segunda-feira, dezembro 31, 2007

A densidade do novo

O ano passou. Portugal está mergulhado numa apatia. Já nem são os políticos nem os governos; uma nuvem cinzenta paira sobre a nossa cabeça e os portugueses estão inertes e descrentes. Como diz o Gonçalo M. Tavares, estou-me nas tintas para as estatísticas, cada vez mais as pessoas (jovens) que conheço emigram, estão no desemprego ou no sub-emprego.

Isto cada vez está pior.

Mas ano, vida nova. Vou fazer promessas e vou começar por cumpri-las amanhã. Se não é desde amanhã, nunca será... Sim, amanhã vou mudar. Irreversivelmente.

É importante ter desafios. É importante termos o anelo de sermos melhores pessoas. É importante ajudar os outros. É importante ler livros. É importante pensar.

Continuarei em busca da ausência de futilidade. Continuarei a aproximar-me das pessoas invulgares. Continuarei a não matar um ser vivo (mesmo uma borboleta no banho). Continuarei a pregar. Continuarei a tentar influenciar a vida das pessoas. Continuarei a escrever.

Para o ano que vem, vou remeter-me mais vezes ao silêncio, sempre que não tiver nada de belo a acrescentar-lhe, como diziam os antigos. Para o ano que vem, vou irritar-me ainda menos comigo e com os outros: alterar o que posso alterar e aceitar o que não posso. Vou chegar antes do tempo aos encontros de maneira a que, se tiver um azar, não chegue atrasado mas a horas. Vou conversar com os pedintes, em vez de cobardemente me limitar a atirar-lhes a moeda para assim aliviar a consciência e deixá-los mergulhados no seu sofrimento solitário. Vou fazer voluntariado. Vou doar a instituições que combatam a pena de morte. Vou sorrir mais vezes a quem gosto. Vou elogiar mais. Vou expressar mais afectos.


Angel

domingo, dezembro 30, 2007

Neurociência

O ser humano é complexo. Um cientista disse que mesmo que um computador tivesse o tamanho do mundo, seria sempre menos complexo do que o homem. Até porque - saliente-se o truísmo - o computador é criado pelo homem.


Tomei conhecimento de duas profundas visões revolucionárias da neurociência que - verdadeiras ou falsas - me têm inquietado profundamente pela sua mera possibilidade conceptual.

A primeira - ausência de livre-arbítrio


O ser humano vive sob o arquétipo do livre-arbítrio. É das coisas mais difíceis de abdicar depois de adquirida. Não suportamos a ideia de que nada que fazemos, dizemos, escolhemos - nos escapa totalmente do controlo. A culpa, a sensação de dever cumprido, o orgulho - tudo isso não faz sentido a partir do momento que nós não somos responsáveis pelas nossas acções.

A neurociência abre caminho para esta possibilidade. Aquilo que nós escolhemos num determinante momento é fruto de tudo aquilo que foi o nosso ambiente social mais tudo aquilo que é a nossa genética - a dúvida é se isto condiciona ou determina; a diferença entre estes verbos é TUDO.

A tese em cima da mesa é de que no momento em nós tomamos uma decisão, supúnhamos:

- O elevador está no décimo segundo andar. Vou esperar que ele desça ou vou subir os dois andares a pé?

No momento em que pensamos que decidimos:

- OK, vou de escadas.

Nesse momento, já previamente o cérebro decidiu por nós numa zona que nós não controlamos.

Já o Espinosa falava da ilusão do controlo.

Só depois de o cérebro «cuspir a decisão» é que nós temos a ilusão da escolha.

Isto é tenebroso e mata Deus.

Não, eu não acredito nisto. Mas é uma questão de fé. Apenas.


A segunda - A emoção norteia as escolhas racionais



E o que determina as escolhas?

A emoção.

Então mas e as escolhas racionais?

Também a emoção.

A razão vai encontrar os mecanismos lógicos que fundamentam a emoção. Mas ela encontrá-los-ia para diferentes emoções. Porque há argumentos racionais para defender qualquer ideia.

Supúnhamos uma escolha política.

Podemos pensar que a razão determina e conseguimos até fundamentar as nossas escolhas com lógica, dados, factos, informações, citações. Mas quem dita supremamente a escolha (que depois a razão se encarregará de munir de argumentos moldados à escolha prévia da emoção)... é a emoção.

Imaginemos um comunista profundamente teórico, profundamente ideológico, que leu e reflectiu. Mesmo ele na origem teve uma emoção a ditar-lhe a escolha: por exemplo, a compaixão pelos mais fracos.

Olhemos para o mundo académico. Como é possível que perante a mesma investigação, proliferem conclusões diametralmente opostas?

O teorema da incompletude de Godel explica isto:

Se o conjunto axiomático de uma teoria é consistente, então nela existem teoremas que não podem ser demonstrados (ou negados).

Nós conseguimos montar um sistema lógicos de sucessivas conclusões. Se B, então C, então D... Mas no início há sempre um axioma que não se pode demonstrar ou negar.

Então, a escolha não é racional.

Ao início, a escolha do axioma que não se pode demonstrar nem se pode negar é ditada pela emoção. Nós inclinamo-nos para tudo pela emoção.


Angel-o-puzzle-do-universo-cósmico-intriga-me

sábado, dezembro 29, 2007

Os perigos conceptuais e intangíveis que os homens práticos não vêem

Heidegger disse que a linguagem é a casa do ser. Orwell no 1984 demonstrou com uma nova linguagem (a novilíngua), ao suprimir palavras, suprimia a longo prazo ideias.

A escolha das palavras é muito importante. Como notou Bordieu, ao falarmos em flexibilização do mercado de trabalho adocicamos uma ideia. Porque não dizemos desregulamentação do mercado de trabalho. Quando falamos do aborto - independentemente da nossa escolha - todos concordamos que é diferente falar em liberalização do aborto ou descriminalização do aborto? As palavras pesam.


Quando as palavras morrem, as ideias associadas morrem também.


Angel

Porque não gosto do Hemingway

A man is not a man until he is drunk.

Ernest Hemingway
«Mas um velho, de aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

95
"Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cüa aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exprimentas!

96
"Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desemparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana;

97
"A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente ?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?


Os Lusíadas, Canto IV (são dez cantos, Cavaco)

Sou um Velho do Restelo

Um amigo meu, que sabe da minha aversão à nova linguagem, conduziu-me ao hi5 de uma rapariga com a linguagem mais imperceptível que alguma vez lera. ppl, :=) com muitas caras indecifráveis, e outras abreviaturas que desconheço, tudo resultando num bolo intragável (palavra que não tentei e não conseguir ler muitas das coisas lá escritas; apenas recolhi três ou quatro palavras).

Irritado, mandei um mail à pita que ainda para mais tinha uma foto de pose sou-muita-boa:

«Em primeiro lugar, não te quero conhecer, nem quero o teu messenger e dispenso a tua resposta. Apenas te peço que aprendes a ler e escrever português. Dá-me vómitos o que escreves.»

Ao contrário do que possam pensar, recebi sem kapas e xis:

«Muito obrigado pelo mail. Gostava que me dissesse em que posso melhorar o português. Como viu o meu perfil? Obrigado e até já.»

Angel

A nova linguagem

«j ouvi tdx ox tipx d bokax e rxpxtax a dxr mal do hip hop tuga, mx é raro ouvir algm a dxr bem da noxa muxika!!! ppl, valorixem a noxa muxika!! j vi gent ate a xamar os MC's d monte d caca Confused !! tomem juizo e valorixem a muxika tuga!! Very Happy o hip hop tuga ta xpetakular!! memu 5*!! kem kiser dicas pa sakar alguma coisa kmo dv d ser, falem kmg!! HIP HOP TUGA PA XMP!!»

Uma sarita escreveu isto.


O QUE É ISTO, MEUS AMIG@S? O QUE É ISTO?

ANGEL

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Paes do Amaral

Paes do Amaral comprou a D. Quixote. Como é que esta analfabeto que disse:

- que nada sabia de Literatura, Poesia e Filosofia porque não lhe interessavam;

- que desconhece Oscar Wilde;

- que da infância só se lembra de que os carros eram «fantásticos»;

- que diz estar-se nas tintas para o mundo inteiro (mãe incluída - sic - que o acha pouco católico e muito materialista);

- que diz que os portugueses andam muito devagar ao contrário dos ingleses e que isso é uma razão do seu «sucesso»

Como é o mundo dos livros anda quando este energúmeno toma conta de uma das mais sérias editoras livreiras?

Angel
Se todos fôssemos poetas, o mundo morria de fome - alguém disse.

Eu acho que haveria menos fome no mundo se as pessoas lessem mais poesia.

ANgel
Há pessoas com quem estamos quase todos os dias e nunca estão dentro de nós. Há pessoas que nos habitam e que quase nunca vemos.

Angel

quinta-feira, dezembro 27, 2007

A vosso pedido

Nos antípodas do meu ser

Entre os volumes de Literatura que gulosamente recebi no Natal, alguém me deu... a biografia de um wrestler. Aproveitei o Natal e comecei a ler (vou na página 84). Nunca tinha tentado penetrar tanto na mente de alguém tão distante de mim.

Está lá tudo o que não gosto e justamente por isso tentei entrar dentro da cabeça da pessoa que escreveu o livro de capa assustadora. Tentar compreende-lo (ao autor) era o desafio que me propus na noite de consoada - tanto mais que o livro é escrito na primeira pessoa.

Está lá tudo o que não gosto - disse - e explico: o fascínio pela violência, o culto acéfalo da virilidade, o machismo, o culto do corpo em detrimento do espírito.

Quando era novo, fazia halterofilismo e era segurança numa discoteca. Esteve preso por espancar pessoas enquanto segurança e por traficar droga.

Tentei ver o lado dele. A família pobre, a ausência do pai, a vida passada na rua pejada de violência com o «safa-te por ti próprio que ninguém quer saber de ti» a gritar-lhe de todos os lados, um desgosto de amor (quantos não viram durões depois de um desgosto amoroso?)... Mas não chega.

Não chega, digo arrogantemente. Mas como seria eu com aquele enquadramento? Quero acreditar que seguramente diferente. Quero, notem bem... Como disse Scott Fitzgerald, «de cada vez que te apetecer criticar alguém, lembra-te que nem todos neste mundo tiveram as mesmas vantagens do que tu».

Uma verdade de que não me posso esquecer: há valores mesmo nestas pessoas. A lealdade aos amigos, ao gangue; por exemplo. O não ser chibo.

