terça-feira, julho 31, 2007

Recentemente, aconteceu-me algo que há anos me aconteceu. Regressou um fenómeno, um padrão que já tinha largado para os baús fundos do olvido.

Há muitos amigos interesseiros pelo factor feminino.

Detesto descobrir padrões em amigos (?) que só saem-comigo-quando-há-raparigas. Detesto descobri-me um objecto de instrumentalização para...

Uma pessoa dar-se connosco para conhecer raparigas valida tanto uma amizade como dar-se connosco para usufruir da nossa mansão das férias, ou para lhe arranjarmos trabalho...

Sem amizade, sem amor, a vida não passa de um sumo estragado.
Há tanta gente só. Basta estar atento. Tanta solidão. E não é só nos velhos. Malta com trinta e quarentas que não têm um companheiro (a) e que erram sozinhos pela noite... Não se pode manter os hábitos noctívagos depois de certa idade? Não se pode sair com grupos de amigos quando já não se é oficialmente jovem?

Por isso há tanta gente com tanta pressa para casar...
Quando somos amigos de alguém, encaramos mais familiaridade os defeitos dessa pessoa. Noutra pessoa com o qual não tenhamos um grau de proximidade, os mesmo defeitos são encarados com estranheza.
Nunca fiz distinção entre falar com um homem e uma mulher.

domingo, julho 29, 2007

Flores de sangue

"este sonho nunca acaba" tu disseste
"este sentimento nunca se vai embora
o tempo nunca vem para depois desaparecer
"esta onda nunca quebra" tu disseste
o sol nunca se põe outra vez
estas flores nunca vão esmorecer
"este mundo nunca pára" tu disseste
este deslumbramento nunca vai passar
o tempo nunca irá aparecer para dizer adeus
"esta maré nunca muda" tu disseste
esta noite nunca cairá outra vez
estas flores nunca irão morrer

tu dás-me flores de amor
sempre esmorecem
sempre morrem
eu deixo cair flores de sangue...


angel traduzindo robert smith

Relativizar

O príncipe Charles disse ter ficado defensor da eutanásia quando viu o seguinte caso:

Um veterano de guerra que NÃO VIA, NÃO OUVIA, NÃO FALAVA, NÃO TINHA PERNAS. Era apenas um tronco, uma cabeça, consciente!!!!!!!!! Quando as enfermeira lhe escreveram no tronco, pelo Natal, "Feliz Natal", o tronco estremeceu, denotando vida.

A amargura do ser é nalguns casos insuportável.

Devíamos (a começar por mim) ter vergonha das nossas lamúrias. Foda-se há casos do caralho e nós ainda temos a tremenda lata de nos queixar!

Como dizia o Camões "Grande males curam pequenos males".

Angel

sábado, julho 28, 2007

Conversas Vadias, Miguel Esteves Cardoso entrevistando Agostinho da Silva.


Agostinho da Silva: De acordo com o Princípio da Incerteza de Heisenberg, não podemos ter a certeza de nada.

MEC: Eu tenho a certeza que vamos morrer.

A: Não, não...

M: Sim, sim...

A: Não, não, meu amigo...

M: Eu tenho a certeza que o senhor vai morrer. E eu também.

A: O senhor só pode dizer que é provável que vamos morrer...

M: Não, tenho a certeza absoluta que vamos morrer os dois...

A: Não, a única experiência de morte que temos é a dos outros.


Angel

sexta-feira, julho 27, 2007

Mergulho metafísico

As questões verdadeiramente importantes são as que não têm resposta. Há pessoas interessadas, que lêem, que sabem, mas que não têm metafísica, como diria o Álvaro de Campos.

Para mim, a grande questão continua a ser: a morte é o fim ou uma passagem?


O melhor argumento para a morte como fim: quando um braço deixa ter condições para funcionar acabar, quando um rim deixa de ter condições para funcionar acaba, quando a cabeça deixa de ter condições para funcionar acabar - e este argumento assassina a possibilidade da continuidade do espírito sem matéria.

O melhor argumento para a morte como passagem: tanta aprendizagem, tanta experiência, tanto sonho, tanta inquietude... para tudo terminar de forma abrupta um dia? Armazenamos tanta experiência e sabedoria para tudo, num instante, desaparecer para sempre? Não tem lógica que o ser humano só exista para se alimentar todos os dias, beber água, defecar e urinar?

Outros argumentos haverá: as experiências quase morte, iguais nos relatos em todas as épocas e culturas, cujas pessoas (passo o pleonasmo) que as experienciam garantem a continuidade da vida. As pessoas que os budistas aferem lembrar-se de vidas anteriores através do reconhecimento de objectos de vidas anteriores, através da descrição física interior de casas onde nunca nesta vida estiveram.

Outro argumento ainda:



Tenho outras dúvidas que me assolam.


Se isto acaba, é assustador. Se isto é para sempre, se isto nunca vai acabar... também é assustador.

Se Deus é omnisciente, como nos concede o livre-arbítrio? Se Deus sabe tudo, sabe tudo então o que eu irei escolher... Logo não tenho liberdade. Das duas, uma.

Angel-descendo-às-profundezas-ou-subindo-ao-assento-etéreo

quinta-feira, julho 26, 2007

Um taxista contou-me que na Calçada de Carriche um tunning a duzentos à hora matou uma senhora que ia dentro de um táxi. Eu não vi nada disto das notícias. Nada, absolutamente nada. Perguntei a mais pessoas. Ninguém sabia.

Delírio do taxista?

Voltei a apanhar outro taxista que me recontou a história.

Estes filhos da... não percebem que a via pública não é só deles?

OK, a excitação, a adrenalina, a necessidade de se auto-convencerem que são viris... Tudo isso... Eu compreendo MAS POR FAVOR: Matem-se sozinhos.

