quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Mais do mesmo

Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, e a nós mesmos - que amamos.Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é um abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso.É o único que não disfarça nem se engana.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Desconstruindo o Amor

Nós não podemos amar, filho. O amor é a mais carnal das ilusões. Amar é possuir, escuta. E o que possui quem ama? O corpo?
Para o possuir seria preciso tornar nossa a sua matéria, comê-lo, incluí-lo em nós... E essa impossibilidade seria temporária, porque o nosso próprio corpo passa e se transforma, porque nós não possuímos o nosso corpo(possuímos apenas a nossa sensação dele), e porque, uma vez possuído esse corpo amado, tornar-se-ia nosso,deixaria de ser o outro, e o amor, por isso, com o desaparecimento do outro ente, desapareceria...Possuímos a alma? Ouve-me em silêncio: Nós não a possuímos. Nem a nossa alma é nossa sequer. Como, de resto, possuir uma alma? Entre alma e alma há o abismo de serem almas.Que possuímos? Que possuímos? Que nos leva a amar? A beleza? E nós possuímo-la amando? A mais feroz e dominadora posse de um corpo o que possui dele? Nem o corpo, nem a alma, nem a beleza sequer.A posse de um corpo lindo não abraça a beleza, abraça a carne celulada e gordurosa; o beijo não toca na beleza da boca, mas na carne húmida dos lábios perecíveis e mucosas; a própria cópula é um contato apenas, um contato esfregado e próximo, mas não uma penetração real, sequer de um corpo por outro corpo... Que possuímos nós? Que possuímos?As nossas sensações, ao menos? Ao menos o amor é um meio de nos possuirmos, a nós, nas nossas sensações? é, ao menos, um modo de sonharmos nitidamente, e mais gloriosamente portanto o sonho de existirmos? e, ao menos, desaparecida a sensação, fica a memória dela conosco sempre, e assim, realmente possuímos...Desenganemos até disso. Nós nem as nossas sensações possuímos. Não fales. A memória, afinal, é a sensação do passado... E toda a sensação é uma ilusão.- Escuta-me, escuta-me sempre. Escuta-me e não olhes pela janela aberta a plana outra margem do rio, nem o crepúsculo, nem esse silvo de um comboio que corta o longe vago. - Escuta-me em silêncio...Nós não possuímos as nossas sensações... Nós não possuímos nelas.

Livro do Desassossego

domingo, fevereiro 25, 2007

Treasure

she whispers
"please remember me
when i am gone from here"
she whispers
"please remember me
but not with tears...
remember i was always true
remember that i always tried
remember i loved only you
remember me and smile...
for it's better to forget
than to remember me
and cry"


Robert Smith

sábado, fevereiro 24, 2007

Paternalismozinhos



Uma das coisas que mais me irrita são as pessoas que usam o conhecimento intímo que têm dos outros para exercerem um ascendente sobre eles. Eu sei isto sobre ti; eu tenho este poder sobre ti! Fraquejaste, contas-me algo, e eu exerço sobre ti um domínio! Isto às vezes manifesta-se de forma extraordinariamente subtil, mas a existência está lá.

Há pessoas que metem tanto o bedelho na vida das outros que às vezes pergunto-me se não usam isso para mascarar a sua ausência de vida, o seu deserto emocional.

E pessoas há de uma outra natureza, que passam a vida a fazer perguntas com «inhos» (então a namoradinha?, então o zézinho está bom), e que gostam de dar conselhos quando ninguém lhos pediu. Pessoas que ganham uma estranha intimidade connosco sem pagarem bilhete de entrada...

E depois usam de paternalismos e de protecções quando a única coisa que nós lhe pedimos é que nos deixem em paz e não metam o bedelho nas nossas vidas - e muito menos andem para aí a comentar com os outros a nossa vida íntima - para nos proteger, claro!!!

- Tu não podes andar sempre a discutir com ela (dizem meneando a cabeça em tom de superioridade paternal);
- Ai eu tenho de a conhecer para ver se é boa espingarda;
- Vê se te acalmas e fazem as pazes...

