sexta-feira, novembro 30, 2007

Precariedade

Ainda há dias, Manuel Carvalho da Silva, dirigente da CGTP, dizia que a “precariedade é um limite à cidadania plena”. Ora bem: a precariedade resulta das quatro componentes referidas, e projecta eliminar a politização dos cidadãos. Além de que cria e alimenta o medo. Um trabalhador a “título precário” não reivindica, não protesta, não exige. Abdica dos seus direitos e deveres de cidadão. Ficou muito clara a posição do patronato, no último programa de Fátima Campos Ferreira, “Prós e Contras”. Foram quase ultrajantes as declarações produzidas por um deles, cujo nome omito, por exigências de higiene moral – mas a quem as pessoas de rectidão não deixam de marcar com os ferros da indignidade.

Baptista-Bastos hoje no Jornal de Negócios

Eles estão doidos!

António Barreto

A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da “fast food”, para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e “petiscos”, a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.
A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido.
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.
Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido.
Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.
Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas.
Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.
Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido.
Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido.
Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.
Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.
AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.
Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta “produto não válido”, mesmo que esteja vazia.
Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.
Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.
Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.
Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.
Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.
As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas.
As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.
Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.
TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.

Géneros na Mitologia

Eris era a Deusa da Discórida

Não tendo sido convidada para o casamento de Peleus e Tétis, onde figuravam todos os deuses do Olimpo, Eris arquitectou a vingança. Atirou a maçã de oiro, bela e irresistível, para o banquete de casamento, com a inscrição "Para a mais bela". Três deusas reclamaram a maçã: Hera, Atena e Afrodite. Zeus foi chamado a decidir, mas não querendo o ónus da escolha, incumbiu Páris, um mortal considerado o mais belo, para eleger a mais bela.

As três deusas tentaram subornar Páris. Hera prometeu-lhe um vasto reino, Atena sabedoria e vitórias na guerra, Afrodite a mulher mais bela do mundo. Claro, Páris escolheu Afrodite.


A história poderia ser actual.

Angel


quinta-feira, novembro 29, 2007

O mundo em que vivemos

Chicotadas, multa e/ou prisão, à vontade do juiz. Esta a pena a que a professora britânica Gillian Gibbons arrisca por ter autorizado, durante as aulas, que fosse dado o nome de Maomé a um inocente ursinho de peluche. "Maomé, o Urso" valeu-lhe ser acusada em Cartum, Sudão, por insulto ao Islamismo e sedição (incitação ao ódio racial).


Diário de Notícias

As dez pessoas mais arrogantes de Portugal

10º lugar

Paulo Portas

9º lugar

Scolari

8º lugar

Daniel Oliveira

7º lugar

José Mourinho

6º lugar

Carlos Queirós

5º lugar

Francisco Louçã

4º lugar

José Saramago

3º lugar

Vasco Graça Moura

2º lugar

Rosa Lobato Faria

1º lugar

José Sócrates

quarta-feira, novembro 28, 2007

Fascistas Vermelhos

O PCP continua a achar que a caça ao inimigo interno é uma prioridade. Parece um miúdo deixado sozinho numa casa, cheio de medo dos amigos imaginários, sempre a olhar por cima do ombro e muito atento aos ruídos.

Definição de Violência

A violência é um o último degrau da comunicação. Quando não conseguimos transmitir o que sentimos em nenhum outro patamar, descemos ao último.

Infinito para baixo, Infinito para Cima

Quando liguei a televisão, pensei que o jogo Manchester-Sporting fora adiado. Um rato ou um esquilo felpudo ocupou um longuíssimo momento da transmissão televisiva.

Que bonito! Fiquei encantado.

A relva verde e fresca, e o rato (não deveria ser um rato, pois achei-o tão fofinho e tão querido) entretidíssimo a remexer na relva, sem mostrar a cabeça, tão empenhada estava em fossar...

Que coisa tão gira.

Pus-me a pensar:

- Ele não imagina que está a roubar a atenção de um estádio onde estão dezenas de milhares de pessoas. Ele não imagina a importância do que se passa à sua volta e continua a fossar como se nada fosse.


Será que nós também somos esquilos felpudos a fossar na relva perante palcos maiores? Será que outros seres de outros planetas nos vêem com a mesma displicência que nós vemos os esquilos felpudos a fossar na relva? Será que nos acontecimentos grandiosos deles, nós somos apenas criaturinhas a escaramuçar a terra?

A correr de um lado para o outro como baratas tontas? Será que o nosso quotidiano azafamado não é nada para eles?

Angel

terça-feira, novembro 27, 2007

quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música, um
pouco mais como uma cor curvando-se (por exemplo
laranja)
contra o silêncio, ou a escuridão...

a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,

devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno

cujos quietos lábios me assassinam subitamente,

mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso

-e então somos Eu e Ela...

o que é isso que o realejo toca

(e.e.cummings)

Engenheiro de Almas

Vai, pensamento, em asas douradas,
vai sobre as colinas e montes
onde sopram as doces brisas,
a quente e leve fragrância da nossa terra natal


Verdi, Ópera Nabuco



Vai pensamento... flutua.. paira... sobre as terras e os mares... procura as mentes livres...

Eu tenho convicções, tenho ideias e valores. Não gosto do extremo relativismo que se vive hoje. Não gosto que em nome de um ilusório e deletério multiculturalismo se perpetue a discriminação da mulher para que conceptualmente se defenda que «não há culturas inferiores às outras».

Um das repetidas discordâncias que tenho com pessoas é que eu acredito que as pessoas podem mudar.

- Mas, ó Angel, as pessoas não mudam.

- Mas, ó Angel, cada um é como é.

Mas eu não consigo estar no mundo sem tentar exercer uma influência positiva sobre ele e a melhor maneira é mudando as pessoas.

Não gosto das pessoas anódinas que passam pelo mundo, nunca discutindo, nunca se zangando, nunca bulindo na superfície das águas. São taoístas, sem o saberem.

Prefiro as pessoas irascíveis, que não são ultra-queridas, mas que têm bom fundo.

Das melhores pessoas que conheci na vida, muitas tinham mau feitio.

Das piores pessoas que conheci, muitas estavam envoltas em algodão doce, não levantavam a voz, usavam diminutivos, tinham a voz melíflua e o trato suave.

Outro dia li uma frase espantosa:

«O não é a expressão suprema da vontade.»

Pelo exemplo (kantianamente) e pela palavra, devemos sempre tentar fazer dos outros melhores pessoas. Vai pensamento - é esse o espírito da ópera de Verdi. Uma amiga minha é defensora acérrima do direitos dos animais, passa a vida a propagar a sua missão em palavras e actos, ela já despertou imensas consciências para a causa, que por suas vez despertarão outras, que por sua vez...

O vai pensamento é infinito...

A melhor maneira de mudar o mundo é espalhando o pensamento. Porque podemos mudar as instituições, os governos, as leis mas as pessoas podem continuar a mesma merda.

Diz o Dalai-Lama que se tod@s as pessoas acreditassem nas leis do karma não seriam precisos polícias nem prisões.

Eu digo vai pensamento a todas as minhas crenças mais profundas, como a honestidade, a anti-homofobia, o respeito da intimidade sexual; e assim continuarei até morrer.

Um matemático calculou que através de seis pessoas podemos conhecer toda a gente do mundo (seis mil milhões e quatrocentas pessoas). Pois o vai pensamento também pode, através desta progressão geométrica que é as pessoas chegarem a outras que chegam a outras que chegam a outras, também podem, dizia, abranger o mundo inteiro.

Angel



Viscosidade de expor a intimidade

Entre as coisas que mais abomino, juntamente com a cagância dos bens materiais e a homofobia, é a exposição da intimidade sexual dos outros.


Uma inadjectivável rapariga disse muito mal de um ex-namorado ou ex-amigo colorido que eu conhecia. Eu disse-lhe que era baixo nível cuspir no prato em que comia, mas ela insistiu, insistiu e disse horrores dele.

A certa altura, com um sorriso de cabra e uma voz histérica ouvi:

- E não tem muito jeitinho para a coisa? - percebes e riu-se como uma hiena demente.

Eu vi-a depois dessa noite e creio não a ter cumprimentado. Ela ficou novamente histérica e eu tentei transmitir-lhe a minha pavorosa repugnância pelo tipo de comentários dela, ainda para mais sabendo que eu era amigo da pessoa em causa. Ela negou tê-lo feito!

Até uma amiga dela me pediu para me dar com ela por ser naturalmente incómoda a sua posição quando nos víamos os três.

Eu expliquei à minha amiga a história, mas nem ela acreditou, atalhando a desculpa clássica:

- Ah, tava bêbada...

Angel

Relações

Eu devo respeitar tod@s e lutar por que todas as pessoas tenham espaço para se expressarem livremente, tenham acesso ao trabalho, à saúde, educação e habitação; mas não tenho que me dar com toda a gente.

Para estar bem com os outros, tenho estar bem comigo. E para estar bem comigo, tenho primeiramente de estar com pessoas com quem gosto de estar.

Amigo de amigo que para mim não seja interessante, é apenas mais uma pessoa.

Namorado de amiga ou namorada de amigo que sejam anódinos, para mim são ambas pessoas como outras quaisquer.

Só estamos bem quando nos damos com pessoas que gostamos genuinamente e não porque nos temos de dar. Para mim, é apenas uma estratégia de sobrevivência de uma mente salutar.

