domingo, abril 30, 2006

"Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente - se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia do que do seu ar de extrema penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de água suja... Então, para cortar o soluço que advinhei subindo de sua garganta, puxei-a para ao pé de mim e, com doçura:
- Tu és a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero mais, com perdida volúpia, com desesperação e angústia..."


Manuel Bandeira (1886 - 1968)

sábado, abril 29, 2006

BLUES FÚNEBRES

Parem todos os relógios, deliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.

Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta do pescoço das pombas da cidade,
Que os policias de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.

Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejam o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.

W. H. Auden

sexta-feira, abril 28, 2006

"Descobriu-se que as mulheres não são tão ligadas a beleza como nós homens"

Os avanços da neuorciência aplicados ao cortejar in www.seducaomagnetica.com.br
"O ofuscante poder da escrita é que ela possui uma capacidade de persuasão e violentação de que a coisa real se encontra subtraída.
O talento de saber tornar verdadeira a verdade."

Herberto Helder, in 'Photomaton & Vox'
"O egoísmo não é amor por nós próprios, mas uma desvairada paixão por nós próprios."

Aristóteles
Revisitando o Mito de Narciso

"E Narciso?
Provavelmente, no comodismo do espelho de água como quem, em tudo e todos vê o seu reflexo que lhe grita sem parar “És belo, és único!”, tenha perecido ao som mudo das destinadas folhas estreitas, brancas, compridas... de flores aromáticas. Não sem antes... num último esgar estertor, vislumbrar: partirei aprisionado!

E Eco?
Provavelmente, da rocha se elevou, retomando o corpo, a decência, a voz que lhe havia sido ceifada num ímpeto de rancor, bradando autonoma e interminavelmente: sou livre!"

Cereja
"E eu que ouvi o que não dizias,
apaixonei-me por ti porque calavas"

L. Stecchetti, Poeta Italiano (1845-1916)
Não um. Mas dois.

Fascina-me a credulidade do revestimento. Porque gosto de senti-los na superfície que pisamos.
São a nossa parte mais afastada. Que nos sustenta.
Originalmente, parelhos.

Ocasionalmente enfermos.
Displicentemente desprezados.
Frequentemente imperfeitos.

Talvez, por isso, insistamos em cobri-los.

Num repente...Eis que surge o chinelo... Como qualquer outra solução.
Leve, sem tacão, sem contraforte, contudo.
Que deixa o calcanhar a descoberto. Ao ar, à solta. Por ventura, erradamente. Pois foi, um dia, a desgraça de alguém.

Apesar de me irritarem os variegados, as raias, os piques e demais, compreendo. É mais fácil tapar o que nos parece feio que intentarmos em descobrir, quem sabe, alguma beleza.

Nonsense...

O chinelo não.
Os chinelos. Plural.
Porque, tal como os pés, são dois e não um.
Independentemente de lhes questionarmos a beleza ou utilidade.
Ou deveriam ser.
Tal como nós, os pés e os chinelos, não vivem sozinhos.
Ou pelo menos, tentam...

Cereja
"A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito."

Thomas Mann, Morte em Veneza

quinta-feira, abril 27, 2006

DESCOROÇOADO

Bem-vinda de volta, metade de cá! Não mais temas. Repousa e refeita-te. As chuvas cessaram e nestes frutos de azedume sobra um travo tropical. Dissipaste o nevoeiro. Mas não dissipes em vão o denso afã que te tolda a vista curta de tão cegamente sequiosa que permaneces do impune, do trágico e do lancinante.

Antes sacia-te e completa-te. Morde assim, aos poucos mas sempre vil e voraz, os caules das últimas flores desabridas da ruidosa selva dos desejos mais insanos, e que anseiam rebentar, convulsas e enfáticas, constantes e inexoráveis, na substância apopléctica do tempo inefavelmente incerto dos amanhãs por romper e devir.

Bem-vinda sejas. Desde logo e para sempre. As coisas que em nós choram, eternamente chorarão no cômputo dos meus sonhos vigilantes. Sentinelas etéreos da fria aurora, os equadores ausentes entre mim e o divino plangem-me, lamentosos, o obsidiar irreverente dos trópicos húmidos e distantes do Ser...

Pedro Filipe Santos

quarta-feira, abril 26, 2006

O poço de virilidade Ernest Hemingway, que caçava, pescava, era machista e homofóbico, veio a saber-se numa biografia do canal história era... impotente. Pelo perfil dele, era de ficar surpreendido?


