quinta-feira, maio 31, 2007

Para voyeurs :)

I'm a spy in the house of love.
I know the dream that you're dreaming of.
I know the word that you long to hear.
I know your deepest secret fear.
I'm a spy in the house of love.
I know the dream that you're dreaming of.
I know the word that you long to hear.
I know your deepest secret fear.
I know everything.
Everything you do, everywhere you go, everyone you know.
I'm a spy, in the house of love.
I know the dream that you're dreaming of.
I know the word that you long to hear.
I know your deepest secret fear.
I know your deepest secret fear.
I know your deepest secret fear.
I'm a spy, I can see, what you do, and I know.

Jim Morrison

quarta-feira, maio 30, 2007

«Só existe um amor que aguenta tudo e dura toda a vida.
É o amor-próprio»


Molière

terça-feira, maio 29, 2007

O esférico e o preconceito

Todas as generalizações são cruéis para algumas pessoas. Basta que sejam injustas para uma só pessoa, para serem injustas.

Quanto maior o grupo, mais abstruza a generalização. E, por paradoxal, que possa parecer é precisamente sobre grupos maiores que incidem os estigmas. «Os homens são todos desarrumados», «Os efeminados são gays», «Os ciganos roubam», «Os vendedores são uns aldrabões»...

Devemos evitar toda e qualquer generalização em função de códigos de indumentária, profissões, etnias (não existe ADN suficientemente distinto para que possamos falar em raças - a raça é a humana), preferências sexuais, religiosas, clube político ou futebolístico...

De cada vez que nos apetecer criticar alguém com um sentimento de pertença a um qualquer grupo, queirando nós, erigir um padrão, façamo-lo colocando antes da frase um advérbio de modo (que eu gosto muito, confesso):

- Tendencialmente.

Um dia, ao almoço, com um amigo e duas amigas, falava-se sobre a capacidade intelectual dos jogadores. Eu disse, contrapondo a uma rapariga que dizia que eles tinham cultura porque viajavam e alegadamente liam jornais:

- Basta ouvir as conferências de imprensa para ver que, tendencialmente, o jogador português dá imensos pontapés na gramática e não consegue dizer nada para além dos três chavões que lhe incutem no balneário. Quando a equipa ganha e ele mete três golos: «O que importa é a vitória da equipa». Quando lhe perguntam se vai assinar pelo Inter ou Chelsea: «Tenho contrato com o Porto. Só sei o que veio na imprensa.» Quando lhe perguntam pelo segredo do sucesso da equipa: «Trabalhar.» Quando inquiro pelo futuro: «É pensar jogo a jogo.»

A rapariga ficou irritada e levantou-se para ir à casa de banho.

O meu amigo disse:

- Tu não sabes que ela andou anos com um jogador?

Angel

segunda-feira, maio 28, 2007

SE

Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso
Se és capaz de confiar em ti, quando de ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem
Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam
Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício
Se és capaz de enfrentar o triunfo e o desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por velhacos em armadilhas aos ingénuos
Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construi-lo outra vez com ferramentas gastas
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado
E perder e começar de novo o teu caminho
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado
Se és capaz de forçar os teus musculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
E de passear com reis, conservando-te o mesmo
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo
Se podes preencher todo o minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo o que nela existe
E não receies que te o roubem.
Mas (ainda melhor que tudo isso)
Se assim fores, serás um HOMEM.

Kipling

sexta-feira, maio 25, 2007

On hapiness...

Acabo agora um enorme e entendiante trabalho. A sensação de dever cumprido, o alívio e orgulho misturados, são viciantes.

Tal como um parto doloroso, ao qual se segue a supra delícia de olhar para o filho pela primeira vez (a última primeira vez)...

Diz o Dalai-Lama que esta felicidade do "alívio é ilusória"... É como o alívio que advém de nos coçarmos quando temos comichão... Sabe bem... Mas quem é que deseja uma comichão só pela felicidade de se coçar?

Esta ilusão sabe-me tão bem e vai permitir-me dormir muito e bem :)

Angel

quarta-feira, maio 23, 2007

Tecnocratas - o perigo do século XXI

Miguel Pais do Amaral, o homem que recentemente vendeu a Media Capital, deu dia 4 de Maio uma entrevista ao Jornal de Negócios. Nunca na minha vida li uma entrevista tão chocante.

