quarta-feira, novembro 29, 2006

Se recuássemos pouco mais de uma década acharíamos impossível a forma como conseguimos viver. Sem telemóvel? Sem Internet? Sem mail? Sem MSN? Como é que as pessoas combinavam encontrar-se? Sim, porque as pessoas combinavam encontrar-se. Como é a informação circulava nas empresas? Como é que as pessoas compartilhavam as suas curiosidades e os seus desabafos quotidianos não podendo enviar mails ou sms? Como é que alguém poderia ser feliz: desprovidos todos do mínimo indispensável para uma vida condigna? E a televisão? Que penúria ter apenas dois canais, com a ausência de comando a compelir-nos a levantar do sofá para mudar de canal?
Navegava outro dia no HI5 e constatava, perplexo, que a linguagem sub-20 criou um novo dicionário (por elaborar). Suprimiram-se os ´ch´, e os ´q´, e perante a proliferação de xis e kapas, vi-me perdido.
Muita coisa mudou. A velocidade foi estonteante, mas assimilámos tão rapidamente a mudança que o passado recente nos parece estar tão longe como o Paleolítico. Incorporámos a mudança de forma a não conseguir viver mais sem ela.
A Internet revolucionou muita coisa. Inundou-nos de informação. Hoje qualquer pessoa (mentira, ainda persiste uma grande fatia de info-excluídos) vê-se perante um manancial tão grande de conteúdos que a questão que perturbadoramente nos assalta é: por onde escolher?
Um epifenómeno da Internet que merece especial atenção é a blogosfera. A blogosfera traz consigo enormes repercussões (negativas e positivas). Democratiza-se a facilitação da calúnia anónima, expande-se narcisicamente o ego em blogs inanes; mas também se descobrem novos talentos que com mérito mas sem “contactos” não se conseguem impor, e ampliam-se fóruns de debate onde a voz do povo pulsa vibrante.

Angel

segunda-feira, novembro 27, 2006

Entre nós e as palavras

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny

sexta-feira, novembro 24, 2006

A guerra do fogo

Sempre gostei mais das raparigas que dos rapazes numa característica: a valorização do invólucro. Se um rapaz tiver uma rapariga bonita, isso é motivo de valorização perante os seus pares. Quantos casos conheci eu de rapazes que escondiam as raparigas pelo receio do julgamento da sua fealdade. Triste? Muito triste.

Acho que nas raparigas, se alguma delas tiver um muito bonito, até se calhar vão levar com o estigma ao contrário: que não tem nada na cabeça, etc.

As mulheres quando envelhecem não são atractivas para os homens. Podem estar cheias de coisas interessantes para dizer... Quem "come" a Agustina-Bessa Luís? Nem o próprio autor deste texto crítico (credo! exclama logo ele). Os homens podem envelhecer com imensa classe. As mulheres gostam mais do Sean Connery com a idade; acham que ele amadureceu o charme.

Não há exemplos de mulheres actractivas aos 60 e as 50 já representam uma fatia micro-residual.

Já falei disto com imensas mulheres e elas concordam. Ainda que mesmo que derivada de uma construção social, é inequívoca a constatação que os homens premeiam mais a forma que as mulheres.

Falava assim com uma amiga e ouvi-a dizer algo que me deixou triste:


"Eu gosto de formas.Os animais aproximam-se pela vontade sexual e nós somos muito parecidos com os animais, apesar de tentarem que não pensemos assim. Para amizade não discrimino ninguém pelo físico, agora para o resto... Sem atracção não há nada e a atracção é muito pelo físico."

Anjo-dizendo-"enfim..."

quinta-feira, novembro 23, 2006

Tod@s nos queremos agarrar a uma identidade (exceptuando os budistas)

Numa relação, especialmente ao início, e ainda mais especialmente durante o período do cortejar, as pessoas tendem a focar-se na questão: «Será que el@ gosta de mim?»; ignorando a outra parte, a frase que foi atribuída a Garcia Marquez: «Gosto da pessoa que me sinto contigo.»

Bum! Quando ouvimos, percebemos. Essa é outra parte é imensamente descurada e é fundamental - garante imprescindível de relações duradouras. Sim, porque raras são as idolatrias que perduram infinitamente no tempo.

Claro que - como qualquer tendência extraída do comportamento humano - existem excepções a isto. Conheço bem a estória de uma rapariga que se "sentia uma merda" que lhe batia e insultava e que simultaneamente não conseguia libertar-se do escroque do seu namorado.

Entendo, porém, que a maioria das pessoas não será assim, e que pese embora haver sempre um ascendente numa relação - mais ou menos dissumulado - as pessoas gostam de alguém por aquilo que elas (as outras são) e pela identidade que nos desenvolvemos com cada uma das pessoas.