E perceber isso faz-me crescer. Este livro está a ser útil para mim. Para compreender o Outro. Que melhor maneira de alargarmos a nossa palete de natureza humana do que humildemente tentar compreender o que mais desprezamos e execramos?

Alarguei a minha perspectiva de tolerância lendo estas páginas. Todos os livros nos trazem algo. Mesmo os muito maus.

Por exemplo:

- a mãe dele deixou o pai para ir viver um amor lésbico e mesmo este energúmeno de seu nome Batista diz: «isso não é um assunto para mim porque isso nunca pôs em causa o seu amor filial;

- aquando de um campeonato de culturismo, e depois de tomar imensos esteróides, Batista desmaiou e ninguém o amparou (o que lhe causou um terrível choque), porque todos os candidatos estavam preocupados em mostrar o seu corpo e serem o Nº1! Esta ferocidade competitiva revelou a Batista, quando este foi vítima dela, o enorme vómito que era o halterofilismo e ele deixou-o pela falta de entreajuda e solidariedade.


Outra coisa que compreendi e que sempre me provocou espamódicas reacções de repulsa na noite: a violência que estes senhores usam quando alguém se mete com as suas namoradas. Sempre me meteu nojo essa postura territorialista de cão-a-urinar-sua-árvore e cheguei a ver tristes e desumanos espancamentos (passo o pleonasmo) derivados de simples provocações a namoradas de energúmenos (quando não induzidas por elas próprias).

Entendi que esta «protecção aos meus» é um apelo desesperado de resistência das suas bóias de salvação do amor.

Sem o amor de pai que se borrifava para ele, sem amigos, com o olhar desconfiado perante os patrões que tardavam a pagar, as pessoas na rua que roubavam, os colegas de ginásio que se entreviam como concorrentes/inimigos; o Amor quando encontrado (fosse sob a forma de um amigo verdadeiro ou de uma namorada que se ama e nos ama) é algo profundamente valioso que estes animais defenderão até à morte. Batista conta que deixou uma pessoa de olhos revirados depois de um pontapé na cabeça a um corpo inerte (que jazia no chão depois de uma carga de pancada sua); tudo isto unicamente espoletado pela má-educação para a sua namorada que era bartender no bar em que ele era segurança.


Angel-alargando-mundos-interiores

Melhor do que o James Dean

«Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez!»

O Barão, Branquinho da Fonseca

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Neste Natal, fartei-me de ouvir piadas e tiradas homofóbicas. A linha divisória entre a afirmação da masculinidade e a boçalidade é tão tão tão ténue...

É curioso que há pessoas que simultaneamente EXIGEM que os homossexuais se assumam e simultaneamente criam condições infernais para que eles assumam com naturalidade a sua opção sexual.
Não sirvo de capacho a ninguém, nunca tive tachos na vida nem andei em
bajulices, nunca fui um boy à procura de jobs.

Precisava hoje de escrever sobre um crápula que se passeia em lugares
importantes do poder e que, por isso, acha que pode dissertar sobre mim,
fazendo os juízos mais descabidos. Mas não vou escrever, fica para depois do
Natal, no início do próximo ano. Este meu espírito cristão condiciona-me às
vezes. Todavia, asseguro-vos de que não vai perder pela demora porque nunca
hipotequei a minha honra, a minha dignidade, a minha palavra e o jeito de
estar sempre de cabeça erguida porque, de facto, não tenho telhados de
vidro, não sirvo de capacho a ninguém, nunca tive tachos na vida nem andei
em bajulices, nunca fui um boy à procura de jobs.


E por isso não tenho, nem nunca tive, de dobrar a cerviz aos barões, nem
mesmo quando, deixando todos os meus haveres em Angola, tive de começar tudo
de novo. Hoje, como sempre, digo o que penso e escrevo de acordo com esses
parâmetros.


Não faço jogos nem sirvo nenhum senhor. Não integro, obviamente, o grupo de
sebentos, escorregadios, cínicos e oportunistas que estão sempre com um olho
no burro e outro no cigano, como é o caso deste idiota chapado, que à custa
de tanto se curvar perante o chefe até já tem corcunda. Sou o que sou, com
todas as qualidades e defeitos que não escondo, nem maquilho. Não uso
máscaras para poder a qualquer tempo, sobretudo quando chega a tempestade,
mudar de pose e de discurso.


Sou um homem solidário, dou a cara pelas causas e pelos valores em que
acredito e nunca estou com um pé dentro e outro fora. Não sou como este
idiota chapado, incompetente e invertebrado Este verme que na devida altura
eu tratarei publicamente com mimos mais adequados, chamando o boi pelo nome,
pode passar o Natal descansado, em família, de pantufas e meias axadrezadas,
junto à lareira bebericando um vinho generoso. Vai ser um Natal em grande


O crápula sempre a chamar pela D. Antónia, sua mulher, para lhe trazer um
chazinho ou uma mantinha para os joelhos ou para lhe mudar a música porque
já está cansado de ouvir Beethoven ou para lhe trazer uma rabanada e um
garfo que ele não gosta de comer rabanada à mão. O açúcar agarra-se-lhe às
mãozinhas afiladas faz-lhe muita impressão esse contacto com os seus
delicados dedos. O Pai Natal não se esquece, nem dos crápulas, e por isso
vai propiciar-lhe um Natal com muitas prendinhas com laçarotes vermelhos. A
minha só chegará lá para Janeiro e será entregue por Dinato ou Belzebu...


Emídio Rangel

Diálogos Reais com expressões que desconhecia

Situação 1


- Um gaijo quando se mete na droga depois não pode sair; é como a Máfia. Mêmo que um gaijo queira, num pode... limpam-lhe o sarampo.


Situação 2


- A gaja é boa mas palra muito. Era mesmo só para lhe mandar uma casca.


Situação 3

- E o gajo rebéubéubéu rebéubéubéu. E um «ó amigo comigo não arrebitas o cachimbo senão levas no focinho!

domingo, dezembro 23, 2007

Caros visitantes da tasca:

Como nunca exercerei censura nos comentários, quer uma questão de princípio de liberdade de expressão, quer por inépcia técnica de não saber moderar comentários; peço que depois do Natal tentemos, quando não concordamos com alguém, desqualificar o seu argumento e não a pessoa.

Peço que comentem o blog,que digam o que vos apetece, deixando apenas um apelo: agridam brutalmente os argumentos em detrimento das pessoas.


Angel-mesmo-sem-Internet-escrevo-no-blog-PURE-MAGIC

Frases que ecoam nos meus ouvidos

- Ò Angel, normalmente um engenheiro lida mal com a língua portuguesa: não sabem falar nem escrever.

sábado, dezembro 22, 2007

Pum

Na véspera de ir à inspecção da tropa, comprei deliberadamente uns boxers com ursinhos de peluche: o puddy, o duffy, o tom.

A previsibilidade energúmena manifestou-se no dia da inspecção e eu ouvi com um sorriso na cara:

- Mas que é que isso você tem aí?

- Eh pá, você não vem para o meio de nós! Aqui só entram homens...


Anos mais tarde, num outro contexto, conheci um machão, ex-fuzileiro. Mete-se comigo por eu beber coca-cola e solta tiradas homofóbicas a toda a hora.

Depois de um jantar em que muito comeu e muito bebeu, disse ao entrar no carro:

- Vou-me cagar todo agora - e riu alarvamente. (desculpem os leitores a boçalidade, mas quero fazer uma narrativa crua).

- Isso não tem piada nenhuma - disse eu.

- Ó Angel, nunca te cagaste?

(silêncio)

- Nunca te peidaste? - insistiu

- Nunca dei um pum à frente de ninguém - disse eu (com o mesmo tipo de prazer com que comprei os boxers pejados de ursinhos).

- Pum? Pum? AHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHA Pum? Como é possível dizer... Pum! AHAHHAHAHAHAHAHAHHAHHAHAHAHAHAHAH Nunca deste um... um... pum AHAHAHHAHAHAHAHAHAHAH


O meu interlocutor ficou admirado. Desde então, já o apanhei a contar a minha frase a várias vezes, sempre muito admirado. Para meu espanto, incorporou a palavra «pum» no seu léxico.


Se formos firmes nas nossas convicções, quando confrontarmos pessoas nas suas antípodas, a reacção poderá ser, numa primeira fase, de perplexidade, de estranheza, de riso nervoso; e na fase seguinte de questionamento.


Angel

sexta-feira, dezembro 21, 2007

O meu ícon masculino (nos tempos áureos)

SÓCRATES: AUTO-RETRATO

Deixou de fumar, começou a fazer jogging, agora corre a meia maratona. A saúde conta. Não é autoritário, nem reservado, nem austero, nem arrogante, é firme. A firmeza vem da vontade, a vontade vem da convicção. É um português que serve. Gosta mais, de resto, de servir o país nos momentos difíceis do que nos momentos fáceis. Não fala, santamente, de sacrifício. Fala, santamente, de missão. É fiel à sua missão e não pretende outra recompensa. Sofre por vir nos jornais; como o outro, não gosta de ser falado. Viveu sempre dividido entre a acção e a contemplação e o pensamento. Há, dentro dele, um permanente paradoxo. A política, no fundo, não passou de uma soma de casualidades. Mas dará sempre o melhor de si. Quem não ficará extasiado com este exemplo?

Um homem de família, um homem simples, que tenta ver os filhos: disciplinadamente. Um homem tolerante. Ouve as críticas. Respeita a opinião alheia e espera que respeitem a dele. Quando não está de acordo, não está: e não esquece que foi escolhido pela maioria do povo para cumprir o melhor para esse povo. Muito obsessivo com o trabalho, não se considera um workaholic. Tem pena de não ler, por falta de tempo. No Verão, lê obsessivamente, impelido talvez pelo seu lado contemplativo e de pensamento. Este Verão, leu três livros, dois livros de história e um romance. Admira Ortega y Gasset, um bom filósofo, que escreve bem. Quanto a poetas, não admira nenhuma personalidade viva, com a presumível excepção de Manuel Alegre, de que retira um indescrito prazer.

Acredita que nada impede Portugal de se tornar um país moderno, competitivo, com uma boa educação e com protecção social. Quer um Portugal aberto e dinâmico. Acha Portugal muito aberto. Reafirma que é de esquerda, como provam a Lei do Aborto e as leis da paridade e da procriação medicamente assistida. Pensa que a perspectiva socialista é a de pôr o Estado ao serviço dos mais pobres. Sabe que ainda existem bolsas de pobreza. Insiste em que os países que controlam o défice são mais livres. Mais democráticos.

