quarta-feira, outubro 31, 2007

Livros que tenho cá dentro


Reduto quase final


O autor de O que diz Molero escreveu um dos livros mais bem-escritos em língua portuguesa. Um livro de... estórias e devaneios... fragmentário, de prosa poética, de alguém que viveu muito a vida e as palavras. Um livro delicioso como um néctar e uma refeição sublimes.

Aqui fica um excerto:

«Aceite o leitor: há privilégios habitualmente pequenos e duráveis, no reino dos olhos quietos e das horas de espanto, da música, da prata que mora nas salinas, ou que cintila em mares surpreendentes, nas árvores outonais, com folhas voam na direcção do Inverno, ficando naturalmente pelo caminho, o frio e a lareira dos antepassados, parados numa gravura de parede, os dedos nos cabelos, a palavra no ouvido, a água pesada da mágoa do mundo, depois a dos teus olhos - inocente.»

Angel



Assassino!

Estava no autocarro, passava da meia-noite. O autocarro parou num bairro social, várias pessoas saíram e uma senhora obesa tropeçou ao sair da porta. Várias pessoas saíram para ajudar a senhora a levantar-se.

Quando se viu em pé, começou a barafustar:

- Assassino, assassino! Arrancou com porta aberta!

O bairro veio à rua e juntou-se ao autocarro.

- Assassino! Assassino! - batendo nos vidros.

Chamaram a polícia e deram queixa do motorista. Tentativa de homicídio!

Dei, eu e outras pessoas no bus, o nome e número ao motorista. Passadas umas seis semanas, hoje ligou-me. Vou ser sua testemunha...

Angel
«Por mais que a inteligência e a capacidade dos homens possam diferir, os seus estômagos são essencialmente os mesmos.»

F. Scott Fitzgerald defendendo o Socialismo

O inferno são os outros

No livre A arte da paciência, o Dalai-Lama diz-nos que a nossa paciência só é testada quando estamos perante inimigos. Logo, eles constituem uma oportunidade de ouro - insubstituível - para o exercício da paciência.

Conta a história de um eremita que é interpelado por um vagabundo.

- O que fazes aqui?

- Treino a paciência.

- O quê?

- Estou a desenvolver a paciência.

- Estás a quê?

- Eh pá, tou a treinar a paciência! Deixa-me em paz!

- Vinha só ver a tua evolução... Ainda te falta muito! - disse o monge mascarado de vagabundo.

Só com os outros desenvolvemos qualidades humanas.

Em relação ao ódio e ao inimigo, das duas duas:

- Ou entendemos que ele não é 24 horas por dia mau e por isso não o podemos ver de forma cega e monolítica ou...

- Se o vemos como empedernidamente então... ver metáfora do fogo em post anterior.

Angel-e-o-paraíso-também

terça-feira, outubro 30, 2007

Questão

Num jantar caseiro, a conversa prolongou-se horas e horas e horas pela noite dentro:

- Se uma pessoa não quiser trabalhar, o Estado tem de lhe garantir os mínimos de habitação, saúde e vestuário?

Angel

O Bem e o Mal

Falo com muitas pessoas que desconhecem estas duas moedas. Para justificar, apresentam casos éticos duvidosos, em que escolhendo A há imensos custos e benefícios, e em que escolhendo não-A há imensos custos e benefícios.

Recusar a existência destas moedas, significa não valorar mais uma pessoa que vê uma idosa cega na rua e a acompanha até casa do que um sujeito perante a mesma a espanque até à morte.

O mundo é dicotómico e para existir beleza tem de existir fealdade, para existir felicidade tem de existir sofrimento. Daí que não se possa pôr em causa a existência de Deus pela existência do Mal. É a outra face que torna o Bem possível. Tudo, para existir, tem de ter inextrincavelmente o seu contrário...

Curioso que a Igreja Católica tenha dois axiomas contraditórios. Deus dá-nos o livre-arbítrio, mas é omnisciente. Se ele sabe o que vou escolher para o resto da vida, que raio de liberdade tenho eu? Nenhuma, pois claro.

Há questões sem resposta.

Haverá pessoas sem remorsos? Pessoas que nunca sentem a sombra dos seus actos hediondos praticados?

Haverá pessoas genuinamente más? É curioso que as pessoas que dizem que os assassinos, os pedófilos ou violadores não têm cura; são justamente aquelas que mais os desculpabilizam. Se eles não têm possibilidade de escolha, como poderei eu condená-los? Diz o Dalai-Lama que seria estultícia eu revoltar-me com o fogo por ele queimar. É a sua natureza...

Angel-fire-and-clouds



Angel

I have some books inside




O Grande Gatsby
de Francis Scott Fitzgerald é um dos maiores romances escritos no século XX. Presença incontornável em qualquer lista académica dos melhores livros de ficção escritos no século passado; livro referenciado por Harold Bloom no seu Cânone Ocidental; a obra-prima de Fitzgerald recolhe o consenso dos escritores e é descrita por António Lobo Antunes como “o romance perfeito”.
Escrito pela prosa suculenta e perfumada de Francis Scott Fitzgerald (autor de outras obras-primas como Terna é a noite e o inacabado O último magnate), o livro tem belíssimas passagens poéticas – dir-se-ia que poesia e a prosa se fundem nesta obra. Descrevendo, por exemplo, duas mulheres sentadas num dia quente e tranquilo de Verão, o autor diz que “duas mulheres pareciam boiar como se estivessem num balão ancorado”.
O livro transporta-nos para os loucos anos vinte norte-americanos através das festas sumptuosas na mansão de Gatsby em que as pessoas dançavam e bebiam velozmente pela noite dentro.
O anelo de Gatsby é recapturar a rapariga dos seus sonhos: Daisy. Cinco anos atrás eles foram namorados, mas Daisy não quis casar com Gatsby pela sua falta de dinheiro. Enquanto Gatsby vai para a guerra, Daisy casa com o rico Tom Buchanan. Gatsby acumula riqueza de forma ilícita e compra uma casa faustosa perto de Daisy na esperança de que ela apareça numa das suas festas… Da casa de Gatsby vê-se uma luz verde cintilando no outro extremo da doca – luz que metaforicamente representa a esperança indissociável do sonho.
Quando somos jovens, dificilmente acreditamos que o livro acaba mal. Quando somos mais velhos, dificilmente acreditamos que o livro acaba bem.
O romance é trágico, descrevendo num tom de beleza pungente o modo cruel como o mundo quebra os sonhadores…


Angel

P.S. Para os cinematográficos não bibliófilos, aconselho em filme também, mas só com Robert Redford a fazer do magnânimo Gatsby.

Frases que ecoam nos ouvidos II

Uma vez uma amiga minha disse:

- Eu estou feliz com o meu trabalho e com a minha vida cá em Portugal. Mas há uma pergunta que ocasionalmente me surge ao acordar: e se de repente deixasses tudo e todas as pessoas que tens, e partisses para uma nova vida?
«É sinal de inteligência de primeira água ter duas ideias contraditórias e manter a capacidade de funcionamento.»

«Na noite mais escura da alma, são sempre três horas da manhã.»

F. Scott Fitzgerald, A Fenda Aberta

O valor da independência de espírito

Fui cobrir uma conferência sobre eutanásia e pena de morte. Um padre opôs-se a ambas, discorrendo sobre o valor da vida.

No final, peguei um texto do Papa e li a defesa da pena de morte. O padre ficou branco, pediu-me o livro, leu durante minutos as páginas em causa sem nada dizer, o silêncio expectante e depois só conseguiu dizer inanidades. Baixinho sussurou-me: «bom, de facto, eu não conhecia este texto».

Tive pena dele. Ele estava no papel de ser contra a pena de morte e de ver o seu chefe máximo defendê-la. Naturalmente que o dilema o paralisou.

É o que acontece a muita gente no PCP.

Estarmos atrelados a uma instituição sem poder de a criticar faz com que tenhamos de calar, engolir e por vezes sermos ridículos.

Angel

A pior doença

Nada é tão obsessivo como escrever. Num livro de Camus, um escritor todos os dias reescreve o primeiro parágrafo e nunca avança no livro. É uma bela metáfora da escrita. O perfeccionismo doentio e a espiral interminável. A escrita absorve tudo. E torna tudo irrelevante.

Frases que ecoam nos nossos ouvidos

Uma vez um amigo meu, com namorada, estava a comentar outras raparigas.

- Mas tu não tens namorada?

- Não é por se estar de dieta que não se pode olhar para o menu...

segunda-feira, outubro 29, 2007

Ao meu amigo Pedro Gonçalves

Quando refiro as «crianças fofinhas», refiro a demagogia que é usada. A mim já me perguntaram, de forma simplista e boçal:

- Mas tu estás do lado dos pedófilos contra as crianças?

É este tipo de simplismo que me mete nojo.


O que está em causa não é crianças vs. pedófilos; o que está em causa é o Estado de Direito Democrático de um lado, e a ausência dele, por outro. Não havia penas eternas em Portugal. Agora há. E isto é um precedente perigosíssimo.

A partir de agora, há uma sanção eterna. Uma pessoa comete um crime e o Estado até ao fim da vida já não o considera possível de reabilitação. Nunca mais. O Estado passa a reconhecer a falência da prisão enquanto elemento regenerador. E isto vai muito mais longe ainda... Aqui estaremos para lembrar.

Nos EUA, as leis de Morgan obrigam a que, quando o pedófilo sai da cadeira, toda a comunidade para onde ele for morar saiba que há ali um pedófilo e tenham acesso à sua morada e fotografia. A sua vida está destruída.

Está estigmatizado, baixa o olhar quando passa por toda a gente, não arranja trabalho, e se for apedrejado ou assassinado, isso não despertará a comoção das almas sensíveis. Hoje a pedofilia é o pior dos crimes. A lei não pode ir atrás das modas. E neste caso foi. Claramente. Ainda ninguém protestou sequer protestou e isto foi apenas uma notícia de rodapé...

