domingo, setembro 30, 2007

oh elise it doesn't matter what you do
i know i'll never really get inside of you
to make your eyes catch fire
the way they should

The cure

Entrevistas que mereciam ficar em livros

Sofre muito ao escrever?

Há instantes de intensa felicidade - às vezes sinto as lágrimas a caírem-me pela cara - e momentos de grande irritação porque num dia consigo fazer meia página e no noutro só três linhas. O material resiste, as palavras não chegam, o livro não sai. Normalmente as primeiras duas, três horas são perdidas, os mecanismos sensórios ainda estão muito vivos. Então, quando começo a estar cansado, as coisas começam a articular-se com mais facilidade. É como quando estamos a dormir e de repente temos a sensação de termos descoberto os segredos da vida e do mundo, mas sabemos que estamos a dormir. Lutamos para acordar e quando chegamos à superfície não temos nada, diluiu-se enquanto fomos subindo. Quando consigo um estado próximo dos sonhos é muito mais fácil trabalhar e só o tenho estando fatigado.

Já experimentou algumas substâncias para atingir esse estado artificialmente?

Nunca tomei drogas, nunca apanhei uma bebedeira na vida. Não bebo café, não me dá prazer. Acho que o único vício que tenho é fumar.

Lobo Antunes in DN

ESTE BLOG ATINGE OS 1000 POSTS

«Há muito mais entre o céu e terra do que chega a nossa vã filosofia.»

William Shakespeare
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."

Carlos Drummond de Andrade

sábado, setembro 29, 2007

Para madrugadas felizes


E digo à humanidade: não sintas curiosidade por Deus,
Porque eu que tenho curiosidade por tudo não sinto curiosidade por Deus,
(Não há palavras que possam definir a paz que sinto em relação à Deus e à morte).

Escuto e contemplo Deus em cada objecto, ainda que não O entenda minimamente.
Nem entenda que possa existir alguém mais maravilhoso do que eu próprio.

Porque é que desejaria ver Deus melhor do que este dia?
Vejo algo de Deus em cada uma das vinte e quatro horas, e vejo-o em cada momento que passa,
Vejo Deus no rosto de homens e mulheres e no meu próprio rosto ao espelho,
Encontro cartas de Deus espalhadas pela rua, todas assinadas com o seu nome,
E deixo-as onde estão pois sei que vá para onde for,
Chegarão sempre outras pontualmente.


Walt Whitman

Presidente à medida do país

Sempre que o nosso Presidente da República aparece a falar - cá dentro ou lá fora -, o tema é sempre o mesmo: a Economia. Já estávamos habituados como primeiro-ministro, mas como Presidente da República, órgão que não bule com pastas executivas da economia, imaginamos o representante da nação como produtor de discursos cultos e grandiloquentes, que exaltem a língua portuguesa. Qual quê...

Cavaco tem uma mente estreita. Só um país como o nosso, provinciano e inculto, elege uma coisa daquelas. Saramago lembrou-me numa entrevista recente que foi ele o chefe máximo de um governo que censurou um livro seu a uma candidatura a um prémio literário europeu. E que nunca até hoje teve uma palavra sobre isso. Lembrou também que não o cumprimenta porque um cidadão do país tem por obrigação legal cumprimentar o seu Presidente se nele não se rever.

No eixo do mal tiveram piada. Cavaco falava sobre a morte de Aquilino e dizia, num tom afectado, artificial e decorado, que a sua obra era um dos últimos vestígios da ruralidade.

- E Cavaco também é um dos últimos vestígios da ruralidade - disseram com piada.

António Lobo Antunes sobre António Lobo Antunes

«Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares.»

António Lobo Antunes in Visão, 27.09.2007

Expressão para remelas

Cristais do sono

sexta-feira, setembro 28, 2007

Hoje in Jornal de Negócios

A omissão é a forma mais abjecta da mentira.

Baptista-Bastos

Expectativas

Havia um tipo a quem, numa altura difícil da vida dele, emprestei dinheiro. Nunca o reavi e, sei-o hoje sem esperança, nunca o reaverei. Emprestei-lhe várias vezes e quando lhe neguei ao fim de não sei quantas vezes, ele reagiu ofendido e magoado.

Tenho um amigo que gosta de convidar todas as pessoas de cada vez que sai. Movido por um bom coração, vive sempre na angústia de convidar para toda a gente para ninguém se sentir excluído. Junta por vezes pessoas que nada têm a ver, devido à plena democracia que são as suas saídas à noite. Um dia eu e ele conhecemos umas pessoas. Saímos com elas. Era sempre ele que os convidava. No dia em que ele distraidamente falhou, viraram-se contra ele. Eu injustamente passei incólume. Porque nunca me dera ao trabalho sequer de os convidar uma vez.

Umas pessoas que eu conheço contaram-me que foram passar férias ao Allgarve. Um tipo execrável, bad-boy, daqueles que é conhecido no seu bairro como uma lenda do mal, ligou-lhes. Eles não o conheciam bem. Mas moravam onde ele morava e por isso tinham-lhe respeito. Ou temor reverencial. Quando o mauzão lhes ligou, disse-lhes que ía para o Allgarve e que eles o receberiam em sua casa. Ele instalou-se lá, ditou os horários de levantar e deitar, obrigou-os a ir às compras (para as quais naturalmente não contribuía) e quando eles piavam, batia-lhes. No dia em que um adoeceu, ele bateu-lhe para sair da cama. Bateu-lhe, bateu-lhe. Um escravo inutilizado é um escravo morto. Quando ele disse que estava muito mal, deixou-lhe tirar a febre. Tinha quarenta graus. Contaram-me assim a história: «Eh pa e o gajo quando viu que ele tava mesmo doente, revelou-se um gajo: não o obrigou mais a levantar-se da cama.»

Um amigo meu que nunca telefona e só dá toques para as pessoas lhe ligarem deixou um dia um amigo deslumbrado. Contou-me o amigo deslumbrado: «O gajou ligou-me, não me deu toque, e nem era para pedir favor, era para irmos ao cinema. Foi impecável.»

Pessoas há que quando temos a malga do bem sempre pronta para dar aos outros, sugar-nos-ao todas as malgas, até que já não restará sopa; e então sugar-nos-ao os nutrientes do organismo até ficarmos secos. No dia em que nos quiserem levar os órgãos vitais e nós reclamarmos, sentir-se-ao ultrajados e cobrar-nos-ao de uma maneira que não esqueceremos.


