sábado, dezembro 30, 2006

Ao desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Axiomas de Deus

Há uma incongruência nas religiões monoteístas. A omnisciência de Deus e o livre-arbítrio que ele nos concede. Se Deus sabe o que eu vou fazer amanhã, então eu não tenho livre-arbítrio porque realmente não escolho... Irrebatível, caros exegetas...

quinta-feira, dezembro 28, 2006

"O tempo não espera por ninguém. Ontem é história. O amanhã é um mistério, o hoje é uma dádiva, por isso é chamado de presente."

Adalberto Godoy

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Há pessoas do dia e há pessoas da noite. Há conversas de dia e há conversas de noite. De dia, a beleza. À noite, a magia. O mundo se não fosse dicotómico perdia a graça.
Podem as circunstâncias abater-se violentamente sobre alguém… Uma pessoa acaba sempre por regressar à sua própria casa – seja ela qual for. O dia e a noite também são casas.
O que dizer a quem não sente as coisas assim? A quem não sente a antinomia dos mundos do dia e dos mundos da noite? Nada. Mas mesmo assim vou tentar, ancorando-me em José Cardoso Pires: «À noite, as pessoas despem-se mais. Há uma atmosfera de pecado amável.» Ou então dizer apenas: quem não sente a diferença entre o dia e a noite, provavelmente é uma pessoa de dia.
Sei que quando digo «dia», que quando digo «noite», os mundos que se erguem na minha cabeça, belos e reluzentes, não existem em mais lado nenhum.
Quando digo dia, evoco o perfume das flores do Verão, águas alegres reflectindo o Sol incandescente, a proa do barco rasgando a espuma branca, vozes frescas e optimistas, a efervescência em torno do dia, agitando-se no banho, agitando-se no café, agitando-se no jornal da manhã, o olhar limpo perante a estrada por percorrer…
Quando digo noite, evoco as noites azuis de Van Gogh, todas as luzes cintilando nas cidades, a lua perfeita, o mar prateado, murmúrios encantados e segredos que só existem de noite, sonhadores nas noites calmas contemplando as estrelas… e sobre isso tudo uma cintilação, um brilho resplandecente revestindo a noite…
Poucos fenómenos há, transversais a todas as épocas e a todas as culturas, capazes de provocar inalteráveis sentimentos. O amanhecer é um deles.
Uma das mais poderosas experiências da minha vida foi assistir ao nascer do Sol do alto de uma lagoa. Em contacto com o céu infinito, vi as nuvens apartarem-se lentamente… como cortinas de um palco desvelando o actor principal… alastrando a claridade por todas as coisas… Toda a natureza se curvava, no mais bonito acto de genuflexão… Memorizei para sempre, nesse momento, que sermos testemunhas da metamorfose da noite em dia, do eterno recomeçar da vida em todas as coisas, nos restabelece a confiança na eterna capacidade de regeneração da esperança.
O silêncio às vezes pode ser a nota mais alta. O silêncio perante a ordem natural e ancestral. Perante a imutabilidade do dia e da noite. A inconfundibilidade de ambos os mundos. Alguém imagina a escuridão a descer aterradoramente ao meio-dia? O Sol expulsar as trevas às três horas da manhã?
Cai a noite. As palavras sobram.

Anjo-derretendo-o-sol-de-manhã-e-incendiando-a-noite
Costumo notar a aproximação do Natal quando os peões nas passadeiras agradecem mais vezes aos carros que param… Nesta época pensamos mais nos outros, especialmente nos que mais sofrem.
Convém distinguirmos entre a caridade e a solidariedade. A caridade não pode ser um auxílio pontual e paternalista, movida por uma espécie de sentimento de piedade que olha de cima para baixo, e que, no fundo, lá bem no fundinho, gosta de perpetuar as coisas para que se possa continuar a exercer a compaixão aos coitadinhos.
Prefiro a solidariedade, conceito que me transmite mais energia, esperança e sentimento de responsabilidade; o dotar de ferramentas tendo em vista a autonomização e libertação futuras. Talvez por isso goste mais de ouvir falar na ´inclusão social´ que no ´combate contra a exclusão social´.
Teístas ou ateus, muçulmanos, cristãos, budistas, judeus ou hindus; todos devemos ser sensíveis à mensagem do Amor. Foi o professo ateu José Saramago quem disse: «Chega-se mais depressa a Marte do que ao nosso semelhante.»
Curioso que a palavra Amor (tão gasta e banalizada) abranja tantos sentimentos. Os gregos entenderam esta complexidade e falaram em três espécies de amor: o Philos, o amor sob a forma da amizade; o Eros, o amor que se sente numa relação a dois e que envolve erotismo; e Ágape, o amor incondicional e infinito a todos os seres a quem deseja libertá-los de todo o sofrimento.
Podem os sistemas políticos e as leis aperfeiçoarem-se, enquanto cada ser humano não amar o seu semelhante, o mundo estará longe de ser um local agradável para viver…