Li a entrevista depois de uma crónica em que Baptista-Bastos se mostrava assustado com este "homem de olhos de berlinde".

Começa por dizer que não sabe bem o que é isso do "mundo dos afectos como você [a entrevistadora Anabela Mota Ribeiro] lhe chama". A prova disso está na ausência de memórias dos seus verdes anos. Só se lembra de ter estado em Londres onde "os carros eram fantásticos".

As fotografias em que aparece está vestido com um fato de fórmula um. Cursou mais tarde Engenharia Mecânica porque gostava de carros. Sempre ambicionou - di-lo honestamente - ter muito dinheiro e afastar-se da aristocracia decadente em que nasceu.

"Fazia parte de uma comunidade de loosers", afirma com desdém. O léxico de manuais de gestão em jargão americano está presente o seu discurso, ele que só vive de "challenges".

Não se preocupa com o que os outros irão pensar - e a mãe faz parte indistintamente dessa massa informe (convém lembrar que ele não sabe o que são emoções...).

Mãe, de resto, que o critica por se pouco católico e muito materialista.

Este homem cheio de sensibilidade que recentemente comprou a editora ASA diz ainda:

"Literatura, poesia e filosofia não leio. Não sei nada porque não me interessam."

Anjo-amargurado-com-a-crueza-dos-acéfalos-que-abominam-literatura-poesia-e-filosofia

Sem comentários.

segunda-feira, maio 21, 2007

Angel e as suas experiências na esquadra

Estive numa esquadra da P.S.P. este sábado. Furtaram-me um casaco e à minha amiga uma mala e em casaco. Descobri que se demora três horas (duas na fila das queixas e outra sentado a preencher papelada) para apresentar uma queixa-crime.

O polícia que nos ouviu era simpático e educado. A nova geração de polícias evoluiu nesta matéria.

Ao lado da fila dos queixosos, estava um indíviduo sentado, algemado à cadeira. Falei com ele.

Disse - à frente dos polícias que não o desmentiram - que tinha sido detido por possuir três gramas de cocaína que tinha comprado. Pela quantidade, deduzo que não possa ser detido por tráfico, mas unicamente pelo consumo.

Mas mesmo por isto, o indíviduo, um jovem negro, ficou ali umas boas horas algemado sob o olhar de toda a gente que ali pessou e o terá tomado como ladrão (na melhor das hipóteses).

O jovem dormitou a certa altura e um polícia disse-lhe em tom sarcástico:

- Vais ter muito tempo para dormir...

Pergunto-me se fosse alguém dos morangos com acúçar apanhado com coca para uns risquinhos no lux e não um preto pobre numa rua escafiada do bairro alto; se teria o mesmo tratamento de vexame dado a um delinquente...

domingo, maio 20, 2007

Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha

sábado, maio 19, 2007

"But beauty, love, poetry..."

Numa reportagem no Expresso de hoje, lê-se por duas vezes "o monge budista Mathieu (qualquer coisa) é a pessoa mais feliz do mundo". Quando era miúdo, devorava os guiness e nunca imaginei que anos mais tarde, o mundo apresentaria o mais feliz do mundo.

Mas o Expresso afirma-o com pompa e circunstância. Diz o jornalista que se mediu (como se mede o homem mais alto do mundo) neurologicamente a actividade cerebral e que ele acumulava a maior felicidade!

Que estranho mundo este em que vivemos...

Só falta tentar descontruir neurologicamente o amor, as paixões, as atracções... Diz o Esteves Cardoso que tentar explicar morfologicamente o voo do pássaro é... fazê-lo aterrar. Que um concerto ou uma peça de teatro não são os bastidores da mesma, que a máquina do coração é muito mais que uma simples ecografia. E que as estrelas não são analisáveis num microscópio.


Angel-há-áreas-da-modernidade-em-que-precisamos-de-velhos-do-restelo

sexta-feira, maio 18, 2007

A BELA E O MESTRE

«Elas [as "belas" do concurso] não lêem um livro, mas estão mais adaptadas para ter sucesso na sua faixa etária do que muitos e muitas mestres. Quem não compreende isto não compreende o mundo dos dias de hoje. O mundo é delas. Não disse uma das Belas que "um sinónimo de bonito" é feito?»