Angel

A mais bonita letra?

Anterior ao terceiro

O dia mais feliz que alguma vez tive
Num mar de ouro mesmo ao teu lado
Tão desfocados e tão cansados debaixo do sol de verão
Tu sussurraste sonhos de um mundo porvir...
Nós estávamos tão apaixonados
Neste mar de ouro tão novos e tão cansados
Debaixo de um sol ardente ao teu lado...
Sussurrando sonhos de um mundo porvir
Nós estávamos tão apaixonados
O dia mais feliz
Sim o dia mais feliz que conheci...
Mas o sol de verão e o mar de ouro
Este dia perfeito há já tanto tempo
Sussurrando sonhos tão desfocados e cansados
Nós temos de manter este dia vivo
Sonhos sussurrados tão novos e tão cansados
É difícil suster este dia dentro de nós
E a noite mais feliz que alguma vez tive
Bem próximo de ti num areal prateado
Tão assustados e tão elevados debaixo da lua de inverno
Tu sussurraste sonhos que iriam tornar-se todos realidade
Nós estávamos tão apaixonados
Bem próximo de ti tão extenuados e tão elevados
Debaixo da lua de inverno eu chorei
Sussurrando sonhos num areal prateado...
Nós estávamos tão apaixonados...
A noite mais feliz
Sim a noite mais feliz que conheci...
Mas a lua de inverno e o areal prateado
Esta noite perfeita numa outra terra
Sussurrando sonhos tão assustados e tão elevados...
Nós temos de manter esta noite viva
Sonhos sussurrados tão extenuados e tão elevados...
É difícil suster esta noite dentro de nós
E todo o sol de verão que eu quero de novo
E toda a lua de inverno que eu quero igual...
O meu dia mais feliz e a minha noite mais feliz...
Sempre próximo de ti...
Seguros bem dentro de mim...
Mantêm-me vivo

Angel traduzindo Robert Smith

Graças a ti, Acropolis

Caramba Angel, este teu post é para aplaudir de pé energicamente! Que ímpeto e vigor! Arrebatou(-me)!

Merece uma visibilidade global, como artigo num periódico de elevada tiragem mas...vale aqui A Tasca! :D

Parabéns!
Lisboa com má nota em teste de honestidade
PEDRO SOUSA TAVARES
RUI COUTINHO (imagem)

Lisboa não ficou nada bem vista num "teste mundial de honestidade" promovido por várias revistas internacionais, a ser publicado na próxima edição da Reader's Digest. Recorrendo a telemóveis, estrategicamente 'perdidos' em locais públicos de 32 metrópoles mundiais, repórteres avaliaram as atitudes dos que os encontravam. A capital portuguesa ficou num pouco honroso 28.º lugar. Pior só mesmo Amesterdão, Bucareste, Hong Kong e Kuala Lumpur. No extremo oposto, com os cidadãos mais conscientes, destacaram-se Liubiliana, Toronto e Seul.

A armadilha em Lisboa foi montada por jornalistas da Reader's Digest, que esperaram, escondidos, que as pessoas encontrassem os telemóveis, e que depois lhes ligaram. O objectivo era saber se concordavam em devolver os aparelhos, se faziam alguma chamada enquanto os tinham em sua posse e se, efectivamente, os entregavam. Nalguns casos, os aparelhos foram desligados de imediato. Noutros, a pessoa chegou a marcar um encontro para a entrega, mas nunca apareceu. Mas também houve bons samaritanos. E muitas vezes pessoas aparentemente mais fáceis de tentar, como um desempregado de 44 anos que correu a devolver o telemóvel a uma repórter que o tinha deixado no banco de um centro comercial. Porém, do 30 telemóveis de média gama, abandonados em vários pontos da cidade, só 15 foram devolvidos. Uma "taxa de honestidade" de 50%, bastante abaixo da média global, que se cotou nos 67%.

Devoluções "são muito raras"

Mesmo assim, atendendo à experiência das operadoras portuguesas com este tipo de casos, até não se pode dizer que o balanço tenha sido mau de todo: "São muito raras as situações em que as pessoas se dirigem às nossas lojas para entregar telemóveis que tenham encontrado", disse ao DN fonte da TMN, operadora que conta com mais de 5,7 milhões de clientes activos. " O mais frequente é ficarem com os aparelhos", contou.

E a dificuldade em encontrar o proprietário não serve de desculpa. Mesmo que um telefonema para um dos números da a lista de contactos não resolva o problema, hoje em dia muitos clientes das operadoras, tanto nos serviços pós-pago como pré-pago, estão identificados: "Caso seja entregue um equipamento numa qualquer loja TMN, a própria TMN procede a uma pesquisa na base de dados dos seus clientes com vista à identificação do legítimo titular do equipamento. Uma vez identificado o proprietário, a TMN entra de seguida em contacto com ele".

Por outro lado, esta responsável confessou "não ser possível" calcular o número de pessoas que mensalmente pedem a desactivação dos seus telefones por perda ou roubo, porque o que é apurado é um saldo "final" em cada trimestre, com o balanço das contas criadas e extintas. "As desactivações são tratadas caso a caso, diariamente", explicou. |

terça-feira, julho 24, 2007

E tu és mais do que aquilo que pensas...
E eu sou mais do que aquilo que vês...

Pedro Abrunhosa

nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas


e.e.cummings

domingo, julho 22, 2007

Diz a poetisa Adília Lopes que se quando fosse adolescente(pelo menos) um trolha lhe tivesse dito «ò boa, comia-te toda», hoje seria uma mulher diferente, com muito mais auto-estima.


