sábado, junho 30, 2007

Fotos da Peneda (by staring girl)

Ontem à noite, ouvi uma história de vida que me abalou os alicerces. Conheci um indivíduo que tem, desde terna idade, uma doença mortal e degenerativa.

Progressivamente perdeu a visão até ficar completamente cego, perdeu as duas pernas, os rins; tendo cada vez mais dores.

Continua a ir todos os dias trabalhar para o hospital onde é recepcionista. Tem próteses nas pernas. Apanha todos os dias o autocarro. Como os amigos lhe davam boleias e ele não gostava de se sentir um fardo, comprou dois carros para os amigos usarem. Tem um sentido de humor apreciável e ontem deu umas boas gargalhadas de riso genuíno. Os médicos dizem que não durará mais quatro anos.

Disse-me esta frase absolutamente espantosa:

«Tenho a minha hora de embarque marcada. Mas continuo a achar a vida um espectáculo incrível...»

Depois de o conhecer, só posso dizer:

- Como são irrelevantes todos os nossos problemas...

Angel-vivemos-em-mundinhos-cuja-importância-amplificamos-sobremaneira
«Seria bonito morrer no banco», diz Trapattoni

Giovanni Trapattoni está longe de pensar na reforma. Aos 68 anos, a Velha Raposa diz que seria «muito bonito» gozar os derradeiros minutos da sua vida no «banco».

«Para alguém como eu, que ama o futebol e que nunca foi traído por ele, seria muito bonito morrer no banco, durante um jogo», disse Trapattoni, em entrevista ao jornal austríaco Kurier.

Campeão na época passada com o Red Bull Salzburgo, o treinador que conduziu o Benfica ao título em 2004/05 diz que gostaria de «ficar no banco para sempre»: «Na vida só temos três certezas: que um dia nascemos, que depois nos desenvolvemos e que, no fim, morremos. Entre tudo isso, temos de nos divertir».

sexta-feira, junho 29, 2007

Há anos que secretamente pensava que só eu era assim (tirando talvez, de certa maneira, o meu pai):

«Sou um inepto, não sirvo para nada, não me entendo com estes aparelhos, não me entendo com o lado imediatamente prático da vida, computadores, telemóveis, cartões de crédito, máquinas fotográficas, mapas, supermercados. Devia ter nascido esquimó. Nem comer decentemente sei. (...) De que maneira funcionará este cubo incompreensível? [máquina de lavar loiça]»

António Lobo Antunes in Visão

Vale a pena viver só para ver coisas assim (croácia)

Polónia

Para quem acha que a U.E. é imune ao surgimento de regimes totalitários, ponham os vossos olhos na Polónia desde que os gémeos direitistas são Presidente da República e primeiro-ministro:

- Os titulares de cargos públicos como professores, juízes, advogados, jornalistas são obrigados a assinar uma carta declarando que não colaboraram com o anterior regime comunista, sob pena de não exercerem a sua profissão;

- O professor que faça menção da homossexualidade - vista como uma aberração, tal como o divórcio - é despedido do ensino;

- Fazer topless na praia é proibido e sujeito a multa;

- O aborto é estritamente proibido. Recentemente, uma mulher que ficaria cega se levasse a gravidez até ao fim, foi impedida de abortar;

- Todas as religiões, para lá do Catolicismo, não têm dignidade. Os discursos anti-católicos são vilipendiados;

- A pena de morte já foi anunciada apesar de a Constituição Europeia expressamente a proibir.

Angel



«Os dias, na esperança de um só dia»

Luís de Camões

O ser humano é bom ou mau?

Uma das grandes e irrespondíveis questões é se o ser humano é bom ou mau. Rosseau pensa que é bom, Sade e Hobbes pensam que é mau. A Esquerda, depositária de Rosseau acredita no Optimismo Antropológico, a Direita no Pessimismo Antropológico.

Rosseau dizia que no estado da natureza, um homem que visse outro amarrado a uma árvore, privado de abrigo e comida, mesmo que não o conhecesse de parte nenhuma, provavelmente sentiria compaixão por ele, desejando que ele se libertasse...

Hobbes dizia que se não houvessem leis e prisões, Estado, enfim, que os homens se digladiariam e matariam na mais caótica anarquia das paixões.

Quando se estuda criminologia, vê-se bem as diferenças entre Esquerda e Direita. A Esquerda defende o combate mais longo, pelas causas sociais. A Direita pela via da repressão, mais eficaz (nem sempre...) a curto prazo.

Eu acredito que grande parte da criminalidade assente em causas sociais, mas também não gosto de descurar que - como dizia Keynes - "a longo prazo estamos todos mortos".

A linha divisória é que a Esquerda atribui o mal ao ambiente social e a Direita à responsabilidade individual, quando não à genética.

O filósofo Agostinho da Silva disse ser impossível saber até que ponto o ambiente social influía nas pessoas - e que por isso só nos podiamos contentar em especular. É impossível - explicava o filósofo - isolar o homem da sociedade e ver como ele se comportava. E o menino selvagem? - perguntaram-lhe sobre o menino encontrado na selva que nunca viu um ser humano. Mesmo esses já teria incorporado o ambiente social nos genes de outras linhagens...

É impossível portanto saber se são as instituições e as leis que tornam o homem mau ou vice-versa...

O Dalai-Lama acredita que o homem é bom e explica:

Só reparamos nas coisas más. Se tivermos um dia na praia, tudo calmo, tranquilo, fazemos um castelo que demora imenso tempo... uma só onda tem o poder de destruição. Diz ele que o acto de criação é a constante no ser humano (por exemplo, pais que passam a vida a cuidar dos filhos), mas que para destruir é muito mais momentâneo e que é essa maior ocasionalidade dos actos de destruição que faz com que eles fiquem mais facilmente impressos na memória. A harmonia, a criação, são coisas pacientes, demoradas, constantes, tão inerentes a nós que nem damos por elas.

Os media são muito asssim. Não destacam as coisas boas, como fazer voluntariado, fazer uma doação, ou salvar a vida a alguém; é só crimes e sangue.

Angel

quinta-feira, junho 28, 2007

Felicidade com f pequeno

A felicidade muitas vezes mora em casas minúsculas.