Aflige-me as pessoas que fazem tudo para agradar a chefes que detestam, pessoas que se dão com as outras numa mera relação de interesses. Caramba, quão infelizes são os interesseiros que não conhecem o sabor da amizade e dos afectos. Ou pessoas que quando conhecem amigos novos, levam com tod@s os amigos do grupo.

Cada vez desenvolvo mais relações a 2, eu e outra pessoa, totalmente desinseridas de grupos, de pressões, de máscaras. As pessoas que são amigas só o são quando tiveram momentos exclusivamente a dois.

Quando conheço um grupo, não levo com ele. Selecciono as pessoas que me interessam. Grupo atrás de grupo, seleccionando, com uma galinha a recolher dois ou entre grãos aqui e depois ali e depois ali..

Angel

Projecção

Um conhecido meu contou-me que uma rapariga, com a qual ele andou, durante muito tempo declarou-se a ele sem ele perceber.

Falava horas da sua paixão, projectando-a num ente imaginária, mas falando de características dele.

Como ele não sabia (apesar de desconfiar) que era dele que falava, ela não tinha censura e podia dizer tudo o que sentia por ele e o que gostava nele.

Um dia, ela disse:

- Já percebeste quem este Raul é?

(Silêncio)

- És tu...

E beijaram-se. Deve ter sido um momento intenso e muito bonito.

Às vezes, dá jeito projectar noutro coisas nossas. Tinha um amigo que passou pela impotência (quem não passou por ela, nem que por uma vez) e que contava a sua impotência na terceira pessoa.

- Eu tenho um amigo que não levanta. Já foi ao médico. Já lhe disse para ir ao psicólogo. O que acham? - perguntava.

Um dia, uma rapariga (mais perspicazes) topou-o e ele desmanchou-se e confessou o problema e chorou e sentiu-se liberto. Uma dolorosa libertação.

Estejam atentos a esta truque nos outros: a projecção.

E quando estiveram uma enorme vontade de explodir e concomitantemente uma enorme vergonha em exporem-se: usem este truque.

Angel

Nas relações e nos flirts

Ler as atitudes.

As palavras não valem nada.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


idem, idem
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.


Álvaro de Campos, Tabacaria

domingo, novembro 25, 2007

#1 crush

See your face every place that I walk in
Hear your voice every time I am talking

Garbage

Espírito anti-renascimento

«Ser especialista, algo hoje muito em voga, é saber mais e mais e mais sobre cada menos, menos e menos. Corremos o risco de sabermos tudo sobre nada.»

sábado, novembro 24, 2007

Liberdade

A guerra contra o tabaco está a dois meses de ser infernal. Espero que hajam levantamentos. Não é aceitável que não possam, pelo menos, haver zonas para fumadores em universidades, restaurantes, centros comerciais, bares, discotecas.

Apanhei um taxista tão estúpido que me disse:

- 99% do tabaco que o senhor fuma vem para mim.

- Então mais vale fumar. Só fica com um 1%.

- Não, não.

Mas o energúmeno nem dentro das suas próprias aberrações mentais conseguia ter lógica.

Ainda não vi dados conclusivos sobre a perigosidade para os não-fumadores do fumo dos restaurantes ou discotecas para se impor uma medida restritiva da liberdade, não só para os consumidores como para os produtores. Se eu quiser ter um restaurante ou um bar de tertúlia para amigos, nem aí posso deixar fumar - o Estado não me deixa utilizar a minha propriedade privada para fumar nem num cantinho!

E mesmo que houvesse dados conclusivos...

Na Nigéria, o presidente impediu o uso de mini-saia. E as violações baixaram! A consequência da medida não foi tremendamente positiva. O que nos choca então?

A liberdade. Mas isso é intangível e imensurável.

É justamente Ela que está em causa já em Janeiro.

Angel-e-a-liberdade-de-não-levar-com-o-fumo-é-salvaguardada-quando-há-zonas-para-fumadores-e-não-fumadores

Qualidade e Defeitos

Depois de ter lido os comentários que li neste blog à frase «Os defeitos são o outro lado das qualidades», passo a dar a minha interpretação.

O Vasco Pulido Valente, autor da frase, terá certamente tentado transmitir algo mais do que a banalidade «há qualidade e defeitos».

Na minha interpretação, o que ele diz é que é difícil que uma característica da nossa personalidade não tenha defeitos e vantagens.

Tomemos a coragem, por exemplo. Uma pessoa que tenha a qualidade de ser corajosa, mais facilmente terá o defeito de ser pouco cauteloso. O defeito «ser pouco cauteloso» é o outro lado da sua qualidade.

Uma pessoa organizadinha e metódica, por exemplo. Já passei férias com pessoas assim. Já conheci até uma pessoa que depois de limpar e arrumar a sua tenda, pedia a todos os vizinhos para lhe deixar entrar na tenda e fazer o mesmo que à sua. Tenho vizinhos que, para se entrar na sua casa, temos de entrar pela garagem, descalçar-nos e dizer o número do nosso calçado para eles nos darem um das dezenas de pares de chinelos que têm para todos os que lá entram. A intolerância, a ansiedade, a insociabilidade podem ser o outro lado da qualidade do método e da organização.


Aristóteles dizia que o caminho do meio era onde estava a virtude. Nem temerário nem medroso, algures no meio a virtude. Nem libertino nem austero, algures no meio. Nem muito rígido nem muito descontraído, no meio a virtude. É muito certeiro, tentemos jogar com todas as qualidades e todos os defeitos - em todos veremos que no meio está a virtude.

Então e a frase do Apocalipse:

«Sede frios ou sede quentes porque eu vomitarei os mornos.»

Angel
Gostava de viver num mundo sem prisões. Claro que teria de haver (ainda) mais polícias que impediam por antecipação qualquer crime.

Angel

Para quem diz: «As prisões de hóteis de luxo»

>
>
>SUSANA SALVADOR
>Adolescente era obrigada a manter relações sexuais em troca de comida
>O caso é chocante, mas as autoridades brasileiras temem que possa não ser um episódio isolado. Uma jovem de 15 anos esteve detida numa cela com 20 homens durante duas semanas numa prisão em Abaetetuba, no estado do Pará, tendo sido violada e obrigada a manter relações sexuais em troca de comida. "Fiquei chocada, como mulher e como governadora", disse Ana Júlia Carepa, que ordenou a abertura de um inquérito.
>
>A adolescente, identificada apenas com a letra L. pelos media brasileiros, foi detida pela polícia por suspeita de furto. Mas as autoridades que estão a investigar o caso não põem de lado a hipótese de que tenha sido presa para ser explorada sexualmente pelos outros detidos.
>
>"Eu fazia programa em troca de comida, para não ficar com fome. Mas acho que não estou grávida, eu usava preservativo", terá contado à mãe, segundo o depoimento a que o Estado de S. Paulo teve acesso.
>
>Além de terem cortado os cabelos da jovem, para dificultar a sua identificação, os detidos batiam nela e terão queimado a sola dos seus pés e os seus dedos para a intimidar. Só à quinta-feira, dia em que as mulheres dos detidos têm autorização para entrar na prisão para a "visita íntima", é que L. "ficava tranquila".
>
>O pai revelou entretanto ter sido pressionado pelos polícias para apresentar uma certidão de nascimento falsa da filha, que indicasse que esta já era maior de idade. Tanto a jovem como os pais foram colocados sob a protecção do programa de testemunhas, após a denúncia ter sido feita.
>
>A Comissão dos Direitos Humanos do Congresso brasileiro classificou o caso como um dos "mais aberrantes de que se tem notícia e que mais chocaram o país" e fará uma audiência pública para discutir o incidente durante a próxima semana.
>
>"Instaurámos um inquérito para apurar responsabilidades e vamos punir de forma exemplar. Se ela tem 15, 20, 50, 80 ou até 100 anos, não importa. Uma mulher não poderia estar presa numa cela junto com homens", afirmou Ana Júlia Carepa, prometendo que o episódio não se vai repetir. A governadora já afastou do cargo o superintendente da Polícia Civil da região e a responsável pela detenção.
>
>Contudo, desde que o caso foi revelado, já apareceram novas denúncias de partilha de celas entre homens e mulheres, como a de uma grávida de cinco meses ou a da jovem de 23 anos que teria estado detida juntamente com 70 homens. O procedimento seria "normal" na região, onde não existem prisões femininas, segundo fontes da polícia citadas pelo jornal O Globo.
>
>No relatório do Departamento de Estado norte-americano de 2006, publicado em Março deste ano, já havia referência ao problema: "Os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo providenciam estabelecimentos prisionais para mulheres; no resto do país, as mulheres são detidas com os homens em algumas prisões." E acrescentava: "Ocasionalmente, os jovens são detidos com os adultos."

sexta-feira, novembro 23, 2007

O nosso mundo interior

Quando nos perguntam se estamos bem, nós respondemos que sim ou não, e as pessoas atribuem esse sim ou não em função da relação com a mulher, com o emprego, com as coisas exteriores e visíveis de que falamos às pessoas.

Mas a verdade é que, na magia dos dias e das semanas, pequenas coisas subtis e secretas é que determinam o nosso estado de espírito.

A roupa que vestimos e nos fez sentir bem ou mal (e ninguém sabe); o termos ouvido uma música favorita na rádio (e ninguém sabe); aquela mensagem que queríamos tanto receber (e ninguém sabe); aquilo que tínhamos reservado para o dia e (não) conseguimos fazer: o (não) termos conseguido renovar o BI ou ido ao cabeleireiro (e ninguém sabe).