Angel
«Kilimanjaro é uma montanha coberta de neve, com seis mil metros de altura, que, segundo se diz, é a montanha mais alta de África. O seu cume ocidental tem o nome de Ngaje Nagai, em masai a Casa de Deus. Próximo do pico ocidental existe a carcaça seca e gelada de um leopardo. Ainda ninguém conseguiu explicar o que o leopardo andava a fazer a semelhante altitude».


Hemingway, Ernest, As Neves do Kilimanjaro,

sábado, julho 21, 2007

O poder dos olhos

Quando quiserem saber o sentimento de alguém, não procurem nas palavras, não procurem sequer nas atitudes - simplesmente leiam-lhe os olhos.

Angel

sexta-feira, julho 20, 2007

Eu não gosto de falar de assuntos de casa de banho. Mas ontem entrei numa casa de banho de faculdade (tenha uma aversão irracional a urinóis) e o que vi era tão asqueroso que tive de mudar para a casa de banho ao lado. Ainda estava pior! Mudei para uma terceira e estava tão suja quanto a primeira. Não mudei mais.

Porque é que nunca nunca nunca fui a uma casa de banho privada de alguém que estivesse assim tratada?

Por que raio são as pessoas muito mais zelosas do que é SÓ SEU do que é DOS OUTROS TAMBÉM?

Caramba, não deveria ser ao contrário?

Angel
"Deixemos as mulheres bonitas para os homens sem imaginação."

Marcel Proust
Estando parado na passadeira de peões com total visibilidade para os carros, irritei-me. Isto é normal, mas hoje decidi manifestar-me. E apontei para a passadeira. Um dos dois automobilistas contra quem me insurgi, levantou a mão em jeito de desculpa.

A complacência é sempre o alimento do abuso de alguém.

O número de vezes que um carro pára na passadeira para deixar passar peões é o barómetro do civismo de um país.

Angel

O problema português

O economista Ernâni Lopes afirmou, há uns anos, numa entrevista ao Expresso que enquanto os pais puserem cunhas aos filhos para terem um bom emprego e enquanto os filhos só se preocuparem em tirar boas notas e não em aprenderem; a economia portuguesa não avançará.

A maioria dos portugueses não concorda com Ernâni Lopes. Os políticos que nos governam (houve algum que tivéssemos gostado?) são os responsáveis pelo desemprego, pela crise económica, pelo atraso profundo do país. Eles e os funcionários públicos.

O Cavaco era um insensível social, o Guterres um titubeante, o Durão um obcecado com o défice, o Santana Lopes um irresponsável, o Sócrates um propagandista.

A visão de Ernâni Lopes é muito interessante, especialmente porque vem de dentro da ciência económica. Regra geral, os economistas atribuem os problemas da economia a coisas abstractas como o défice orçamental ou a despesa pública.

Esquecem-se que se cada um dos empresários se demitir de inovar, se cada um dos trabalhadores se demitir de se esforçar, se cada um dos portugueses se demitir de apostar no seu capital intelectual; não há políticas que resistam. Um lugar-comum que muitos economistas parecem ignorar: a economia é feita de pessoas.

A mentalidade portuguesa é inimiga da produtividade. Em Portugal, impera a cultura do desenrascanço e do chico-espertismo.

O contribuinte que consiga sacar uns dinheiros ao Estado com uns truques nas declarações de impostos fá-lo orgulhosamente. O estudante que possa fazer telefonemas pessoais da Associação de Estudantes fá-lo para não ser o totó que não usufrui do telefone. O contabilista ou advogado que possa cobrar os seus elevados serviços mínimos fá-lo mesmo que tenha perdido apenas dois minutos do seu preciosíssimo tempo. O técnico da Internet que lide com um leigo em informática, despudoradamente inventará um problema exógeno à sua empresa para se descartar de trabalho. O comercial do banco que venha a ganhar uma comissão choruda com a venda de um determinado cartão, tentará impingi-lo por menos que se adeqúe ao perfil do cliente (é que para além do dinheiro, ainda servirá de graçola ao almoço).

Não o fazem todos os outros? Vou ser o único otário? E já agora: para quê esta conversa toda, quando o Verão está aí à porta? No Verão, toda a gente sabe, só trabalham os palermas…


Angel

Diálogos na Sétima Arte

Ele: Aquela rapariga é tão linda...
Ela (interessada nele): Qual aquela?
Ele: Ela tem um cabelo... Aquele ondulado...
Ela: Aquilo? Carradas de amaciador...

quarta-feira, julho 18, 2007

À medida que envelhecemos vamos tendo mais certezas ou mais dúvidas?

À medida que envelhecemos vamos tendo mais ou menos paciência para as falhas dos outros?


Angel
«A vida tem odor a mar e a menta entre os seios.»

Pablo Neruda, Ode à Vida

terça-feira, julho 17, 2007

Jesus Cristo

«Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber; era peregrino e recebestes-me; estava nu e destes-me de vestir; adoeci e visitastes-me; estive na prisão e fostes ter comigo». Então, os justos responder-lhe-ão: «Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?». E o Rei dir-lhes-á em resposta: «Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt. 25, 35-40).
O monstro verde a que se referia Shakespeare, o ciúme, é normalmente associado ao Amor, à Paixão.

Mas quantas vezes o ciúme não surge na amizade?


Angel

segunda-feira, julho 16, 2007

Orelhas a mais

Há pessoas que não conseguem ouvir as outras. Mesmo nos curtos intervalos de tempo em que não estão a falar, fingindo ouvir o interlocutor, estão apenas a verbalizar interiormente o que irão dizer em seguida.

Angel

domingo, julho 15, 2007

Lost in translation

O filme da minha vida, em ex-aequo com O clube dos poetas mortos, tem uma beleza que não é facilmente acessível.

