sexta-feira, março 30, 2007

O país do respeitinho

Em menos de três dias, o país acordou espantado para a força da extrema-direita. A cultura indígena sempre se auto-proclamou isenta de racismo e xenofobia. "Somos um país de brandos costumes" - pelo menos uma vez na vida qualquer português disse esta banalidade. Subitamente, a "eleição" de Salazar e um cartaz do PNR introduziram um ingrediente de confusão: será assim tão residual a extrema-direita?

Os prosélitos do politicamente correcto depressa se socorreram de desculpas: que o voto do Salazar tinha sido mobilizado por uma minoria militante, que o PNR só tem 0,1% de expressão. Tais evidências empíricas escondem o essencial: a direita ultra-reaccionária existe em Portugal. Está espalhada pelo PSD, pelo PP, pela CDU (que também sente repugnância pelos homossexuais e gosto pela ordem) e pela vastíssima massa de abstencionistas.

Claro que uma sociedade que incorporou no "pensar bem" a igualdade (a todos os níveis) leva as franjas mais reaccionárias da direita a esconderem-se, bem escondidinhas. Já ninguém defende a ditadura ou uma sociedade patriarcal em voz alta, mas se alguém aparece a defendê-la, não serão poucos os que silenciosamente a apoiarão como panaceia salvífica de um país que manifestamente nunca se soube governar.

Alguém duvida que a pena de morte (constitucionalmente proibida) passaria num referendo em Portugal? Alguém duvida que uma barbaridade medieval como o castramento químico dos pedófilos não chocaria grande parte dos autóctones?

Basta uma grave crise económica, um arrastão, o aumento do desemprego para o verniz estalar. O respeitinho da mulher pelo marido, dos filhos pelos pais, a ordem nas ruas, as continhas públicas arrumadas, um estado securitário e o racismo paternalista guardam saudades em grande parte dos portugueses.

Vasco Pulido Valente by angel

quinta-feira, março 29, 2007

PNR

Os cartazes do PNR no centro da cidade estão a agitar as hostes. Ando de autocarro e já ouvi mais do que um energúmeno e energúmena insultarem um negro e um indiano com soezes vilipendiações xenófobas e etnocêntricas:

- Vai mas é para a tua terra...

Imagino com facilidade que esses cartazes como essas pessoas do autocarro digam em voz alto o que muitos pensam em voz baixa - a extrema-direita pode lavrar em Portugal com tempo o que lavrou em França.

E contudo sou contra a remoção dos cartazes, pese embora o artigo constitucional que expressamente proibe a existência de "organizações que perfilhem a ideologia fascista".

Historicamente, as ditaduras erigem-se a partir de uma prévia descredibilização das democracias. Eu próprio já entrevistei um líder do PNR (deixá-los falar é por si só gozar com eles) e ele queixou-se da discriminação, da suposta liberdade de expressão que não existe nas democracias e que lhes estrangula a voz. Eu não quero dar-lhes armas para eles se vitimizarem e desvalorizarem a democracia e os democratas como falsos e hipócritas. A liberdade de expressão é um pilar inestimável e irremovível da Democracia.

Sei que se eles tomassem o poder, acabariam com os partidos, os sindicatos, a liberdade de expressão e infernizariam a vida dos pretos, imigrantes, paneleiros, pedófilos, drogados, comunistas e afins; mas é precisamente aí que mora a superioridade da democracia. Como disse Voltaire: «Poderei não concordar consigo; mas pelejarei até à morte para que possa defender as suas ideias.»

Apenas a ignorância e a manipulação emocional joga a seu favor. Li o livro Michael Schimdt, um bom jornalista de esquerda, que fez incursões nos movimentos neo-nazis e ficou espantado com a qualidade dos seus documentários manipuladores de instilação de ódio. Ele próprio, apanhou-se a si próprio no duche a entoar cânticos nazis...

As posições com a assinatura da extrema-direita é bom que venham todas a lume e sejam todas discutidas. Todas, todas, todas, uma a uma, são empiricamente insustentáveis.

1. Os imigrantes não aumentam a taxa de desemprego.

2. A pena de morte não diminui a criminalidade.

3) Os homossexuais não são pedófilos.

A propósito deste último ponto, uma jornalista da SIC interpelou um ancião que tinha um cartaz "80% DOS HOMOSSEXUAIS SÃO PEDÓFILOS":

- De onde é essa estatística?

- Da internet...

- Mas de onde?

- Já não me lembro.

O último sermão de BUDA

A mente é senhora dos cincos sentidos. Por isso, deveis disciplinar vossa mente. A mente é mais perigosa que uma cobra venenosa, uma fera ou um salteador. É como uma pessoa que, entretida com o mel que transporta em suas mãos, não enxerga um buraco e cai nele. Se deixardes vossa mente entregue a si mesma, perdereis as boas coisas. Se a vigiardes, tudo correrá bem. Por isso, ó monges, deveis vos esforçar e dominar a vossa mente.

Ó monges, se desejais a libertação do sofrimento, deveis aprender a vos contentardes com o razoável. Aquele que sabe se contentar com o razoável se sente bem, mesmo que tenha de se deitar sobre a terra. Entretanto, aquele que não sabe se contentar com o razoável, mesmo nos mundos celestes permanecerá insatisfeito, por isso aquele que sabe se contentar com o razoável é rico, mesmo sendo pobre, ao passo que aquele que não sabe se contentar com o razoável é pobre, mesmo sendo rico.

Ó monges, se quiserdes procurar a calma, o desprendimento e a paz, deveis abandonar os lugares cheios de gente e viver isolados.

Ó monges, se vos esforçardes, nada será difícil. Por isso, deveis esforçar-vos. Mesmo uma pequena correnteza d'água acaba gastando uma rocha.

Ó monges, se desejais a sabedoria e a boa ajuda, deveis ter uma intenção inquebrantável, pois ela afasta as paixões e ilusões. Por isso, deveis manter inquebrantáveis as vossas intenções. Caso fraquejardes em vossas intenções, perdereis vossos méritos. Aquele que tem intensões firmes não é prejudicado, mesmo estando no meio desses salteadores que são os desejos. É como um guerreiro coberto por uma armadura, que nada tem a temer no campo de batalha.

Ó monges, todo aquele que tem uma intenção firme conserva sua mente em estado de concentração. Por isso, ele sabe os Dharmas do nascimento e da dissolução do mundo. Por isso, deveis vos esforçar e praticar as diversas concentrações. Aquele que consegue praticar a concentração não tem uma mente dispersiva. É como aquele que economiza água e guarda com cuidado. O praticante exercita-se na concentração a fim de bem guardar a água da sabedoria.

Ó monges, se tiverdes a sabedoria, não tereis apego. Examinai bem todas as coisas. Dentro da minha Lei, obtereis a Libertação. Quem não tiver a Sabedoria, não poderá ser considerado um realizador do Caminho, nem mesmo um fiel leigo. A Sabedoria é um navio seguro para a travessia do oceano da velhice, da doença e da morte. É uma luz no meio das trevas, é um elixir que cura todas as doenças, é um machado que corta as árvores das paixões. Por isso, deveis vos esforçar para a obtenção do desenvolvimento da Sabedoria.

Ó monges, deveis evitar as estéreis discussões teóricas, pois elas só trazem perturbações à mente. Mesmo os monges não lograrão alcançar a libertação, se se entregarem a elas. Por isso, deveis evitar as estéreis discussões teóricas. Caso desejais alcançar as alegrias do Nirvana, deveis afastar as estéreis discussões teóricas.

Ó monges, deveis vos afastar de toda negligência, como aquele que se afasta dos salteadores. Eu ensino a Lei como o médico que reconhece a doença e recomenda um remédio. O fato de o doente tomar ou deixar de tomar o remédio já não depende do médico. Também sou como aquele que ensina um caminho às pessoas. Se houver pessoas que, embora ouvindo os ensinamentos, não seguirem o caminho, a culpa não é daquele que o ensinou.

Ó monges, não vos entristeçais. Ainda que permanecesse no mundo durante milhares de anos, isso não me livraria da morte. Nada do que se reúne escapa à separação. Já foram ensinados todos os Dharmas que trazem proveito a quem os pratica e todos os que trazem proveito a outrem. Ainda que eu permanecesse vivo, nada mais teria que fazer. Todas as pessoas que eu devia ensinar já foram ensinadas. Quanto às que eu ainda não ensinei, já criei condições para que elas sejam ensinadas. Se vós, meus discípulos, persistirdes na prática da Lei após minha morte, meu Corpo de Lei continuará eternamente vivo.