Pacheco Pereira in Sábado, 17 de Maio

quinta-feira, maio 17, 2007

Nota 21

A FENDA ABERTA

Reparei, então, que interessado em preservar qualquer coisa - talvez um interior silêncio, ou talvez não - nos últimos dois anos privara-me de tudo quanto amava, e todos os actos da vida, lavar de manhã os dentes e ter amigos para jantar, começavam a pesar-me como um esforço. Reparei que há muito tempo deixara de gostar de pessoas e coisas, mas continuava a fazer de conta, instintivamente e conforme podia, que elas me agradavam. Reparei que até o amor aos mais íntimos se transformara numa tentativa de amar, as minhas relações de acaso - com um editor, um vendedor de tabaco, um filho de um amigo - se limitavam a lembrar-me aquilo que eu lhes devia dizer tendo em atenção as nossas relações anteriores. Um mês bastou para outras coisas - como o ruído de um rádio, a publicidade das revistas, o chiar dos carris, o mortal silêncio do campo - me encherem de azedume, e a ternura humana provocar desprezo, e a dureza (ainda que oculto) ressentimento, a noite ódio por não poder dormir, o dia ódio por se transformar em noite.

Francis Scott Fitzgerald

Borges

DE QUE NADA SE SABE
La luna ignora que es tranquila y clara
y ni siquiera sabe que es la luna;
la arena, que es la arena.
No habrá una cosa que sepa que su forma es rara.

Las piezas de marfil son tan ajenas
al abstracto ajedrez como la mano que las rige.

Quizá el destino humano
de breves dichas y de largas penas es
instrumento de otro.
Lo ignoramos;darle nombre de Dios no nos ayuda.
Vanos también son el temor,
la duda y la trunca plegaria que iniciamos.
¿Qué arco habrá arrojado esta saeta que soy?
¿Qué cumbre puede ser la meta?

terça-feira, maio 15, 2007

Fanfarrões ou A simpatia por pena

Outro dia tive num convívio onde as piadas giravam em torno da homofobia. É um ritual fácil e pega muitas vezes. E todos se riem, e nenhum ousa não rir, não vão dizer que é gay.

A pontuar as piadas homofóbicas, havia tiradas de macho de uma forma bem porca: "eu já a comi", "arma-se em emproada mas eu dava-lhe uma...", "não, não comia...", "é pouco boa, é". Todos ali comeram imensas gajas. Eu acho que só "comeram" putas e engates pontuais de disco.

O mesmo contexto, mas com pretos era logo: "racista!". Como não distingo racismo de homofobia, não me ri.

Curiosamente, depois vi-os a falar com raparigas e pareceu-me que era uma coisa a que não estavam habituados. Cumprimentavam os rapazes com aperto de mão e das raparigas não se aproximavam - talvez não se achassem dignos dos dois beijinhos. Estavam muito rígidos nos escassos momentos de conversa, olhavam para baixo e - claramente - não sabiam o que dizer.

Pela minha experiência: os homens que mais conversas de macho têm entre os amigos são os que ficam mais tensos e sem-nada-para-dizer-na-presença-das-raparigas. Porque são eles que acham que há conversas de homem e conversas de mulher - o tempo vai mudando as coisas e tornando essa dicotomia cada vez mais anacrónica...

Angel

segunda-feira, maio 14, 2007

"Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.Em César e Cleópatra de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza."

Jorge Luis Borges

domingo, maio 13, 2007

Argumento para um Livro/Filme

Três estranho compartilham um apartamento. Joana, Mário e Dinis.

Com a convivência, nascem três paixões.

Joana apaixona-se loucamente por Mário.

Dinis apaixona-se loucamente por Joana.

Mário, homossexual, vê em Dinis o homem da sua vida.

Haverá casa onde mais tortuosamente o amor não possa resultar?

Angel

sábado, maio 12, 2007

TIAS

Conheci mulheres de "todas as cores, todas as idades". Acho que fiquei um pouco aquém no que diz respeito a betas - conheci poucas betas puras: tias. Não se cruzaram no meu caminho.