No fundo tudo tem a ver com as expectativas que temos dos outros. E com a forma como os outros nos excedem ou desiludem as mesmas.

Angel

Duplicidades

Uma amiga minha vai ao cinema com uma amiga e apanha o namorado com outra. Na mesma sala.

Diz que é a primeira vez que foi traída.

Eu digo-lhe que a primeira vez que ela sabe que foi traída.

Caryl Chessman escreveu livros e cometeu crimes. Quando lhe diziam que o crime não compensava, ele dizia que nos EUA apenas 13% dos crimes eram apanhados. Ou seja, 87% dos crimes compensavam.

No filme-reportagem sobre pedofilia, Os Friedmans, uma mulher casada há trinta anos com um homem (tendo relações regulares com ele, segundo disse), descobriu atónita que ele era pedófilo desde sempre.

Quantas pessoas levam vida dupla e nós nem imaginamos? Quantas fantasias perversas escondem as pessoas normais? Quantas vezes fomos enganados sem a mínima suspeição?

Angel-defendido

Que frase

E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho

Herberto Helder

«Tendencialmente» diferente de «Todos»!

Homens sobre mulheres

«Tem umas mamas»

«Tem um rabo»

Na melhor das hipóteses:

«Tem uns olhos»

Quais são os comentários das mulheres sobre homens?


Angel, le observateur

quinta-feira, setembro 27, 2007

É tão portuguesa esta obsessão de bater em quem está em baixo. Tão portuguesa como a subserviência com quem está em cima.

Pacheco Pereira in Abrupto

O Abandono de Santana

Quem não viu o abandono de Santana Lopes da SIC Notícias, veja por favor no youtube. Pelo site do Público, vai lá facilmente. O vídeo tem o título para atrasados mentais, mas enfim. Santana Lopes versus José Mourinho; como se fosse esta a polpa da questão!!!

Merece ser visto.

Não gosto de Santana Lopes. Concordo em absoluto com a sua atitude. Não se devia desqualificar os argumentos ou as atitudes em função das pessoas que os praticam. O Stalin fazia isso como ninguém. Em vez de discutir os argumentos, desqualificava o interlocutor ("traidor", "inimigo do partido").

O que Santana fez foi a primeira atitude de protesto contra o escapismo, a anestesia da inteligência que é a televisão hoje em dia.

Estou à vontade para dizê-lo. Fiz uma tese sobre isto. O número de notícias sobre política em televisão é escasso e é ainda mais residual na televisão. Maddies, Mourinhos, Euros, Entre-os-Rios meses a fios 24 horas por dia... Isto só fomenta a estupidez e a complacência.

Angel

Borges sobre O Livro (ninguém o descreveu melhor)

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.

(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.

"Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,
E disse à minha alma: Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?
E minha alma disse: Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho."




Walt Whitman

quarta-feira, setembro 26, 2007

As pessoas


As pessoas quando mudam e se transformam noutras, no sentido quantum mutatus ab illo, não podem esperar que nós tenhamos de continuar com elas. Um escritor escreveu que quem não é amigo, nunca o foi. Eu não concordo. Se as pessoas mudam...

Mas e as se as pessoas nunca mudam? Bem isso ainda é pior... As pessoas que se esgotam porque, que se esvaziam na convivência, porque já não têm mais nada de seu para nos dizer, nenhuma história por contar, nenhum ângulo da realidade novo; nada que nos surpreenda. Por isso devemos sempre aprender, sempre ter sangue na guelra, ler, conhecer pessoas novas, para nos mantermos vitalícia e incuravelmente interessantes...



Angel
A melhor definição que li de inteligência emocional:

A capacidade de compreender o Outro.
Conversa de um indíviduo do norte com sessenta e tal anos para mim:

- Angel, isto não mudou muito. Bendo bem, só hoube uma coisa que mudou da minha para tua geração. É que agora muito fácil comer uma gaija... Elas agora também guostam...

Poema à Noite

Chegas,
máscara lisa, desdenhosa, esfíngica,
do meu sono intranquilo;
Fonte de frustrações e remorsos sombrios;
Tentadora dos fracos;
Contrabandista de recalques e pecados;
Desnudadora de desejos inconfessados;
(...)
Mãe da minha culpa.
(...)
Noite Rainha misticamente desflorada,
timidamente beijada
(...)
desejada, cantada, insultada,
recolhe exausta teu manto sombrio, pontilhado;
Dá-me o descanso de um novo dia
e deixa vir o Sol
e o canto do galo, vibrante, libertado,
ressoar em cada manhã,
depois de ti.

Marcos André

No irão não há homossexuais - afirma o Presidente

Os gays do Irão vivem sob constante ameaça não apenas da polícia e do governo como também da sociedade, disse à BBC Brasil o ativista Arsham Parsi, diretor executivo da IRQO (Iranian Queer Organization), uma organização iraniana que luta pelos direitos dos homossexuais.

Segundo Parsi, de acordo com a lei islâmica Sharia, os homossexuais podem ser perseguidos e condenados à morte por apedrejamento, forca, corte por espada ou sendo jogados do alto de um penhasco. Um juiz do tribunal islâmico decide como ele deve ser morto.

"É impossível saber os números de execuções por homossexualidade porque eles não são divulgados pelo Ministério da Justiça", afirma o diretor da IRQO.

O ativista, no entanto, acrescenta que a homofobia no Irão não parte apenas do governo.

"No ano passado, por exemplo, soubemos do caso de um pai que ateou fogo e matou o próprio filho, de 18 anos, quando descobriu que ele era gay, para manter a honra da família."

"Muitos não chegam a ser presos ou perseguidos pela polícia, mas são executados pela própria família", diz Parsi. "Em geral, a sociedade apóia a perseguição aos gays."

O próprio presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, deu uma idéia do drama enfrentado pelos gays no seu país, ao declarar, em uma palestra em Nova York, que não há homossexuais no Irão.

"Ele (Ahmadinejad) nega a minha existência, assim como nega a existência do Holocausto e de prisioneiros políticos no Irão", disse Parsi.

Fuga

Do Canadá, Parsi contou, em entrevista por telefone, que teve de fugir do Irão em 2005 quando descobriu que a polícia estava atrás dele.

"A vida para um gay iraniano é muito dura, por falta de informação sobre o assunto e falta de segurança também. Ele tem que usar uma máscara 24 horas por dia. Você não pode ser jovem e gay no Irão", disse Parsi à BBC Brasil.

Desde 2001, ele dirige uma organização de defesa dos direitos dos homossexuais.