Há coisas como um sorriso inesperado e largo quando estamos macambúzio e recolhidos de nós próprios, uma camisa que subitamente gostámos de vestir, a nossa música quando ligamos a rádio, o dia de Sol quando corremos o estore e sentimos a fresca brisa matinal....

Hoje fiquei bem-disposto para o resto do dia quando um velho amigo me revisitou e teceu considerações sobre o blog e sobre a necessidade de uma ética e de uma espiritualidade para o mundo ocidental (neste ponto temos muito a aprender com os tibetanos).

Angel

quarta-feira, junho 27, 2007

Estejam atentos, muito atentos...

Limites diários de trabalho com fim à vista

Comissão propõe horários concentrados
Os limites de horários diários vão deixar de existir. Isto é pelo menos o que a Comissão do Livro Branco das Relações Laborais propôs ao Governo. Actualmente, o Código do Trabalho (CT) determina como limite as oito horas diárias, que pode ser alargado em mais duas horas (caso haja acordo entre o patrão e o trabalhador) ou em quatro horas (se for estipulado em instrumento de regulamentação colectiva de trabalho) desde que cumpra determinados tectos semanais. Porém, caso o Governo siga a sugestão da comissão presidida por António Monteiro Fernandes, a lei passará a definir apenas "os limites dos períodos normais de trabalho, semanal e anual, mas não o diário", tal como refere o Relatório de Progresso desta comissão, ontem entregue aos parceiros sociais, e a que o DN teve acesso.

Significa isto que alguém pode ser obrigado pelo patrão a trabalhar 24 horas por dia? Não, mas apenas por via das normas legais que obrigam a interrupções para descanso do trabalhador. Actualmente, o Código do Trabalho refere explicitamente que essa interrupção terá "uma duração não inferior a uma hora, nem superior a duas de modo a que os trabalhadores não prestem mais de cinco horas de trabalho consecutivo". Mas, pese embora estas interrupções obrigatórias para descanso e alimentação, se esta proposta for adoptada pelo Executivo, um trabalhador poderá, na prática, ficar 24 horas seguidas fora de casa, afecto à actividade da empresa.

Horários concentrados

A comissão vai ainda mais longe na flexibilidade horária, propondo aquilo a que chama de "horários concentrados", que se traduz na existência de "dois ou três dias de horário prolongado, seguidos de dois ou três dias de descanso, respectivamente".

A questão dos horários de trabalhos insere-se no domínio da flexibilidade interna, que, de acordo com o relatório ontem divulgado, será uma das prioridades na revisão do Código do Trabalho. O objectivo é dar mais liberdade à organização interna das empresas, de modo a que estas se possam adaptar melhor às exigências do mercado, garantindo a competitividade do País.

Dentro da flexibilidade interna das empresas, a comissão propõe ainda alterações ao período legal de férias e ao cálculo do subsídio respectivo.

Em matéria salarial, os membros da comissão querem que a lei aponte de forma clara as situações em que um trabalhador pode ver a sua remuneração reduzida "com base em fundamentos objectivos". Actualmente, o código já prevê a mudança para categoria inferior quando "imposta por necessidades prementes da empresa" e desde que aceite pelo próprio e "autorizada pela Inspecção-Geral do Trabalho" (IGT). Porém, o CT é omisso quanto à redução salarial. Agora, pretende-se que a legislação se torne mais clara e que especifique as situações concretas em que pode efectivamente existir uma redução salarial, mas sempre sujeita a acordo com o trabalhador.

Ainda dentro da flexibilidade no interior das empresas, o relatório ontem divulgado aborda as questões da mobilidade funcional, mas, neste caso, para propor algumas limitações.

Despedimentos facilitados

Uma das questões mais sensíveis diz naturalmente respeito ao regime de cessação do contrato de trabalho. A comissão entende que não deve haver alterações ao nível dos motivos que já hoje justificam o despedimento, mas defende a simplificação dos procedimentos e propõe que o incumprimento de obrigações formais actualmente exigidas às empresas não constitua impedimento da cessação do contrato.

A avaliar pelo relatório entregue ontem aos parceiros, os motivos que levam ao despedimento dos trabalhadores vão ser os mesmos. Mas a sua concretização será muito mais fácil.

Novas regras só em 2008

O documento ontem enviado às confederações patronais e às centrais sindicais é apenas uma versão preliminar do relatório final que esta comissão terá de entregar ao ministro até ao final do ano. Isto quer dizer que a entrada em vigor das alterações que Governo vai introduzir ao Código do Trabalho só deverá ocorrer, na melhor das hipóteses, em 2008. A promessa inicial do ministro Vieira da Silva era ter negociado as alterações com os parceiros sociais até ao final de 2006 para entrarem em vigor em 2007. Mas Vieira da Silva tinha já uma frente de batalha nas mãos com a reforma da Segurança Social e por isso optou por ganhar tempo criando a comissão. A falta de vontade política em arranjar mais uma frente de batalha fez com que a nomeação dos membros da comissão demorasse vários meses.


In DN

terça-feira, junho 26, 2007

Gerir o tédio

Domingo, fui ao Teatro ver a peça de um dos livros da minha vida: The Great Gatsby. A peça prolongou-se das 16.00 até à 0.00, com dois intervalos de 10 minutos e um de hora e meia.

Inacreditavelmente, mantive-me fresco (mais do que isso: vidrado) do princípio ao fim. O enredo, por mim conhecido, nem é o mais importante... O sublime são as descrições, a poética que perfuma a prosa limpa, como o final mais apoteótico da História da Literatura. Os actores eram óptimos e a encenação boa. Até me emocionei ao ponto de umas pequenas lágrimas envergonhadas...

Estávamos 50 pessoas (talvez menos a ver). Claro que com o dinheiro dos bilhetes, a companhia ERS dos EUA não poderia fazê-lo. Se o Estado se demite de apoiar a cultura, muita cultura é mutilada pelo mercado.

A nova geração tem cada vez menos paciência para todo o tipo de estímulos que não sejam imediatos. Se uma coisa não a agarra logo, como a playstation agarra, então é uma seca... Não entendem que os prazeres se degustam melhor quando o paladar requintadamente se apura ao longo do tempo... A literatura, a filosofia, não agarram logo e vão ficando cada vez mais para trás... "A arder para toda a eternidade" nas palavras do Herberto Helder.