E até acho piada às extravagâncias de algumas. Conheci uma que nunca nunca nunca tinha doenças do povo. Constipação, nunca! Diarreia NUNCA NUNCA NUNCA NUNCA NUNCA (e isto era delicioso porque me estabelecia uma ligação com a remota infância em que eu achava que as raparigas que mais gostava não faziam chichi nem cócó. E sabem que mais? Secretamente ainda hoje acredito...) Ela só tinha alergias ao pólen, rinite, coisas finas, sei lá...

Outra nunca mas nunca nunca invocava "não isso é caro" e fiquei horrorizada quando alguém o dizia. Reposta invariável "pobretanas" (são tão giros os seus adjectivos como pobretanas e horrendo). Ela nunca tinha falta de dinheiro - ou nunca podia transparecê-lo! Que infâmia, que mancha inultrapassavelmente soez. O passatempo tempo favorito dela era escarnecer da roupa e das combinações de roupa dos outros.

Angel.

sexta-feira, maio 11, 2007

"O cérebro é a zona mais erógena. Pode ser verdade, mas é sempre uma opinião suspeita: é que é o próprio a dizê-lo..."

Woody Allen

quinta-feira, maio 10, 2007

Histórias de embalar


O jornalismo moderno sempre contemplou as historietas ligeiras. Já a mãe de Marcel Proust afirmava que os jornais só tinham frivolidades e recusava-se terminantemente a lê-los. A par do registo fidedigno do sucedido, os jornais frequentemente deram espaço a relatos mais ou menos mundanos ou pelo menos mais próximos do entretenimento do que da informação. Alguns fizeram história. A malograda expedição de Scott à Terra Nova, a subida do Everest ou a travessia aérea de Oceanos, encheram páginas que dias a fio agarravam os leitores ao simulacro do tempo real que hoje é tão comum. Ou as histórias de crimes, de guerras ou das peripécias dos ricos e famosos. O jornalismo sempre teve portanto a sua componente de literatura, na criação de narrativas onde se misturam elementos reais com outros inventados. Ou seja um tipo de informação onde esta é residual e o que importa verdadeiramente é a construção da própria narrativa. Ora aquilo que no passado foi um mero complemento da parte “séria”, e que serviu quase sempre como golpe publicitário, tornou-se hoje no essencial do jornalismo contemporâneo. Os jornais deste nosso tempo e ainda mais os novos media, e em particular televisão, já não dão notícias. Contam histórias. Em todos os campos e de todas as maneiras, e sobretudo naqueles domínios que ainda se chamam informação. Veja-se por exemplo como o desaparecimento de uma menina inglesa no Algarve deu lugar a uma verdadeira telenovela que todos os dias nos acomete com coisa nenhuma, conferências de imprensa sem qualquer assunto, análises ocas dos especialistas de sempre, e sempre de serviço. E isto como forma de prolongar até à exaustão uma história com evidente apelo emocional, mas parco conteúdo informativo. O ingrediente maior do jornalismo narrativo é aliás a não-notícia. Tal como nos romances policiais faz-se de um acumular de pistas falsas, suspeições, insinuações, mas nunca de algo realmente concreto. E todos nós o constatamos diariamente nas televisões com os directos que nada adiantam ao já dito, as entrevistas sem assunto, as análises que divagam sobre coisa nenhuma. Não é contudo só nos casos humanos que este tipo de jornalismo domina. Ainda recentemente se viu o mesmo tipo de tratamento no destino de Carmona Rodrigues e nos episódios, ainda em curso, da sua saga política. A novela carmoniana, muito ao estilo de um Shakespeare menor, envolve poder, traição, cupidez e vã glória de mandar. Mas a mim parece-me mais próxima de Chandler e outros policiais do romance negro onde todos os personagens são maus. Também na Câmara de Lisboa já não há heróis e ninguém se salva. Podemos então colocar a questão de saber porque é que o jornalismo derivou da seriedade e intrínseca ligação ao concreto para este jornalismo actual de fantasia, simulação e, em última instância, de inverdade. Julgo que isso se deve menos aos jornalistas em si, que afinal produzem aquilo que suscita interesse nas pessoas, mas antes à crescente infantilização da nossa sociedade. Ao mesmo tempo que vivemos numa era de grandes avanços científicos e de extraordinária capacidade de realização humana, é evidente que o adulto não é mais o centro e destino da condição humana, mas antes o adolescente e o infantil. Basta pensar como a maioria dos produtos, carros, telemóveis, aspiradores, são cada vez mais abonecados, mais apropriados para um jardim infantil. Como o design tem evoluído na direcção do brinquedo, com as suas formas divertidas e coloridas. E como a própria comunicação empresarial e publicidade assenta cada vez no ingénuo e no simplório, usando e abusando da graçola e da piada, em particular na de mau gosto. E isto tanto para vender um chocolate, um telemóvel ou um carro topo de gama. Da mesma forma a política não tem parado de se infantilizar. Não só nas mensagens, cada vez mais curtas, triviais e de conteúdo muito diminuto, como na pessoa e comportamento dos próprios candidatos. Ainda no recente confronto entre Ségolene e Sarkozy, dois candidatos igualmente medíocres mas também igualmente atractivos para a generalidade da população como se viu com a elevada percentagem de votantes, foi notório o baixo nível intelectual da contenda e o invariável recurso aos argumentos mais imaturos. Quem viu o debate televisivo entre os dois pode constatar como nenhum mostrou visão do mundo ou foi capaz de apresentar algo de minimamente mobilizador. E no entanto o povo francês adorou. Tal como o povo português adora o estilo algo adolescente e traquina de Sócrates. Ou, noutro registo, os madeirenses adoram o clownesco Jardim. A infantilização da nossa sociedade é uma realidade que afecta todos os domínios, da informação à política, da economia às relações humanas. Tenho as maiores dúvidas de que uma tal deriva possa ter um efeito positivo na evolução humana, ainda que deva reconhecer alguns aspectos positivos. O desejo de felicidade por exemplo. Ainda que se pode ser bastante mais feliz quando se entende a vida não como uma brincadeira mas como uma singularidade.