Anjo-pelo-Natal
Se só com te imaginar
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?


Luís de Camões

sexta-feira, dezembro 22, 2006

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Ser feliz

«Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...»

Fernando Pessoa
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."

Fernando Pessoa

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Ainda se escrevem letras assim?

Jardim Crepuscular

Eu ergo os meus lábios de te beijarem
para beijar o céu
nuvem macia e azul
e lento o sol derrete-se
nas tuas palavras douradas para mim
Eu ergo as minhas mãos de te tocarem
para tocar o vento que sussura por entre
este jardim crepuscular
tornando-se num mundo
em que os sonhos são reais

Nunca ninguém vai tomar o teu lugar
Eu estou perdido em ti
Nunca ninguém vai tomar o teu lugar
tão apaixonado por ti

Eu ergo os meus olhos de te observarem
para observar o elevar da estrela a brilhar
pelo teu rosto sonhador e o teu sorriso sonhador
tu sonhas mundos
para mim

Eu ergo os meus lábios de te beijarem
e beijar a profundidade azul do vasto céu
e lenta a lua nada por cima
das tuas palavras douradas
para mim

Nunca ninguém vai tomar o teu lugar
Eu estou perdido em ti
Nunca ninguém vai tomar o teu lugar
tão apaixonado por ti

The Cure
Enquanto ouvia o straight edge, houve três perguntas de mim-para-mim que me assaltaram o espírito:

a) quando é que tiveste perto de morrer? quando alguém conduzia bêbabo;

b) quando é que te chateaste com os teus melhores amigos na noite? principalmente quando eles estavam bêbados;

c) quando é que quase andaste à pancada na noite? quando tive de defender um amigo meu que estava bêbado e fez merda.
Hoje entrevistei um straight edge (vale a pena a pesquisa na net!) e ele disse algo muito profundo que vou pôr em palavras minhas:

- Nós somos ensinados pelo sistema a considerar as drogas e o alcóol como anti-sistémicas e é isso que lhes empresta aura transgressiva e encantadora. Contudo, é uma armadilha do sistema que assim o deseja. Quanto mais alienados estamos, menos questionamos e combatemos o sistema. O pão e o circo romanos deram lugar ao futebol e cerveja...

terça-feira, dezembro 19, 2006

ALGUÉM DECIFRA?

Para quem diz que neste blog há palavras caras, este texto sim é difícil...

“Cobra reivindica uma organicidade que não assenta toda em razões espaciais. Por norma, do animal ao tecido, do todo orgânico ao artefacto, pensa-se o texto autónomo como uma forma separa de outras formas e como forma discernível. É acabada e estática, feita e perfazida, abrangível, ao que parece, por ´contraposição´ – ou seja, porque com ela vale uma qualquer versão do grande gestalt espacial forma/fundo. Em posição de criatura das intenções de um autor, que podem ser falíveis, ou de um “sistema”, que deverão ser menos, nunca está aquém de ser um todo, e a sua mesma diferenciação no restante espaço é sancionada por um interior organizado que faz por fora boa figura.”

Américo António Lindeza Diogo, Por exemplo (Sobre Herberto Hélder)

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Quem trabalha muito, erra muito.
Quem trabalha pouco, erra pouco.
Quem não trabalha, não erra.
Quem não erra, é promovido.

Anónimo

Paisagem significativa

Meço-me
Contra uma árvore alta.
Acho que sou muito mais alto,
Pois chego mesmo até ao sol,
Com os meus olhos;
E chego à praia do mar
Com os meus ouvidos.
Todavia não gosto
Do modo como as formigas rastejam
Para dentro e para fora da minha sombra.