Vi-o várias vezes e sucessivamente vou encontrando nele mais pormenores subtis. É deles que aqui venho falar, dando-me ao luxo de ignorar a interpretação do meu actor favorito; que encarna como ninguém a quintessência do homem idealista esmagado pela vida, maduramente resignado, céptico e irónico.

Lost in translation +é daquelas obras de arte em que o que se esconde é mais importante do que o que se mostra. Há pessoas também que não precisam de nos dizer ou mostrar determinadas coisas, porque nós intuímos-las e sabemo-las; e compreendemo-las e amamo-las. É fascinante quando a comunicação se faz pelo que não se diz. Pela omissão.

Não entender isto é não ter a chave para decifrar o filme. Dois indivíduos cruzam-se no elevador. O sorriso inesperado que brota dela para ele é tão suave, tão balsâmico... Quantas vezes não sentimos uma súbita sensação empática com alguém? Quantas vezes um simples sorriso matinal nos concede uma indestrutível perspectiva radiante do dia à nossa frente? Quantas vezes a comunicação através de um simples gesto esmaga uma torrente de palavras?

O que une estes indivíduos subitamente ligados pelo fio de um sorriso terno?

Ambos são desajustados. Ambos não se inserem no mundo. Sentem-se incompreendidos. Não conseguem partilhar o seu ângulo do mundo. Ambos vivem dentro do seu mundo interior, paralelo. Ambos vêem um no outro a redenção, ou muito mais do que isso: a compreensão.

Há uma situação em que a rapariga está com o seu namorado e com uma miúda bela e fútil. Ela vê o namorado entusiasmado com ela. A rapariga vai saltando os olhos entre o desenrolar das frivolidades dela e a cara embevecida do namorado; e pela expressão da sua cara intuímos que aquilo que a perpassa não é ciúme, é a execração da rendição a uma cara bonita numa alma oca.

Durante o filme, a relação entre eles, insinua entre a amizade, insinua entre algo mais; e nós nunca sabemos em que casa nos situar. O filme não é taxativo e directo. É sublime.

No final, o filme volta a esconder e não a mostrar. Ele diz-lhe um segredo quando se despedem e nós só vemos (não ouvimos) uma pessoa a falar algum tempo para o ouvido de outra - e cada pessoa preenche o espaço em falta com a imaginação.

Pelo meio, há um diálogo de duas pessoas deitadas na cama a olhar para o tecto. Absolutamente extraordinário pela ausência de clichés. Como o filme não pretende ser politicamente correcto, ainda ouvimos o Bill Murray dizer (quando questionado por filhos):

- O dia em que nasceu o meu primeiro filho foi o dia mais terrível da minha vida. Porque a tua vida, conforme a concebeste até então, desapareceu para sempre...

Angel





sábado, julho 14, 2007

" Uma mulher rejeitada é um exército em ebulição."

José Alberto Braga

sexta-feira, julho 13, 2007

Belo e revigorante

"Entrego-me ao húmus para crescer da erva que amo,
Se me quiseres de novo procura-me debaixo das solas das tuas botas.

Mal saberás quem sou ou o que significo,
Mas serei para ti a saúde,
E hei-de filtrar e dar energia ao teu sangue.

Se à primeira não conseguíres alcançar-me, não percas a coragem,
Se não me encontrares num lugar, procura noutro,
Estarei em qualquer sítio à tua espera."

O maior poeta de sempre: Walt Whitman, Canto de mim mesmo

Literatura

Os dois finais mais apoteóticos da literatura:

- O romance The Great Gatsby, Francis Scott Fitzgerald;

- O conto The Dead, James Joyce.

quinta-feira, julho 12, 2007

O SER HUMANO NÃO É LÓGICO

O ser humano não é lógico, nem coerente. A grande falha dos sistemas de pensamento do Ocidente face ao Oriente é que os primeiro privilegiam demasiado a lógica e a razão, e o segundos a intuição e o paradoxo.

A melhor maneira que tenho de demonstrar o ilógico que é o ser humano é com uma história que presenciei.

Tinha (tenho) um amigo cuja maior fobia era ir ao dentista. Um dia perguntei-lhe o porquê e, como qualquer medo extremo, ele não conseguía racionalizar.

Certo dia, uma dor fortíssima assolou a sua boca. Ele falou comigo. Não dormia, não tinha vontade de fazer nada, nunca tivera uma dor assim. Estava no inferno. Expliquei-lhe que eu já tivera dor de dentes e confirmei-lhe que eram as piores dores do mundo.

- O que posso fazer?

- Tens de ir ao dentista?

Ele teimou que não e andou a experimentar de tudo. A dor não passou e ele viu-se obrigado a ir. Disse-lhe que o acompanharia.

Estava com ele na sala de espera, ele estava nervosíssimo, e eu distraío-o com as revistas. Consegui fazê-lo rir.

Chamaram-no.

Entrei com ele.

Ele explicou ao dentista o seu pavor pelo seu ofício e a sua tremenda renitência em ir lá. O dentista, por sorte simpático e paciente, explicou-lhe todos os aparelhos.

Ele sentou-se. O dentista ia falando com ele de trivialidades. Ele percebeu o propósito e viu o dentista a mexer num objecto indesejável.

- Doutor, não vai usar isso...

O dentista explicou-lhe a função daquele objecto pontiagudo mas disse que se quisesse usaria outro. Ele pediu outro e o dentista fez-lhe a vontade.

Ligou a luz do aparelho.

- Encoste a cabeça para trás...

Ele encostou.

- Agora abra a boca...

- Isso não doutor...

- Homem, se não abrir a boca, não lhe posso fazer nada...

- Doutor, peça-me tudo menos para abrir a boca.