Quantas vezes não dá vontade de responder:

- Get a life!;
- Mas o que é que tu sabes que eu te tenha contado?
- Diz-me lá então como é que eu alcanço a tua relação perfeita...

É por pessoas assim que sempre conscienciosamente me retraí em falar em namoros ou amizades coloridas. Cada vez conto menos a menos pessoas. Aquilo não contamos podemos sempre vir a contar sem que isso nos traga particulares dissabores ou arrependimentos, mas daquilo que já contámos, não poderemos voltar jamais atrás...

Anjo-pacífico-mas-enfurecido

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Amiga Bé alvitra a seguinte passagem literária:

"No fundo havia uma cabana feita de troncos que tinham sido atirados do alto. Era uma cabana muito velha; porque ao longo dos tempos ali tinham morrido homens solitários. As suas últimas palavras e desesperadas maldições estavam escritas em pedaços de casca de bétula, como pudemos ler. Um tinha morrido de escorbuto; o sócio de outro tinha-lhe roubado os últimos víveres e a pólvora e fugira; um terceiro fora gravemente ferido por um urso pardo; o quarto foi caçar e morreu de fome - e assim por diante. Não tinham querido deixar o ouro e morrerem junto dele, de uma maneira ou de outra. Aquele ouro inútil que tinham recolhido cobria o piso da cabana como num sonho."

Jack London, O filho do lobo

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Por favor parem... leiam.. e tentem digerir

"Falar é ter uma grande consideração pelos outros"

"A vida prática é o menos cómodo de todos os suícidios"

"O entusiasmo é uma grosseria"

Livro do Desassossego

O amor é uma companhia

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro
Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.


Alberto Caeiro

Last Dance

I'm so glad you came I'm so glad you remembered To see how we're ending Our last dance together Expectant Too puctual But prettier than ever I really believe that this time it's foreverBut older than me now More constant More realAnd the fur and the mouth and the innocenceTurned to hair and contentment That hangs in abasement A woman now standing where onceThere was only a girlI'm so glad you came I'm so glad you rememberedThe walking through walls in the heart of December The blindness of happinessOf falling down laughing And I really believed that this time was foreverBut Christmas falls late now Flatter and colderAnd never as bright as when we used to fall All this in an instant Before I can kiss you A woman now standing where once There was only a girlI'm so glad you came I'm so glad you remembered To see how we're ending Our last dance together Reluctantly CautiouslyBut prettier than ever I really believe that this time it's foreverBut Christmas falls late now Flatter and colderAnd never as bright as when we used to fall And even if we drinkI don't think we would kiss in the way that we didWhen the woman Was only a girl

Robert Smith

terça-feira, fevereiro 20, 2007

The same deep water as you

Kiss me goodbye Pushing out before I sleepCan't you see I try Swimming the same deep water as you is hard "The shallow drowned lose less than we" You breathe The strangest twist upon your lips "And we shall be together... ""Kiss me goodbye Bow your head and join with me" And face pushed deep Reflections meetThe strangest twist upon your lips And disappear The ripples clear And laughing Break against your feet And laughing Break the mirror sweet "So we shall be together... ""Kiss me goodbye" Pushing out before I sleepIt's lower now and slower now The strangest twist upon your lips But I don't see And I don't feel But tightly hold up silently My hands before my fading eyes And in my eyes Your smile The very last thing before I go...Iwill kiss you I will kiss you I will kiss you forever on nights like this I will kiss you I will kiss you And we shall be together...

Robert Smith

segunda-feira, fevereiro 19, 2007



Ornatos Violeta

domingo, fevereiro 18, 2007

O suplente

No livro ´O suplente´do Rui Zink a ideia-chave que é desenvolvida é: será que nas coisas que desempenhamos na vida - no amor, no trabalho, em todos os papéis que nos desdobramos - nós não fomos a primeira escolha?

A ideia é original e a sua formulação é corajosa. No fundo, nenhum de nós gosta de saber que está num sítio como um suplente. Somos apenas a escolha a seguir à rejeição de alguém que não quis o que nós queremos.