Wallace Stevens, Ficção Suprema

O CIÚME

Vista de fora a inocência é sempre bonita. Por dentro, é apenas ignorância, desconhecimento. Durante muito tempo o meu entendimento ausentou-se de compreender um fenómeno demasiado estranho ao meu espírito: o ciúme (no sentido mais lato do termo).

Não falo aqui note-se bem do ciúme em termos restritos às relações de paixão. Isso é de natureza diferente.

Sempre tive amigos e nunca nunca imaginei que algum deles se medisse comigo - fosse em que área fosse. Tão concentrado estava em contribuir para a melhoria das suas vida, apresentando amigas, dando-lhes possibilidades de emprego, bons livros para ler; que nunca me ocorreu tal coisa.

Fui demasiado ingénuo durante muito tempo.

Hoje sei que muitas pessoas mesmo amigas, se entreolham, se medem, se avaliam. Um dia ouvi alguém ébrio dizer: «Quero que os meus amigos tenham sucesso mas sempre menos do que eu.»

E a partir daí muitas outras lâmpadas se acenderam na minha mente... E eu engoli a contra-gosto o que a vida me ensinou.

Anjo-pois-habituamo-nos-a-tudo-não-é

domingo, dezembro 17, 2006

A propósito do post anterior, encontrei hoje uns cadernos de marketing (sou um leitor omnívoro desde poesia, literatura, filosofia a manuais de jardinagem e espécies de aves) onde se diz que quando se vende algo, primeiro cria-se a ideia associada ao produto que tornará o seu consumidor mais dotado de uma característica em falta...

Exemplo, estão na moda homens aventureiros. Primeiro cria-se esta ideia. Depois surge o carro aventureiro que nós criamos impingir, e que no obrigou a fazer acreditar o homem antes que

Hoje cria-se a ideia certa e justa mas apenas para alimentar a indústria da beleza: que o homem imperiosamente não pode ficar atrás da mulher na competição pelo mais belo e sedutor.

É tudo uma questão de mercados, segmentos; e não de paixões e ideologias.
Conheço homens que acham rídiculo termos como esfoliação ou depilação. Se a mulher atinge patamares cada vez mais elevados de sofisticação da beleza, porque não haverá o homem de subir os degraus?

O problema é que quem alimenta os metrossexuais, claro está, são apenas os interesses económicos da indústria de estética, cirurgia... O móbil é sempre esse, mas poucos o vêem...

sábado, dezembro 16, 2006

Uma sondagem outro dia dizia que 80% das mulheres fazia sexo oral e 50% anal. O que acham?

Homo sapiens sapiens

Depois de ouvir algumas pessoas, pergunto-me se o Homo sapiens terá sido realmente extinto.
Hoje apanhei um taxista que me disse:

«Eu gosto de apanhar clientes é no Príncipe Real. Sabe porquê? Porque não podem ter dois defeitos. Ou são paneleiros ou ladrões.»
O avô de um amigo meu um dia saiu-se com esta:

«A droga e a paneleirice não experimento porque tenho medo de gostar.»

Há qualquer coisa boçal (comparar droga a homossexualidade e designá-la daquela forma começada por ´p´) mas também algo... profunda, eternecedora e comovedoramente humilde nesta frase. Eu acho...
"O Sol nascente vai sempre trazer o teu nome"

tradução de um pedaço de uma música

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Cru

- Existem 10 milhões de portugueses;

- Existem 11,5 milhões de telemóveis em Portugal;

- Existem 18 milhões de cartões de crédito em Portugal.

FÓRUM DE DEBATE

É ou não verdade que 100% das raparigas se masturba?

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Mails

Está um frio que perfura até aos ossos. Alguém me deu (mas quem?) um mail para ler (um pouco machista...) em que falava da cigarra e a formiga aplicada aos homens. Que os homens no verão deviam ser comprometidos, que a testosterona estava no ar, e que a caça estava aberta... no Inverno, convém ter a namoradazinha, a "foda certa" (literalmente), o estar em casa recolhido,já agora sempre a foder para o autor do mail?...

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Um homem encontra um génio da lâmpada.

- Um só desejo...

