segunda-feira, outubro 30, 2006

"(...) em França, falei com muitos dos nossos empresários e tive a oportunidade de ver como eram ignorantes, mal formados, sem a mínima formação cultural. Para além da gestão que faziam, interessavam-se por carros de corrida, por futebol, e teriam lido, nos casos mais virtuosos, um ou dois livros por ano (e que livros, senhores!)".

Eduardo Prado Coelho, O fio do horizonte

domingo, outubro 29, 2006

"As gerações do telemóvel e da Internet anónima crescem sem qualquer respeito pela privacidade e intimidade, como se vivessem num reality show. São eles que não perceberam que, ao aceitar um telemóvel com GPS ou com vídeo, aceitam ser controlados com eficácia. Não querem saber, cresceram assim, ninguém os educou para a reserva de si próprios. Serão excelentes clientes para os psiquiatras, quando tiverem dinheiro para os pagar."

Pacheco Pereira in Público

sexta-feira, outubro 27, 2006

Geração Rasca

Na altura em que o Vicente Jorge Silva escreveu o artigo onde questionou se se estaria a assistir ao nascimento de uma geração rasca; houve consenso em repudiar a expressão e em substitui-la por «geração à rasca» dadas as suas dificuldades de inserção no mercado de trabalho, a crise económica, o excesso de canudos...

Recordo-me como se fosse hoje de um professor de Inglês que tinha a particularidade de não ter televisão em casa afirmar que concordava com a expressão.

A geração que hoje tem 16 e 17 anos é assustadoramente mais rasca que a geração que recebeu o epíteto. É díficil de encontrar um hiato tão grande, uma involução tão vertiginosa inter-geracional como da geração actual.

A tecnologia desempenhou um grande papel pernicioso. É normal uma criança com 7 anos ter um telemóvel. Depressa usa também a net, o mail, o msn, o hi5. A linguagem das ovas gerações é outra. Sempre que leio uma sms ou um perfil do hi5 de alguém sub-20, arrepio-me. Nem consigo perceber o que lá está por tantos k´s e x´s. A língua sofreu tantas mutações, tanta economia de letras, transformou-se apenas no som que se ouve.

A profundidade não parecer passar pelos teens de hoje. As novelas não levantam dilemas morais ou questões globais, os livros e os jornais (e os poucos que lêem, lêem revistinhas, Dan Brown e Rebelo Pinto) ficaram arcaicos perante as playstations, as grandes mocas nos festivais.

As pitinhas pavoneiam-se, cada vez mais fúteis, mais ignorantes e mais cabras. Trabalha-se muito agora os abdominais e pouco o cérebro (o espírito então já é quase letra morta...). Dizia-me outro dia um amigo ancião que elas são mais miméticas que nunca: pedindo-me que atentasse no bambolear das ancas com as mãos de lado.

Constatava-me outro dia uma psicóloga que nunca houve tanta criança hiperactiva. Pudera: hoje proliferam estímulos atrás de estímulos num frenesim que a indústria consumista não deixa desacelerar.

Zapping atrás de zapping, experiência descartável atrás de experiência descartável, 8 segundos disto, 6 daquilo, 3 daqueloutro e cada vez o estímulo tem de ser mais intenso, cada vez tem de fazer pensar (pensar é bueda secante) menos e cada vez tem de vir mais rápido o outro...

Anjo-procurando-conservar-a-sardinha-e-não-a-lata

quarta-feira, outubro 25, 2006

Pérolas

«O que antigamente era vergonhoso, se considerava uma aberração, um erro da natureza, hoje o homossexual dar a cara é ´coisa linda, só falta os órgãos de comunicação social considerarem a homossexualidade um milagre da natureza. Meu Deus do céu! Eles até já querer adoptar crianças (...) O que é mais chocante é que temos políticos que defendem isso com um direito dos maricas, quer dizer, só conta o instinto animal deles, não conta o que as crianças iam sentir».