É muito muito muito perigoso assinalar um preso quando ele, cumprida a sua pena, regressa para a sociedade. Isto começa com os pedófilos assinalados no mercado de trabalho, mas vai mais longe até eles terem uma cruz na testa... E, claro está, serem castrados quimicamente.

A sociedade do futuro, com o desenvolvimento tecnológico galopante e as securitárias crescentes, poderá ser quase decalcada do Relatório Minoritário... E se não houver ninguém para lutar contra?

Esta lei abriu a caixa de Pandora...

Angel

Staring Girl traz à discussão:

Soube disto através de um mail com pedido para assinar uma petição online, comecei por não acreditar (embora o tema esteja em blogs de todo o mundo), procurei um jornal da Costa Rica e parece que é verdade.
Um artista costa-riquenho expôs um cão abandonado e deixou-o morrer em plena exposição, arte para alguns...
Apesar de tudo foi o artista escolhido para representar a Costa Rica numa bienal de arte da America Central (a petição é para que ele não seja aceite na bienal e para que não receba um prémio associado ao evento).
De novo, a bela da questão, existem limites para a arte? (e o que é arte?) Neste caso, não se trata apenas de um criador mas também de quem lhe deu espaço de exibição, de quem visitou a exposição (e eventualmente aceitou aquela "instalação") e até do juri (comité ou lá que seja) que o seleccionou para a dita bienal.

alguns links

http://www.nacion.com/ln_ee/2007/octubre/04/aldea1263590.html

http://sic.sapo.pt/online/noticias/vida/20071025+Cao+morre+de+fome+em+exposicao.htm
Estamos todos sitiados dentro de nós mesmos, por nós mesmo.

Angel

domingo, outubro 28, 2007

Da Imprensa

WOODY ALLEN EM CENA REAL


Ferreira Fernandes
jornalista
ferreira.fernandes@dn.pt
Sergi Xavier, de 21 anos, pontapeou uma equatoriana de 16 anos no metropolitano
de Barcelona. Na carruagem havia só dois passageiros, separados. Dirigiu- -se ao
mais frágil, uma rapariga, gritando-lhe para "voltar para o seu país" e deu-lhe
um pontapé na cabeça. O outro passageiro não reagiu. Dias depois, Xavier foi
encontrado. A família desculpou-o, ele seria rapaz pacato, "nem racista nem
nada". Ele disse que estava "muito bêbado". E disse também que "ela não merecia
o que lhe fiz".

Cenas da cidade. No caso, de Barcelona, mas da cidade, qualquer em que vivamos.
E com gente igual à que nos rodeia. Ali, naquela carruagem de metro, havia três
pessoas. É interessante determo-nos nelas, elas ensinam-nos sobre a cidade e os
cidadãos. Minto, não todas: a rapariga equatoriana não tem interesse neste
exercício. As coisas aconteceram-lhe por acaso. Só teve azar. Que lição tirar de
alguém atingido por um tijolo que cai de um prédio? Até a besta do Xavier disse:
"Ela não merecia o que lhe fiz." A equatoriana podia ser um banco de
metropolitano, daqueles que Xavieres mais suaves rasgam com o canivete. Que
aprender com um banco de metropolitano?

O Sergi Xavier já é mais interessante. De alguém que é tão afirmativo, que até
faz a biqueira do pé exprimir-se, esperava-se mais defesa das suas convicções.
Sim, fiz isso porque acho que os estrangeiros - ou as raparigas sentadas no
metro - estão a pedi-las. Mas não, ele próprio, com o pai e a avó como fiadores,
garante-se pacífico. Na verdade, é mentiroso. Disse que estava bêbado. Ora o
próprio dos bêbados é fazer o que em condições normais não ousariam. Se o Xavier
tivesse tentado agredir um campeão olímpico de judo, podia dizer que estava
bêbado.

Xavier insultou e agrediu a garota - facto. Outro facto: quando apanhado, tentou
escondeu a brutalidade. Isso absolve. Não a ele. A ele, só agrava: além de
bruto, é cobarde. A cidade - e já disse que não falo só de Barcelona - pode
suspirar de alívio: por enquanto, os Xavieres só atacam pela calada.

O outro personagem, o passageiro que ficou quietinho, fingindo não ver, é também
digno de algumas linhas. Aliás, já se lhe fez um filme. Em Bananas, de Woody
Allen, este estava no metro de Nova Iorque, só com uma velhinha por vizinha.
Entra um grupo de mânfios (entre eles, no seu primeiro papel de cinema,
Sylvester Stalone). Violam a velhinha. Entretanto, Woody Allen põe-se a ler o
jornal e faz prodígios para não ver o que se passa à volta...

Como já disse, a rapariga não me interessa para nada. Ao Xavier e, sobretudo, ao
passageiro distraído, eu dava-lhes o máximo de publicidade.

Entrevistas na TV, idas a escolas. É dando-nos conta da merda de cão que nos
desviamos dela.|

Herberto Helder

A obra quando é boa esmaga o homem. De Herberto Helder, para lá da obra não indícios. Não dá entrevistas, não aparece no círculo literário e recusa prémios. Recusou há anos 6 mil contos do Expresso. Fará isto - digo eu - por entender que os prémios, as críticas, o protagonismo pessoal não acrescentam uma vírgula à qualidade da Obra. O não aparecer no círculo literário faz com que não tenha o devido estatuto: o melhor poeta português vivo.

Ou o poema contínuo em poesia e Os passos em Volta na prosa são obras do melhor que há na Literatura portuguesa. Só o poema Amor em Visita merece estar ao lado da Tabacaria e dos Sôbolos Rios.

Daqui a muitos anos, cintilará como Pessoa ou Camões.

Angel

sábado, outubro 27, 2007

A rapariga alta

- Angel, há uma cena que quando um homem me diz eu noto logo, regra geral, que se está a atirar a mim: «És tão alta...»

Homens que não têm amigas

Há uma categoria de homens que não tem amigas. Gajas são gajas. São uma coisa distinta dos homens. Amizade para eles só rima com homens.

A mim faz-me uma tremendamente confusão, mas há muito homens (alguns evoluídos) com este paradigma enraizado.

Topam-se pela dualidade com quem falam com homens e mulheres. Para eles não há pessoas: há homens e há gajas. A maneira como elas falam, como se posicionam, perante uns e outros, é totalmente diferente.

Evidentemente que muitos são machistas e gostam de dissecar os pormenores das mulheres com que alegadamente tiveram. À frente das mulheres, ou são cordeirinhos ou confusos.

Um destes homens que não tem amigas outro dia estava num grupo que ia ao cinema onde havia raparigas. Claro que ele perguntou logo quem namorava e quem não namorava. Na cabeça dele, seguramente que a descomprometida estaria ali à procura de pila.

A conversa decorreu normal. Ele olhava com ar de espanto.

A certa altura, numa conversa banal, sussurrou ao ouvido de um homem:

- Não tenham essas conversas de homens à frentes delas!

Outro espécimen que tem a mania que é macho, e que nunca toma um café com uma bacana sem ser "para a pinar", outro dia num contexto de raparigas, não sabia como cumprimentar uma mulher e ficou tão embaraçado que lhe fez aquele cumprimentou informal de agarrar a mão.

Espera-se que lentamente esta espécie desapareça.

Angel-somos-tod@s-pessoas
There´s no point in living
If you can´t feel fire

Garbage

sexta-feira, outubro 26, 2007

Temos de ser vigilantes... Vejamos o que aconteceu na Polónia

Sei que não tenho apoiantes nesta matéria, mas o Estado de Direito é afectado com isto.

O Ministério da Justiça decretou hoje que um pedófilo não poderá trabalhar com crianças depois de cumprida a pena de prisão. Claro que toda a gente vai concordar. As criancinhas fofinhas de um lado, e os pedófilos, os piores assassinos perversos de outro.

Mas há uma coisa grave que está aqui em causa.

Em Portugal, não há penas eternas. Não há prisão perpétua nem pena de morte. Quando a pessoa cumpre a pena, os efeitos da sanção TERMINAM.

Isto que o Ministério da Justiça fez é a primeira violação grave desde há mais de um século em Portugal. É triste, especialmente porque fomos o primeiro país a abolir a pena de morte no mundo!

Há sempre uma pergunta muito fácil de desmontar:

- E se o teu filho fosse abusado?

- E se o teu filho fosse o pedófilo? - contrapomos.

A pior forma de justiça seria a executada pelas vítimas. É isso que o Estado de Direito deve perenemente resguardar.

E outra coisa: é uma ilusão pensarmos que o aumento da moldura penal dissuade o crime. Ninguém tem presente a moldura penal no momento em que comete um crime. Alguém imagina o assassino com a faca na mão:

- Eh pá 25 anos não é muito. Vou dentro. Se fossem 30, não te matava...


Angel

Desabafo

Ai a hipocrisia...

Os fins justificam os meios?

Às vezes sim.

Um exemplo concreto da minha vida:

Quis o destino que eu entrasse numa associação de estudantes em que no ano anterior, tinham havido as maiores trafulhices. Largas dezenas de milhares de contos (vindas de onde?) entraram na associação e foi tudo surripiado até ao último tostão. Os crimes eram imensos. De telemóvel, só num mês, havia 500 contos. Não conto mais porque o processo ainda está em Segredo de Justiça.

Éramos 26 na Associação e para pôr um processo eram precisos 13+1. Durante um ano, reuni-me com advogado, tive de pedir imensos papéis, imensas burocracias para ter os papéis, extractos bancários. A malta da associação dizia que estava comigo. No final do mandato, o processo ia ser instaurado, depois de tudo compilado.