Será que somos suplentes na vida das pessoas que mais gostamos?

O óptimo é inimigo do bom e o mínimo que podemos pedir das nossas âncoras na vida é que sejam encarados como os melhores, os óptimos, os inexcedíveis - não podemos admitir sequer a dúvida que haveria alguém melhor que nós para o "cargo" (num sentido nobre) que nos atrubuiram.

«Second best» é pior do que ser último.

Anjo-perfurando-a-ferida-com-o-dedo

sábado, fevereiro 17, 2007

Um dos grandes poemas portugueses

Será que ainda me resta tempo
contigo,
ou já te levam balas de um qualquer
inimigo.
Será que soube dar-te tudo o que
querias,
ou deixei-me morrer lento, no lento
morrer dos dias.
Será que fiz tudo que podia fazer,
ou fui mais um cobarde, não quis ver
sofrer.
Será que lá longe ainda o céu é azul,
ou já o negro cinzento confunde Norte
com Sul.
Será que a tua pele ainda é macia,
ou é a mão que me treme, sem ardor
nem magia.
Será que ainda te posso valer,
ou já a noite descobre a dor que
encobre o prazer.
Será que é de febre este fogo,
este grito cruel que da lebre faz lobo.
Será que amanhã ainda existe para ti,
ou ao ver-te nos olhos te beijei e
morri.
Será que lá fora os carros passam
ainda,
ou estrelas caíram e qualquer sorte é
benvinda.
Será que a cidade ainda está como
dantes
ou cantam fantasmas e bailam
gigantes.
Será que o sol se põe do lado do mar,
ou a luz que me agarra é sombra de
luar.
Será que as casas cantam e as pedras
do chão,
ou calou-se a montanha, rendeu-se o
vulcão.

Será que sabes que hoje é domingo,
ou os dias não passam, são anjos
caindo.
Será que me consegues ouvir
ou é tempo que pedes quando tentas
sorrir.
Será que sabes que te trago na voz,
que o teu mundo é o meu mundo e foi
feito por nós.
Será que te lembras da côr do olhar
quando juntos a noite não quer acabar.
Será que sentes esta mão que te agarra
que te prende com a força do mar
contra a barra.
Será que consegues ouvir-me dizer
que te amo tanto quanto noutro dia
qualquer.
Eu sei que tu estarás sempre por mim
não há noite sem dia, nem dia sem fim.
Eu sei que me queres, e me amas
também
me desejas agora como nunca
ninguém.
Não partas então, não me deixes
sozinho
Vou beijar o teu chão e chorar o
caminho.
Será,
Será,
Será!

Pedro Abrunhosa

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Do meu amigo Marco

sem meio

se pelo fim ou pelo principio,
se é que os houve
digo eu, ou dizes tu

instalou-se num abrir e fechar de olhos,
a correr íamos numa chuva sem igual
abracei-te firmemente em mim
tanto me fazia, o céu desabou
não ainda, acordaste, agora sim
naquela manha, até hoje
nada mais belo de ver
nada tão simples de descrever
naquela ingenuidade
de quem quer mas não sabe

depois do sol e da pequena estrada
eras tudo e mais nada, mais branca que neve
submersa naquele café, tu eras anjos
perdidos talvez na maré, jamais
no regresso eu voltei a ser
mas possas tu entender, que nada
para procurares em mim, há
nesta ordem de me afastar
depois de te ver chegar, e
de novo me tornar sempre.

Marco

De Camões

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de uma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.
Ela só viu as lágrimas em fio,
que de uns e de outros olhos derivadas
se acrescentaram em grande e largo rio.
Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.
há-de flutuar uma cidade...

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


Al Berto

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

O talvez autor mais prolixo de frases geniais disse:

«Há quem faça da arte a sua vida e há quem faça da vida uma arte».