Ver esta peça permite-me gerir bem o tédio. Se estamos sete horas a ver uma peça, em que ainda para mais se lê do princípio ao fim um livro, estamos aptos para gerir mais facilmente o tédio quando encravados no trânsito, quando esperamos o autocarro, quando esperamos no dentista rodeados de revistas desbotadas de frivolidades...

Angel

THE PERFECT GIRL

You're such a strange girl
I think you come from another world
You're such a strange girl
I really don't understand a word
You're such a strange girl
I'd like to shake you around and around
You're such a strange girl
I'd likeTo turn you
All upside down
You're such a strange girl
The way you look like you do
You're such a strange girl
I wantTo be with you
I think i'm falling
I think i'm falling in
I think i'm falling in love with you
With you

The Cure
Sometimes I´m dreaming
Where all the other people dance...


The Cure, Charlotte Sometimes

segunda-feira, junho 25, 2007

Se o rídiculo pagasse imposto

A propósito das eleições para a Câmara de Lisboa e da falta de verbas, ouçamos o seguinte diagnóstico do líder do PNR:

«Não aceito que gastem dinheiro em teatrinhos marxistas e arraiais gays.»

Poemas do baú

Já teria mais de 15...

MEDO

Eu continuo a ter medo do escuro...
Continuo a não caminhar por caminhos inexplorados...

O terror da árvore vermelha
Paralisa-me...

Poemas dos 15 anos

No tal baú dos 15 anos, tenho encontrado imensas letras traduzidas e poemas meus...

DIVINA

Tu és a onda que nunca quebra
és a estrela que nunca se apaga
és a suavidade da brisa matinal
és a chuva que desliza pela asa terna da pomba
és o sorriso inocente de uma criança
és a brancura da neve imaculada
és o cume inatingível da mais bela montanha
és a música que emana da flauta do encantador de serpentes
és as asas azuis aveludadas de um anjo
és simplesmente o paraíso...

sábado, junho 23, 2007

Artistas da sombra

Numa aula, ouvi:

«Os revisores (dos livros) são os artistas da sombra.»

De facto, mesmo que um livro tenha sido muito alterado por um revisor, mesmo que este tenha ensinado o autor a escrever, o seu nome figurará, em letra pequena, numa página interna do livro que normalmente ninguém lê.

Eu próprio já escrevi um livro de fio a pavio de um tipo que tinhas boas estórias para contar mas não sabia escrever. Ainda outro dia peguei nele na Feira do Livro, olhei para a capa, a fotografia do autor bem grande... e sorri.

Claro que há casos que toda a gente sabe... O Jardel e outros quejandos. Mas muitos há que ninguém sabe.

Mas nesta sociedade muita coisa em que os artistas estão na sombra. Quem são os homens que escrevem os discursos dos políticos? Quem são os que escrevem os discursos dos melhores humoristas? Quem realmente decide as guerras? Quem realmente manda nos governos?

O Pacheco Pereira disse a propósito do programa televisivo Big Brother que era "a melhor metáfora das sociedades modernas." Porque nós vemos, explicou, o que eles querem que nós vejamos. "Mas quem é que dita as ordens? Quem é o Big Brother? Nós não sabemos..."

Anjo-perfurando-o-osso-até-ao-último-reduto-do-insondável-mistério

sexta-feira, junho 22, 2007

Mulher ideal (definida aos 15 anos)

Estando a arrumar gavetas, encontrei umas coisas muito engraçadas do meu passado. Quando tinha quinze anos, escrevi aquilo que achava ser o meu Bilhete de Identidade da alma. Há coisas que me identifico ainda profundamente. Mas acho que - curioso - hoje tenho menos certezas. A idade, o processo de envelhecer é um pouco um processo de ter cada vez mais dúvidas e menos certezas...

Uma coisa que eu encontrei nesse meu B.I. da alma:

Mulher ideal: Morena, olhos escuros, cabelo ondulado, óculos de intelectual, misteriosa, calma.


Nunca estive com ninguém com estas características (todas)...

Angel-dreamer-but-not-the-only-one

quinta-feira, junho 21, 2007

TVI

Os telejornais da TVI (e eu já fiz uma tese sobre os telejornais dos quatro canais e este era, sob critérios objectivos e mensuráveis, de muito, muito longe o pior) não cessam de surpreender pela negativa.

Desde a inclusão de notícias do Big Brother no jornal televisivo a fait-divers que abrem telejornais, passando por velhinhas que tropeçaram num pedaço de cócó de cão e exigiram indemnização ao dono.

Hoje, num café, vi o telejornal da TVI. A notícia do Vaticano e da Estrada, que dizia que as pessoas não devem beber alcoolizadas porque perigam a vida dos outros, que devem auxiliar os feridos na estrada parando obrigatoriamente, que não devem usar o carro como instrumento de domínio (e como isto é verdade no nosso país em que é mais importante ter um bom carro que uma boa casa). A TVI não apanhou a substância e só disse na peça "os condutores devem benzer-se antes de rezar". É profundamente estúpido.

Angel

quarta-feira, junho 20, 2007

Vaticano e a Estrada (não espiritual...)

O Vaticano apresentou, ontem, os "10 Mandamentos da Estrada", documento que pretende promover a segurança rodoviária através da "virtude cristã", numa altura em que os acidentes causam anualmente 1,2 milhões de mortos em todo o Mundo. O "Decálogo dos Condutores" foi elaborado pelo Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes (CPPMI), cujo presidente, cardeal Renato Martino, afirmou que a actual situação de insegurança nas estradas é "um grande desafio para a sociedade e para a Igreja".

Segundo o CPPMI, ao longo do século passado, morreram 35 milhões de pessoas em acidentes rodoviários, de que resultaram, ainda, mais de mil milhões de feridos.