Angel´s reflection

terça-feira, abril 25, 2006

Who's in charge?
Capítulo 2

As mulheres gostam de homens seguros, firmes e que comandem... - Somos ensinados a pensar pelo machismo vigente. Como qualquer construção social ancestral, milhares de pessoas que assimilam acriticamente a vida, muita gente interioriza essa ideia. As raparigas brincam com bonecas e os rapazes não choram...
A nível das paixões, há (felizmente!) uma excepção a esta regra que existe muito antes do metrossual estar em voga. Uma situação preciosamente atípica vai-nos demonstrando que o coração tem razões que a razão desconhece...
Falo das paixões maternais. Conheço muitos casos de raparigas que se apaixonaram por rapazes com ar desalinhado, tímidos e inseguros, por acharem que precisavam de uma mãe. Poderia contar imensas estórias reais sobre isso. E até, deixem-me que vos digas, a escala de richter mais superior nos sismos das paixões maternais. Parece que são das mais intensas...
Tenho uma amiga minha que em tempos me confessou algo que a maior parte dos seus amigos não tolerou. Ela apaixonou-se por um rapaz de 15 anos. Ela tinha 23. O rapaz nunca tinha conhecido a mãe e tinha pai ausente. Numas férias de Verão, ela cuidou dele, apaixonou-se e depois iniciou-o nos afectos e no sexo. Porque o amava. E é engraçado que ela achava a inexperiência dele ultra-excitante e ultra-ternurenta.
Outra amiga minha teve um crush longo e intensíssimo por um rapaz (este mais velho, mas só no B.I. dado ser um imberbe mental) que andava sempre bêbado, que não tinha auto-estima nenhuma, que não conseguia cuidar de si em nenhuma área da vida. Um dia ela disse "Eu amo-o porque ele me desperta o meu lado maternal..."
Com maturidade ou sem maturidade, afinal?

Anjo-lembrando-as-pequenas-pedras-brancas-dos-momentos

segunda-feira, abril 24, 2006

"Nine girls out of ten marry for money"

Francis Scott Fitzgerald falando nos anos 20
Who's in charge?
Capítulo 1
As mulheres gostam de homens seguros, firmes e que comandem... - Somos ensinados a pensar. Porque é que a coragem, a identidade no seu sortido de valores, ideias e objectivos há-de ser um território masculino? Eu gostaria muito de viver num mundo mais matriarcal, com mais mulheres nos lugares decisórios, com mais mulheres com ideias e opiniões próprias que não quisessem um homem para as nortear, mas para as co-auxiliar...
A origem desta construção social está fortemente ancorada na transposição da maior força física masculina (essa sim, genética) para a ideia errónea da genética de maior força mental dos homens (o que é, de todo, um ominoso logro).
Como dizia, as mulheres gostam de homens seguros, firmes e que comandem... Mas há uma grande excepção a isso.
it continues...

Anjo-suspendendo-o-mistério

domingo, abril 23, 2006

"Não, o perigo não está no mar,
o perigo está em terra,
e o perigo está nos falsos amigos,
o perigo está nos inimigos."

Mateo Flecha, La Bomba

sábado, abril 22, 2006

Poesia na traição

Os leitores do blog sabem que aqui não se advoga a traição. Os não leitores do blog poderão farejar a temática da traição aqui e ver que nunca foi feita a sua apologia.
Não defendemos a monogamia neste blog, mas também não defendemos a traição. O adultério, em bom rigor etimológico, só acontece quando não há Verdade. Neste blog constatou-se até a incongruência largamente recorrente dos traidores que advogam o "liberalismo" para seu próprio benefício, mas que depois adjectivam de putas as prevericadoras, que garantidamente mereceriam a pena de morte.
Introdução introduzida, venho relatar um emociante, poético e sensível caso de traição; tríade de adjectivos que julguei impensável um dia aplicar a uma TRAIÇÃO.
O senhor tem mais de 60 anos, tem uma enorme confiança comigo, gosta de literatura como eu e por isso destila mel em algumas descrições...
É casado, tem dois filhos de vinte e tal anos, e contou-me abertamente que traia a mulher. Com uma antiga namorada que nunca deixara de amar.
"Amamo-nos desde jovens, uma série de circunstâncias impediu-nos de viver juntos e vamos continuar a amarmo-nos até ao fim da vida". Ela também é casada e também tem filhos".
A voz dele estava embargada, percebi depois de que o que ele se preparava para contar era tremendamente forte do ponto de vista emocional:
"Outro dia, estavamos os dois a ver o luar e ela disse-me: Há mais de quarenta anos que estou para te dizer isto. Sabes o que gosto mais em ti? São as tuas mãos..." Ao fundo dos seus óculos graduados, vi que os seus olhos se humidificavam.
Procurei evitar que ele percebesse que também uma lágrima me escorria pela face do rosto...