- Eu moro no Alentejo e a minha família nos states. Quero que me faças uma ponte gigante a começar em Vila Viçosa e a acabar na California... Uma ponte grande, luminosa, com muitas faixas...

- Eh pa, isso vai complicar o trânsito todo... Nunca ninguém me pediu tão complicado desejo...

- Ok,ok... Então diz-me: o que querem as mulheres?

- Com quantas faixas queres a ponte?

terça-feira, dezembro 12, 2006

Bons Sentimentos

O sal da vida - como eu a concebo - é a diversidade de línguas, odores, cheiros, ideias, sensações, experiências, roupas, sons, expressões faciais. Assim também as relações e os sentimentos por detrás delas.

Sempre vi cada relação como uma aventura porque precisamente o que sentimos por alguém é sempre único e inclassificável - como parafraseei neste blog "há mais afectos que nomes para os designar".

Há contudo dois tipos de relações - aquelas a que subtraídas a atracção, a paixão, a química, o que quer que seja sobrevem a simpatia e aquelas em que sobrevem a antipatia.

Conheço casais em que há uma simbiose paixão/ódio - e como é ténue a lina divisória! - que faz com que as pessoas não consigam viver uma sem a outra mas simultaneamente não desejem o bem do outro.

Ainda outro dia perguntei a um desses casais, concretamente ao homem e ele garantiu-me:

"Ela quer que tu tenhas sucesso nesse teu novo projecto?"

Pela cara dele, ele nunca tinha visto este ângulo e a perspectiva chocava-lhe os valores.

"Não, de facto não quer... Alguma vez ela queria que eu tivesse mais sucesso que ela?"

Mais adiante:

"Ela diz que não me queria ter conhecido."

"Ela deseja o meu mal."


Tendo a achar que estas relações não são saudáveis...

Anjo-com calma-sendo-médico-da-alma

P.S. Ocorreu-me este post a propósito da vida do famigerado casal Scott Fizgerald e Zelda em que ela gostava de lhe fazer ciúmes com um piloto francês e em que tudo fazia para lhe diminuir a sua crença no seu talento - ele não podia brilhar mais do que ela.
Alguém me perguntou um dia o que eu mais valorizava numa mulher. Foi o tipo de pergunta que através de comunicação externa me compeliu à comunicação interna.

- Os gajos com quem andaram... Andam... Muito importante

E quantas eu não exclui já por namorados racistas, halterofilistas, materialistas...

domingo, dezembro 10, 2006

FÓRUM DE DEBATE

Durante uns meses, há uns anos, andei a aprender a dançar. Manifestamente não tinha jeito nenhum. Como de todas as experiências, aprendi algo. E uma coisa que nunca esquecerei é o seguinte conselho:

«Na dança o homem pensa que domina. Mas a mulher, mais subtil, sem homem se aperceber, comanda os passos e apenas deixa que o homem faça aquilo que ela quer - mas dando-lhe a ilusão que é ele quem comanda.»

Na dança como na vida?
"Temos uma idade para a vida toda"

António Lobo Antunes

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Desportistas

Entrevistando o José Luís Peixoto, contava-me ele que não havia desportistas que tivessem feito qualquer coisa no registo da arte. Depois de muito puxarmos pelos neurónios, só nos lembrámos de um: o guarda-redes Neno que virou cantor.

"Já nem digo escrever" um de nós disse, mas qualquer coisa no domínio da arte... Claro que nenhum de nós considerou que os livros do Ricardo ou Jardel (que grande goleador) contassem por duas razões:

a) não são eles que os escrevem mas sim jornalistas.

b) como disse o Lobo Antunes, escrever livros é diferentes de escrever papéis com tinta.

Uma vez peguei num livro, qualquer coisa como a História do Futebol, e ri ao ler o prefácio do Eusébio:

"O futebol como epifenómeno..." - é claro que não tinha sido ele.

E na geração do Eusébio a coisa era menos confrangedora. Ainda havia Artur Jorge, Mário Wilson. Hoje não se vê um jogador nem digo culto, mas com o mínimo... E depois aparecem uns a apontar referências - eh pa este e este são cultos. Disseram-me que o João Pinto era culto. Eu ouvi-o a falar e vi verbos mal conjugados, um deserto de ideias. Ouvi até dizer que lia, perguntaram o quê? Ele tartamudeou: «a... a... Bíblia».