"Comecei a organização no Irão por meio de uma rede de e-mails. Ela foi crescendo e, em 2005, recebi ameaças por ser ativista. Eu trabalhava em casa, tinha meu telefone divulgado, e a polícia havia me localizado. Quando descobri, deixei o Irão em dois dias, e nunca mais voltei", conta.

Um dos trabalhos da IRQO é justamente apresentar relatórios e divulgar, em outros países, a situação dos homossexuais no Irão.

"No passado", diz Parsi, "era mais difícil para homossexuais iranianos conseguir asilo em outros países por serem gays, já que não havia conhecimento dos riscos. O Ministério da Justiça nega que haja perseguição ou punição aos gays no país, mas sabemos que não é bem assim."

"Mesmo fora do país, muitos iranianos gays não assumem sua sexualidade por temer a reação de suas famílias e da comunidade."

O próprio Parsi conta que, apesar de ser ativista pelos direitos gays, dar entrevistas e falar sobre o assunto na mídia internacional, a família dele não sabe que ele é homossexual.

Mas, desde que se mudou para o Canadá, Parsi diz que se sente livre para falar e fazer campanha sobre o assunto.

Informação

Na opinião de Parsi, falta informação no Irão porque, no país, se aprende na escola que a homossexualidade é proibida e vai contra as leis de Deus.

"Os iranianos não têm idéia da diferença entre homossexualidade, sodomia e pedofilia. Eles acham que homossexuais violam crianças."

"Quando concluí que era gay, sofri muito. Eu me voltei para o islamismo, rezava para Alá 24 horas por dia pedindo que ele me fizesse uma pessoa melhor", conta Parsi.

Uma das propostas da IRQO é educar a comunidade iraniana, dentro e fora do país, sobre a questão gay.

O diretor-executivo da entidade conta que, na sua infância, não lembra de jamais ter visto a questão ser tratada pela mídia, mas, segundo ele, isso está mudando.

O próprio Parsi deu entrevista recentemente para o serviço persa da BBC, transmitido no Irão, e outras revistas abordam o assunto.

O ativista afirma que a internet é o principal meio de comunicação da comunidade gay e que, com o aumento da informação circulando, mais e mais escritores e poetas homossexuais vêm se manifestando e escrevendo sobre o assunto.

A organização de Parsi recebe cerca de 100 e-mails por dia de pessoas pedindo informações, e a revista online por editada pela IRQO tem 5 mil assinantes.

"As pessoas me dizem que a homossexualidade está começando a ser aceite no Irão. Eu digo que não, mas que pelo menos agora mais gente sai do armário."


IN BBC

terça-feira, setembro 25, 2007

É pedante e dogmática. Mas também acerta...

«Não me agrada o estatuto de deuses que o desportistas têm conquistado.»

Joana Amaral Dias in Sol (um Sol com pouco brilho...)

O artigo na totalidade

QUEM JÁ NÃO ATURA ELOGIOS AO RÂGUEBI LEVANTE A MÃO


João Miguel Tavares
Jornalista
jmtavares@dn.pt
Mais uma palavra elogiosa sobre a selecção portuguesa de râguebi e a sua paixão pela pátria e o seu amadorismo tão profissional e o seu extraordinário esforço e como devemos estar todos tão orgulhosos e como eles são um exemplo para nós - e eu regurgito. A sério. Se os elogios parvos tivessem açúcar estávamos todos diabéticos.

Agradecia que os admiradores do râguebi não me imaginassem já a ser violentamente placado contra um muro de cimento. Juro por todos os santinhos que nada tenho contra a modalidade. Gosto muito de ver os jogos e quase me comovo com a haka neozelandesa. Mas para tudo existe uma medida certa. Sim, os rapazes portugueses são esforçados. Têm o seu mérito. Parecem simpáticos na televisão. Não são dados a peneiras como os tipos do futebol. E cantam o hino nacional com um tal entusiasmo que se Louis Pasteur fosse vivo ainda os vacinava. Mas daí a transformá-los nos maiores heróis da Nação só porque andam num campeonato do mundo a perder os jogos todos (e por muitos) é capaz - digo eu - de ser um bocadinho exagerado.

Dir-me-ão: "Ah, e tal, são amadores, passaram muitos anos a lavar as suas próprias camisolas, e veja onde eles chegaram." Até pode ser. Embora, tendo em conta os estratos sociais de onde vem a maior parte daquela rapaziada, seja bem mais provável que tenha sido a dona Mariazinha ou a menina Svetlana a lavar-lhes a camisola. Mas passemos ao lado das questões de classe, ainda que elas expliquem muita coisa. O certo é que, mesmo tendo em conta os objectivos (modestos) anunciados, a selecção ainda não cumpriu nenhum. Contra a equipa da Escócia os portugueses queriam perder por menos de 30 e encaixaram 56-10. Contra a Nova Zelândia queriam que os All Blacks não chegassem aos 100 pontos e perderam por 108-13. Contra a Itália nem percebi qual era o objectivo e levaram 31-5.

Mas o mais extraordinário é que, percam por quantos perderem, os "lobos" têm sempre garantidas umas festas na cabeça por parte da comunicação social. Título do Público após o 31-5: "Ficou a sensação que era possível derrotar a Itália." Ficou a sensação, ficou. Eu às vezes também tenho a sensação que podia jogar melhor à bola que o Messi. Que podia ser mais esperto que o Bill Gates. E que a Nicole Kidman podia perfeitamente sussurrar-me ao ouvido: "Ao pé de ti, o Tom Cruise é um badameco." São sensações. Não costumo é puxá-las para título de jornal. Mas, de quando em quando, a Pátria dá nisto: elege os seus heróis, fecha as cortinas do pensamento, e chora muito a ouvir o hino nacional. É esquisito. Mas é assim.|

Patrioterismos

«os "lobos" têm sempre garantidas umas festas na cabeça por parte da comunicação social. Título do Público após o 31-5: "Ficou a sensação que era possível derrotar a Itália." Ficou a sensação, ficou. Eu às vezes também tenho a sensação que podia jogar melhor à bola que o Messi. Que podia ser mais esperto que o Bill Gates. E que a Nicole Kidman podia perfeitamente sussurrar-me ao ouvido: "Ao pé de ti, o Tom Cruise é um badameco." São sensações. Não costumo é puxá-las para título de jornal. Mas, de quando em quando, a Pátria dá nisto: elege os seus heróis, fecha as cortinas do pensamento, e chora muito a ouvir o hino nacional. É esquisito. Mas é assim.|»

João Miguel Tavares in Diário de Notícias

A desculpa clássica para os erros emocionais

«Eu tava carente.»

segunda-feira, setembro 24, 2007

Grandes Personagens da Literatura I



Capitão Ahab. Difícil corporizar melhor a obsessão, a mono-mania, o espírito direccionado para uma causa suprema: a Vingança.
A baleia branca amputou-lhe uma perna e Ahab decretou-lhe a morte. Procura-a por todas as águas do mar infinito. Cego face ao perigo, cego face ao pai que lhe pede ajuda para encontrar o seu filho perdido no mar, cego face ao risco de vida da sua tripulação, cego face aos propósitos de caçar baleias, Ahab consegue persuadir toda uma tripulação a satisfazer a sua vontade.