A minha vida fazia um filme, Hermínia Ribeiro Nobre, 2003

terça-feira, outubro 24, 2006

Das poucas coisas que aproveito do Maria Antonieta

"i think it's dark and it looks like rain" you said
"and the wind is blowing like it's the end of the
world" you said "and it's so cold it's like the
cold if you were dead" and then you smiled for
a second.
"i think i'm old and i'm feeling pain" you said
"and it's all running out like it's the end of the
world" you said "and it's so cold it's like the
cold if you were dead" and then you smiled for
a second

sometimes you make me feel like i'm living at
the edge of the world like i'm living at the edge
of the world "it's just the way i smile" you said


Robert Smith, Plainsong

Que as vozes lúcidas nos chamem sempre à razão:

"Somos máquinas. Estamos tão concentrados em ser máquinas que já perdemos a capacidade de saborear..."

Sara Bessa na noite do lançamento do seu livro Viagem ao centro de mim

segunda-feira, outubro 23, 2006

A vida tem odor a mar e a menta entre os seios.

Pablo Neruda
Aquela triste e leda madrugada


Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se dúa outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio
E dar descanso às almas condenadas.

Luís de Camões

domingo, outubro 22, 2006

Sometimes i'm dreaming
Where all the other people dance

Come to me
Scared princess

The cure, Charlotte sometimes
Tê-la visto
Tê-la visto aproximar-se
Com tanta beleza é
Alegria para sempre no meu coração.
Nem o tempo eterno pode retirar-me
Aquilo que ela me trouxe.


Poemas de Amor do Antigo Egipto

sexta-feira, outubro 20, 2006

Cristo percebia de mulheres

Ultimamente tenho constatado um fenómeno em todos os homens extrovertidos que gostam de mulheres - tentar impressionar.

Visto de fora, é tão fácil percebê-lo que absorvo sempre a vergonha que alguém não sente...

Ainda na semana passada, da primeira vez que um tipo era apresentado a umas amigas na minha mesa, largou:

"Eu tenho muitos homens sob a minha alçada. Comando uma obra muito importante."

Não precisa de ser sequer tão explícito para se perceber - estás a tentar impressionar.

Imagino que para uma mulher ainda seja mais fácil topar os "quero-te impressionar" - acredito que sejam mais perspicazes e intuitivas.

É muito melhor deixarmos aquilo com que as queremos impressionar fluir naturalmente ou a partir de uma pergunta dela ou das atitudes (o mais importante). O valor do auto-elogio é nulo - e cola-nos apenas o rótulo de convencidos ou inseguros/imaturos. O problema aqui é que tudo o que seja feito ostensivamente denuncia-nos...

Jesus Cristo disse que se nos convidassem para um banquete, deveríamos ocupar o último lugar. Se ocupassemos o primeiro lugar, poderiamos correr de alguém mais importante aparecer e de o anfitrião descer para outro lugar; o que seria uma vergonha aos olhos das pessoas no banquete. O contrário disto seria uma honra aos olhos das pessoas no banquete.

Daí a sentença de Cristo que cito de cor: «Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».

quinta-feira, outubro 19, 2006

Preconceitos bonitos

Um dos fenómenos psicológicos mais recorrentes, que constitui material de ficcção recorrentemente usado na Literatura e na Sétima Arte, é o amor por alguém que nos faz lembrar alguém...

É incrível como um preconceito (um dia almejo que esta palavra se escreva pré-conceito) pode ser revestido de algo bonito.

A ideia de que tod@s as pessoas que gostámos e não gostámos são codificadas mentalmente e que um gesto, uma roupa, uma frase, um traço de rasto, podem constitui preconceitos inconscientes, muitas vezes, é algo negativo.

Quando vemos alguém sentimos muitas vezes que não gostamos ou gostamos - e não sabemos porquê. A maior parte das vezes associamos as pessoas a alguém - o nosso cérebro não admite que novas pesssoas ou novas ideias caiam no espaço vazio e então as categorias velhas sugam-nos para as suas teias de aranha.