Comentário angel: cada vez há menos de um e de outro.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

INVEJA

Quando era novo e ouvia falar nos pecados, dava especial importância ao da preguiça, porque me parecia ser aquele que mais praticava. De todos os outros, a inveja era o que menos compreendia. Havia meninos invejosos que me queriam roubar berlindes a jogar ao guelas, mas não conseguia transpor o conceito de inveja para outros domínios - para lá dos berlindes

Foi tarde, muito tarde, que me apercebi do quão forte, poderosa e omnipresente é a inveja.

Hoje sei que a pior forma de alguém detestar alguém é se a vir de baixo para cima. Se alguém detestar alguém, mas vendo-a a partir de cima, muito mais facilmente o seu sentimento degenera em desprezo do que pelo ângulo oposto.

É incrível como as raparigas mais giras são sempre as mais atacadas pelas suas pares. E atacadas de uma forma subtil e paternalista. «Ela coitada...»; «Ela é carente»; «Ela precisa de ajuda».

Tenho para mim que seu eu fosse menos interessante e espirituoso aos olhos dos outros, hoje teria menos inimigos. Conheci um tipo no trabalho assim. Sempre que me via bem-disposto, a rir ou a sorrir, procurava picar-me. Quando o meu estado de espírito não aparentava alegria, ele relaxava.

Actualmente, a pessoa que mais tenta ser sardónico para comigo é uma pessoa cheia de complexos. E nos pontos em que tenta alfinetar-me é precisamente nos pontos em que faz uma representação de mim demasiado positiva - e nele negativa. O meu silêncio, a minha ausência de reposta, de estímulo defensivo ou contra-atacante matam-no devagarinho. O meu silêncio é o grito mais lancinante da sua alma. Tenho genuinamente pena dele.

Muitas vezes vejo pessoas a quererem nivelar os outros para baixo - para se sentirem menos em baixo. É a estória de Caim...

Há tempos um amigo meu falava de um nosso conhecido como "um sobrevivente". Dizia-me esse amigo que carregamos todos complexos desde o secundário - estigmas, caricaturas, alcunhas. Devido às suas deformações físicas na adolescência, ele terá sido cruelmente ridicularizado - especulou. Hoje é uma pessoa que ostenta arrogância. Eu disse-lhe que ele mascarava a insegurança assim. A ferida do secundário não deve ter sarado. E talvez não sare nunca.

Esse sobrevivente é das pessoas que mais goza com os outros - com os seus tiques, as suas opiniões, com a beleza e a sexualidade dos outros.

Um outro indíviduo que eu conheço que era generoso com o amigo e idealista na visão da sociedade, foi esmagado pelas circunstâncias da vida. Falhou na faculdade, falhou no mercado de trabalho, teve um grande desgosto de amor e teve toda uma série de expectativas goradas. Ficou a olhar para os outros e pensou "Eu tive todos os princípios e nunca tive nada e vocês meus sacanas".

Tornou-se uma das pessoas mais amargas e azedas que por aí circulam... Só se consegue realmente dar como amigo com alguém que ele ache que esteja a nível dele. Se a pessoa for mais nova e mais bem-sucedida que ele, ele faz tudo tudo para o deitar abaixo. Para deitar abaixo o optimismo, os sonhos por esmagar, a alegria do olhar perante a estrada não percorrida... «Eu merecia e não tive. Tu também não hás-de ter» há-de ser o mote da sua mente onde a negritude se instalou.


Como sempre a Literatura contém lá tudo e é uma curiosíssima constatação abrirmos a última página do último cântico dos Lusíadas para descobrirmos a última palavra da Obra...