Leonel Moura

quarta-feira, maio 09, 2007

Sofia Salgado, cintilação debaixo da superfície do mundo, flocos de luz intangível polvilhando a minha alma, flor imarcescível, fragrância inebriando todo o meu ser.
Havia a vida: quotidiana, mecânica e cinzenta; e havia Sofia Salgado: a flor na borda dos dias, as labaredas no pensamento, o brilho secreto nos meus olhos.

Angel´s book
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o jardim das rosas.

T.S.Elliot, Quatro Quartetos

Da Roserouge

" O tempo respeita aquilo que se faz com tempo".

Auguste Rodin

terça-feira, maio 08, 2007

A democracia é um eucalipto?

A Democracia é um eucalipto? A imagem não podia ser mais esclarecedora. Na primeira página de um diário de há poucos dias surge um homem idoso, isolado do resto da gente, campesino vindo à cidade, fatinho domingueiro e boina basca, segurando um cravo vermelho. O olhar não esconde a desilusão. A vinda ao desfile, trinta e três anos depois, é o tributo que entende dever pagar. Mas os sonhos que teve estão esclarecidos na foto. Nunca os irá ver realizados. Nem esses nem os que festeja no "dia do trabalhador", perdido na bruma nostálgica de quando achava que mudava o mundo. Esses sonhos não ocupam qualquer espaço nos jovens de hoje. Um deles afirma, com a convicção de quem a frequenta, que "25 de Abril é uma ponte que existe em Lisboa", o que ninguém conseguirá desmentir. Outro afiança, sem a menor ponta de estrabismo, que "quem fez o 25 de Abril foi Marcelo Caetano" e ainda um outro assevera, com candura e serenidade, que "Salazar foi um rei de Portugal", repetindo, com a devida vénia, que se tratou de "D. Salazar". Talvez por isto, por estas e por outras, uma professora do 9º ano de uma escola de Lisboa, que se deixou identificar, tenha pedido aos seus alunos, entre o desespero puro e duro e a angústia nua e crua, que "se vos entrevistarem na rua, por favor não abram a boca". Uma outra professora, do 12º ano de uma escola do Porto, que também permitiu que a identificassem, avança com uma explicação, face aos seus alunos, que dói tanto como as verdades quando são atiradas: "dizem que quando aconteceu ainda não tinham nascido e, por isso, é uma seca". E ainda uma outra, professora do 6º ano, que não permitiu a identificação, avança, com uma simplicidade que mata, que "a maioria dos alunos não tem a menor noção do que foi o 25 de Abril, nem nunca ouviu falar". Estamos assim. É por isto, por esta confrangedora situação, que tem a maior importância o discurso que o PR fez, no dia evocativo, no Parlamento. É necessário fazer pedagogia, é urgente fazer o que não se fez, por descuido, por falta de visão e porque os portugueses remedeiam sempre o que está mal mas não antecipam nunca o que pode ir pelos maus caminhos. É para ontem travar e inverter a incúria. É preciso qualificar a liberdade, mimá-la, acarinhá-la, vivê-la todos os dias, individual e colectivamente. É preciso que a