sábado, dezembro 30, 2006

Ao desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Axiomas de Deus

Há uma incongruência nas religiões monoteístas. A omnisciência de Deus e o livre-arbítrio que ele nos concede. Se Deus sabe o que eu vou fazer amanhã, então eu não tenho livre-arbítrio porque realmente não escolho... Irrebatível, caros exegetas...

quinta-feira, dezembro 28, 2006

"O tempo não espera por ninguém. Ontem é história. O amanhã é um mistério, o hoje é uma dádiva, por isso é chamado de presente."

Adalberto Godoy

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Há pessoas do dia e há pessoas da noite. Há conversas de dia e há conversas de noite. De dia, a beleza. À noite, a magia. O mundo se não fosse dicotómico perdia a graça.
Podem as circunstâncias abater-se violentamente sobre alguém… Uma pessoa acaba sempre por regressar à sua própria casa – seja ela qual for. O dia e a noite também são casas.
O que dizer a quem não sente as coisas assim? A quem não sente a antinomia dos mundos do dia e dos mundos da noite? Nada. Mas mesmo assim vou tentar, ancorando-me em José Cardoso Pires: «À noite, as pessoas despem-se mais. Há uma atmosfera de pecado amável.» Ou então dizer apenas: quem não sente a diferença entre o dia e a noite, provavelmente é uma pessoa de dia.
Sei que quando digo «dia», que quando digo «noite», os mundos que se erguem na minha cabeça, belos e reluzentes, não existem em mais lado nenhum.
Quando digo dia, evoco o perfume das flores do Verão, águas alegres reflectindo o Sol incandescente, a proa do barco rasgando a espuma branca, vozes frescas e optimistas, a efervescência em torno do dia, agitando-se no banho, agitando-se no café, agitando-se no jornal da manhã, o olhar limpo perante a estrada por percorrer…
Quando digo noite, evoco as noites azuis de Van Gogh, todas as luzes cintilando nas cidades, a lua perfeita, o mar prateado, murmúrios encantados e segredos que só existem de noite, sonhadores nas noites calmas contemplando as estrelas… e sobre isso tudo uma cintilação, um brilho resplandecente revestindo a noite…
Poucos fenómenos há, transversais a todas as épocas e a todas as culturas, capazes de provocar inalteráveis sentimentos. O amanhecer é um deles.
Uma das mais poderosas experiências da minha vida foi assistir ao nascer do Sol do alto de uma lagoa. Em contacto com o céu infinito, vi as nuvens apartarem-se lentamente… como cortinas de um palco desvelando o actor principal… alastrando a claridade por todas as coisas… Toda a natureza se curvava, no mais bonito acto de genuflexão… Memorizei para sempre, nesse momento, que sermos testemunhas da metamorfose da noite em dia, do eterno recomeçar da vida em todas as coisas, nos restabelece a confiança na eterna capacidade de regeneração da esperança.
O silêncio às vezes pode ser a nota mais alta. O silêncio perante a ordem natural e ancestral. Perante a imutabilidade do dia e da noite. A inconfundibilidade de ambos os mundos. Alguém imagina a escuridão a descer aterradoramente ao meio-dia? O Sol expulsar as trevas às três horas da manhã?
Cai a noite. As palavras sobram.

Anjo-derretendo-o-sol-de-manhã-e-incendiando-a-noite
Costumo notar a aproximação do Natal quando os peões nas passadeiras agradecem mais vezes aos carros que param… Nesta época pensamos mais nos outros, especialmente nos que mais sofrem.
Convém distinguirmos entre a caridade e a solidariedade. A caridade não pode ser um auxílio pontual e paternalista, movida por uma espécie de sentimento de piedade que olha de cima para baixo, e que, no fundo, lá bem no fundinho, gosta de perpetuar as coisas para que se possa continuar a exercer a compaixão aos coitadinhos.
Prefiro a solidariedade, conceito que me transmite mais energia, esperança e sentimento de responsabilidade; o dotar de ferramentas tendo em vista a autonomização e libertação futuras. Talvez por isso goste mais de ouvir falar na ´inclusão social´ que no ´combate contra a exclusão social´.
Teístas ou ateus, muçulmanos, cristãos, budistas, judeus ou hindus; todos devemos ser sensíveis à mensagem do Amor. Foi o professo ateu José Saramago quem disse: «Chega-se mais depressa a Marte do que ao nosso semelhante.»
Curioso que a palavra Amor (tão gasta e banalizada) abranja tantos sentimentos. Os gregos entenderam esta complexidade e falaram em três espécies de amor: o Philos, o amor sob a forma da amizade; o Eros, o amor que se sente numa relação a dois e que envolve erotismo; e Ágape, o amor incondicional e infinito a todos os seres a quem deseja libertá-los de todo o sofrimento.
Podem os sistemas políticos e as leis aperfeiçoarem-se, enquanto cada ser humano não amar o seu semelhante, o mundo estará longe de ser um local agradável para viver…


Anjo-pelo-Natal
Se só com te imaginar
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?


