sábado, setembro 30, 2006

"Gosto de ti quando calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, e minha voz não te toca.
Parece que teus olhos saltaram
e parece que um beijo fechara a tua boca.
Como todas as coisas estão cheias de minh'alma
emerges das coisas cheia de alma, a minha.
Borboleta de sonho, tu pareces com minh'alma,
como pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estas como distante.
E estas como a queixar-te, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e minha voz não te alcança:
permite que eu me cale com teu silêncio agudo.
Permite que eu te fale tambem com o teu silêncio
claro como uma lampada e simples como um elo.
Tu és como a noite, calada e constelada.
Teu silencio é de estrela, afastado e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se estivesses morta.
Uma palavra, então, um sorriso são o bastante.
E fico alegre, alegre porque a verdade é outra."

Pablo Neruda
"Deitar cedo e cedo erguer
dá saúde, faz crescer e conduz à monotonia"

José Alberto Braga, Pensamentos & Reflexões

sexta-feira, setembro 29, 2006

Para reflectir

"O voto de castidade do impotente não tem qualquer valor."

Maktub

quinta-feira, setembro 28, 2006

Linguagem para tod@s

A língua é muito mais importante do que a importância que lhe dão. Ainda outro dia li que um sentimento que existe no léxico tibetano não existe no português. A ideia de sentirmos vergonha perante o que outra pessoa está a fazer. Isto é reconhecido - reconhecido como humano - e não há vocábulo na nossa língua para o designar.

É evidente que uma sociedade machista tenha de produzir e perpetuar uma língua machizante...

«O homem ao longos dos tempos...» - a História aplica o conceito Homem para designar tanto homem como mulher. Quando um determinado grupo é abrangente, usamos o todos, o referente a masculino.

Sempre propus o uso indefinido de um meio-termo por criar e entretanto já descobri um em panfletos de partidos de esquerda: @

somos tod@s iguais mesmo?

Anjo-rodopiando-até-estontear-os-outros

quarta-feira, setembro 27, 2006

SEXO

(A pedido de leitores que acharam um parágrafo confuso, passo a explicar-me...)

Hoje em dia, como dizia o Rodger Dodger (que grande grande filme) ao passear nas ruas de nova-iorque:

SEX IS EVERVYWHERE.

Nunca como hoje o sexo teve um papel tão preponderante. Nunca houve tanto estímulos sexuais no ar - em muppies, em fios dentais que ameaçam tornam a cueca tão obsoleta como o VHS face ao DVD, em práticas cada vez menos remetidas ao gueto de swing, práticas grupais, consulta de sites de sexo na net.

A palavra mais procurada no google é sexo - e achar que isto nada nos diz sobre a sociedade hodierna é fazer como a avestruz...

O problema é que somos constatemente bombardeados a desejar sexo... e contudo as mentes femininas não estão assim tão receptivas a essa liberdade sexual.

Dir-se-á que tarados houve sempre, mas nunca vi como agora vejo tanta sofreguidão sexual masculina por satisfazer... Imensos amigos meus falam em "precisar de foder" como se de ar ou alimento se tratasse. Assusta-me.

Penso que há um desequílibrio entre os estímulos que a sociedade nos induz e a abertura de mentes neste aspecto.

Pergunto-me se não poderá haver comprimidos que ajudem a diminuir intensidade sexual. Faria muita gente feliz. E não só os pedófilos e estrupradores.

Anjo-mas-ela-move-se

segunda-feira, setembro 25, 2006

Miguel Vale de Almeida, antropólogo, e um dos poucos homossexuais assumidos resume a questão:

"Quero viver num mundo em que se deixe de pensar a diferença."

(clap, clap, clap, clap)

domingo, setembro 24, 2006

SEXO

Há duas coisas que nunca foram tão marcantes na História da Humanidade como hoje: o culto do sexo e o culto do corpo.

Somos bombardeados como nunca para valorizarmos a forma como algo importantíssimo e somos bombardeados como nunca a desejar... SEXO.

As mentes recebem estímulos sexuais como nunca até hoje receberam... e depois não lhes conseguem dar vazão porque as mentes ainda não estão suficientemente abertas ou emporcalhadas (é como se quiser) para ter sexo desenfreado. Especialmente as mentes femininas.

Claro que o móbil disto é económico. Criam-se os desejos e a indústria do sexo aumenta. Se foi possível criar o Viagra, não era possível criar comprimidos para atenuar o desejo sexual?