Angel

Que se lixe

Sem pôr em dúvida a evidente legitimidade da Assembleia da República para alterar a lei ou mesmo para, mais do que isso, usar o resultado do referendo de domingo como indicador do caminho a seguir (se o referendo não chegou a ser vinculativo para o SIM, ...) ... Sem pôr em dúvida a evidente legitimidade da Assembleia da República para alterar a lei ou mesmo para, mais do que isso, usar o resultado do referendo de domingo como indicador do caminho a seguir (se o referendo não chegou a ser vinculativo para o SIM, menos o seria para o NÃO), o facto é que mais de metade dos portugueses não se deu ao trabalho de votar, e não compreendo em que se basearam os tantos que deram os parabéns ao "povo português" (as aspas devem-se às dúvidas quanto à sua existência como coisa concreta) pela demonstração de "maturidade cívica" (as aspas devem-se às dúvidas quanto à aplicabilidade de tal expressão quando remetida a um hipotético "povo português"). Haverá, com certeza, aqueles que não votaram por, depois de todos os esforços, não terem conseguido chegar a uma decisão entre o SIM e o NÃO. Serão poucos. A imensa maioria dos que não votaram simplesmente não esteve para isso. Digo-o sem outro elemento além da observação do comportamento geral dos meus concidadãos. Adoraria que houvesse quem mo negasse e apresentasse evidências da negação. E, no entanto, onde quer que se esteja, seja qual for o grau de escolaridade, a cor política, o credo (ou não) religioso, o sexo, a preferência sexual, o clube de futebol, a ideologia, ninguém que tenha nascido fica indiferente quando o assunto é o aborto. Toda a gente tem alguma coisa a dizer – mesmo que seja uma grande dúvida. E, consultados, alguns portugueses disseram SIM, alguns (menos), NÃO, mas a maioria (mais do que a soma do SIM e do NÃO) disse "QUE SE LIXE". Podem ter sido menos do que no referendo anterior – ora viva! – mas ainda é, absolutamente, muita gente a dizer QUE SE LIXE. E vem daí a minha dúvida sobre a existência concreta do "povo português": existe um povo digno desse nome quando, consultado sobre a despenalização do aborto, a maioria responde QUE SE LIXE e os seus líderes e formadores de opinião em geral só se lembram de lhe elogiar a "maturidade cívica"? Se estivesse convencido da existência de um "povo português" teria que me incluir nele. Incluído nele, só teria vergonha a sentir quando verificasse que nem a metade de nós se dignou a atender ao apelo a que respondêssemos a uma consulta como a de domingo. Não se tratava de referendar o Tratado Constitucional da União Europeia, isso sim, uma estupidez, porque se trata de matéria política, com implicações políticas complexas, de longo prazo, e, se não delego aos políticos o poder de decidir sobre matérias dessa natureza, não sei o que raio lhes hei de delegar. O referendo sobre o Tratado Constitucional europeu, qualquer que seja o seu resultado, será uma fraude. Não é assunto sobre o qual o eleitor médio (eu incluído) esteja preparado para decidir, não é assunto que mobilize um povo (a não ser nas explorações populistas que, eventualmente, se façam dele) – querem legitimá-lo através de uma consulta popular deformada. Se querem saber o que o povo pensa sobre o Tratado Constitucional, encomendem um estudo a algum instituto de sondagens, capaz de corrigir as deformações de uma amostra que estará sempre muito longe do universo de eleitores potenciais. Mas lembrem-se: desgraçado é o povo cujos governantes se governam pelo senso comum. Mas, no último domingo, não se tratava disso, e sim de um referendo sobre uma questão que, ao fim e ao cabo, diz respeito a convicções pessoais e, ainda mais do que isso, íntimas e, portanto, tão legítimas as minhas quanto as do médico, do padre ou do político. Nas próximas eleições – autárquicas, presidenciais, legislativas, não importa – abatam-se pelo menos 50 pontos percentuais das abstenções antes de se tentar avaliar por elas o tamanho do (des)crédito dos políticos. Os políticos não estavam em jogo no domingo passado. O problema não está tanto neles quanto naquilo que, por convenção, tem sido chamado de "povo português". Mas "povo" é, necessariamente, um organismo feito de entes solidários. Mais de metade dos portugueses disseram QUE SE LIXE no último domingo. Somos um povo?