Há dias em que, acompanhado pelo sonho da noite, estou secreta e inexplicavelmente bem disposto.

Angel

O vazio assumido

Acho tão engraçado que sempre que perguntam alguém que livro anda a ler, nunca ninguém diz que não anda a ler nada de momento, e anda sempre com um clássico na mão. E grande parte das vezes nacional. Os Maias, o Pessoa, Os Lusíadas, pasme-se!


Nunca ninguém diz títulos obscenos, excêntricos, totalmente desconhecidos. As únicas pessoas que vi serem sinceras (talvez porque nem os títulos dos livros soubessem debitar) foram o Marco Paulo e o Beckam.

Disse o primeiro:


«Não tenho paciência para ler grandes livros. Nunca cheguei ao fim de nenhum livro.»

«Não tenho tempo para ler. Ainda não consegui ler nenhum.»

Como diz JAAB, muita ignorância requer um certo esforço.

Angel

quinta-feira, novembro 22, 2007

Fucking weird

Hoje sonhei que todos os objectos da minha casa, os móveis, os sofás, o gato de madeira, tinham vida. Andavam pela casa, conversavam e sentavam-se no sofá a ler jornais e ver televisão.

Angel

quarta-feira, novembro 21, 2007

Novo lugar não vais achar, nem achar novos mares.

Vai­‑te seguir esta cidade. Ruas vais percorrer,

serão as mesmas, e nos mesmos bairros hás­‑de viver,

nas mesmas casas ficará de neve o teu cabelo.

Hás­‑de ir ter sempre ao mesmo sítio, sem qualquer apelo.

Para outro lugar não há navio ou caminho

e estragares a vida tu neste cantinho

é pois igual a nesse largo mundo a dissipares.


KAVAFIS

Surgiu-me logo íntima

Num capítulo «Chama-se Júlia» do livro Reduto Quase Final, Dinis Machado conta, carregado de ternura, uma das suas mais «desastrosas jornadas sentimentais».

Na primeira vez que falaram, a rapariga fitava uma montra, com curiosidade e ausência.

Ele falou com ela e «ela surgiu-me logo íntima». É um sentimento maravilhoso quando as pessoas nos surgem logo íntimas, quando ao início, sentimos e compreendemos essa pessoa, quando sentimos que temos já cá dentro essa pessoa. No momento inicial que antecipa os milhões de palavras, explicações, gestos, atitudes.

Angel

Prismas

Conheço um individuo que tem um health-club e que me diz:

- Aqui é que se conhecem as pessoas. No trabalho, todas elas metem uma pose e depois vêm para aqui descontraídas e um tipo fala com elas e elas são tão naturais. Estão exaustas do mundo do trabalho e até com um desconhecido desabafam dos problemas do trabalho. Isto é um local de repouso, sabe?, de aliviar os problemas...

Conheço uma rapariga assistente social que me diz:

- Não conheces o mundo, a Vida, enquanto não entraste num bairro de lata e numa prisão. O mundo lá é tão diferente e nós passamos por ele muitas vezes, mas poucos, muito poucos, entram nele. E há tanta gente nele. Gente como eu e tu! Com os mesmos problemas, os mesmos desejos, os mesmos sonhos sonhos e com uma vontade enorme de comunicar.

Conheço um psicólogo que diz:

- Eu conheço as pessoas na intimidade, como mais ninguém conhece, nem as mulheres, os maridos e os melhores amigos.

No livro O último magnate diz-se a certa altura:

- Queres uma opinião? Pergunta a um escritor. Um escritor tem opinião sobre tudo.

Um técnico de recursos humanos disse-me um dia:

- Eh pá, quando entrevistas uma pessoa, sentes o maior poder do mundo. Porque aquela pessoa que está ali à tua frente vai fazer tudo para te impressionar. Tu és o centro do universo para ela. O teu juízo sobre ela é tudo o que lhe importa. E, então, é nesse momento de desespero que conheces realmente a pessoa. Porque tu vês até onde ela é capaz de ir. E tu vês a pessoa que ela queria ser - que é a pessoa que ela te mostra. É muito engraçado.


Outro dia na televisão ouvi uma economista inchada dizer:

- Pela forma como as pessoas gastam o dinheiro, é que se vê quem elas são. A afectação do dinheiro por consumos desagregados em categorias permite definir os diferentes perfis dos portugueses.

Outro estudo de uma jornalista dizia que nós somos a forma como consumimos o nosso tempo: a personalidade ditada pela afectação do tempo às diversas actividades do dia.

Quem tem razão? Quem tem a janela mais ampla e cristalina com vista para a natureza humana? Quem dos acima descritos vê melhor a realidade?

Tod@s.

Angel
No hotel da minha alma haverá sempre um quarto
com vista para a tua paisagem favorita...

Angel

Desqualificar pessoas em vez de contrapor argumentos

«Vê-se logo quando o crítico é mau: quando critica o autor do poema e não o poema.»

Ezra Pound

Eu, o hedonista, que na noite em que fui verdadeiramente feliz, não usei cartão de crédito, não bebi álcool, nem pratiquei sexo.

Angel

terça-feira, novembro 20, 2007

Experiência orgástica

Ontem, à noite, chovia torrencialmente. Estava na cama, sentado com os pés esticados para a frente, debaixo de um cobertor tão macio, a ouvir a chuva lá fora.

Não podia desejar nada porque nada me faltava.

Angel

Inflexibilidade

Por mais que os sistemas políticos se aperfeiçoem, por melhor que as instituições funcionem, se as pessoas individualmente não agirem movidas por um propósito ético, a sociedade continuará a ser uma merda.

Ainda hoje vi um filme (baseado num caso real) sobre isso: Gangster Americano.

Os mafiosos tinha a cobertura da polícia a troco de dinheiro. A polícia supostamente era para combater o crimes, mas individualmente os polícias não tinham ética, logo como poderia a Polícia enquanto instituição tê-la? O filme avança com dados reais: o Departamento de Investigação da Droga na década de 70, num estado dos EUA tinhas ligações com a máfia. 3/4 dos polícias estavam comprados!

O polícia honesto, foda-se, é gozado por todos. É incrível porque já vi pessoas que defendem a honestidade serem gozadas da mesma forma. Como se tratasse de uma tolice, de uma fraqueza. Ele continuou inflexível.

Mesmo perante a raiva (nascida da inveja) que as pessoas lhe tinham só por ele não se vender:

- Tu não és diferente dos outros - gritavam-lhe.

A mim já me quiserem vender a passagem no exame na Escola de Condução da Portela (PJ, investigue este blog, eu dou o meu IP e morada)

Em qualquer altura da nossa vida, a nossa honestidade é testada.

Acho que nunca devemos ser flexíveis. Nunca devemos ser flexíveis em nada do que acreditamos.


O mais pequeno passo tem consequências irreversíveis e infinitas.

O músico de qualidade que, depois de não vender no mercado, decide tornar-se só agora mais comercial; está a matar uma parte do seu talento. O escritor que decida fazer algo light para vender mais, está a prostituir o seu potencial de escrita. Porque a máscara que afivelamos, como dizia Pessoa, cola-se à cara. As pessoas destroem-se sempre com pequenos passos ao início. Quando cometemos algo contra os nossos princípios, nunca é só dessa vez. Atropelar a nossa própria ética nunca se deve fazê-lo. Deixar de nos reconhecer ao espelho é doloroso.

Porque o nosso cérebro habitua-se ao que nós fazemos e os sentimentos de repulsa normalizam-se. A prostituta que vai para cama por dinheiro sofre muito ao início. Depois, é maquinal e deixa de chorar, de sentir vergonha ao fim do milésimo cliente.



Uma vez um amigo meu, bondoso e puro, estava magoadíssimo com uma pessoa. Queria-se vingar.

- Não o faças. A vingança é um acto negativo. Tu nunca fizeste uma vingança.

- É só esta.

Soube-lhe tão bem que repetiu. Hoje é uma pessoa vingativa.

É como as pessoas que fazem uma dieta, e que dizem: «ai é só hoje que como um doce». O «só hoje» é uma consolação mental ilusória para o pecadilho. E as pessoas que deixam de fumar e «ai é só este cigarro» (como dizia Wilde humoristicamente: «deixar de fumar é fácil; eu próprio deixei de fumar oitenta vezes.»)

Também tinha um amigo que me infernizava as noites com as suas bebedeiras e começava sempre só com um copo:

«Não, não, é só este.»

«Não, é só mais este.»

A inflexibilidade nem sempre é um defeito.


Angel-precisamos-de-exemplos-de-inflexibilidade-ética-para-continuarmos-a-não-nos-sentirmos-bobos-cada-vez-que -somos-honestos
Hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui está está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar, invade-me a vontade de permancer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar...
releio o que escrevi há doze anos, neste mesmo lugar: as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei onde. as borrachas já não apagam a melancolia das palavras, a escrita que inventámos evadiu-se do corpo. o vazio devora-nos. onde estivemos este tempo todo? voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?

Al Berto

Liríca camoniana

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

Camões

segunda-feira, novembro 19, 2007

HIV

Peritos do meio médico e judicial vêem com perplexidade a decisão
"O acórdão desprestigia o país e quem o emite"
19.11.2007 - 10h02 Catarina Gomes


Os vários peritos contactados pelo PÚBLICO, tanto médicos como do meio judicial,
olham com perplexidade para a decisão e justificação usada pelo Tribunal da
Relação de Lisboa, que repete os argumentos do Tribunal de Trabalho de Lisboa.