Quando leio os criminosos sexuais, violadores, sodomitas, pedófilos e outros pedirem para ser castrados, pergunto-me se não haverá um meio termo que lhes permitisse atenuar o seu desejo que os torna vítimas deles próprios.


Imagina leitor o seguinte: um mundo sem sexo. Compartimentando a questão da reprodução, seria esse mundo melhor ou pior? Procurarei responder a esta questão no próximo angel.

(continua)

sábado, setembro 23, 2006

(de uma beleza pungente)

«O desenvolvimento das intimidades é assim. Primeiro, damos a nossa melhor imagem, o produto polido e acabado, corrigido com simulação, falsidade e temperamento. Depois exigem mais detalhes e pintamos um segundo quadro, e um terceiro - passado pouco tempo as linhas melhores desapareceram - e por fim, o segredo é revelado; os planos dos quadros interligaram-se e denunciaram-nos, e embora pintemos sem parar já não conseguimos vender um único quadro. Devemos contentar-nos em esperar que os relatos fátuos que fazemos de nós próprios à mulher e aos filhos e aos sócios de negócios sejam aceites como verdadeiros.»



Belos e Malditos, Francis Scott Fitzgerald

sexta-feira, setembro 22, 2006

Conversa - Quid juris?

Foi ontem. Falou-se de traições e eu disse que o Paulo andando com a Rita há 14 anos nunca a traíra - e destaquei isso como louvável. Mas ela ouviu e disse que isso devia ser normal - e portanto não mereceria o meu destaque.

Eu disse que não era normal - porque normal significa o estatísticamente mais observável. E - acrescentei - «normal, infelizmente é a traição». Ela disse que se eu pensava assim é porque não concebia namorar muito tempo sem trair. Eu disse que estava a falar do que observava como espectador e que não estava a veicular a minha opinião. Acrescentei que para mim era triste que a traição fosse o mais normal. Ela acha que não é o mais normal.

A minha conversa reportava-se a analisar, a descrever o real, sem lhe introduzir o meu ideal. Ela acha que isso não é possível. Será que distorcemos sempre os factos para que estes se moldem às nossas teorias? Eu penso que não.

segunda-feira, setembro 18, 2006

The perfect people

Há pessoas que projectam para o exterior uma imagem de perfeição. Parece que estão distantes das nossas limitações, das nossas turbulências emocionais, das nossas dúvidas.

Conheci duas pessoas assim. Mas é só de uma que quero falar. A exposição das vidas alheias tem limite.

Ela era uma aluna brilhante, brilhante. Depois disso uma trabalhador brilhante. Era perfeita. Um conjunto de sítios que ambos frequentámos e onde nos encontrámos reforçou a nossa amizade.

Um dia perguntei-lhe se alguma vez tivera uma negativa, ao que ela respondeu escandalizada:

"Claro que não... Era incapaz de viver com isso"

Eu provocava-a e ela achava-me louco - louco de uma maneira que ela estimava.

Ela achava-me altamente desorganizado. "Só te dás com pessoas ultra, dizia-lhe eu, ultra-metódicas, ultra-estudiosas e ultra-trabalhadoras."

Várias pessoas que a conheciam (todas superficialmente) achavam-no incrível. Mais: um alien. Uma pessoa um dia disse-me "ela nunca erra".

Eu era a única pessoa em quem ela chorava no ombro. Um dia disse-me que estava farta, farta, farta de não poder errar... mas que simultaneamente queria imenso poder fazê-lo.

Outro dia teve um pesadelo... Estava amarrada como uma múmia. Queria falar e não conseguia. Interpretou o sonho como a metáfora da incomunicabilidade. Ela não conseguia falar com pessoas.

Um dia, falou-me do seu deserto e carência emocional - tinha tanto tanto tanto para dar, disse-me.

Lembrei-me dela ao ver uma reportagem na 2 que dizia que os génios eram todos infelizes.


Angel-maybe-keeping-everything

Polémico

"O sexo com alguém que não gostamos é uma experiência vazia, mas dentro das experiências vazias é das melhores que se podem ter."

Woody Allen

sábado, setembro 16, 2006

Frases que devem inspirar desconfiança

- Então, está tudo bem com a tua namorada? Sim, fico muito feliz.

- Eu sou uma grande amiga dela (intróito usada para dissimular propósito ulterior), mas...(agora vem a má-língua, antecipo)

- Estou um bocado cansada, fica para outro dia...