Um espírito romântico persegue sempre uma só pessoa e por isso tenta sempre ir buscá-la. Se a pessoa não quer, então o espírito flamejante encontrará alguém que se assemelhe ao máximo... Basta estar atento, atento aos mais infímos pormenores, para ver que há tanta gente atrás de uma pessoa que ficou lá atrás...

É - Freud dix it - o prazer da repetição...

Angel-afastar-ou-aproximar-nos-das-pessoas-associando-as-a-características-de-outras-é-um-preconceito-e-os-preconceitos-não-podem-ser-bonitos

Andando de autocarro é que se descobre o povão.

Esta semana, a certa altura constatei que o motorista tinha desaparecido. Olhei para os rostos e identifiquei-me na sua incredulidade.

Longos, longuíssimos minutos de espera.

O autacarro parecia vazio.

Pela janela, vejo o motorista a correr em direcção ao autocarro.

- Olhem, aí vem ele! Deve ser maluquinho, concerteza! - alguém exclamou no típico hábito do português que engole-tudo-do-patrão-e-depois-explode-em-todo-o-lado-a-sua-indignação.

Ofegante, ganhando ar, o motorista pediu desculpas e sorrindo simpaticamente musicou:

- Fui levar dois invisuais que estavam neste autocarro à paragem mais próxima.

As pessoas entusiasmaram-se.

- Ai meu senhor, fez muito bem!

- Não tenho pressa nenhuma...

- Já não se vê solidariedade assim.

Alguém bateu palmas. Emocionad@s, tod@s batemos.

Anjo-às-vezes-a-realidade-é-tão-bonita

terça-feira, outubro 17, 2006

O PODER DO HÁBITO

Outro dia lia uma descoberta recente da neurologia, correspondente a uma já bem sabida máxima do senso comum: o ser humano tem constantes níveis de adequação a todas as coisas.

A maior tragédia ou a maior felicidade, geram, passado poucos meses um sentimento de normalização da felicidade. 6 meses depois de concretizarmos o objectivo da nossa vida ou de nos morrer um ente querido, já entranhámos a excepcionalidade do facto como algo inelutável e natural.

Incorporamos todos os hábitos até gerarmos sentimentos neutros consentâneos com eles.

Dei por mim a pensar na questão aplicada a outras áreas... «Claro, isto é o que acontece quando interagimos».

Explico-me.

A maior parte das pessoas dá-se com as outr@s em relações alicerçadas em expectativas. É engraçado (e injusto) que a maior parte das pessoas o faça.

Conheço uma pessoa que 90% das vezes que queria falar com alguém só dava um toque na esperança que o outro ligasse. As pessoas incorporaram esse gesto e um dia um amigo dele disse-me muito feliz:

- Eh pa, o David foi impecável comigo. Ligou-me ontem, do telemóvel dele, para saber se eu queria sair com namorada e amigas...

Ele estava verdadeiramente satisfeito e agradecido. Incrível a expectativa que ele tinha conseguido criar: quando é do teu interesse que eu te ligue, eu dou-te um toque e ligas de volta.

Neste caso, como era do interesse dele e como o forreta lhe tinha ligado, meu Deus!!!! Que generosidade...

Outro dia ouvi uma estória que pode parecer menor, mas não o é, e a pessoa que a relatou estava muito sensibilizada e eu assim o fiquei também.

- Lá em casa, as tarefas estão bem divididas. Cada um faz uma coisa. A minha irmã compra o pão. Um dia em que ela vinha tarde do trabalho, eu voluntariei-me e passei a comprar o pão. No dia a seguir, ela ligou-me e perguntou se eu podia ir comprar o pão (pormenor insidioso). No dia a seguir, novamente fui comprar o pão - desta vez a pedido da minha mãe. No quarto dia, não fui comprar o pão e todos me caíram em cima.