Strabuck diz-lhe que é um crime hediondo procurar vingar-se de um ser que não é dotado de capacidade de escolha entre bem e mal. Mas Ahab é surdo a tudo. E diz-se não inferior a Deus.

“É absurdo dividir as pessoas em boas ou más. As pessoas ou são simpáticas ou chatas.”

Oscar Wilde

Vem

Vem...
Vem e traz o mistério
sorrindo em todo o teu ser.
Vem e traz o engano
e a poesia da tua vinda,
que desde o meu começo
estou esperando por ti.

Marcos André (o sábio ancião), Entrevero

Interrogação

As mulheres também têm sexo pelo sexo?

domingo, setembro 23, 2007

O preconceito não se vai embora

Num curto espaço de tempo, ouvi duas histórias idênticas.

Namorada deixa namorado para ficar com uma mulher.

Namorado deixa namorada para ficar com um homem.

Ambos (os que ficaram sozinhos) eram ciumentos e eles contaram-me a história na primeira pessoa.

E curiosamente disseram a mesma merda:

- Ai eu ia ter ciúme de uma mulher?


- Mas eu tenho ciúme de homens?

Coisas que só acontecem à noite

Estou parado à espera do autocarro. É de noite.

Um carro pára.

Uma rapariga e um rapaz, com ar pacífico e simpático, perguntam:

- Onde é o braço de prata?

- Em frente à direita. Mas hoje está fechado.

- Ai sim? Conheces o espaço?

- Sim conheço, é muito bom. Único em Lisboa. Grande livraria, cinema, bons espectáculos, galerias de arte, fotografia... Têm lá tudo.

As perguntas ora de um ora de outro vão surgindo. Eu vou respondendo. Eles continuam dentro do carro.

- Não queres lá ir connosco?

- Está fechado, como te disse.

- Nós vamos lá para saber onde fica.

- Claro. Boa noite.

Eles arrancam mas depois hesitam...

- Olha não queres boleia para algum lado?

- Faltam dois minutos para o autocarro.

- Então e não queres vir à Baixa-Chiado?

- Não, obrigado.

Angel

Porque Cristo não era católico

Certo dia, um homem, intérprete da lei levantou-se com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?

Jesus respondeu-lhe com uma pergunta: Que está escrito na lei? Ele respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças, amarás também o teu próximo como a ti mesmo.

Disse Jesus: Respondeste correctamente, faz isto e viverás.

E quem é o meu próximo? - perguntou o fariseu.

Jesus então contou-lhe a seguinte estória:

Certo homem descia de Jerusalém para Jericó, e veio a cair nas mãos de

salteadores. Estes, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, fugiram, deixando-o semi-morto.

Descia por ali um Sacerdote que vendo o homem ferido e caído ao chão, passou ao lado.

Semelhante ao Sacerdote, passou um Levita, que descia por aquele lugar e vendo-o, também passou ao lado.

Certo Samaritano, que seguia o seu caminho, passou perto e vendo-o compadeceu-se dele. Aproximando-se dele tratou-lhe as feridas, colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.

No dia seguinte, tirou da sua bolsa, dois denários e entregou-os ao hospedeiro

dizendo: Cuida bem deste homem e, se faltar dinheiro, eu te indemnizarei quando voltar.

Depois de contar a história, Jesus perguntou: Qual destes três homens parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?

Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com o pobre homem.

Disse Jesus: Muito bem, então vai e procede tu, de igual maneira.



Evangelho de São Lucas

"So posso acreditar num Deus que soubesse dancar."

Nietzsche

sábado, setembro 22, 2007

Pedem-se sugestões e votações

Angel´s book name...


Demanda

ou

Vertigem

ou

A Cor Nunca Vista

ou

Labirinto
«Acariciar um livro é como acariciar uma mulher.»

Amigo livreiro

sexta-feira, setembro 21, 2007

«Eu tenho a verdade no bolso»

Num debate sobre catolicismo, um padre a propósito do ecumenismo, disse «bom, devemos tolerar todas as religiões, mas a única porta que devemos seguir é a de Cristo. Ele disse que era o bom pastor e nós não nos devemos dispersar em outros rebanhos porque, na realidade, só um conduz ao reino dos céus.»

Aquando das perguntas e respostas, alguém indagou o padre:

- Pelo que ouvi de vossa exma. parece-me ser católico lhe confere uma certa superioridade face aos outros?

- Sim é verdade.

Muitos comunistas e muitos católicos têm precisamente este sentimento de superioridade.

Angel
A propósito de como as instituições e os seguidores deturpam as mensagens, o que melhor sintetiza isto foi Marx que ainda em vida disse:

- Eu não sou marxista...

Floresta Escura

Uma das melhores metáforas do que é a existência humana foi-me dada por Descartes.

Segundo o filósofo, devemos ver a nossa existência como se penetrássemos numa floresta escura. Não temos nada para iluminar o caminho e de vez em quando esbarramos contra árvores. Para onde ir?

Não fazemos a mínima ideia. Mas ao fim de algum tempo, mesmo desorientados, naturalmente andamos numa determinada direcção. Nada nos garante que estamos num caminho que leva a algo e as trevas continuam a circundar-nos. Mas uma vez trilhado um caminho, devemos segui-lo até ao fim, porque voltar atrás tornaria inútil o que até então palmilhámos.

É mais provável que encontremos algo.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Ode à vida (Neruda)



Toda a noite
com um machado
a dor me feriu,
mas o sonho
passando lavou como uma escura água
ensanguentadas pedras.
Hoje estou vivo novamente.
De novo
te levanto,
vida,
sobre os meus ombros.

Ó vida,
taça cristalina,
de súbito
enches-te
de água suja,
de vinho morto,
de agonias, de desgraças,
de pegajosas teias de aranha,
e muitos crêem
que guardarás para sempre
essa cor infernal.