Foi aí que descobri - estúpida ingenuidade dos vintes a minha! - que a malta quando chegou a altura do aperto, se acobardou. As pessoas não têm palavra, regral geral, e, regra geral, só defendem os interesses dos outros se não prejudicar um quark do seu interesse.

Fiquei fodido como raras vezes na vida.

Marquei a reunião para assinar e só apareceram 14... Bastava um não assinar, e era tudo em vão...

E claro, lei de Murphy, 1 em 14, recusava-se a assinar.

Tinha de fazer tudo para o demover.

Como ele era o pau-mandado anódino de outro gajo que não queria o processo, tinha de o atacar por aí e desmascará-lo. Contudo, todos os meus princípios de:

- não torturar;
- não vexar publicamente;
- não insultar desrespeitosamente;
- não coagir ninguém a fazer o que não quer.

esboroaram num instante. Havia uma causa maior a servir: a Honestidade. E achei injusto andar um ano em que acabava o curso, preocupado com documentos que me eram alheios e a reunir-me até aos domingos com advogados. Enchi-me de fúria e soltei ininteruptamente:

- És um merdas. Nunca nesta associação tiveste uma palavra que não fosse o eco do Filipe. Não tens personalidade, não tens carácter, não tens espinha dorsal. Fica à vista de toda a gente que deitas um ano de trabalho fora com uma atitude de cobardolas. Não mereces o respeito de ninguém nesta sala.

- Não é verdade que eu faça tudo o que Filipe diz...

- Vê-se! Tens aqui a oportunidade de demonstrar o contrário.

Ele assinou.


Angel

A morte

- ... ela fez o testamento.

- Eu nunca faria um testamento.

- Porquê?

- Porque era imaginar o que ia acontecer depois de morrer e eu não consigo conceber a ideia de morrer.

Livros (Van Gogh)

A Persistência da Memória

Rosa Meditativa...

Mulher à janela

A última palavra dos Lusíadas.

Tenho uma amiga que está sempre bem. Em qualquer sítio, com quais quer pessoas à volta, sempre alegre. Mesmo na adversidade, . Nunca a vi lamuriar-se das circunstâncias da vida. E já teve umas bem f******. Irrita o não-esmorecer-da-alegria-dela. «Não gosto nada de estar a curtir a tristeza. Há muita gente que gosta. Imagino-a raptada numa cave e a conseguir divertir-se largamente a ver a cor das paredes. Sempre sorridente. Os namorados tentam fazer-lhe a vida negra. Por inveja, claro.

Angel

A culpa morre solteira

Aquando da queda de Entre-os-Rios, morreram mais de uma centena de pessoas. Dias a fio, os jornais televisivos não mostravam outra coisa. A justiça, morosa como sempre, produziu um inaudito parece passados anos:

«A culpa foi da erosão dos solos.»

Ah, e que é o responsável?

Vi esta semana uma mãe a chorar e a gritar compulsivamente, vomitando raiva, com a decisão judicial que ilibou - bem ou mal - o proprietário de um estabelecimento que vendeu produto com veneno à criança e consequentemente matando-a. Quem foi o responsável? O azar, naturalmente.

Portugal assim não vai longe.

Angel-a-culpa-é-sempre-do-inominável-sistema

quinta-feira, outubro 25, 2007

Sermos especiais

A Mafalda do Quino recebe um abraço da mãe.

- Tu és muito especial.

- E o pai?

- O pai também?

- E a avó?

- Também.

A lista de pessoas especiais prossegue.

Mafalda conclui (e bem):

- Se somos todos especiais, então é porque ninguém o é...

Polémicas literárias: MST vs. VPV



Miguel Sousa Tavares vai lançar um livro.




Sábado na Única (revista do Expresso), o Miguel Sousa Tavares disse em entrevista:

Está preparado para a crítica do Vasco Pulido Valente?

- O Vasco Pulido Valente arrasou o Equador sem o ter lido. Dizia que era exotismo, culinária e erotismo. E, passados uns tempos, estive com um amigo comum que me disse: 'Sabes que o Vasco não tinha lido o teu livro e eu insisti, 'ó Vasco, mas lê o livro' e o Vasco, 'não, é uma merda''. Até que um dia ele disse que o livro até não era mau. Foi-me contado assim e eu acredito na fonte. Eu sou grande admirador do Vasco. Costumo dizer a brincar que, de facto, só há duas coisas que precisavam ser subsidiadas no país: a agricultura e o Vasco Pulido Valente. A agricultura porque, se não, o país desequilibra-se e tombamos ao mar; e o Vasco Pulido Valente porque aquele pessimismo é necessário. A mim faz-me falta. Eu leio o Vasco e digo: 'Também não é assim tão mau!' (risos) Com o seu pessimismo militante, o Vasco contribui para o optimismo de muita gente. Ele escreve maravilhosamente, tem talento e é engraçadíssimo. Agora, só conhece dois países no mundo: Oxford e o Gambrinus. Acho pouco.


Domingo, Vasco Pulido Valente respondeu na sua crónica do Público:


Um Novo Génio

Há uns tempos, Miguel Sousa Tavares escreveu um romance chamado Equador. Era "um romance de aeroporto" implausível e pueril, que seguia a receita do género: um lugar exótico, longas descrições de paisagens, muito sexo e muita atenção à cozinha e à roupa. Até dois terços, não se lia mal, como se lêem os livros deste género: sem esforço, com meia atenção, para descansar. No meu caso, li a coisa no hospital, numa altura em que não tinha cabeça para mais nada. Hoje só me lembro, e vagamente, do herói: uma espécie de super-Miguel, um pouco ridículo, com o seu arzinho aristocrático e a sua obrigatória consciência de esquerda. A certa altura, o Equador desapareceu (por falta de espaço) na limpeza de uma estante qualquer e não tornei a pensar no assunto.
Nunca me ocorreu que Miguel Sousa Tavares se tomasse por um escritor. Afinal muita gente, sobretudo em Inglaterra e na América, vive de produzir prosa para consumo de massa, que ninguém confunde com literatura. É uma maneira como outra de ganhar a vida. Honesta, ainda por cima. Mas Miguel Sousa Tavares parece que não se considera light e pretende que o levem a sério. Só isso explica que volte agora a meia dúzia de comentários sobre o Equador (não especialmente lisonjeiros) que publiquei há anos numa carta a este jornal. Para explicar essa minha absurda aberração, Miguel Sousa Tavares revelou ontem ao Expresso que eu, quando o critiquei, não tinha lido o livro e que depois, quando de facto o li, o achei óptimo. Quem lhe contou foi um amigo anónimo, presumivelmente tão analfabeto como ele; e em que ele, claro, piamente acredita.

Fora a acusação de fraude (que me incomoda), Miguel Sousa Tavares trata com condescendência o meu putativo pessimismo e lamenta que o meu conhecimento do mundo não vá muito além de Oxford e do Gambrinus (para quem não saiba, um restaurante de Lisboa). Esta estupidez não é inocente, é profiláctica. Serve para me desqualificar, se por acaso eu disser o que penso (e não disser bem) sobre o Rio das Flores, um segundo romance que já saiu ou vai sair daqui a poucos dias. Mesmo vendendo como vende, Miguel Sousa Tavares não consegue suportar que diminuam o que ele julga ser o seu imenso brilho. A mim, não me aflige que ele se apresente como um génio literário. Desde que não ande por aí a espalhar mentiras.

Vasco Pulido Valente

Cartaz publicitário

Um dia beijo-te a meio de uma frase.

(em bom português seria: Um dia beijar-te-ei a meio de uma frase.)

Amor com uma Mulher (Joan Miro)

O paroxismo do homem prático

Era um homem com um sentido prático muito apurado. Não perdia tempo com Literatura ou Filosofia. Desprezava a linguagem poética e nunca ninguém o ouviu falar por metáforas. Um dia, no trabalho, alguém lhe disse: «A sua secretária tem uns olhos ardentes» e ele imediatamente chamou os bombeiros.

Angel

quarta-feira, outubro 24, 2007

Julgamento Final (Bosch)

Interrogação 2

Sejamos sinceros: numa discoteca quem se entreolha mais: os homens face aos homens ou as mulheres face às mulheres?

Interrogação

Porque é que quando uma mulher se destaca, as outras tendencialmente têm de dizer mal dela?

Angel

Dali

"Há livros e há papéis com tinta."

Lobo Antunes
Somos todos profundamente densos.

Angel

Conversas Reais ou Aquilo que se discute...

Ouvi a seguinte conversa de pai e filho a jogar matraquilos.

- Remata lá isso - diz o pai.

- Espera. Há uma maneira em que tu não defendes.

- Oh pá tu sabes lá o que é marcar. Quando jogava com o Zé Tó, ninguém ninguém nos ganhava.

- Eu ganhava ao Zé Tó.

- Cala-te, nunca viste o Zé Tó a jogar.

- Eu sei um truque para defender qualquer remate.

- Cala-te havias de me ver quanto tinha a tua idade. Cala-te pá.

- Podes ter a certeza que defendia os remates do Zé Tó....

- Cala-te pá! Fazes umas ondas de metro e meio. Eu em África nadei em ondas de oito e dez metros...

Angel

terça-feira, outubro 23, 2007

The world is not enough for people like us

Garbage
Escrever um livro é como ter um filho.

Angel
«So let us then try to climb the mountain, not by stepping on what is below us, but to pull us up at what is above us, for my part at the stars»

M. C. Escher

Apliquem então isso na Igreja

Um homem da Igreja Católica disse-me algo que gostei de ouvir:

«Devemos odiar o pecado e amar o pecador.»

Escapismos, parte 2

A propósito de ter colocado um texto sobre... o facto de que quando a nossa paixão se torna no nosso trabalho, ela pode morrer.

Entrevistei um locutor da televisão. Desportivo. Era fanático, fanático por bola. Todos os campeonatos. De todos os países e divisões. No dia em que começou a trabalhar, foi o dia mais feliz da sua vida.