Incrível, absolutamente incrível, como algo generoso nos pode se devolvido de uma forma que nos prejudique.

Receita para solidariedade: a ser aplicada excepcionalmente nas relações. Se ministrada em doses excessivas, gerará uma expectativa que nos obrigará a que ela seja sistemática. A seguir, provocará um paladar banal, e no dia em que ela não constar, SER-NOS-Á COBRADA A FALTA e nós lamentaremos para sempre o dia em que a abraçámos.

Anjo-vertendo-amargura-em-cada-linha-como-efeito-catártico
"Nunca se deve discutir. Todas as discussões são absolutamente inúteis"

Dale Carnegie

segunda-feira, outubro 16, 2006

"Ler é o maior exercicio de caminhar
para poder alcançar a liberdade"

Pedro Gonçalves

domingo, outubro 15, 2006

Howard Stern

Se me perguntassem qual o maior símbolo da podridão americana, a maior metáfora negra - não apenas da sua admnistração política mas do seu povo - eu responderia o programa Howard Stern e o seu sucesso.

Neste programa, onde basicamante Howard Stern entrevista pessoas e rigorosamente nada mais se passa, os entrevistados vão descendo às profundezas do mais profundo opróbrio.

Mulheres gordas humilhadas pela gordura até chorarem, sem-abrigos levados até às lágrimas por serem «um fracasso», mulheres reduzidas à mera condição do programa: objectos sexuais.

As pessoas são tratadas como merda e expostas como merda com o riso sádico de Howard Stern, mas quando ele pede para as mulheres tirarem a roupa, o pûbis, o rabo e as mamas são censurados.

Os americanos podem assistir com gáúdido num horário em que toda a família vibra febrilmente a humilhação, o racismo da cor, do genéro, do status, até do peso; mas quando se trata da beleza natural de um corpo, aí emerge o puritanismo mais bacoco - a hipocrisia americana ou a inversão de valores?

Um nojo execrável.

Anjo-indignação-pode-ser-sinal-de-lucidez

A vigorexia não é alimentada por elas

Nos E.U.A., para se tirar as teimas de se as mulheres gostavam de corpos musculosos inchados ou não, puseram dois corpos à mostra e pediram que escolhesse. Um, o do magro, Di Caprio. O outro, do inchado Van Damme.

A escolha do corpo recaiu no primeiro.

O mesmo estudo com os homens... os homens preferem o segundo.

Daí o desfasamento entre o corpo que eles tanto trabalham para ter, nem sequer ser um corpo que elas gostam.

Anjo-redistribuindo-as-cartas-viciadas

sexta-feira, outubro 13, 2006

Polémica

Bom dia!, boa tarde!, boa noite!, leitor:

A propósito dos comentários da Staring Girl e do Arauto ao texto Toda a regra tem excepção (até esta?), vou explanar o que penso, correndo o risco de explanar a minha identidade ;)

1) Não constam do meu léxico expressões como "tod@s os x são y". Nunca as profiro e quando as ouço acho que são inanes na sua aderência ao real - lembro-me vagamento a conclusão dos silogismos aristotélicos; e não lhe dou mais importância que uma mera abstracção conceptual.
Usei, por isso, o advérbio de modo tendencialmente e não «generalizadamente». Um cientista o que faz é isso mesmo - extrair tendências. Em matemática é que 1+3 é sempre sempre sempre 4. Abomino generalizações. Mas não me remeto ao politicamente asséptico, sempre neutrinho, morninho («sede quentes ou sede frios porque eu vomitarei os mornos»), de nada dizer para não ferir susceptibilidades. Digo, no fundo, como as pessoas que me lêem ou me conhecem bem sabem, digo, o que os outros pensam em voz baixa. Ainda outro dia lia que um homem, mais do que os amigos, media-se essencialmente pelo número de inimigos...
Sinto que sou cada vez mais cru.