Isto o que é? Não é uma pessoa, não é um político, não é um ente reconhecivelmente humano. É uma montagem publicitária: polida, vácua, inócua. O herói de plástico, uma invenção. É José Sócrates, o primeiro-ministro.

Vasco Pulido Valente

O riso dela

Se na alma em doces ecos não o ouvisse!


Luís de Camões

quinta-feira, dezembro 20, 2007

A história do rapaz com olhar de menino

Era uma vez um rapaz que queria ajudar toda a gente. Nunca recusava uma ajuda, nunca se tomava em consideração o seu interesse quando este o interesse do Outro aparecia, nunca discriminava ninguém e a todos procurava influenciar positivamente. Procurava sempre transmitir a todos os seus ideais de honestidade, de solidariedade, e de Amor. A sua Ética era o sentido da sua vida.

Com o avolumar da experiência, foi descobrindo que havia pessoas que não conseguia ajudar toda a gente que se propunha. Dolorosamente assimilou que havia pessoas que, não cooperando, ele não podia ajudar. Aprendeu isto mas continuou a agir compartimentando o que aprendera. E continuou sorridente por uns tempos.

A realidade tombou sobre ele novamente. Havia pessoas que ele não ajudava efectivamente, que se limitavam a sugá-lo, a extrair-lhe energias, a manipulá-lo e ele então decidiu:

«Doravante, não gastarei mais vida com quem não quer ser ajudado. Não que isto me prejudique, mas prejudica os outros. Porque eu perco tempo para ajudar quem quer ser ajudado.»

E a custo, a muito muito custo, foi dizendo que não... Descobriu então que a ajuda, quando servida em doses pontuais e esporádicas, é respeitada; mas quando servida em doses abundantes e regulares, torna-se um hábito, hábito que quando cessar nos será cobrado como uma intolerável falha!

Dedicou-se então o rapaz a ajudar quem sentia que melhorava, por mais ligeiramente que fosse. Claro que de vez em quando, uma manipulação emocional bem feita de lagrimazinha no canto do olhos lhe derretia a manteiga do coração. E ele recaía a tentar tirar da ponte quem não queria sair dela.

Mas aos poucos endureceu o coração e ajudou apenas quem cooperava com quem o ajudava. Tirou pessoas da fossa e ficou radiante.

Mas depois as pessoas caíram na fossa novamente e ele pensou:

«Queria ajudar as pessoas, mas não apenas momentaneamente. Queria influenciar a sua vida perenemente.»

E com os olhos cintilantes dedicou-se a ser engenheiro de almas. Ajudou muita gente, e nunca pediu ajuda a ninguém.

Numa situação da sua vida em que precisou de ajuda, quase ninguém estava lá. Descobriu o sabor a fel da ingratidão e deu por si subitamente a pensar na quantidade de regras que tinha para com os outros e que os outros não cumpriam. Deu para si a pensar que, apesar de nunca o esperar, nunca ninguém tivera a mais bonita palavra do mundo: gratidão.

E o rapaz pensou:

«Isto é apenas uma questiúncula do ego; vou continuar a ser como sou. Desde que ajude os outros, para que preciso de palmas? Não é por os outros não terem a mesma ética do que eu, que eu devo mudar? Isso é ELES vencerem a batalha. Acaso devemos nivelar-mo-nos por baixo? Mas o que sou eu a mais do que eles? Nada. Esta é a única maneira de eu ser feliz: não procuramos todos os mesmo?»

Angel

Diálogos reais

- Objectivos para 2008?

- Sei lá... dinheiro.

- E para o mundo?

- Ai tou-me a cagar para o mundo, o mundo também se está a cagar para mim.


Angel-Este-sentimento do-estou-me-a-*****-para-tudo-o-que-não-seja-eu-e-os-meus-está-cada-vez-mais-enraizado

Labrego

A beleza fria (ou A Garrafa Vazia)

Um passo atrás muito grave

Li integralmente o livro Ratzinger, Pensamento Político, Ético e Religioso.

Li-o porque estava farto do sound byte de que o Bento XVI é isto e aquilo, sem conhecer o pensamento dele. Infelizmente, os media dão-nos a imagem que querem das figuras públicas e nós assimilamo-las acriticamente. Mas pelo menos das figuras importantes (do ponto de vista da mobilização da opinião pública) é bom irmos beber directamente à fonte para fazermos o julgamento.

Fui ler o Ratzinger em todas as vertentes do seu pensamento e... Fiquei profundamente chocado.

O Papa é ultra-ultra-conservador. Não vou aqui reproduzir uma série de sound-bytes do seu pensamento, porque para cada um o Papa dá uma longa fundamentação. É conservador mas tem profundidade intelectual.

Vou falar apenas de um tema. O Papa faz a apologia do sexo com intencionalidade da fecundidade. E usa este argumento para condenar o preservativo e... a homossexualidade.

Reaccionário? Nada.


Angel

Uma excelente análise psicológica

Sobre um individuo que está constantemente a lançar piadas homofóbicas, plenas de virilidade ouvi:


«Ele é uma pessoa que tenta reprimir zonas dele próprio. Provavelmente acha que é uma pessoa muito sensível e isso incomoda-o e tem receio da imagem que passa para os outros. Como foi enformado numa cultura machista, tem muito receio do julgamento da sua sensibilidade. A maneira que encontrou de despistar as pessoas da sua enorme sensibilidade é estar sempre a ridicularizar os gays, os sensíveis, de estar sempre a dar murro na mesa proclamando a sua masculinidade.»
Ex-estrela da TV britânica é hoje um sem-abrigo


MARIA JOÃO ESPADINHA
DIREITOS RESERVADOS (imagem)
Nos seus tempos de glória, Ed Mitchell tinha uma família, um salário chorudo
(140 mil euros por ano), uma casa e dois períodos de férias por ano num sítio
paradisíaco. Hoje em dia, tudo isto não passa de uma miragem. É que, ao mesmo
tempo que o sucesso do apresentador do canal britânico ITN crescia, também se
multiplicavam as suas dívidas. Mitchell teve 25 cartões de crédito e chegou
mesmo a ter de apresentar falência na semana passada: a dívida ascendeu a quase
350 mil euros.

Este cenário fez com que o jornalista vendesse a sua casa em Portslade, em East
Sussex. Deparando-se com a situação, Ed Mitchell, com 54 anos, viu-se obrigado a
ir dormir para as ruas, tornando-se, desde Março deste ano, num dos cerca de 400
mil sem-abrigo que existem em Inglaterra. Mas, mesmo perante todas estas
adversidades, o ex-pivô afirma que nunca esteve mais feliz.

"Agora tenho mais liberdade. Não possuo um carro ou uma casa e não tenho dívidas
ou hipoteca", contou Mitchell ao jornal britânico Telegraph, enquanto bebia uma
cerveja num pub perto da estação de comboios de Brighton. É óbvio que há
desvantagens - o ex-jornalista dorme apenas três horas por noite, muitas vezes
com temperaturas abaixo de zero. "Um vagabundo dorme como um animal, com um olho
aberto. Nunca se sabe se vou ser esfaqueado ou se vou ser mandado embora",
afirmou Ed Mitchell, que acredita que está a crescer o número de "sem-abrigo de
colarinho branco".

O ex-pivô, que conta na sua carreira com entrevistas a personalidades como Tony
Blair ou Margaret Thatcher, parece gostar de regressar à ribalta e à atenção dos
jornais britânicos, sendo considerado o sem-abrigo mais famoso da cidade. "Sendo
um jornalista de finanças e economia, devo ter sido muito parvo para chegar a
esta situação", lamentou o ex-jornalista, que iniciou a sua carreira em 1974 na
Reuters, passando depois pela BBC e Sky News.

"Costumava mudar de um cartão de crédito com zero juros para outro, mas depois
tudo acabou por desabar", recorda Mitchell. O jornalista nunca foi bom a gerir
dinheiro: antes de ter sido despedido da ITN - devido a um corte inesperado na
equipa de trabalho, em 1999 - o ex-pivô já tinha acumulado dívidas de 70 mil
euros através de cartões de crédito. A partir daí, as dívidas aumentaram e
ficaram fora de controlo. Mitchell acabou a pagar 25 cartões de crédito
diferentes e uma hipoteca de 840 euros por mês apenas com o dinheiro da sua
indemnização. Hoje em dia, sobrevive com 72 euros semanais - o seu subsídio de
desemprego.

Mas as dívidas não acabaram só com as finanças de Mitchell. O seu casamento de
25 anos com Judy também terminou. O casal tem dois filhos, Alexandra, com 24
anos, e Frederick, com 22 - este ainda vive com a mãe. "Nenhum dos meus filhos
me pode 'aturar' - nem eu quero que eles o façam", diz.

Com as ofertas de trabalho e ajuda a surgirem, Ed Mitchell espera retomar a sua
carreira no jornalismo e fazer trabalhos de solidariedade para os sem-abrigo.
"Não quero morrer nas ruas", conclui.|

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Tenho uma amiga que quando cumprimenta as pessoas, pergunta:

- Hoje estás solar?

Ler e obliterar

Cultura é tudo o que ficou depois de tudo o que nos esquecemos - alguém disse. Muitas pessoas pensam que grande parte do que lêem é esquecido, irreversivelmente esquecido. Este oblívio é menor do que o que parece.

Estava a ler Patrick Suskind e tive uma pequena iluminação. Explica o autor que quando lemos, os nossos mecanismos mentais se alteram. A informação entra e reordena novos padrões de interpretação. Mesmo que no nosso consciente não nos lembremos das informações, o molde em que os livros entram e ficam na nossa cabeça já é outro. Porque cada vez que um livro entra na nossa cabeça modifica-a e no próximo livro ela será um receptáculo diferente.

Quando entrevistei o José Luís Peixoto, ele disse que quando uma pessoa lia, confrontava tudo que sabia, as suas defesas, com as do autor e que quanto mais lia, maiores eram as suas defesas, e menos assimilava acriticamente.