Nos flash-interviews não há algo que fuja a isto:

Se o jogador jogou bem, marcou 3 golos, e merece destaque individual, ele contrapõe:

- o que interessa é a vitória da equipa/ toda a equipa está de parabéns:

Se perguntam o segredo das performances:

- Trabalho, idem, idem...

Planos para o futuro

- Pensar jogo a jogo

Se ele está referenciado para ir para outro clube

- Só sei o que vem na imprensa...

(Aguardo comentários da minha amiga staring girl, pessoa culta e profunda, mas com , eufemisticamente falando, um estranho fascínio por corpos bons...)

O erro face aos desprotegidos

Quando estive em Angola, vi algo que se me contassem - ou o interlocutor era fidedigno e meu amigo ou não acreditaria. No coração de Luanda, um cartaz gigante com um negro a degolar um branco. Vi este cartaz intacto durante oito dias consecutivos. Alguém imagina no Marquês de Pombal que as autoridades portuguesas permitissem um cartaz gigante com branco a degolar negro?

O que pretendo com isto? Dizer apenas uma coisa: hoje em dia a liberdade de expressão encolhe-se quando é para dizer mal dos grupos desprotegidos: mulheres vs. homens; negros vs. brancos; homossexuais vs heterossexuais.

Quem tem estes pruridos, normalmente é preconceituoso. Porque deve-se condenar o racismo sempre, e não ter medo de o fazer quando o grupo atacado por acaso é o grupo maioritário e subjugou o minoritário durante séculos. Deve-se fazê-lo por coerência e sem paternalismos de caridadezinha de defender os mais fracos. Este tratamento discriminatório de os ver como fracos é o caminho mais perigoso para a perpetuação do seu estatuto de fracos.

Defender a igualdade de oportunidades, de raças, credos, orientações sexuais, sem conotar estes como fracos, outros com fortes, distribuindo aqui e ali preconceitos que nos fazem ser parciais em situações similares e que só ajudam a perversamente manter o status quo.

Deve-se também defender a liberdade de expressão dos cartoons sem ter medo de estar do lado do ocidente, do império, do que quer que seja o estereótipo que se queira emprestar ao opressor. Como alguém escreveu, quem defende a liberdade por querer encontrar nela algo mais que a liberdade, não nasceu para a liberdade.

Anjo-cravando-como-faca-laminada-até-ao-osso

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Adoro esta letra

lembrando-me de ti estando calma na chuva
à medida que eu corri para o teu coração para ficar perto
e nós beijámo-nos
enquanto o céu desabou
agarrando-te firmemente como eu sempre te agarrei
firmemente no teu medo lembrando-me de ti
correndo suave através da noite
tu eras maior e mais cintilante e mais branca que neve
e gritámos no fingimento
gritámos no céu e tu finalmente encontraste toda a tua coragem
para simplesmente deixar tudo ir...

lembrando-me de ti caída nos meus braços
chorando pela morte do teu coração
tu eras pedra branca tão delicada
perdida no frio
tu estavas sempre tão perdida na escuridão
lembrando-me de ti como costumavas ser
lenta submersa tu eras anjos
tão muito mais do que tudo oh agarrar-te
pela última vez depois desaparecer abrir
os meus olhos mas eu nunca vi nada


excerto de Pictures of you traduzido por angel
Procuro a ternura súbita,
Os olhos como um sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
de um prado ou de um corpo estendido!

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando se aperta contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre – procuro-te !


Eugénio de Andrade
Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável.

Séneca
Entrevistando naturistas, ouvi: "Nos parques naturistas, a lingerie é proibida. Um fio dental é muito mais activador da sexualidade que a nudez."