Deveis saber que, no mundo, nada existe de permanente, tudo o que se reúne está sujeito à separação. Não vos entristeçais, pois assim é o mundo. Esforçai-vos por obter a libertação. Eliminai as trevas da ignorância com a Luz da Sabedoria. O mundo é algo perigoso e incerto, sem nada de estável. Eu agora alcançarei a extinção como aquele que se livra de uma moléstia maléfica. Vou deitar fora o pior dos males, aquilo que se chama corpo e se encontra mergulhado no oceano da doença, da velhice e da morte. O sábio que destrói isso é semelhante àquele que mata um salteador. Essa destruição deve ser motivo de alegria.

Esforçai-vos sem cessar na prática que leve à libertação. Todas as leis imutáveis e mutáveis deste mundo são isentas de garantia de estabilidade.

Permanecei em silêncio. O tempo passa, e é chegada a hora de eu me extinguir.

Na Polpa

Não pertenço a nenhum grupo. Não me identifico com nada. Eu, o individualista cujo maior desejo secreto é a abolição da pena de morte em todo o mundo. Eu, o romântico convencido de que a amizade é a forma mais completa de amor. Eu, o economista que viveria sem empresas, carros e computadores, mas enlouqueceria sem Sol, flores e poesia. Eu, o esquerdista que só acredita numa revolução interior – a do Amor.
Eu, o hedonista, que na noite em que fui verdadeiramente feliz, não usei cartão de crédito, não bebi álcool nem pratiquei sexo.
Não pertenço a nenhum grupo. Não me identifico com nada. Eu, o ser sociável, que quando a corte real passou, só reparei na pequena flor vermelha à beira da estrada. Eu, a criatura patética, que por um milhão de dólares não arrancaria as asas de uma borboleta viva, que hierarquizo os homens pela amplitude do sorriso, que prefiro uma mulher que leia Proust a uns seios bonitos e consistentes.
Não, não pertenço a nenhum grupo. Nem me identifico com nada. Eu, o louco, que morrerei feliz na certeza de ter proporcionado mais sorrisos que lágrimas...

O VÍCIO SUPREMO

O vício de escrever corrói o prazer das árvores floridas, das conversas com os amigos, do ar livre, do desporto, dos passeios de Domingo por paisagens idílicas, dos jornais da manhã, das tardes ociosas passadas em cafés, das noites de álcool e lascívia.

Como todas as coisas belas na vida, escrever é um acto extremamente simples: requer apenas uma caneta e um papel branco.

Num mundo cada vez mais vigiado e cerceado, a escrita é o único espaço onde ainda temos realmente liberdade: podemos escrever onde quisermos, quando quisermos, o que quisermos.

Escrever é, no fundo, a única forma de luta onde puderemos vencer a efemeridade e a fluidez de todas as coisas, erguendo o irrepetível com braços esticados para o infinito, como uma tocha de fogo vivo, e atirando-o para a perenidade…



ANGEL

Big Brother

Num e-mail outro dia, que convidava um grupo de pessoas para um jantar, uma rapariga fez um reply all a dizer que ela ir; mas que outra, a Sónia, não ia - estava com uma grande depressão. E explicava os sinais.

Tinham todos de ficar a saber?

Já não direito à privacidade - pior, já não há direito à intimidade.

Somos todos filmados, todos controlados na portagem, controlados na rua, controlados nos centros comerciais, tudo orwellianamente sempre justificado - a segurança, o combate ao terrorismo, a organização, a eficácia...

Impunemente se fotografa a namorada e se a expõe a milhões de cibernautas quando ela passa a ex... Impunemente se difama na blogosfera... Impunemente se ouvem 80 000 mil telefones em Portugal... Impunemente se perseguem pessoas conhecidas, se devassam vidas privadas em busca de vícios que possam fazer o povo invejoso e mesquinho sentir: "Eles (os famosos, os ricos, os poderosos) não são melhores que nós..."

Ninguém liga, ninguém quer saber. A privacidade, como valor tão primordial como a liberdade, morreu.

Alguém lê o contrato quando adere a ter um e-mail, sabendo por exemplo que aí se escreve que a Microsoft detém como património seu todos os mails nele contidos...


Pertenço a uma espécie em vias de extinção. Nunca falei da vida sexual de qualquer parceira com quem tenha estado.

Angel

quarta-feira, março 28, 2007

Oscar Wilde sobre homens e mulheres

"O sonho de qualquer homem é ser o primeiro da mulher, o sonho da mulher é ser a última do homem."

"Os homens apaixonam-se pelas qualidades das mulheres; as mulheres pelos defeitos"

terça-feira, março 27, 2007

O homem bom

É umas das três melhores pessoas que conheci em toda a vida. Cristão sem fé, ama o outro mais do que a si mesmo. Não tem vingança, competitividade, vaidade ou maldade. Passa a maior parte do tempo a fazer favores aos outros - que ele não sente como tal.

É capaz de nos enganar. Se nos for buscar um bebida e nós insistirmos para pagar (coisa à qual ele mostrará os caninos) e o conseguirmos deixar-nos pagar, ele vai dizer um preço que não é - já o apanhei nisso; é sempre um preço mais baixo.

Aguenta todo o insulto ou gozo sem resposta. Sim, dá a outra face. Eu já lhe disse, por paradoxal que possa parecer, ele tem não uma baixa auto-estima mas uma terrivelmente colossal auto-estima, porque no fundo o silêncio, a não retaliação, a ausência de orgulho implicam uma desconsideração pela ofensa - uma superioridade inexpugnável.

Outro dia disse-me que uma pessoa durante muito tempo o irritar e martirizar durante muito tempo, que no dia em que ele explodir ele é capaz de dar cabo dele. Disse também que era capaz de torturar até à morte (será que era? - afastei isso da minha mente porqu preciso de ter referências de pessoas boas e ele é talvez a principal).

Lembrei-me de um professor que tive que nunca mandava calar ninguém, era extremamente simpático e muito porreiro que ajudava os alunos e preocupasse com eles até a um nível de vida pessoal.

Quando se irritava, vociferava em inglês (apesar de ser professor de português) com as veias a inchar no pescoço:

- OUT! Rua! Já daqui para fora. Quem manda aqui sou eu!

Esse mesmo professor ensinou-me (entre imensas outras coisas) numa aula em que creio teve necessidade de desabafar:

"A pior revolta é a do carneiro. O carneiro aguenta, aguenta, aguenta, aguenta, aguenta... Mas quando vem a gota de água, vai tudo a eito... Hão-de reparar lá em casa que as pessoas que mais tempo aguentam, são as que quando se zangam fazem mais mossa..."

Angel

A polpa que não é transaccionável na superficialidade

Um amigo meu que andou penosamente à procura de investidores, passou um longo calvário sem investidores, com um excelente projecto entre mãos. Tinha capital intelectual, clientes, site, tudo, tudo, tudo. Mas não tinha investidores.

E quando alguém olhava para aquilo, pensava: mas se ninguém pôs aqui massa... eu também não ponho. Mas como não tinha coragem, mascaravam desculpas: "eh pa, o projecto é muito interessante mas estou na pior crise de € de sempre, "eh pa estou mal com a mulher e não tenho cabeça", "eh pa vamos tomar um café e falar sobre isso (e o café nunca aparecia..." Muitos fugiam não atendendo o telefone.

Ligou-me o meu amigo a dizer que tinha um sócio, depois veio outro e outro e outro. E agora vêm todos e já não há espaço para tantos...

- Como é que isto aconteceu assim de repente? - perguntou-me espantado.

- A vida é assim. Uma espiral. Quando estás em cima, todos são teus amigos. Quando estás em baixo, ninguém te conhece.

- É mesmo isso...

A vida é assim. E isso explica que quem tenha muito dinheiro é quem consiga ter mais probabilidades de ter muito mais dinheiro. É a vida... Há pessoas que passaram muito perto dos ventos da sorte, mas por azar não foram tocadas e toda a sua vida a partir de então nada mais foi que um acto de desestruturação. E o contrário.

Ainda outro dia ouvi um actor famoso Luke Perry dizer que trabalhava nas obras e por mero acaso alguém lhe falou num casting. Ele naquele dia estava de folga e só por isso pode arriscar...

E isso também explica que na vida dos homens, se oiça regularmente, a fase alta e a fase baixa. É que as mulheres têm um defeito terrível, que os homens não têm, de gostar de estar sempre junto dos homens mais concorridos. Eu sempre procurei mulheres que não tivessem esta característica - e vissem os indícios de Beleza que não estavam ao alcance de qualquer uma.