- Eu assim não lhe posso fazer nada.

- Doutor a boca não vou abrir.

O dentista deu por encerrada a consulta e eu fui com ele à recepção pagar.


Angel

Moda

Eu gostava de poder dizer que o meu gosto era impermeável aos ventos do tempo. Infelizmente, não o é.

Por mais fútil e inane que consideremos a moda, somos todos, em maior ou menor grau, escravos imperceptíveis dela.

Sabem porque digo isto? Porque vi a RTP Memória há instantes. Quem diz que não liga à moda, que veja como nos vestíamos nos anos oitenta.

Aquelas gravatas? Aqueles penteados? Aqueles vestidos? Aquelas calças de ganga?


Angel
Versão Fernando Pessoa:

Uma gripe muda a face do Universo.


Versão Angel:

Uma dor de dentes muda a face do Universo.

Do blog http://paralelasconversas.blogspot.com/

"No final não nos lembraremos das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos"Martin Luther King (1929-1968)"
Outro dia conheci uma pessoa que sabe desde muito novo que tem uma doença degenerativa. Desde muito novo, sabe que tem esperança de vida limitada.

Ficou progressivamente sem mobilidade, sem visão, e com cada vez mais dores. Perdeu a visão por completo, as pernas, um rim... E sabe que vai piorar ainda mais.

Esta pessoa optou cedo por um estilo próprio de vida. Afirma que teve com mais de 500 mulheres na cama. Bebeu, drogou-se, saiu imenso à noite. Viveu para se divertir.

Ouvi duas reacções à sua história.

«É incrível como ele conseguiu dar a voltar por cima. Ele, tendo o mínimo, viveu a vida ao máximo.»

«Mas que existência tão fútil. Não vai levar nada de cá. A vida de ele não foi útil a ninguém, a começar por ele mesmo.»


Angel

Fotos S.G.

quarta-feira, julho 11, 2007

Fotos Staring Girl

Mentalidades acompanham lei vigente

Há um argumento muito recorrente usado para travar algumas batalhas de liberalização dos costumes.

Seja a legalização da prostituição ou o casamento de homossexuais: "a sociedade ainda não está preparada"; "há que mudar as mentalidades primeiro".

Como diz o Woody Allen: "a tradição é a ilusão da perpetuidade." E de facto, qualquer debate eivado de razão e lógica, só é rebatível pelos conservadores com sentimentos de honra bacocos ou preconceitos. Os caminhos que depois de abrem são perigosos. O beato João César das Neves escreveu que depois do casamento dos homossexuais, virá a legalização da pedofilia e do bestialismo.

Os argumentos pró-legalização da prostituição e casamento dos homossexuais são cristalinos. Sobre o segundo já escrevi imenso neste blog e sobre o primeiro nunca.

Vi uma reportagem televisiva que dizia que 80% dos clientes da prostituição não usava protecção e que 1/3 das prostitutas está contaminada com doenças contagiosas. Que perigo público! O combate contra a sida passa pela regulamentação da prostituição.

E o combate contra a escravatura também. Acabar com os chulos, com a coacção psicológica e física que se abate sobre estas escravas.

Os argumentos contra são três: "as mentes não estão preparadas"; os caminhos medonhos em desaguam o abrir de precedentes à la César das Neves; ou o argumento do PCP que é muito conservador nos costumes (veja-se a homossexualidade) e que afirma ser a pactuação com a exploração do corpo (quando a "exploração" é o que existe através do chulo em ambiente de clandestinidade).

"As mentes não estão preparadas" é algo que temos de combater em todas as áreas em que é invocado para travar a modernidade. Porque as mentes nunca estão preparadas.

Também quando se discutia o divórcio, as mentes bolorentas vindas do salazarismo não estavam preparadas. E o argumento (hoje absurdo) de que os filhos dos divorciados seriam estigmatizados na escola é hoje decalcado para obstar à adopção de filhos por casais homossexuais porque, claro está, serão ostracizados na escola.

As mentes não avançam por decreto? Em parte avançam. As mentalidades adaptam-se às leis. E as leis devem ditar as mentalidades.

Há 30 anos a mulher para ser comerciante precisava de autorização do marido e este podia violar alegremente a correspondência da sua esposa. Há 40 anos, a mulher para passar a fronteira, precisava de carta escrita pelo marido!

A lei mudou e as mentes acompanharam a mudança.

Alguém tem dúvida que se os homossexuais passarem a casar, se nós os virmos na televisão a casar, tal imagem se banalizará... no melhor sentido da palavra.

Angel

terça-feira, julho 10, 2007

SE PELO MENOS ESTA NOITE PUDÉSSEMOS DORMIR


Se pelo menos esta noite pudéssemos dormir
numa cama feita de flores
Se pelo menos esta noite pudéssemos cair
num feitiço imortal
Se pelo menos esta noite pudéssemos deslizar
para dentro de profundas águas negras
E respirar
E respirar...

Depois um anjo viria
com olhos ardentes como estrelas
e enterrava-nos fundo
nos seus braços de veludo

E a chuva choraria
à medida que os nossos rostos se iriam embora
E a chuva choraria

Não o deixes acabar...

The Cure traduzido por Angel

Uma das máximas mais sábias de sempre

«Não é possível comer o bolo e ficar com ele.»

Explica tanta coisa...

segunda-feira, julho 09, 2007

As boas acções

AS BOAS AÇÕES
.
Esmagar sempre o próximo
não acaba por cansar?
Invejar provoca um esforço
que inchas as veias da fronte.
A mão que se estende naturalmente
dá e recebe com a mesma facilidade.
Mas a mão que agarra com avidez
rapidamente endurece.
Ah! que delicioso é dar!
Ser generoso que bela tentação!
Uma boa palavra brota suavemente
como um suspiro de felicidade!
.
Bertolt Brecht
"A fome é a suprema obscenidade do mundo."