Alguns anos volvidos, quando lhe pergunte se ainda consegue usufruir de ver um jogo tranquilamente diz:

«Ao transformar-me em locutor desportivo, vivo o futebol de outra forma. Já não sou capaz de ter prazer em ver um jogo. Estou sempre a pensar se pode ser notícia, qual o enfoque da notícia.»

O trabalho matou-lhe a paixão. Há tantas situações assim se estivermos atentos aos outros.

A conclusão deste post não é que não devemos fazer o que gostamos!!! Simplesmente, aquilo que mais gostamos é normalmente o nosso escapismo, o chuto no quotidiano, a massagem quando chegamos a casa exaustos do trabalho. Quando o que mais gostamos é o nosso trabalho...

Angel

Borboleta

O seu talento era tão natural como os desenhos criados pelo pólen nas asas de uma borboleta.

Ernest Hemingway falando sobre Scott Fitzgerald em Paris é uma festa

segunda-feira, outubro 22, 2007

Prioridades

You know, I have been thinking about this
for hours and just realized that it is critical to . .
... OH LOOK! A BUTTERFLY


Anónimo

Mundos

Quando pensamos no mundo, pensamos na matéria, em ruas cruzadas por automóveis e pessoas. Isso parece ser o mundo real. Quotidiano e constante.

Mas o mundo é a percepção individual que cada um de nós tem do mundo, o fluxo de consciência ininterrupto... Essa coisa pessoal, intransmissível, que não nos larga 24 horas por dia. Aquilo que temos dentro de nós e que para nós é o mundo - é o mundo também para as outras pessoas.

O Jorge Luís Borges diz que perdeu o medo de falar em público quando percebeu que a multidão não existe e que estamos sempre a falar com uma pessoa.

Como é o mundo interior de cada pessoa?

Será que alguma vez entramos no mundo interior de alguém?

Anjo-o-meu-mundo-tem-tantos-quartos

Confusão muito habitual...

Egocêntrico e Egoísta não são, de maneira nenhuma, a mesma coisa.

Conheci egoístas nada egocêntricos.

Conheci egocêntricos nada egoístas. Solidários e magnânimos.

Angel

sábado, outubro 20, 2007

Um Texto Amargo

Quando era criança, fui obrigado na Escola Primária a ver um filme em que havia um homem rico e um homem pobre. O homem rico só ligava ao vil metal e não cultivava amizades. O pobre, que tinha muito pouco, tinha alegria para dar e ainda convidava amigos para lá irem a casa jantar.
Ambos (sem se conhecerem) adoeceram na mesma altura. O pobre tive imensa gente em casa solidária com ele e recuperou. O rico sozinho amaldiçou-se e chorou: «Eu deveria ter arranjado amigos e não ligado tanto ao dinheiro».

Na altura, acreditei piamente. Hoje, cada vez acredito menos... E são tantos os episódios que até tenho dificuldade em escolher um para o contar. Tal como no Grande Gatsby, em que o proprietário de uma mansão fabulosa dava grandes festas e tinha toda a gente lá. Quando a desgraça tombou sobre ele e morreu, três pessoas estiveram no seu funeral. «Poor soon of a bitch», diz um amigo. A vida é isto. Qual a conclusão salvífica? Para mim: sermos extremamente selectivos a escolher os amigos.


Claro que todos auto-proclamamos que somos amigos independentemente de outras coisas que não a pessoa per se. Mas a verdade é que se é filho de, se se tem dinheiro a rodos, poder ou fama, se se é muito giro, se se tem uma profissão muito cool - como ser porteiro ou relações públicas de uma discoteca in; é muito mais fácil arranjar amigos.


Quando estamos na fossa, não somos atractivos. A natureza humana neste aspecto é abjecta.


Angel

sexta-feira, outubro 19, 2007

Eternidade


Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.


Rimbaud

Frase que ecoa nos meus ouvidos

«Se depois da morte não há nada, isto não faz sentido.»

Ancião Livreiro

Livro

O livro é o machado que quebra o mar gelado dentro de nós.

Franz Kafka

O Ouro do Azul

Sócrates por Pulido Valente

«Para começar, poupou em pensões, poupou em salários, deu (com uma certa justificação) menos dinheiro ao poder local e praticamente parou o investimento público. Foi por este caminho de facilidade e com esta táctica de mercearia que adquiriu uma fama espúria de "coragem" (o inimigo era fraco) e, não se percebe por quê, de persistência e "determinação". De resto, e se não contarmos o programa Simplex, que não passou de uma campanha publicitária, Sócrates não fez nada. Houve um mar de reuniões, de planos, de papeletas, de promessas, que produziu como único resultado a mistura ou fusão de umas centenas de serviços. No fim, ficou tudo na mesma, com novos nomes: uma velha receita da esperteza indígena.»

Público, 14.10.07

quinta-feira, outubro 18, 2007

Aforismos literários

Seja sério, mas não se leve demasiado a sério.

Miguel Torga

O alimento primordial

Quem não nos deu amor, não nos deu nada.

João Rui de Sousa

Pobreza

Um amigo meu um dia dizia que tinha de pagar 500€ pela escola da filha. Eu disse-lhe que a filha dele era uma privilegiada. Ele contrapôs que era perfeitamente normal e que eu não sabia os preços das escolas dos dias de hoje. Eu disse-lhe que a restrição orçamental das maior parte das famílias portuguesas não permitia pagar tal despesa.

Para ele um dado:

2,1 milhões de portugueses vivem com menos de 360€ por mês.

Angel

Diálogos

- O que são conversas de gajo?

- Deves ser gay.

Já nasci ultrapassado

Grande parte dos problemas entre as pessoas passa pela falta de comunicação. As pessoas se falassem, muitas vezes entendiam-se.

Cada vez mais entendo que é preciso definir as palavras. Todos temos definições individuais delas.

Outro dia fala em sair à noite e alguém ficou chocado.

- Até tu Angel... Não te imaginava a abanar o capacete. Que desilusão.

Mas quem é que disse sair à noite=abanar o capacete?

Eu saio à noite, vou ao teatro, a recitais de poesia, a bares forrados de livros. Aliás ir ouvir música e dançar é difícil porque encontrar um bar ou disco que passe o meu som é mais difícil do que encontrar um anão na NBA. (OK, admito: o Incógnito).

Aborrecem-me as pessoas que não gostam de falar na noite. Estar num bar quietas, a falar, a conhecerem-se, a compartilharem mundividências, entedia muita gente. - Mas como é que é: onde é que vamos a seguir? - Há uma obrigatoriedade em sair para discoteca... Mas porquê? Já estive até às sete da manhã várias vezes a conversar. E que apetitoso que foi. Sim, sem álcool e sem sexo.

Eu julgo, se calhar, que assim enriquecemo-nos mais do que a apanhar tolas atrás de tolas, e ir a todas as festas dos dj´s mais cools.

Angel-Velho-do-Restelo

Livros que aconselho


O conto (quase em tamanho de romance) Diamante do Tamanho do Ritz é uma delícia. Ninguém escreveu tão bem sobre a vacuidade dos ricos como Scott Fitzgerald. A riqueza, ou o manancial de coisas que ela proporciona, é descrito de forma bela. Os banhos, por exemplo, são suculentamente imaginados ao lermos o livro. O personagem detentor do diamante é naturalmente riquíssimo e julga estar acima de tudo. Tão acima que dialoga com Deus e propõe-lhe negócios.

Angel

O Sentimento de um Ocidental

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

Cesário Verde

Conversas

- Gostaste do livro?
- Tem muitos advérbios de modo.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Corajosos

Um dia li num livro que ninguém é tímido ou sociável, corajoso ou medroso, atento ou distraído; todos somos em determinados momentos uma coisa ou outra.

Tomemos a coragem, por exemplo.

Uma pessoa que nunca sinta medo, é corajoso? Não. Corajoso é quem vence o medo. O que significa isto? Significa que cada um tem as suas zonas de conforto, os seus espaço de confiança, as suas fraquezas, os seus segredos, as suas inseguranças, os seus medos com fundamentos insondáveis - os seus limites, no fundo. Todos.

Para mim, pode ser impensável urinar na rua; para outra pessoa é impensável fazer naturismo; para outra impossível saltar de pára-quedas; para outra falar em público.

Como li algures, herói não é o que mata 1001 pessoas na guerra; mas o que se vence a si mesmo.

O quarto de Van Gogh em Arles

Poemas que sei de cor

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.


Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do "Cântico dos Cânticos".

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha

Maus ouvintes

Há pessoas que não conseguem ouvir os outros. Não são difícil de apanhar. Quando lhes contamos algo, elas fingem-se interessadas perguntando algo que já dissemos; nós puxamos outros assuntos elas dizem "pois" e abruptamente mudam de assunto; afunilam as conversas para aquilo que lhes interessam.

Estas pessoas interessam-nos? Sim? Quando morrer alguém da nossa família, iremos chorar no seu ombro? Elas concentrar-se-ão em nós? Porão os ouvidos e os olhos da alma só em nós? Diz o Dalai-Lama que se mede a estreiteza da mente pelo números de "eu"(s) que empregamos nas frases.

Outro dia no metro encontrei uma colega. Falou entre cinco ou seis estações compulsivamente. Nem por um instante me perguntou por mim. Pior: nem consegui interrompê-la ou simplesmente perguntar-lhe algo. Foi apenas o exercício de um solilóquio.

No final, levantou-se airosa e fútil, e saiu na sua estação.

Deu-me dois beijinhos e perguntou e respondeu:

- E tu estás bem? Estás não estás? Gostei de te ver. Beijoquitas. Muah!