Luís de Camões

sexta-feira, dezembro 22, 2006

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Ser feliz

«Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...»

Fernando Pessoa
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."

Fernando Pessoa

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Ainda se escrevem letras assim?

Jardim Crepuscular

Eu ergo os meus lábios de te beijarem
para beijar o céu
nuvem macia e azul
e lento o sol derrete-se
nas tuas palavras douradas para mim
Eu ergo as minhas mãos de te tocarem
para tocar o vento que sussura por entre
este jardim crepuscular
tornando-se num mundo
em que os sonhos são reais

Nunca ninguém vai tomar o teu lugar
Eu estou perdido em ti
Nunca ninguém vai tomar o teu lugar
tão apaixonado por ti

Eu ergo os meus olhos de te observarem
para observar o elevar da estrela a brilhar
pelo teu rosto sonhador e o teu sorriso sonhador
tu sonhas mundos
para mim

Eu ergo os meus lábios de te beijarem
e beijar a profundidade azul do vasto céu
e lenta a lua nada por cima
das tuas palavras douradas
para mim

Nunca ninguém vai tomar o teu lugar
Eu estou perdido em ti
Nunca ninguém vai tomar o teu lugar
tão apaixonado por ti

The Cure
Enquanto ouvia o straight edge, houve três perguntas de mim-para-mim que me assaltaram o espírito:

a) quando é que tiveste perto de morrer? quando alguém conduzia bêbabo;

b) quando é que te chateaste com os teus melhores amigos na noite? principalmente quando eles estavam bêbados;

c) quando é que quase andaste à pancada na noite? quando tive de defender um amigo meu que estava bêbado e fez merda.
Hoje entrevistei um straight edge (vale a pena a pesquisa na net!) e ele disse algo muito profundo que vou pôr em palavras minhas:

- Nós somos ensinados pelo sistema a considerar as drogas e o alcóol como anti-sistémicas e é isso que lhes empresta aura transgressiva e encantadora. Contudo, é uma armadilha do sistema que assim o deseja. Quanto mais alienados estamos, menos questionamos e combatemos o sistema. O pão e o circo romanos deram lugar ao futebol e cerveja...

terça-feira, dezembro 19, 2006

ALGUÉM DECIFRA?

Para quem diz que neste blog há palavras caras, este texto sim é difícil...

“Cobra reivindica uma organicidade que não assenta toda em razões espaciais. Por norma, do animal ao tecido, do todo orgânico ao artefacto, pensa-se o texto autónomo como uma forma separa de outras formas e como forma discernível. É acabada e estática, feita e perfazida, abrangível, ao que parece, por ´contraposição´ – ou seja, porque com ela vale uma qualquer versão do grande gestalt espacial forma/fundo. Em posição de criatura das intenções de um autor, que podem ser falíveis, ou de um “sistema”, que deverão ser menos, nunca está aquém de ser um todo, e a sua mesma diferenciação no restante espaço é sancionada por um interior organizado que faz por fora boa figura.”

Américo António Lindeza Diogo, Por exemplo (Sobre Herberto Hélder)

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Quem trabalha muito, erra muito.
Quem trabalha pouco, erra pouco.
Quem não trabalha, não erra.
Quem não erra, é promovido.

Anónimo

Paisagem significativa

Meço-me
Contra uma árvore alta.
Acho que sou muito mais alto,
Pois chego mesmo até ao sol,
Com os meus olhos;
E chego à praia do mar
Com os meus ouvidos.
Todavia não gosto
Do modo como as formigas rastejam
Para dentro e para fora da minha sombra.

Wallace Stevens, Ficção Suprema

O CIÚME

Vista de fora a inocência é sempre bonita. Por dentro, é apenas ignorância, desconhecimento. Durante muito tempo o meu entendimento ausentou-se de compreender um fenómeno demasiado estranho ao meu espírito: o ciúme (no sentido mais lato do termo).

Não falo aqui note-se bem do ciúme em termos restritos às relações de paixão. Isso é de natureza diferente.

Sempre tive amigos e nunca nunca imaginei que algum deles se medisse comigo - fosse em que área fosse. Tão concentrado estava em contribuir para a melhoria das suas vida, apresentando amigas, dando-lhes possibilidades de emprego, bons livros para ler; que nunca me ocorreu tal coisa.