Não é verdade.

Uma noite lenta passa,
passa um só minuto
e tudo muda.
Enche-se
de transparência
a taça da vida.
Um longo trabalho nos espera.
De um só golpe nascem as pombas.
Se engendra a luz sobre a terra.
Vida, os pobres
poetas
julgaram-te amarga,
não sairam da cama
contigo
com o vento do mundo.

Sofreram os amargores
sem te procurar,
barricaram-se
num negro tugúrio
e foram-se atolando
no luto
dum solitário poço.
Não é verdade, vida,
és
bela
como a minha amada
e tens entre os seios
odor a menta.

Vida
és uma máquina plena,
felicidade, rumor
de tempestade, ternura
de delicado azeite.

Vida,
és como uma vinha:
amealhas a luz e reparte-la
em cacho transformada.

Aquele que te renega
que espere
um minuto, uma noite,
um ano curto ou longo,
que saia da sua mentirosa solidão,
que indague e lute, junte
as suas mãos a outras mãos,
que não adopte nem proclame
a má-sorte,
que a estilhace dando-lhe
forma de muro,
como à pedra fazem os canteiros,
que a corte
e dela faça
umas calças.
A vida espera
todos aqueles
que amam
o selvagem
odor a mar e a menta
que ela tem entre os seios.
«Não há nada pior do que um idealista com uma arma na mão: é que ele dispara sempre pelos melhores motivos!»

Pacheco Pereira

Ai sim?

Cheguei ao ponto em que já li todas as revistas e jornais desbotados do meu dentista. Foi útil, porque ali não há um Diário de Notícias ou um Público, nem uma Visão ou uma Sábado. Só há as coisas mais frívolas e isso foi bom, porque só assim eu tiraria um curso intensivo de Marias, TV 7 Dias, Maxmens e Donas do Lar. Li coisas incríveis. E aprendi, claro está.

Uma realizador de filmes pornográficos em que nos seus filmes as mulheres levavam chapadas, murros (muitas vezes a pedido), sexo violento e cru (nada de sangue, atenção).

- Porque faz isso?

- Apenas retrato o que as mulheres gostam...

Para os amantes da noite

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.



Álvaro de Campos

quarta-feira, setembro 19, 2007

The big question

As pessoas não mudam?

Sofia Salgado, cintilação debaixo da superfície do mundo, flocos de luz intangível polvilhando a minha alma, flor imarcescível, fragrância inebriando todo o meu ser.

Havia a vida: quotidiana, mecânica e cinzenta; e havia Sofia Salgado: a flor na borda dos dias, as labaredas no pensamento, o brilho secreto nos meus olhos.


Angel´s book

Domingo

Disse o Dalai-Lama:

«Será que Cristo fica feliz quando católicos que o amam matam protestantes que o amam para demonstrar que eles é que o seguem com deve ser? Será que Maomé... (xiitas e sunitas)?»

terça-feira, setembro 18, 2007

A literatura salva?

Nuno, a propósito da tua recente pergunta: a Literatura pode salvar?, venho aqui expor as minhas ideias em jeito de resposta. Poucas são as pessoas (então da nossa idade) que compartilham este fogo entusiástico pela Literatura como algo maior, superior, que alimenta as nossas almas. Como a quinta-essência do humano, a substância intemporal e meta-espacial, o conhecimento mais profundo da natureza humana. Estamos totalmente em sintonia. E este é o ponto mais importante.

Parto de um axioma (temos de partir sempre) de Oscar Wilde de que a Arte é absolutamente inútil. A Literatura, a Poesia, a Filosofia são obras do espírito humano; são as suas máximas realizações. Mas do ponto de vista da utilidade, não se comparam à engenharia ou à medicina. Porque são técnicas. E a técnica distingue-se da cultura porque justamente é prática, tem utilidade.

Logo que para mim, as perguntas sobre a utilidade da mesma, decorrem naturalmente inúteis. Se salva? Se ajuda os oprimidos? Se traz felicidade? Todas estas perguntas podem condicionar os escritores (se sobre elas eles reflectissem). Quando perguntaram ao Jorge Luís Borges para que servia a Literatura, ele contrapôs: «Para que serve o por-do-sol?»

Mas fixemo-nos na tua pergunta. Não sei se a Literatura salva. Sei que ela eleva o espírito. Que abre universos. Que nos abre corredores para quartos em nós que desconhecíamos. Que nos faz entender melhor o ser humano, que nos faz sair de nós, entrar dentro do Outro. Como disse alguém, «quando li o Ulysses, conheci melhor o Bloom do que qualquer pessoa na vida.»

Não sei se ela salva, disse. E não sei se ela salva porque existem pessoas com diferentes inclinações.

A questão essencial para mim é: a Literatura torna-nos mais próximos do sofrimento do Outro? Para mim, sim. Para a generalidade das pessoas não sei.

Sendo um amante profundo da Literatura, estou mais perto de uma alma com sensibilidade ao sofrimento sem Literatura do que de uma alma sem sensibilidade ao sofrimento com Literatura.

Aquilo que está por detrás dos direitos inerentes ao homem não é sua inteligência; é a sua senciência, isto é a sua capacidade de sentir prazer e dor, ou se preferires, Felicidade e Sofrimento. E um animal a mesma coisa... A sua inteligência, se menor ao homem, se menos complexa, nada, absolutamente nada desse facto pode diminuir os seus direitos. E porquê? Porque a sua capacidade de sentir prazer e dor está lá. Intacta.

Peter Singer dá o exemplo de um deficiente mental. Acaso ele ser menos inteligente do que uma pessoa dita sã confere-lhe menos direitos humanos? Não. Porquê? Porque a sua capacidade de sofrer mantém-se.

Imagina um robot brutalmente inteligente. Imagina que ele é muito mais inteligente do que um animal. Do que um cão, suponhamos. Imagina que ele é resistente ao choque. Poderias pontapear o robot dia e noite, mas um cão não. Isto unicamente porque a senciência é o que confere a respeitabilidade dos direitos animais e humanos. Não a inteligência.

Acropolis, Nuno e Abnóxio, participem no diálogo.

Angel

O amor em visita

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Herberto Helder

segunda-feira, setembro 17, 2007

Demanda

«Para além da leitura» ouvi hoje numa comunidade de leitores (um conceito muito interessante). Ler para lá do que está escrito. Nem tudo está à mostra. E se o «nem tudo» inclui o mais importante?

Tal como os livros, há pessoas que são mais do que o que dizem e fazem. Acho que foram essas pessoas que eu sempre procurei.