Anjo-voltando-se-profundamente-para-dentro-do-fogo...
(...) "Orgulho e Preconceito" não é, como centenas e centenas de histórias analfabetas, uma história de amor à primeira vista. É, como escreveu Marilyn Butler, professora em Cambridge e a mais importante crítica de Austen, uma história de ódio à primeira vista. E a lição, a lição final, é que amor à primeira vista ou ódio à primeira vista são uma e a mesma coisa: formas preguiçosas de classificar os outros e de nos enganarmos a nós. Elizabeth despreza a arrogância de Darcy sem perceber que essa arrogância, às vezes, é uma forma de defesa: o amor assusta mais do que todos os fantasmas que habitam o coração humano. Darcy despreza Elizabeth porque Elizabeth é uma ameaça ao seu conforto social e até sentimental. Elizabeth e Darcy não são personagens distintos. Eles são, no seu orgulho e preconceito, personagens rigorosamente iguais.

João Pereira Coutinho, Folha Online

sexta-feira, abril 21, 2006

O que me fazia chorar eram as coisas. Apesar de não ter nenhum desgosto. E quando dava por mim a chorar, sem causa aparente, é porque tinha visto qualquer coisa sem querer.

Samuel Beckett, ibidem
O que se chama amor é exílio, (...)

Samuel Beckett, Primeiro Amor
...para começar... depois afugentada... como uma tolice... que afinal talvez não fosse... tão tola quanto isso... por ali a fora... tudo isto... raciocínios inúteis... e para terminar uma outra ideia... outra ideia...

Samuel Beckett, Eu não
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne, E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Álvaro de Campos, Passagem das Horas
"É pela indecisão que se perdem oportunidades..."

Autor Desconhecido
Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.De paixão.

Herbérto Hélder

quarta-feira, abril 19, 2006

Diálogo angel e um gajo:

- Eu não acho que ela esteja interessada nele
- Angel, claro que está... Então anda a tomar cafés para quê?
- Chama-me tótó; uma mulher tomar cafés com um homem não significa que esteja interessada
A táctica da esfinge (a que permitiu a Cavaco ser eleito...)

Um dia, uma boa amiga minha deu-me um conselho que eu erroneamente decidi desprezar por ela gostar de abundantemente dizer mal das suas congéneres:
«Angel, há mulheres que não sabem falar e que se refugiam numa áurea de mistério que encanta os homens, mas que é apenas uma auto-defesa por não saberem dar duas para a caixa...»
Ignorando o seu sensato conselho, uma amiga minha apresentou-me outra amiga, estava escuro na discoteca, ela não falava, emitia murmúrios, ela não tinha linguagem gestal expressiva, era monocórdica, vestia de preto, quando o fumo emergiu da pista, contrastando em tons brancos com o breu que nos rodeava, eu vi-a numa dimensão épica e sublime... e ela não falava. Uma semideusa, de certeza. Trocámos nº no final, como poderia eu deixar escapar uma Deusa.
Tomámos um café à luz do dia.Nada mudara, mas tudo era diferente... Ela revela-se inculta,com um vocabulário exíguo, campónia de vistas, nas antípodas do cosmopolitismo, retrógada e muito insegura. O seu mistério esboroa-se em timidez e tibieza; as suas parcas palavras esboroam-se na protecção em expor a sua ignorância. Depois disso, qual prego no caixão, manda-me sms pejadas de erros ortográficos...


Anjo-metamorfoseando-se-em-matizes-azuis-arroxeadas-para-se-confundir-com-o-amanhecer

terça-feira, abril 18, 2006

"Oh sociedade da embalagem"

Daniel Araújo
Duas tias de Cascais. Cenário: Esplanada. Lanche. Dia de Sol.
- Ò Vanessa, gostas mais de foder ou de ir a festas?
- Oh Catarina, sei lá... Nunca pensei nisso.
- Mas pensa...
- Oh pá, não sei... Gosto mais de foder...
- Então e porquê?
- Oh pá, não sei... Conhece-se mais gente...

segunda-feira, abril 17, 2006

"O desejo sexual alicerçado na beleza é mais efémero."