José Vera, responsável pela unidade de tratamento de HIV/sida do Hospital de
Cascais, considera que dizer que o suor, lágrimas ou saliva podem transmitir o
HIV "é um disparate completo" e demonstra "uma grande ignorância dos juízes e,
mais do que isso, quase uma teimosia em permanecer na ignorância". O médico diz
mesmo estar-se em presença de "mentalidade da Idade Média" e "preconceito no
poder judicial". "O acórdão desprestigia o país e quem o emite."

José Vera afirma que "ninguém pode saber tudo e é para isso que há órgãos
técnicos". Ignorar um parecer do Centro de Direito Biomédico "é querer continuar
a ser ignorante".

O autor deste, André Dias Pereira, ficou "surpreendido" com a decisão por ser
incorrecta "no plano jurídico e médico". "Não há nenhuma possibilidade técnica
de que, por muito suor e lágrimas que caiam por cima de folha de alface, o
cliente a coma e o HIV seja transmitido. É completamente louco. Merece o mais
veemente protesto."

O especialista considera que esta decisão do Tribunal da Relação "é muito mau
sinal para a comunidade jurídica e para os trabalhadores e empregadores no
sentido da discriminação de indivíduos portadores de HIV". "Se há problemas com
o suor e lágrimas, é melhor testarem educadores de infância, professores,
juízes...", ironiza. Este tipo de decisão "afasta as pessoas de fazerem testes",
junta.

O presidente do colégio de especialidade de doenças infecciosas da Ordem dos
Médicos, António Sarmento, reforça: "Há apenas três vias de transmissão
conhecidas e tudo o resto é especulação." Se fosse possível o contágio pelo
suor, lágrimas e saliva, "era a desgraça da Humanidade". Os seropositivos não
poderiam beijar, partilhar corpos, refeições.

A professora de Direito da Saúde na Escola Nacional de Saúde Pública (Lisboa),
Paula Lobato de Faria, afirma que a decisão da Relação "pode ser considerada
discriminatória". A docente escreveu um parecer para a defesa do trabalhador
quando foi apresentado o recurso para este tribunal. Aquilo que dizia a
propósito da primeira sentença que deu razão ao hotel repete-o agora. Dizer que
um trabalhador portador de HIV que trabalha na manipulação de alimentos
representa um perigo para a saúde pública "é uma ideia falaciosa" e "aceitar uma
decisão judicial que afirme esta ideia é aceitar que na nossa sociedade se tomem
decisões cientificamente incorrectas e fundadas em medos irracionais que
promovem a injustiça de aumentar o estigma".

Lolita (Kubrick)

domingo, novembro 18, 2007

Lolita

Anedota

Três amigos aventuram-se num safari. Começam a tirar fotografias. Ouve-se um rugido e eles precipitam-se num alvoroço. Aparece um leão e eles desatam a correr com as máquinas. Um deles, coxo, começa a ficar para trás. O leão veloz está cada vez mais perto...


Um dos que vai à frente olha para trás e começa a gritar:

- Eh pá, olha o coxo! Olha o coxo!

Ao que o coxo responde:

- Vai-ta foder! O leão é que escolhe!

Charlotte Sometimes

all the faces
all the voices blur
change to one face
change to one voice
prepare yourself for bed
the light seems bright
and glares on white walls
all the sounds of
charlotte sometimes
into the night with
charlotte sometimes

night after night she lay alone in bed
her eyes so open to the dark
the streets all looked so strange
they seemed so far away
but charlotte did not cry

the people seemed so close
playing expressionless games
the people seemed
so close
so many
other names...

sometimes i'm dreaming
where all the other people dance
sometimes i'm dreaming
charlotte sometimes
sometimes i'm dreaming
expressionless the trance
sometimes i'm dreaming
so many different names
sometimes i'm dreaming
the sounds all stay the same
sometimes i'm dreaming
she hopes to open shadowed eyes
on a different world
come to me
scared princess
charlotte sometimes

on that bleak track
(see the sun is gone again)
the tears were pouring down her face
she was crying and crying for a girl
who died so many years before...

sometimes i dream
where all the other people dance
sometimes i dream
charlotte sometimes
sometimes i dream
the sounds all stay the same
sometimes i'm dreaming
there are so many different names
sometimes i dream
sometimes i dream...

charlotte sometimes crying for herself
charlotte sometimes dreams a wall around herself
but it's always with love
with so much love it looks like
everything else
of charlotte sometimes
so far away
glass sealed and pretty
charlotte sometimes

The Cure
Being with you and not being with you is the only way I have to measure time.

Jorge Luis Borges

I

The useless dawn finds me in a deserted streetcorner;
I have outlived the night.
Nights are proud waves: darkblue topheavy waves laden
with all hues of deep soil, laden with thinks
unlikely and desirable.
Nights have a habit of mysterious gifts and refusals, of
things half given away, half withheld, of joys with
a dark hemisphere. Nights act that way, I tell you.
The surge, that night, left me the customary shreds and
odd ends: some hated friends to chat with, music
for dreams, and the smoking of bitter ashes. The
things my hungry heart as no use for.
The big wave brought you.
Words, any words, your laughter; and you so lazily and
incessantly beautiful. We talked and you have
forgotten the words.
The shattering dawn finds me in a deserted street of my
city.
Your profile turned away, the sounds that go to make
your name, the lilt of your laughter: these are the
illustrious toys you have left me.
I turn them over in the dawn, I lose them, I find them;
I tell them to the few stray dogs and to the few
stray stars of the dawn.
Your dark rich life…
I must get at you, somehow: I put away those illustrious
toys you have left me, I want your hidden look,
your real smile – that lonely, mocking smile your
cool mirror knows.

Jorge Luis Borges

As Meninas - Velazquez

Procura a Maravilha

Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.



Eugénio de Andrade

Há pessoas amorais?

- Eu era incapaz de fazê-lo. Nem dormia à noite.

- Pois, é um acto de egoísmo, no fundo. Mas é que nem todos têm esse remorso...

- Estás a dizer que há pessoas amorais?

- Talvez.

In homepage do flankus

“É no segredo que reside o magnetismo dele. O que o fascina é qualquer coisa que não está ali, e é isso que me tem atraído desde o princípio, o enigmático não-sei-quê que ele mantém à parte, que reserva como seu e de mais ninguém. Organizou-se como a Lua, para ser só metade visível.”

Philip Roth


Quem te deu autorização para colocares posts do Philip Roth sobre mim?


Angel

Que sejas feliz

O Richard Gere, budista, cada vez que passa por um estranho expressa internamente um desejo:

«Que tu sejas feliz.»

Olha a pessoa, sente a compaixão e formula o desejo.

2

«Os defeitos das pessoas são os outros lados das suas qualidades.»

Vasco Pulido Valente

sábado, novembro 17, 2007

Sonho

Vejo o fogo no espelho e entro para dentro do lado de lá do espelho

Charros

Quando questionado se teve contacto com drogas, Vasco Pulido Valente dá a resposta que me cansei de ouvir:

- Fumei um charro, mas odiei, fiquei enjoadíssimo e vomitei)

Não questiono a veracidade de VPV, mas já ouvi tanta, mas tanta, tanta, tanta vez por parte das figuras públicas esta resposta. O formato é clássico: fumei-um-mas-detestei.

Para mim era mais normal dizerem que fumaram ou que ainda fumam ou que nunca nunca fumaram. Agora só um? Odiaram? Mas a sensação que provoca é assim tão forte?

Conheço pessoas que fumam, pessoas que nunca fumaram, mas não me ocorre alguma (e esforço a memória) que só experimentou a singularidade de um charro, provocando-lhe uma hecatombe de sensações negativas.

Os ingredientes do politicamente correcto estão todos nesta resposta: rebeldia, pedagogia («experimentei e é mau»), auto-controlo, o experimentalismo do zeitgeist do tempo mas a com a assimilação não acrítica do que nos querem impingir.

Tem tantos elementos do politicamente correcto que talvez encubra a hipocrisia.

Acho mais provável que Bill Clinton tenha snifado cocaína e fumado muita marijuana ou que nunca tão-pouco tenha fumado um charro do que o seu único contacto com drogas ter sido apenas um bafinho num charrinho que ele visceralmente abominou.

Angel

A resposta da Terra

Ó doce espontânea
terra quantas vezes te têm
os
senis


dedos dos
lascivos filósofos atormentado
e
tacteado


,tem o malicioso polegar
da ciência penetrado
a tua


beleza .quantas
vezes te têm religiões tomado
sobre os teus descarnados joelhos
apertando-te e


açoitando-te para que concebas
deuses
(mas
fiel
à incomparável
cama da morte o teu
rítmico
amante


tu respondes-lhes


apenas com


a primavera)

e.e. cummings

Metafísica

No livro Breve História de Quase Tudo, encontrei uma explicação espantosa para a pergunta: mas o que existia antes do Big Bang? Segundo a lei da causa e efeito, tudo provém de algo, e assim sucessivamente até ao infinito... pelo que pressupor que houve uma explosão que foi o começo, era quase como começar do nada.

Se falamos de infinito, é paradoxal ter havido um momento inicial. Para ser infinito é preciso haver um antes e um antes e um antes de todo e qualquer momento.

Finalmente, encontrei resposta.

O universo é que criou justamente as categorias de espaço e tempo. Logo não se pode falar de "antes" sem o tempo existir. Tautológico?