O primeiro mandamento é "Não matarás", seguindo-se "A estrada seja para ti um instrumento de comunhão, não de danos mortais" e "Cortesia, correcção e prudência ajudar-te-ão". "Sê caridoso e ajuda o próximo em necessidade, especialmente se for vítima de um acidente", "O automóvel não seja para ti expressão de poder, de domínio e ocasião de pecado", "Convence os jovens e os menos jovens a não conduzir quando não estão em condições de o fazer", "Apoia as famílias das vítimas dos acidentes", "Procura conciliar a vítima e o automobilista agressor, para que possam viver a experiência libertadora do perdão", são outros do Mandamentos.

Como se pode dizer TANTO em tão pouco

"A dor é incolor"

José Alberto Braga

Robots e Poesia

Hoje entrevistei Harold Cohen, um artista que criou um programa, imaginemos um robot, que mediante as instruções do artista produz uma série de quadros.

Ele deita-se à noite, diz-lhe o que quer e acorda com centenas de variantes de quadros para concretizar a ideia.

Diz Harold Cohen, o pioneiro da inteligência artificial aplicada à pintura, que quando morrer vai ser o único artista «com obras novas póstumas a surgirem infinitamente». O robot dele vem sendo aperfeiçoado há quanto anos e já pinta rostos, paisagens e animais. O próximo passo é - pasme-se - desenvolver o robot de sensibilidade estética. Harold quer acordar e não ter de seleccionar os bons quadros - quer que o robot passe a ter o gosto para o destrinçar e que ele próprio, o robot, o escolha...

Perguntei-lhe que outras artes poderiam beneficiar destes robos semi-autónomos, ao que ele me respondeu: a Música. Qual a mais difícil arte de ser feita por robots?

A poesia, disse Harold. «Porque para fazer poesia é precise dominar o mundo. Seria preciso o robot viver, experenciando uma vida neste mundo.»

Angel

domingo, junho 17, 2007

Um amigo do blog deu isto...




sábado, junho 16, 2007

Dois anúncios de emprego - CAPITALISMO SELVAGEM

Revista plenitude

Somos uma revista mensal em franca expansão que visa melhorar ainda MAIS os seus conteúdos.Como tal, procuramos jornalistas e estagiários em comunicação social para colaborar com a nossa e vossa Plenitude.
Procuramos Jornalistas para integrar a nossa redacção com o seguinte perfil:-Candidatos com experiência em outros órgãos de comunicação social;-Dinamismo-Clareza de conteúdos e ideias-Iniciativa-Muito profissionalismo
EstagiáriosRecém-licenciados ou finalista em Comunicação Social e com os mesmos parâmetros anteriormente referidos.
Local: Lisboa
Obs- Humildade é um item a levar em consideração
Os interessados devem enviar o CV para:
ramiresfernando@hotmail.com
ou ligar 914126992
Mencionar a referênciaJornalista(Ref-Jor)Estagiários (Ref-Estagiários)


Empresa na área da Comunicação e Relações Públicas na grande Lisboa admite licenciado (a) em Comunicação para estágio, não remunerado, de 3 meses.
Envio de CV, até dia 22 de Junho, via e-mail: mvicente@dne.pt

Laranja Mecânica

Há um fenómeno novo na paisagem urbana: gangs. Os políticos evitam o assunto, mas eles crescentemente pululam, agradecendo a indiferença. Nos últimos anos, cresceram 400% (estatística que li no Diário de Notícias).

No Bairro Alto, já os vi a limpar ruas. Passaram, despejaram copos de cerveja na cabeça das pessoas, apagaram cigarros na cabeça...

No autocarro, hoje, um velho a coxear pedia lincença, e o ganguezinho não o deixou passar:

"Desculpe, eu não ouço bem. Quer o quê? É que eu sou surdo. E mudo também, sabe?"

Angel

quarta-feira, junho 13, 2007

Um outro olhar sobre o caso Madeleine

Estava em Albufeira numa sessão de autógrafos quando a SIC me pediu um depoimento a partir da Praia da Luz, a propósito do caso Madeleine. Aceitei e tive oportunidade de conhecer o local do hipotético rapto. E digo hipotético porque quando se investiga um mistério pôr de lado outras soluções para o enigma pode ser útil na ficção mas não é possível em investigação criminal. Daí que na gíria policial, quando ferve o trabalho de pesquisa, se glose o princípio constitucional da presunção de inocência, afirmando-se que até prova em contrário todos são suspeitos.Ao ver o local do putativo rapto recordei as declarações enfatizadas dos vários especialistas de polícia que as televisões inglesas trouxeram a Portugal. Na altura achei estranha a segurança das suas convicções. Era tudo demasiado certinho para poder aceitar sem reserva muitas das teses apresentadas. E agora que vi, com trinta anos de vida olhando para crimes, polícias, criminosos, estou, como nesses primeiros dias, hesitante em acreditar piamente na verdade dominante.Era capaz de acreditar com maior convicção na história do rapto que emocionou o Mundo e que a imprensa inglesa pressionou incondicionalmente para transformar num psicodrama familiar se algumas respostas tivessem perguntas mais capazes.Explico-me melhor. A polícia saberá a que horas e quem foi a última pessoa que viu a menina com vida? Entre a hora que saiu da escola mais ninguém viu o casal e as três crianças? Quem terá sido a última pessoa fora da família? E os irmãos? Sabe-se que crianças com dois anos e tal falam. Contam coisas sem coerência, é certo, mas falam. Algum especialista falou com elas? Algum especialista estudou os seus comportamentos depois do tal rapto? Os pais autorizaram? Persisto naquilo que escrevi na primeira vez que toquei publicamente neste tema. Às 20h30 no Algarve, onde o Sol ainda brilha, três crianças com menos de quatro anos dormem o sono da noite e os pais jantam longe, em local de onde não se vê a parte mais resguardada da casa. Quantas horas dormem estas crianças? Quem fez a última vigilância? A que horas?Lê-se que os pais têm assessor para a imprensa e a explicação é boa. Não deixar morrer o caso. E depois de se saber de um retrato-robô sem grande fiabilidade arranca uma campanha publicitária brutal que faz acreditar que só há uma hipótese. A menina foi raptada. E se não foi? Sabe-se que a polícia não encontrou indícios fortes de invasão da casa pelo raptor. E se acordou, assustou-se e saiu de casa? E se houve um acidente em casa e morreu, como acontece tantas vezes? As dúvidas aumentam quando se olha o local. Os raptos, na sua maioria, são feitos no meio de grandes multidões, parques de estacionamento, em maternidades com muito movimento. Ali, naquele canto, com tanto vizinho à volta, o raptor terá de ser audacioso para decidir uma coisa assim. Um mês depois, uma polícia avisada não estará tranquila com as pistas que chegam de todo o Mundo. É sempre assim. Deve voltar ao princípio e começar tudo de novo. Talvez se perceba melhor quem foi o autor do crime, se de crime se tratou.