José Saramago

Luís Figo

Outro dia uma pessoa amiga falava dos meus ódios de estimação. Terei dito uma vez que não via filmes em que entrasse o Bruce Willis, o Steven Seagal e o Patrick Swayze. Terei também dito que não gostava desse grande ídolo nacional chamado Luís Figo.

Perguntaram-me porquê num tom indignado. Se eu não era patriota. Mais: se eu não amava a pátria, não me amava a mim próprio. Perante estas vilipendiações, venho defender-me.

1. Luís Figo quando saiu do Barcelona, de onde ganhava dezenas de milhares de contos, para o Real Madrid onde ganhava mais de uma centena de milhar de contos, afirmou: "Vocês têm de compreender: eu tenho uma família para sustentar." Filho da puta, que obscenidade, existem 840 milhões de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia.

2. Apesar do dinheiro que ganha, nunca soube de uma acção filantrópica(presumo que abrir o bar Sete não o seja). Nunca o vi, de resto, apoiar qualquer causa.

3. Para quem fala em patriotismo, o a pátria de Luís Figo é apenas o dinheiro. Luís Figo nunca jogou na selecção o que jogou nos clubes e chegou a dar conferências na qualidade de jogador da selecção em espanhol.

4. Como jogador, falhou sempre nos momentos decisivos. E um grande jogador revela-se precisamente nos momentos de maior pressão. Nas meias-finais, na altura em que Humberto treinava a seleccção, contra a França, não jogou peva; pelo Real Madrid contra o Bayer Lerverkussen na final da champions foi uma nulidade e substituído aos 60 minutos; contra a Juventus nas meias-finais da champions falhou o penalty que levaria o Real à Final.


5. Ao contrário do afável Rui Costa que sempre teve o sonho de voltar ao seu clube, Figo no final da sua carreira continuou unicamente interessado em ganhar dinheiro: petrodólares na arábia ou bom contrato no inter. A única semelhança entre o Sporting e o seu clube do coração é a cor: verde (cor do dinheiro).

Angel
"Esse fogo já não arde dentro de mim"

Belle Toujours (último filme de Manoel de Oliveira)

domingo, julho 08, 2007

«Na hora violeta, quando os olhos e as costas
Se levantam da secretária, quando a máquina humana espera
Como um táxi esperando, palpitante,
(...)
Na hora violeta, a hora da noite que nos arrasta
Para casa, e traz o marinheiro do mar,
A dactilógrafa de volta à hora do chá, arrumando a louça do
pequeno almoço, acendendo
O fogão e abrindo as latas de conserva.»


T. S. Elliot
Supúnhamos que uma rapariga se casa e tem um irmão mais velho e solteiro.

Qual a pergunta mais recorrente que ele ouvirá?

- Então e quando é o seu casamento?

Supúnhamos que dois namorados se casam.

Qual a pergunta mais recorrente que ouvirão?

- Então para quando um rebentozinho?


Para além de intromissão na vida privada, para além da assimilação acrítica de convenções, para além da imposição de modelos de felicidade universais; acho que este tipo de questões são má-educação.

Angel
"Uma noite de Verão é como uma pensamento perfeito."

Wallace Stevens
Profissões que não me importaria de ser (ou que terei sido noutra reencarnação):

Actor, padre, psicólogo, detective, declamador de poesia.

sexta-feira, julho 06, 2007

«De cada vez que te apetecer criticar alguém, lembra-te que nem todos neste mundo gozaram as mesmas vantagens do que tu.»

O Grande Gatsby, Francis Scott Fitzgerald

quinta-feira, julho 05, 2007

Sou um coninhas

Uma rapariga conheceu um rapaz na noite e envolveram-se. Ele disse-lhe que ajudava a mãe a fazer a sopa (e ela comentou: "mas que tóto"). Depois foram para o quarto, ele foi à casa de banho. Como demorasse, ela bateu à porta, ele pediu para não entrar e disse:

"Estou a fazer cóco, não entres s.f.f."

Ela achou-o demasiado feminino (não acho feminino, quando muito pueril) e já não tiveram relações.

Eu que digo cóco em vez de merda, pum em vez de p..., que tenho uma relação cúmplice com avó, que não mato um mosquito quando tomo banho, contorcendo-me tudo para o salvar; sou demasiado coninhas para alguém se interessar por mim.

Angel :(
Hoje observei duas raparigas que falavam compulsivamente, atropelando-se nos diálogos. Nenhuma ouvia outra e falavam imenso.

Quantas pessoas não há assim?

Angel

Retratos de ti

eu tenho estado a olhar há tanto tempo para os meus retratos de ti que eu quase acredito que eles são reais
eu tenho vivido há tanto tempo com os meus retratos de ti que eu quase acredito que os retratos são tudo o que eu posso sentir

lembrando-me de ti estando tranquila na chuva
à medida que eu corri para o teu coração para estar perto
e nós beijámo-nos enquanto o céu desabava
agarrando-te firmemente como eu sempre te agarrei firmemente no teu medo
lembrando-me de ti correndo suavemente pela noite
tu eras maior e mais brilhante e mais branca do que neve
e gritaste no fingimento gritaste no céu
e tu finalmente encontraste toda a tua coragem para deixar tudo ir embora

lembrando-me ti caída nos meus braços
chorando pela morte do teu coração
tu eras pedra branca tão delicada
perdida no frio
tu estavas sempre tão perdido no escuro
lembrando-me de ti como tu costumavas ser
lenta afogada tu eras anjos
tão muito mais do que tudo
oh agarra pela última vez
depois fugir tranquilamente
abro os meus olhos
mas eu nunca vi nada

se pelo menos tivesse pensado nas palavras certas
eu poderia ter-me agarrado ao teu coração
se pelo menos eu tivesse pensado nas palavras certas
eu não me estaria separando de todos os meus retratos de ti

olhando há tanto tempo para os meus retratos de ti mas nunca agarrei o teu coração
procurando há tanto tempo que as palavras sejam verdadeiras mas sempre me separando dos meus retratos de ti

não havia nada no mundo que eu alguma vez tenha querido mais
do que sentir-te profundamente no meu coração
não havia no mundo que eu alguma vez tenha querido mais
do que nunca sentir a separação de todos meus retratos de ti...