Angel

terça-feira, outubro 16, 2007

Mitologia

O personagem da Mitologia que mais me fascinou sempre foi Tirésias. Um dia apareceu-lhe pelo caminho (ia à fonte buscar água? ia ao templo rezar?) uma par de cobras e ele matou uma. Matou a fêmea, sem saber, e foi condenado a transformar-se em mulher. Um outro dia pelo caminho a mulher tirésias foi assustada por duas cobras e desta vez matou o macho, sem saber. Foi condenado a ser homem.

Tirésias era o único deus que sabia tudo sobre ambos os sexos, equanimemente. E quando Zeus e Hera discutiam quem tinha mais prazer se o homem ou a mulher, Tirésias temendo mais a Zeus disse que «se o homem fica com nove partes, a mulher fica com uma». Hera cegou-o. Zeus compensou a sua cegueira com outra visão: o dom de tudo prever.

Angel

A grande questão

Se uma árvore cair na floresta e não estiver lá ninguém para a ouvir, podemos dizer que ouve som?

Berkeley

Diálogos

- Vamos à praia?

- Quando?

- À hora do cancro.

O mundo actual

- 3/4 dos actuais programáticos da televisão mundial são dedicados à diversão.

- 1% das pessoas no mundo detêm 40% da riqueza total e 840 milhões de pessoas passam fome.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Gato Fedorento

Os Gato andam a abusar do princípio de espremer a laranja até à última gota. Anúncios atrás de anúncios, best offs repetidos 5 vezes para dez programas, omnipresença em todo o lado. Para além do dinheiro o que o pode justificar?

Agora são capa da Sábado que passou dias na intimidade com eles. Estatuto de vedeta e exposição de privacidade era algo que não esperava deles. Pelo menos nestas proporções. Eu não saber se o Ricardo é muito asneirento na intimidade nem que pijama veste o Quintela ou que pasta dentrífica usa. A big brotherização das figuras públicas só contribui para o embotamento geral da já tão embotada pátria lusa (euro, mundial, licenciatura do ISEL, Maddie).

Angel

domingo, outubro 14, 2007

Pedro Abrunhosa

Quando tinha 16 anos, nutria admiração pelo Pedro Abrunhosa. Paralelamente a letras de pura luxúria, tinha belas letras românticas, autênticos poemas (como o Será) e escrevia crónicas inteligentes que eu devorava na Fórum Estudante juntamente com o Daniel Sampaio.

Eu detestava o cavaquismo e o Abrunhosa não era apenas um rebelde teenager com um discurso vácuo e anódino. Não. As suas posições, patentes nas entrevistas e nas crónicas, eram sustentadas. Agradava-me a sua posição humanismo vs. dinheiro, cultura vs. tecnocracia, pessoas vs. indicadores estatísticos; enfim um contra-paradigma ao período cavaquista.

Sabia escrever belos poemas, tinham substrato, cultivava a sua privacidade, alimentava o mistério com os óculos, nas entrevistas dizia que não bebia nem tomava drogas nem ia a discotecas e que era preciso ter auto-estima para num grupo de adolescentes conseguirmos dizer não a estas coisas. Tinha uma série de posições com que me identificava. Chegou a convencer-me também de que era uma romântico e que não lhe diziam nada as mulheres de plástico.

O que diz Molero Dinis Machado afirma que «nada é tão vertiginoso como a queda dos ídolos». Houve muitas coisas recentes que me fizeram pensar que o senhor abrunhosa é um bluff autêntico.

Em primeiro lugar, as gajas. Há um blog, o denunciar abrunhosa, onde jovens que na altura tinham 15 e 16 anos contam como o abrunhosa as seduzia para ir ao camarim, lhes levava a virgindade e lhes dava um xuto no cú. A polícia judiciária tomou conta do blog e o recém-extinto Tal & Qual noticiou o caso.

Pode ser tudo mentira, ok. Presunção da inocência é , para mim, o valor mais importante do Estado de Direito. Mas entretanto, falei do que li, e amigas minhas contaram-me outras tantas histórias de assédio a pitinhas. Será tudo mito urbano?

Um amigo foi ao Lux e encontrou-o. Uma tipa falou com ele, como é natural a quem é vocalista (e carismático) de uma banda conhecida.

Fanfarrão, o Abrunhosa disse ao meu amigo que falava com ele sobre o último álbum:

- Vou comer esta gaija, achas que é boa?

Há qualquer coisa de viscoso nisto quem me esboroa logo a ideia romântica, poética e sensível que tenho dele. São porMaiores assassinos.

Outra coisa que não me caiu no goto foi a campanha ao Millenium BCP. Não gostei de ver a sua fronha estampada em todos os cantos da cidade a dizer que estava aqui (no Millenium). Até uma música lhes fez.

Mas pior - e isto para mim matou-o - foi uma cláusula que alegadamente ele ter assinado. E que juridicamente já me informei por fontes seguras que é uma cláusula ferida de inconstitucionalidade.

A verdade é esta. Eu estive na campanha do Alegre. Umas das coisas a fazer era contactar a malta da cultura. Todos deram a cara, dezenas de pessoas de diversas áreas. O abrunhosa estava na lista mas nunca teve uma palavra.

Eu disse que queria falar com ele. Foi a única pessoa que não me deram o telemóvel.

«Ele é o único que não pode falar. Assinou uma cláusula quando fiz a publicidade do "Eu estou aqui" em que não emitir qualquer declaração política.»

Toda a sua mensagem de dez anos esboroava-se.

Angel-apanhando-os-cacos-cintilantes-dos-16-anos

sábado, outubro 13, 2007

Ignorância

Muita ignorância requer um certo esforço.

JAAB

A intemporalidade

Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.


Luís de Camões

Teste à honestidade

Nível 1

Por um milhão de contos, era capaz de matar alguém?

Nível 2

Por um cinco mil contos, era capaz de prejudicar gravemente a qualidade de vida de uma comunidade?

Nível 3

Se fosse júri de um concurso e um dos concorrentes lhe fizesse uma proposta de transaccionar dinheiro pelo seu voto nele para o prémio, fá-lo-ia?

Nível 4

Se encontrasse uma mala cheia de dinheiro e com os documentos da pessoa, entregaria a mala com o dinheiro?

Nível 5

Se fosse director de um jornal e um dos seus principais patrocinadores fosse um banco, e um dos jornalistas da redacção escrevesse um artigo a denunciar um escândalo de corrupção no banco, mandá-lo-ia censurar, sabendo que o jornal poderia correr risco de falência?

Nível 6

Se fosse embaixador, a sua filha estivesse há 2 anos no desemprego depois de tirar Relações Internacionais e Ciência Política, e surgisse uma oportunidade de emprego na sua embaixada, abria um concurso público ou colocava lá a sua filha?

Nível 7

Alguma vez roubou alguma coisa? Um chocolatezinho no supermercado?


Nível 8

Se for comprar algo, e lhe derem troco a mais, devolve-o?


Nível 9

Alguma vez andar de transportes públicos sem bilhete?

Nível 10

Ok, chegou aqui, nunca roubou um chocolate ou umas pilhas, nunca deixou de picar o bilhete no metro, nunca ficou com dinheiro que não é seu. Pense agora: nunca ficou a dever um cêntimo a ninguém que lhe tenha emprestado e nunca copiou ou fez cábulas num exame?

Angel

Competição?

Sempre que há mulheres à minha volta e sempre alguma acaba de ser apresentada, acompanho os olhares das outras que giram em torno de todo o seu corpo, pulseiras, adereços, pés. Então se é gira... há uma atmosfera apreensiva, de contenção, tensão e (ler o título)...

sexta-feira, outubro 12, 2007

Observando o Real

Portugal jogava com a Bulgária. A RTP teve uma falha e apareceu o habitual:

«Pedimos desculpa pela interrupção. Voltaremos dentro de momentos.»

O dono do espaço onde se via o jogo disse:

«Bamos lá para cima!»

As pessoas entreolharam-se confusas.

«Bamos que lá em cima há uma telebisão melhor.»

«Mas a falha é da RTP!»

«Mas lá em cima dá carago! Custou-me mais de mil contos a telebison!»
Aos comentadores do blog:

Podem expressar o quiserem naturalmente. Até opiniões homofóbicas e racistas (que segundo alguns serão aplaudidas por Cristo) aqui se encontram gravadas.

Apenas faço sugestão:

Não desqualifiquem o autor do argumento para descredibilizar o argumento. Se assim é, eu passarei a pôr frases sem o nome do autor (ou a trocar os autores para se quiçá se sentirem ridículos).

Nem mais.

«Um Deus capaz de inventar o Inferno não merece o nosso respeito.»

José Saramago

Paul Auster




(Duas pessoas dizem que sou parecido)

Para quem diz que o mais importante é a beleza interior.

O ÓBVIO NEM SE NOMEIA

Um jovem de 16 anos viu em média 18.000 homicídios nos E.U.A. Mas claro que é mais grave a irmã Jackson mostrou um mamilo em directo.
Love is a two way dream

Bjork

quinta-feira, outubro 11, 2007

Conversas que nos elevam a alma

«Se não há nada depois da morte, isto não faz sentido. Para que é que estamos aqui e porquê? Para comer, respirar e defecar todos os dias?»

Velho ancião livreiro
«I am your one-way street»

Bjork

Escapismo ou Fazer Aquilo de que não se Gosta Muito

É óbvio que é melhor, laboralmente falando, fazer aquilo de que se gosta do que algo que não temos interesse.


Mas eu tenho desenvolvido a ideia de que fazer aquilo de que mais se gosta pode não ser o melhor. Porque, como dizia Wilde, cada pessoa mata aquilo que ama.

Cada um fala do que mais sabe, ou seja da área de trabalho em que está inserida. Vou falar de editoras de livros. Imaginemos uma pessoa com uma paixão ardente por livros. Dir-se-á que essa pessoa, cujo maior interesse na vida são os livros, deverá trabalhar com livros.