liberdade não se confine a um conceito político e passe a ser, acima de tudo, um conceito cultural. Uma pele. O nosso modo de vida. É uma questão e uma opção de civilidade. A "qualidade da democracia" de que fala o PR passa, em primeira mão, por aí. A existência de uma "classe política qualificada", desejada pelo PR, passa por inverter os mecanismos partidários existentes, romper com eles, rasgar o passado. A opção por "critérios de rigor ético, exigência e competência", exigidos pelo PR, passa por cortar radicalmente com os critérios das escolas partidárias que, no actual estado de coisas e ao invés do que é apregoado, definham e desqualificam a democracia. Não se trata de fazer de conta. Como, por exemplo, chamar o PM ao Parlamento uma vez por semana, imitando, agora, a prática parlamentar britânica que tem décadas. Isso é cosmética, aliás, não invocada quando quem a convoca foi poder. O problema é de fundo e profundo e tem que ver com regenerar todo o sistema. E a questão é, por isso, muito simples: há coragem colectiva para o fazer ? Até agora não houve. Até hoje nunca se viu que os partidos se preocupassem seriamente com isto. A verdade é esta. Por isso é que, ao contrário de se alimentar a democracia, os partidos, com os actuais modelos das suas escolas, a gangrenam. E é por isso que, em lugar de plantarem árvores de frutos todos os dias, passam o tempo a plantar eucaliptos. Que é o que são as escolas partidárias, secando tudo à sua volta. Quando derem por ela, a democracia é um eucalipto. Depois peçam para ela sorrir. P.S. O ministro Mário Lino foi a Alcobaça defender a Ota, invocando a sua qualidade de "Engenheiro Civil, inscrito na Ordem", arrancando uma suculenta gargalhada geral da assistência. Em qualquer outro país, seria, no mínimo, chamado pelo PM para se explicar. Cá não. Cá nunca se extraem consequências.

Mário Melo Rocha

segunda-feira, maio 07, 2007

Como é possível...

Acho que quando somos mais novos, somos mais deliberadamente cruéis. No secundário, assiti a coisas como o enxovalhar do obeso, do caixa-de-óculos que não perduraram na universidade. Aliás, quando tinha 12, 13 anos vi tratamentos de desprezo e gozo aplicados a colegas que não vi quando tinha 16, 17 anos.

Das coisas mais soezes a que assisti, uma vez vi um grupo de 15 gajos no recreio a comentarem que uma miúda, a ana, tinha feito um bico ao namorado (ao namorado, note-se!!!).

Quando ela passou pelo grupo de 15 rapazes, os primatas exultaram e ao toque de rebate de uns, os outros rapidamente ordenaram pelo rebanho:

- Bóbó! Bóbó! Bóbó! - em ritmo compassado.

Claro que nunca se faria isto a um rapaz e se se o fizesse, ele sentir-se-ia um herói.

Esta estigmatização negativa dos comportamentos sexuais das raparigas e positiva dos rapazes denota bem o machismo escondido, latente; por detrás dos discursos de igualdade e da real aproximação teórico-institucional dos mesmo direitos e deveres entre sexos.