Angel

sexta-feira, novembro 16, 2007

Sobre a frase «Cada pessoa tem aquilo que merece»

E um recém-nascido surdo, cego e estropiado?

Verdade

Não minto por egoísmo. A confusão mental que traz, a ansiedade, o medo da vergonha, do ridículo de ser apanhado... O povo acerta quando diz que se apanha melhor um mentiroso do que um coxo.

A verdade liberta, dizia Cristo. Quando dizemos a verdade, estamos livres, limpos, sem medos, quando formos questionados sobre algo, não teremos de magicar esquemas, de pedir a pessoas para estarem caladas, de gravar na memória o que dissemos de forjado para que as coisas batessem certo... Não, é só dizer:

- Eu fiz isto porque isto.

- Naquele sítio, àquela hora.

As palavras virão sempre de algum lado. Calmamente... Para nos ajudar...

Uma vez, um casal amigo meu convidou-me para sair e eu não me apetecia estar só com eles. Fiquei em casa, dizendo-lhes «Hoje não vou sair». Depois um grupo de pessoas convidou-me. Eu
saí.

E encontrei-os no mesmo bar!!!

Pior, muito pior: na mesma mesa.

Pior, incrivelmente pior. Eram primos de uma amiga do grupo e estava inseridos no mesmo grupo.

O que guardei de positivo da experiência para toda a vida, contrabalança positivamente o opróbrio que tombou sobre mim. Usando linguagem de seita: Hoje sou uma pessoa livre! Vi a luz!

A verdade é hoje o meu modus operandis, o meu guia de sobrevivência.

Agora há uma questão que se coloca num plano superior da existência. A Verdade é um valor absoluto ou relativo? Se alguém estiver com problemas cardíacos no hospital e a sua filha tiver sido violado e o violador estiver ao lado da sua cama no hospital, devemos contar-lhe a verdade? Ou há mentiras que, por evitar sofrimentos acrescidos e desnecessários, deverão ser alimentadas? Quem tem resposta para isto? Há só uma resposta?

Esta questão é filosófica, e como questão filosófica, é irrespondível.


Angel

História de uma cabra (das que provocaram corações empedernidos)

Ela era descomprometida, ele era descomprometido. Ela fazia-se ele. Descaradamente. Começaram a envolver-se. Quando começou a haver uma maior regularidade, ela pôs-lhe os patins. Ele ficou na merda. Andou atrás dela. Ela até o telemóvel lhe rejeitava.

Passado bastante tempo, ele andou com outra rapariga. Ela voltou à carga e começou a mandar-lhe mensagens altamente sexualizadas. Ele ainda gostava dela. Deixou a namorada e disse-lhe a verdade e foi curtir com a outra. Só uma vez. Mais uma vez ela pôs-lhe os patins. Quando quis voltar para a namorada, este disse-lhe: «Agora fica com a outra.»

Os amigos avisaram-no a nunca mais estar com ela, mas ele, cego, deixou repetir o padrão.

Novamente voltou a andar com a namorada ao fim de algum tempo e novamente ela lhe mandou mensagens. Ele caiu na armadilha e novamente a cabra o deixou.

Angel

quinta-feira, novembro 15, 2007

Idealistas que viram cépticos frios empedernidos

Os homens que conheço que menos ética têm face às mulheres foram precisamente os mais românticos e os mais respeitosos outrora. Enganados e traídos, viraram radicais omnívoros, despedaçadores de corações, desprendidos (curiosamente agora é que têm mais mulheres...)

Um dia falei com um e, ao ouvir a sua história, senti-me muito próximo dele, tive uma torrente de compaixão a inundar-me os canais do espírito, e compreendi-o e abracei-o.

Claro que racionalmente não se pode aceitar que o mal que uma pessoa infligiu a outra, estigmatize toda uma classe de pessoas. Mas, eu entendi o que ele me quis dizer: a sensibilidade é a pior forma de protecção contra o sofrimento. Onde hoje há um buraco negro, antes havia um coração, tão sensível que era capaz de sentir uma folha de Outono a desprender-se de uma árvore longínqua...

- Eu fui muito magoado porque apostava tudo nas relações. Era totalmente verdadeiro, gentil, 100% puro e isso só me trouxe um enorme sofrimento. Agora já não trato assim ninguém e tenho - o que é incrível - muito mais oportunidades. Jogo as regras da sedução e da cabrice. A pior revolta possível é tu seres 100% bom e só te foderes com isso. Não dou hipótese a que isso volte a acontecer.

É terrível a amargura de termos sido irreprensivelmente correctos e verdadeiros e dessa correcção, bondade, e verdade nos ser devolvida num profundo sofrimento.

Angel

Poemas de um só verso II

O terror da árvore vermelha

Estabilidade, no fundo.

Não acredito numa felicidade que dispensa a ética.

Angel

quarta-feira, novembro 14, 2007

Êxtases Culinários

Diz a Clara de Sousa numa entrevista à revista do Círculo de Leitores:


«Adoro cozinhar. Quando convido alguém, de que forma posso mostrar que gosto muito dessa pessoa? Fazendo-lhe uma refeição de que não se esquecerá. E qual é o meu maior desejo, o melhor prémio que essa pessoa me poderia dar? Adorar a refeição. Querer saber qual o ingrediente, como fiz, quanto tempo e etc. e tal.»

Eu, de facto, não devia estranhar. Mas eu sou um alien. Estou-me completamente nas tintas para o que a Clara valoriza. Mas o anormal sou eu. Sei muito bem que a esmagadora maioria das mulheres dá imenso valor a isso. Eu nunca me lembro do que comi com as mulheres que estive, mas lembro-me das conversas, das roupas, dos locais, das músicas. Assumi sempre que era assim. Também não presto atenção ao carro. Nunca sei de quem é o carro de quem. Há amigos meus que se passa:

- Porra, mas quantas vezes andaste no meu carro!


Voltando à comida, é um ponto muito negativo contra mim. Porque, de facto, muita gente valoriza isso e há quem diga qualquer coisa como "levo-o pela boca", uma expressão que diz que alguém ficou apaixonado pela cozinha dela. Eu acho isto tão bacoco e tão frívolo, mas é um assunto em que me calo. Tenho de respeitar a beleza e a poesia que outros vêem no que eu não vejo.

Uma vez um amigo meu teve uma manhã inteira a fazer um licor de algo muito excêntrico. No almoço, aquilo foi consumido em dois minutos. Ele perguntou-me se gostara. Eu fui sincero. Ele ficou pior que f*****. A partir daí, sabendo eu que o juízo da comida é o tudo-ou-nada da boa ou má disposição de quem cozinhou, virei neste campo um hipócrita por compaixão. E, às vezes, acende-se uma lâmpada dentro de mim e digo forçadamente: «está muito bom o arroz.» É sempre melhor dizê-lo antes de nos perguntarem!( para que soe espontâneo.)

Eu também como depressa e isso aumenta a minha confusão: demorar três ou quatro horas a confeccionar algo que eu irei deglutir em menos de dez minutos e que não me deixará memória?
Eu nem do que almocei me lembro.

Angel

Poemas de um só verso

Corrente de sonhos na quietude da noite



Angel






"Louco" ou "Solidário"

Um gesto de um amigo comoveu-me. Estava em casa, à noite, a ver os sem-abrigo na Rússia. Ficou muito sensibilizado com o documentário da extrema miséria e solidão. E, de repente, pensou:

- Mas caramba, estou tão triste com o que se passa na Rússia e eu tenho aqui ao meu lado pessoas nestas condições...

Pegou em cobertores, mantimentos e leite, e foi até à Baixa-chiado distribui-los. Chovia torrencialmente, mas chegou a casa com a alma quente.

Angel

Canto de Mim Mesmo

Vejo algo de Deus em cada uma das vinte e quatro horas, e vejo-o em cada momento que passa,
Vejo Deus no rosto de homens e mulheres e no meu próprio rosto ao espelho,
Encontro cartas de Deus espalhas pela rua, todas assinadas com o seu nome,
E deixo-as onde estão pois sei que vá para onde for,
Chegarão sempre outras pontualmente

Walt Whitman

A escolha de um lado

Álvaro Cunhal um dia foi apanhado a ver um jogo de ténis entre um sueco e um americano. Perguntaram-lhe por quem estava.

Era suposto dizer, dado o facciosismo anti-americano (ainda para mais na altura havia os dois blocos), que estaria pelo sueco. Porém, ele respondeu que estava pelo norte-americano!

A resposta dele é belíssima:

- Porque é mais fraco e eu estou sempre pelos mais fracos.

Independentemente dos terríveis crimes do comunismo, este ideário sintetizado nesta frase não pode deixar de ter toda a minha simpatia. Que bonito. Que terno. Que sensível. Que cristão. Comunismo e cristianismo, nos seus primórdios doutrinais, expressam ambos a escolha de um lado: o dos mais fracos.


Angel

terça-feira, novembro 13, 2007

Já reparam que? II

A melhor forma de querermos que alguém se abra connosco é dar-lhe a chave para um quarto da nossa obscuridade.

Num curso de relações humanas, aprendi que:

«Quando vocês se abrem com alguém, estão a convidar esse alguém a abrir-se. Ele vai sentir mais confiança como foi receptáculo da vossa intimidade e vai ele próprio tornar-se veículo também de uma confidência.

Quando conta algo de que me envergonho, uma fobia, um disparate, um medo rídiculo; a pessoa a seguir ou mais tarde conta-me também algo seu.