Pois bem, essa pessoa não tem muitas hipóteses. Ou é livreira e os livros passam a ser paixão e objecto de negócio e a pessoa que amava os livros vê-se confrontada com o dilema de ter sobreviver e vender sucata literária, ou manter-se fiel ao amor à Literatura e fazer uma vida de indigência.

Essa pessoa pode ser comercial de livros, mas aí está a vender livros como venderia salsichas ou aspiradores. Um bom comercial é aquele que consegue vender tudo.

A pessoa pode também ser revisor de livros e aí a fruição da leitura, digo por experiência própria, morre, tão vigilantes que estamos a qualquer desvio na gramática, na ortografia, na sintaxe, no raio que o parta.

Tinha uma amiga que foi para Letras e dizia: «Perdi a vontade de ler. Ler tornou-se símbolo de obrigação, de sublinhados, de exames, de uma só interpretação possível quando para mim a leitura é a infinita possibilidade de interpretações.»

Poderia falar de outras áreas com menos conhecimento de causa. A ideia é que as coisas que mais mais gostamos talvez devam permanecer no Lazer, como escapismo, como o fruto desejado que nos espera depois do extenuante mercado de trabalho.

É uma ideia que deixo.

Angel
Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas

Dinis Machado
«A época não era melhor. Nós é que tínhamos juventude.»

Dinis Machado, Reduto Quase Final
«Dava um ano de ordenado por um momento da minha infância perdida.»

Dinis Machado, O que diz Molero

Lux

«Vais ao lux, angel? Aquilo é só paneleiros!» - disse uma rapariga.

«80% das pessoas no lux são paneleiros» - disse um... indivíduo.


Eu já não vou ao lux, mas unicamente porque a faixa etária e a turminha da kapital e o som não me agradam. Tão simples quanto isto.

Conselho para artistas

«Se não sai de ti a explodir, não o faças.»

Bukowski

quarta-feira, outubro 10, 2007

Scared as you

You know those things I said

All those things that made you cry

I didn't really mean that stuff

I didn't really mean that stuff

All I ever really mean

When I scream and shout the way I do

Is I don't know

I really don't

I'm just the same as you



You know those things I said

All those things that made you

Run away from me

I didn't mean a word

I didn't really mean I don't believe

All I ever really mean

When I rant and rave the way I do

Is I'm scared

I'm scared

I'm just as scared as you



And sometimes it's so hard

Not to just throw it all away

Sometimes it's so hard

Not to just throw it all away

Like all those things I said

All those things that made you cry

I didn't really mean that stuff

I didn't really mean to say goodbye



You know those things I said

All those things that made you

Run away from me

I didn't mean a word

I didn't really mean I don't believe

All I ever really mean

When I scream and shout the way I do

Is I'm scared

I'm scared

I'm just as scared as you


The Cure

Na piscina

1) Imaginamos uma piscina aberta, num dia de Sol, como um local para passar horas tranquilas. Boiei na piscina, calmamente a ver os reflexos de Sol veio um individuo com olhos e mergulhador: « Esta pista é sua?» «Não, fique com ela.» E fui para outra. Depois olhei e vi que as pessoas nadavam rapidamente, sem parar, fazendo de uma pista cada um. Percebi que flutuar na água era ridículo mas encontrei uma pista vazia e borrifei-me no ridículo. Já ninguém frui, anda tudo tão rápido e tão stressado e competitivo. Como o coelho na Alice no País das Maravilhas, sempre a correr com o relógio na mão... para onde? porquê? para quê? Já ninguém questiona tão pouco...

2) Quando deixei a piscina, um funcionário cansado arrastava os colchões às costas. Eu negligentemente ia deixar lá o meu (como quase toda a gente). Vi o homem cansado a aproximar-se e percebi que ele estava a tirar todos os colchões e que naturalmente ia ter o meu. Eu levei o meu. E o meu falou-me e sorriu «Muito obrigado, muito obrigado, não era preciso». O sorriso foi tão sentido. Um gesto tão curto e ele tão genuinamente emocionado. Disse-me boa tarde duas vezes depois ao cruzar-se comigo duas vezes.

Quem tiver ouvidos para ouvir que oiça:

«Cada homem que encontro é-me superior em alguma coisa e nesse ponto aprendo com ele.»

Emerson

Diálogos

- Oh não, está a amanhecer... Não devíamos ter ficado até tão tarde.

- Mas amanhã acordas cedo?

- Não, mas detesto ver o amanhecer.

- Então porquê?

- Faz-me sentir que... estou a cometer algo errado.

- Estas cores fazem lembrar o dia do juízo final.

- É isso mesmo! E é isso o que me assusta.

Alguém falou em imortalidade

“Não quero atingir a imortalidade através da minha obra… quero atingi-la não morrendo.”

Woody Allen

terça-feira, outubro 09, 2007

Conversas interceptadas no autocarro

- Que tal era o gajo?

- O gajo era estúpido, horrível, não tem ponta por onde se lhe pegue... Mas eu gostei dele.

Programa Político Universal

- Abolição da pena de morte, prisão perpétua e tortura;

- Quotas para 50% de mulheres nos órgãos do Poder Político;

- Fim das barreiras à livre circulação entre pessoas em todos os países do mundo;

- Dotar as prisões de psiquiatras criminais que fomentem a regeneração dos presos;

- Monopólio estatal da droga que acabe com o tráfico e ministre gratuitamente e em condições de higiene e segurança a droga a todos os que se inscrevam nos programas estatais;

- Imposto sobre grandes fortunas para financiar sistema que garanta todos, absolutamente todos, tenham uma casa e o mínimo para alimentação, saúde e vestuário.

- Educação ética como disciplina escolas;

- Casamento alargado a pessoas do mesmo sexo;

- Equanimidade estatal perante as religiões todas;

- Fim da matança animal para fins de alimentação, recriação ou testes de produtos (comerciais ou terapêuticos).

Angel
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo(...)

Álvaro de Campos, Ode Triunfal


segunda-feira, outubro 08, 2007

Ser adulto segundo Lobo Antunes

«Só ficamos adultos quando morre o nosso pai. É quando se acaba a barreira entre nós e a morte.»

Lobo Antunes, entrevista ao Jornal de Artes e Letras

As pessoas, os outros

- É óptimo quando assimilas uma nova forma de encarar a vida e a incorporas como mais uma cor na tua paleta. Acho incrível a maneira como nós rejeitamos outras formas de estar na vida sem sequer fazermos a mínima ideia do que se trata. Aquilo que me faz gostar de viajar é aquilo que me faz gostar de conhecer novas pessoas. Quando assimilas outra cultura ou quando chegas àquele patamar de ligação com uma pessoa ao ponto de seres capaz de sentir o que ela sentiria numa determinada situação... – as ondulações subtis da sua voz embalavam-me: «O futuro é brilhante e excitante...» – …É como se a tua mente se expandisse… A maior parte das pessoas cristaliza-se nas pessoas que já conhece. Eu não sou nada assim. Sou uma deambuladora... – o som do seu riso interrompeu, por um breve momento, a fluência do discurso. – Quanto mais pessoas conheces, mais facetas de ti explanas. Todos nós somos polifacetados e cada pessoa é uma porta para determinadas partes de nós. Eu acho delicioso que em tantos milhões de almas cada uma tenha ideias, sensações e até gestos diferentes... Únicos! – os seus dedos delicados, como o movimento inverso de uma flor a desabrochar, fecharam-se num punho que vibrou por um instante. – A ideia de alguém que te completa é um absurdo. A nossa identidade não é propriamente um testamento que lemos sempre de forma igual às pessoas com quem nos relacionamos, mas algo vivo e dinâmico que se desdobra de uma forma única com cada pessoa, como um polvo a agarrar diferentes pessoas com diferentes tentáculos. É uma enorme limitação esgotarmos a nossa identidade numa só pessoa. O problema é que nós gostamos de ter as nossas ideias bem arrumadinhas, mesmo que para isso ignoremos a riqueza individual que há para lá de cada rótulo... Para mim não há mulheres ou homens, velhos ou novos, bonitos ou feios, ricos ou pobres, homossexuais ou heterossexuais, cabelos azuis ou cabelos castanhos; há pessoas...

Angel´s book

Bola vai,

bola vem,

e nesse ir e vir

eu sou apito de quem?


JAAB

As nossas velhas certezas

Todavia entrei no computador (de trabalho) com password. Hoje dei o enter involuntariamente antes da password. E entrei! Há dois anos que todos os dias andava enganado...

Eros e Philos

Ao longo da vida, já tivemos diferentes amigos em diferentes fases da vida. Perdi alguns e ganhei alguns. A principal razão para perder amigos - ou dito de outra forma para deixar de ver amigos que via com regularidade - é a postura que algumas pessoas têm: desaparecer-quando-começam-a-namorar.

Eu já vi isto muitas vezes.

Pode-se ter a tolerância que se quiser, mas também temos de admitir que pessoas que nos privam da sua companhia, que nos dão uma vassourada, obrigando-nos a substitui-los quando eles eram quase omnipresentes na nossa vida; constitui uma falha de amizade.

Se são eles assim por opção, se se limitam a obedecer contrariados ao parceiro; não o sei.


A mim causa-me confusão, admiração, fascínio e repulsa; como tudo aquilo que me esforço para compreender mas não consigo.

É uma questão axiomática. Como é possível uma pessoa enclausurar-se noutra e fechar-se a todos os estímulos e todas as pessoas? Como sei biliões de pessoas a querer rebentarem a porta que nos separa do mundo? Gostava de entrar na mente de quem acha possível...


Dir-me-ão que nunca estive apaixonado. Não é isso. Não é mesmo isso. Compreendo que num período de deslumbramento, de paixão assolapada, a pessoa queria ficar com o parceiro recém-descoberto e não ver ninguém. Não compreendo é que isso dure anos e anos e anos...


Acabo com duas histórias.