Um amigo meu contou-me de uma rapariga a quem chamavam "a dos calipos". Na origem disto estava um broche que ela tinha feito ao namorado (sim, ao namorado, pasme-se!). Claro que o atrasado mental do namorado é que tinha andado a contar e outros energúmenos decidiram contar a outros boçais iluminados que lhe deram o epíteto de "a dos calipos".

O problema é que às vezes estes vilipendiadores arranjam traumas fundos nas pessoas. Uma pessoa que conheço nunca se curou de uma estória pese embora os anos de psicoterapia.

Teve relações com namorado na casa dele. Ele era do rugby. Por aviso dele aos colegas ou não, depois do treino, os colegas acompanharam-no até casa, onde ele pinou a namorada com o vidro aberto. Ela apercebeu-se a certa altura da plateia que batia palmas e ria que nem uns perdidos. Quando ela saiu a correr de casa, a chorar, foi ainda enxovalhada "deste-lhe forte"; "ganda maluca" e risos.

Há estórias demasiado tristes. Como diz o Herberto Hélder: "Se eu quisesse enloquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários".

Anjo-ensimesmando-se-no-silêncio

domingo, maio 06, 2007

"A frase que mais me impressionou quando eu era pequenino - e que ainda nenhuma outra ultrapassou - dizia que ser escritor era ver um peixe num aquário e imaginar o que ele via e como se sentir por fora e por dentro."

Miguel Esteves Cardoso in O prazer da leitura
"Queremos sempre, pelo menos, três coisas: mais, melhor e mais bonito. Há outras que também queremos - mais depressa, mais conforme o que queríamos, mais eterno, mais fixo e, ao mesmo tempo, mais constantemente surpreendente - mas nada disso existe na vida, em estado bruto, pronto para consumir."

Miguel Esteves Cardoso in O prazer da leitura

A oportunidade e a carência

Há muitos casais que nos surpreendem.

- Como é que ela anda com ele...

ou

- Como é que ele anda com ela...

São expressões que todos nós - pelo menos uma vez na vida - já proferimos.

Quando me detenho a indagar sobre os casos mais estapafúrdios, esbarro sempre em duas coisas.

A primeira é a oportunidade. Estou a pensar em três casos concretos e têm todos um padrão comum ao início. Eram os três pessoas que quando conheceram essa pessoa, estavam isoladas do mundo. Falando de um caso. A rapariga só trabalhava e o seu trabalho implicava o não contacto com pessoas. Era fechado num gabinete, sem ar. Para além do mais, no curto espaço de lazer que tinha, já não tinha amigos. Todos os seus amigos e amigas tinham começado a namorar ao mesmo tempo e já não saiam. Na sua fase workaholic, só conheceu um tipo que ia lá entregar os relatórios. O ele ser boçal, rude, agressivo, primata não contrabalançavam negativo o facto de ele ser a sua única ligação para o mundo exterior durante escassos minutos por dia.

Tal como o Big Brother em que as pessoas estão fechadas dentro de uma casa, se todos fossemos para uma ilha deserta e se o mundo fosse de repente reduzido a vinte pessoas, nós apaixonar-nos-iamos por pessoas que hoje não imaginamos nos nossos piores pesadelos...

Outro factor, para além da oportunidade, é a carência. Quanto mais tempo a maior parte das pessoas está sem alguém; quanto mais sente a falta da família ou dos amigos; quanto mais baixa está a sua auto-estima; entre outros factores mais a vontade de se entregar... e de distorcer os traços de alguém, auto-iludindo-se que ela ou ele... is the one...

Anjo-habitam-me-palmeiras-súbitas-que-me-refrescam

Onde estão as gajas boas?

Num recital de poesia (sim, num recital de poesia), o declamador leu apontamentos de humor, por entre tiradas profundas. Um deles foi:

«As gajas boas não estão nem em Hollywood nem na passerelle. As gajas realmente boas estão aos Sábados à tarde no Centro Comercial Vasco da Gama.»
A conselho do meu amigo Calheiros, (re)descobri um tremendo pequeno prazer: ouvir rádio. De facto é espantoso o grau de distracção sensorial que hoje temos, inundados por 50 canais, net, downloads, sms, playstation...