Angel

Poema

Porque todas as outras são competitivas mas tu não…
Porque todas as outras dizem mal das amigas…
Porque todas as outras passam horas intermináveis nas montras
Porque todas as outras gastam energia a alindar os pratos da cozinha…
Porque todas as outras fazem do corpo um templo…
Porque todas as outras vacilam e por isso se entregam submissas…
Porque todas as outras gostam dos pintas e dos bad boys…
Porque todas as outras querem ter um lar, uma carreira, filhos…
Mas tu não!

Porque todas as outras têm uma costela de puta
Onde tu tens o principio de uma asa branca imaculada
Porque todas as outras se perfumam
Enquanto tu me extasias com esse subtil secreto aroma só teu…
Porque todas as outras querem saber o que faço
Quem são os meus pais onde moro que carro tenho
Quantas mulheres estão interessadas em mim
(E se são boas…)
Mas tu não!

Porque todas as outras procuram amar o que têm
Quando tu procuras lutar para ter o que amas!

Angel

Do filme "O Véu Pintado"

"Ela está comigo porque eu sou um bom homem."

"Como se uma mulher amasse um homem pela sua virtude..."

segunda-feira, março 26, 2007

Conversas interceptadas

- Tás a ficar grande? - o punho fechado bate no peitoral esquerdo do visado.
- É da proteína - sustenta o outro enquanto pisca o olho, inclina a cabeça e ginga o corpo, inchado no corpo e no ego.
- Deixa ver o teu braço... - o outro faz o máximo de força no bícepe enquanto o outro o observa com um ar de Neandarthal.
- Isso é bombada meu - invejoso, faz o braço e compara. - Foda-se tenho de deixar as barras e dar na bombada.

Um conhecido meu que andou em ginásios disse-me um dia:

«Fartei-me dos gajos da bombada à minha; aquelas conversas de merda. Eh pa, nem as coisas mais básicas que unem os homens - futebol e gajas - eram motivo de conversa. Era só a proteína, os batidos e os kilos que se ganhavam.»

Angel

Sherlock Holmes e Dr.Watson vão acampar.
Montam a tenda e, depois de uma boa refeição e uma garrafa de vinho,
deitam-se para dormir. Algumas horas depois, Holmes acorda e diz para
o seu fiel amigo:
- Meu caro Watson, olhe para cima e diga-me o que vê.
Watson responde:
- Vejo milhares e milhares de estrelas...

Holmes então pergunta:
- E o que isso significa?
Watson pondera por um minuto, depois enumera:
1.Astronomicamente, significa que há milhares e milhares de galáxias
e, potencialmente, biliões de planetas.
2. Astrologicamente, observo que Saturno está em Leão e teremos um
dia de sorte.
3. Temporalmente, deduzo que são aproximadamente 03h15min pela altura
em que se encontra a Estrela Polar.
4. Teologicamente, posso ver que Deus é todo-poderoso e somos
pequenos e insignificantes.
5.Meteorologicamente, suspeito que teremos um lindo dia. Correcto?
Holmes fica um minuto em silêncio e diz:
- Watson, seu idiota! Significa que alguém nos roubou a tenda!!!

Moral da história:
A vida é simples, nós é que a complicamos.

O Salazar ganhou. Nada me chocaria mais. Nem o Avelino Ferreira Torres, o Artur Albarran, o José Eduardo Moniz, a Teresa Guilherme ou o Jorge Jesus.

domingo, março 25, 2007

O Suplício de Tântalo

Na mitologia, a figura de Tântalo sempre me fascinou. Convidado para um banquete com os deuses, Tântalo aproveita e decide testar-lhes a omnisciência. Então, mata o seu próprio filho e corta-o aos bocados, servindo-o como guisado aos deuses. Quando durante a refeição os deuses descobrem, condenam Tântalo ao pior dos castigos: a eterna sede e a eterna fome.

Tântalo é enviado para um sítio com belíssimas águas e belíssimas árvores carregadas de frutos, mas de cada vez que se baixa para beber água, esta infiltra-se pela terra, e de cada vez que ergue a mão para tirar um fruto, o vento sopra o fruto na direcção contrária.

Etimologicamente, o verbo ´tantalizar´ vem de Tântalo e significa esta ilusão de estar cada vez mais perto mas nunca lá. Ter as coisas ao lado ou à frente e nunca as conseguir agarrar. É uma espécie de dor angustiante - talvez mesmo o pior de todos os sofrimentos.

Ninguém de bom senso acredita que um ser humano voluntariamente se quisesse submeter a semelhante castigo. Pois, eu conheço muitos homens que se posicionam assim face às mulheres.

É algo que extravasa o meu entendimento. A esperança é a última a morrer ou a sofrimento é redentor? - não sei qual dos dois paradigmas está por detrás desta pergunta.

Conheço casos incríveis. Pessoas explicitamente rejeitadas depois de implicitamente hiper-rejeitadas, que persistem em só pela companhia das meninas, fazerem tudo.

Havia um tipo, que de alcunha era o Pássaro, que passeava uma rapariga cujo nome nem me lembro, e dava-lhe boleia, pagava-lhe tudo e ela usava-o para satisfazer todos os seus caprichos - e por vezes anda comia gajos à pala dele. Um dia viu uma coisa no Colombo que me pôs logo de trombas para essa tipa o resto da noite. Andava pelo Colombo com amigas e amigos quando essa tipa disse: «Quero ir ver o filme (não sei quantos). Pássaro, vem comigo.» Ele foi e ela ficou a fumar enquanto ele se aproximava da bilheteira para comprar o bilhete. Depois vieram ter connosco a um bar e quando ela quis ir, ele foi po-la a casa. Como eu mostrasse espanto, alguém me disse: "É assim há anos."

Como é possível simultaneamente saber que essa pessoa nunca quererá algo connosco e simultaneamente fazermos tudo para estarmos com ela? Não é doentio? Inconsequente? Tortuoso= Não é reforçar algo que só nos magoa mais? Porque se alimenta estas relações só pela volúpia de a poder ver e ouvir? Não era mais digno salivarem ao espelho a pensar nela do que salivarem na sua própria cara?


Casos destes vi vários. Desde um ex-namorado que sai há cinco anos com a namorada e as amigas e ainda nunca conseguiu que ela lhe desse um beijo que lhes devolvesse uma leve brisa dos tempos antigos; desde um amigo meu que está interessado numa colega de faculdade há 3 anos e vê-a todos os dias nas aulas, e todos os dias tem esperança, e todos os dias lhe manda sms, que espera por ela para sairem juntos da faculdade, e todos os dias com ela a recusar convites de jantar, até de aniversário...

Eu não acho saudável. Não é mentalmente mais equilibrado afastarem-se das paixões quando todos os sinais vão em sentido contrário? Se alguém entrar na segunda circular e vir centenas de carro no sentido contrário, irá pensar que estão todos em contra-mão?

Na paixão, o mais pequeno indício é luz verde. Um desses que se arrastam penosamente, diminuindo a auto-estima, e perdendo anos de vida com a infinita auto-ilusão, disse-me um dia depois de inequívocos sinais de recusa, alguns até vexatórios, "quando ela me pediu para fechar a porta do carro ela não te pareceu dizer o meu nome de uma maneira que parece que gosta de mim?"

Pagar a companhia de alguém que desejamos quando ainda por cima nunca nunca nunca nunca se pode tocar ou beijar? O dia em que eles se revoltam consigo mesmo vem sempre - sempre, sempre, sempre...

Anjo-nunca-vou-parar-de-escrever
120
«Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

121
«Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

Luís de Camões, Os Lusíadas

sábado, março 24, 2007

Precisa-se de matéria prima para construir um país

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.


Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.


Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns.


Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar-lhe o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.


Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.


Como "matéria-prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa "CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA" congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte...


Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria-prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados! É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...


Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias. Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez.


Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.


E você, o que pensa?.... MEDITE!


EDUARDO PRADO COELHO

sexta-feira, março 23, 2007

DIA DA MULHER SEGUNDO LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO

Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda princesa, independente e
cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a natureza e pensava em
como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades
ecológicas, se deparou com uma rã. Então, a rã pulou para o seu colo e
Disse:

- Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.
Uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me nesta rã asquerosa.
Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo. A minha mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos e viveríamos felizes para sempre...

Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée, acompanhadas de um
cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e
pensava: Nem morta!