A prova que estamos presos à ideia da identidade da pessoa com quem estamos é nos dada pelos casais que se entrincheiram um no outro, fechando-se para o mundo, e quando conhecem alguém de fora, sentem que desabrocham para o mundo... Que uma nova identidade se desflora - tão cristalizados estavam na identidade que só desenvolviam no outro... Dos casos que conheço, a razão não foi: "gostei da outra pessoa"; foi antes: "senti-me nova"; "descobri coisas em mim que não conhecia". Coisas que estão dentro de nós - e que outros nos fazem fazer ver. Como li um dia: "Para gostarmos de Shakespeare, temos de ter algo de Shakespeare em nós - que nos leva ao seu reconhecimento."

Há pessoas que parecem puxaro pior de nós - e nós devemos afastar-nos. Há pessoas que puxam o melhor... A própria Madre Teresa de Calcutá percebeu isto. Para termos disponibilidade para a felicidade dos outros, temos de a conquistar primeiro nós. Ninguém pode dar aquilo que não tem.

Angel-voando-acima-do-azul-do-céu-e-abaixo-do-azul-dos-oceanos :)
«Existem mais afectos do que nomes para os designar.»

Espinosa, Ética (Livro III)
«O amor é o conhecer que se conhece no outro.»

Hegel, Leçon de Iéna

quarta-feira, novembro 22, 2006

Outros Tempos

Simão os olhava através dos óculos grossos fundos, garrafais, escutando-lhes as certezas, definitivas, dissecantes do Mundo, dos sentires, dos valores.
O velho escriba há muito que deixara de ter assento na mesa de editores, onde só morava agora gente "moderna", daqueles que já nascem ensinados.

Algo de estranho se passou, certamente, no Mundo na última década.

Antigamente, na Universidade , aprendia-se a pensar, a começar a andar na longa estrada do conhecimento. E quando a algum começo de lugar se chegava, maiores eram as dúvidas e a noção da imensa ignorância do caminhante.

Agora, produziu-se o milagre dos pães do saber. Com a mesma farinha enformam-se milagres intelectuais, que já sprintam mal começaram a andar.

Simão os olha, por detrás do anonimato ocular, a perorarem horas a fio, sobre leituras cruzadas, de "leads" de jornais e de blogs da internet, sem mundos e sem Mundo, onde cada "pensador" da moda amassa hamburgers de pensamentos citáveis (no dia seguinte) na imprensa diária.

Que os políticos são corruptos, ou arrogantes. Don Quixotes ou diletantes, ou, simplesmente, gente sem outro emprego melhor já todos os sabíamos.

É , há séculos, milénios, a "ordem natural das coisas".

O que o não é é confiar-se a decisão dos conteúdos e forma da informação a veicular, esse precioso órgão formativo, a uma faixa cada vez mais imberbe, árbitro e juiz de uma viagem da qual, na sua esmagadora maioria, pouco mais conhece do que a casa da partida.

Simão participa, humilde, naquelas reuniões de editores, de egos transbordantes dos recostos cadeirais.

Vai anotando os serviços a marcar, as notícias a alinhar, os meios a afectar.

Conhece-lhes os gestos. Os tiques de novo-riquismo decisório. Já nada o surpreende à excepção, talvez, da ilusão prevalecente, em torno daquela mesa, da solidez do cargo, quando a precaridade do exercício da função o torna cada vez mais fugaz. O exercício, pelo mesmo titular.

Todos os anos saiem das Universidades centenas de licenciados em comunicação social sem qualquer horizonte de empregabilidade a menos que prossiga a actual voracidade, economicista, de substituir o saber pelo mais barato. O conhecimento na vida pelo que basta para encher.

Os Homens verticais e de princípios pelos omniconcordantes. Os solidários pelos que nem pestanejam perante o espezinhar do mais próximo.

E em tal cenário futurista, mais do que provável, imaginem quem terá a função mais alvejada e sem qualquer hipótese de sustentação, na actual tendência?

Se agora já não vigoram o saber e a experiência como crivo de escolha imagine-se daqui a uns anos.

Simão ajusta os óculos garrafais. O debate, hoje, é sobre a "nova" urgência dos temas ambientais. Dos efeitos desastrosos que o aquecimento global irá trazer a todas as apropriações económicas do Mundo pelo Homem.

Simão vai anotando os serviços a marcar, as notícias a alinhar, os meios a afectar.