Angel

Estilo

— Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

Herberto Helder, Os Passos em Volta

domingo, setembro 16, 2007

Eu já o lera, hoje ouvi-o

Hoje o Dalai-Lama no Pavilhão Atlântico defendeu a necessidade de uma ética secular («não contra a Religião, mas que respeite todas as religiões). Explicou ser a única forma de agregar crentes e não-crentes, e a multiplicidade de religiões.

Angel

Palavras que empregamos e não conhecemos o sabor

EX: Diminutivo de excluído.

FÃ: Diminutivo de fanático.


Doravante, pensem bem...

sábado, setembro 15, 2007

Espiral

Aprendemos tanta coisa com a vida. Mas o que é importante, nunca saberemos. As principais interrogações permanecem sempre. O jovem entusiasmado buscando a sabedoria (nela julgando obter as respostas) que se desiluda: com a idade só ouvirá mais perguntas. Para quem tem sede metafísica, para quem nada nas águas mais profundas, o afogamento é preferível a boiar alegre em águas rasas.

Será que existe algum tipo de Deus? Um plano intrincado para todas estas coincidências?

Dói-me a alma e dói-me o corpo. Eu quero ouvi-Lo. Não me dêem palavras ornamentadas de flores. Como aguentar a dor sem praguejar contra um rosto? Como aguentar a dor se nada regula este caos? Ninguém para responsabilizar pela injustiça? Pela pérfida e anárquica distribuição do sofrimento?

Não consigo gritar para o espaço vazio.


Angel
"Se os homens acreditassem bastante em Deus não haveria tanta teologia, tanto rito, tanta disputa entre as várias crenças."

Agostinho da Silva

Provérbio Árabe

«Quando morreres, só levarás aquilo que tiveres dado.»

Aforismo árabe (afirma o Público...)

Bate na mulher. Se não sabes o porquê, podes ter a certeza de que ela vai saber.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Publicidade boçal

- A única coisa em que os homens discutem qual tem o mais pequeno.

(telemóvel qualquer)

Só ele podia dizer isto...

«Só há dois tipo de pessoas que me interessam: as geniais ou as muito frívolas»

Oscar Wilde

Especialidades

Ou por autismo ou por ostentação, pessoas há que falam da sua área de especialização académica ou laboral (normalmente académica) como detentores de um conhecimento fabuloso (normalmente, não têm cultura). Apresentam-nos esse conhecimento como algo hermético, valioso e inacessível. Querem instalar-nos um sentimento de ignorância que se prosta em genuflexão perante a sua incomensurável sabedoria.

Quando um médico a seguir a uma lesão de um jogador diz:

- O jogador teve uma inflexão do miotársio no prolongamento do perónio.

A única coisa que nós queremos saber é quantas semanas vai o jogador ficar de fora?

Quando um economista fala sobre o futuro da economia e diz:

- A política orçamental deve ser contra-cíclica e incidir do lado da oferta.

Nós só queremos saber se vamos ter mais ou menos poder de compra.

Quando um engenheiro nos diz:

- O material de construção do betão deve assentar em estruturas de magnésio por causa do hélio nas extremidades.

Nós só queremos que ele nos deixe a casa em condições com o mínimo de custo.


Um grupo de alunos apresentou, de peito inchado, um trabalho na minha faculdade carregado de termos técnicos. Acabaram a apresentação com sorrisos, como quem espera uma chuva de aplausos e encomiásticos elogios.

O professor então falou:

- Leiam esse trabalho lá em casa. Se os vossos pais - se não forem economistas - perceberem, é porque fizeram um bom trabalho.


Angel

quinta-feira, setembro 13, 2007

Where the birds always sing

the world is neither fair nor unfair
the idea is just a way for us to understand
but the world is neither fair nor unfair
so one survives
the others die
and you always want a reason why

but the world is neither just nor unjust
it's just us trying to feel that there's some sense in it
no, the world is neither just nor unjust
and though going young
so much undone
is a tragedy for everyone

it doesn't speak a plan or any secret thing
no unseen sign or untold truth in anything...
but living on in others, in memories and dreams
is not enough
you want everything
another world where the sun always shines
and the birds always sing
always sing...

the world is neither fair nor unfair
the idea is just a way for us to understand
no the world is neither fair nor unfair
so some survive
and others die
and you always want a reason why

but the world is neither just nor unjust
it's just us trying to feel that there's some sense in it
no, the world is neither just nor unjust
and though going young
so much undone
is a tragedy for everyone

it doesn't mean there has to be a way of things
no special sense that hidden hands are pulling strings
but living on in others, in memories and dreams
is not enough
and it never is
you always want so much more than this...

an endless sense of soul and an eternity of love
a sweet mother down below and a just father above
for living on in others, in memories and dreams
is not enough
you want everything
another world
where the birds always sing
another world
where the sun always shines
another world
where nothing ever dies...


The Cure

O mundo ao contrário

«O mundo quebra toda gente e muitos ficam mais fortes no lugar da fractura. Mas aqueles que não consegue quebrar, mata. Mata os muito bons, os muito gentis e os muito bravos imparcialmente. Se não és nenhum destes podes ter a certeza que ele te matará também mas que no teu caso ele não terá pressa.»

Ernest Hemingway, Adeus às Armas

Floresta

«Como numa floresta imprevisível, depois da infância estás no mundo à caça de diferentes géneros de felicidade. Se fores demasiado eficaz e tiveres a pontaria afinada, em breve caçarás todos os géneros possíveis que existem na floresta. E depois nada ficará senão uma insuportável sensação de que, mesmo que deixes de estar perdido, o que encontrarás, ou que te encontrará, será ainda pior.
A partir de um dado momento, a alternativa é permaneceres perdido na floresta, a vaguear sem rumo, ou seres encontrado, finalmente, pela raivosa alcateia de lobos que há muito te fareja uma ferida.
»

[Gonçalo M. Tavares, in Breves Notas sobre o Medo, Relógio d'Água, 2007]

quarta-feira, setembro 12, 2007

Anestesia

Os governos deliram com os Euros de Futebol, os Mundiais, os casos Maddie... Que melhor afastamento dos problemas do país do que isto?

Falei com um amigo meu que vive na Austrália e ele disse-me que (para além de me contar da chacota que fazem da nossa PJ) também lá este caso faz primeiras páginas.

Angel

Poemas intemporais

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.