Robert Smith traduzido por Angel

Palavras que amo

aveludada, enigmática, esvoaçar, adejar, escarlate, imaginação

quarta-feira, julho 04, 2007

Palavras interditas de serem banidas

Magnetismo, girassóis, amor, solidariedade, ágape, púrpura, cintilante, imaculada, magia, murmúrios, boiar, sonho, encantador...

Palavras que deviam ser banidas II

maricas

de Maria

s. m.,
indivíduo efeminado;
homossexual;
adj. 2 gén. e 2 núm.,
medricas;
pusilânime.

Esta ambivalência da palavra faz que se crie o preconceito estúpido que os homossexuais são fracos, cobardes. Conheço homossexuais extremamente corajosos (basta que o assumam para o serem) e com grande resistência ao sofrimento. Esta associação de ideias é própria de energúmenos.

Palavras que deviam ser banidas

Cavalheirismo.

Arrepia-me a espinha sempre que alguém me dirige esta palavra.

Outro dia, estando eu numa piscina, com duas raparigas ao meu lado direito, uma terceira amiga delas estava sentada ao meu lado esquerdo. Como as três queriam falar, eu naturalmente levantei-me e concedi o meu lugar (que criava um muro entre elas).

Ouvi a palavra «cavalheiro» e senti vómitos. Respeito, educação, solidariedade; sem cor, sem género, clube de futebol ou credo religioso. Ao chamarem-me de cavalheiro, indirectamente estão a dizer-me que se fossem homens na mesma situação, eu não me levantaria para ceder o lugar. Está redondamente enganadas.

Angel

terça-feira, julho 03, 2007

Conversas interceptadas

- Ando a comê-la agora...

- E a gaja é alguma cena de jeito?

- Não é nada de jeito. Mas dá para esvaziar o saco...

(risos)

Anjo-destilando-o-real-cru-e-fedorento

Desejar coisas impossíveis

lembra-te como costumava ser
quando o Sol cobria o céu
lembra-te como nos costumávamos sentir
esses dias nunca acabariam...
esses duas nunca acabariam...

lembra-te como costumava ser
quando as estrelas impregnavam o céu
lembra-te como costumávamos sonhar
essas noites nunca acabariam...
essas noites nunca acabariam...

foi a doçura da tua pele
foi a esperança de tudo o que poderíamos ter sido
que me encheram a esperança de desejar
coisas impossíveis
desejar coisas impossíveis

mas agora que o Sol brilha frio
e todo o céu está cinzento
as estrelas estão obscurecidas por nuvens e lágrimas
e tudo o que eu desejo
foi-se embora
tudo o que eu desejo foi-se embora
tudo o que eu desejo
foi-se embora

tudo o que desejo
foi-se embora

tudo o que desejo
foi-se embora

Robert Smith traduzido por Angel

segunda-feira, julho 02, 2007

Respeito

No mercado de trabalho, e na vida em geral, constantemente me tenho cruzado com corruptores. Não imaginam o quão difícil é demonstrar o crime de corrupção. Eu fá-lo por experiência própria, e como autor de processos. Ficarei muitíssimo satisfeito se aumentar o número de presos por corrupção. Sabes quantos são em Portugal?

OITO. APENAS OITO.

É muito difícil demonstrar um crime que implica duas pessoas, duas vantagens para ambas, e consequentemente só elas sabem. Portanto... como descobrir? E ainda para mais como arranjar documentos, como fazer escutas telefónicas se estas requerem autorização prévia do juiz?

Há cinco anos que tenho um processo a correr. E desde então, muitos outros corruptos e caloteiros tenho conhecido.

O mercado de trabalho, ou aquilo que eu conheci dele, mete-me tanto nojo. Dava um livro o que eu já conheci. Desde não pagantes, a tipos que falam em contrato fabuloso para ir sacando trabalhos atrás de trabalhos como escravo, passando por empresas que pedem para martelar as suas contas para esconder falcatruas...

Cada vez mais acho que é necessária atenção, cautela, mas não defesas em excesso que nos faça vítimas constantes da Teoria da Conspiração. O caminho do meio, já dizia Aristóteles, é sempre o melhor. Qualquer virtude exagerada é sempre um defeito. A coragem é boa, mas o excesso dela, é não temer o perigo, é ser temerário... (por exemplo)

Para além de atenção, da intuição e da boa avaliação de carácteres, a característica mais importante no mercado de trablho é a firmeza. Educação mas sem passividade. Saber dizer que não. Como dizem por aí: assertividade.

Um dia cheguei à empresa onde trabalhava às onze da manhã. Como no dia anterior saíra de lá às cinco da manhã, estava tranquilíssimo. O meu horário era das 9.00 às 18.00. Uma álgebra simples permitia saber que eu dera 11 horas à empresa (não pagas) e que retirara duas no dia a seguir; ficando a empresa a dever-me nove horas.

O administrador da empresa entrou-me pouco depois no escritório.

- Então, você chega a estas horas e nem me diz nada?