Isto porque tod@s, tod@s, temos medos, inseguranças, infâmias escondidas.

Angel

Já repararam que?

Nos autocarros as pessoas negras têm o lugar vazio (quando o há) ao seu lado.

Angel

O prazer das coisas simples

Muito cedo ainda.
Ruas preenchidas de multidões deslizantes.
Ao sair do café, o inesperado....
Um cão com barbas simpáticas olha-me com curiosidade.
Quão grande é a ilusão...
Não fomos feitos para coisas simples?
Desejar um bom dia
um mundo simples e gratificante
histórias que contaremos aos nossos netos.
A necessidade de não deixar a felicidade entrar e sofrer
Contemplamos a solidão
Vivemos momentos
desenvolvemos o pensamento
A sociedade corrompe a mente com a sua vulgaridade,
e as suas "qualidades" absurdas
fazendo sentirmo-nos culpados...
aproximei-me do cão das barbas, abracei-o
e lembrei-me...
sabe bem aqui...de certeza que vou dormir...
Inicio, nova história, o fim...

Anónimo

segunda-feira, novembro 12, 2007

A pulsão do Mal

Quando se lê uma entrevista de alguém cujo inspirador é Adolf Hitler, perguntamo-nos, se temos algum bom senso, se a pessoa é desinformada ou não. Se não é, é mais grave. Tentamos então racionalizar a pulsão do Mal.

Porque há pessoas que gostam de infligir sofrimento às outras?

a) Por ressentimento ou vingança. Pessoas que foram mal-tratadas, feridas, espezinhadas, e que querem combater esse sentimento de inferioridade, sentindo o poder de esmagar quem lhe fez mal, invertendo os papéis de superior e inferior. Por vezes, generalizamos as características de quem individualmente nos fez mal para grupos - essa é uma das explicações da existência de racismo.

b) Pela ideia/sensação de poder. Como dizia um individuo da máfia que matou e extorquiu centenas de pessoas: «Nada nos dá um sentimento de poder maior do que o poder de dar e tirar a vida das pessoas.» A juntar a isto, o nazismo defende o culto da força, do homem perfeito, tudo coisas que insuflam virilidade. Daí ser a coisa mais anti-cristã que há: o amor ao próximo de Cristo é visto como fraqueza.

c) Por uma necessidade de dar um rosto a todos os males da nossa vida. Todos temos problemas na vida. Quando nos sentimos infelizes, é muito mais fácil digerir o sofrimento se atribuirmos culpados exógenos. Muito melhor ainda se reduzirmos a um único bode expiatório no qual esvaziamos toda a raiva e ódio. É ridículo pensar que não há empregos em Portugal para todos os portugueses por causa dos estrangeiros. Mas claro que não haver explicação é menos consolador do que sentir: a culpa é de x.

d) Pela fantástica sensação de ir contra-a-corrente. De ser do contra. De estar sozinho a defender uma coisa contra tudo e contra todos. Dá-nos uma força sobre-humana sentir que continuamos nós próprios independentemente de qualquer multidão adversa. Mas então porque não são comunistas ou anarquistas? Porque a sensação de ser do contra é mais no nazismo. Porque o politicamente correcto inclina-se para o Bem e não para o Mal. E, apesar dos tremendos males do comunismo histórico, o comunismo aponta para coisas belas, com o fim da exploração do homem pelo homem, a paz, o fim da mortalidade infantil.

e) Por um complexo de inferioridade. O namorada da irmã de uma amiga minha era nazi. Ela explicava que ele tinhas profundos complexos, por ser desempregado, rejeitado por mulheres, por não saber expressar-se. A maneira de ele mascarar as suas fraquezas era justamente vê-las projectadas no outro e combatê-las. O nazi ataca os mais fracos: vagabundos, minorias étnicas, toxicodependentes; como que atacando a sua própria fraqueza, como que a sua maior raiva fosse não conseguir ser mais forte. Conheci um patrão que a coisa que mais o irritava era os seus subordinados não chegarem a horas. Era a única coisa que o fazia ofender os seus empregados. Curiosamente ele próprio chegava muitas vezes tardíssimo. Um amigo dele, um dia, tranquilizou os seus subordinados: «Não liguem ao que ele diz» - sorriu. «Ele é assim porque ele porque bebe e deita-se tarde tem uma frustração de não conseguir mudar e de não cumprir horários. Quando ele vê isso nos outros, lembra-se da sua impotência de estar constantemente a prometer a ele próprio mudar e nunca conseguir. É contra ele próprio que ele grita.»


Angel
Com que posso prender-te?

Ofereço-te ruas estreitas, poentes desesperados, a lua dos subúrbios miseráveis.

Ofereço-te a amargura de um homem que olhou durante muito e muito tempo para a lua solitária.

Ofereço-te os meus antepassados, os meus mortos, os fantasmas que
os vivos honraram no mármore: o pai do meu pai morto na
fronteira de Buenos Aires com duas balas nos pulmões,
barbudo e morto, embrulhado pelos seus soldados numa pele
de vaca; o avô da minha mãe - com vinte e quatro anos -
encabeçando uma carga de trezentos homens no Peru, agora
fantasmas em cavalos desaparecidos.

Ofereço-te quaisquer visões que os meus livros possam conter,
qualquer bravura ou humor da minha vida.
Ofereço-te a lealdade de um homem que nunca foi leal.
Ofereço-te esse núcleo de mim mesmo que guardei fosse como fosse
- o coração central que não lida com palavras, não negoceia
com sonhos e é intocável pelo tempo, pela alegria, pelas
adversidades.
Ofereço-te a memória de uma rosa amarela vista ao pôr do Sol, anos antes de teres nascido.
Ofereço-te explicações de ti, teorias sobre ti, novidades autênticas e
surpreendentes a teu respeito.
Posso dar-te a minha solidão, a minha obscuridade, a fome do meu
coração; estou a tentar subornar-te com a incerteza, com o perigo, com a derrota.

Jorge Luis Borges

Frases que se ouvem no Lux

- Eu sou muito bom de mãos e de língua... Levava-te ao céu!

domingo, novembro 11, 2007

Lambe-botismo e humilhações enxovalhantes...

Quando era miúdo, vi uma série ou novela muito boa em que fui marcado por um episódio.

Cenário: Recepção de um hotel.

O patrão do hotel chega à recepção e diz que o empregado vai ser despedido.

O empregado chora, chora, chora.

- Tenho mulher e filhos para criar, por favor, não faça isso! Eu sempre fui um bom empregado. Eu prometo fazer o que o senhor quiser.

O patrão continua a desancá-lo sem dó nem piedade.

- Perdoa patrão, perdoa...

- Ou te atinas, ou mais uma desfeita e vais para a rua!!!

- Obrigado, patrão, obrigado. E começa a chorar a abraçar o patrão.


Quando o patrão se vai embora, este empregado (o chefe de recepção) vira-se para o negro ao lado e diz:

- E tu seu estúpido, estás à espera de quê para fazer os seus telefonemas?


Pergunto-me se esta história não é a melhor metáfora da ficção sobre os portugueses: bajuladores e servis com os de cima; autoritários e impiedosos com os de baixo.

O carácter de uma pessoa mede-se:

a) pelo dinheiro;
b) pelo que seria capaz de, no limite, infligir aos seus inimigos;
c) pela forma como trata os seus subordinados.


Angel

A minha inocência

Num ano, quatro amigas minhas foram para Erasmus. Todas namoravam. Foram e voltaram passado um ano e todas regressaram para os seus namorados.

Uma delas, ao regressar, não aguentou muito o namoro.

- Este ano distante dele deixou esmorecer a cena, Angel. E ainda para mais tive lá um namoro.

- Tiveste um namorado lá?

- Todas tivemos, mas temos um pacto.


Angel

A beleza dos amigos

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!


Vinicius

sábado, novembro 10, 2007

Maya

Quando andamos na rua vemos estranhos. Mas eles são pessoas dotadas de individualidade como nós. Têm amigos como nós. Amam e são amados.

A maneira como os vemos é apenas uma cortina de ilusão.

Vida Real e Literatura

Nunca ninguém na Literatura pôs as personagens a falar como na vida real. Hoje observei pessoas a falar e ninguém fala com lógica, ninguém deixa de tropeçar nas palavras, todos zigeuzagueiam entre as ideias.

Na Literatura:

- Não digas isso. Eu vou mexer-me e tudo há-de correr bem; podeis crer.

Na vida real.

- Cala-te pá! Tou a tentar mexer-me, meu... Isto não há-de ser nada.


E aqui assim deixo uma dica para quem queira ser um grande escritor. Aqui fica um selo de originalidade a trilhar, só ao alcance dos grandes escritores.

Dir-me-ão: Mas o Hemingway já fez isso. Profundo engano. Quem ler em volta, rir-se-á de qualquer aderência daquilo a um discurso real.

Angel

sexta-feira, novembro 09, 2007

Surpreendido por ingenuidade?

Ouvi na rádio que 90% das mulheres fazem sexo oral e 50% sexo anal.

Li na Sábado que 50% já praticou sexo com estranhos, em one-night-stands.

Não serão exagerados estes números?


Angel

Ler é interpretrar

Diz o Lobo Antunes que cada livro, à semelhança de ter o nome do autor, deveria também ter o nome do leitor. Porque cada leitor tem um livro diferente dentro da cabeça. Cada leitor constrói o seu livro.