(Luís Fernando Veríssimo)

Pessoas normais e pessoas especiais

Eu, talvez por não ser muito normal, nunca me excito muito em conhecer as pessoas ditas normais. Associo-lhes a insipidez, o «by the book», o seguir as regrazinhas... Só eu sei o preço que paguei por não gostar de pessoas normais. (Quantas pancas tive de aturar, quantos cuidados excessivos quais tratamento vips personalizado para cada loucura....)

No fundo, acho que há menos pessoas normais do que pensamos. Uma coisa que reparo é que há pessoas que só conhecem as outras num nível relativamente superficial e são precisamente essas pessoas que julgam que as pessoas são quase todas normais. Desconhecem que as pessoas não dão logo a conhecer as suas idiossincrasias, as suas peculiaridades, as suas fobias, as suas manias - o sabor da sua diferença, para ser mais poético.

Como no Triunfo dos Porcos em que os animais são todos iguais, mas há uns que são mais iguais que outros; também acho que não há pessoas normais mas que há umas que são mais normais que outras. De qualquer modo, a expressão normal advém de uma grandeza estatística e por isso acaba por ser um critério viciante e tautológico - porque obriga a que os normais sejam apenas os que perfazem a maioria....

O problema é que às vezes as minorias todas juntas fazem a maioria. O Bill Clinton reconheceu isso. E quando ganhou as eleições, disse que afinal as minorias na América faziam a maioria: desempregados, sem-abrigo, homossexuais, negros, mexicanos, arábes, deficientes, reclusos...


É curioso que é fácil conhecer as pessoas (as mais certinhas e as mais artísticas) pelo tom que empregam quando proferem a expressão normal. Tenho uma amiga assim mais para o certinho que muitas vezes diz horrorizada com uma voz enfastiada: «Ai ele é nada normal...». Outros há que dizem franzindo o nariz: «é uma pessoa normal» - e daqui depreendemos ser uma pessoa desprovida de qualquer beleza.


Na banda desenhada (Quino), a mãe da Mafalda explicava à filha o que era uma pessoa especial.

«Tu és especial, a mãe é especial, o pai é especial...»

«E a avó?»

«Também é especial.»

«E o nosso vizinho?»

«Também é especial»

«Eu sou especial, tu és especial, o pai é especial, a avó é especial, o nosso vizinho é especial. Então isso quer dizer que ninguém é especial...»

Anjo-saudando-os-especiais
"A imitação é a forma mais completa de lisonja"


Alguém disse isto...

É MESMO ISSO!

"Always look to the bright side of life"

Monthy Pyton, A vida de Brian

quarta-feira, março 21, 2007

O melhor poema de todos os tempos

Por quem os sinos dobram


Nenhum homem é uma ilha isolada;
cada homem é uma partícula do continente, uma parte da Terra.
Se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída,
como se fosse um promontório,
como se fosse a casa dos teus amigos
ou a tua própria;
a morte de qualquer homem diminui-me
porque sou parte do género humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti.

John Donne

Pelo dia mundial da Poesia!

"A poesia é a linguagem original dos deuses"

Montaigne

Uma excelente metáfora para muitas situações (da minha amiga ST)


terça-feira, março 20, 2007

Da Sétima Arte

"It was the fuck of the century"

Michael Douglas no Instinto Fatal

Apagar as particularidades

Franz Kafka escreveu que "a escola e a família procuram apagar as particularidades das crianças." Kafka sempre se sentiu uma criança e um adolescente particular. Em casa era um inadaptado, assim como na escola e mais tarde no trabalho. Para Kafka, quando uma pessoa é muito diferente, das duas uma: ou alicerça a partir da sua diferença uma sólida personalidade que lhe dava grande confiança para encarar a vida ou se submete, apagando as suas particularidades. Kafka assume ter seguido o segundo caminho. Pela vida toda se sentiu infeliz. Pôs num personagem a descrição que disse aplicar a ele: "Apenas a vergonha lhe sobreveio."

Os processos de normalização precisam sempre de eliminar, polir, as idiossincrasias únicas de cada um de nós.

Pelo que me dizem pessoas do meio, a instituição militar assenta na anulação da personalidade individual (o apagar das particularidades) e na obediência cega ao superior. Primeiro faz-se acreditar alguém que ele não presta para nada, depois ele chegará à conclusão que terá de pensar pela cabeça de alguém.

A mim faz-me muita confusão, seja qual for a nobre finalidade colectiva, o apagar das particularidades. Seja no futebol os treinadores que proibem os penteados excêntricos; seja na escola os professores que tentam corrigir os canhotos a escrever com a mão direita; seja os pais ou amigos que tentam que os gays gostem de gajas; tudo isso me cheira a merda e a violência.

Enquanto não somos nós próprios, ou nos mentimos a nós próprios e dizemos que está tudo bem e desdobramo-nos em dois por dentro, estilhaçando o nosso ser mais profundo e evitando confrontarmo-nos connosco mesmo; ou vamos encolhendo, encolhendo, escondendo o nosso eu dos outros com medo de julgamentos, e assumirmos perante nós mesmos que somos uns fracos.

A piada da vida está na diferença. Se não houvesse diferença, morriamos de tédio.

Angel

domingo, março 18, 2007

Solidariedade

Antes de mais, a definição (que é sempre pessoal) dos conceitos.

Honestidade: A rejeição da prática de qualquer comportamento que possa ser nocivo para o outro.

Solidariedade: A prática proactiva de querer libertar o outro do sofrimento.


Tão entrincheirados estamos nas nossas referências que não imaginamos que haja outros modelos e outras mundividências. Li um livro sobre a Suécia que dizia que o valor fundamental da sociedade era a solidariedade.

Na Suécia, as crianças são educadas a pensar primeiro no outro que no eu. Os trabalhos são avaliados pelos resultados colectivos, em que eu para me beneficiar a mim tenho de beneficiar previamente o o outro do meu grupo. O sistema de impostos progressivo na Suécia fez com que a certa altura os que aspiravam a grandes fortunas tivessem de emigrar. Acima de tudo, o exemplo sueco diz-nos que há outras formas de arquitectar sociedades.

Também num livro do autor Peter Singer, um mestre de ética, aprendi que a solidariedade depende muito da forma de organização social.

A cidade e a aldeia. Por que é que a aldeia tem uma vida mais comunitária, mais solidária, em última análise que a urbe?

As pessoas na cidade estabelecem as suas relações numa base de anonimato. Na aldeia, todos se conhecem. Mais: na aldeia uma pessoa quando entra e se alguém lhe pedir leite, se ela o recusar, passará décadas em que todos lhe recusarão tudo, condenando-o ao ostracismo absoluto. O mecanismo social de "tu ajudas, eu ajudo", "tu és egoísta, tu levas com egoísmo" é muito mais firme quando as pessoas sabem que vão ter de conviver numa base sólida de duração.

Tenho um amigo vendedor que dizia que com os clientes antigos se preocupava tanto como consigo na escolha dos produtos. Ele nunca os enganava. Havia a tal
base de longevidade a sustentar. A solidariedade é a forma mais inteligente de sobrevivência em casos de longa duração.

Hoje a maior parte das pessoas convivem numa base de horizonte temporal longe de ser perene. Ainda outro dia li que a polícia não apanhou um indíviduo que viu outro a morrer na estrada para o levar ao médico (o que é crime). As pessoas cruzam-se a uma velocidade frenética e sabem que a maior parte das pessoas são como comboios que não passarão novamente no mesmo sítio...

As pessoas estão cada vez mais defendidas, mais preocupadas com o seu mundinho, a segurança e o conforto de si e dos seus.

Angel-querendo-que-isto-vá-noutro-sentido
"I wish i knew how to quit you"

Brokeback mountain

sábado, março 17, 2007

Os dois critérios

Ainda sobre os jovens que morrem... A sua morte parece sempre contra-natura, como uma flor na plenitude do seu fruto ao Sol brutalmente arrancada.

Das duas pessoas que conheço que morreram novas, ouvi dois balanços de vida precisamente opostos: por pais e por amigos.

Um deles era um bom vivant, as pessoas gostavam dele, era carismático e boa pessoa, muito molenga e totalmente desleixado nos estudos e no trabalho. Para os pais era um fracasso. Para os amigos, o máximo. É engraçado que os pais tenham lamentado que o filho tenha morrido sem ter feito nada; e que os amigos ao contrário tenham lamentado que ele vivia tanto e amava tanto a vida tenha morrido

A outra era o contrário. Uma pessoa fechada, com o percurso brilhante, inexcedível para qualquer pai, mas pouco dada às pessoas e sem ninguém em quem confiar. Os pais lamentaram que ela não tenha podido continuar o seu percurso do qual tanto se orgulhavam. Um amigo dela disse: "E ela que não chegou a viver coitada... era a pior pessoa para morrer".