- Não se passa nada (ar possuído)

- Dói-me a cabeça - vamos embora (ou variante similar)

- Eu não tenho ciúmes nenhuns dele...

quinta-feira, setembro 14, 2006

Entre a dor e o nada, prefiro a dor.

William Faulkner
«O essencial é invisível aos olhos»


Saint-Éxupéry, O principezinho

quarta-feira, setembro 13, 2006

Pertenço a um grupo ultra-minoritário: não leio livros só em férias, nem quando leio, leio os browns, os equadores e as rebelos pintos. E leio vários livros concomitantemente.

Acabei de ler o livro "Como havemos de viver?" do mais ardente filósofo vivo: Peter Singer.

Há um conceito que gostaria de apresentar: «o paradoxo do hedonismo». Por hedonista, entende-se aquele que busca o prazer. Explica Singer, que aqueles que buscam desenfreadamente o prazer, são aqueles que menos satisfação retiram das coisas, da vida em geral. Porque nunca estão satisfeitos, entram numa espiral de eterna insatisfação, em que os patamares elevados de prazer já não lhes dizem nada porque já se entranharam e então precisam de mais e mais e mais... e o que há acima de orgias e heroína?

Singer conta que um milionário que apareceu na revista Forbes como um dos mais ricos dos E.U.A. disse à mulher: «Nunca mais te submeterei à vergonha de apareceremos em último lugar na lista. Vou lutar para termos muito mais dinheiro.»

terça-feira, setembro 12, 2006

ÁLCOOL

Muitos artistas têm as suas obras regadas de álcool. Na escrita, então, abundam os casos: edgar allan poe, ernest hemingway, scott fitzgerald, fernando pessoa, vinicius de moraes...

Penso que a grande mitificação do álcool como algo que torna as pessoas mais interessantes parte de uma extrapolação grosseira e abusiva do efeito recriativo do álcool nos artistas.

Ao contrário do Agostinho da Silva, acho que não somos todos «poetas livres» (somos aliás, infelizmente, cada vez menos...). A desigualdade das pessoas torna a mitificação em torno do álcool uma generalização crassa.

Claro que era adorável ter apanhado o Pessoa bêbado em Campo de Ourique e ter ouvido o que lhe florescia no espírito... Mas Pessoas e Fitzgeralds há poucos.

Costumo dizer que 80% das pessoas fica menos interessante com o álcool. Seja pela sonolência, seja pela agressividade, pela obnubilação, pela repetição da mesma ideia inúmeras vezes, pela incapacidade de ouvir, pelos vómitos. Pela auto-degradação que subjaz a grande parte das bebedeiras.

Passatempo desde há muito anos

Quando quer que seja que uma mulher se pavoneia numa posição sensual ou quando está sobejamente descascada, eu viro a cabeça e os olhos e encontro sempre sempre sempre grupos masculinos sorrindo, irradiando bem-estar e concentração, de cabeça inclinada de lado, acenando para cima ou para baixo.

Façam o mesmo exercício que eu.

Pelo menos um dos sinais, encontrarão.

MILK

I am milk
I am red hot kitchen
And I am cool
Cool as the deep blue ocean

I am lost
So I am cruel
But I'd be love and sweetness
If I had you

I'm waiting
I'm waiting
For you

I am weak
But I am strong
I can use my tears to
Bring you home

I'm waiting
I'm waiting
For you

I am milk
I am red hot kitchen
I am cool
Cool as the deep blue ocean

I'm waiting
I'm waiting
For you

I'm aching for you
I'm waiting for you

Shirley Manson

segunda-feira, setembro 11, 2006

Pérola literária

Gabriel Garcia Márquez relata na sua autobiografia Viver para contá-la que quando era novo gostava de viajar de comboio. Fazia-o em 3º classe.
Um dia alguém que o conhecia reparou intrigado no facto de GGM ter um patamar de dinheiro e status bem acima dos passageiros da 3º classe e perguntou-lhe por que raio viajava em 3ª classe, ao que Gabo respondeu:

- Porque não há 4ª classe...