Luís de Camões

Conselhos de leitura

http://www.iadb.org/etica/documentos/dc_sin_elpan-i.htm

O maior filósofo vivo

terça-feira, setembro 11, 2007

Coisas que nos elevam

"A leitura não é um mero prazer ou entretenimento, é trabalho e instrumento básico na formação de um cidadão livre, moderno, participante. A leitura é fundamental para que cada um de nós aproveite a riqueza potencial do idioma. Ter esse domínio ajuda a pensar com maior claridade. Nada enriquece tanto os sentidos, a sensibilidade, os desejos humanos, como a leitura. Quem lê desfruta muito melhor da vida."

Vargas Llosa

Visão peculiar

JUDEUS ANTI-SEMITAS É O QUE MAIS HÁ

Ferreira Fernandes

Mulheres que protegem com mil justificações os vizinhos que batem na mulher. O futebolista que entra de pitons na canela do adversário, arrumando-lhe a carreira. O negro que aceita a cumplicidade do amigo: "Tu nem pareces preto nem cheiras a catinga." O político homossexual que se deixa cercar de homofóbicos porque isso dá votos na sua área política. O emigrante português na Alemanha que, nas férias de Agosto e em Trás-os -Montes, diz estar farto de tanto ucraniano. O intelectual que ensina e escreve o que quer em Coimbra e defende a ETA, que mata com tiros na nuca intelectuais que queriam também ser livres em San Sebastián. O incréu público que beneficia dos séculos de coragem da gente que pôs a Igreja Católica no seu sítio e apoia o fundamentalismo islâmico porque ele é capaz de pôr a América no seu sítio... Enfim, gente que cospe nos seus. Gente que deveria, mais do que o comum, perceber e não quer perceber. Em Israel, seriam neonazis.

Denham Fouts

Considerado por Truman Capote o homem mais bonito do mundo, este prostituto de luxo (recebeu também o epíteto do prostituo mais rico de sempre) que se amantizou com princípes, actores e artista; foi musa literária de Capote e Gore Vidal, entre outros escritores norte-americanos. Para muitos, «uma lenda».

O homem mais bonito do mundo

Escrever

«Morrer define-se nestes termos concisos: vi e tudo o que vi foi para nada. Escrever é tentar preencher este ´para nada´, retardar a sua evidência.»

Eduardo Prado Coelho

segunda-feira, setembro 10, 2007

Eterno presente

Cada momento traz sempre uma nova promessa de eternidade. De outra maneira não poderia ser, pois contrário é à nossa natureza aceitar o fim último e derradeiro de nós mesmos. A imortalidade da juventude abranda o seu fogo com o declínio dos anos, mas nunca abandona o espírito… Chegados aos oitenta, continuamos, ano após ano, a empurrar o final – a empurrá-lo, a empurrá-lo...

Angel´s book

«A sociedade com Deus»

Numa conferência católica, dissertava-se sobre Deus, Igreja, o Amor. Depois da conferência, abriram perguntas e respostas.

Colocaram muitas questões e um padre respondeu a uma pergunta e no final disse:

- Mas o que é importante é rezar, o que é importante é rezar.

Depois fizeram outra pergunta e o padre respondeu e no final disse:

- Mas o que é importante é rezar, o que é importante é rezar.

Depois fizeram outra pergunta e o padre novamente respondeu e novamente no final insistiu:

- Mas o que é importante é rezar, o que é importante é rezar.

O padre (católico) que estava ao lado dele decidiu intervir:

- Eu queria só, a propósito do acto de rezar que hoje tem sido muito falado (risos), contar uma história. Havia um padre que comprou um terreno. Dedicou a ele todas as suas energias. Passado uns meses, convidou um amigo para ir ver o terreno. Era um espaço magnífico, cheio de árvores, de frutos, flores, com uma piscina. De um terronozeco erguera-se uma coisa maravilhosa. Um amigo foi la´visitá-lo e disse:«Incrível, como é possível?» «Fiz uma sociedade com Deus.» O amigo comprou um terreno parecido junto ao padre dizendo que iria fazer uma sociedade com Deus. Passados meses, o terreno estava igual. O padre foi visitá-lo e disse: «Amigo eu fiz uma sociedade com Deus, mas devias ver como Deus deixava o terreno se eu não participasse na sociedade.»

Angel

Sem palavras

Receita de Mulher (Vinicius)

É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
(...)
É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas.
(...)
Que os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar.
(...)
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Cabra II

Uma cabra, numa metáfora, é uma mulher que desembrulha um rebuçado delicioso, aproxima-nos da boca, faz-nos espumar e quando, ao fim de algum tempo, abrimos os maxilares, afasta-nos o rebuçado e ri-se.

Cabra

Uma cabra é uma mulher que gosta de tantalizar os homens.

Angel

domingo, setembro 09, 2007

«Sou um ser humano de laços eternos.»

Acropolis

António Lobo Antunes

A terrível ideia de que tudo se perde no tempo

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas

Álvaro de Campos, Tabacaria
"O Papa pediu ao povo para salvar o meio-ambiente.
Apontou na direcção errada. Nada de intermediários.
Ele que peça directamente à Divina Providência".

JAAB

Oscar Wilde

«Consigo resistir a tudo excepto à tentação.»

«Tenho um gosto simples: gosto apenas do melhor.»


Lema da vida:

«Fica até deixares a tua marca; depois desaparece.»

Hipócrita

A. julga e condena os outros pelos pecados que comete. Talvez não os suporte ver nos outros, como um reflexo de si mesmo.

Angel-a-long-sleeve-denuncia-me

Pátria Minha



A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…"


Vinicius de Moraes

O argumento boçal

Há muitos homofóbicos que dizem:

«Eh pá, duas gajas acho bem... até curto ver. Agora dois gajos.»

Isto é idiota. Que um heterossexual goste de ver duas mulheres mais do que dois homens é natural.

Agora que a partir disso discrimine gays mas não lésbicas é demasiado estúpido.

Não se trata de um critério de agradabilidade visual: eu gosto de ver isto, eu deixo; eu não gosto, eu proíbo.

Trata-se do direito a amar.

sábado, setembro 08, 2007

A frase

A leitura é um processo mais fabuloso do que a escrita. Cada pessoa lê aquilo que tem escrito, e as leituras são, por isso, infinitas.

Uma das coisas que mais prazer me dá é reunir pessoas em torno de um texto ou poema e ouvir as suas interpretações. As coisas que nós vemos e os outros não vêem! As coisas que os outros vêem e nós nem imaginamos!

Do que escrevi, toda a gente destaca uma frase. Em nicks, em mensagens, já percebi que a frase que os outros mais gostam e que mais os marcou foi:

No hotel da minha alma haverá sempre um quarto
com vista para a tua paisagem favorita...