Qual de vós não tem arreigadas as seguintes tendências pré-concebidas:

a) um halterofilista é tendencialmente inculto.

b) uma rapariga com unhas dos pés pintadas de dourado, tatuagens e que vá ao café da ponte é bimba.

2) Convem destrinçar entre variáveis fixas (orientação sexual, raça) e variáveis opcionais(roupa).

Um racismo com base na roupa continua a ser anti-individualidade, sem dúvida, mas um racismo com base no facto de ser mulher, negro ou gay é mais violento porque nos diz - tens esse anátema e vais te-lo até morrer. A culpa de algo que nunca poderemos mudar é incomparavelmente mais severa.

3) Mas claro que todos podemos vestir o que quisermos. Claro que sim. E todos podemos constatar padrões. E aqui falamos a partir da nossa experiência. E porquÊ? Porque não há estudos empíricos. E porque não os há? Naturalmente pela dificuldade em mensurar categorias indefeníveis.

Como seria possível averiguar se quem usa camisa aos quadrados, óculos e tem pele branca é tendencialmente mais tótó? Como se mensura o grau de totozice? Que cientificidade a aplicar? Nenhuma.


Então, devemos ficar tod@s caladinho, evitando expressar comentários? Penso mesmo que não. Tod@s caladinhos são os cemitérios. Eu gosto de pulsar de vida.

Todos nós guardamos o património de tudo o que lemos, vimos, conhecemos. E quanto mais ficheiros temos (e assumo, sem arrogância mas com conviccção, que conheci uma vastíssima fauna e flora humana), mais necessidade temos em os organizar...

quinta-feira, outubro 12, 2006

"ó olhos negros como noites"

António Nobre (alguém me disse isto um dia, mas quem?)

Stricto economicus

"Se todos os aspectos da vida fossem determinados pela eficiência económica ninguém desperdiçaria um tostão a pagar jantares e passeios. Num mundo de mera eficiência económica veríamos que existem espaços urbanos nobilíssimos, ocupados com trastes velhos como palácios e catedrais, muito mais bem aproveitados se se fizessem centros comerciais. Percebo que as criaturas (os apologistas da eficiência económico) se sentissem mais em casa sem antiguidades e no meio da prostituição. Seria um mundo que lhes teria mais forte ar de família."

Alexandre Brandão da Veiga in Jornal de Negócios

quarta-feira, outubro 11, 2006

Cada vez mais verdadeiro:

"A maior parte da humanidade ainda dorme um sono profuno"

Novalis, Fragmentos

Na hora de pôr a mesa

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viuva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luís Peixoto, A criança em ruínas

terça-feira, outubro 10, 2006

Toda a regra tem excepção (até esta?)

O hábito não faz o monge, é verdade. Mas tendencialmente as pessoas que usam camisas aos quadrados, têm óculos e nunca usaram uma long sleeve são menos interessantes.

Anjo-sendo-sincero
"Para ti tem de existir uma palavra perfeita."

Gerrit Achtberg, Uma migalha na Saia do Universo

O fim da privacidade

Outro dia disseram-me, uma pessoa que conhece outra que tem ginásio, que nesse ginásio todos os balneários têm câmaras.

Um amigo meu mostrava-me outro dia no seu restaurante sítios inimagináveis escondidos até em vasos...

Há ainda menos privacidade do que supomos. Facilmente, um voyeur guarda imagens de sexo interceptadas num contexto moral nobre de diminuição dos roubos...

As razões são sempre nobres - proteger dos bandidos, o terrorismo, blá blá blá - e assim progressivamente todos temos cada vez menos privacidade.

Hoje a maior parte das nossas actividades é filmada - no banco, no restaurante, na rua, - e já todos tomámos como garantido este Big Brother (1984, um dos livros do século XX).

