem: «Ai, é só hoje que como um doce». O «só hoje» é uma consolação mental ilusória para o pecadilho. Ou as pessoas que deixam de fumar e «é só este cigarro» (como dizia Wilde humoristicamente: «Deixar de fumar é fácil. Eu próprio deixei de fumar oitenta vezes.»)
Também tinha um bom amigo que me infernizava as noites com as suas bebedeiras e começava sempre só com um copo:
«Não, não, é só este.»
«Não, é só mais este.»
Quando cometemos algo contra os nossos princípios, lascamos uma fissura perene dentro de nós. Até ao dia doloroso em que deixamos de nos reconhecer ao espelho.
Não acredito numa felicidade que dispense a ética.
- Deixa-te disso dos livros, pá. Tens é de curtir.
Fecha os olhos. A seguir, o melhor momento da tua vida. Acordas num mundo de sonho: sem fomes, sem prisioneiros, sem escravos, sem relações de domínio, sem tortura.
Só por instantes se aguenta a plenitude divina. Passa-se depois o resto da vida a sonhar com ela.

Vergílio Ferreira
Fui com o sorriso dela para casa. Senti-me tão bem diante dele e ao mesmo tão mal - vulnerável, sem defesas.
- Então mas ela não é inteligente?
- Não, não é.
- Mas namoras há 8 anos, caramba, só agora é que descobriste?
- Não.
- Ela sabe que tens essa opinião?
- Não é uma opinião, é uma certeza, sempre a tive, só que há outras coisas que me fazem gostar dela.
- Incrível, pode-se viver décadas com uma pessoa e há opiniões que não temos coragem de transmitir.

domingo, dezembro 14, 2008

A sensação do dever cumprido activa sempre um sorriso cá dentro.
A maior parte das pessoas ignora quem lhe interessa. E tem um raciocínio bem estruturado por trás desse comportamento:

- Ò Angel, se tu alimentas relações [no sentido lato] com quem não queres, depois geras à tua volta um círculo de pessoas cuja companhia não te é agradável e estás a ser falso com elas.

Gostava de ser assim, gostava de incorporar este raciocínio.


Infelizmente, se olho para alguém com ar de gatinho abandonado, se um olhar desamparado me procura, eu adopto-o e abrigo-o. Não consigo rejeitar quem já se sente muito rejeitado.

Sei que estou errado e não consigo mudar.


Angel
Almeida Garrett escreveu, um dia, que "as Constituições são feitas para não ser respeitadas." A afirmação do grande escritor e soldado da Liberdade era a verificação de um facto, não o eco desencantado de quem se deixara vencer pelo desânimo. Embora o desencanto e o desânimo também dele se haviam apossado.

Lembrei-me da frase e cotejei-a com exemplos: o da nossa magna carta em especial. A verdade é que nada do que é humano se proclama por decreto. Lembro-me de que caminhávamos para o socialismo e para uma sociedade sem classes, objectivos abundantemente aplaudidos, à Direita e à Esquerda. Foi o que se viu. É o que se vê.

Saint-Just, na Convenção de Paris, afirmou: "A República Francesa proclama que a liberdade é uma ideia nova na Europa. E também que a felicidade é possível entre os homens." O documento está repleto de boas intenções. E a verdade é que nem tudo se quedou nas intenções. A Revolução arrastou consigo o sopro de que as coisas do mundo poderiam ser alteradas pelas acções dos homens. Se foram as palavras que incitaram os homens a agir, nem sempre as palavras possuem o poder de remover os imensos obstáculos que se opõem à natureza do que propõem.

Completam-se sessenta anos sobre a Declaração dos Direitos Humanos. Logo no primeiro artigo, a nobreza da causa está consignada: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade."

Porém, as coisas não são bem assim. A própria nascença de uns e de outros está condicionada pelos privilégios. Quem nasce na Somália possui os mesmos direitos e as mesmas liberdades de quem nasce, por exemplo, na Alemanha? E quem nasce pobre, na Alemanha, dispõe das mesmas prerrogativas de quem nasce rico? E o "espírito de fraternidade" passou a ser comum entre os seres humanos, logo a seguir à publicação da Carta? Evidentemente, estamos no território das intenções. E, evidentemente também, nenhuma dessas intenções encontrou concretização.

O mundo está melhor, diz-se. Está melhor para quem? A banalização do desrespeito pelos direitos do homem atingiu níveis insuspeitados, desde que a Declaração foi tornada pública. O século XX foi o século das maiores atrocidades, com um desfile de horrores sem paralelo na História. A II Grande Guerra nunca terminou: prolongou-se por outras, regionais, tribais e religiosas, até hoje ininterruptas. O latrocínio, o etnocídio, o genocídio prosseguem a parada de infâmias.

A África, mas não só a África, é não apenas o continente do desespero como aquele onde a sangueira corre, perante a total indiferença das potências ocidentais, mais propensas a dar continuidade a políticas de devastação do que a preservar os direitos de uma condição humana cada vez mais desumanizada. São milhões e milhões de povos africanos submetidos a ditaduras sustentadas pela Europa, com a negligência afrontosa de que essa mesma Europa tem a hipocrisia de falar em direitos e liberdades.

Quem se interessa pelas dores alheias? Pouca gente. A relação com o outro, já de si pouco sólida, transformou-se numa inqualificável impassibilidade. Os direitos humanos são os direitos daqueles que se julgam acima de todos os direitos e de todos os deveres. Com a miséria fazem-se negócios: até o negócio da compaixão e da caridade. Amontoam-se fortunas com a infelicidade de milhões de seres humanos.

Pol Pot e o horrendo caudal de crimes cometido em nome do comunismo; as chacinas no Vietname; os crimes praticados pelas diversas juntas militares em diversos países da América Latina; o estalinismo e a pretensa justificação do goulag, em nome do combate à contra-revolução e à defesa do socialismo - tudo isto aconteceu depois da edição da Declaração Universal dos Direitos Humanos. E a abominação não acabou. Um pouco, ou largamente, por todo o lado o homem é espoliado da sua própria razão de ser. Forças poderosíssimas opõem-se a quem luta pelos direitos humanos. Em certos países, os propugnadores desses direitos eram considerados subversivos e, por vezes, eram encarcerados. Aconteceu, por exemplo, em Portugal, na época de Salazar.