Angel-a-riqueza-que-são-os-livros-objectos-sagrados
A INSTRUÇÃO DO MEDO


Baptista-Bastos
escritor e jornalista
b.bastos@netcabo.pt
Os portugueses estão a ser espreitados por todos os sítios, lugares e ângulos, e
esta estrutura muito moderna, eficaz e internacional de "segurança" parece
torná-los extremamente felizes e, até, levemente excitados. O olho electrónico
quase se tornou numa expressão artística: possui todos os moldes, formas, cores
e tamanhos. Nos bancos, nos elevadores, nos hospitais, nos bairros mais
elegantes, nos corredores dos hotéis, nas repartições, nos Correios, à esquina,
no cairel dos edifícios, nas auto-estradas e nas ruas, de dia e à noite, com
aviso e sem aviso - lá está ele. Quem sabe se a vigília incide sobre os amores
clandestinos, como no belíssimo poema de Daniel Filipe? Asseguram-me que, em
breve, estará nos cemitérios. Não por causa dos habitantes; sim para dissuadir
quem ouse profanar o pétreo sono dos mortos.

O olho incisivo, inclemente, gélido, implacável, informa, não se sabe bem a
quem, daquilo que, modestamente, estamos a fazer. As nossas minudências
quotidianas: contemplar os movimentos do andar de certas mulheres, observar os
livros expostos em montras, recalcitrar contra a vida infame, são decifradas
como sujeito de intriga e apreensão públicas. E "ninguém sabe quantas câmaras
nos andam a filmar todos os dias", diz o Expresso num bem organizado texto de
Filipe Santos Costa.

José Magalhães tranquiliza-nos: "Isto não é o advento do Robocop." O sossego das
almas dura pouco. O secretário de Estado adverte: "Estamos a caminho de uma
sociedade onde a videovigilância é utilizada por cada vez mais entidades." Está
aqui muito bem fixado o que nos espera. O lirismo das ruas, a épica das noites
molhadas em balcões de bares, a frenética agitação triangular entre o Bairro
Alto, 24 de Julho e Docas deixam, ou já deixaram, de ser o poema que se procura
para se transformar numa perpétua homenagem ao império da desconfiança.

A sociedade, num futuro muito próximo, reduzirá o seu já limitado espaço de
liberdade a uma instância insistentemente policiada. Não haverá sociedade como
intervenção cultural, relação com o contrário, subdivisão de grupos de
interesses, coexistência de sinalizações alternativas. Ser continuamente vigiado
liquida o fundamento das instituições democráticas, o qual oscila entre o
tratamento igualitário e o tratamento diferenciado. Impossível escapar ao
reconhecimento de que caminhamos para uma nova e diferente ditadura, dissimulada
em leis de "segurança", de "ordem" e de "autoridade". Não há lugar para o
exercício das "referências", porque se deixou de admitir a alteridade. Uma das
características sociais reside no direito do indivíduo a não ser "massa", e a
recusar a rigidez identitária que a vigilância (pelo medo que lhe subjaz)
sugere, impõe e inculca.

Não sorria. Está a ser filmado.|
«A mediocridade refugia-se na padronização.»

Anónimo

Para escrever bem

Para escrever bem, na primeira fase despejamos a torrente sem pensar, obedecendo à mão frenética e autoritária. Na segunda fase agarramos o texto, como se segurássemos um tapete, e sacudimos sacudimos sacudimos... a porcaria vai caindo. É a fase de cortar. Depuração. Remoção da poeira, do lixo, das palavras.


Angel

Sensualidade, Beleza, Charme...

terça-feira, dezembro 18, 2007

Beleza

Sensualidade

Charme

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Nicks do MSN

Se eu colocar um nick a falar de livros e bibliotecas, talvez assim pape + gajas...
IGUALDADE DE OPORTUNIDADES PARA TODOS


Anselmo Borges
padre e professor de Filosofia
Também no interior do País há realizações culturais estimulantes. A Câmara de
Castro Daire, por exemplo, promoveu recentemente um encontro - "Diálogos
oportunos" - em que foram debatidas questões referentes ao diálogo
inter-religioso e à igualdade de oportunidades.

Quanto ao diálogo inter-religioso, o que ficou mais sublinhado tanto pelo
representante do judaísmo como por mim próprio foi a importância do estudo do
fenómeno religioso e das diferentes religiões na escola. Em ordem ao
conhecimento mútuo e para evitar a irracionalidade e os fundamentalismos.

Foi lá também que Ana Paula Fitas, chamando a atenção para "2007 - Ano Europeu
da Igualdade de Oportunidades para Todos", sublinhou os quatro R (em inglês) que
deviam animar o ano e o futuro: Direitos (Rights), Representação,
Reconhecimento, Respeito.

Portugal tem uma das melhores legislações sobre esta problemática. Veja-se o
artigo 13.º da Constituição: "Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado,
prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de
ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções
políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou
orientação sexual."

Mas não basta legislar. Os direitos encontram a sua realização nas práticas
sociais. Têm de concretizar-se na rua e nas instituições. Aliás, quantos
conhecem verdadeiramente os seus direitos?

Quanto à representação, é preciso que se torne efectiva na sociedade em geral.
As minorias têm de ter espaço para exprimir-se. É preciso que todos reconheçam
os outros enquanto iguais e diferentes. Há sempre focos de discriminação -
pense-se na roupa de marca ou no local de residência.

Ao falar do reconhecimento, somos levados a tomar consciência de como excluímos
os pobres, os idosos... As nossas sociedades de consumo, hedonistas, determinam
o que se não pode ser: pobre, velho, gordo, feio, e, implícita ou
descaradamente, todos eles vão sendo discriminados.

O pior mesmo é ser pobre e velho. E aí está uma razão para eu me não regozijar
particularmente com a notícia de que colégios católicos ficaram nos primeiros
lugares no ranking das escolas. Não nego a importância da boa gestão, de
professores competentes, exigentes e cumpridores. Mas, depois, o custo das
propinas vai de 300 a 400 euros mensais. Quem é o pobre que pode pagar? Não
devia haver um sinal cristão nesses colégios? Por exemplo, uma percentagem de
alunos pobres pagos por um imposto a cobrar aos pais ricos...

Os idosos não podem ser metidos em guetos. Tanto eles como os deficientes têm de
ter lugar e voz no espaço público. Precisamos, todos, de aprender a conviver com
a diferença.

O respeito - a etimologia da palavra é muito interessante: do latim respicere,
que significa olhar para trás, voltar-se para olhar - é esse olhar para os
outros como olhamos para nós, tratando--os como queremos que nos tratem: como
iguais e diferentes.

Trata-se assim de acabar com as discriminações e as suas causas, radicadas nas
representações sociais. Discriminações por causa do sexo - embora o cristianismo
proclame a igualdade radical de todos os seres humanos, as mulheres continuam
discriminadas também na Igreja católica; por causa da raça - os negros são
discriminados; por causa da idade - são apenas os velhos que são discriminados?
E quando se coloca nos anúncios o limite de idade para um emprego?; por causa de
deficiências - os deficientes continuam discriminados; por causa da orientação
sexual - pense-se nos homossexuais; por causa da religião - pense-se na
islamofobia, por exemplo.

Embora a época natalícia se tenha transformado numa escandalosa feira alienante
de negócios e consumo, não se deveria esquecer que o Natal de Jesus é o Natal do
Homem. Deus manifestou-se na humanidade frágil de Jesus Cristo, e agora todos os
seres humanos deveriam saber da dignidade divina de ser Homem, que não tolera
discriminações e obriga a agir eficazmente para superá-las.

domingo, dezembro 16, 2007

Racismos envergonhados

Vivemos numa época que, simultaneamente, fez do anti-racismo e da anti-homofobia dois elementos muito fortes do politicamente correcto e que não percebe os seus vestígios quando dissimulados.

Se alguém diz algo racista, sexista ou homofóbico, é violentamente injuriado; mas - curioso! - quando as coisas se manifestam subtilmente... passam. E elas passam inúmeras vezes.

A nossa sociedade ainda é racista, sexista e homofóbica; por mais espartilhada que estas dimensões estejam pelo politicamente correcto.


Na mesma semana ouvi:

a) - Uma secretária lá da empresa sai mais cedo para ir buscar o marido. Ele é que a devia vir buscar. (sexismo)Porque é que as mulheres não podem conduzir tal como os homens?

b) - Ele é homossexual, é uma pessoa mais frágil, tens de entender isso... (homofobia)A coragem é uma virtude tanto de heterossexuais como de homossexuais. Aliás, para um homossexual se assumir em pleno na família, nos amigos, no emprego, é preciso coragem!

c) Vejo os comentadores da televisão dizer que Rui Patrício, o guarda-redes do Sporting só não é sempre titular porque os treinadores em Portugal preferem os estrangeiros. Os comentadores desportivos são tão xenófobos! Sempre sempre sempre a defenderem a prata da casa, os jovens nacionais, 95% dos quais nunca serão nada. É assim tão difícil perceber que numa época de fronteiras abertas, a única coisa que deve contar é a qualidade dos profissionais, venham eles de onde vierem? (xenofobia) Alguém que perceba de futebol dirá que o Rui Patrício é melhor do que o Stoikovic?


Angel-ainda-falta-uma-longa-estrada

sábado, dezembro 15, 2007

Por vezes, a intuição da aprendizagem dispensa a experiência (o erro).

Angel
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressas
outra e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade
«In a real dark night of the soul it is always three o'clock in the morning, day after day.»

Francis Scott Fitzgerald

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Quem domina quem?

Situação 1


- Burra! Estúpida! Será que não te enxergas que não percebes nada do assunto? Quando não sabes do que falas, cala-te! - diz ele.

(silêncio)

- Mas diz lá por que é que tás a dizer essa merda? Diz lá.

(silêncio)

- Diz lá... - insisiste ele.

- Eu achava que ele fez isso por distracção e não para te ferir. Ele vive no mundo da Lua. Mas foi uma só uma ideia.


Situação 2

- Gostas desta camisa? - pergunta ele.

- Sim.

- E destas calças?

- Também.

- Achas que jogam uma com a outra?

- Achas.

- Diz lá a verdade. Achas que ficam bem?

- Acho mesmo.

- E os ténis o que achas?

- Mais ou menos.

- Mais ou menos?

(silêncio)

- Diz lá.

- Não acho que fiquem bem nessa roupa.

- Mas não gostas deles?

- São um bocado berrantes.

- Mas tu sabes alguma coisa de roupa?

(silêncio)

- Responde.

- Foi só uma opinião, os ténis até são giros, mas não são o meu estilo.

- Mas qual é o teu estilo?

- Não sei.

- Diz caramba.

- Mais sóbrio.

- Mas tu percebes alguma coisa de roupa? Não tens gosto nenhum, tu vestes-te tão mal.

Ele não calçou os ténis.


Situação 3

- Vou sair à noite - diz ele.