Francisco Moita Flores in Correio da Manhã

terça-feira, junho 12, 2007

Adolescência

A fase de maior estupidez e exibicionismo é a adolescência. Há imensa gente que é «puto estúpido» (como eu, por exemplo) que anos mais tarde se suaviza.

Constantemente em autocarros vejo adolescentes, com 15, 16, 17 anos, a fazerem estragos totalmente inconsequentes, desde insultar o motorista, a bater nos vidros e a rir alarvemente, a pôr música do telemóvel em altos berros; tudo isto para impressionarem os seus pares.

Outro dia passando pelo jardim do Arco do Cego, vi uns oito, nove adolescentes ou pré-adolescentes, a passarem uma garrafa entre eles, que cada um ia sorvendo com uma expressão facil de repulsa, até que quando chegou ao último se ouviu:

- Vai! Vai! Vai! Vai! Vai!

E o último lá bebeu com uma cara que expressava horrores (como quando se põe a mão no nariz para engolir um remédio horrível), partindo de seguida a garrafa no chão (ainda consigo ouvir o som da garrafa a partir-se ao recordar o episódio). Os cacos ficaram pelo jardim.

É curioso ver como de geração para geração, os adolescentes se regeneram perpetuamente cruéis, estigmatizando, humilhando e troçando do das borbulhas, do caixa-de-óculos (hoje nerd), do bucha, do maricas, do menino da mãmã...

No meu secundário, lembro-me como alguns colegas eram violentamente trucidados (como o bochechas que tinha o azar de ter bochechas que todos apertavam e que era gozado em cada recreio por este facto tão estupidamente anódino) e pergunto-me até que ponto essas feridas não cicratizarão pela vida fora...

Outro dia um amigo meu, muito alto, hoje muito sociável, confidenciou-me que tinha a sua auto-estima muito danificada desde novo. Eu perguntei-lhe porquê ao que ele respondeu:

- No secundário, todos gozavam comigo... Eu era o grandalhão desajeitado. Angel, todos temos os nossos traumas do secundário que ficam para sempre connosco; só que poucos o admitem.

Quando se é novo, uma gargalhada dos outros é uma massagem para o nosso ego mais valioso do que manter uma amizade. Prefere-se, regra geral, perder um bom amigo a uma boa piada. Vi isto nos balneários do meu secundário e hoje vejo-o nos autocarros.

Cheguei a ver um rapaz a chorar porque o líder da turma, um tipo mais velho que chumbara duas vezes e que gostava de mostrar que era mau, o enxovalhou. Ele tentou escudar-se no seu amigo. O seu amigo, não resistiu ao medo do julgamento do líder e gozou-o também quando foi interpelado pelo líder. O rapaz desatou num pranto pungente.

Espero que estas pessoas olhem para trás com arrependimento e que ainda ouçam o seu choro.

Eu olho para trás e vejo que o número de piadas que lançava por aula foi pura vaidade. Como diz Wilde... «Experiência é o nome que os homens dão aos seus erros.»

Tudo valia para sobressairmos. Tudo valia para deixarmos a nossa marca.

Anjo-engenheiro-de-almas-envergonhado

domingo, junho 10, 2007

Medo da noite

Numa aula de Jornalismo ouvi um professor dizer:

«Os media empolam muito uns fenómenos e desvalorizam outros. O pior é que são eficazes. Dizem que a noite é perigosa e nós acreditamos. Contudo, morreu uma pessoa o ano passado na noite e nas estradas morrem cinco pessoas por dia.»

Pessoalmente, detesto violência. O critério número um para a minha escolha de qualquer lugar noctívago é precisamente a menor propensão das pessoas que frequentam determinado espaço para a incontinência da violência física.

E talvez por isso quando penso na noite, não pense em violência - porque o meu microcosmos (Barraca, Incógnito, Lux, Da Mariquinhas) é já de si escolhido. Logo, a amostra não é representativa. Tenho por exemplo sabido de casos terríveis, de vários assaltos violentos no bairro alto, de ataques de gangues, de facadas.

Outro dia a mãe de um amigo meu fez-me, contudo, soar as palavras do professor. Tenho um amigo, que é uma excelente pessoa, mas que tem uma mundividência bem diferente da minha noite. Ele tem um carro a cair de podre (há 27 anos) e gosta de conduzir com ele a 150km à hora e depois deixá-lo deslizar em ponto morto... Claro que basta uma rajada vento para ele se juntar à maioria, como dizem os ingleses eufemisticamente sobre a Morte.

A mãe dele, se não sabe destes hábitos, pelo menos sabe que ele acelera e sabe que o carro tem 27 anos e que precisa de imensas peças que ele nem pode comprar por não se encontrarem no mercado...

Do seu automóvel decrépito e dos seus hábitos de velocidade, não advêem preocupações para a sua mãe. Mas outro dia, indo eu com ele tomar café ao Aeroporto e chegando ele antes das duas, tive de ouvir a mãe a dar-me (a mim!) na cabeça.

- Ai tiveram até tão tarde...

- Fomos só tomar café.

- Mas é perigoso àquelas horas.

- Tivémos dentro do Aeroporto. Até temos a Polícia lá dentro...

- Já não há sítios seguros, Angelinho...

Ange(inho)

sexta-feira, junho 08, 2007

OCEANO

Aqui estou eu em lado nenhum…
Balão diletante
… Boiando…
…Boiando …

Conheci todas as coisas, amei todas as pessoas…
Quebrei todas elas
(Como um cristal contendo
Um líquido precioso)
Vertendo a sua essência…
Para os meus lábios sôfregos.