No artigo 7.º da Carta, lê-se: "Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei." Sabe-se que não é assim. Não só em Portugal: em todos os países "civilizados." Advogados importantes do nosso país, o próprio bastonário da Ordem, Marinho Pinto (que de aqui saúdo), admitem, como axioma, que há justiça para quem tem dinheiro; quem o não tem, que se arranje.

Todos os dias somos confrontados com atropelos às consignas do documento, cujos sessenta anos comemoramos. Comemoramos, realmente? E quem comemora? Aqueles que o praticam? Mas aqueles que, modesta e discretamente o vão tentando, não recebem o aplauso, rejeitam a glória, o soldo ou a prebenda.

BB
As pessoas que mais admiro são aquelas que nunca acabam.

Almada Negreiros

sábado, dezembro 13, 2008

deixa a beleza tocar um erro
chamado vida


e. e. cummings
Há vários graus na Literatura. É preciso ler imenso até chegar a Ulisses. É isso que aprecio, me fascina e me magnetizo: a longa escada. Cada vez que lemos um livro, subimos um degrau mental, vamos alargando a amplitude daquilo que percebemos.
Gostava de estar em casa. O seu quarto (tirando a ausência de livros) era o modelo de sonho para mim, quem me dera subtrai-lo da sua casa e juntá-lo à minha... Uma poltrona ao lado da cama, cobertores felpudos e macios para os dias de chuva, uma aparelhagem com comando, uma cama espantosa com dossel, tudo lá presente, e tudo com espaço... uma maravilha. Só pelo quarto não admirava que gostasse de estar tardes inteiras e noites em casa.

Um dia levei-o a um sítio que reproduzia uma casa. Gostou! Quis lá voltar!

- É a primeira vez que vou a um sítio onde gosto de estar.


As pessoas que trabalham na noite deviam virar-se cada vez mais para este tipo de pessoas/nicho de mercado que não é assim tão pequeno: espaços nocturnos que lembrem a sua casa.

Comodismos amenos

Passava a vida a dizer que gostava de sair à noite, mas nunca saía. Sempre que o convidavam, tinha uma desculpa indesmontável.

Passou um ano a queixar-se do quanto trabalhava. «Isto não é vida, isto não é vida, tou farto, vou sair». Encontrei-o passado seis anos. «Agora nem fins-de-semana tenho, vou ter de sair rapidamente da empresa.»


Casado há dez anos, nunca está com os amigos. Sempre que se fala da sua mulher, diz: «Eu estou numa prisão, isto não pode ser, ela tem de me dar liberdade...»


Há pessoas que encaram a mudança como um fardo, e que vêem a espessura de uma palhinha que têm de levantar para alargarem a amplitude da sua felicidade como um elefante de duas toneladas. Ou então, não querem mudar. Provavelmente gostam da sua vida, são felizes assim (e têm todo o direito a sê-lo da forma que entenderem desde que não prejudiquem ninguém), mas não têm coragem de assumir o seu modus vivendi aos olhos do mundo - nem sequer aos olhos dos amigos. Por alguma razão, têm vergonha da sua escolha.



Angel-está-tudo-na-tua-cabeça

A necessidade do eco da nossa voz

- Tu és um jardim, Angel, e tens de regar todas as tuas plantinhas. Não podes deixar uma horta sem regar. Tens de te dar com pessoas que satisfaçam as tuas áreas todas do teu ser. Se não o jardim vai definhando aqui e ali...
Era tão narcisista que se excitava quando se via desnudado ao espelho.
Uma voz ensonada pode ser tão tremendamente sexy...
- Angel, uma mulher e falo por mim e por todas as que conheci quer é ser amada. Muito amada. O homem tem de dar muito amor e ter pulso firme, personalidade forte, entendes? É tudo à volta de dar: pulso firme, muito amor. Muito amor, pulso firme. Há homens que têm uma coisa mas depois não dão a outra. Quando se encontra as duas, a mulher entrega-se e é feliz.
Homens: preferem mesmo as loiras?

Mulheres: acreditam mesmo que os homens preferem as loiras?

Mulheres e Homens: fazem consciente ou incoscientemente qualquer correlação entre a cor do cabelo e o intelecto?

sexta-feira, dezembro 12, 2008

O som do seu riso.
Nunca conta uma história onde no final tenha saído derrotado. Nunca revela uma fraqueza. Nem sequer um sonho partilha com medo que lhe apanhem algum medo ou insegurança do inconsciente. É um manipulador. Omite tudo o que é negativo em si - ou simplesmente mais ou menos. Quer criar uma imagem de perfeição. Gosta que gostem não dele, mas da imagem que gostava de ser. E quando os outros a validam, ela agarra-se à sua auto-imagem como se ao seu próprio eu. E quem não consegue convencer que é o que projecta ser - afasta da sua vida.
A certa altura, começamos a transformar-nos na média das cinco pessoas das quais estamos mais próximos.

Ken Blanchard
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o jardim das rosas. As minhas palavres ecoam
Assim, no teu espirito.
Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.

(...)


As palavras movem-se, a música move-se
Apenas no tempo; mas o que apenas vive
Apenas pode morrer. As palavras, depois de ditas,
Alcançam o silêncio. Apenas pela forma, pelo molde,
Podem as palavras ou a música alcançar
O repouso, tal como uma jarra chinesa ainda
Se move perpetuamente no seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota dura,
Não isso apenas, mas a coexistência,
Ou digamos que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio estiveram sempre ali
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora.


T. S. Elliot, Quatro Quartetos
José Saramago tentou ser poeta. Ao início, muitos escritores experimentam a prosa e a poesia, e, regra geral, mais tarde firmam-se num só estilo.
Escreveu um livro Os poemas possíveis. Lendo a sua poesia, percebe-se o título: são sofríveis até dizer basta!
Tinha tudo, excepto o privilégio de se dar altruisticamente a outra pessoa.