- Tudo bem.

- Vou aquele bar da semana passada.

Ela franze a cara.

- Mas o que é que foi?

- É que roubaram lá ontem a Marta e já na semana passada o ambiente...

- O que tem o ambiente?

- ... parecia tenso.

- Vai à merda com as tuas paranóias.

- Mas vai.

- Mas porque é que dizes isso?

- Foi só uma impressão.

Ele não foi ao bar.


Situação 4

- Tu tens de ser mais arrumada, tens de começar a tratar da tua acne e tens de gastar menos dinheiro em bijuteria.

- Sim.

- Ouviste o que disse?

- Sim.

- Vais fazê-lo?

- Vou.

- As três coisas?

- Sim.

- E eu? Alguma coisa para mudar? Bem é melhor nem te perguntar. Quem tem de mudar és tu...

- Não, nada.

- Diz lá, vá...

- Hum, podias começar ser mais bem-educado para a minha mãe?

- O quê?

- Só um bocadinho.

- O quê? Mais educado eu?

(silêncio)

- Mas porquê?

- Mas porquê? - insiste. Diz.

- Tu és maluca...

- Mas quando é que eu fui mal-educado? Diz!


Angel




Situação 4

quinta-feira, dezembro 13, 2007

A paciência cruel

Cristo fez a apologia da não-violência. A quem nos bater numa das faces, daremos a outra; amaremos os nossos inimigos; faremos o Bem a quem nos faz mal.

Esta bondade aparente pode esconder uma estratégia inteligente de um gélido desprezo. Quando alguém nos insulta, espera provocar-nos uma reacção. Se nós não dignamos uma resposta irada, se nós ficamos impassíveis, o nosso interlocutor ficará piurso!

Pior do que alguém dizer:

- As críticas do João não me afectam.

... é simplesmente nem comentar as críticas.

Esta paciência perante a ofensa pode ser extremamente cruel. Porque quem ofende, quer deixar ferida. E a impassibilidade mostra uma pele impenetrável.

Um dia li que a imitação é a melhor forma de lisonja. Hoje direi que o desprezo é a pior forma de insulto.

Não há nada mais gélido, mais perfurante do que o desprezo.


Cristo sabia-o?


Angel
A castidade é a mais anormal das perversões sexuais.

Aldous Huxley

quarta-feira, dezembro 12, 2007

«Racismo cultural»

Uma vez estava a jantar com dois amigos e um, ainda para mais todo de esquerda, disse algo à primeira impressão chocante:

- Eu dificilmente namorava uma gaja que trabalhasse, por exemplo, numa fábrica.

Depois veio a explicação:

- Claro que não digo isto por racismo social! Tentemos ver as coisas como elas são: uma tipa que trabalha numa fábrica ou até mesmo numa loja tendencialmente teria um hiato cultural. Dizem-me assim: mas há uma outra que são cultas - há, claro que há! Mas a maior parte não. E isso tem a ver com a pirâmide de Maslow: as necessidades básicas quando satisfeitas não geram satisfação, primeiro ponto, segundo ponto os valores da cultura só são apelativos depois do estômago cheiro. Quem tem de correr para diariamente para ter sustento, não pode sentir o chamamento da cultura. A música da cultura só se ouve no silêncio do ócio. Chamem-me racista cultural, mas chegar a casa e nunca poder ter uma conversa sobre cultura a mim deprimir-me-ia.

Um ano depois desta conversa, trabalhei numa empresa em que as pessoas mais cultas eram as recepcionistas (o que não invalida nada do que o meu amigo disse), com uma cultura a anos-luz dos administradores.

Várias razões concorrem para o facto:

a) em primeiro lugar, eram as pessoas que tinham mais tempo. Eram as únicas que liam durante o trabalho. Cheguei a vê-las com livros;

b) já tinham sido secretárias, logo tinham outro domínio da língua, sabiam escrever muito melhor do que um administrador (como dava erros gravíssimos aqueles dois administradores executivos!!!);

c) a sua formação de origem ou era Literatura ou Filosofia ou Sociologia, cursos que não dão empregos, mas dão mais cultura geral.

ANGEL

Segredos

Estava numa esplanada de um bar com amigos e conhecidos. Estava tudo calmo, ameno, muito bom.

Os diálogos andavam à volta de histórias engraçadas de cada um.

A certa altura, uma rapariga, namorada de outro, sai-se com:

- Ó Gonçalo tu antes de sair de casa, primeiro que escolhas a camisa que queres levar demoras horas...

O Gonçalo ficou envergonhado e silencioso, enquanto ela se ria.

A conversa mudou de assunto e ela depois voltou a atacar:

- Gonçalo, outro dia com a bebedeira ias-te espetado com o carro.

Quando nos despedíamos uns dos outros, o Gonçalo agarrou o amigo que namorava com a rapariga que brincara com ele duas vezes:

- Ouve lá, meu... Mas a minha vida privada agora é um livro para a tua namorada que me expõe assim à frente de toda a gente.

- Eh pá mas que mal é que tem a história das camisas?

- Tem pá eu não quero que contes. E a bebedeira do carro então.

- Eh pá eu conto-lhe tudo e além do mais nunca me pediras para não contar essas histórias.

- Achas que era preciso? Eu é que nunca mais te conto nada.

Despediram-se a mal.

Eu também não gosto que os namorados das minhas amigas e as namoradas dos meus amigos saibam tudo o que lhes digo. Isto porque muitas vezes há um desequilíbrio entre a intimidade que temos com um e outro.

Podemos ser muito amigos do nosso amig@ e pouco ou nada d@ seu namorad@. Há aqui um elemento de violência da nossa privacidade, um elemento de desrespeito.

Há pessoas que acham que @ namorad@ deve saber tudo - mas esse que seja sobre eles próprios! Faz-me lembrar o detective Nero Wolfe que quando recebia as pessoas tinha sempre o seu assistente ao lado a escrever. - Mas eu só quero falar consigo, Mr. Wolfe! - ao que o detective dizia: - Este senhor e eu somos um só. O assistente (Archie Goodwin) é como muit@s encaram os namorad@s - como depositários de todos os segredos dos amig@s, tenham eles intimidade ou não com as pessoas em causa...

Quando me contam algo, nunca vou contar isso a ninguém. Nem que perca a intimidade com a pessoa aos longos dos anos, nem que me chateei com ela.

Quando alguém desabafa comigo é como um pacto invisível de sangue:

«Confia em mim, nunca direi isto a ninguém. Levarei isto para o túmulo.»



Angel

A nova geração dos kapas e xis - facto alarmante

4 em cada 10 alunos já foram agredidos pelos seus colegas.

A desculpa clássica: «ah, estava bebâdo» (muita vezes seguida de risos alarves)

12/12/2007

Lusa

14:54 - Futebol Internacional
Dinamarquês condenado a prisão efectiva por agredir um árbitro

Um adepto dinamarquês foi condenado a 20 dias de prisão efectiva pelo Tribunal
de Recurso de Copenhaga por ter atacado o árbitro alemão Herbert Fander durante
o jogo de qualificação para o Euro’2008 entre a Dinamarca e a Suécia, em Junho
passado. A pena foi agravada depois do recurso apresentado pela defesa, uma vez
que, em Setembro, o tribunal de primeira instância havia condenado o indivíduo a
um mês de prisão com pena suspensa. Ronni Noervig, de 29 anos, invadiu o campo
aos 90 minutos de jogo, numa altura em que as equipas estavam empatadas a três
golos, e atacou o árbitro que ficou ligeiramente ferido no rosto. Fander tinha
acabado de mostrar um cartão vermelho ao dinamarquês Christian Poulsen, por ter
dado um murro no sueco Markus Rosenberg, e, quando foi ele próprio agredido, deu
o jogo por terminado. Ronni Noerving, que não tinha antecedentes criminais,
confessou durante o julgamento ter bebido entre 15 e 18 cervejas antes do jogo…


24.10.2007

Diário de Notícias

Sergi Xavier, o homem que agrediu uma menor equatoriana no metro de Barcelona, explicou ontem aos jornalistas reunidos à porta de sua casa que estava "muito bêbado" e "mal se lembra" do que aconteceu. Segundo o diário El País, o espanhol, que vive na capital catalã com o pai e a avó, garantiu nunca ter tido um comportamento semelhante, "nem racista nem nada".

A agressão ocorreu no passado dia 7 e foi captada pelas câmaras de vigilância do metro. Xavier entrou numa carruagem a falar ao telemóvel. Sem nunca largar o aparelho, começou a insultar a equatoriana de 16 anos que viajava sozinha. A Guarda Civil de Barcelona, ouvida pelo El Mundo, garantiu que o agressor começou por gritar aos ouvidos da rapariga para "voltar para o seu país". Mas a agressão foi em crescendo, culminando com um pontapé de Xavier na cabeça da menor, que tentava proteger-se com os braços.

Durante todo este tempo, as imagens mostram a passividade do outro passageiro da carruagem. Ainda ao telemóvel, o agressor saiu na estação de Colonia Guell, mas continuou a proferir insultos.

Sergi Xavier, de 21 anos, foi detido pela Guarda Civil na passada sexta- -feira, na sua residência de Santa Coloma de Cervelló. Aproveitando a presença dos meios de comunicação, o agressor pediu desculpas à sua vítima. "Ela não merecia o que lhe fiz", disse, citado pelo El País.

A rádio Cadena Ser garantia ontem que a Procuradoria da Catalunha vai pedir que o homem seja devidamente castigado.

A associação SOS Racismo Catalunha também exigiu que a justiça intervenha neste caso: "Manifestações de violência racista como esta não podem ficar impunes num Estado de direito." A organização não governamental (ONG) recordou ao El País que o agressor tem antecedentes criminais, tendo anteriormente sido detido por agressão. Xavier está neste momento em liberdade condicional. Além disso, a ONG considera que as imagens da câmara de vigilância "deixam bem claro o conteúdo racista dos insultos à menor".|

Não tens dinheiro, morre longe. Já te disse.

Imigração: Imigrantes passam a ter de provar meios de subsistência à entrada em
Portugal
12 de Dezembro de 2007, 06:45

Lisboa, 12 Dez (Lusa) - A partir de hoje cada cidadão estrangeiro que queira
entrar, permanecer e residir em Portugal terá de possuir uma quantia monetária
que garanta as suas necessidades essenciais de subsistência.