Mário Negreiros

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Não fui feito para isto

Chateaubriand dizia que, se é triste envelhecer num mundo que se conhece, é muito mais triste envelhecer num mundo que não se conhece e de que não se gosta. O mundo dele, entre 1815 e 1830, apesar de tudo, não mudou muito. O meu mudou para lá de qualquer possibilidade de reconhecimento. Já sei que vou dar um exemplo ridiculamente banal, mas no fim do dia, quando me levanto da secretária e ligo a televisão, tenho sempre o mesmo choque. Não há nada que, para mim, seja "normal". O fait divers, a política do sound-byte, o soft-core, as perseguições de carro, os peritos de coisíssima nenhuma não fazem parte da civilização em que nasci. Numa parte remota da minha cabeça, admito que devia aprovar a ignorância e a vulgaridade democrática. Infelizmente, não sou capaz. Desisto e leio. De facto, cada vez mais releio os livros de antigamente, suponho que à procura de um pequeno canto de sossego e sanidade.
O Estado também aflige. Por favor, não tomem isto como propaganda política. Imaginem o Estado durante Salazar e Caetano. Existia a PIDE e a censura: e mil tiranetes por aqui e por ali. Não vale a pena repetir o óbvio. Em compensação, o Estado não queria mandar na vida de ninguém. Não proibia que se fumasse. Deixava o trânsito largamente entregue a si próprio. Não andava obcecado com a saúde e a segurança. Não regulava, não fiscalizava, não espremia o imposto até ao último tostão. Um indivíduo, pelo menos da classe média, passava anos sem encontrar o Estado: em Portugal, em Inglaterra, em Itália, na Europa. Acreditam que nunca voltei a sentir o espaço e a liberdade desse tempo?
Estou a "sentimentalizar", a "idealizar" uma realidade, no fundo, horrível? Não me parece. Escrever, por exemplo. Quando comecei a escrever, escrevia. Sob o peso da Ditadura, claro, e sob a pressão do conformismo marxista. De qualquer maneira, escrevia desprevenidamente. Agora, escrever é uma variante de pisar ovos. Os mestres do "correcto" vigiam, como nunca vigiaram os coronéis de Salazar. Até a sociedade portuguesa de repente acordou puritana. Cada cidadão, cada medíocre, cada engraçadinho pode esconder um polícia. Pior ainda: um delator e um explorador do escândalo. Os grandes crimes (como de resto os pequenos delitos) contra o corpo ou qualquer espécie de igualdade não se toleram, nem se desculpam. E, entretanto, o indivíduo morreu. Não fui feito para isto.

Vasco Pulido Valente

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Grandes Portugueses

Ainda a propósito dos portugueses, dos seus hábitos, há uma coisa que eu noto - quem é grande neste país, depressa se enche de soberba.

No futebol, José Mourinho é o supra sumo da arrogância. "Special one" - auto-intitulou-se a sim mesmo na chegada ao Chelsea. "Chelsea has top players and now has a top manager". Desconhecerá, por certo, que o auto-elogio tem pouco valor e que a única coisa que nos cola é arrogância - ou insegurança.

Há treinadores que ganharam muitos mais títulos que Mourinho. Por exemplo o Trapattoni. Quando Mourinho perde, desculpa-se sempre sempre sempre com árbitros ou com o anti-jogo da equipa adversária, ou com uma tremenda falta de azar... Ou pior, rasgar a camisola de um jogador do SCP (Rui Jorge) e dizer que queria que ele morresse em campo.

Antes de cada jogo, Mourinho diz que vai ganhar (especialmente quando o jogo é mais difícil). Trapattoni quando chegou a Portugal ficou atónito com o hábito do"vamos ganhar", afirmando só poder dizer "vamos tentar ganhar". Porque do outro lado há uma equipa a respeitar, há ambição, há fome de ganhar. Também.

Por mais bem sucedido que seja Mourinho nunca será um Senhor do Futebol. Falta-lhe grandeza e princípios - para lá do seu espírito competitivo. É fácil de ver. Basta ver o pormenor de haver um jogador em campo caído no chão e de o treinador das duas uma: ou mandar jogar ou mandar os seus jogadores atirarem bola fora para ser prestada assistência.