F. Scott Fitzgerald
Uma pessoa intriguista é uma pessoa que, não conseguindo ter uma amizade incondicional com alguém, inveja quando vê isso nos outros, e para se sentirem melhor, precisa de nivelar os outros por baixo, para se sentir menos inferiorizada - para tal, destrói (ou tenta destruir) todas as relações possíveis.
- Quando estou no metro ou numa esplanada, ignoro sempre a mulher mais atraente. Sempre. Depois, subitamente lanço-lhe um olhar lança-chamas durante uns segundos e deixo-a suspensa à espera do próximo olhar, que não acontece.
Ler-lhe um poema e ela chorar de alegria.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

É uma pessoa com good vibes.
Manoel Oliveira fez hoje 100 anos e passou o dia... a trabalhar.
Cada um deve pedir a Deus que lhe dê a coragem de aceitar o que não pode ser modificado; a força de mudar o que pode ser mudado; e a sabedoria para distinguir uma coisa da outra.

Gilbert Keith Chesterton
Jorge Luis Borges falava com o jornalista sobre a importância da comunicação não-verbal. A certa altura, começou a declamar algo.

- Isso é o Pai-Nosso! - exclamou o fotógrafo.

- Sim, e estava a recitá-lo em finlandês.




idem

É que muitas vezes nem compramos o bilhete...

Um homem muito generoso viu-se a certa altura privado da riqueza e implorou a Deus:

- Meu Deus, faz com que eu ganhe a lotaria.

Quando morreu, foi para o Céu. Amuado com Deus, recusou-se a entrar. Tinha sido generoso com o próximo e Deus não tinha sido generoso com ele.

- Porra, Deus porque não ganhei a lotaria.

- Mas como podia Eu ajudar-te se nem compraste um bilhete...


Maktub

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Porra, não era assim tão difícil

Se os não-pobres transferissem 3,5% dos seus rendimentos, acabariam com as carências dos pobres (2 milhões).

Alfredo Bruto da Costa
esquecer uma mulher inteligente custa um número incalculável de mulheres estúpidas.

a l a
É só isso que te peço. Que suavizes o meu tédio. Suaviza o meu tédio.
No documentário sobre Saramago que passa neste momento na RTP1 (voltaram os bons programas culturais?), espanto ao ouvir que:

- Cavaco recebeu um doutoramento honoris causa em Literatura pela mesma universidade que eu(!)


E, com humor, acrescentou:

- A seguir dêem-me a mim o da Medicina.
Quando estiveres mal, lembra-te:

- Isto vai passar.

Quantos problemas do teu passado se volatizaram, quantos não te parecem agora insignicantes e irreais de tão longínquos?
Um cavalheiro não é mais do que um machista com boas maneiras.

Velho Ancião
Era uma pessoa tão boa que quando queriam abusar dela sexualmente, sofria calada.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Por falar em Sr João... um texto de que muitas pessoas me têm falado

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004
Pés Egipcios e gregos

Já que estamos numa de pés, lembrei-me de referir um conceito desconhecido para muita gente e que gera sempre interesse quando referido junto das mulheres. Esta técnica será muito util para os fetichistas de pés, mas também é interessante para quem gosta de causar impacto junto das mulheres. Refiro-me é claro, a teoria dos pés egipcios e gregos.
Para comecar fica a explicacao:

PÉS EGIPCIOS: O formato dos dedos é em "escada", ou seja, o tamanho dos dedos vai diminuindo continuamente desde o dedo grande até ao mindinho.
PÉS GREGOS: O dedo médio é do mesmo tamanho, ou em alguns casos, maior que o dedo grande. O efeito escada nao existe.

Nao sei bem porque (talvez por falta de assunto), mas há alguns anos lembrei-me de mencionar a teoria dos pés egipcios e gregos a um grupo de mulheres, e qual nao foi o meu espanto, o feedback foi muito positivo. Desde entao, e SÓ QUANDO CONSIDERO APROPRIADO, espevito a conversa com este tema. Caso o leitor pretenda experimentar, eis as instrucoes:

(Versao sandálias) Espere uma altura em que a conversa esteja a ficar desinteressante, e após um ligeiro silencio, que permite a mudanca de assunto, aponte para os pés dela e diga de uma forma natural e séria: "Nao pude deixar de reparar que os teus pés sao egipcios/gregos".
A reaccao dela será "O que é isso?", enquanto olha para os seus pés tentando perceber o porque de tao singular afirmacao. Após alguns instantes de silencio em observacao, seguido de "É impressionante, ainda por cima formato egipcio/grego perfeito", ela estará curiosissima, sorrindo e a pedir explicacoes.
Ai, o leitor, detendo o poder da informacao (poder é afrodisiaco para as mulheres), explica a sua teoria tomando como exemplo o pé da menina. Os verdadeiros fetichistas (e descarados) poderao mexer no pé dela enquanto procedem a explicacao, pois ela estará tao espantada com o rumo que a conversa tomou, que já consideram natural pegarem no seu pé (mas beijá-lo nao é!).

(Versao sapato fechado) Embora menos espectacular que a versao acima enunciada, o leitor pode sempre perguntar "Estive a pensar, os teus pés sao egipcios ou gregos?" Com a dose certa de "lata", elas até descalcam o sapato para saber a que grupo pertencem.

Por experiencia própria, em todas as vezes que abordei este assunto, nunca me dei mal. Já tive reaccoes do simples "Ah curioso", até "lindo, como sabes essas coisas?", enquanto sorriam e lancavam olhares insinuosos. Isto porque estamos a abordar um assunto novo, inesperado de uma forma séria, facto que nos envolve numa áurea de mistério e sabedoria. É muito importante a maneira como se expoe a teoria, tem que ser de uma forma séria, pois estamos a falar de factos cientificos.
Para os mais imaginativos, podem inventar que as pessoas com pés egipcos tem uma personalidade X, enquanto gregos tem Y (adaptar as caracteristicas da pessoa).
Convido-o a experimentar numa próxima conversa. Garanto que elas nao ficarao indiferentes.

PS: Nao me lembro onde aprendi esta teoria, mas há alguns anos lia a revista Pró-teste enquanto estava na casa de banho a mandar um fax ao primeiro ministro. Ai deparei-me com um artigo sobre ténis; lá explicava quais os ténis mais apropriados para cada tipo de pé, referindo egipcios e gregos. A TEORIA É CIENTIFICAMENTE COMPROVADA. Se tiverem razoes de queixa, escrevam para a DECO.