A portaria governamental 1563/2007 - publicada hoje em Diário de República e que
entra em vigor na quarta-feira - fixa os meios de subsistência que os imigrantes
devem dispor para entrar e permanecer em Portugal, designadamente "para a
concessão de vistos e prorrogação de permanência e concessão e renovação de
títulos".

A "suficiência de meios" - definida como recursos estáveis e regulares
suficientes para garantir as necessidades do imigrante e da sua família para
alimentação, alojamento e cuidados de saúde e higiene - passa a ser uma condição
para a entrada e permanência de cidadãos estrangeiros, segundo um portaria que
hoje entra em vigor.

Abjecto

Ouvi literalmente um gajo com vinte e muitos anos dizer o seguinte:


- Ela a foder é mais ou menos, a fazer broches é boa e bate excelentes punhetas. Só tem um fiozinho na cona...

Infelizmente a maior parte dos homens expõe assim as mulheres com quem esteve. Descontando a sordidez do pormenor escabroso, muitos homens expõem abjectamente a intimidade das parceiras. E as mulheres? Confesso que não sei.

Angel-cruamente-vendo-a-realidade-que-se-lhe-oferece

terça-feira, dezembro 11, 2007

Há taxistas com teorias incríveis

- Posso fumar? - perguntei (um em cada três deixa).

- É que nem pense nisso.

- Sim, senhor.

- Ó sôr sabe - disse com um ar de inchada sabedoria - quanto é a percentagem da nicotina que vai para os não-fumadores?

- Não sei.

- 99%! 99% - repetiu - do que você fuma vai para o outro.

- Então o senhor devia fumar... para só ficar com o 1%.

O taxista fez um esgar de estranheza. Entrou em curto-circuito. E não conseguiu dizer mais nada.

Angel-há-tanta-coisa-estranha-neste-planeta

segunda-feira, dezembro 10, 2007

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

Luís de Camões

Frases que ecoam nos meus ouvidos

«Sempre que o despertador toca é um inferno. Tenho um despertador que tem um botão que permite adiar o alarme 10 minutos e eu faço isso às vezes seis, sete vezes... Costumo imaginar um outro eu que se levanta e vai para o trabalho enquanto fico deitado imaginando. Agora para me vingar, ao fim-de-semana ligo também o despertador, acordo e depois lembro-me: YUPPIEEEEE! É SÁBADO! HOJE POSSO DORMIR ATÉ TARDE!!!»

Conversas interceptadas

- Foda-se, olha-me bem aquele gordo.

- Onde?

- Eh pá ali - um braço estica-se.

- Eh pá não vejo, meu!

- Foda-se tens de ver isto! - exclama excitado e obrigando o outro a levantar-se.

- Foda-se! Caralho! Ganda badocha! - diz o outro, rindo-se ruidosamente.

- Mas quem é que aquele gajo come?

- Eh pá só uma gaja como ele.
Um dia li num livro um exercício que era imaginarmos o nosso funeral e pensarmos quem gostaríamos que lá estivesse e o que dissessem.

No final da vida, o mais importante que granjeámos é o amor que três ou quatro pessoas têm por nós. Quanto maior esse amor, mais felizes em vida. Quanto mais esse amor, mais doce a morte.


Angel

Frases que ecoam na minha memória

- As palavras são uma coisa espantosa. Angel, já viu que isto é só ar? Pá-bá-tá. E por causa desta coisa há pessoas que matam outras! Não dá para penetrar o que é que este poder que são as palavras. Consegue-se fazer apaixonar uma pessoa e levar a recorrer à violência.
Artigo XXV

1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.


Declaração Universal dos Direitos do Homem
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

domingo, dezembro 09, 2007

The Top

This top is the place
Where nobody goes
You just imagine
You just imagine it all...


The Cure
todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetecia ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.
curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa.
o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me. desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem priveligiado, ouço o mar ao entardecer, que mais posso desejar?
e no entanto, não estou alegre nem apaixonado, nem me parece que esteja feliz.
escrevo com um único fim: salvar o dia.

Al Berto
Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.


Eugénio de Andrade
A boca,

onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.

Eugénio de Andrade
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte.

Al Berto
Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te.
Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro,
hei-de continuar a trazer-te no sangue.

Rilke

Água Mole em Pedra Dura

Há um tipo que não sei o nome, que era dos Bataton, entrava numa série que não era má de todo «Sim, senhor Ministro» com a Ana Bola. Um tipo de óculos, magro, baixo, por vezes usando chapéu com a pala apontada para trás. Ele namorou com uma amiga minha.


Quando ele a conheceu, convidou-a para jantar e eu lembro-me dela ridiculizar uma figura da televisão que lhe metia dó. Um tipo obstinado, um coitadinho, que não a largava. Ele imiscuira-se no grupo dela só para a conhecer.

Lembro-me de ela ter dito:

- Ele já me convidou umas dez vezes para jantar! Há homens que não entendem... O gajo é um triste.

Ao fim de muitas insistências, ela acedeu jantar. Ele passou para o ataque ao beijo. Mais do que o número de convites para jantar. Ela acedeu e namorou e amou-o intensamente.

Num outro contexto, com uma outra rapariga, num programa similar ao Big Brother, mas para celebridades (que raio de palavra), estava lá a modelo acéfala Rute Marques (a minha amiga é dez mil milhões de vezes mais interessante).


Ele fez-se à Rute Marques. Insistiu, insistiu, insistiu. Ela deu-lhe sempre para trás. Declarou-se e ela disse:

- Não. Quero estar sozinha. Não quero nada contigo.

A declaração de amor até abriu o jornal televisivo (da TVI, claro).

Um homem normal teria parado aqui. Mas o batatoon não. E no final do programa já namoravam. E acho que continuaram a namorar a ver pelas capas de revistas.

Isto ainda é mais impressionante quando o batatoon é fisicamente deplorável (sim eu consigo apreciar homens). Ainda bem que as mulheres bonitas também gostam dos homens feios. É tão democrático que assim seja. Fico sempre feliz quando vejo um indíviduo feio com uma rapariga bonita. Neste aspecto, as mulheres são tremendamente mais evoluídas do que os homens. Ligam mais ao... essencial.


Mas a razão porque falei do batatoon é unicamente para demonstrar que, por vezes, a água mole em pedra dura...

Isto pode parecer estranho para quem, como eu, advoga que o desprezo é afrodisíaco para a maioria das mulheres (não para todas, ainda há muitas que acham que o homem é que tem de as conquistar). Mas, felizmente que as mulheres são imprevisíveis, diferentes, contraditórias e volúveis.

Outro exemplo de uma contradição: também poderemos dizer que tendencialmente as mulheres gostam de homens seguros de si próprios e, contudo, há muitas que gostam de rapazes descuidados, frágeis, tímidos, perdidos sobre os quais exerçam um amor e domínio maternal.

Penso que a razão porque algumas mulheres cedem a perfil tenaz exemplificado aqui pelo batatoon será (digo eu) a personalidade forte que revelam.

Um homem que é rejeitado e persiste, persiste, demonstra confiança em si. Uma auto-estima forte, desprovida de orgulho (uma fraqueza disfarçada de força). E, claro, faz sentir uma mulher tremendamente especial como todas gostariam de sentir pelo menos uma vez na vida.

Angel

Zimbabwe

A taxa de inflação mensal é de 14 500% - alguém consegue imaginar?

A taxa de desemprego 85%.

A esperança de vida situa-se, para homem e mulher, nos 37 anos.

Quem teve o azar de lá viver, tem de lá ficar?

Vamos abrir-lhe as portas? Não, claro que não. Morram, mas morram longe. Longe da vista, longe do entendimento. Longe da culpa, da responsabilidade.


A culpa é dos vossos dirigentes.


Peter Singer diz que um país deveria receber as pessoas dos outros países com mais dificuldades até ao ponto em que as dificuldades dos países se equiparassem e, então, as pessoas estariam perfeitamente distribuidas.

Um mundo eticamente perfeito seria assim.

Angel

A melhor coisa que J L Peixoto escreveu

ARTE POÉTICA

o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dorme
se me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.

sábado, dezembro 08, 2007

O prazer de dar

Descobri que há uma quantidade enorme de pessoas que aproveitam o ano novo para marcarem novos desafios e auto-prometerem-se uma lista de questões que pretendem ver melhoradas.

Os objectivos são cada vez mais individuais. Gostava de ver as pessoas prometerem dar uma percentagem do seu rendimento para uma causa; de darem prendas às pessoas de quem gostam sem precisarem de um convenção social (aniversário, Natal), dizendo às pessoas que recebem as prendas e perguntam supresas «Mas porquê?», «Porquê? Porque gosto de ti» e sorrir e dar;ver as pessoas darem sangue; fazerem voluntariado com alegria, inscreverem-se na política, prometerem melhorar a vida dos seus próximos e fazer dos seus objectivos, objectivos individuais seus também.

Porque o maior prazer de todos não é marcar o golo, é dar a marcar o golo.

O prazer de dar, do amor (no sentido lato) é o mais arrebatador, o mais abrangente, o mais libertador - o que justifica a existência.

Fazer alguém feliz, fazer alguém abandonar uma trajectória de desespero. proporcionar a alguém a matéria-prima para tecer o seu sonho - é essa a raiz da felicidade, é isso que nos dá sentido à vida.

Um conhecido meu disse-me um dia:

«Eh pá eu só vejo é os gajos desonestos safarem-se. Já tou farto de ser como sou. Não saio da cepa torta.»

Digo o mais honestamente possível, correndo o risco de parecer ridiculamente banal: não acredito que essas pessoas, cheias de dinheiro e poder, sejam felizes se não sentirem que dão felicidade aos outros.


Angel

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Plágio?


Em baixo, o texto de que roserouge me acusa de plagiar:


«Então surgiu o odor da erva esmagada. Maria sentiu a aspereza dos talos dobrados sob a cabeça e o sol brilhando sobre os seus olhos fechados. E ele levaria toda a vida a recordar-se de Maria com a garganta tombada entre as raízes das urzes, a curva da garganta e os lábios que fremiam ligeiramente e o palpitar dos cílios sobre os olhos fechados contra o sol, contra tudo. Para ela só havia vermelho, laranja, o ouro vermelho do sol sobre os seus olhos fechados, e tudo era da mesma cor, tudo brilhava no mesmo tom. Para ele foi um caminho sombrio que não levava a nada, sempre a nada, ainda e sempre a nada, e outra vez a nada, sem fim, sem nunca a nada. Apoiado sobre os cotovelos para nada, caminho sombrio e sem fim, suspenso todo o tempo sobre um nada sem solução, esta vez e outra vez ainda, sempre para nada, entretanto, ah! não poder renascer outra vez para nada e entretanto, para além de tudo o que se pode suportar, mais alto, mais alto, mais alto e para nada. De súbito, deslumbramento, beatitude, tudo o que era sombrio e negativo desapareceu, o tempo absolutamente imóvel; estavam os dois juntos, o tempo suspenso e sentia a terra estremecer e esvair-se sob os seus corpos.»