Há vários anos que os vinha alertando para tal configuração óbvia e incontornável, só que, para quem mora ainda na casa da partida do conhecimento e depende de leituras cruzadas, de "leads" de jornais e de blogs da internet e de flashes radiofónicos, esse era bebé por incubar.

Simão toma notas, diz que sim com a cabeça, ainda que agitando-se, por dentro, em negação. Mas isso é ele, ainda, dinossauro em vias de extinção, bípede com memória. Do tempo em que quanto mais se sabia, mais se sabia que nada se sabe.

Agora, cada vez mais, o tempo é outro.


Augusto Mateus, Jornal de Negócios

terça-feira, novembro 21, 2006

Somewhere over the rainbow
Way up high
There's a land that I heard of
Once in a lullaby

Somewhere over the rainbow
Skies are blue
And the dreams that you dare to dream
Really do come true

Some day I'll wish upon a star
And wake up where the clouds are far behind me
Where troubles melt like lemondrops
Away above the chimney tops
That's where you'll find me

Somewhere over the rainbow
Bluebirds fly
Birds fly over the rainbow
Why then, oh why can't I?
Some day I'll wish upon a star
And wake up where the clouds are far behind me
Where troubles melt like lemondrops
Away above the chimney tops
That's where you'll find me

Somewhere over the rainbow
Bluebirds fly
Birds fly over the rainbow
Why then, oh why can't I?

If happy little bluebirds fly
Beyond the rainbow
Why, oh why can't I?

E.Y. Harburg

Das mais belas páginas de sempre da literatura:

Most of the big shore places were closed now and there were hardly any lights except the shadowy, moving glow of a ferryboat across the Sound. And as the moon rose higher the inessential houses began to melt away until gradually I became aware of the old island here that flowered once for Dutch sailors’ eyes—a fresh, green breast of the new world. Its vanished trees, the trees that had made way for Gatsby’s house, had once pandered in whispers to the last and greatest of all human dreams; for a transitory enchanted moment man must have held his breath in the presence of this continent, compelled into an aesthetic contemplation he neither understood nor desired, face to face for the last time in history with something commensurate to his capacity for wonder.

And as I sat there brooding on the old, unknown world, I thought of Gatsby’s wonder when he first picked out the green light at the end of Daisy’s dock. He had come a long way to this blue lawn, and his dream must have seemed so close that he could hardly fail to grasp it. He did not know that it was already behind him, somewhere back in that vast obscurity beyond the city, where the dark fields of the republic rolled on under the night.

Gatsby believed in the green light, the orgastic future that year by year recedes before us. It eluded us then, but that’s no matter—to-morrow we will run faster, stretch out our arms farther. . . . And one fine morning——

So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus,
muitos publicanos e pecadores
vieram sentar-se com Ele e os seus discípulos.
Vendo isto, os fariseus diziam aos discípulos:
«Por que motivo é que o vosso Mestre
come com os publicanos e os pecadores?»
Jesus ouviu-os e respondeu:
«Não são os que têm saúde que precisam do médico,
mas sim os doentes.
Ide aprender o que significa:
‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’.
Porque Eu não vim chamar os justos,
mas os pecadores».

Evangelho segundo São Mateus
O AMOR É... UM GAJO ESTRANHO

O amor é um gajo estranho
Não tem sonhos não tem coração
Vive tão longe e tão só
Preso à sua própria sedução!
O amor quando eu o conheci
Olhou para mim sorriu e disse:
"Eu sou apenas uma mentira
mas podes fazer de mim uma canção!"
O amor passa os dias frente ao espelho
Acredita num reencontro
Eu adormeço o rosto no seu peito nú
E sonho acordar noutro lugar
O amor nunca me mente
Quando me venho na sua boca
Abraça-me lentamente
E eu canto-lhe com a voz rouca!

João Peste-Pop Dell´Arte

domingo, novembro 19, 2006

Remembering
You standing quiet in the rain
As I ran to your heart to be near
And we kissed as the sky fell in
Holding you close
How I always held close in your fear
Remembering
You running soft through the night
You were bigger and brighter and wider than snow

The cure, Pictures of you

sexta-feira, novembro 17, 2006

Literatura

A mais marcante e bela descrição de um sorriso (a ler vezes sem conta):


"Era um desses raros sorrisos que têm o dom de restabelecer incessantemente a confiança nos outros, como só encontramos quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que por um instante enfrentava — ou parecia enfrentar — toda a eternidade e que depois se concentrava em nós com um irresistível preconceito a nosso favor. Que nos entendia só até ao ponto em que queríamos ser entendidos, que acreditava em nós como gostaríamos de acreditar em nós próprios e nos assegurava ter a nosso respeito precisamente a impressão que, nos nossos melhores momentos, esperávamos conseguir comunicar aos outros."