Sr Joao

Texto Angel 19/1/2004 - será que mudámos depois destes cinco anos?

Sê tu próprio

O Zé era um rapaz gordo, feio, com poucos dotes de oratória, educado, amigo, puro, humilde, trajando sem gosto e sem classe, desprovido de charme... No seu grupo de amigos era o único que com 25 anos nunca houvera “fodido uma gaja”; sequer até dado um beijo.
O seu grupo de amigos – de bairro – era constituído por gajos machões e machistas (qualificativos que andam sempre aos pares) que se conheciam desde infância e cujas vidas eram compartilhadas por todos num espírito de grupo sem segredos.
O Zé assim como os restantes membros do grupo não tinham vida pessoal para além desse grupo (mesmo as namoradas se integravam no grupo), todos sabiam que o Zé que andava sempre com eles de café em café e praia em praia e bar em bar, o Zé não tinha tido nada com mulheres...
Pressionado pelo grupo que sistemática e paternalmente o aconselhava arranjar uma gaja, enfim a “pinar” depressa – condição de pertença ao grupo qual insígnias de piloto de aviação; vergonha social essa que ano após anos se abatia sobre o Zé como um fardo que fosse engrossando diariamente sobre as suas costas...
Até que um dia o Zé revelou à mesa de um café: “Ando a comer a minha empregada!!!”
Uma vez que o Zé e o seu grupo não tinham amizades e vida fora do grupo, a empregada era a única pessoa que em teoria o Zé poderia “comer” e que não teria de levar para o grupo pois as empregadas não se apresentam, comem-se no local do trabalho, o mesmo é dizer em casa.
Até ao dia em que um membro do grupo foi a casa do Zé e viu num relance uma mulher vestida de empregada - gorda, de bigode, com mais de 60 anos. A mentira era demasiado óbvia.
As pressões de grupo são terríveis e nalguns casos levam as pessoas mais vulneráveis e frágeis a forjarem personas... o que inevitavelmente cria sentimentos de conflito dentro dos indivíduos moldados... é por isso que Shakespeare disse que o mundo era um palco e nós somos todos actores...

Faz mesmo cinco anos...

Assim começou há 5 anos...

Abertura da Tasca do Sr Joao

Benvindos a minha TASCA: s. f. acto ou efeito de tascar;
casa de pasto ordinária; taberna.


Obrigado, Cris, por teres reparado.

Obrigado, Estupenda, por seres a única pessoa que acompanha o blog desde o início (ou que pelo menos aparece nos comentários com o mesmo nick desde há cinco anos).

Obrigado especialmente ao Sr João que criou o blog e me convidou - sem ele, o Angel não existiria porque não teria paciência nem engenho para criar um blog. Obrigado pelo convite, Sr João, e pelo solicitar constante. Na altura, o Sr João, que morava na Hungria, pediu-me que escrevesse sobre sexo e mulheres de forma polémica e assim o fiz. Durante algum tempo, o Sr João contribuiu com mais textos do que o Angel até que um dia, o Angel herdou simpaticamente o blog. Lembro-me tão bem de quando o blog era feito entre Hungria e Portugal...

Já agora, um pedido, Sr João, reapareça... nos comementários ou no blog (dar-lhe-ei com gosto a nova password para escrever textos). E, já agora, tire a única marca do blog de que não gosto: o questionário da mulher mais sexy. Obrigado, Sr João. Os seus textos ainda são muito comentados, e o tempo não lhes criou uma ruga. Ainda outro dia me falaram do imenso humor das bifanas do Ti Zé (ver arquivos dezembro 2003) - como se fosse meu!.

Obrigado a tod@s os que cá vêm beber chá quente em dias de chuva e lareira.

Angel
Gozo supremo para o observador: estar sóbrio quando todos estão alterados por bebida e estupefacientes.

O Vulto Negro (quarta parte)

O vulto negro caminhava pela praça coberta de neve.
Hirto, alto, seguiu pela rua das montras iluminadas. Os seus passos regulares foram interrompidos por uma poça de água onde a lua se reflectia. Baixou-se ligeiramente, passou a mão num gesto rápido pelo fundo das calças, e continuou. Atravessou o aglomerado de casacos, gorros e cachecóis. Furou em linha recta e parou junto à pista.
Os risos esmoreceram e uma rapariga cedeu-lhe a sua posição encostada às cordas, levando lentamente uma pipoca à boca enquanto espreitava o vulto negro por cima do ombro. O vulto moveu a cabeça para a direita, e depois para a esquerda, atirou um olhar para a pista e voltou atrás. Um homem afastava um pouco de neve do cabelo da sua mulher e limpava a humidade do seu rosto. A mulher acotovelou o homem e apontou com a cabeça para o sujeito que passava por eles.
O vulto contornou a praça, e subiu uma rua. Parou junto a um prédio, tirou um fósforo, acendeu um cigarro, ergueu a cabeça para uma janela iluminada e meneou-a. Deu um piparote no fósforo, e seguiu.
Andou sem parar até chegar a uma porta escura, onde entrou, limpando a neve dos sapatos no tapete.
No dia seguinte, à noite, o mesmo sobretudo preto comprido atravessou a praça. Virou numa rua e entrou numa taberna. Bebeu um leite quente e comeu uma sande.
Herberto Helder diz que os grandes livros são máquinas interrogativas: multiplicam perguntas, não avançam respostas.
O livro perfeito seria aquele a que o leitor encostaria a cara e veria o seu reflexo. O livro-espelho.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

(clicar para aumentar)

domingo, dezembro 07, 2008

Olho para as pessoas com que falo e a sua cara é o barómetro ds emoções que sentem. Leio o tédio e o entusiasmo. A curiosidade, a empatia e o repúdio. Às vezes, vejo pessoas prolongarem conversas que não suscitam o mínimo interesse nos seus interlocutores. Basta olhar de relance e ver a cara de sono e náusea, com a atenção a mil quilómetros dali... É uma forma de autismo ser indiferente à linguagem corporal.

sábado, dezembro 06, 2008

Pleno de vida agora, concreto, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três dos Estados Unidos,
A ti que viverás dentro de um século ou vários séculos mais,
A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.

Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino como serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)


Walt Whitman
Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia
O meu amigo mais antigo (desde os 3 anos), o Hugo, lembra-me uma história de há 15, 20 anos.

Um motorista machizóide e rude de quem os miúdos não gostavam na escola ter-me-á um dia perguntado:

- Então e ò Angel, e gajas? Namoradas, nada?

- Eu, não! Eu sou gay.

Diz o Hugo que o homem me olhou petrificado.
A Guerra do Fogo, há uma cena em que uma mulher virada de costas a lavar no rio é subitamente penetrada por um homem. Este tipo de animalidade gera o riso em muitas pessoas que vêem o filme. Rimos com a cena, mas será que não conhecemos hoje pessoas assim?

Há cada vez mais gente que evoluiu tanto tanto, libertou tanto a mente que... regrediu a esse estádio do paleolítico, a esse comportamente puramente animal. Um desperdício do cérebro?

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Conheci uma menina de 10 anos, simpática e expedita, que me garantiu que «já fui ao Botica e ao Garage». Pediu-me que a levasse ao Lux.

Tinha dois telemóveis. Passou meia hora ao telefone com um rapaz - «o Ben». Ainda me perguntou se tinha namorada e com quem é que eu estava ao telefone.

- Nã, nã, tu deves ter namoradinha.
Quando um jornalista tem amigos e diz mal deles, não está a ser Bom Amigo. Quando um jornalistas tem amigos e nunca diz mal deles, não está a ser um Bom Jornalista.
- Temos uma amizade com benefícios - ela disse.
- Angel, tu consegues ver em quem é heterossexual quem escolheria como parceiro se fosse homo. Pelos amigos que mais o entusiasmam. Tu, como homem, tens amigos que se fossem raparigas queriam-te para... Não consegues ver isso?

quinta-feira, dezembro 04, 2008

- O sofrimento do mundo esmaga-me. É desanimador pensar que por mais que faça, haverá sempre infinitamente mais por fazer... Pessoas que morrem de fome, mulheres vítimas de maus-tratos, deficientes sem estruturas condignas para se moverem quotidianamente...
- Eu posso-te ajudar e estamos nisto até amanhã: pessoas que vão neste momento a caminho do corredor da morte, doentes terminais, crianças abusadas sexualmente pelos pais... A quem prestar ajuda é esse o teu dilema?
- Sim, porque quem quer que eu escolha como grupo-alvo para ajudar, é sempre uma parte infinitesimal do mundo. Aliás, nunca poderei abarcar um grupo inteiro, mas talvez duas ou três pessoas desse grupo.
- Isso é imenso. Tu és só uma pessoa e já viste a importância que te atribuis. Dás-te banho todos os dias, dás-te alimento várias vezes por dia, fazes tudo para estares bem, gostas de ser reconhecido, gostas de ter amigos, quando tens uma dorzinha, fazes tudo para a eliminar. Ajudar uma pessoa é imenso, porque um é tudo o que tu és. E esse um para ti é tudo!
- No fundo, o que me dizes é que não me devo sentir amargurado ou culpado pela parte do sofrimento do outro que não controlo.
- É aquela máxima: se podes alterar uma situação, não te preocupes, luta para a alterar. Se não podes, não te preocupes, aceita-a. Os teus recursos são limitados, a começar porque não tens o dom da ubiquidade e não tens 1000 braços e 1000 pernas. Escolhe a tua causa - seja a fome, os direitos dos animais ou a luta contra a tortura e a pena de morte - e torna melhor a vida dos teus próximos, e não penses mais no sofrimento do mundo. Pensar muito nisso atrofia-te a acção. Como dizia o Descartes, atira-te para a floresta às escuras. Podes seguir todos os caminhos e por isso não sabes o que hás-de seguir. Escolhe um e vai até ao fim. Porque se escolhes um e voltas atrás e ziguezagueias é garantidamente menos provável que encontres algo...

Angel
Não é fácil penetrar esta alma coriácea. Há quem julgue impossível até. Quando se entra, já não se sai. O revestimento é duro fora e duplo por dentro.
Há pessoas que, por cobardia, ou por uma extrema compaixão, nunca conseguem dizer que não ao Outro. Todas as pessoas que se aproximam delas... não afastam. Então, acontece darem-se com pessoas com quem não têm afinidades. No fundo, no fundo, no fundo, sentem sobre os seus ombros a tarefa de serem amigos de todos os infelizes e estranham nos outros a simplificação de se darem apenas com quem gostam.
Era uma pessoa tão pragmática que nunca tinha sonhos quando dormia.

Pré-conceitos

Pessoas organizadinhas, carreiristas-alpinistas-sociais, e contabilistas frígidas.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Todo o efeito procede de uma causa. O mistério é apenas a ignorância da causa. Mas ela existe. Isto sossega-te tanto quanto a mim?
- Tu deves ajudar quem consegues ajudar, deves tentar sempre ajudar, quando vês que a pessoa não quer mudar ou não consegue mudar, ou tu não sabes que palavras ou acções podes usar para a mudar. É que não te podes esquecer que o tempo não é elástico e perderes tempo com quem não quer ser ajudado é perderes tempo valioso que poderias usar com quem quer ser ajudado. E tu podes ajudar de tantas formas. Eu deixo sempre uma sementinha do que acredito nos outros. Deixo sempre nos outros uma sementinha das minhas causas e valores e quem um dia pensa, reflecte e aceita a sementinha vai passá-la a outras pessoas e assim sucessivamente...

terça-feira, dezembro 02, 2008

Lá há pessoas - imaginem - que não dormem. E porque não dormem? Porque nunca têm sono. E porque não têm sono? Porque são loucos. Então os loucos não têm sono? Como é que os loucos podem ter sono!