quinta-feira, setembro 07, 2006

Onda Púrpura

Os ventos do tempo ameaçaram bater contra os muros do teu sorriso de flores de água, mas outro dia passei pela casa encantada e ela arremessou-me o melhor de ti-em-mim...
Lembrando-me de ti quando a luzinha palpável do teu olhar, rastilho da minha alegria, alastrava a manhã por todas as coisas... então, tudo eram paredes de leite…
Lembrando-me de nós quando naquela noite espantados vimos subitamente a claridade inundar a noite às três horas da manhã…
Agora que as águas aclararam vejo com nitidez que foi o brilho e a doçura da tua pele que nós fizeram viver coisas impossíveis… As notas desordenadas que eu então ouvia resultam agora na mais bela sinfonia para os meus ouvidos.
Tenho uma recordação difusa de como me sentia no tempo em que acordava ao teu lado, mas sei que nesse tempo nada me atingia com muita intensidade e tu eras apenas uma rapariga engraçada...
Uivando no insustentável peso da noite, penso que talvez o tempo tenha apenas guardado o melhor de ti, tela banal tingida com novas tonalidades deslumbrantes. «A memória revela sempre o melhor do passado...», eu percebi...
Ou talvez esta onda púrpura que agora se ergueu tenha sempre existido...
(submersa na opacidade dos dias iguais).

Angel

quarta-feira, setembro 06, 2006

Before Three

The happiest day I ever knew
In a sea of gold down next to you
So blurred and tired under summer sun
You whispered dreams of a world to come...
We were so in love
In this sea of gold so young and tired
Under summer sun hard by your side
Whispering dreams down next to you...
We were so in love
The happiest day
Yeah the happiest day I knew
But summer sun sea of gold
This perfect day oh so long ago
Whispering dreams so blurred and tired
We have to keep this day alive
Whispered dreams so young and tired
It's hard to hold this day inside
And the happiest night I ever had
Up next to you in silver sand
So scared and high under winter moon
You whispered dreams that would all come true...
We were so in love
Up next to you so fucked and high
Under winter moon it made me cry
Whispering dreams on silver sand...
We were so in love
The happiest night
Yeah the happiest night I had
But winter moon and silver sand
This perfect night in another land
Whispering dreams so scared and high
We have to keep this night alive
Whispered dreams so fucked and high
It's hard to hold this night inside
Yeah and every summer's sun I want again
And every winter's moon I want the same
My happiest day and my happiest night
Always next to you...
And held deep inside...
Keeps me alive



Robert Smith

segunda-feira, setembro 04, 2006

Crónica do Jovem Português Comum (Baptista Bastos)

Caminhas altaneiro e feliz. Caminhas para um destino que julgas certo. Caminhas e ainda não foste castigado pelos males de inveja, pela dureza da vida, pelas ciladas que te vão montar muitos daqueles de quem és amigo e teus amigos se afirmam.

És novo e alegre. Não sabes muito bem o que significa ser feliz, mas és alegre, pelo menos por enquanto. O teu horizonte é claro e nítido. Os outros, há anos na repartição, no escritório, na oficina, na Redacção, são os ogres de uma história a que não desejas pertencer: velhos canastrões que não souberam gerir os seus futuros e se enredaram em pequenas pelejas que não compreendes e, afinal, te não dizem respeito. Ou dizem?

Sobes, julgas tu que para o Olimpo, e vês os outros, julgas tu, a descer o salgueiro. Ensinaram-te que é necessário competir, que é preciso competir, que é urgente competir, que é imprescindível competir, que é imperioso competir. Competir fixou-se como marca d’água da tua existência. Tudo é precário, tudo é transitório: sobretudo o emprego. Para o manteres terás de perder um pouco da tua primitiva humanidade e, talvez, também, de ceder um escasso pedaço da tua integridade pessoal.

Desprezas a política, mãe de todos os males, e manifestas a inclinação de não te envolveres em coisa alguma, muito menos em sarilhos que possam ofender ou surpreender aqueles que quem dependes, ou julgas que. Chegas mais cedo do que os colegas; porém, amanhã, alguns deles vão chegar ainda mais cedo do que tu, sobressaltados por essa tua aparência de servilismo. Ou será mesmo?

És muito jovem mas trajas com cores severas e cortes circunspectos. Reparas que os teus colegas vestem todos de igual. Nas noites de sexta-feira envergas, então, roupa «desportiva», leve e solta, e vais para as Docas ou para o Bairro Alto. Bebes cerveja por copos de plástico. Encontras-te com companheiros de escritório, ficam muito embaraçados, depois sorriem, numa animosa cumplicidade que não resiste à próxima segunda-feira.

Conheces razoavelmente inglês, és proprietário de estupenda colecção de CD’s, com gravações poderosas de Radiohead, Brian Eno, Arcade Fire; não estás muito familiarizado com a literatura, sabes, levemente e por ouvires dizer, de Saramago e de Lobo Antunes, achas graça, pouca, mas achas, ao Gato Fedorento, embora prefiras o Levanta-te e Ri; às vezes compras a Blitz, e aprecias Liliana Queirós e Carla Matadinho. Nem sempre, mas ocasionalmente, vais ao cinema, elegendo filmes «de acção» - para relaxar...