Como é que pais e amigos têm só vêem - alternadamente - um dos critérios?


Angel

Sinistralidade

Tive um professor em Jornalismo que disse:

"Sabem quantas pessoas morrem por dia nas estradas? Cinco. Sabem quantas morreram na noite (em locais de diversão nocturna) o ano passado? Uma."

Factualmente, demonstrou que o receio de mães saloias e provincianas como conheço algumas de que a noite é muito perigosa é uma construção que não se encontra alicerçada em fundamentos racionais.

Os jovens que eu conheço que morreram, morreram na estrada. Eu próprio tive duas vezes perto de morrer. E na estrada.

Convinha que os media reflectissem os perigos nas suas devidas proporções e que a agenda política incorporasse esta verdadeira pandemia nacional que é a sinistralidade rodoviária. Certamente demagógico o argumento (e atenuador da terrível e sem sentido Guerra Colonial), mais ainda assim factualmente relevante, o argumento de Paulo Portas:

"Morreram já mais pessoas na estrada que na guerra colonial"

Angel-quite-simple

sexta-feira, março 16, 2007

Dentro da Faculdade

A área em que eu conheço mais pessoas que ficam com problemas psicológicos (não falo em nenhum estudo empírico, até porque há poucos nesta matérias) é a malta que envereda pela investigação académica, por teses de mestrado e doutoramento, e bolsas, e que fica horas a estudar matérias específicas em salas exíguas de faculdades...

Lia há tempos uma estatística que 1/4 das pessoas sofre de algo tipo de distúrbio psicológico. Gostava de ver este indicador desagregado por profissão.

Talvez possa ser coincidência. Mas conheço tantos casos para tão poucas pessoas que conheço nesta matéria que dei-me ao exercício da reflexão.

Em primeiro lugar, fazer investigação, produzir uma tese, é um exercício, especialmente para quem não faz mais nada como os bolseiros, de total absorção. É pior que ter um filho. Especialmente na parte final. Uma pessoa acorda com a tese, pensa nela no banho, transporta-a para o almoço, janta a tese, pensa em frases que vai verbalizando na sua cabeça enquanto os outros falam connosco. Acorda subitamente a meio da noite porque se lembrou a que a ideia do ponto 3.2.1 ficaria melhor no ponto 4.5.2. As pessoas são dispensáveis portanto e, em última análise, só atrapalham.

De qualquer das formas, não há muitas pessoas para evitar. Entrincheirados na nossa casa com o portátil, no nosso gabinete, nas bibliotecas em que é proibido falar alto; poucas são as pessoas que têm de evitar.

Tenho um amigo que conhece bem os meandros académicos e que me revelou alguns podres inimagináveis. Os professores universitários competem entre eles e sabem os CV´s todos uns dos outros. «Se o outro já está a acabar o doutoramento, eu tenho de me despachar!»

Segundo esse meu amigo, há um sistema de castos ultra-rígido nas faculdades (ou pelo menos em algumas que ele tão bem conhece). Os monitores só convivem com os monitores, os assistentes com os assistentes, os catedráticos com os catedráticos. Se um assistente calha jantar com um professor, isso é um vexame como o Papa ser apanhado por um sacristão a fazer um felatio a um cardeal.


Para lá desta atmosfera, há o problema da sociedade da informação. Hoje sobre qualquer tema eu consigo arranjar centenas de estudos e de instituições e fontes credíveis para demonstrar A e não A. E uma pessoa que passe a vida inteira em mestrados e doutoramentos a saber que só vai acrescentar sobre aquele tema um mílimetro às bibliotecas do mundo - e que no fundo nada vai acrescentar ao mundo pese embora a dedicação de uma vida a um assunto...


Já vi, por exemplo estudos científicos das universidades mais conceituadas demonstrarem que a senciência do feto existe e outros demonstrarem que não existe. Já vi políticos demonstrarem através de estudos que a flexibilidade no emprego aumenta o número de empregos e já vi a OCDE demonstrar exactamente o contrário.

Hoje é fácil com a carga volumosa de acessores que os políticos têm provar A e não A ao saber das conveniências com os esudos mais credíveis.

Mas não é só nas ciências sociais. A nutrição, por exemplo. Não há um único consenso neste matéria. O vegetarianismo prolonga a longevidade? Centenas para sim e centenas para não. Não há um nutricionista que eu ouça ou leia que não diga coisas que outro diz exactamente ao contrário.

E então em última análise o conhecimento é tudo uma questão de fé ou de intuição. Ou do carisma que atribuímos à autoridade da fonte. Uma questão quase estética...

Kurt Godel elaborou um teorema na Matemática tremendo: num sistema axiomático, por mais que esgravatemos, esbarraremos sempre em axiomas que não podem ser provados, e que fazem parte do sistema como axiomas de partida a partir do qual tudo o resto se estrutura... Então é ou não é tudo uma questão de fé?

Anjo-exausto-depois-deste-exercício-do-intelecto

Ilha dos Amores

Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

Luís de Camões

Duas versões

Já reparam que quando alguém está chateado e desabafa connosco nos tendemos a achar sempre que essa pessoa tem razão? Desde há muito, que tenho sempre essa defesa: «Enquanto não ouvires as duas versões da estória, não opines!»

Pessoas há que so lêem (e reproduzem como um espelho) o «Avante!» e pessoas há que só ouvem (nem lêem) o padre e naturalmente têm uma visão parcial da realidade. O mal é que, segundo Bertrand Russel, os sábios estão cheios de dúvidas e os ignorantes cheios de certezas...

Nos antípodas disso, o filósofo norte-americano Emerson afirmou que cada homem que encontrava lhe era superior em alguma coisa...

Anjo-caleidoscópico

Que frase!

"Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós."

Kafka

quinta-feira, março 15, 2007

TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa
com que nós a despimos assim que estamos sós!

David Mourão Ferreira

Culto da personalidade

"Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... "

Álvaro de Campos, Poema em linha recta

Há pessoas cujo principal alimento das suas vidas é projectarem uma imagem de si perante determinadas pessoas que as leva a serem adoradas, admiradas e idolatradas.

São extremamente cuidadosos naquilo que mostram. Calculistas, deliberadas e narcísicas. Não é fácil apanhá-las porque elas desenvolveram ao longo da vida mecanismos cada vez mais ardilosos e sofisticados - mas com o tempo apanhamo-las.

O problemas é que estas pessoas se fazem rodear de um séquito de boas almas, amorfas, que assimilam acriticamente as coisas, de fraco carisma e, regra geral passivas, quando não submissas.

São muitas vezes pessoas destroçadas por dentro, que mascaram frustrações, inseguranças, desilusões (as que eu conheço que mais praticam o culto da personalidade tiveram profundos desgostos de amor que a todo o custo tentam dissimular).

Normalmente não falam de afectos. Coisas tão triviais como contar um sonho ou uma insegurança ou um erro ou uma falha - simplesmente não fazem parte delas. Delas esperem só conselhos de tribuna, estórias de vida em que no final são sempre os heróis. A realidade acontece sempre para demonstrar que todas as suas profecias são leis. "Eu tinha avisado..."

No trabalho, são exímias. As duas pessoas que eu conheço mais praticantes deste desporto tiveram o azar de eu vir pessoas que trabalham consigo e que as desmistificaram por completo - sem que porém eu lhes tenha dito. Diziam que trabalhavam de sol a sol; que trabalhavam mais que ninguém; às vezes suprimem mesmo do seu léxico os actos de dormir e comer para nos criarem a dúvida: será que dormem? será que comem?

Estranho como pessoas que trabalham com elas as chamam de irresponsáveis e maus colegas... Curioso que uma disse que um deles "só trabalha se o nome dele ficar associado a esse trabalho".

Uma das suas estratégias primordiais é a omissão. Nunca mentem para não serem confrontadas com a infâmia da mentira ou da contradição.

Dizia-me um desses narcisos que faz muita gente ao início dizer que ele é um mestre ou um exemplo, sempre que falava da faculdade que "olha nessa cadeira tive 18", "em x fiz melhoria e ia com 17 parece-me" (sempre metido como se fosse um apontamento lateral na conversa). Vim a saber que na faculdade tinha média de 12. Ele nunca mentiu. Simplesmente seleccionava a informação que lhe convinha - induzindo na mente dos seus interlocutores uma inverdade.