Ernest Hemingway (tirado do blog http://p1ngger.blogspot.com)

Em baixo, o (suposto) plágio:

«Vivi um daqueles momentos que me provocará sempre um sorriso ao recordá-lo. Boiava eu no mar, debaixo de um sol forte, quando todo o areal me pareceu ouro polvilhado pela praia. Nesse instante dourado, fui percorrido por uma onda de felicidade dificilmente repetível.

Emergindo desse momento, num sismo que ocorria no centro de mim mesmo, abanando violentamente a Terra desde os seus alicerces mais profundos e rasgando-a de alto a baixo, um outro momento, procurando escapulir-se por entre as fendas até à superfície, fazia tudo para chegar à zona do consciente...

... Era «a flor púrpura», o momento mais completo e mais perfeito de toda a minha existência – o momento de uma intensidade tal que eu evitava recordar para manter incólume. Obnubilado, flutuavam pelo meu espírito as perguntas: O quê? Quando? Onde?»

Angel


Frases que ecoam nos nossos ouvidos

A minha amiga Daniela hoje disse-me:

- Eu não tenho paciência para as gajas, Angel. Para gajas, já basta ter de me suportar a mim!
Diz um skingirl na Sábado que a única utopia para viver seria o ideal do nacional-socialismo. No fundo, o nazi e o comunista são ambos utópicos e querem livrar a raça humana do sofrimento.

O nazi mata quem sofre e cria as condições para que quem sofre nem chegue a nascer. O comunista preocupa-se em elevar a qualidade de vida de quem mais sofre a um nível de condignidade.

O nazi enfoca nos mais fracos - limpa, remove o sofrimento. O comunista enfoca no mais fracos - retira aos mais fortes para dar a eles.

Ambos querem acabar com os mais fracos. Ambos não os suportam ver. Seja por repugnância ou compaixão, querem interferir drasticamente na ordem das coisas.


Angel
A janela do meu quarto tem a um escola. Já pus música na janela para as raparigas e os rapazes da escola. Foi a primeira vez que os vi dançar. Quando queria parar a música, quase me imploraram que não o fizesse. Às vezes estou em casa como na noite na noite.

O bar era calmo. Silencioso. Estava estendido no sofá. As luzes baixaram, não se ouvia ninguém. As paredes forradas de veludo, de beleza. Tranquilidade. Silêncio. Um filme a passar na tela. Depois poesia. Às vezes estou mais em casa na noite do que em casa.

Angel

Factos para reflectir

Em Itália há 30.000 padres católicos e 100.000 magos.
É cada vez mais difícil pensar. A televisão tem cada vez mais canais, as notícias são cada vez mais inócuas, os políticos discutem cada vez menos ideologia, os jornais são cada vez mais mal escritos, os livros light proliferam, os videojogos cada vez simulam mais o real, a política para a cultura é cada vez um elemento mais residual na discussão da política.


Angel

Vivi um daqueles momentos que me provocará sempre um sorriso ao recordá-lo. Boiava eu no mar, debaixo de um sol forte, quando todo o areal me pareceu ouro polvilhado pela praia. Nesse instante dourado, fui percorrido por uma onda de felicidade dificilmente repetível.

Emergindo desse momento, num sismo que ocorria no centro de mim mesmo, abanando violentamente a Terra desde os seus alicerces mais profundos e rasgando-a de alto a baixo, um outro momento, procurando escapulir-se por entre as fendas até à superfície, fazia tudo para chegar à zona do consciente...

... Era «a flor púrpura», o momento mais completo e mais perfeito de toda a minha existência – o momento de uma intensidade tal que eu evitava recordar para manter incólume. Obnubilado, flutuavam pelo meu espírito as perguntas: O quê? Quando? Onde?


Angel´s book

Frases que ecoam nos nossos ouvidos

- Angel, sempre que estou a surfar esqueço-me de tudo. Passo uma semana de merda, mas vou fazendo mentalmente a contagem decrescente... Domingo, é o pior dia, depois segunda, terça, quarta já vislumbro qualquer coisa, quinta já estou contente. sexta é o melhor dia... depois vem sábado, o dia da surfada! É o meu estímulo da semana. Ouve, eu penso sempre: «Quando estiver a surfar a onda, vou pensar nos meus amigos.» Eh pá, acreditas que nunca consigo?! Prometo sempre a mim mesmo. Esta semana prometi: Vou dedicar uma onda ao Angel. Qual quê! Esqueço-me sempre de tudo. Por maior que seja o teu problema, na altura da onda, mesmo que querias, nunca te consegues lembrar...

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Frases que ecoam nos nossos ouvidos (take two)

- A minha ex foi dizer mal de mim a todas as conhecidas dela lá na faculdade. Desprendido, cabrão, independente. Eh pá, usou memo estas palavras, meu... Ela não percebe - disse com um largo sorriso - que é a melhor publicidade que me pode fazer às raparigas da faculdade.

Frases que ecoam nos nossos ouvidos

- Angel, Lisboa é uma aldeia. Portugal, se calhar, é uma aldeia. Neste bar, conheço toda a gente e mesmo as que não conheço de cumprimentar, conheço de vista. Tenho boa memória visual e isso ajuda. É por isso que vejo quão pequena é Lisboa. Todas as pessoas que aqui estão eu lembro-me de terem estado no bar tal ou até no cinema. É incrível, começa a prestar atenção e vê que as caras são todas as mesmas.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Conversas interceptadas

- Comi-a ontem.

- Então?

- Curti com a gaja e ainda a fui foder a casa...

- Foste-lhe ao bujon?

- Népia. Mas dei-lhe uma ganda tratamento

- Então, não a papaste como deve ser. Fica para a próxima.

- Não sei se há a próxima.

- Não te esqueças que ainda não a comeste.

Frases que ecoam nos nossos ouvidos

- Angel, sempre que uma mulher mexe no cabelo é porque alguma coisa está a mexer com ela...

terça-feira, dezembro 04, 2007

Revalorização do Ser

Uma vez conheci uma rapariga que me chamou a atenção num pormenor. Numa omissão. Numa gritante subtileza.

Falámos a noite inteira, apresentados por amigos comuns, e nem por uma vez ela me perguntou:

- O que é que fazes?

Regra geral, esta pergunta acontece à primeira ou segunda frase de um diálogo quando se conhece alguém. E o não acontecer às vezes indicia apenas uma coisa: vergonha. Se a pessoa não pergunta, diminui a probabilidade de lhe ver devolvida essa pergunta (o que pode ajudar caso a pessoa faça algo sobre o qual recaia alguma vergonha social, ou pura e simplesmente porque está desempregada).

Pode parecer maçadoramente banal o que vou dizer, mas uma pessoa é uma pessoa.

Em conversa com um individuo há poucos dias, ouvi algo que também muito banal, mas que no fundo tem uma verdade esquecida:

- Uma pessoa não é um título ou uma profissão. O varredor do lixo tem os mesmos problemas que o Presidente da República. E mesmo que não use a mesma linguagem que nós, tem as mesmas coisas para comunicar sobre a vida e a natureza humana.

Temos de recalibrar as nossas valorações. Deixámos de ver o ser humano como um espírito de sonho, de qualidades únicas, defeitos únicos (alguns deliciosos), de inquietação, amor, amizade, generosidade; e vemos as pessoas em função da importância, daquilo que granjeou: estatuto, bens materiais ou reputação social.

Recentremo-nos na pessoa, no «eu«, depurado de títulos e cargos. Conheçamos as pessoas. Ame-mo-las. Compreenda-mo-las. Como é possível amar alguém senão por aquilo que ela ou ele é?

Tenho um amigo que há muitos anos faz a mesma coisa. Ganha pouco e não tem mobilidade no emprego, mas sai sempre às 16.30, e faz o que gosta.

- Ele é que faz bem. É por não ter a ambição desmedida que é o mais contente de nós. Está sempre bem, vive a vida sem stress e nós andamos feitos baratas tontas...

À procura do quê?

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Como o coelho da Alice do País das Maravilhas, andamos sempre a apressados, sempre a correr de um lado para o outro, gritando a quem nos intercepta: «Estou com pressa! Estou com pressa!» - e ouvindo sempre a música dos U2: "But I still haven´t found what I´m looking for...»

Termino com a citação de um amigo meu (que nem se deve lembrar do que me disse):

- No final, a única coisa que conta da vida que vivemos é o amor das pessoas por nós que recolhemos para a nossa morte.

Angel-a-beleza-mora-na-alma

Paranóia Securitária

O crime tem aumentado (em particular, o violento), mas a insegurança tem aumentado mais do que proporcionalmente. Anda tudo louco.

A estranha em mim é um filme perturbador. Mostra como o medo tomou de assalto o mundo. Estamos paranóicos. No filme, Jodie Foster veste o papel de uma mulher que mata os ladrões, violadores e assassinos. A sociedade gosta dela. Faz justiça. Traz segurança. Elimina a escória.

Nunca gostei da Lei de Talião, porque como alguém disse (o Gandhi, creio), com a Lei de Talião todos vamos acabar cegos. Mas hoje a mentalidade vigente é mais dura. Já nem é matar quem mata, é matar quem rouba. Não há muito tempo, um polícia matou um jovem que roubava umas calças da montra e isso não comoveu os portugueses.

O pai de um amigo, uma pessoa pacata, ligada à terra, simples, generosa, viu a sua vivenda ser assaltada. Levaram-lhe um rádio e perecíveis do frigoríco (estranho assalto). Anda a rondar a vizinhança de arma na mão e se encontrar o rádio em carro alheio, mata o assaltante.

Estamos a perder a medida das proporções?

ANgel
Ofereço-te também aquele núcleo de mim mesmo que salvei - o íntimo coração que não se revela em palavras, não trafica com sonhos e que o tempo, a alegria e as adversidades não conseguem tocar.

Jorge Luis Borges

segunda-feira, dezembro 03, 2007

António Guterres

António Guterres deixou um défice enorme. Virou as costas ao país. Apesar de pertencer a um partido de esquerda (na génese), boicotou a descriminalização do aborto. Era frouxo. Dava ouvidos a todos e não decidia se algum clamor se levantava.