Umas das coisas mais fascinantes para mim quando era miúdo era reunir-me com putos à volta de letras musicais e poemas para cada um dar a sua interpretação. Cada pessoa acrescenta sempre algo da sua visão.

Anjo-os-bons-livros-são-infinitos

Na minha geração não me amputaram metade do cérebro - VPV

Evitando juízos de valor sobre a geração que nasceu na Internet, no MP3 e nas consolas, deixo apenas uma questão:

- Por é que as professoras se queixam mais do que nunca da deseducação e da violência nas escolas?

Não, não só a dos bairros sociais...

Angel

Euros e escudos

Devia haver um estudo sobre os preços antes e depois dos euros. Os preço aumentaram brutalmente.

Eu não me lembro de pagar 1.200 escudos por um lanchinho e não estranhar. Hoje pago 6€ por um lanche banal com facilidade.

Angel

A melhor canção de sempre - The World is Not Enough /Garbage

Eu sei como magoar
E eu sei como curar...
Eu sei o que mostrar
e o que esconder...
Eu sei quando devo falar
E sei quando devo tocar...


O mundo não é suficiente
Mas é um perfeito lugar para se começar
E se tu fores suficientemente forte
Juntos poderemos levar o mundo à frente

quinta-feira, novembro 08, 2007

Conversas com um católico

Eu: Deus não pode ser omnisciente e dar-nos o livre-arbítrio. Se ele sabe o que eu vou fazer amanhã e depois e depois e depois até ao fim da vida, onde está a minha liberdade?

Ele: Ele deixa-te escolher mas ele já sabe o que vais escolher.


Outra conversa:


Eu: Se a Igreja Católica não professa a reencarnação, como se explica tão grande desigualdade entre as pessoas? Que una nasçam na miséria? Que nasçam deficientes? Não sei o que me choca mais: se o Deus passivo do catolicismo se a punição hindu. Isto é: o sofrimento da fome, de pessoas que nascem deficientes para morrer daí a meses ou anos, é aleatório para os católicos ao passo que para os hindus, é o preço que pagamos pelo Mal que infligimos a outros, é a sombra do karma de outras vidas.


Ele: O que importa é o desenvolvimento espiritual. Tu podes sempre evoluir espiritualmente e ter uma relação com Deus que te traz felicidade aqui e na outra vida.

Eu: Crianças que morrem com meses e anos de vida têm possibilidade de desenvolvimento espiritual?

Ele: Todos temos.

Outra conversa

- A pergunta é ingénua e banal, mas repara que é também irrespondível. Como é que há tanta miséria, tanto sofrimento, e Deus... ama-nos.

- O mal é criado pelo Homem.

- Que é criado por Deus.

- Sim, mas Deus deu-lhe a opção e todos os nossos problemas são criados pelo Homem.

- Mas há pessoas que sofrem pelo mal das escolhas de outros.

- Pois há. Mas Deus deu-nos essa liberdade...

- E Deus não poderia prever o que aconteceria?

- Pois, poderia.

- Concordas que ele abusou então da liberdade que nos concedeu?

- Concordo.


Angel-eu-acredito-num-Deus-mas-não-lhe-dou-o-rosto-de-uma religião

Autocarros

Numa paragem de autocarro, leio:

«A multa pode ir até 150 vezes o preço do bilhete mínimo.»

A conta deve ser feita para dar um valor esperado zero ao infractor, porque de facto em 150 viagens encontro um revisor.


Mas esta semana vi algo de que não gostei. Três jovens são apanhados sem bilhete e o revisor diz:

«Sabem que não podem andar sem bilhete? Sabem não sabem? Vá vão lá depressa comprar o bilhete.»

Tolerância? condescendência? Bom coração.

Não, incumprimento da lei. As leis que não são aplicadas e cumpridas faz-me lembrar a hipocrisia do aborto. Por isso (felizmente) a lei mudou. Porque a lei mandava-as para a cadeia, mas depois não se aplicava. «É proibido? É? Mas pode-se fazer? Pode. Mas é proibido, só que pode-se fazer.»

Para termos serviços públicos de qualidade, temos de os pagar.

Angel

Frases que ecoam nos nossos ouvidos IV

O velho ancião disse-me:

- A vida melhorou. Hoje temos mais poder de compra, mais liberdade, temos mais esperança de vida, menos analfabetos... Mas há aqui qualquer coisa que piorou. O homem está pior. Não quer saber do seu semelhante. Perdeu o Respeito. Está deseducado, selvático.

Angel

O livreiro que se julga comediante

A rapariga olhava para as prateleiras dos livros como se procurasse algo. O livreiro aproximou-se e simpaticamente perguntou:

- Está à procura de algo livro?

- Queria ler qualquer coisa profunda... (as coisas que as miúdas hoje dizem são fantásticas. Ainda bem que é fashion ser profundo)

O livreiro saiu e trouxe um livro.

Quando o passou para a mão da rapariga, riu-se a bandeiras despregadas.

A miúda pegou no livro, olhou, e não percebeu...

Vinte Mil Léguas Submarinas

Angel-dando-rações-do-real

Diálogos que ecoam nos nossos ouvidos

- Já tou com ele há 8 anos. Não me preenche e tou bué desgastada, mas tar agora a conhecer uma pessoa de novo é um ganda pincel. Olá, eu sou a... Tu és o? Não tenho paciência. Já tou muito habituada a viver com ele, percebes? Ir agora para a aventura de conhecer uma pessoa e passar por todo o processo outra vez...

Angel

Diálogos que ecoam nos nossos ouvidos

- Já tou com ele há 8 anos. Não me preenche e to bué desgastada, mas tar a conhecer agora uma pessoa de novo é um grande pincel. Olá, eu sou a... Tu és o? Não tenho paciência. Já tou muito habituada a viver com ele, percebes? Ir agora para a aventura de conhecer uma pessoa e passar por todo o processo outra vez...

Angel

quarta-feira, novembro 07, 2007

Ninguém se assume materialista

O politicamente correcto nem sempre é mau. Não sermos racistas, não sermos machistas, é algo positivo.

Mas há pessoas que admitem que são racistas. Há pessoas que admitem que são machistas.

Há uma coisa que nunca ninguém admite: ser materialista.

Aí, são sempre os outros. Como é possível todos se queixarem do materialismo da sociedade se ninguém nela o é.

Já ouvi pessoas admitirem:

- Eh pá eu sou um bocado racista.

- Eh pá eu não gosto de ciganos.

- Eu não curto monhés.

Mas nunca ouvi:

- O dinheiro é para mim fundamental;

ou:

- Eu ligo muito ao material.

As frases são sempre sempre justamente ao contrário:

- Eu sinceramente não há dinheiro que compre uma amizade.

- Eu nunca fiz as coisas em função do dinheiro.

- Angel, eu nunca me dou com as pessoas pelo dinheiro que têm.

- Não ligo nada às importâncias.


Angel

Memória

Escreveu Kundera que a história é uma luta entre a memória e o esquecimento. Em Portugal não existe memória. Se existe como é possível que os dois homens (Portas e Santana) expulsos por Sampaio, expulsos pelos portugueses, regressem (e juntos) a liderar a Oposição passado tão pouco tempo de terem saído chamuscados na opinião pública?

Dizia o José António Saraiva num dos seus editoriais que estes senhores nunca, por nunca, poderiam voltar juntos. Pois bem, estão ambos agora a liderar as suas respectivas bancadas parlamentares... Ontem até se podia ler na imprensa e ouvir na televisão a tremenda efervescência que havia em torno do regresso de Santana ao Parlamento para ser o rosto da Oposição a Sócrates. A nossa indignação cai tão rapidamente nos baús do olvido. Isto realmente...

Eu ainda tenho bem presentes, entre muitas outras coisas, duas coisas de Santana. A primeira foi a carta que ele vergonhosamente escreveu. Uma carta de auto-propaganda política mascarada de carta solene de primeiro-ministro (com o dinheiro de quem?). Eu e muitos recebemos essa carta em casa. Dizia que o tinha tramado e dirigia-se ao leitor como se o conhecesse há muito e que fosse votar (nele, naturalmente). «Provavelmente afastou-se da política pelas mesmas razões do que eu.»

Outro acto ignominioso ocorreu aquando da campanha eleitoral na qual Sócrates veio a ser o nosso primeiro. Disse Santana num comício de mulheres (na Figueira, creio):

- Eu sempre gostei de colos femininos ao contrário de outros candidatos que preferem outros colos.

É esta a merda que nos dirige.

Angel

Sétima Arte

- Todos nós já nos sentimos atraídos por jovens... só que controlamo-nos!


Diário de um Escândalo (excelente filme...)

Frases não-feitas

A força de uma pessoa mede-se pela capacidade de a sua personalidade permanecer incólume face a um ambiente exterior maioritariamente adverso.

Angel

A força de uma pessoa vem da sua percepção do quanto é amado.

Um sociólogo escreveu isto.

Frases que ecoam nos meus ouvidos IV

- Eu já não preciso de conhecer mais ninguém. Bastam-me as pessoas que já conheci. Não quero mais ninguém.

Nicks do MSN

A mediocridade refugia-se na padronização.

Eu não sou diferente... os outros é que são muito iguais!!!

terça-feira, novembro 06, 2007

The Kiss

beija-me beija-me beija-me
a tua língua é como veneno

tão inchada que enche a minha boca



The Cure

«aromática e normal»

Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.