Kafka, Reflexões
o melhor gesto do meu cérebro é menor
do que o bater das tuas pálpebras que dizem
nós somos um para o outro


e.e. cummings

segunda-feira, dezembro 01, 2008

- Aquelas perguntas de infância: quem somos? para onde vamos? o que fazemos Aqui? qual o sentido disto tudo? - permanecerão sempre sem resposta, e ao longo da vida, vão-nos surgindo sempre... Pensaremos imenso nelas e nunca encontraremos respostas. A minha resposta, a única que encontrei, ou melhor a menos má, a que menos me insatisfaz é que no mundo há tanto sofrimento, no mundo há tanta gente má, para que os bons momentos, para que as boas pessoas se diferenciem. No fundo, as coisas são todas dicotómicas e são-nos para diferenciar o lado bom, para lhe prestarmos mais atenção, para que que seja menos banal - é a maneira de ele brilhar mais.
- Eu sei que tu és uma boa pessoa que quer sempre evoluir enquanto ser humano. É importante fazermos sempre uma auto-análise e olha que poucos o fazem. Vermos os pontos em que podemos evoluir mais enquanto seres humano, fazermos esse balanço constante e irmos mudando. Sentirmos a evolução ao longo dos tempo e mesmo dentro de cada relação com a mulher, com os filhos, com os amigos, sentir que estamos a adaptarmo-nos cada vez melhor ao Outro.

domingo, novembro 30, 2008

Prenda 6

Se me queres ter de novo, procura-me debaixo da sola das tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Todavia dar-te-ei saúde,
E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor.

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Estarei algures à tua espera.


Walt Whitman

Prenda 5

Vejo Deus em cada uma das vinte e quatro horas, em cada momento.
Nos rostos dos homens e mulheres vejo Deus, e no meu próprio rosto ao espelho.
Encontro cartas de Deus espalhadas pela rua, todas assinadas com o Seu nome,
E deixo-as onde estão, pois sei que onde quer que eu vá outras irão chegar pontualmente e sempre.

Walt Whitman

Prenda 4

Ode à vida

Toda a noite
com um machado
a dor me feriu,
mas o sonho
passando lavou como uma escura água
ensanguentadas pedras.
Hoje estou vivo novamente.
De novo
te levanto,
vida,
sobre os meus ombros.

Ó vida,
taça cristalina,
de súbito
enches-te
de água suja,
de vinho morto,
de agonia, de desgraças,
de pegajosas teias de aranha,
e muitos crêem
que guardarás para sempre
essa cor infernal.

Não é verdade.

Uma noite lenta passa,
passa um só minuto
e tudo muda.
Enche-se
de transparência
a taça da vida.
Um longo trabalho
nos espera.
De um só golpe nascem as pombas.
Se engendra a luz sobre a terra.
Vida, os pobres
poetas
julgaram-te amarga,
não saíram da cama
contigo
com o vento do mundo.

Sofreram os amargurados
sem te procurar,
barricaram-se
num negro tugúrio
e foram-se atolando
no luto
dum solitário poço.
Não é verdade, vida,
és
bela
como a minha amada
e tens entre os seios
odor a menta.

Vida
és uma máquina plena,
felicidade, rumor
de tempestade, ternura
de delicado azeite.

Vida,
és como uma vinha:
amealhas a luz e reparte-la
em cacho transformada.

Aquele que te renega
que espere
um minuto, uma noite,
um ano curto ou longo,
que saia
da sua mentirosa solidão,
que indague e lute, junte
as suas mãos a outras mãos,
que não adopte nem proclame
a má-sorte,
que a estilhace dando-lhe
forma de muro,
como à pedra fazem os canteiros,
que a corte
e dela faça
umas calças.
A vida espera
todos aqueles
que amam
o selvagem
odor a mar e a menta
que ela tem nos seios.

Pablo Neruda

Prenda 3

Prenda 2

Prenda 1

Parabéns, Denise, é meia-noite. Não te envio sms nem te telefono, deixo-te aqui uma surpresa.

sábado, novembro 29, 2008

Umas amigas minhas, no âmbito de um jornal académico, foram assitir a uma conferência do Saramago para no final irem lá fazer-lhe umas perguntas.

O Saramago falou com a imprensa «conhecida», e, quando chegou a vez delas:

- Eu para vocês não tenho tempo, desculpem lá.

Elas, fãs da Obra e do Homem, sentiram nesse momento que não há queda mais vertiginosa do que a de um ídolo, como escreveu Dinis Machado.

Quando uma pessoa é Grande, o sucesso não a torna mais arrogante, mais sobre-humana.


Ernest Happel era treinador de futebol. Ganhou tudo, tinha convites dos maiores clubes do mundo, onde poderia ganhar rios de dinheiro, mas decidiu ir treinar um clube da segunda divisão do seu país. É um gesto só ao alcance das Grandes Almas.
Bar do Teatro da Comuna. A peça acaba, sou o primeiro a encostar-me ao balcão. A senhora atende uma pessoa que chega depois de mim (actor? encenador?).

- Desculpe, eu já cá estava.

- Pois, mas é que esta pessoa... (e não conclui).

A seguir, atende outra pessoa, presumivelmente ilustre.

Eu volto a reclamar.

E outra e outra e outra...

Até que viro costas e digo de forma audível:

- Foda-se para estes meios de esquerda pretensiosos que são a coisa mais elitista que há!
Um amigo meu estava num arremedo de parque de estacionamento a fumar ganzas com amigos.

A polícia apareceu.

Um membro da autoridade vociferou uma cantilenta contra os malefícios dos charros.

No final, irritado, concluiu:

- Foda-se, com tanta gaja boa que há aí para foder!

sexta-feira, novembro 28, 2008

Miguel Esteves Cardoso escreve que Deus não é socialista e que fez pessoas bonitas e inteligentes (eu acho que a inteligência não é algo inato, mas algo que se desenvolve, se alimenta, nomeadamente com livros). Diz ainda que o mito da inexistência de pessoas bonitas e inteligentes é uma consolação imaginária, uma invenção das pessoas feias e invejosas.

Nicks do Msn que decoro sem querer

Genius lasts longer than beauty.


(aposto quem foi alguém feio que o inventou)




Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.