Metamorfoseei-me em todas as coisas,
Passeei por dentro de todas as pessoas...
Mas ao contrário dos outros…
Não ancorei nelas…
Parti sempre para outras…
Os outros hoje vêem a realidade
Pelo seu buraco da fechadura
E eu vejo tudo de lado nenhum.

E tudo o que tenho cá dentro
É mais do que tudo…
Tudo o que li, vi, pensei
Amei, sonhei, agarrei
Vivi.
(Como uma taça transbordando líquidos
Que não existiram em nenhuma garrafa).

Sou a orgia de sexo, comida e riso alarve das dezenas de pessoas nuas na mansão…
Sou o eremita isolado na montanha coberta de neve…
Sou o deus encarnado no artista em cima do palco convergindo os gritos da multidão…
Sou a força do místico contemplando a paisagem e diluindo o seu eu na Alma Universal…
Sou o sorriso libertador do budista que saltou para fora da roda da insatisfação…
Sou o fogo libertino do álcool, da droga, da ausência de regras e amanhãs…
Sou a beleza do comportamento escorreito e das figuras geométricas regulares…
Sou o encanto da vida dupla e dos segredos só contados à noite…
Sou o estado limpo do despertar solar, do exercício físico e do dever cumprido…
Sou o conforto do habitual, o valor da palavra, a lealdade, a verticalidade,
O refúgio do cobertor na chuva, a certeza dos velhos amigos na desgraça…
Sou a frescura das sensações novas, a surpresa, a explosão das cores, a evolução,
O novo gelado do Verão, as alamedas verdejantes, o desabrochar da flor amarela ao Sol…
Sou o romântico ciente de que a melhor experiência do mundo é unitária: o Amor…
Sou o eclético que se libertou da mais ardilosa das construções sociais: a monogamia…
Sou o charme do fumo azul pairando sedutoramente pelo bar…
Sou a melodia da palavra casa para aquele que regressa extenuado do mundo cruel…
Sou a repugnância do nazi pelos fracos, sujos e pusilânimes e o seu fascínio
Pelos belos e fortes que platonicamente devem perdurar a Força e a Beleza…
Sou a solidariedade do socialista e o amor do cristão condensados
Na compaixão do homem bom pelo sofrimento do Outro que é igual ao seu…
Sou a harmonia conceptual dessa manifestação divina que não se vê nem se sente e
Que só funciona desde que ninguém se preocupe com ela: o mercado!
Sou essa coisa que insufla a alma do comunista: o vislumbre de um
Maravilhoso mundo novo sem exploração e sem classes…
Sou o rugido de leão do grito de liberdade do anarquista
Almejando libertar a humanidade de todas as correntes…
Sou a beleza amena que circunda o playboy zen na praia paradisíaca
Rodeado de deliciosas mulheres, areia de prata, luz e altas palmeiras…
Sou o cheiro fétido que perpassa o acampamento dos toxicodependentes
Por entre os montes caóticos de lixo, os rostos irreconhecíveis e as seringas…
Sou a porta escancarada para as largas avenidas do contentamento…
Sou o envelope trémulo nas mãos do doente que receiam a sua sentença de morte…
Sou a vitória saborosa de quem acabou de cometer a longa vingança
Sorrindo perante o inimigo caído ao seus pés…
Sou o abraço compassivo da jovem caminhante
Ao mendigo andrajoso sangrando na beira da estrada…
Sou o pintainho com a pata magoada saltitando amorável por entre a chuva…
Sou o magnetismo emanando do verde docemente enigmático da pantera…
Sou o longo campo de girassóis encharcados de Sol que sabes sorrirem só para ti…
Sou os barcos atracados numa tarde opaca de domingo…
Sou a lua de Inverno, gelo imponente e cintilante, brilhando na noite mágica...
Sou os sonhos de Verão de um mundo porvir sussurrado na praia de ouro…
Sou a onda de mel quente e doce que submerge os namorados no banco do jardim…
Sou o relógio dos amantes batendo fora deste tempo algures fora deste espaço…
Sou o perfume natural do teu ente amado que te ficou entranhado na ponta do dedo…
Sou o som das ondas invadindo aveludadamente o silêncio da praia à noite …
Sou o murmúrio do teu nome arranhando-te a alma na noite encantada…
Sou as flores rebentando no subsolo do mais belo poema
Cuja beleza só o próprio poeta alcançará…
Sou esse não-sei-quê que emana da flauta do encantador de serpentes
Hipnotizando toda a humanidade…
Sou o mistério do outro lado da porta… do templo… sem porta…
Sou a tal grande boca que acolherá os frios e os quentes e vomitará os mornos…
Sou o iate iluminado à noite, deslizando suave e majestático…
Transportando todas as pessoas para o seu destino…
Sou a corda invisível (tu nunca soubeste o que era…)
Que te puxa para as tuas coisas favoritas e para as tuas pessoas preferidas…
Sou o material intangível por detrás da última camada do inconsciente
Fazendo navegar os teus sonhos…
Sou o preconceito irresistível a favor de tudo o que é teu…

Sou essa coisa que só tu sentes...
Intransmissível ao mundo
Invisível por entre as palavras
Que te perpassa agora …
Provocando-te esse doce arrepio…
Desenhando-te esse sorriso…
E eu sorrio ao ver esse sorriso…

Oh! O mistério em todas as coisas…
A noite intemporal, o mar prateado…
O tempo urdindo em silêncio
Por entre o sossego do mundo…
As estrelas e a imensidão lá em cima…
A face visível do inescrutável…
Oh! A beleza em todas as coisas…
O teu sorriso tutti frutti
E os teus seios de baunilha…
Suspensos à porta do infinito…
Oh! Poder cair sempre de novo…
Neste feitiço imortal…

Oh! Eu quero estar sempre aqui...
Eu quero estar sempre sempre aqui...
Aqui em pé
Quando a claridade substitui a noite…
Sentir esta coisa esplêndida
A recomeçar sempre
A vida…
Escorrendo-me por entre as veias
Como a mais fabulosa bebida…
Oh! Eu quero estar sempre aqui …
Eu quero estar sempre sempre aqui…
Imaginar os dias porvir…
Efervescendo algures…
E sorrir…

Vem…
Perde-te na profundidade do meu ser…
Mergulha nestas águas infinitas…
Deixa o teu rosto encostar-se ao meu…
Lá no fundo…
Ele será o teu espelho…

No hotel da minha alma
Haverá sempre um quarto com vista para a tua paisagem favorita…

Angel

quinta-feira, junho 07, 2007

Hoje, na Antena 1, ouvi:

"Há dois tipos de pessoas: as que deixam o fato e a roupinha pronta para o dia seguinte e as que se deitam sem o fazer."

quarta-feira, junho 06, 2007

LEITURA E ESTADO

Outro dia na Feira do Livro, depois de comprar um livro virei costas, e o meu amigo que me acompanhava disse logo:

-Não pedes factura? Isso desconto no IRS...