Na literatura, Saramago e Lobo Antunes são do mais arrogante que há. O primeiro manda retirarem-se jornalistas quando não lhes agrada, insulta jornalistas, tem a lata de perguntar quantos livros já leu o seu jornalista interlocutor; e diz que se Lobo Antunes (melhor escritor que ele) ganhasse o Nobel seria "a vitória do rídiculo".

O Nobel é um prémio atribuído por homens, que tem vindo a aviltar a sua credibilidade com a aproximação cada vez maior a critérios geo-políticos. São cada vez menos considerados os escritores nobelizados. Claro que num país pequenino, mesquinho e invejoso, não habituado a prémio, tudo é motivo de gáudio!


Lobo Antunes, ainda que mais culto e sofisticado, diz ufano que não vê nenhum escritor melhor do que ele. "Sinceramente" - diz.

No jornalismo, António José Saraiva, cujo editoriais fascizantes finalmente se libertaram no Sol (no Expresso ocultava ser tão de direita radical) - leia-se a título de exemplo um editorial em que AJS defende terem todas as maifestações um elemento antidemocrático!) - afirmou que na sua actividade de romancista escrevia tendo um vista o Nobel da Literatura.

Para terminar um apontamento: por mais rídicula que seja a soberba de António José Saraivo, é curioso que os seus detractores no Expresso tenham aparecido subitamente com sua retirada. Em vinte anos, ninguém tugia nem mugia. Num espaço de meses, Miguel Sousa Tavares trucidou-o na sua coluna e no Cartaz um críticio literário vilipendiou AJS, dizendo em tom jocoso: »é com livros destes que se ambiciona o Nobel?».

«É fácil dar pontapés em cães mortos», li algures.

Anjo-a-rectidão-será-que-não-é-fashion?

Para explicar o post anterior, nada melhor que um poema:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasito,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe —todos eles príncipes— na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ô príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos —mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos
Diz o Miguel Esteves Cardoso que viveu em Portugal e Inglaterra, que é fácil distinguir um português de um inglês quando contam uma estória.

O inglês conta a estória em que ele está presente e nós já sabemos que no final é ele sempre o otário, o parvo, o desafortunado.

O português conta a estória para no final nos presentear sempre com o seu heroicismo.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

As palavras que te envio são interditas

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Ah, perante esta única realidade!

Ah, perante esta única realidade
Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade.Perante este horrível ser que é haver ser.Perante este abismo de existir um abismo,Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,Ser um abismo por simplesmente ser,Por poder ser,Por haver ser!- Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,Tudo o que os homens dizem,Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,Se empequena!Não, não se empequena... se transforma em outra coisa -Numa só coisa tremenda e negra e impossível.Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino -Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,Aquilo que subsiste através de todas as formas,De todas as vidas, abstratas ou concretas,Eternas ou contingentes,Verdadeiras ou falsas!Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!
Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim.Com a substância essencial do meu ser abstratoQue sufoco de incompreensível,Que me esmago de ultratranscendente,E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!
Cárcere do Ser, não há libertação de ti?Cárcere de pensar, não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma - nem morte, nem vida, nem Deus!Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,Inconsciente do mistério de todas as coisas e de todos os gestos,Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,São mistérios menores que a Morte? Como, se tudo é o mesmo mistério?E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,Porque é preciso existir para se criar tudo,E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

Fernando Pessoa

Boas notícias!

PEN Clube candidata Ramos Rosa e Herberto Hélder ao Nobel O PEN Clube de Portugal anunciou que nomeou os escritores António Ramos Rosa e Herberto Hélder como candidatos ao prémio Nobel da Literatura deste ano. Em comunicado, o clube que junta poetas, ensaístas e novelistas referiu que, pela primeira vez, dois candidatos tiveram o mesmo número de votos entre os sócios, por isso ambos foram submetidos ao Comité Nobel. Agustina Bessa-Luís e António Lobo Antunes obtiveram também votações próximas de Herberto Hélder e Ramos Rosa, acrescenta o comunicado. O PEN Clube é a mais antiga associação internacional de escritores e foi criada em Inglaterra em 1921. A sua filial portuguesa foi criada em 1974, contando entre os fundadores com nomes como Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Alegre, Bernardo Santareno ou Casimiro de Brito, o actual presidente. Portugal tem já um Prémio Nobel da Literatura, ganho em 1998 por José Saramago.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