Luís de Camões, Os Lusíadas


O povo não é democrático nem tolerante. Basta andar de transportes públicos e sentir-lhe o pulsar. A canseira do trabalho. As doenças. A corrupção dos políticos (crença que impulsionou a falência de algumas democracias e o surgimento de totalitarismos). A falta de honestidade (que mora sempre ao lado). O sistema de cunhas (que só beneficia o Outro). A pouca firmeza da autoridade, a criminalidade, a imigração, e com elas a xenofobia e o racismo.
Na ressaca do assalto e sequestro no BES, ouvi nas conversas de café:
– Esse lixo humano devia ser todo banido da sociedade.
– Os ladrões deviam ser todos mortos a ver se os outros depois tinham medo de roubar. E aos pedófilos, antes de os matarem, deviam torturá-los até ao fim.
– Era juntar esses imigrantes e mandá-los todos embora. Só vem para aqui a escumalha.
A SIC apresentou há uns anos uma sondagem em que 90% dos portugueses aprovavam a pena de morte. Se não fosse a constituição (e os partidos políticos) salvaguardarem-nos, a pena de morte, a prisão perpétua e a tortura eram bem recebidas por vastos sectores da sociedade portuguesa.
Será que ninguém se lembra de que Salazar foi a figura do século escolhido no programa dos Grandes Portugueses em que se votava por telefone durante semanas ou meses?
O recente estudo de Bruto da Costa sobre a pobreza revelou que uma das razões para a persistência do fenómeno é o preconceito que os portugueses têm face ao pobre, encarado como ocioso e meliante, o que obsta à implementação de políticas de redistribuição de rendimentos. É raro ouvir alguém falar positivamente do Rendimento Social de Inserção (que, recorde-se, tem uma prestação individual média de 83 euros por mês!), esse instrumento que só serve para alimentar vidas luxuosas de preguiçosos que têm bons carros e imenso dinheiro escondido no colchão.
Mais recentemente ainda, uma sondagem revelou que os portugueses estão maioritariamente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Que indícios é que temos de sermos um povo aberto e democrático?
Não tenho ilusões de que uma parte considerável do povo – esse que se cruza connosco todos os dias na rua e não o do conceito abstracto – despreza mesmo a democracia. O que era preciso era alguém que pusesse isto na Ordem, devolvesse o respeitinho, endireitasse as contas, trouxesse segurança às ruas e nos insuflasse o orgulho de ser português. É por isso que algumas figuras políticas que por aí andam a ressuscitar o espectro de Salazar têm tantos apoiantes…
Por mais razões de queixa que tenhamos dos políticos e das leis, convém não olvidar que são eles que, em muitos casos, nos impedem de cair na barbárie.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Last night I dreamt
That somebody loved me

The Smiths

A faca não corta o fogo, mas arruina a carteira

O Herberto Helder não reedita livros. Reeditar implica reescrever. E quando os reescrever, o livro é outro, tem outro título. Nunca fez segunda edições.

O livro dele A faca não corta o fogo esgotou em duas semanas. 3000 exemplares. Peguei nele numa livraria, sopesei-o (tem cara dura, bem bonita, por acaso) e pensei:

- Estou sem massas, vou pedi-lo para o Natal.


Assim fiz. Entretanto, li e ouvi que ele se esgotou!

Foda-se!

Tentei tudo: ninguém o tem. Nenhuma livraria ainda tem algum exemplar.


Descobri uma livraria (poesia incompleta) onde, no seu blogue, há um leilão do livro.

O livro, que custava 15 euros, já vai em 60 euros. Fecha quinta ao meio-dia.

Os 60 euros que vão na frente do leilão são deste senhor estouvado e irresponsável que aqui escreve estas linhas...


Angel

quarta-feira, novembro 26, 2008

Desafio

«As regras são:
(..) responder às seguintes perguntas com títulos de músicas de uma banda ao nosso critério.»

Do blog da Leooo para o blog do Miguel www.impensamento.blogspot.com

para o blog da Daniela www.eternaloucura.blogspot.com


para aqui...


1 - Descreve-te.

Angel, Massive Attack

2 - O que as pessoas acham de ti?

Black Mountain Mist, The Mission

3 - Onde gostarias de estar agora?

Paradise City dos execráveis guns...

4 - Descreve a tua vida.

My Way, Frank Sinatra

5 - O que esperas de um relacionamento?

Just like honey, Jesus and Mary Chain

6 - O que é o amor, para ti?

Eternal Sunshine, Portishead

7 - Como é a tua sexualidade?

Secretly, Skunk Anansie

8 - Define o teu estado de espírito neste momento.

Help!, Beatles

9 - O teu maior desejo?

Wonderful World, Louis Armstrong

10 - O que te faz sorrir?

The beatiful people, Marilyn Mason

terça-feira, novembro 25, 2008

Será que as pessoas que levam uma existência fútil, mergulhadas no perfume inebriante das posses materiais, será que algumas delas são pessoas profundas, cheias de preocupações éticas e metafísicas, mas que decidiram que precisavam de abafar o ruído das perguntas existenciais e que só mergulhando num oceano de futilidade as abafariam e assim seriam minimamente felizes?

Angel-vivemos-numa-casa-de-bonecas-mas-a-cabeça-presa-ao-céu-por-um-papagaio-de-papel
Buda, perante o sofrimento do mundo, disse que queria ter mil pernas, mil braços e mil olhos para poder ajudar o Outro.
Haverá sempre pessoas que só se importam com o seu nicho (a maioria?). Haverá sempre pessoas que nunca conseguem compartimentar o facto de que algures no mundo alguém está doente, algures no mundo alguém passa fome - mesmo quando são impotentes perante esse sofrimento, isso é um ruído de fundo na sua felicidade.
- É uma pessoa muito exigente nos princípios, mas é só com os outros. É um ethical-one-way.
Parece sempre uma pessoa diferente, a cara dela... não a consigo fixar na minha cabeça. É sempre diferente quando a vejo.
Os amendoados lábios guardavam sonhos
Amar alguém é terrível. O medo de que sofra é um desamparo absoluto.
Seduzir é continuar a acreditar que há sempre algo deslumbrante, uma sensação nova por descobrir, é ver a fachada desmoronar-se mil vezes e ainda assim continuá-la a perseguir pessoa atrás de pessoa, sem nunca ter presente um dos milhares de desilusões até então.