Angel-life-is-just-like-a-dream

terça-feira, março 13, 2007

Casa


Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

David Mourão Ferreira

A ditadura da normalidade

Três horas da manhã.
Percebo agora, pelo agitar frenético do meu corpo sob estes lençóis infernais, destilando angústia em inquietas gotas de suor, Scott Fitzgerald… Na noite mais escura da alma são as tais três horas da manhã…
Há muito aninhada na cave escura da minha mente, emerge agora, das profundezas negras e grossas por baixo da superfície do inconsciente, onde nem sequer Freud vislumbrou uns pontinhos, cristalina e perturbante, a terrível dúvida – Quem sou eu?
Recordo pesadamente o dia e vejo o meu eu asfixiando por entre os tentáculos do monstro Sociedade… O confronto matinal com um rosto barbeado de cabelo alinhado no espelho, o postiço sorriso cortês, a imbecil gravata como um órgão estranho e a dilacerante anuência com inanidades materialistas e sexistas…
“É normal ser assim…” – Recorro a este pensamento cheio de ânsia de a ele me aquecer e confortar, mas algo nas regiões insondáveis do meu espírito permanece desconfortavelmente desassossegado. Desconfio que me fartei de estar aprisionado dentro do humanamente correcto…
Dia após dia, desdobramo-nos em múltiplas personas, afivelando máscaras consentâneas com os padrões dos palcos em que actuamos; tragicamente incapazes de resistir ao impulso uniformizador da Grande Mão, violentamente procurando apagar as peculiaridades que fazem a nossa alma única entre seis mil milhões e quatrocentas…
O maior livro do mundo vai tendo cada vez mais capítulos e as suas versões assemelham-se assustadoramente mais do que nunca… Ele diz-nos, entre muitas outras coisas, que devemos todos trabalhar, casar e ter filhos um dia…
Amor, queimemos hoje umas páginas desse livro… não vamos trabalhar, atiramos todos os relógios fora, eu visto o teu vestido e ponho a tua maquilhagem, tu vestes o meu fato e pões aquele teu sorriso inigualável…

Anjo

segunda-feira, março 12, 2007

O que as pessoas fazem? - Julgam que sabem?

Num curto espaço de tempo, descobri que duas pessoas mentem sobre o que fazem profissionalmente. O mundo é mesmo muito pequeno (há uma lei que diz, jogando com o elevar à potência, através de seis pessoas chegamos ao mundo inteiro) e os mentirosos são por isso fáceis de apanhar...

Há mentiras que expõem as pessoas ao caricato. Descobrir que uma pessoa já não trabalha num sítio quando ela há um ano mantém essa mentira... Descobrir que uma pessoa não está no departamento que diz que está, mas noutro mais abaixo... É tão confrangedor que nem tenho coragem ou lata ou despudor ou crueldade suficiente para confrontar ambas.

O que as pessoas fazem dentro das empresas normalmente não o sabemos. Repare-se que as pessoas que não têm empregos com tarefas visivelmente nítidas quando mencionados - como professor ou varredor de ruas - normalmente, quando desempenham tarefas que estão aquém das suas expectativas ou habilitações; refugiam-se em nebulosos nomes.

Uma coisa que constato sempre é que quando alguém diz "trabalho numa empresa de (segurança, bananas, afias)", sem especificar o trabalho remetendo apenas para a função da empresa, regra geral, tem uma função que procuram esconder.

Ou quando falam no departamento, na área em que trabalham. E especialmente quando são confusas, tão confusas que deliberadamente nos fazem desistir pelo cansaço. Naturalmente, farão algo tão complexo que as nossas mentes nem conseguem entender...

Às vezes, as pessoas procuram esconder-se e isso vê-se antes da linguagem, vê-se logo na linguagem corporal, na tensão quando se fala no que fazem. No desviar do olhar, no mexer o cabelo, nas palavras vacilantes, na voz titubeante...

Uma pessoa de Recursos Humanos falou em várias nomenclaturas novas para designar velhas profissões. Todas visavam esconder o Já não há jardineiros, há qualquer coisa como Técnicos de Manutenção e Embelezamento dos Espaços Verdes. Outro dia um tipo que eu conheço que é vendedor disse à minha frente perante outros: "Eu agora sou consultor comercial de topo". De facto, tirando o "de topo", consultor comercial é o que aparece no seu cartão de visita.

Estranha sociedade esta...


Não condendo as pessoas. A sociedade empurra cada vez mais à competitividade. Um economista disse que no século XXI, ao contrário do século XX em que lutaram os «ismos»: Comunismo, Fascismo, Nazismo, Capitalismo; no século XXI lutarão as «ades»: a Solidariedade vs. a Competitividade. O problema é que as pessoas solidárias e honestas vêem a sociedade a andar num sentido oposto ao seu e não lutam.

Uma estória real: um amigo meu foi comercial durante dez anos. Trabalhava o dia todo, chegava a casa e descansava, não tinha energias para mais. Andava o dia todo a andar de um lado para o outro e à noite estava exausto. Ao fim-de-semana também trabalhava. E o seu telemóvel estava 24 horas por dia ligado o que lhe cortava o sagrado sono. Desistiu, deitou tudo fora, e foi para jardineiro da Câmara. A namorada apoiou-o.


Anjo-voltando-à-visão-holística

Pergunta triste

Uma das coisas que mais gosto na vida é a capacidade de ser surpreendido. Pela vida, pelos outros, até por mim próprio. Este fim-de-semana foi surpreendido pelo convencionalismo de um grande amigo que respeito e estimo muito.

Dizia-me ele da data do seu casamento quando eu lhe disse:

"Deixa-me apontar na agenda porque são tantos este ano de família e de amigos que não me quero esquecer de nenhum..."

"Olha que o cerco começa-te a apertar... Já deves estar a sentir a pressã0?"

Como a minha reacção desfizesse o argumento, ele recuou e tentou emprestar uma ironia que não lhe queria dar, como fazem as pessoas que dizem algo que é recebido com hostilidade e depois tentam mascarar "Eh pa, eu tava a brincar".

Que pena em tantos anos não ter captado a minha quinta-essência. Que pena assimiliar acriticamente o que a sociedade nos diz que devemos fazer. Que pena achar que a vontade individual deve ser subordinada às convenções sociais.

Parecia que por detrás da voz dele ouvia um aldeão: «Ai que já estás na idade de juntar os trapinhos. Arranja uma moçoila trabalhadora e séria.»

domingo, março 11, 2007

O conforto da vidinha...

Uma coisa que me desgosta é ver os amigos partirem, entrincheirando-se tanto na vida a dois ao ponto de dispensarem os amigos.

Não guardo mágoas, não guardo ressentimentos; acima de tudo guardo saudades - que naturalmente com o tempo se vão esbatendo...

Assisti vezes de mais na vida a isto para me surpreender. Acumulei experiências que me acumularam resistências...

Não entendo mas respeito. A diversidade das inclinações da natureza humana faz com que os caminhos da felicidade sejam necessariamente diferentes para todos. E ainda bem que o mundo tem tanta variedade e colorido para nos oferecer...

E sei de muitos que não estão assim porque ainda não tiveram a oportunidade. Quando tiverem, o chamamento do quentinho da gaiola dourada vai aprisioná-los. A estabilidade - eis o valor que a maior parte persegue mas não admite.

Alcançada a felicidade amena, devem pensar: «Mas se eu estou bem, para quê arriscar mudar»?. Tinha umas amigas minhas que iam sempre sempre para à noite aos mesmo dias primeiro a um bar e depois a uma discoteca. Nunca ousaram mudar o destino. Perguntei-lhe se uma noite não queriam mudar.

«Para quê se aqui sabemos que gostamos?» - respondeu-me uma.

A mim faz-me confusão. Pior que perde a independência: tornar irrelevantes todas as outras pessoas.

E quando corre mal? Quando corre mal, o mundo desaba. Porque a vida estava restringida a ele ou ela.

E casos houve, de amigas e amigos, que depois voltam, olhos de carneiro mal morto, uma pedindo mesmo desculpa, dizendo que já me devia ter procurado antes mas que "sentia vergonha". Aceito-os sem qualquer cobrança.

Às vezes, há casos que metem dó. Um que viveu 16 anos com uma pessoa e ficou tão tão tão centrado nela, que já não tinha ninguém (como é possível renunciar às pessoas? como é ser feliz sem ter amigos?) e pior: constatei que já não sabe falar com os outros, está anacrónico, ultra-conservador, tímido.