Francis Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby

Uma das mais bonitas canções de amor

I know I'll never really get inside of you
to make your eyes catch fire
the way they should


The cure, A letter to elise

quinta-feira, novembro 16, 2006

Não posso adiar o amor para outro século

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa
My ideal, however, is not the blurring of national characteristics, such as would lead to an intellectually uniform humanity. On the contrary, may diversity in all shapes and colours live long on this dear earth of ours. What a wonderful thing is the existence of many races, many peoples, many languages, and many varieties of attitude and outlook! If I feel hatred and irreconcilable enmity toward wars, conquests, and annexations, I do so for many reasons, but also because so many organically grown, highly individual, and richly differentiated achievements of human civilization have fallen victim to these dark powers.

Herman Hesse, discursando na aceitação do Nobel da Literatura
Os ombros suportam o mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, novembro 15, 2006

"A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.
(...) Sou capaz, a sós comigo, de idear quantos ditos de espírito, respostas rápidas ao que ninguém disse, fulgurações de uma sociabilidade inteligente com pessoa nenhuma; mas tudo isso se me some se estou perante um outrem físico, perco a inteligência, deixo de poder dizer, e, no fim de uns quartos de hora, sinto apenas sono. Sim, FALAR COM GENTE DÁ-ME VONTADE DE DORMIR. Só os meus amigos espectrais, e imaginados, só as minhas conversas decorrentes em sonhos, têm uma verdadeira realidade e um justo relevo, e neles o espírito é presente como uma imagem num espelho."

Livro do desassossego
Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...

Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro

segunda-feira, novembro 13, 2006

Poema dum funcionário cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

António Ramos Rosa

Conversas interceptadas

- Tens de ir ao Leste. Perdes-te lá com tanta gaja...
- Tiveste lá?
- Tive lá e comi uma gaja numa discoteca...
- E era boa?
- Oh pá, era uma gaja!

sábado, novembro 11, 2006

Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.


Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IX

Incongruências eclesiásticas

É curioso como se apregoa catolicamente o valor da vida para defender o aborto e a pena de morte só foi retirada das enciclícias papais há tão pouco por João Paulo II perto do final da sua vida.

sexta-feira, novembro 10, 2006

“Naquele tempo, o tempo então passava devagar”


Esse era o tempo em que as moscas nos falavam e vinham sentar-se ao nosso lado, trazendo sussurros quentes de histórias por revelar, numa confidência íntima de noites inteiras de luar

Esse era o tempo em que os pássaros cantavam imbuindo o espaço de uma melodia celestial, o céu, um imenso manto azul cobrindo-nos os rostos cansados antes de dormir

Esse era o tempo em que o trabalho era ainda ócio, divertimento, lazer, devolvendo aplausos cúmplices de regozijo e alegria

Nesse tempo, o tempo então passava devagar e a felicidade reinava contida e discreta por nós dentro.


Sara Bessa, Inédito

quinta-feira, novembro 09, 2006

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busquem riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.

Luís de Camões

quarta-feira, novembro 08, 2006

Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te.
Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro,
hei-de continuar a trazer-te no sangue.

R.M.Rilke

terça-feira, novembro 07, 2006

Do mestre Walt Whitman:

Quando soube ao fim do dia que o meu nome fora aplaudido no Capitólio, mesmo assim nessa noite não fui feliz,
E quando me embriaguei ou quando se realizaram os meus planos, nem assim fui feliz,
Porém, no dia em que me levantei cedo, de perfeita saúde, repousado, cantando e aspirando o ar fresco de outono,
Quando, a oeste, vi a lua cheia empalidecer e perder-se na luz da manhã,
Quando, só, errei pela praia nu e mergulhei no mar e, rindo ao sentir as águas frias, vi o sol subir,
E quando pensei que o meu querido amigo, meu amante, já vinha a caminho, então fui feliz,
Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia, e esse belo dia acabou bem,
E o dia seguinte chegou com a mesma alegria e depois, no outro, ao entardecer, veio o meu amigo,
E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas invadindo lentamente a praia,
Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem felicitar-me,
Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fresca,
Na quietude daquela lua de outono o seu rosto inclinava-se para mim,
E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito - nessa noite fui feliz.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Van Gogh fê-lo para exprimir a ideia de GRATIDÃO :)