Há 10 anos atrás as coisas eram muito diferentes. E não nos sentiamos menos seguros.

domingo, outubro 08, 2006

"O vinho e todas as outras bebidas alcoólicas são impuras, mas o ópio e o haxixe não."

Khomeini

fim

quando voltaste, os teus olhos e as tuas mãos eram
chamas a falarem para mim.
eu estava na cama onde nasci vezes de mais.

peço-te, nunca esquecas o meu olhar de quando
voltaste.

era de noite. eu não esperava mais nada.

e tu voltaste. tão bonita.

és tão bonita. no mundo, deve haver um jardim tão
bonito como tu.

voltaste.

eu sorri tanto. fui feliz e, nesse momento, morri.

José Luís Peixoto

Pormenores assassinos

Há duas teorias para escolhermos as pessoas com quem nos damos. Uma é pela positiva: damo-nos com as pessoas por afinidades em comum. A outra negativa: damo-nos com as pessoas que não entram em choque com determinados factores que consideramos automaticamente exclusivos nas pessoas.

Eu cada vez mais me inclino para o segundo.

Há valores, convicções, como o racismo, a defesa da pena de morte, o materialismo que fazem banir as pessoas da minha vida.

Uma conversa há pouco tempo risco uma rapariga da minha vida.

- Envolvi com o X e custou-me imenso porque ele era meu colega de trabalho, meu chefe, mas meu colega... E eu sempre disse a mim mesma que nunca me envolveria com alguém do trabalho.
- E se ele fosse teu superior envolvias-te?
- Claro que não... Então se eu já tive tantos problemas em me envolver com o X?

sábado, outubro 07, 2006

Segredos femininos

A condição de «amigo» das mulheres permite a um homem observador e com boa memória ter mais conhecimento sobre a natureza feminina.

Muitas vezes, as razões que as mulheres invocam para os namorados escondem a razão última - e como as mulheres não aguentam retê-la só para si, contam-na aos amig@s.

Nos vastos ficheiros da minha biblioteca, encontrei outro dia um padrão. A curiosidade feminina. Ou, para ir ainda mais longe, a paixão pelos defeitos.

- Ele era uma pessoa muito desprendida, estava-se a cagar para tudo, e eu queira ver se o conseguia agarrar;

- Ele só falava nas minhas mamas e eu pensei «Deixa-me conhecê-lo melhor porque ninguém pode ser assim tão fútil»;

- Ele era muito má pessoa e eu achei que o podia levar pelo bom caminho.

- O Pedro não tem charme nenhum. É horrível e está sempre calado. Ele tão monocórdico e tão igual em todas as suas reacções. Dei-lhe um beijo para ver como reagia.

Anjo-delineando-a-silhueta-da-alma-de-mais-esbelto-detalhe

sexta-feira, outubro 06, 2006

"A civilização é uma ilimitada multiplicação de necessidades desnecessárias."

Mark Twain
"O subúrbio é o prolongamento do mundo rural, mesmo que ao pé da cidade."

Pedro Gonçalves a falar da sua comunidade.

In jornal Record

Otto Baric, seleccionador da Albânia, foi multado pela UEFA, no valor de 5.000 euros, por ter feitos comentários homofóbicos.

"Não permitiria que algum jogador meu fosse homossexual nem que trabalhasse comigo. Não podia fiar-me num homossexual porque são débeis e doentes", disse num entrevista ao jornal Jutarnji list.

A UEFA frisou que não pactua com a homofobia. Só não se sabe quem apresentou a queixa contra Baric, embora se acredite tratar-se de uma associação croata que luta pelos direitos dos homossexuais.

Data: Quinta-feira, 5 Outubro de 2006 - 13:45


Para os que têm memória curta, esta notícia era impensável há uma década. Ainda em 1973, a Associação de Psiquiatria elencava a homossexualidade na categoria das «doenças mentais».
Como coloquei uma vez neste blog: «Não distingo a homofobia do racismo» e é para este horizonte que a civilização e as suas regras se direccionam.