Tenho um amigo que desde há cinco anos só está com a namorada. 24 sobre 24 horas. Vive com ela, claro. Ele diz-me que sou o melhor amigo dele. E mesmo assim, liga-me de quatro em quatro meses. E está comigo (e com a namorada) duas vezes por ano. Nas férias marca todos os dias com a namorada no estrangeiro, para não ter um centímetro que dar a outra pessoa. Eu não consigo entender como não tem necessidade de estar com alguém. Está sempre com ela. E quase sempre com ela. Outro dia surpreendeu-me. Inscreveu-se comigo na piscina para apanhar sol e nadar (eu só para apanhar sol). Pagou a inscrição e mensalidade. Eu estava tão perplexo... Ligou-me na semana a seguir:

- Eh pa, é muito chato para a Francisca. Não tenho lata para lhe dizer: Vou à piscina (que é ao lado de casa) e tu ficas aí. Ela não quer vir, por isso vou desistir.

E desistiu logo.

Tinha uma amiga com que estava regularmente e com quem subitamente deixei de estar desde que namorou durante cinco ou sete anos. Quando acabou o namoro, ligou logo. Eu voltei a estar com ela. Um amigo nosso comum a que ela fez o mesmo disse-me e bem:

- Não devias estar com ela agora, Angel. Se fizesses como eu, ela ficava sem ninguém e percebia que mesmo durante o namoro se devem cultivar as amizades, porque se não quando se acaba o namoro, acaba-se tudo na nossa vida.

Ele tinha razão.



Angel
E agora que eu sei que me estou a destruir aos bocados
Eu arrancarei o meu coração e dá-lo-ei de alimento a qualquer um...

Robert Smith, Disintegration
I am a tree that grows hearts
One for each that you take

Bjork
Se houvesse uma pessoa perfeita, de que cor se vestiria ela?
Gosto de ti calada porque estás como ausente,
e me ouves de longe, e a minha voz não te toca.
É como se os teus olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo fechou a tua boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
tu emerges das coisas, cheia da alma minha.
Borboleta de sonho, pareces-te com a minha alma,
e pareces-te com a palavra melancolia.

Gosto de ti calada e estás como distante.
E estás como que queixando-te, borboleta em arrulho.
E ouves-me de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual à noite, calada e constelada.
O teu silêncio é de estrela, tão longínquo e singelo.

Gosto de ti calada porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.

Neruda, idem

Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.



Pablo Neruda, Cem Sonetos de Amor

Não poderia estar mais de acordo...

«São inultrapassavelmente vis aqueles que martirizam os mais fracos.»

Caryl Chessman, 2455 Cela da Morte

domingo, outubro 07, 2007

Filhos

- O dia em que nasce o nosso primeiro filho é o dia mais aterrador da nossa vida.
- Nunca ninguém diz isso.
- A tua vida, conforme tu a conhecias até então, desapareceu.

Lost in Translation

Domingos

Nada tão inútil como uma tarde de domingo,
mas todos fingem que não é bem assim.

JAAB, Pensamentos & Reflexões

Vi e aconselho (e vou ver de novo)

Na semana passada presidiu ao júri do Festival de Cinema de San Sebastián. Comparou o seu filme com os que julgou?

O meu filme é tão estranho e fora do mapa do cinema contemporâneo que não o posso comparar com nada. É um trabalho muito idiossincrático, não se enquadra nos padrões normais.

É a transposição da linguagem do escritor para a linguagem do cinema?

É um filme muito literário. Trata de um homem literário e de uma imaginação literária. A estrutura e a acção são ambíguas e só no fim é que tudo se esclarece. Diria que é uma metáfora de como o escritor pensa.

Entrevista a Paul Auster, DN

Que verso!

Não há palavras que possam exprimir a paz que sinto em relação a Deus e à morte

Walt Whitman

sábado, outubro 06, 2007

Consensos impossíveis

Uma vez ao cortarem-me o cabelo, disseram-me:

- Isto aqui à frente está mal cortado...

- Eu cortei aqui. Foi o Miguel.

- Ai o Miguel à frente corta sempre mal...

Eu achava que estava bem. Quando corto o cabelo, 50 pessoas dizem bem e 50 dizem mal. A vida é assim.

É impossível que a nossa personalidade agrade a todos. Totalmente impossível. Seja o que for que fazemos, segue um rumo, um estilo único - o nosso. O importante é a convicção que nele imprimimos.

Saber quem somos, o que queremos, quais as prioridades da nossa vida; ajuda-nos a organizar o tempo, a saber com que pessoas queremos estar; o que gostamos de fazer; os princípios de que não abdicamos; ajuda-nos a ser nós em qualquer grupo, em qualquer situação; só assim podemos ter amor para dar aos outros porque temos amor por nós próprios.

Como diz o Bill Murray no Lost in Translation:

Quando sabemos bem quem somos e o que queremos não nos deixamos ralar com a vida.


Angel

Cada, cada, cada

No autocarro, olhei para todos os rostos. Cada pessoa estava com o olhar absorto, cada pessoa estava enfiada no seu mundinho. A ver o seu filme, pessoal e intransmissível. Mesmo que se quisesse transmitir aos outros, seria impossível.

Cada alma está envolta numa cortina opaca. A incomunicabilidade entre as almas é o lado mais negro da condição humana.


Angel

sexta-feira, outubro 05, 2007

Sôbolos Rios

32
E tu, ó carne que encantas,
filha de Babel tão feia,
toda de misérias cheia,
que mil vezes te levantas,
contra quem te senhoreia:
beato só pode ser
quem, co a ajuda celeste,
contra ti prevalecer,
e te vier a fazer
o mal que lhe tu fizeste.

33
Quem, com disciplina crua,
se fere que ua vez,
cuja alma, de vícios nua,
faz nódoas na carne sua,
que já a carne n'alma fez.
E beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e em nacendo os afogar,
por não virem a parar
em vícios graves e urgentes.

34
Quem com eles logo der
na pedra do furor santo,
e, batendo, os desfizer
na Pedra, que veio a ser
enfim cabeça do Canto;
quem logo, quando imagina
nos vícios da carne má,
os pensamentos declina
àquela Carne divina
que na Cruz esteve já;

35
Quem do vil contentamento
cá deste mundo visível,
quanto ao homem for possível,
passar logo o entendimento
para o mundo inteligível:
ali achará alegria
em tudo perfeita e cheia
de tão suave harmonia,
que, nem por pouca, recreia,
nem, por sobeja, enfastia.

36
Ali verá tão profundo
mistério na suma Alteza,
que, vencida a natureza,
os mores faustos do mundo
julgue por maior baixeza.
Ó tu, divino aposento,
minha pátria singular!
Se só com te imaginar
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?

37
Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente
que, depois de a ti subir
lá descanse eternamente.

Camões

Repetição

Às vezes, quando conheço alguém, há partes de mim, que comunicam com essa pessoa como se ela fosse outra - outra que eu conheci e que esta me faz lembrar.

Real

- Ele é o homem da minha vida. - disse ela.

Passado duas semanas, acabou com ele.

Paul Auster no Monumental

«Como a minha mulher gosta de dizer: A Arte é como o sexo. Se não estiveres suficientemente relaxadas, não usufruirão.»

2

- Não podemos querer mudar os outros bruscamente. É violento e de qualquer maneira: Quem somos nós para o fazer?, Quem nos deu esse direito?. Temos de deixá-los perceber que aquilo não é bom para eles, que eles espontaneamente percebam e quando quiserem -e se quiserem -, decidam mudar...

- Isso é o taoísmo: deixar ver, deixar passar, não mexer em nada; tudo está em equilíbrio. Eu acho que a nossa vida não tem sentido se não temos uma influência positiva nos outros. E a melhor maneira de ajudar os outros é ajudá-los a ajudarem-se. Kant disse que não queria ensinar os alunos, mas ajudá-los a aprender a pensar. Cada vez que um espírito muda, todos os seus actos no futuro mudarão e a humanidade mudará toda.

Angel

Grandes Passagens da Literatura I

Lágrimas generosas invadiram-lhe os olhos. Nunca se sentira assim por uma mulher, mas sabia que um sentimento assim era amor. As lágrimas cresceram nos olhos e ele imaginou ver na penumbra do quarto um jovem parado sob uma árvore gotejante. Outras formas pairavam ali. A sua alma acercava-se da região habitada pela vasta legião dos mortos. Pressentia, mas não podia apreender suas existências vacilantes e incertas. Ele próprio dissolvia-se num mundo cinzento e incorpóreo. O mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e que tinham edificado, desagregava-se.

Leves batidas na vidraça fizeram-no voltar-se para a janela. A neve tornava a cair. Olhou sonolentamente os flocos prateados e negros, que caíam obliquamente contra a luz do lampião. Era tempo de preparar a viagem para o oeste. Sim, os jornais estavam certos; a neve cobria toda a Irlanda. Caía em todas as partes da sombria planície central, nas montanhas sem árvores, tombando mansa sobre o Bog of Allen e, mais para o oeste, nas ondas escuras do cemitério abandonado onde jazia Michael Furey. Amontoava-se nas cruzes tortas e nas lápides, nas hastes do pequeno portão, nos espinhos estéreis. A sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair frouxamente através do universo, caindo frouxamente, como se descesse a hora final, sobre todos os vivos e todos os mortos.


James Joyce, Os mortos

quinta-feira, outubro 04, 2007

É triste quando a conclusão é: temos de ser menos boa pessoa doravante.

Ratzinger

As pessoas falam mal do Ratzinger, mas realmente não conhecem o mínimo da espessura do seu pensamento. São mediações de mediação de mediações... Ouvi dizer que ele é reaccionário e assimilo acriticamente. Para o julgar, fui lê-lo. Ratzigner Pensamento Ético Político e Religioso. Espero que o comentarista desta tasca também tenha lido Jesus, Esse Grande Desconhecido de Juan Arias. Cada vez que ouvimos uma voz dissonante à nossa, aprendemos algo. Nesse sentido li Ratzinger.