Um espaço que o blog aconselha

http://www.bracodeprata.org/

A fatia suculenta entalada


"Se não podemos evitar o nascer e o morrer, vamos saborear o intervalo."
José de Mendonça Simões.

A desculpa clássica

«Ah!, eu tava bêbado.»

Pessoas Vividas

A. afirma que uma pessoa vivida é uma pessoa que já passou por grandes sofrimentos na vida.

V. afirma que uma pessoa vivida é uma pessoa que já experimentou de tudo: no sexo, na droga, que se calhar já teve preso.

P. afirma que uma pessoa vivida é uma pessoa que já casou, já descasou, já teve filhos, vários trabalhos, já viajou.

I. afirma que uma pessoa vivida é uma pessoa que já esteve em várias culturas e já lidou com pessoas muito diferentes entre si (Kant descobriu o mesmo sem sair da sua cidade-natal, I.)

Parece-me que em todas elas subjaz uma ideia de sofrer para aprender, sofrer como sinónimo de experiência, de vida...

Angel

Retratos da noite

Quando estou doente e o transmito a alguém, e pessoa me liga passado pouco tempo, detesto que não me perguntem como estou. Não é egocentrismo, é o mesmo tipo de sentimento que tenho quando vejo alguém caído no bairro alto por entre risos, copos e indiferença.

Uma vez fui à esquadra em busca de auxílio (um sujeito com a cabeça a jorrar sangue) com um amigo, e um boçal energúmeno disse que a polícia não era um posto de socorros. Quando perguntámos se ao menos podíamos usar o telefone para chamar ambulância (isto depois da descrição física do indivíduo), ouvimos incrédulos:

- O preto que bebesse menos...

sexta-feira, setembro 07, 2007

Ouço mas não sei

O que é uma pessoa «vivida»?

quinta-feira, setembro 06, 2007

«As crianças são o resultado inocente da estupidez da gente adulta.»

L. Pavarotti

Narciso

Porque é que quando olhamos para um retrato procuramos sempre o nosso rosto em primeiro lugar?

Porque é que gostamos tanto quando inesperadamente alguém nos trata pelo nosso nome?

Desvio da alma.

Uma dor de dentes distrai-nos da metafísica.

Assimilar acriticamente

Quem lê as religiões na sua origem, quem procura interpretar a doutrina por si próprio sem mediações, descobre coisas espantosas.

No budismo, nos sutras de Buda, Este aconselha os seus ouvintes a não seguirem as suas palavras pela autoridade que lhe conferiam. Isto é profundamente revolucionário. As palavras e os argumentos devem ser analisados per se independentemente de quem os profere. Diz Buda que os que o ouvem deve ser, para as suas palavras, como o ourives perante o outro: sempre testando, queimando, remexendo o ouro a ver se é mesmo o ouro...

No cristianismo, Cristo também põe as convenções sociais em causa. Na altura no sábado nada se podia fazer por ser dia santo. Cristo desperta as pessoas a transgredirem: «Qual de vós se o vosso filho cair a um poço num sábado, não o irá salvar?». A propósito das oferendas a Deus, disse: «Se o teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai primeiro reconciliar-te» e só depois vai ao altar.

Confunde-se muito a religião, seja muçulmana, judaica ou hindu, pela sua prática institucional e não pela doutrina. O catolicismo histórico nada tem a ver com a doutrina cristã na origem. Entre muitos outros exemplos.

Angel

O maldito do respeitinho português

No trabalho, quase toda a gente fala de maneira diferente consoante a hierarquia. O chefe, os directores são, regra geral, sempre tratados com mais respeitinho.

Vi isso mesmo nas pessoas mais insuspeitas. Mesmo numa pessoa que se auto-proclamava humanista, socialista e cristão. E que dizia confrontar os chefes, não temer ninguém, estar sempre do lado dos oprimidos contra os opressores.


Calhou uma vez entrar no gabinete e vê-lo falar com o chefe. Fiquei incrédulo. Passei a desconfiar da raça humana.

Angel
Há uma certa espécie de pessoas - eu próprio? - que gosta de tantalizar o(a)s outro(a)s.
Estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Herberto Helder

terça-feira, setembro 04, 2007

A dúvida

Diz o Miguel Esteves Cardoso que uma mulher tenta compreender um homem para o despachar. Diz ele a dúvida é a coisa mais rica que há. Que a mulher não suportar não entender um homem - e que é isso que os comportamentos dele devem fazer: aumentar a dúvida. Quando ela o conhece, despacha-o. E lapida um aforismo: «É preciso tocar como quem foge e fugir como quem toca.»
Mugabe destrói um país e as pessoas que tentam escapar à morte, vêem as fronteiras barradas. O mundo está esquizofrénico e a única coisa que nos preocupamos é com a Madeleine.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Volúvel como todos

Há qualquer coisa dentro de nós que não controlamos, nem tão pouco explicamos.
Os nossos estados de espírito mudam subitamente sem que encontremos a causa exógena no mundo.
Às vezes, acordo mal-disposto e, repentinamente, no banho sinto-me inexplicavelmente radiante. Como aqueles dias na praia em que o SOL se põe quando menos esperamos.

domingo, setembro 02, 2007

Honestidade

Outro dia ouvi alguém dizer feliz que tinha recebido, por acaso e sorte, uma transferência de alguém que se enganara. Pela maneira radiante como contou, ou era mesquinho, ou era uma boa maquia de dinheiro.

Pensei mas não disse:

«Podias contactar o banco para saber se era possível localizar a pessoa. Se possível contactá-la. Por que raio o senhor João Espadinha me credita 5.000 euros?»

Não sei se fui cobarde, se me limitei a calcular - vendo que pela satisfação dele era impossível demovê-lo. O escrúpulo ali não entraria.

Imagino que o acto de tentar contactar a pessoa seja inimaginável. Rídiculo, pueril. Ou na melhor das hipóteses: heróico. Aquilo que deveria ser banal, é heróico. Em terra de cego...

Angel

Competição

A única competição possível é com nós próprios. Uma pessoa, se reflectir, chegará lucidamente a esta conclusão.

Pessoa falo desta competição no poema Na Noite Terrível:


Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido
— Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro
— Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem sperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu
levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.

Álvaro de Campos
A linha divisória entre qualidades opostas às vezes é tão ténue.

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar...

(Só nos é concedida

Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos).



Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura...

Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar

(Miguel Torga)