Dalai-Lama, Conversas com...

domingo, abril 16, 2006

"Amai-vos uns aos outros"

Jesus Cristo
Na polpa

Um dia, uma rapariga que teoricamente não buliria em nada com a minha alma, chamou-me num detalhe à atenção. Ouvi-a a falar com pessoas que acabava de conhecer e nunca nunca lhes perguntava o clássico:
- O que é que fazes na vida?
Os outros perguntavam e ela respondia, sem rechaçar, mas não tinha mesmo curiosidade em saber o que os outros faziam.
Às vezes, as omissões, o que não se diz, o que não se faz, gritam-nos tanto sobre as almas...
Outro dia dissuadia um amigo meu que queria impressionar a sua amada com a sua nova vivenda de verão e pensei logo em escrever estas linhas.
Não poderá, de facto, haver melhor maneira de saber que alguém gosta de nós, quando a conhecemos estando desempregado, tenho um carro a dar as últimas, quando até estamos com um corte de cabelo que falhámos na escolha...
Cada vez mais a sociedade tem mais força sobre o indíviduo no sentido de o tornar mais bonito, mais rico, mais poderoso e de o fazer acreditar que essas armas de sedução são letais...
Mas uma bela mansão, um belo carro, são factores exógenos a nós, extravasam a superfície da pele da alma... E se vocês os não possuirem, não dormiram com a dúvida "esta pessoa está comigo pelo que eu sou ou pelo o que eu represento, pelo que eu lhe proporciono?

Anjo-refugiando-o-seu-idealismo-num-cinismo-opaco
"quebra a fachada da lógica. abala os seus alicerçes. violência esplêndida de te amar.
oh!, arrebatamento dos sentidos só de te imaginar..."

Alexandre Monteiro

quinta-feira, abril 13, 2006

"Aliás, a melhor parte da vida é aquela que nós próprios imaginamos, pensou- imaginamo-nos, imaginamos os outros, criando assim deliciosas diversões, e até algo mais do que isso. Mas era estranho, e porém verdadeiro, que tudo o que não podemos partilhar com alguém acaba por desfazer-se em pó."

Virginia Wolf, Mrs. Dalloway
"Gatsby believed in the green light, the orgastic future that year by year recedes before us. It eluded us then, but that's no matter - tomorrow we will run faster, stretch out our arms further... And one fine morning -
So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past".

Francis Scott Fitzgerald, The Great Gatsby

quarta-feira, abril 12, 2006

O PIOR CEGO É AQUELE...

Sorvedor de pormenores como sou, observei com os ouvidos uma conversa de umas tias com um indivíduo de blazer de botões dourados fumando charuto:
- Ai não sou capaz de deitar o cigarro para o chão - dizia uma arrepanhando a pele e os cantos dos lábios.
- Ohhhh - exclamava o enfatuado encasacado.
- Ai, a sério, não sou... Estar a sujar o chão...
- Deita isso fora senão isso vai-te arder na mão...
- Podes-me deitar tu?
- Dá cá...
Num ápice, pegou-lhe no cigarro e zás!, chão com ele.
Quando vejo a Lili Caneças ir às barracas anunciar a sua filantropia ou a Cinha Jardim ser paga em festas com dinheiro banhado de sangue, questiono-me sempre se a pena que elas têm das criancinhas não é facilmente dirimida com um mero fechar de olhos, com o enterrar da consciência de avestruz na areia. O importante é termos uma falsa consciência, o importante que os pobres continuem uma população invísivel, porque para essas pessoas não ver o sofrimento, é como sentir que ele não existe.
O vídeo mais horripilante que vi na vida, foi o exercício de crueldade que é feito para tirr as peles dos animais que glamorosamente flutuam pelas passerelles de Fátima Lopes. Mas o que interessa o Holocausto nos bastidores, o sangue, a antecipação do sofrimento, a dor agonizante se depois nas passerelles se polvilhará glamour e oiro?