Pedi a factura.

Entretanto, perguntei a um amigo meu que percebe de IRS, se os livros eram dedutíveis no IRS.

Ele explicou-me que sim, desde que se insiram no âmbito de material de um curso que estejamos a tirar.

Os livros técnicos é que se estimula... E depois não percebem porque ninguém lê...

O Estado ajuda-me se eu comprar um manual de montagem de componentes eléctrico ou de gestão financeira, mas a ler Kafka ou Fitzgerald nadinha!

A cultura tem poucos apoios. É claro que não explica tudo. Como diz o meu amigo ancião livreiro:

- Não têm 15 euros para comprar um livro mas têm 15 euros para pagar a entrada numa discoteca...

Mas, mesmo assim, o Estado deve apoiar, fomentar, incentivar a leitura. Ela também, de uma forma rebuscada e estrutural que os economistas do nosso país não conseguem entender, aumenta o nosso PIB.

Aqui fica a proposta:

Alarguem a dedução do IRS para todo e qualquer livro. Garantidamente, haverá aumento dos indíces de leitura.

Angel-afastando-o-nevoeiro-em-busca-dos-indícios-cintilantes
"É preciso ser-se um homem forte para se expor as fraquezas"

Balzac

terça-feira, junho 05, 2007

Espelho

Se todos fossem como tu,
Quão melhor seria o mundo – costumavas pensar
Incorporando o Outro em todas as tuas decisões
Fazendo aos outros
Aquilo que gostavas que te fizessem a ti
Mas que já não acreditas…

Dói a indiferença
Dói a ingratidão
Tenta passar pela vida
Como um sonho…
Como um filme…
Não te apegues a ninguém…
O cinismo e o distanciamento
São a gruta dos idealistas envergonhados
(como tu)

Tudo era doce e alegre
Quando a menina brincava
Com as papoilas e as borboletas
Desconhecendo o dinheiro e o sexo…

Agora limitas-te a cultivar
Esse ar desprendido
Esse jeito displicente
Escondendo a desilusão
Deste sempre tudo
E no final…
No final, só te pediram mais…

O ancião tinha-te avisado:
«A sensibilidade é a pior protecção contra o sofrimento»
Julgamos sempre que connosco é diferente…

Relaxa…
Se já não te dizem nada,
É porque já não estão debaixo da ponte…

Angel
O actor acende a boca.
Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor pôe e tira a cabeça de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

Herberto Hélder
De quem eu gosto
nem às paredes confesso
E nem aposto
Que não gosto de ninguém
Podes rogar
Podes chorar
Podes sorrir também
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso.

Maximiano de Souza

Madeleine

"Um trabalhador português, de 38 anos e natural de Vila do Conde, morreu hoje em Tomiño, na Galiza, vítima de um deslizamento de terras no decorrer de umas obras de saneamento. Em declarações à agência Lusa, o autarca de Tomiño adiantou que o acidente se registou cerca das 16:00, na localidade de Forcadela, quando o trabalhador estava num poço com cerca de três a quatro metros de profundidade e as terras deslizaram, soterrando-o por completo. O responsável acrescentou que «o trabalhador terá morrido por asfixia», acrescentou. O cadáver foi removido para o Hospital Nicolás Peña, em Vigo, para autópsia, sendo posteriormente trasladado para Portugal."

Porque é que esta notícia da TSF não tem direito sequer a abrir um telejornal?

Dizem que é um horror o caso de um rapto de uma criança... e uma morte por asfixia de um trabalhador no exercício das suas funções?

Aqueles que dizem que são insensíveis os que protestam contra o fenómeno Madeleine, contra esta convocação de todos os meios e este entupimento das notícias pela Madeleine, deviam ter presente que:

- Houve já 220 não-notícias (dado que li há duas semanas, já são bem mais) sobre a Madeleine. Se por acaso os pais não fossem médicos e bonitinhos e de um país rico - como disse o Miguel Sousa Tavares - alguma vez se assistiria a este chinfrim?

- Há todos os anos dezenas e dezenas de raptos e desaparecimentos, muitos deles de crianças. Por um critério estapafúrdio não mereceram um centésimo (literalmente) da atenção dos holofotes dos media;

- A Polícia não avanço um átomo nas investigações. Mostrar todos os passos na televisão ajuda e de que maneira o criminoso...

- "É um problema grave" dizem-nos os que sofrem por Madeleine.

E a fome no mundo que ataca 840 milhões de pessoas? E os acidentes mortais? E a tortura? E o terrorismo? E a violência doméstica? E o trabalho infantil? E a violação de filhas menores pelos próprios pais? E os sem-abrigo? E os presos condenados à prisão perpétua em Itália que assinaram uma carta ao Estado pedindo que lhes comutasse a prisão em pena de morte? E os que morrem por não ter dinheiro para uma operação? E os escravos? E os que morrem de SIDA? E os que morrem de cancro? E os assassinados em África por ousaram criticar os seus regimes? E as guerras que assolam o mundo? E os mortos diários nas estradas?