Casanova
Casanova ataca de novo

«Certos indivíduos, homens e mulheres, sentem uma necessidade compulsiva de disseminar a sua energia e o seu investimento libidinal. É preciso multiplicar os parceiros e as experiências, cada um por sua vez, ou, porque não?, simultaneamente. Nenhuma relação parece suficientemente apaixonante para eclipsar todas as outras e, ademais, estas própria disseminação parece um modo satisfatório de conduzir a vida afectiva. Há algo de inebriante na perspectiva de poder multiplicar as conquistas e de avaliar assim os efeitos do seu encanto sobre um número cada evz maior de presas. Se as relações amorosas não têm continuidade, se eles já não se enredam senão em aventuras sem amanhã, é em grande parte porque já consumiram aquilo que o outro lhes podia oferecer, isto é, a sua própria imagem tão avidamente procurada. Um prolongamento da ligação faria apelo a outras motivações e revelar-se-ia sem dúvida ilusório. (...) O reconhecimento de si próprio, que se espera e se encontra nas relações efémeras repetidas, implica também, em contrapartida, o stress de ter de arriscar essa imagem em cada novo encontro. Cada novo encontro apresenta-se como um teste a que o indivíduo voluntariamente se submete, teste que avalia a sua aptidão para criar laços, para abrir novas portas.»

Louise Poissant

segunda-feira, novembro 24, 2008

Estava num carro com amiga e amigo. Um indíviduo, protegido pelo gangue atrás, cercou o carro, ameaçou-nos, e garantiu três vezes que me rebentava todo do carro se eu saísse.

Conseguimos resolver o assunto. Com jogos psicológicos e com muita muita sorte.

Quando conto esta história a alguém, dizem-me:

- O condutor devia arrancar com o carro e atropelá-los.

A vida humana não vale mais do que tudo?

Será que há pessoas que vêem uma parte da humanidade como lixo?

Palavras com que faço amor

cielo


(experimenta-a na tua boca devagar)

céu em italiano

A casa de Neruda em Valparaiso


Sugestão

http://www.youtube.com/user/MontyPython
Isso não é um problema, isso é um problemazinho.
Nunca ninguém é atormentado pelo Bem que praticou.
No Brasil, nasceu uma pessoa a quem os pais deram o nome de três vezes nove vinte sete.
- E quando uma pessoa gosta mais da outra, seja numa relação, seja numa fase pré-relação, a que gosta menos tem o poder do domínio sobre a outra.

domingo, novembro 23, 2008

Pedro Mexia, escritor, crítico literário, sub-director da Cinemateca afirma que, ao contrário do que por aí afirmam, gosta de filmes comercialóides.

Quem vive muito a cultura, quem pensa muito sobre as coisas - precisa sempre de um escape, uma espécie de banho turco para o cérebro.

É natural.

Agora, quanto mais filmes comerciais vemos, mais depressa lhes apanhamos os artifícios e eles tornam-se previsíveis - o problema é esse. Já sabemos, por exemplo, que nas comédias românticas, o par fica junto no fim, e que nos filmes do Steven Seagal e Chuck Norris os bons vingam os maus.
A consciência tranquila tem um preço inexcedível.
Constato sempre que as pessoas mais relativistas a nível de ético, mais flexíveis, são sempre as mais dúbias do ponto de vista de carácter, sempre as mais vacilantes nas suas acções - não têm palavra, não se posicionam de um lado sem saber se é o lado vencedor, não arriscam defender algo se isso poder beliscar os seus interesses, são neutrinhas, diplomatas e tíbias a vida toda.
- Ele começou a tomar esteróides e aquilo afectou-lhe a cabeça. Eu notei, andava com ele, até se começou a dar com outras pessoas e a querer ver outro tipo de filmes.

sábado, novembro 22, 2008

Vejo homens de direita dizerem que votariam em Obama. Poder-me-ão dizer que é a necessidade de se encostarem ao poder. Uma coisa é certa. A esquerda é mais inflexível - para o bem e para o mal - do que a direita. Nunca apoiaria o candidato da direita.

Mas, ser de esquerda nos EUA, não é ser de esquerda na Europa. Obama defende a pena de morte e é contra o casamento de homossexuais, por exemplo.

É claro que ninguém lê programas políticos hoje em dia. Eu, por mero acaso, li-os e o programa de John Edwards por exemplo era mais revolucionário do que o de Obama. Sejamos sinceros: se não fosse a cor de Obama, se fosse pelo programa político, haveria metade da excitação em torno do novo Presidente dos EUA?
Como prezo a indepedência de espírito! Como não há nada que pague a liberdade de pensamento, de espírito!

Tenho pena de ver o Pacheco Pereira como o destroço sobrevivente que ainda geme baixinho por Manuela Ferreira Leite.

Como se diminuiu, como se tem negado a si próprio (basta ler os livros que publicou para perceber as negações e contradições neste caso) para se torcer a ele próprio a defender o indefensável.

Perdeu a sua melhor qualidade: a tentativa de produzir juízos isentos.
O mais importante e o mais interessante que se pode dizer, a única coisa que é preciso dizer é o que falta dizer.


Wittgenstein
O que tu vives, vive-o. Não queiras comunicá-lo, não vale a pena. Vive-o. Porque nunca irás conseguir estar à altura do que viveste. E se insistires muito em comunicá-lo, então aí usa a única coisa que pode exceder a vida - a poesia.


Pier Paolo Pasolini

sexta-feira, novembro 21, 2008

- Boa tarde. - disse quando saí do elevador.
Não houve resposta.
- Boa tarde - insisti. A senhora negra limpava as escadas e à segunda vez levantou o olhar do chão tão lenta, tão timidamente.
O murmúrio ter-lhe-á ficado preso algures no fundo da garganta.
Há pessoas que não se consideram dignas de um cumprimento. Há pessoas que não se consideram pessoas. A culpa é nossa.

Citando Eugénio:


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.


HH
OK, ela é boa. Mas se eu fosse no tal fim-de-semana, já viste o que era o horror de acordar ao lado de quem não gostas? Já viste o tédio de não conseguir conversar de uma forma intelectualmente estimulante? De não conseguir ver o filme que não seja pipoca mental? De não conseguir comentar com profundidade uma notícia? Ok, a gaja é boa, mas foda-se isso não me dá vontade de lhe fazer festinhas.