Tudo o que não usado se enferruja. Até a capacidade de falar bem. De ser interessante. E de ter carisma.

Que os vossos parceiros e parceiros nunca vos cerceiem esses talentos...

Angel

sexta-feira, março 09, 2007

O currículo

Cada um tem o seu critério ou os seus critérios de valorização no sexo que gosta. Não pretendo aqui fazer um rebanho das minhas opiniões. Apenas expor-me.

Quando perguntam às mulheres, o que mais apreciam nos homens, a resposta é sempre sempre sempre (com pequenas variantes para a «inteligência»; conceito que se entende cada vez mais multifacetado): o sentido de humor!

Eu não acredito. Acho que per se não leva a nada. Outros factores há que só por si induzem actos...

A cara e o corpo, por exemplo, podem per se levar a que numa discotecas às escuras, uma mulher mais liberal ou mais frívola (cada um que escolha o adjectivo) se enrole com um tipo. Ainda há poucos meses vi isso acontecer com uma conhecida minha. Nem sequer o nome dele sacou, nem falaram nada, e já estavam aos melos...

Outras características como a segurança em si própria, uma oratória inusualmente interessante, uma qualquer afinidade que se ache tremendamente peculiar podem operar milagres...

Agora uma pessoa que só faça rir (e atenção que muitas vezes o «rir com» é confundível com o «rir de» e aí cola-se-nos a máscara do rídiculo...), mais nada - não acredito. Virá sempre o querido ou o palhaço para nos etiquetar nas suas mentes.

Eu, pessoalmente, passei de factores inclusivos para factores exclusivos. Não quero que tenha ou que seja de uma determinada forma. Isso é andar com os moldes a ver quem cabe lá dentro. E como ninguém cabe nos molde, temos sempre de distorcer ou idealizar.

Mas tenho os meus factores exclusivos: não ser racista, homofóbica, materialista, valorizar a leitura, os valores da solidariedade e da honestidade, não acreditar que a vida sem poesia é um erro.

E outro há (afinal com a idade ficamos mais intolerantes e menos pacientes): o seu currículo de homens. Se há energúmenos, fascistas, macho latinos ou pintas no seu CV, eu exerço a minha capacidade de as subtrair da minha vida da forma mais impiedosa. Neste ponto, já exclui muitas. E elas nem imaginam.

Também-o-anjos-fazem-purgas ;)

Fumar ao espelho

Aos cinquenta anos dei por mim a fumar ao espelho e a perguntar E agora, José. Fumar ao espelho, qualquer José sabe isso, é confrontarmo-nos com o nosso rosto mais quotidiano e mais pensado. Por trás, em fundo, tem-se um cenário do presente imediato (a porta do quarto, um cabide vazio) mas esse presente, logo à segunda fumaça já é passado (a porta desfez-se, o cabide voou) e tanto mais passado quanto mais mergulhamos no cigarro. O olhar envelheceu, foi o que foi.E então, por mais que a gente diga que não, começam a aparecer as pegadas históricas do Dinossauro que nos andou a foder a vida durante cinquenta anos. Adivinhamo-las à super-superfície do vidro, são manchas fósseis, gretadas, então não se vê logo?, e, escuta à distância, ouve-se o carrossel do medo. Aqui e ali vão-se levantando farrapos do muito que em nós se adiou e do muito que em nós se morreu, e nalguns casos podemos até distinguir o traço de liberdade que abrimos com os nossos livros nessa desolação prolongada. Pronto, estamos feitos, José. De agora em diante começa o rememorar, devias saber.

José Cardoso Pires

quinta-feira, março 08, 2007

Sempre tremendamente actual

A uma prostituta vulgar

Até que o Sol te rejeite, eu não vou rejeitar-te,
Até que as águas recusem brilhar para ti e as folhas sussurar para ti, as minhas palavras não vão recusar brilhar e sussurar para ti.

Walt Whitman

Está tudo a dormir? Os crimes são apenas espertezas saloias?

Ouvi o Major Valentim Loureiro dizer «Vou demonstrar que no diz respeito ao futebol não fiz nada, nada, que me possa incriminar.»

Mas não há um jornalista que lhe pergunte: «E fora do futebol?»

Caramba, mas só eu é que vejo as entrelinhas de crimes na frase do Major? E o despudor de quem fez crimes mas não foi apanhado?

É que esta frase que eu já ouvi hoje dita pelo Major em duas vezes que falou aos mídia subentende pela veemência com que é dita:

«Eu fiz muita merda mas foda-se aqui no futebol estou limpo!»

Isto num gajo que tem longa carreira na política e no poder autárquico.
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!

Álvaro de Campos
when i see you happy as a girl
that swims in a world of magic show

The Cure, High

quarta-feira, março 07, 2007

"It tastes like nothing on earth"

The cure, Kyoto song

terça-feira, março 06, 2007

NOJENTO

A morte à venda


Miguel Gaspar

Um sidecar para transportar uma urna? Pagar 30 mil euros por um enterro? São dois exemplos da revolução anunciada no "negócio da morte" de que damos conta nesta edição do DN. O cemitério da cidade alentejana de Elvas será o primeiro a contar com a gestão privada da multinacional Servilusa - tirando aliás partido de uma bem portuguesa omissão na lei. O mais relevante nesta transformação da morte em mercadoria é a forma como transforma um dos rituais mais profundos das sociedades humanas.

A antropologia ensina-nos a importância da morte na cultura desde o homem primitivo. Aprendemos a encontrar nos monumentos funerários testemunhos duradouros de hábitos e de visões do mundo do passado. Imagina-se portanto o problema que espera os arqueólogos do século XXXIII. Hoje podemos compreender hierarquias sociais ou mitologias estudando uma pirâmide do antigo Egipto. Será que o legado do século XXI à memória das épocas futuras consistirá na redução do momento da passagem a uma frivolidade social, em que nos preocupamos com o catering e a reportagem em vídeo do acontecimento, em vez de prestar homenagem à memória de quem nos deixa?

Em sociedades materialistas e consumistas como a nossa, a morte é praticamente o único momento em que retomamos contacto, provisoriamente, com a dimensão vital da experiência humana. A morte não é hoje o mistério que intrigava os primitivos ou que alimentou durante milénios o poder das religiões. A comercialização da morte, em si mesma, não é uma novidade: afinal de contas, sempre existiram agências funerárias. Só que estas nunca deixaram de respeitar o modo tradicional de encarar a morte. Pelo contrário, o novo negócio introduz princípios novos: se o culto do consumo consegue transformar a vida numa experiência banal, em que apenas conta aquilo que se pode comprar, então faz sentido que a morte seja, também ela, banalizada.

"Tal como os regimes comunistas procuraram eliminar a religião do quotidiano das pessoas, em nome de uma ideologia, as sociedades liberais estão a transformar toda a cultura, não necessariamente em nome de uma ideologia, mas da materialização desta em custos e proveitos. Uma sociedade na qual é possível usar um sidecar para enterrar entes queridos não terá uma relação omissa com o simples acto de estar vivo?

A mensagem das empresas

Outro dia estive num jantar que reunia muitos empresários e muita malta das empresas, nomeadamente do millenium bcp. Na minha mesa, as pessoas só falavam... não de trabalho, porque isso seria, enfim, banal para servir de post; mas falavam exclusivamente em tom lisonjeiro da sua empresa.

Era estranho. Pareciam cérebros formatados.

"Estão a ver as vossas mãos? Têm todas um M nas linhas... É um M de Millenium." - disse um mentecapto num tom mais profético que irónico.

Assustei-me com o tom.

Depois alguém disse com ar crédulo a maior utopia que ouvi condensada numa frase:

"No Millenium há 11 mil trabalhadores e não há um único insatisfeito."

Olhei para ele como se de um louco se tratasse e ele então repetiu:

"No Millenium há 11 mil trabalhadores e não há um único insatisfeito."

Hoje, nas empresas, conseguiu-se com uma terrível falácia assimilada acriticamente pela maioria, aniquilar praticamente a luta de classes: o amor à camisola.

Eu próprio já estive numa empresa numa secção em que tinha acesso a todos os custos de recursos humanos. Havia uma senhora que com filhos para cuidar ganhava 500€ (cem contos) e havia uns tipos que ganhavam 2400 contos por mês mais ajudas de custo mais cem contos que um gastava no telemóvel por mês.