Cesário Verde

Ceteris Paribus

Camilo Lourenço, ou o mais primário e acéfalo comentador dos media (sim, abaixo de Luís Delgado), veio dizer, do alto da sua incultura, que os rankings das escolas reflectem que os melhores alunos vão para as melhores escolas. Lei da oferta e da procura. Os artigos dele são apenas aplicações práticas de três ou quatro leis de pacotilha que eu também aprendi em Economia: os preços sobem quando a procura aumenta, os preços baixam quando a procura diminui, os mercados equilibram e toda a intervenção do Estado é má.

Não tem mais conhecimento sobre nada. Não entende que há outras mundividências, outras leis na vida, outros móbeis para além do dinheiro.

Não entende por isso que os papás com dinheiro podem pôr os filhos nas melhores escolas e que os filhos dos pobres, por melhores que sejam, não podem.

Não entende também que os filhos bem podem ter explicações, podem ter os livros da escola e outros complementares, podem ter até os papás a explicar-lhes as matérias.

Não entende também que os mais ricos podem só dedicar-se à escola, ao contrário de outros que têm de ir para a pizza hut ou o mc donald´s.

Diz ele: «desvalorizar as escolas de topo por não terem maus alunos, é pôr as coisas ao contrário. Estas escolas não têm maus alunos (???) porque atraem os melhores. E atraem os melhores devido ao nível de ensino que ministram (“quest for brains”).»

Aconselho o sr. camilo lourenço a ler o artigo de André Freire que diz que lá fora se fazem rankings das escolas, mas não apenas pelas notas. Usam-se as notas, mas deflacionam-se tendo em conta a condição social do aluno. É um índice compósito, sr. camilo. De Estatística ao menos deve perceber.

Angel

No autocarro

Uma mulher com uma cicatriz na cara gritou:

- Você não pára de olhar para a minha cara! Eu sei que é horrível, mas não gosto de me sentir discriminada!

O homem desarmou-a com uma voz pausada e rouca:

- Desculpe. Estava a olhar para si porque tem um rosto muito bonito. Desculpe.

«A grande pandemia nacional»

Sessenta e seis mil mortos em 30 anos nas estradas portuguesas nos últimos 30
anos
Sessenta e seis mil pessoas morreram nas estradas portuguesas nos últimos 30
anos, o equivalente a uma guerra ou um terramoto, segundo dados da
Direcção-Geral de Viação.

SIC On-Line

A necessidade do sonho

Eu queria ser...

Só me faltava era...

Quem me dera...

Ai o que eu dava para...


Esses desejos, se concretizados, far-te-iam infeliz. Eles têm de permanecer irrealizáveis e distantes, para que tu vivas acompanhado do sonho.

Angel

Anjo Mau

Os teus olhos são cor de pólvora, o teu cabelo é o rastilho
O teu modo de andar é uma forma eficaz de atrair sarilho
A tua silhueta é um mistério da criação
E sobretudo tens cara de anjo mau

Cara de anjo mau, tu deitas tudo a perder
Basta um olhar teu e o chão começa a ceder
Cara de anjo mau, contigo é facil cair
Quem te ensinou a ser sempre a última a rir?

Que posso eu fazer ao ver-te acenar a ferida universal?
Que posso eu desejar ao avistar tão delicioso mar?
Que posso eu parecer quando me sinto fora de mim?
Que posso eu tentar senão ir até ao fim?

Jorge Palma

Duas regras

Não devemos estereotipar as pessoas. Todas elas têm essência, vida e personalidade, para lá do estereotipo.

Devemos ter individualidade sem medo da rejeição de uma qualquer pertença colectiva.

(Pessoas há pertencendo a uma determinada tribo, anulam a sua individualidade.)

Angel-destereotipazindo

«Faz de vez em quando um acto de bondade aleatória.»

Ofereci-me para ajudar a estudar um amigo e ele (sim, um amigo) disse:

- Mas tu estás interessado em mim?

Insistiu:

- Não és gay, pois não?

Perante o meu silêncio, disse:

- Eh pá não leves a mal, mas hoje em dia ninguém ajuda ninguém sem uma razão...

Há muita gente a pensar assim.

Angel

segunda-feira, novembro 05, 2007

Privacidade

Pacheco Pereira escreveu - e bem - que as gerações de hoje não dão valor à privacidade. Nasceram na videovigilância, nos telemóveis terceira geração, no hi5, nas revistas que mostram as cusquices todas (lá fora, ainda pior do que cá...).

Uma sociedade que não preze a privacidade é uma sociedade profundamente totalitária. Veja-se o 1984.

Perguntou-me como os constantes filhos da puta que fotografam e/ou filmas namoradas, ou ex-namoradas, ou o que quer que seja, e as expõem aos milhares de cibernautas não estão presos.

Não era difícil apanhá-los. Pelos ip´s apanhavam-nos. Tenho um amigo que processou pessoas que o insultaram no MIRC e ganhou indemnizações. É possível.

O senso comum não condena estas pessoas. Perguntem a alguém e dir-vos-ão que roubar é muito pior. Pois eu nunca conheci ninguém que se tenha suicidado por ter sido roubado, e conheço sei de quem se suicidou por se ver exposta na Internet por um pulha.

Angel

Frases que ecoam nos nossos ouvidos III

Uma amiga minha, que esteve casada muitos anos, disse-me:

- Podes passar a vida inteira ao lado de uma pessoa sem a conheceres...


Angel

Irracionalidades

Ontem, um amigo, disse-me apontando para a sua sande:

- Queres uma bocado?

Olhei para a sande.

- Obrigado, mas tem tomate.

- Tou a ver que és esquisito.

Não lhe disse o resto: aranhas, osgas, maus cheiros, esferovite, giz, ratos, baratas, gafanhotos, borboletas nocturnas...

E, se pensar nisso, mais dez aparecerão facilmente.

Angel

domingo, novembro 04, 2007

Jesus, já cansado de tanto pedido

dorme sonhando com outra humanidade


Carlos Drummond de Andrade

Cultura

Homem culto é aquele que sabe que por mais que saiba a dimensão do que desconhece é sempre superior ao que conhece.


Agostinho da Silva
O espaço tem o volume da imaginação
Além do nosso horizonte existe outra dimensão
O espaço foi construído sem principio nem fim
Meu amor, tu cabes dentro de mim


Jorge Palma



sábado, novembro 03, 2007

Arte

«Toda a arte é absolutamente inútil.»

Oscar Wilde

Ler caras é melhor do que ler a Caras

Diz o Gonçalo M. Tavares que olha para as caras das pessoas e:

«Vejo antes de falar sem têm profundidade ou se são coladas à superfície. Como a leitura traz reflexões e algumas profundas, eu olho para as caras das pessoas na rua e digo: "Esta é lida; esta não é.»

A e não A

Diz o Lobo Antunes que é e não é parte da sua família. Sente-se parte integrante dela e ao mesmo tempo nada o liga a ela. Sente-se ausente deles, não tem nada que ver com eles por vezes, mas por outro lado ficaria em pânico só de os imaginar doentes. Estranho bicho este que sou, estranho bicho este que somos tod@s :)

O meu lado negro

A bondade não é sexy.

Angel

sexta-feira, novembro 02, 2007

«Só há um amor capaz de aguentar tudo e ter a duração de uma vida: é o amor próprio.»

Molière

Contra os anódinos, marchar, marchar!

Perguntaram ao Raul Solnado se tinha inimigos:

- Claro! Mal daquele nunca conseguiu gerar inimigos... É porque passou ao lado da vida.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Vidas Triplas

Uma vez, uma pessoa com quem em tempos saí disse-me:

- Tou a curtir bué a minha vida agora. Tenhos três grupos para sair e nenhuma pessoa de um grupo conhece a de outro, nem sabe que existem. É óptimo, estou a viver três vidas completamente à parte, completamente diferentes.

Haverá pessoas assim?

Será que se vestem de maneira diferente? Será que tem identidades diferentes? Será que usam o mesmo nome? Têm profissões diferentes?

Ou será que sou eu é que conheço gente estranha?

Angel

Walt Whitman - Folhas de Erva


Já li este livro vezes sem conta. É maior do que a vida.

Este livro é único:

a) Pela transformação de longas frases de linguagem coloquial que articuladamente brotam poesia;

b) Quando era novo, Whitam queria, como um pintor a pintar uma tela com todas as pessoas e lugares do universo, fazer isso para a poesia. Como diz Borges: o mais incrível é que o conseguiu!!!

c) a celebração da Vida. É difícil ser positivo sem ser light. Whitman celebra a epopeia da Vida, do Universo, do humano...

d) Pelo facto de Folhas de Erva ser o primeiro e fundador Tratado de Democracia. Nele todos são iguais: pretos, índios, gays, mulheres, velhos, incultos, criminosos, pobres.


Cada vez que o leio, abro janelas que soltam, como dizia Neruda, odores a mar e menta, que se derramam sobre a minha alma.

Faço minhas as palavras de Álvaro Campos:

Atravesso os teus versos como uma multidão aos encontrões a mim.

Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos.

Angel

Revoltante

Os gelados Magnum têm uma frase praticamente idêntica a uma de Oscar Wilde, entre aspas, como se fosse de uma modelo qualquer. Haja respeito, caramba.

Diálogos

- Eu e a minha namorada temos uma partilha total. Falamos de tudo. Temos uma relação de verdade.

- Tu sabes o que ela pensa quando se está a mastubar?

- Pois... não...

Livro dos Conselhos

Se tens dúvidas que amas, é porque não amas.

Angel