A rádio tem coisas espantosas. A conselho desse meu amigo oiço TSF e Antena Um. Tenho ouvido grandessíssimas reportagens, fóruns que me permitem saber a opinião do «taxista», boa música. Até quando o locutor ou locutora fala, parece... que fala comigo e só comigo. E claro, não há a imagem para distrair do contéudo...

Angel

sábado, maio 05, 2007

2

Oscar Wilde disse que "A arte é absolutamente inútil."

Há pessoas produtivas e há pessoas criativas.

sexta-feira, maio 04, 2007

O poder da intuição

Um dia ouvi alguém numa entrevista dizer à sua interlocutora:

- Não, não estamos aqui duas pessoas. Estamos aqui seis pessoas. A pessoa que você julga que é; a pessoa que você julga que eu sou; a pessoa que você acha que eu acho que você é... Mais a pessoa que eu julgo que sou; a pessoa que eu julgo que você é; e a pessoa que eu julgo que você acha que eu sou...

(pode ser confuso mas para mim faz todo o sentido)

Freud, que sabia o valor das personas (máscaras), dizia que nós procuramos sempre ou demonstrar que somos o que não somos uma coisa ou demonstrar que não somos o que somos... Isto de uma forma instintiva e inconsciente. Basicamente nunca seriamos espontâneos.

Não sei situar a Verdade, mas com o tempo cada vez vejo mais máscara, mais vida duplas...

Poderão dizer-me que este tipo de raciocínio levar-me-á a ser cauteloso e desconfiado. E com razão. A não ser que se vá apurando o instinto. As pessoas com bom instinto sofrem menos desilusões (só se ilude quem se deixa iludir). Há pessoas que desde o primeiro sorriso, me sopram eterna confiança...

Acontece-me não raras vezes ter uma primeira impressão das pessoas (o chamado efeito de halo) que depois ao conhecer as pessoas é afastado... mas curiosamente! quando as conheço mais a fundo a primeira impressão volta e confirma-se certa. É como uma enorme travessia para descobrir o ouro no ponto de partida. Será que há preconceitos positivos?

Anjo-celebrando-o-paradigma-do-mundo-oriental-de-que-a-intuição-é-tremendamente-mais-poderosa-que-a-lógica
"A espécie humana não pode suportar demasiada realidade."

T.S. Elliot

quarta-feira, maio 02, 2007

Um comentário interessante (descurem o tratamento da língua):

OS PORTUGUESES TB SE RIEM DELE OH GERARD [ 2007-05-02 00:40 ] Por: tiago
falta de respeito pelo liverpool, falta de respeito pelo C. ronaldo, falta de respeito pelo sporting e pelo rui jorge...so de pensar k ainda existem pessoas k axam este homem o melhor do mundo deixa-m estupefacto...o homem ganha pk sabe jogar com a psicologia das pessoas, fazendo os mind games...como treinador é fraco e isso disse-o sempre, e mantenho sempre...é um treinador fraco k konsegue ganhar atraves da moral nos seus jogadores...agora kd o discursso fica gasto, vira um treinador completamente banal..nao é uma falta de patriotismo...é gostar de futebol, vindo de onde vier...

in www.maisfutebol.iol.pt

terça-feira, maio 01, 2007

roserouge aconselha:

"O homem não tem uma única e mesma vida;
tem várias, uma sucessão de segmentos unidos entre si e essa é a sua miséria."

Chateaubriand


"Como pode um homem contentar-se em ter uma opinião e considerá-la boa? Haverá algum gozo em se ter uma opinião quando ela é vilipendiada? Quando um vizinho nos subtrai um dólar, é fraca satisfação o termos consciência de que fomos enganados ou mesmo podermos pedir ao devedor que regularize as contas e pague o que deve; importa, sim, tudo fazer para que ele restitua imediatamente o que nos subtraiu e providenciar para que não volte a intrujar-nos. A acção com base no princípio da percepção e do exercício da justiça transforma as coisas e as relações: é um acto essencialmente revolucionário e não se compadece com o que está em vigor. Traz a divisão não só aos Estados e às Igrejas, mas até às próprias famílias. Mais do que isso, divide o indivíduo, separa nele o diabólico do divino.

Henry David Thoreau, A Desobediência Civil