O erotismo está no mistério, a seduz está mais no que não se mostra, não é?

quarta-feira, dezembro 06, 2006

A grande mão

a grande mão faz todas as tuas coisas favoritas
como quando todos os teus sonhos encolhem
e todos os teus amigos se foram embora
até que as tuas memórias falhem
e as palavras não encaixem
mas a maneira como a grande mão sorri
tu simplesmente não te vais preocupar...

a grande mão faz todas as tuas coisas favoritas
como quando os dias se esvaiem
e as tuas esperanças desaparecem
e os teus sorrisos param
e os teus olhos ficam mortiços
e as sombras começam a rastejar
na parte de trás da tua cabeça

mas quando a grande mão fala
é como fogo de artifício e paraíso
então tu ouves
não pensas
e não desejas nada
e quando a grande mão fala
é como fogo de artifício e paraíso
vivendo sozinho não estou a viver sozinho
vivendo sozinho
vivendo sozinho eu nunca mais
viverei sozinho outra vez

então quando a grande mão segura todas as tuas coisas favoritas
e com um toque como vidro
começa a apertar
tu não perguntas
"porquê eu?"
tu simplesmente deslizas para o chão
deslizas para os teus joelhos

mas quando a grande mão fala
é como fogo de artifício e paraíso
então tu ouves
não pensas
e não desejas nada
e quando a grande mão fala
é como fogo de artifício e paraíso
vivendo sozinho não estou a viver sozinho
vivendo sozinho
vivendo sozinho eu nunca mais
viverei sozinho outra vez

Robert Smith traduzido por angel
What would you do with all the power?

Flaming Lips

Nada que ver

A maior parte dos pais procura antes de ter filhos felizes, ter filhos brilhantes. Outro dia ouvia alguém falar de um amigo comum e dizer: "é dos melhores amigos que se podem ter, mas um dos piores filhos para os pais".

Pois, ele não trabalha, é preguiçoso, demorou anos a acabar curso. Mas é divertido, bom amigo, capaz de se adaptar a qualquer meio.

O índice de sociabilidade, de facto, é menorizado pelos pais - e um dos factores explicativos entre o binómio pais/amigos.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

SE PELO MENOS ESTA NOITE PUDÉSSEMOS DORMIR

Se pelo menos esta noite pudéssemos dormir
Numa cama feita de flores
Se pelo menos esta noite pudéssemos cair
Num feitiço imortal

Se pelo menos esta noite pudéssemos deslizar
Em água negra profunda
E respirar
E respirar...

Depois um anjo viria
Com olhos ardentes como estrelas
E enterrava-nos fundo
Nos seus braços de veludo

E a chuva choraria
À medida que os nossos rostos desapareceriam
E a chuva choraria

Não o deixes acabar...



Robert Smith traduzido por Angel

domingo, dezembro 03, 2006

Pormaiores

Ontem ouvi uma mulher arrasar os atributos de um homem na cama. Detesto detesto detesto ver alguém expor assim outro a semelhante opróbrio. As pessoas deviam resguardar mais a intimidade - a sua e a dos outros (principalmente).

E há determinado tipo de coisas, de pormaiores como gosto de lhes chamar que são soezes utlizar para deitar abaixo alguém.

Memorizo sempre quem faz este tipo de vilipendiações.

O eterno paradoxo

Uma pessoa pode ser branco e defender um preto; pode ser um homem e defender as mulheres; pode ser patrão e defender os direitos laborais dos trabalhadores; ser norte-americano e condenar a administração norte-americana; ser ateu e defender a liberdade de expressão religiosa; nunca ter tomado drogas e defender insuspeitamente a ajuda estatal aos toxicodependentes; ser de uma nacionalidade e defender os direitos dos imigrantes do seu país; mas...

... então por que é um heterosessxual não há-de poder defender os homossexuais sem ter de brandir "Eu sou heterossexual, hein?"

sábado, dezembro 02, 2006

Out of this world

when we look back at it all as i know we will
you and me, wide eyed
i wonder...
will we really remember how it feels to be this alive?

and i know we have to go
i realize we only get to stay so long
always have to go back to real lives
where we belong
where we belong
where we belong

when we think back to all this and i'm sure we will
me and you, here and now
will we forget the way it really is
why it feels like this and how?

and we always have to go i realize
we always have to say goodbye
always have to go back to real lives

but real lizes are the reason why
we want to live another life
we want to feel another time
another time...

yeah another time

to feel another time...

when we look back at it all as i know we will
you and me, wide eyed
i wonder...
will we really remember how it feels to be this alive?

and i know we have to go
i realize we always have to turn away
always have to go back to real lives

but real lives are why we stay
for another dream
another day
for another world
another way
for another way...

one last time before it's over
one last time before the end
one last time before it's time to go again...

Robert Smith

sexta-feira, dezembro 01, 2006

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade