domingo, julho 30, 2006

Jantar no Chinês

Estou a jantar no restaurante de Entrecampos com as minhas amigas Ana Sofia, Ana Luísa e outra absolutamente insignificante que não me recordo nome.
No final do jantar, somos presenteados com calendários, porcelenas e um leque. Vem a conta.
Dividimos naturalmente por 4.
A empregada chinesa fica indignada. Debruça-se sobre a mesa e para espanto colectivo diz-me:
- O senhol devia pagal tudo. Na China, mesmo que sejam 20 mulheles e um homem, homem paga semple. Se pol exemplo um homem está a jantal e se chegam mulheles amigas das mulheles com quem ele está, mesmo que ele esteja sozinho ele tem de pagal tudo!
- E a senhora concorda com isso? - perguntou Ana Luísa.
- Clalo, homem tem pagal tudo.
- E diga-me uma coisa - introduzi de mansinho... - lá na China, a senhora sai à noite sem o seu homem?
- Clalo que não. Só posso sail de casa quando ele chega. Às vezes ele fica a jogal até muito talde e eu fico em casa à espela dele. Só posso sail de casa se ele deixal...
Sorri. E sorrimos todos. A penetração psicológica não é idêntica em todos os membros da raça humana e aquela senhorita nunca ainda percebera os dois lados da equação.

Anjo-fosforescente-na-noite

quinta-feira, julho 27, 2006

Sometimes we walk hand in hand by the sea
And we breathe in the cool salty air
You turn to me with a kiss in your eyes
And my heart feels a thrill beyond compare
Then your lips cling to mine
It's wonderful, wonderful
Oh so wonderful my love
Sometimes we stand on the top of a hill
And we gaze at the earth and the sky
I turn to you and you melt in my arms
There we are, darling, only you and I
What a moment to share
It's wonderful, wonderful
Oh so wonderful, my love
The world is full of wonderous things, it's true
But they wouldn't have much meaning without you
Some quiet evening I sit by your side
And we're lost in a world of our own
I feel the glow of your unspoken love
I'm aware of the treasure that I own
And I say to myself
It's wonderful, wonderful
Oh so wonderful, my love
And I say to myself
It's wonderful, wonderful
Oh so wonderful, my love

Jonnhy Mathis

quarta-feira, julho 26, 2006

Nana naná
(Cacala)

Diz que se Nana chegou
todo mundo parou
Diz que se nana falou
todo mundo calou
diz que se Nana, diz que se Nana

Diz que se Nana cantou
todo mundo dançou
Diz que se Nana virou
todo mundo olhou
Diz que se Nana piscou
todo mundo apagou
diz que se Nana, diz que se Nana

Nana, quem sabe de Nana sabe
que o que sabe-se de Nana
De fato não diz do que Nana é
Porque o que Nana quer...
Nana quer é na-namorar

Diz que se Nana
Diz que se Nana
quer na-namorar, diz que se naná...
quer na-namorar, diz que se naná...

Nana, quem sabe de Nana sabe
Que o que Nana quer é naná neném
Nana é de naná, de naná neném
Nana quer fazer, quer fazer neném
Nana quer naná, Nana quer fazer

Diz que se Nana
Diz que se Nana
quer na-namorar, diz que se naná...
quer fazer neném, diz que se naná...

Diz que o que diz-se de Nana é pra impressionar
Nana não dá calar, não dá dizer assim
Digo o que eu digo de Nana porque Nana é
Nana é mana astral emana sim
Nana emana astral é mana sim

Diz que se Nana
Quer na-namorar, diz que se naná..
quer naná neném, diz que se naná...
quer fazer neném, diz que se naná...
quer na-namorar, diz que se naná...
quer naná neném, diz que se naná..

segunda-feira, julho 24, 2006

Sitcom real

Ele é uma pessoa que de tão boa chega a irritar. Se tudo o mundo fosse como ele, não precisariamos de pensar em revoluções - o mundo seria tão fraterno e tolerante que não haveria espaço para elas. É tão tão modesto que rejeita e ridiculariza qualquer elogio que lhe façam, mas amplifica alguma pequenina crítica que lhe lançem.

Ela tem mau feitio e mascara os seus recalcamentos com uma fachada de frieza. Sofreu muito e agora afivela a máscara da distância e do desprendimento.

São amigos. Numa relação muito peculiar. Ele trata-a que nem uma princesa.

- Queres boleia? - oferece-lhe constantemente.

- Queres que vá contigo para não ires sozinha?
- Deixa-me em paz! Livre-arbítrio quer dizer que eu posso fazer o que quero? - gritou-lhe um dia à minha frente.

- Estás a fumar muito...
- Porra... Tu irritas-me... Eu já tenho um pai!

Quando ele lhe toca, mesmo, como já sucedeu, involuntariamente, ela fica aparentemente possuída.

Já vi demais do mesmo para concluir que estão bem um para o outro. Como num ringue, ele suplica-lhe que ela lhe bata, retirando prazer e prazer da auto-compaixão que constantemente se inflige. Ela usa-o como bode expiatório de todas as suas frustações e sempre que algo corre mal, ele concentra todas as suas irritações da sua vida, e descarrega nele como num saco, toda a sua ira, batendo-lhe.

Estarão bem um para o outro?

Angel-faces-under-the-water-look-so-equal
"E POR VEZES"

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

Ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos"

DAVID MOURÃO-FERREIRA

sexta-feira, julho 21, 2006

Basta ter segurança no que se diz

Palco: Incógnito, três e tal da manhã. Ele estava com a namorada. Abraçados.Passou uma rapariga por eles dirigindo-se para a saída. Ele tinha um braço a rodear a namorada com uma mão disponível. Apalpou a rapariga que passou. Num ápice.
Ela rodopiou numa fracção de segundo e deparou-se com o casal de namorados. Olhou para ela. Depois olhou para ele e ouviu:
- Achas que fui eu por acaso minha queque? - disse ele indignado, segurando a namorada.
Envergonhada, a moça retirou-se.

quinta-feira, julho 20, 2006

PARA JOANA

Filha,

na areia movediça das palavras, eu tenho procurado, juro,
as que nasçam só nossas,
certas, insubstituíveis, insubmissas.
Com ternura lhes toco e as levo ao coração,
frias ou gastas quase sempre, de outros usos.
Como se fossem algas,
escorrem por entre os dedos que as seguram.
Outras, agarro-as bem, tinjo-as de sangue. São
as que me comovem.
Com elas choro e sigo a sua frustração de claunes que tornaram
[ainda mais triste cada infância.

Mas, persigo-as, sim, quero-as ainda, as palavras
trabalho-as
com a aplicação do alquimista.
E do athanor saem só pequenos peixes de ouro
que nada têm a ver com o mar que separa o velho galeão
que de gusanos
me construo
e o teu corpo de mulher que é preciso aceitar urgentemente.
Ou aceitar de outro modo:
como súbito se abrisse a porta da casa e lá fora estivesse caindo
[uma chuva quente que a todos nos molhasse de uma estranha doçura.

Ah, minha filha, com que rigor procuro
o sinal de sermos o que somos
neste rio sem margens
ou talvez nesta praia em cuja espuma quente
é possível molhar ritualmente os pés e as mãos e partir a correr
nus
em direcções opostas
sem nada sugerir
a morte nem a vida
apesar de ambas estarem sempre para chegar.

Ah, o que tenho procurado, juro.
E que inútil junto às frondosas árvores dos símbolos
mais doces mais íntimos mais ternos cruéis acusadores.
Também a esses os levo à altura do peito e os encontro escassos de forma.
Na bigorna não aguentam a violência apaixonada do ferreiro.

E, de novo, procuro entre nomes de flores cidades ou estrelas
e nem sequer nos empedrados rostos das catedrais que eu vi
encontrei nada que pudesse trazer para aqui
outras coisas que pudesse ir amontoando com o tempo
para ir compondo o poema, minha filha, que há dezasseis anos ando para te escrever
mas que não fui capaz
porque escusado é dizer que é dentro de mim que habita uma enorme rosa de fogo
que não se vê do lado das palavras ou das pedras.

Emanuel Félix

quarta-feira, julho 19, 2006

O ABRAÇO

Ela andava sozinha pela rua. Não se vislumbrava ninguém de nenhum dos lados. Aquela rua não costumava ser assim. Não se via vivalma. Era o seu percurso habitual para casa. Desta vez mais solitário, insinuando medo.

Um sujeito com mau aspecto descia. Ela subia. Ele tinha mesmo mau aspecto, constatava à medida que se aproximavam... Os seus passos para cima encurtavam a distância entre ambos... Ele começava a fitá-la... De lado nenhum, se viam pessoas...

- Olha, dá-me um abraço por favor...

Ela ficou petrificada. Sem movimentos, sem palavras.

- A sério, dá-me só um abraço...

- Por favor...

Ela quedou-se imóvel, ele abraçou-a.

Largando-a disse:

- Saí hoje da prisão. Há quatro anos que não via ninguém. Tu és a primeira pessoa. Obrigado pelo abraço.

segunda-feira, julho 17, 2006

Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração

David Mourão Ferreira

quinta-feira, julho 13, 2006

PEDOFILIA

Gosto de compreender tudo. E tudo implica também os serial killers ou os pedófilos. Sempre que ouço alguém defender a pena de morte para um pedófilo, pergunto-me se alguma vez esse justiacilista terá questionado o facto de um pedófilo não conseguir ele próprio libertar-se da sua patologia. Eu nunca me senti em tentação com crianças e por isso só o facto de alguém se sentir em tentação é algo nunca tive, e que mesmo que me desse para aí, não conseguia... Daí pensar que alguém não escolhe ter atracção por crianças. E todos os psicólogos(pouco ouvidos nesta matéria) dizem que se os pedófilos pudessem extirpavam de si a sua necessidade irreprímivel.

Outro dia tinha esta conversa com um amigo que me dizia:

- E se a tua filha fosse abusada?

- E se o teu filho fosse abusado? - contrapus.

Ele entendeu logo a primeira característica de um juíz - ser independente; isto é não pode ter relações nem com vítimas nem com réus. O outro argumento que há que explicar é um pedófilo tem uma vontade, uma pulsão - que não escolheu - e com a qual tem uma relação em que, sem ajuda psiquiátrica, não a consegue dominar.

Ao contrário do que se pensa, a pedofilia (termo que significa ironicamente os amigos das crianças), dito mais correctamente a pederastia, nem sempre suscitou tanta animosidade. E não precisam de invocar a Grécia Antiga. Nem precisam de ir ao século passado buscar Lewis Carrol que sendo um autor e matemático de renome dedicava-se a fotografar abertamente de miúdas de 12 anos nuas. Neste século, André Gide sem grandes polémicas defendia as maravilhas do sexo adolescente. Lolita de Vladimir Nabokov é uma monumental obra da literatura e do cinema (na versão de Kubrick).

Atenção: A pederastia é condenável e hoje, em pleno século XXI, evoluímos no sentido da protecção da criança, mas convém perceber que ela é mesmo uma doença, algo que as pessoas não escolhem; uma doença que escolhe as pessoas.

P.S. Aconselho o filme O condenado.

Angel-all-the-keys-are-made-to-open
"A paixão é uma doença"

Stendhal

terça-feira, julho 11, 2006

Timeless... II

George Michael
Jesus to a child


quinta-feira, julho 06, 2006

Literatura e Carnaval

Ao ler a biografia de Ernest Hemingway, e ao pensar que ele foi um ícone do século passado, desenho a conclusão fácil que o arquétipo masculino mudou. E radicalmente terá mudado face ao anterior quando dobrarmos este século. Não é difícil detectarmos vestígios do futuro.

Hemingway era um homem pesado, ora de bigode, ora de barba e bigode, gostava de caçar (mormente caça grossa), gostava de pescar, era um entusiasta de touradas, gostava de tratar os amigos com autoridade e odiava sentimentalismos, para insultar alguém gostava de o desafiar para um combate de boxe ou de o chamar maricas. Os filhos queixam-se de que ele só os premiava quando em alguma área da vida eles se destacavam (o pai era muito competitivo) e que nunca se sentiram amados. As mulheres idem, e uma mulher com quem ele esteve casado (uma entre quatro) relata que o auto-proclamado ícone da virilidade era impotente, e que de joelhos rezava a Deus para por favor lhe devolver a potência sexual.

Num carnaval mascarei-me, maquilhando-me e pintando os lábios. Quando passava pelas ruas, um homem comentava a uma mulher mascarada de prostituta:
- Quando é que é o beijinho?
Ela ignorou-o e ele disse mais alto:
- Ai filha, comia-te esse cuzinho todo!
Vi-o depois a apalpar umas mamas plásticas que na noite (a uma mente alcoolizadamente desfocada) pareciam uma mulher com os seios de fora.
A certa altura passou por mim e disse:
- Que belos lábios...
Pensei que se fosse embora imediatamente, mas deixou os amigos e aproximou-se cada vez mais de mim. E mais e mais. Ainda pensei que estava a brincar.
Depois em surdina disse:
-Tens um lábios mesmo carnudos...
Olhei-o no olhos, sem proferir palavra e ele disse:
- Dá-me só um linguado, ninguém tá a ver?
- Não, pá... (aqui admiti a hipótese de ele falar a sério)
- Então - disse de forma suave - só um chochinho...
- Não dou...
Ele virou-se e eu olhava nas suas costas a ver se ele palmilhava caminho. Ele virou o olhar de gato meloso e ainda tentou num murmúrio doce:
- Não?
Quando lia a biografia do Hemingway, lembrei-me dele.

Angel-tudo-se-ilumina-em-fracções-de-tempo-imperceptíveis

segunda-feira, julho 03, 2006

Aplausos

Ele gostava de contar tudo o que tinha com mulheres aos homens. Descrevia com pormenores os actos e os homens seus ouvintes, que regra geral não iam minimamente à bola com ele, riam-se ou sorriam.
Era arrogante a exibir as suas conquistas (Fodo-as todas") e às vezes as suas estórias tinham elementos de violência física e psicológica muito severa (Ela estava junto à ravina, eu a dar-lhe uma, agarrei-a e disse que a atirava dali abaixo).
Um dia num bar virou-se e disse para umas miúdas que dançavam ao nosso lado: "Suas gordas, vão para ginásios". Como calhou ser eu a pessoa mais ao pé dele e como ainda por cima até era amigo do gerente do bar quando ele sorrindo, virou-se os ombros para a minha direcção, procurando o meu sorriso. Olhei-o com o meu olhar mais fodido e disse: "Aqui não faças esses comentários".
Nunca mais me voltou a contar estórias na minha presença. Acho que não conheço ninguém que o conheça que diga bem dele. Porém, na sua presença, as suas estórias geram sempre aplausos. Quando ele vira as costas, "tem a mania", "é um chato","é básico".
Não tenho a mínima dúvida que estes personagens só existem porque são alimentados pelos aplausos.

Angel-às-vezes-sabendo-que-é-preciso-compartimentar-a-paciência

domingo, julho 02, 2006

Conversa na noite

Ela falou de trabalho, dos mundinhos, da vida quotidiana e chata. Ela pressentiu que eu dispenso conversas sem magia. Estava entediado.
Ela falou de relações (Porque é que toda gente puxa este assunto comigo? - pensei num ápice).
- Estou apaixonadíssima...
Depois a conversa desviou-se para cinema. Depois ela puxou o assunto de relações.
- A minha relação está um bocado tremida...

Que dizer?...