Anjo-não-querendo-ser-cego...

terça-feira, abril 11, 2006

"Não se mostra o sublime e imortal aos olhos dos frívolos"

Angel
"Envelhecer é sentir as coisas atingirem-nos com menos intensidade"

Angel talking, angel writing
Praia dourada

Um amigo meu disse-me "Angel, quero que sejas o meu consultor de mulheres". Ao contrário do que ele pensa, detesto essa ideia, porque prezo imenso a individualidade e quando sei que alguém está a dizer as palavras de outrem, a seguir os passos delineados por outrem, lembro-me logo do clássico cyrano de bergerac... Afinal, ela está apaixonada por quem profere as belíssimas palavras ou porque quem as cria mas nunca viu?
Apenas quando tiver 80 anos, estarei rodeado de jovens a quem ensinarei muitas coisas, sobre livros, mulheres e o sentido cósmico do Universo. Até lá... Viver... Até para depois poder ensinar.
A única vez que me coloquei de cátedra perante um grupo de homens foi na praia. Um tímido titubeante queria conhecer uma rapariga da praia. Como se a sua vontade não fosse suficiente para obstar à gaguejante e paralisadora inércia do medo da rejeição, disse-lhe que eu ia falar com ela.
Levantei-me e quatro homens observavam o meu comportamento confortavelmente instalados na toalha. Aproximei-me e vi a feia e a bonita.
Interceptei a feia usando a minha memória:
- Estou com uma dúvida lancinante. Eras tu que estava no bar x dia y às zz.zz?
- Era, estávamos as duas.
Como se contrariando a primeira pessoa do plural, dirigi-me sempre a ela na segunda pessoa do singular, evitando as perguntas da bonita, esquivando-me nas palavras e nos olhares. No máximo, ter-lhe-ei dito umas evasivas. Ela insistia cada vez mais e eu fazia cara e parvinho apaixonado à feia.
No final, a bonita perguntou-me onde eu ia sair.
Eu disse "Isso agora"...
À noite, elas as duas (sempre juntas) interceptaram-me um dia. Tive muita pena do tímido não estar ao meu lado. Afinal, eu tinha ido lá por ele...

Anjo-relembrando-uma-vivência-tépida-na-praia-de-oiro

domingo, abril 09, 2006

Coincidências

Eu detesto dizer esta frase ridiculamente banal mas... "ela não faz o meu género". Veste-se à beta, veste um ar ligeiramente altivo, tem um sorriso genuíno e usa argolas. Apesar disso, tem ar de boa pessoa. É alta, gordinha, pele morena, nem bonita, nem feia. Nunca falei com ela e por isso é tudo o que posso dizer sobre ela. Nunca repararia nela. Uma série de circunstâncias que se passaram connosco arrepiariam contudo o espírito mais céptico.
Dia 1. Um amigo meu pede-me ajuda numa cadeira de um curso que acabei há anos. Vou com ele à faculdade tirar cópias da cadeira que lhe vou explicar. Ela está à nossa frente e nós estamos com pressa. Só quero que a pessoa que está à nossa frente se despache. Saimos da faculdade e quando vamos a entrar no carro, ela está ao nosso lado a fumar um cigarro. "Olha, esta faculdade deve ter pouca gente" - penso.
Dia 2. Passados poucos meses, estou a ver uns concertos e vejo uma cara que não sei de onde conheço. Esforço-me e o meu cérebro diz-me "ah, aquela tipa do ISEG". Esqueço imediatamente o assunto.
Dia 3. Passado uma semana, vou a uma discoteca à qual fui 2 vezes na vida e vejo-a. "Esta miúda deve andar sempre na noite, mas nos meus meios habituais não a devo encontrar" penso.
Dia 4. Estou a comer um salame e os meus olhos vêem alguém entrar pela porta... Começo a ficar com a alma perplexa.
Dia 5. Nos meus meios habituais, ela aparece.
Dia 6. Volto à faculdade, e passado três minutos e uma dezena de pessoas, vejo-a. Não sei o nome dela, não quero falar com ela. Esta relação agrada-me assim. Será que ela pensa o mesmo?

Angel-procurando-o-plano-ulterior-e-transcendente-do-Universo-Cósmico

sábado, abril 08, 2006

É verdade que as mulheres...