O último dia do Verão

Quando vejo alguém focado em alguém, e essas duas pessoas saem à noite, observo que quem está focado não consegue usufruir das pessoas, da noite...
Uma vez li que os amores de Verão matam o Verão, porque retiram-nos a capacidade de desfrutar do Verão...

quinta-feira, outubro 05, 2006

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill

quarta-feira, outubro 04, 2006

«Aquilo de que as pessoas se envergonham, normalmente dá uma boa estória.»

Francis Scott Fitzgerald, O último magnate
fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto

SEXO É MAU

Darei neste texto a minha resposta à pergunta: Como seria um mundo sem sexo: melhor ou pior?

Compartimentando a questão reprodutiva, vamos então analisar...

1) Um mundo sem sexo tinha um prazer subtraído. Sem dúvida. Dir-me-ão que é dos melhores prazeres, talvez o melhor. Os meus amigos que experimentaram drogas duras garantem-me que elas são bem melhores que sexo. Mas para a maioria das pessoas - de facto, a maior parte não chega a consumir drogas duras - o sexo é o melhor dos prazeres. Então o melhor prazer no mundo sem sexo seria outro. E nunca ninguém sentiria a falta de um melhor - porque não o conhecera.

2) Um mundo sem sexo era muito mais meritocrático. Quem sabe o que são companhias áereas, agências de modelo, sabe tão bem do que falo que nem preciso de adiantar uma linha. Um mundo sem sexo seria um mundo onde a mobilidade social tinha mais a ver com o mérito.

3) Um mundo sem sexo valorizaria menos a forma. E como tudo é antinómico, a alma seria mais valorizada. A futilidade de cuidar horas e horas do corpo com um templo seria menos importante. Porque a beleza perderia o fogo do desejo e seria como um quadro - belo apenas para ser contemplado.

4) Um mundo sem sexo faria as pessoas aproximarem-se mais pelo cheiro da essência. As pessoas estariam muito mais distantes do seu lado animal, e procurariam afinidades de almas.

5) A efemerização das relações seria menor e apenas derivada de ilusões. Ninguém usaria uma pessoa só para uma experiência fugaz e encerrada em sim mesmo.

6) Não haveria violadores, pedófilos, sodomitas prisionais. Logo não haveria uma grande parte dos traumas hodiernos - os traumas sexuais.

7) A relação entre homens e mulheres seria muito mais sincera. Porque, no fundo, já não havia o factor sexo; havia pessoas - a condição mais elevada que o ser humano poderá altear.

Anjo-elencando-sem-medo

terça-feira, outubro 03, 2006

"Os pensamentos que escolhemos pensar são como as ferramentas que utilizamos para pintar a tela das nossas vidas"

Louise L. Hay numa sms da Xila

segunda-feira, outubro 02, 2006

Virou moda "ser uma pessoa muito à frente". Hoje, o look descontraído, cool, fashion, meio freak é encarado com vulgaridade. Seria realmente um mundo melhor se os muito à frente fossem um bocadinho à frente.
Farto-me de conhecer pessoas com piercings e de um conservadorismo atroz. Falava com uma miúda que interiorizou a estória do open-mind e da ausência de preconceitos que tant@s assimilam acriticamente sem substrato...
"Eu sou uma mente aberta" - dizia-me uma rapariga de 25 anos.
Três minutos depois:
- Onde sais à noite, angel?
- Vou ao lux e ao incógnito...
- Ao lux? Isso é só paneleiros...

Anjo-expor-a-realidade-às-vezes-é-mais-contundente-do-que-criticá-la...
«Um arrazoado de argumentos nada pode contra a intuição feminina...»

Detective Nero Wolfe

domingo, outubro 01, 2006

"As mulheres acreditam sempre que podem mudar um homem."

Angel-ouvindo-e-reproduzindo-o-que-dizem-as-suas-amigas

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Vinícius de Moraes