Curiosamente, a senhora dos cem contos, a Eufémia, falava muitas vezes comigo no autocarro e dizia-me sempre:

"Agora a empresa está em crise. Precisamos todos de fazer um esforço."

Nunca lhe terá ocorrido que ao estar do mesmo lado da corda da empresa, a puxar, a puxar, para que imaginariamente ela não rompa, do mesmo lado que os que ganham 2400, ela estará tão concentrada em puxar a corda que não reparará que a seu lado está alguém que ganha apenas 24 vezes mais que ela.

Nunca lhe terá ocorrido também que o ordenado dela era residual nos custos totais da empresa e que mais vinte ou quarenta contos que a ela lhe fariam toda a diferença, para a empresa nada significassem (era apenas uma parcela reduzida do que outros gastavam em telemóvel).

A empresa estava sempre em crise e nas reuniões a administração visivelmente triste pedia encarecidamente aos trabalhadores um esforço suplementar. «Agora temos de olhar todos para o mesmo lado. Temos de correr todos pela empresa senão estamos todos tramados». E todos acreditavam. E nunca exigiam compensação. E todos puxavam para o mesmo lado.

O mais incompreensível para mim era que esta prática discursiva não era pontual. Era uma estratégia recorrentemente usada. Mas a empresa conseguia eficazmente ter as pessoas lá a trabalhar inúmeras vezes fora de horas, a trabalhar ao fim-de-semana, sem nunca lhes pagar um tusto de horas extraordinárias.

Dizia Carvalho da Silva que hoje o espírito de defender a empresa é o maior inimigo do sindicalismo. E tem toda a razão.

Hoje as pessoas não conseguem alongar a visão para lá de si e verem o que antes viam. E então não há visão de conjunto. Eu sou mineiro e sou explorado, pensava-se antes. E isso levava à união dos mineiros. E em última análise à união do proletariado.

Por mais bacocos que estes conceitos nos pareçam, se suprimirmos a reivindicação social, os horários de trabalho, os sindicatos, o Estado Social, a legislação laboral; estaremos cada vez mais perto da escravatura.

Hoje o estratagema da «empresa amiga» faz com que eu me abstraia da minha situação profissional, da exploração, e que acredite que o inimigo está sempre sempre lá fora. A xenofobia começa logo aqui...

A maior parte das empresas está-se a cagar para o trabalhador para lá do facto de ele ser um instrumento de maximização do lucro. E a exploração existe e ataca hoje mais do que ontem porque já abrange as profissões mais qualificadas.

Facto: Há recém-licenciados a trabalhar 15, 16 horas em muitos dias. E só porque querem ganhar mais e mais e mais e com o medo de serem despedidos, nada dizem. Em Espanha, um estudo veio demonstrar à saciedade que a esmagadora maioria dos espanhóis prefere ter menos tempo livre e ganhar mais que o contrário (e têm o poder de compra três vezes maior que o nosso).

Anjo-Hoje as pessoas são máquinas com cada vez menor paladar e vontade de saborear...

segunda-feira, março 05, 2007

O que mais me irrita

Gosto de jogar jogos mentais. Não gosto muito de cartas nem de jogos de tabuleiro, tirando talvez o Trivial, mas há uma nova gama de jogos muito estimulantes intelectualmente. Há tempos joguei o «No limite» onde cada pessoa era confrontada com uma situação-limite e os outros tinham de adivinhar o que cada pessoa optava por fazer.

Uma vez, sem tabuleiro, joguei ao «Que mais?».

- O que mais te deixou feliz?

- O que mais querias que te acontecesse?

- O que mais te irrita?

A minha resposta:

- Pessoas que não te passam cartão quando estás na merda e não és ninguém e quando sobes ao estrelato ou precisam de ti se desfazem em sorrisos postiço, palmadinhas nas costas e tchim tchims de copos de champagne. Mas tu lembras-te do olhar que te lançaram quando estavas debaixo da ponte no dia de vento gelado, como se de um cão morto te tratasses, e o cobertor e a sande que te recusaram. E nada pode ser mais odioso que isso...

Anjo-a-parcimónia-nas-palavras-por-medinho-é-cada-vez-mais-comum...

Saudação a Walt Whitman

http://www.revista.agulha.nom.br/facam05.html

sexta-feira, março 02, 2007

Ciência e Amor

1. Pessoas que se apaixonam por almas livres nunca estão satisfeitas, e isto explica-se facilmente:

Definição

Alma livre: aquela que não se prende a ninguém

2. Hipótese: Pessoa “A” que se apaixona por pessoa “B”: “A” deseja possuir “B”
Sendo “B” uma alma livre, dois cenários (ambos nefastos) acontecem

Corolários

2.1. Se “B” continuar a ser querer ser livre, não se vai querer “prender” a “A”. Resultado: “A” sofre
2.2 Se “B” se prender a “A”, “B” deixa de ser alma livre. Logo, “A” perde o interesse em “B” por já não ser alma livre. Resultado “A” e “B” sofrem.

Conclusão: Ora porra...

Autor: Engenheiro das relações

Fortes e fracos

Tudo pode ser visto de ângulos distintos. Tenho um amigo que não se importa que o pisem e repisem. Se está realmente interessado numa rapariga, aventura-se a ela, sem calcular primeiro as suas possibilidades, sem medo da rejeição.

Dizia-me ele que tem a auto-estima muito baixa.

Eu contrapus-lhe: "Não, tu tens a auto-estima tão grande que estás-te nas tintas para seres rejeitado. Isso não te machuca. Não tens medo. E só não tem medo da rejeição que tem uma grande auto-confiança. É como se acreditasses tanto em ti e no que sentes que tornas irrelevante o que outro acha. E a rejeição é a pior maneira que o outro tem de rejeitar."

E de facto, para se dispensar o orgulho, é preciso ser-se tremendamente forte. Porque o orgulho é uma fraqueza camuflada de força, um instinto protector dos egos fracos, um instrumento de chantagem de quem se sente inferiorizado. Quem se está nas tintas para adoptar uma capa protectora que lhe empreste um ar mais forte, é porque é realmente forte...

As mulheres, regra geral, adoram picar os homens e muitas dizem coisas provocatórias unicamente para os picar. Há tempos uma brincava comigo, uma, duas, três, vezes, a dizer que se calhar eu tinha um caso com um tipo que é gay e é meu amigo, eu não respondi como ela queria:

"Foda-se tás parva ou quê?"

Simplesmente sorri e nada disse.

Ela ao fim da quarta boca ficou irritada e disse:

"Eu tou-te a picar e tu não reages?"
Tenho uma amiga que é uma pessoa inusualmente alegre. Está 99% das vezes bem-disposta (sim e tem o período). Com os namorados, há sempre um choque.

Ela diz que eles têm inveja da sua alegria e como corolário infernizam-lhe a vida tentando nivelá-la ao nível de felicidade deles. Abel e Caim, versão moderna...

quinta-feira, março 01, 2007

Coisas Horríveis

Outro dia, entrevistando o Baptista-Bastos, ouvi: "Sou um homem que tem uma larguíssima experiência de vida. Vi imensas coisas, muitas das quais não devia ter visto."

Relacionei o que ouvi com a frase de Herberto Hélder: "Se quisesse enloquecia. Sei uma quantidade de estórias terríveis. Vi muitas coisas, contaram-me casos extraordinários(...)"

Dei por mim a pensar e lembrei-me de:

a) frases de homens que ouvi. "ela anda com ele para foder. mas ó angel, elas querem o quê?" Mais tarde ouvi:"querem é pichoooota" (dito oralmente como pechoooota). Na noite, ouvi a pior expressão para comer gajas: "ando aí a ver se molho a sopa";

b) um tipo no autocarro, com vinte e poucos, que dizia que se o irmão morresse ele ficaria com todas as coisas dele (que eram muitas) e que essas coisas lhe daria um outro bem-estar (verdade...);

c) a ingratidão das pessoas que receberam tudo de mim e de outras pessoas e que no final só pediram mais de mão esticada;

d) um tipo riquíssimo que dava voltas e voltas para contornar um portagem e fugir aos vinte cêntimos porque a empresa lhe pagava gasolina mas não portagem;

e) um taxista que defendia que os pretos, os ciganos e os drogados deviam ser todos afundados em barcos no Tejo;

f) um arrivista social que quando foi promovido a director-geral encontrou na festa da empresa um amigo de escalão baixo e para enorme espanto do amigo fingiu quando este se aproximou dele e dos bosses... não o conhecer.

Anjo-o-fluxo-da-consciência-é-um-rio
You are a tower of strength to me

The Mission