Representas aquele tipo de europeu conhecido pelos «mileuristas»: ganham, mensalmente, essa importância (mil euros=200 contos), estão a prazo, sob apertada vigilância do «superior hierárquio», no caso português «a recibo verde», e a espada do Dâmocles, teu director, pende sobre a tua cabeça. Não estás seguro em coisíssima alguma, sobretudo no emprego. Todavia, se te despedem, devido à «estratégia de empresa» ou à «lógica do Grupo», inscreves-te no desemprego, durante uns meses auferes o determinado pela lei e, depois, voltas à mesma roda desgastante.

Não amas: namoras. A palavra amante suprimiste-a do vocabulário. Não casas: vives com. Preferentemente junto de alguém com apartamento. Adquiriste carro a prestações, e o mesmo estás prestes a fazer com as férias no estrangeiro. Esperas um golpe inusitado de sorte (a sorte é sempre inusitada) para, talvez, te meteres na compra de um andar. No entanto, és assaltado pelo receio: dois amigos teus ficaram sem casa e sem dinheiro: não pagaram ao banco e o banco cumpriu a lei.

Andas a par com as marcas de vestuário, usas cremes, loções e perfumes incisivos. Divertes-te com as idiossincrasias culturais dos teus pais, a quem repugna o casamento entre homens e entre mulheres, e que desentendem o significado da palavra metrossexual, assim como a exibição de filmes e de séries nas televisões sobre a natureza recôndita dos prazeres humanos. «Uma vergonha!», exclamam. «É a vida!», dizes tu.

Realizas um trabalho que te não satisfaz. Mas cumpre-lo com rigor e tenacidade, embora sem devoção. Ignoras se, apesar de tudo, do teu esforço, da sua bajulação, da tua reverência, «eles» irão renovar o teu contrato. «Eles» são uma entidade abstracta, a voz sem rosto, o rosto sem voz, a voz sem modulações de alguém que dirige, que administra, que manda. Quem?

Tiraste um curso superior porque os teus pais quiseram vingar, no teu triunfo, as derrotas sofridas com resignação ao longo de uma vida repleta de agravos e de caminhos fechados. Eles ambicionavam-te maior do que tudo o que é visível, um rápido destino, a chama que não bruxuleia porque firme e decisiva. Porém, as coisas do mundo não dispõem de uma perfeição que justifique as esperanças dos pobres mortais. E há poderes desconhecidos, imperiosos e impeditivos.

Os teus pais acreditavam ser possível a criação de outros tempos novos, de homens saídos de remotos sonhos, de sonhos que estavam à altura desses homens. Não era o homem novo, sim o homem com a força e o júbilo capazes de mudar, ainda mais, as minudências com que isto foi construído. Acabaste por ser um jovem velho, moldado a bel-prazer dos compradores de corpos e de almas. Fizeram de ti um ser de obediências absolutas, marcado pelo medo, e até deixaste de perguntar pelo menino que foste.

Não percebeste? Que importa o teu nome, num país de dez milhões e tu és apenas um? Que esperança? Tudo se dissemina, tudo está organizado e previsto. Estás um tempo num sítio, e a seguir mandam-te embora, até obteres o subido favor de outro lugar contingente, sob o varejo de alguém desconhecido que, por seu turno, obedece cegamente a alguém também por ele desconhecido. Não tens para aonde ir, não tens como escapar.

O sistema, agora, não permite a antinomia entre o certo e o errado. Os instrumentos morais, sociais e de solidariedade fornecedores do viático ideológico e político foram integralmente condenados e, logo-assim, aniquilados por um método impeditivo da interrogação. Chamar selvagem ao homem primitivo é cometer atroz injustiça. O homem pós-moderno, detentor de informação e de utensílios culturais e tecnológicos quase ilimitados, demonstra um comportamento muito mais selvático. E as suas acções deixaram de constituir a base da sustentação vital. Repito: deixou de haver certo e errado. O que existe é o Grupo, a Corporação, a Empresa que asseguram e fomentam uma peculiar forma primitiva de viver. Faz falta o coração.

Rapaz: a valoração da vida espontânea, com regras humanas e normas adequadas às singularidades de cada um, foi liquidada. Definitivamente? A poesia é indestrutível. E a vida é um acto poético - ou não é.


BB in Jornal de Negócios