...são capazes de cozinhar enquanto falam ao telefone, ouvem rádio e vêem televisão?
...são capazes de controlar duas conversas ao mesmo tempo?
...mal entram numa sala, conseguem logo saber tudo sobre todos os presentes (quem é quem, quem está a falar com quem, quem se está a atirar a quem, quem está a apanhar uma seca...)?
...têm uma audição a curta distância melhor que a dos homens?
...conseguem saber exactamente o que uma pessoa sente, até pelas mais simples mudanças de expressão facial?
...conseguem saber se uma pessoa está a mentir pelo tom de voz e pela expressão?
...são mais resistentes à dor do que os homens?
...são em média mais eloquentes do que os homens?
...vêm melhor ao perto, em todas as direcções, do que os homens?
...não vêm tão bem ao longe como os homens?
...conduzem em média pior do que os homens, sobretudo em marcha-atrás?
...não são capazes de ler um mapa de estradas sem o rodarem para fazer o desenho coincidir com a direcção a tomar?
...têm uma capacidade espacial (i.e. capacidade de visualizar os objectos e as suas características e de os imaginar a evoluir no espaço, e de ver a três dimensões) mais reduzida do que os homens?

Portugal-no-seu-melhor
"Toda a infelicidade do homem deriva de uma única coisa, o facto de ser incapaz de permanecer quieto no seu quarto."
Pascal

sexta-feira, abril 07, 2006

"O desejo é a raíz de todos os males"

Buda

quinta-feira, abril 06, 2006

"Quando era mais novo, andava numa escola progressista. Um dia, decidi testá-los e vesti o vestido preto de veludo da minha mãe. Fui espancado pelos colegas no caminho para casa."

Entrevista a Robert Smith, vocalista dos The Cure
"Gosto de ti esta altura toda", diz a Pequena Lebre Castanha esticando-se muito. "E eu gosto de ti esta altura toda", responde a Grande Lebre Castanha esticando-se ainda mais. "Gosto de ti até à Lua", diz a Pequena Lebre Castanha".

Sam McBratney, Adivinha Quanto Eu Gosto de Ti

terça-feira, abril 04, 2006

"I inscribe this book to S.D.:
English, innumerable and an Angel.
Also: I offer her that kernel of myself
that I have saved,
somehow - the central heart
that deals not in words,
traffics not with dreams
and is untouched by time,
by joy, by adversities."

in dedicatória do livro "História Universal da Infâmia", Jorge Luis Borges

Cereja

domingo, abril 02, 2006


Sobre a noite...

"Terna é a noite" - como diz um belíssimo poema de Keats e um maravilhoso livro de Scott Fitzgerald.
Outro dia alguém me perguntou porque eu era um noctívago ao que respondi "À noite as pessoas despem-se mais...". Gosto da noite. Gosto de estar em casa a ler e também gosto da noite na noite. Desengane-se quem diz que só há futilidade e putos na noite. Sei de espaços onde as pessoas falam para lá de carros-futebol-imperial-e-gajas, onde se ouve poesia e onde não há dress codes ou social imposed behaviours...
Falando da noite na noite, (e isto numa semana, onde o porteiro Miguel do Lux, um porteiro que pela sua classe deveria estar algures na Holanda ou na Suécia, vai deixar a casa), informei-me sobre ilegalidades que as discotecas (todas elas) cometem...
As minhas fontes são credíveis e idóneas, laboriando, uma, delas como jurista, e outra da PJ. As discotecas não podem praticar preços diferenciados para clientes. Seria como ir comprar um livro ou um gelado e pedirem a dois clientes dois preços diferentes. Se as discotecas têm uma placa dourada ou plúmbea à entrada a dizer o preço de consumo mínimo, então é esse e esse o preço que um porteiro pode nomear.
O meu amigo da PJ foi há tempos a uma discoteca (Indochina). Chegou à porta e pediram-lhe 12 euros, ele não entrou e ficou à porta à espera de ver o movimento das outras pessoas. Entraram duas pessoas sem pagar, ele elevou o seu distintivo à altura dos olhos do porteiro e disse que ele estava a cometer uma ilegalidade. O porteiro pediu 12€ às pessoas que ficaram perplexas.
É incrível como não há fiscalização absolutamente nenhuma da noite. É incrível as estórias horrendas e criminosas de seguranças privados que fomentam a violência em vez de a minorarem.
Não há área nenhuma do país que esteja tão completamente arredada do cumprimento da lei como as discotecas. Não há nenhuma área que esteja tão por fiscalizar pelas autoridades estatais como a área de lazeres e diversões nocturnas. A lei tem de ser cumprida em todos os lados para ser lei (daí a musa da justiça ter a venda nos olhos a dizer que justiça é cega). Neste sentido, arrisco uma proposta mais ousada, a progressiva substituição de polícias por seguranças privados.

Anjo-fitando-a-noite-azul-linda-como-que-decalcada-de-um-quadro-de-Van-Gogh
"I don´t fuck on my first date."

T-SHIRT ANGEL