FONTE

Ela é a fonte. Eu posso saber que é a grande fonte em que todos pensaram. Quando no campo se procurava o trevo, ou em silêncio se esperava a noite,ou se ouvia algures na paz da terrao urdir do tempo - cada um pensava na fonte. Era um manar secreto e pacífico.Uma coisa milagrosa que acontecia ocultamente.Ninguém falava dela, porque era imensa. Mas todos a sabiam como a teta. Como o odre. Algo sorria dentro de nós. Minhas irmãs faziam-se mulheres suavemente. Meu pai lia. Sorria dentro de mim uma aceitação do trevo, uma descoberta muito casta.Era a fonte. Eu amava-a dolorosa e tranquilamente. A lua formava-se com uma ponta subtil de ferocidade, e a maçã tomava um princípio de esplendor. Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento perdeu-se e renasceu. Hoje sei permanentemente que ela é a fonte.

Herberto Helder
No livro "A ilha" de Aldous Huxley há pássaros que sobrevoam costantemente dizendo "aqui" e "agora" relembrando os seus habitantes a não viver a ânsia do futuro e o remorso do passado...

Creio que tais pássaramos nos fariam muito bem...

sábado, fevereiro 03, 2007

A grande, enorme questão

Lendo Sartre, descobri a resposta a uma das perguntas mais difíceis da natureza humana: porque temos todos a ânsia de sermos reconhecidos pelos outros?

O Sartre é denso, muitas vezes confuso, mas procurando sempre ser muito profundo. Nele vislumbrei a resposta tão importante quanto inexplicável (e que passarei a explicar em termos menos hereméticos).

A única coisa que sabemos é que existimos. Em última análise, tudo à nossa volta pode ser um sonho, uma construção da nossa mente. A consciência é o filtro de todas as coisas. E tudo o que está fora dela, é objecto. Temos assim, a dicotomia sujeito e objecto.

Para cada um de nós, o mesmo é dizer, para cada consciência tudo o que nos cerca - flores, casas, pessoas, ruas - são objecto.

Há depois uma coisa que nos baralha. Quando analisamos as coisas, analisamo-las como objectos. Mas quando nos analisamos a nós mesmos, nós somos simultaneamente sujeito e objecto. E dessa confusão inextricável da duplicação de papéis, nasce a insegurança - a dúvida.

Se forem os outros a analisarem-nos, eles fá-lo-ão unica e exclusivamente na qualidade de sujeito a analisar objecto - sem mistura de ambos. É uma análise mais limpa, mais concentrada numa só variável; mais imparcial, no fundo.


Acho a explicação absolutamente brilhante.

A busca da causa para a pergunta: porque valorizamos a opinião dos outros para a nossa própria auto-validação - não contraria, de modo algo, que não devamos fazer as coisas que achamos que devemos fazer porque os outros não vão gostar ou porque não é isso que eles acham ou porque não nos vamos conseguir inserir em algum grupo.

Anjo-segurando-a-lâmina-fulgurante-que-banha-de-qualquer-coisa-alguém

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Talvez o mais belo poema de sempre...

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

Jonh Donne
Procura a maravilha
Onde um beijo sabe a barcos e bruma
No brilho redondo e jovem dos joelhos
Na noite inclinada
de melancolia
Procura
Procura a maravilha.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

A melhor coisa que Portugal deu e dá: poetas

ONDE OS LÁBIOS

Os lábios.Distante, arrefecida chama.Não só os lábios, também as estrelas são distantes.E os bosques. E as nascentes.Também as nascentes são distantes.As nascentes onde os lábios,onde as estrelas bebem... Só o deserto é próximo, só o deserto.


Eugénio de Andrade