- Saí ontem às cinco da manhã...

- Sabe o que é que o meu patrão me dizia: «Nas empresas há horário de entrada, mas não há horário de saída»

- Faço-lhe a justiça de acreditar que nem tem uma concepção tão arcaica do que é uma empresa - disse com um sorriso.

Ele sorriu também e a partir daí fundou nele um respeito profundo pela minha pessoa.

Angel-o-mundo-está-áspero-defensivo-bom-para-manhosos-e-egoístas
«A consistência é o último refúgio dos homens sem imaginação.»

Oscar Wilde

Impressões

Abri a janela

Num dia de Sol e borboletas

Era tudo tão belo

Que eu pensei:

«Vou passar este dia para o papel

Sem impressões de mim»

Dediquei-me entusiasmado…

…Mas havia sempre algo

Que me puxava…

Havia sempre algo

Que eu contaminava…



Angel

domingo, julho 01, 2007

Os benefícios do tabaco

Viver sem fumar é como escrever sem pontuação. Pelo menos, para mim. A pequena cerimónia de acender um cigarro marca um "tempo": o princípio do dia, o princípio do trabalho, cada intervalo ou cada distracção, o alívio (ou o prazer) de acabar qualquer coisa, o almoço (quando almoço), o jantar (quando janto), o fim do dia, antes de fechar a luz, como um ponto parágrafo. O cigarro divide, acentua, encoraja, consola. Abre e fecha. É uma estação e uma recapitulação. "Já cheguei aqui. Falta ainda isto, isto e aquilo". Nas poucas vezes que tentei não fumar, tinha um sentimento de desordem, de arbitrariedade, de não saber passar de um frase a outra ou de um capítulo ao capítulo seguinte. Os fumadores, se repararem bem, não fumam ao acaso; fumam com ritmo.
O cigarro também é uma companhia. Sobretudo para quem trabalha sozinho. A maior parte das pessoas vai falando, pouco ou muito, durante o trabalho. Por necessidade ou por gozo próprio. Do "serviço" à intriga, há milhares de oportunidades para o grande e simpático exercício de conhecer o próximo: para gostar dele ou para o detestar, para o observar, o comentar ou o intrigar. De porta fechada, à frente de um computador ou de um livro, não há nada à volta. Aí o cigarro ajuda. É um fiel amigo: a pausa que torna o resto tolerável. E que, além disso, recompensa uma boa ideia ou manifesta o entusiasmo ou a execração pelo que se leu. Com quem se pode conversar senão com o cigarro? De certa maneira, o cigarro substitui a humanidade; e não me obriguem a fazer analogias. Mas, principalmente, fumar serve para pensar. Quando, a ler ou a escrever, paro a meio de uma página, porque me perdi num argumento ou não consigo imaginar como se continua, pego num cigarro e penso. Não me levanto, não me agito, não abro a boca, não me distraio. Fumo e procuro com paciência a asneira. O cigarro concentra e acalma. Restabelece, por assim dizer, a normalidade.
E este efeito "normalizador" é com certeza uma das suas maiores virtudes. Não comecei a fumar para ser adulto ou "viril". Comecei a fumar porque sou horrorosamente tímido e porque o cigarro é com certeza a maior defesa dos tímidos. Primeiro, porque ocupa as mãos e simula um arzinho de à-vontade. E, segundo, porque esconde e protege ou cria a ilusão de que esconde e protege. Por detrás de um cigarro, o mundo parece mais seguro. Mesmo se andam por aí a garantir que não.

VPV in Público

Para o Sailor 1

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.


Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.


Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;


Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!



Luís de Camões

«Uma livraria é uma das poucas evidências de que a raça humana continua a pensar.»

Jerry Seinfield
Looking for something forever gone
But something
We will always want

The Cure, From the edge of the deep green sea
Comprei um livro muito bom, que de tão bom tive de encomendar, porque o mercado português não se dignou encomendá-lo e traduzi-lo.

O livro "The Paris Review Interviews", a revista literária por excelência, reúne as melhores entrevistas feitas a escritores ao longo de mais de 50 anos de existência. É um documento impressionante, com testemunhos fabulosos de Orwell, T.S. Elliot, Jorge Luis Borges, Hemingway, Saul Bellow...

Parece que os escritores têm este obscuro talento de terem uma opinião sobre tudo e de terem um ângulo muito próprio de ver o mundo. Ser escritor é ter voz própria, claro está...

Hemingway (que não é dos escritores da minha preferência) desenvolve uma profunda teoria da escrita (e da arte em geral).

O escritor (tal como o artista) não deve mostrar muito. Hemingway diz que num livro a ponta do icebergue visível deve ser o mais curta posssível, mas que a base submersa deve ser enorme. Diz Hemingway que tudo aquilo que nós sabemos, que tudo aquilo que vemos e aprendemos, vai-se transformando na reserva do icebergue submerso.

Dito de outra maneira: tudo aquilo que nós sabemos é despejado na escrita. Está submerso na profundidade das águas do texto. Quanto mais sabemos, maior o icebergue.

O entrevistador diz que ele nunca escreveu sobre pesadelos. Hemingway responde:

«A partir do momento que eu próprio já tive pesadelos e sei de outras pessoas que os tiveram, então os pesadelos têm de estar naquilo que escrevi.»

Será que o inconsciente despeja mesmo tudo no papel?

Angel

Saiu-se-me

Ontem, em conversa com um ateu, disse-lhe:

«Ser agnóstico é mais humilde que ser ateu. É não ter a fé positiva da crença em Deus, nem a fé negativa da certeza da ausência de Deus. São ambas certezas derivadas da fé. Não podes provar nem a existência nem a ausência de Deus.»

Angel

Ainda a Peneda