Angel

segunda-feira, junho 04, 2007

Tonight I climb with you
Tonight So high with you
Tonight I shine with you
Tonight Oh I'm so alive with you

The cure

domingo, junho 03, 2007

Aconteceu na Feira do Livro

Estive na feira do livro. Quem vai do marquês, a subir, pelo braço esquerdo, subindo até ao fim encontrará uma roulotte. Ouvi o provável dono daquele barafustar com os seus dois empregados brasileiros sem que eles emitissem um murmúrio:

- Vocês têm isto tudo sujo? Andam a fazer crochet? Que porcaria é esta? Vocês estão a brincar comigo? Digam lá... Digam lá se andam... Isto não pode tar assim, vocês à noite têm de limpar isto... Anda cá, não anda cá, vê com os teus olhos... Eu tenho ou não tenho razão? Eu tenho razão... Vocês aprendam uma coisa: eu quando falo, tenho sempre razão. Se abro a boca, é porque tenho razão para dizer alguma coisa. - E começou a limpar. - Tás a ver? Há aqui muita água, não há? Então porque é que não limpaste? Não tinhas água? Há aqui tanta água!!! Se há tanta água, porque é que vocês não limpam? Começa a limpar!

Angel

PELA CALADA

Há um tipo de cortejar que normalmente se verifica em homens mais inseguros e com medo da rejeição, que já observei aqui e ali - e que tem um elemento um pouco untuoso que não me agrada. Eu, que sou adepto do silêncio, que detesto pessoas puxam do megafone quando querem falar das suas conquistas ou da sua vida intíma; há qualquer coisa que não me agrada na estratégia do "pela calado"... Acho que tem um elemento de competição lá no fundo - e aí que, em meu entender, se aloja a viscosidade da coisa.

Conheço uma pessoa que gosta de dizer que está indisponível, que cada rapariga com quem sai é apenas uma amiga, e que inclusivamente várias já tentaram encaminhar a amizade para outra forma... Às vezes, a Verdade vem ao de cimo e várias raparigas vieram a queixar-se ao amigos que as apresentaram que ele é "insistente" e "massacrador". Ele tem o direito de não o dizer. Porém, a fanfarronice dele irrita-me e ainda me irrita mais o facto de ele conhecer as amigas dos amigos, dizer mal delas a quem lhas apresenta ("eh pa aquela tua amiga que me apresentaste, valha-me Deus... Completamente louca"), e depois paradoxalmente... faz-se a elas insistente e massacradoramente...

Também conheceu um tipo que um dia quando lhe perguntaram se ele tinha interesse por uma amiga em comum respondeu:

- És doido? Com aquele bigode.

Ironicamente, a amiga contou ao amigo que ele não parava de a convidar para tomar cafés.

Um dia, eu próprio, apresentei uma amiga ao um amigo meu e eles falaram pela noite toda. Perguntei-lhe se ele ficara interessado em voltar a estar com ela. Ele disse que não. E que tinha medo que ela alimentasse algo depois desta noite e que por isso queria falar com ela (pasme-se!) para não alimentar. E então pediu-me o número dela. Tudo para ela não ficar interessada em algo impossível.

Claro que ele depois convidou-a, afinal, para tomarem café...

Há aqui um padrão: é que estas raparigas que eles dizem mal e depois pela calada se fazem eram inicialmente amigas do amigo que as introduziu. E então, é natural, que elas contem ao amigo que os apresentou. E estes mesquinhos competitivozinhos, que têm medo das suas derrotas, gostam de dizer aos amigos em palavras que as amigas deles não são nada de jeito... E depois, em atitudes, tentam de dentes e punhos cerrados, tudo por tudo, para terem qualquer coisinha com elas... Às vezes nas nossas barbas são tão rídiculos. Nós no MSN, a amiga "gorda" ou "louca" ou do "bigode" que nós apresentámos e eles. E eles só falam com ela e nem nos respondem.

Confesso que a estratégia pela calada diminui o meu apreço pessoal pelos seus praticantes. Isto rigorosamente não tem nada a ver com a reserva de mistério que deve perdurar no sempre no acto da sedução (e car@s comprometid@s: inclusivamente ao longo da mais longa relação...).

Angel-pincelando-a-partir-dos-materiais-da-vida

sábado, junho 02, 2007

ESTEJAM ATENTAS

Às vezes, vemos a originalidade em coisas que sem o sabermos já são tão velhas...

Num curto espaço de tempo, aconteceu-me uma coincidência. Dois amigos meus a conduzir passaram-me o telemóvel para ligar a um terceiro. Quando ia procurar o número dele, vi, num caso Sérgio 1, Sérgio 2, Sérgio 3; no outro Jaime 1; Jaime 2.

Em ambos os casos perguntei:

- Ele tem três números?

- Ele tem dois telemóveis?

Não, não tinha. Não, não era o número fixo. Não, também não era para o caso de apagar número sem querer...


Então?


Estes Jaime 2 e Sérgio 3 ocultavam números de raparigas.


Angel

sexta-feira, junho 01, 2007

Solidão

Vagueando os olhos pelas poucas janelas iluminadas na noite,
Penso… Divago… Sonho…
E vou atirando perguntas ao céu
Sem qualquer esperança de eco…
(Fui-a largando pelo caminho ao longo dos anos…)
Olho para as janelas dos quartos…
As cortinas dos quartos poderão correr-se pela manhã…
As da alma nunca…
Todas as almas estão envoltas numa cortina opaca
Olho para cima…
E subitamente sorrio…
Terão todos eles os seus segredos inconfessáveis?
O que alimentará as suas almas?
Saberão que existem outras maneiras de viver?
Que todos eles irão morrer?
O que fariam eles se soubessem quem eu era?

Hoje tenho saudades de alguém que não existe…
O amor às vezes visita-me
Mas não me ilude com ninguém…
Às vezes, passeio pelo mundo…
Como o último homem na terra…
Sentado numa rocha sentindo o vento na face…
Tendo tudo mas ninguém…
Às vezes, as pessoas parecem-me tão estranhas…
Às vezes, as pessoas parecem-me tão distantes…
E a vida mais etérea que um sonho…

E a minha única certeza é esta: existo.
Esta luz intangível dentro de mim
Não me deixaria enganar…
Este fluxo ininterrupto…
Intransmissível ao Outro…
Pois são sempre necessárias palavras…
Palavras contaminando o real…

Não sei se é um grande tesouro…
Não sei se é uma grande tragédia…
Ter dentro de mim a maior beleza do mundo
Sabendo que não a poderei partilhar…

Angel