O homem tem ideias interessantes, e se conservar a importância do espírito, querer resguardar aquilo que eleva a alma e combater o frenesim dos sentidos é conservador; também eu sou conservador.

Aquilo que mais se fala nos media é Ratzinger querer retornar às missas em latim. Eu li toda a obra e há uma coisa bem pior do que esta ideia. De resto, Ratzinger não quer missas em latim. Admite partes cantadas em latim. Diz ele que é um regresso às origens. Que faz sentir uma pessoa na missa como parte de uma casa universal: o que cantam aqui cantam em todo o lado e desde há milénios. É uma ligação à história, a milhões de indivíduos. Para além de que não entende o latim, não significa não ser sensível ao mistério da não-palavra.

Fala-se disto e não se fala de que o filho da puta defende a pena de morte, contrariando assim todo um evangelho. Porque é ninguém fala deste pecado horrível do papa? Ele é claro nesta matéria. Leiam-no. Cristo que disse que se o teu irmão pecar e sete vezes ao dia te disser «arrependo-me», devíamos perdoar-lhe sempre (setenta vezes sete na altura significava sempre); Cristo que disse que quem estivesse sem pecado atirasse a primeira pedra; Cristo que defendeu que se devia ir visitar os irmãos à prisão... O espírito do Novo Testamento passou ao lado de Ratzinger.


Temos de ler e não debitar de ouvido. As mensagens vêm sucessivamente deturpadas pelos mensageiros e os media são, por critérios comerciais, um excelente deturpador. A lógica do sound byte vai matando a cultura...

Angel
Há factos e há juízos de valor. Os comentadores na televisão devem opinar livremente, mas quando veiculam factos devem ser irrepreensivelmente verdadeiros (ou rigorosos). Nos últimos tempos, Marcelo e Pacheco têm desvirtuado factos. E isso é grave. É grave porque pessoas há (muitas) que tendo em conta a idoneidade dos ditos opinion-makers, não os questionam e, assim, vivemos numa sociedade que produz mentiras.

Angel

quarta-feira, outubro 03, 2007

Anarquista e eu

Consegui se não convencer, pelo menos confundir um anarquista.

Disse-lhe que se não fosse a polícia, os criminosos eram pior tratados. Disse-lhe para ele reparar no que gritavam os populares (que muitas vezes nada têm a ver com a vítima) quando a polícia protegia o criminoso.

- Assassino! Deviam era queimar-te todo! Pena de morte! Deviam de ter fazer o mesmo!

Se não fosse a existência institucional da polícia e das prisões, ninguém duvide que os criminosos, quando apanhados, incorriam em penas muito piores do que as dadas pelo Estado.

Angel

Humilhar o Outro

Criticar em privado, elogiar em público - esta foi uma das poucas regras de ouro da minha vida.
As pessoas que agridem e ofendem outros à frente das pessoas, não têm sensibilidade para perceber que a humilhação é dos piores sentimentos que se pode experienciar. Fazem-nos porque gostam de fazer os outros sofrer (eventualmente terão passado pelo mesmo) ou porque - como diz o Lobo Antunes - não reparam que os outros são diferentes deles. E podem ter uma maior sensibilidade.

Conheço pessoas com marcas inultrapassáveis do secundário em que se é tão cruel para com o caixa de óculos, o bucha, o bom aluno...

Angel

Telemóveis

Há um senhor do meu prédio, com mais de 60 anos, que passou anos sem trocar palavras com os vizinhos. Desde que se reformou, que faz dos seus vizinhos vítimas de longos solilóquios. Há muita gente que o despacha. Eu não consigo. Sinto nele uma solidão que transborda ternura. Intercepta-me durante horas. E só fala de uma coisa: os telemóveis fazem mal à saúde. Tem todos os recortes de imprensa, nacional e estrangeira, sobre o assunto. Garante-me que todos os estudos indiciam correlações entre telemóveis e cancros. Como é possível que ainda não tenham chegado a conclusão conclusiva? Que não tenham gasto o dinheiro suficiente para dissipar dúvidas? Como é possível que os estudos apontem no sentido da indução do cancro e que estas notícias só sejam um rodapé em todos os recortes do senhor?

Espero que ele não tenha razão.

Angel

Mistério, chama viva da paixão

Não voltarão a pesar em meus olhos
teus seios brancos e maduros,
nem minhas mãos serão murmúrios
de chamamento em teus flancos.
Nem meu corpo fundido no teu corpo
se saciará no fundo impulso natural.

Recordo a tua voz hesitante, ansiosa,
e digo-me: nunca mais!
Surpreender-te-á o eu não voltar.
A tristeza ficará em ti
pela certeza que não retornarei.
Eis porque não volto!
Ficar-te-á de mim a saudade da recordação;

A recordação inesgotada de uma posse incompleta.
O meu e o teu amor gastar-se-ia
quando nos conhecessemos melhor,
quando os defeitos, pequeninos, se revelasse.
Os nossos beijos perderiam a densidade do novo.
As noites tornar-se-iam monótonas,
despidas de interesse,
como tudo o que é conhecido,
como os nossos corpos.

Não! Não voltarei!
A poesia do que foi
não se apagará da nossa memória;
Ficará viva na transparência do desejo,
de a voltar a repetir.

Marcos André, Entrevero

Quando soube ao fim do dia

Quando soube ao fim do dia que o meu nome fora aplaudido

no capitólio, mesmo assim nessa noite não fui feliz,

E quando me embriaguei ou quando se realizaram os meus planos,

nem assim fui feliz,

Porém, no dia em que me levantei cedo, de perfeita saúde,

repousado, cantando e aspirando o ar fresco de Outono,

Quando, a oeste, vi a lua cheia empalidecer e perder-se na luz da

manhã,

Quando, só, errei pela praia e nu mergulhei no mar, rindo ao

sentir as águas frias, vi o sol subir,

E quando pensei que o meu querido amigo, meu amante,

já vinha a caminho, então fui feliz,

Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia,

e esse belo dia acabou bem,

E o dia seguinte chegou com a mesma alegria e depois, no outro,

ao entardecer, veio o meu amigo,

E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas

invadindo lentamente a praia,

Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem

felicitar-me,

Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma

manta na noite fresca,

Na quietude daquela lua de Outono o seu rosto

inclinava-se para mim,

E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito - nessa

noite fui feliz.

Walt Whitman

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava, porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os teus olhos eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza de que todas as coisas estremeciamsó de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.


Eugénio de Andrade

terça-feira, outubro 02, 2007

«Acho que o País está doido, com todo o respeito.»

Santana Lopes

A minha vida

Houve uma altura em que me deitava à meia-noite, nunca depois. Quando deixei de me levantar cedo e passei a gerir os meus horários, comecei aos poucos a deitar-me pelas duas. Trabalhava na quietude da noite. Paulatinamente, fiz a transição para as três. Depois para as quatro. Não passaram muitos meses até que me deitava às seis. Depois viciei-me a ver o amanhecer. Era fabuloso trabalhar imenso no silêncio da noite e ter como recompensa ver o romper do dia... Comecei a deitar-me às oito. Como era a hora em que havia gente a acordar, e para não me cruzar com eles, comecei a querer mudar de horários. De resto, convenci-me que não era saudável adormecer rodeado de luz e não de trevas purificantes. Então deitei-me às dez da manhã. Depois ao meio-dia. Depois comecei a trabalhar às seis da manhã e deitava-me às três da tarde. Depois Às cinco. Depois às sete. Depois às dez da noite. Depois às três da manhã. Dei a volta sem acertar. E descobri que os extremos tocam-se.

CAIXA DE PANDORA

Os deuses tinham avisado Pandora de não abrir a caixa. Mas ela não conseguiu resistir a saber o porquê, e movida pela curiosidade, abriu-a. Dela saíram todos os males - doença, velhice, inveja, pragas, crueldade - que assolaram a humanidade até aos dias de hoje. No fundo da caixa, havia contudo um bem: a esperança.

Será que no fundo, no fundo, a esperança não era também um mal?

Começo a ficar farto de Portugal

As acrobacias dos aviões concentraram 600 mil pessoas no Porto. O quíntuplo da maior manifestação em solo português nos últimos anos. Por paradoxal que possa parecer, nós (os portugueses) não estamos contentes com o estado das coisas. Alguns de nós até já sugerem juntarmo-nos a nuestros hermanos

O nosso desporto favorito continua a ser a lamúria. Isto está mal. Muito mal. A corrupção, o desemprego jovem, a insegurança. O que fazemos para combater estas coisas? Essencialmente queixamo-nos. Mas queixamo-nos ao vizinho no elevador, aos amigos no café, ao taxista ocasional.

Estamos sempre a denunciar os problemas, situando-nos fora da esfera de os resolver. É fácil e inconsequente. A complacência revela-se sempre uma arma nas mãos de alguém.

Angel

GRANDES PERSONAGENS DA LITERATURA II

HAMLET



Hamlet é certamente a mais bem-sucedida história de vingança levada aos palcos. Ela, desde o início, coloca o público ao lado do jovem príncipe porque o ato da vingança, que Francis Bacon definiu como uma "forma selvagem de fazer justiça", sempre seduziu o a todos. Hamlet sente-se pois um reparador de uma injustiça, um homem com uma missão. A ela irá dedicar todos os momentos da sua vida, mesmo que tenha que sacrificar seu amor por Ofélia e ainda ter que tirar a vida de outras pessoas. Talvez seja essa obsessão, essa monomania que toma conta dele desde as primeiras cenas do primeiro ato, que eletrize os espectadores e faça com que eles literalmente bebam todas as palavras do príncipe vingador (Hamlet é o personagem que mais fala na obra de Shakespeare, recita 1.507 linhas).

JAAB