Tudo isso será verdade.

Mas não esqueçamos que ninguém fez tanto na luta contra a pobreza e a exclusão social como ele. Ainda hoje estava a ler que os deficientes tem menores regalias, em contraste com o período áureo de... António Guterres.

O que eu digo não é um juízo de valor.

Uma investigação que foi feita sobre a evolução da pobreza em Portugal (por entidade estrangeira) descobri um período anormal, sem precedentes e sem continuidade no futuro, de diminuição da pobreza. Coincidentemente, os anos do guterrismo.

Existe um mito, especialmente para as pessoas fora da ciência económica, de que não se pode dividir o bolo, porque precisamos é de crescer a toda a hora e instante. Como nunca haverá uma altura em que não precisemos de competir com a «média da UE», NUNCA poderemos dividir.

Importa esclarecer duas coisas: é possível crescer e dividir (que o digam os países nórdicos). Segundo, quando as pessoas dizem: «Ai, mas nós somos os país mais atrasado da Europa, por isso é que temos mais desigualdades.» F-A-L-S-O

A pobreza pode ser mensurada em termos relativos ou absolutos. Em termos absolutos, é pobre quem tem menos de x por dia (dois dólares por dia). Em termos relativos, é pobre quem tem menos de uma proporção do salário médio do país (40%).

Cavaco, o homem que hoje enche a boca de combate à exclusão social foi quem deixou Portugal líder das desigualdades. Não, não era por sermos um país pequeno: desigualdades relativas!

Angel
«Her voice is full of money»

The Great Gatsby

domingo, dezembro 02, 2007

Diálogos Reais

- Foda-se são drogados, eu não tenho de os aturar! Que morram!

- Sabes que deixar a droga é difícil - procuro dizer.

- Foda-se é o caralho! Eu deixei de fumar e fumava quase dois maços por dia!

- Sabes que o tempo em média de espera só no hospital para um drogado que se queira curar são seis meses para o primeiro atendimento?

- Mas esses gajos nem deviam estar a beneficiar dos nossos impostos para usarem os hospitais.

- O médico tem de atender toda a gente. Um indivíduo que apanhe uma cirrose a beber vai ao médico e ele diz-lhe: «Não o atendo. Você está neste estado porque bebeu como não devia! Eu não o opero, não merece»?

A cultura do álcool da nossa sociedade é permissiva para o álcool e repudia socialmente a droga e seus utilizadores.
que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

e.e. cummings

Não tens dinheiro, então morre.

De acordo com Michael Moore, vão morrer 18 000 pessoas este ano por não terem seguro de saúde. Por mais panfletário que considerem o cineasta/escritor, se não são dezoito mil, são quinze milhares. A verdade é que são MILHARES que morrem por ano por não terem dinheiro para terem acesso à saúde. Como é possível?

O slogan do BE era demolidor:

«A saúde não é um negócio.»

Não é preciso dizer mais.

Angel

Frases que ecoam nos nossos ouvidos

- Já sei as histórias todas, os compartamentos todos, os perfis todos. Já não devia cometer erros com as mulheres, mas há uma altura em que os faço sempre a todos, de novo: quando me apaixono.

Etnocentrismo dicionarizado

«Indivíduo que faz negócios de compra e venda de animais, mas sempre de má fé./Chicaneiro, trapaceiro, burlador./Impostor./Agiota./Astuto, velhaco, trapaceiro./Povo errante e miserável, de procedência indiana, que, fugindo à invasão mongólica, se distribuiu por todo o mundo(...)»

Site do PNR, dirão... Mas não: Grande Dicionário da Língua Portuguesa

sábado, dezembro 01, 2007

Vida Real

No autocarro, ao meu lado, na última fila, enquanto eu estava a ler, concentrado, um rapaz e uma rapariga estavam a ter sexo.

Ela tinha o casaco de ganga sobre o colo ele e estava a fazer-lhe sexo manual. Era por demais evidente. Pensei ir-me embora, mas depois pensei:

- Porra, eles é que deviam procurar outro sítio!

Ignorei o assunto.

Ela estava ao meu lado, ele encostado à janela. Estava tranquilo.

Quando a mão dela se movimentou para ir deixar o produto tangível da sua acção no tapete do assento, eu virei o pescoço com um olhar penetrante e reprovador.

Ele tirou então um lenço de papel da mala dela enquanto ela não podia tirar a mão do casaco.

Angel
«O mundo é a minha representação.»

Schopenhauer

«Paneleiragem» - um excelente artigo

«Andamos vigiados. Precisamos de contar anedotas sobre brancos, pretos, judeus, muçulmanos, gays, machos, mulheres, loiras, morenas, católicos, papas, padres, rabinos, alentejanos, açorianos, portuenses, lisboetas, o que for. Para ver se somos gente normal. Ou se só copiamos os estereótipos politicamente correctos.»
Francisco José Viegas, a propósito do anúncio da Tagus

Parece a nova obsessão: o espartilho do “politicamente correcto”. E sempre que leio estas coisas fico com a sensação que devo viver num país diferente. No país de muitos colunistas, comentadores e bloggers vive-se no pânico de ferir susceptibilidades. Vive-se vigiado por uma polícia dos bons costumes em defesa das minorias. No país que eu conheço, que deve ser outro, os gays são chamados de paneleiros e ninguém pensa cinco segundos antes contar, para gáudio geral, piadas sobre os “maricas” (o termo mais carinhoso que se conhece). No país que eu conheço as “bichas” são histéricas e quem não se diverte com a sua triste condição ou é hipócrita ou é um deles. No país que eu conheço a maioria dos homossexuais esconde dos pais, dos irmãos, dos amigos e dos colegas a sua orientação. No país que eu conheço quem se cala, quem é patrulhado, vigiando e condicionado e quem tem receio das reacções alheias são os homossexuais e não a brigada suicida do “politicamente incorrecto”. Com essa, quase ninguém se rala. E, apesar de menos generalizado, no país que eu conheço fala-se dos “pretos” como parasitas e criminosos e das mulheres como galinhas descerebradas, gastadoras do dinheiro dos maridos e fúteis bibelots. No país que eu conheço a «gente normal» dedica-se ao activismo proposto por Francisco José Viegas todos os dias. Se o seu apelo fosse ouvido não sei se alguém daria pela diferença. Novidade, talvez apenas nas anedotas sobre brancos e machos. Mas temo que não venham a ter grande sucesso.

A ver se nos entendemos: não tenho nenhum problema com anedotas de coisa nenhuma. Digo piadas sobre tudo em privado. Porque sou, de facto, «uma pessoa normal». Não faço de cada momento da minha vida um statement. Reservo-me o direito à incoerência, sem a qual qualquer pessoa se torna ou doida ou insuportável. Mas no domínio da vida pública não sou «uma pessoa normal». Por duas razões: porque isso não existe. A «normalidade» exige intimidade. Em público ela é tão fabricada com qualquer outra coisa. E porque não me acho suficientemete importante para que os outros queiram a minha «normalidade».

Por isso distingo, como qualquer pessoa civilizada (Francisco José Viegas incluido), o público e o privado. Porque o humor (como muitas outras coisas) depende dessa distinção. Em privado, com pessoas que conheço, há a cumplicidade do “não dito”. As pessoas que me ouvem sabem que não sou racista, não sou machista, não sou homofóbico. E eu, para além de saber o que elas sabem sobre mim, sei algumas coisas sobre elas. Sei como interpretam e reagem ao que digo. Tenho a certeza que Viegas não contaria uma anedota sobre judeus a um nazi. A razão é simples: falta a cumplicidade. O que para ele seria uma auto-ironia em relação às suas convicções (e aí reside parte da piada dos gays contarem anedotas sobre gays) seria ouvido pelo nazi de uma forma completamente inversa. E essa é uma das razões porque o humor em privado e em público são diferentes. Quando falamos para todos não sabemos como somos ouvidos.

O humor é a tragédia mais a distância, disse não sei quem. E esse é o meu segundo ponto. Uns dias depois do 11 de Setembro um comediante americano de Nova Iorque tentou fazer humor com o assunto num encontro com outros humoristas. Da plateia ouviu-se uma frase: “ainda é cedo!” Da mesma maneira, uma anedota sobre Auschwitz pode ser um insulto se contada na presença de um sobrevivente ou a um familiar. Para eles ainda é cedo. Está lá a tragédia, falta a distância. Vamos medindo até sabermos que já é possível. Para quem vive diariamente o segredo da sua homossexualidade, ou o olhar de esguelha no emprego, ou a incompatibilidade com a família e tem de aturar, todos os dias, a todo o momento, na televisão, no teatro de revista, no restaurante, no escritório, piadas inocentes sobre “paneleiros”, também é cedo. Não será, talvez, se for um amigo, alguém com quem tenha a tal cumplicidade. É se for um desconhecido ou alguém que essa pessoa sabe que despreza a sua opção. Faz diferença. Além de que, como se sabe, o que é demais enjoa.

Claro que Francisco José Viegas pode contar as anedotas que entender. E pode acusar muita gente de falta de sentido de humor por não achar grande graça. Eu digo aqui a única razão porque não acho: porque acho fácil. Viegas estaria apenas a procurar a simpatia da maioria sem beliscar as suas convicções. O que para ele seria visto como uma provocação seria, na realidade, ouvido, pela esmagadora maioria, como uma evidência. O humor sobre as minorias é tão legítimo como qualquer outro (não há humor ilegítimo e as minorias costumam ser o principal tema). É só mais cobarde. E pelo menos a mim a cobardia dá-me pouca vontade de rir. Em Portugal, prefiro piadas sobre católicos. É mais dificil e aí sim, como pode testemunhar Herman José, a censura pode fazer-se sentir.

Para acabar, uma notícia: Adolescente homossexual canadiano, de 14 anos, suicida-se depois de ter sido intimidado pelos seus colegas. O sofrimento extremo das vítimas do preconceito é muito mais comum do que algumas pessoas pensam, quando olham com bonomia para a homofobia. “Ainda é cedo”, digo eu da panteia. Quando isto for memória talvez tenha mais graça. Não tenciono ser polícia de ninguém. Apenas reservo para mim o mesmo direito que dou aos outros: o de achar ou não achar graça a qualquer piada. Um exemplo: achei muita a isto. Talvez porque tenha a auto-ironia de que falava. Ou talvez apenas porque tenha mesmo graça e eu não seja o campeão da coerência.



Daniel Oliveira