Escreve-se um poema devido à suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formidável, algo que nos transformará, que transformará tudo. Como na infância, quando se fica à porta de um quarto obscuro e vazio. Ficamos durante um minuto, uma brisa levanta-se nos confins da obscuridade: um redemoinho no ar, uma luz, uma iluminação talvez? Estamos prontos para o assentimento. Outro minuto, cinco, dez, ali, diante do anúncio suspenso e ameaçador: não acontece nada. Poder-se-ia esperar um dia inteiro, dias seguidos. Às vezes pára-se no meio de um jardim ou de um parque ou de uma avenida deserta. São variantes do quarto. Acontece o mesmo, quero dizer: não acontece nada. A suspeita apenas de que nos aguarda uma espécie de graça reticente, um dom reticente. Ou contempla-se um rosto, alguém que se ama, um ser imediato; ou então um rosto desconhecido, defendido. Pensamos: é uma vida nova, uma força nova e profunda, é uma paisagem misteriosa, profunda e nova que se relaciona intimamente connosco: vai revelar-se. E a outra pessoa olha para nós perdida nas perspectivas inquietas da nossa contemplação. E recomeça-se. O mesmo, sempre."

Herberto Hélder in Inimigo Rumor nº11, transcrito de www.fatalbecosemsaida.blogspot.com

quinta-feira, novembro 02, 2006

É urgente?

Há uma velha expressão na língua portuguesa que diz: cada pedra uma minhoca. Apesar das óbvias qualidades de inteligência e conhecimento, o ministro de Saúde, Correia de Campos, tem vindo a tomar um certo número de medidas extremamente discustíveis, e que se sucedem a um ritmo inquietante. A última é a do mapa do serviço de urgências.

Há uma coisa que devemos sublinhar desde já. Uma das distinções essenciais da esquerda e da direita é que a esquerda deverá ter em conta as consequências das medidas tomadas para as pessoas de hoje, o modo como elas são afectadas no seu quotidiano. Os perigos de um capitalismo sem instâncias de moderação estão aqui. É por isso que algumas das medidas propostas pelo chamado Compromisso Portugal (que, aliás, nada têm de original) são de uma enorme insensibilidade. Como é fácil dizer, do alto do jogo das cadeiras de empresários e gestores, que se devem pôr 200 mil funcioários públicos na rua! Como é fácil esquecer que muitos deles nunca tiveram outro meio de subsistência e que já não têm idade para arranjar outro emprego! o conjunto de sugestões do Compromisso Portugal corresponde ao ideário mais despido da direita. Rui Ramos, num texto que não foi escrito em dia inspirado, pretende que o que escandalizou foi a forma: "O simples facto de haver um grupo de cidadãos que, sem reclamar uam identidade corporativa, se atreve a discutir sobre a forma como a sociedade portuguesa está organizada e é governada." Confesso que alguns deles merecem-me a maior simpatia (a começar por Carrapatoso). Mas também devo dizer que, na minha actividade de conselheiro cultural em França, falei com muitos dos nossos empresários e tive a oportunidade de ver como eram ignorantes, mal informados, sem a mínima formação cultural.
Para além da gestão que faziam, interessavam-se por carros de corrida, por futebol. e teriam lido, nos casos mais virtuosos, um ou dois livros por ano (e que livros, senhores!).

As posições de esquerda implicam a atenção ao modo como os outros estão a viver - a questão da snsibilidade social. É aí que um projecto de urgências em que muitas pessoas ficam a uma hora do acolhimento só pode ser algo que esquece o que é verdadeiramente uma urgência. Uma urgência é um momento de aflição. A sensibilidade social implica que se tome em conta essa aflição. Já há alguns anos, estava eu em casa dos meus pais, a Teresa, minha mulher na altura, telefonou-me aflita. "Anda depressa, está a acontecer uma coisa muito estranha." Fui a correr e verifiquei que ela movia permanentemente o pescoço como se não controlasse a cabeça. Só ver incomodava e cansava. O Alexandre Melo, sempre pragmático, recomendava, com algum humor, que ela movesse também o corpo ao ritmo da cabeça. Felizmente o Centro de Saúde era quase ao lado e lá fomos. Verificaram que, não havendo nenhum ataque de histeria, se tratava de uma síndorma extrapiramidal por excesso de medicamentos. E o assunto foi tratadocom uma injecção. Imagina-se o que seria de cansaço e esgotamento com uma hora ou hora e meia até chegar a um serviço de urgência?
E como imaginar que, na hora pior e mais angustiante de todas as horas de um dia, a hora do lobo, por falta de profissionais, alguns centros de saúde fecham durante a noite, eliminando-se os serviços de atendimento permanente? Uma urgência não é uma situação abstracta: é a tentativa de nos salvarmos ou salvarmos alguém. É uma corrida contra o tempo. Um governo socialista tem de ter estes factores em conta.

Eduardo Prado Coelho, O fio do horizonte