Fui demasiado ingénuo durante muito tempo.

Hoje sei que muitas pessoas mesmo amigas, se entreolham, se medem, se avaliam. Um dia ouvi alguém ébrio dizer: «Quero que os meus amigos tenham sucesso mas sempre menos do que eu.»

E a partir daí muitas outras lâmpadas se acenderam na minha mente... E eu engoli a contra-gosto o que a vida me ensinou.

Anjo-pois-habituamo-nos-a-tudo-não-é

domingo, dezembro 17, 2006

A propósito do post anterior, encontrei hoje uns cadernos de marketing (sou um leitor omnívoro desde poesia, literatura, filosofia a manuais de jardinagem e espécies de aves) onde se diz que quando se vende algo, primeiro cria-se a ideia associada ao produto que tornará o seu consumidor mais dotado de uma característica em falta...

Exemplo, estão na moda homens aventureiros. Primeiro cria-se esta ideia. Depois surge o carro aventureiro que nós criamos impingir, e que no obrigou a fazer acreditar o homem antes que

Hoje cria-se a ideia certa e justa mas apenas para alimentar a indústria da beleza: que o homem imperiosamente não pode ficar atrás da mulher na competição pelo mais belo e sedutor.

É tudo uma questão de mercados, segmentos; e não de paixões e ideologias.
Conheço homens que acham rídiculo termos como esfoliação ou depilação. Se a mulher atinge patamares cada vez mais elevados de sofisticação da beleza, porque não haverá o homem de subir os degraus?

O problema é que quem alimenta os metrossexuais, claro está, são apenas os interesses económicos da indústria de estética, cirurgia... O móbil é sempre esse, mas poucos o vêem...

sábado, dezembro 16, 2006

Uma sondagem outro dia dizia que 80% das mulheres fazia sexo oral e 50% anal. O que acham?

Homo sapiens sapiens

Depois de ouvir algumas pessoas, pergunto-me se o Homo sapiens terá sido realmente extinto.
Hoje apanhei um taxista que me disse:

«Eu gosto de apanhar clientes é no Príncipe Real. Sabe porquê? Porque não podem ter dois defeitos. Ou são paneleiros ou ladrões.»
O avô de um amigo meu um dia saiu-se com esta:

«A droga e a paneleirice não experimento porque tenho medo de gostar.»

Há qualquer coisa boçal (comparar droga a homossexualidade e designá-la daquela forma começada por ´p´) mas também algo... profunda, eternecedora e comovedoramente humilde nesta frase. Eu acho...
"O Sol nascente vai sempre trazer o teu nome"

tradução de um pedaço de uma música

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Cru

- Existem 10 milhões de portugueses;

- Existem 11,5 milhões de telemóveis em Portugal;

- Existem 18 milhões de cartões de crédito em Portugal.

FÓRUM DE DEBATE

É ou não verdade que 100% das raparigas se masturba?

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Mails

Está um frio que perfura até aos ossos. Alguém me deu (mas quem?) um mail para ler (um pouco machista...) em que falava da cigarra e a formiga aplicada aos homens. Que os homens no verão deviam ser comprometidos, que a testosterona estava no ar, e que a caça estava aberta... no Inverno, convém ter a namoradazinha, a "foda certa" (literalmente), o estar em casa recolhido,já agora sempre a foder para o autor do mail?...

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Um homem encontra um génio da lâmpada.

- Um só desejo...

- Eu moro no Alentejo e a minha família nos states. Quero que me faças uma ponte gigante a começar em Vila Viçosa e a acabar na California... Uma ponte grande, luminosa, com muitas faixas...

- Eh pa, isso vai complicar o trânsito todo... Nunca ninguém me pediu tão complicado desejo...

- Ok,ok... Então diz-me: o que querem as mulheres?

- Com quantas faixas queres a ponte?

terça-feira, dezembro 12, 2006

Bons Sentimentos

O sal da vida - como eu a concebo - é a diversidade de línguas, odores, cheiros, ideias, sensações, experiências, roupas, sons, expressões faciais. Assim também as relações e os sentimentos por detrás delas.

Sempre vi cada relação como uma aventura porque precisamente o que sentimos por alguém é sempre único e inclassificável - como parafraseei neste blog "há mais afectos que nomes para os designar".

Há contudo dois tipos de relações - aquelas a que subtraídas a atracção, a paixão, a química, o que quer que seja sobrevem a simpatia e aquelas em que sobrevem a antipatia.

Conheço casais em que há uma simbiose paixão/ódio - e como é ténue a lina divisória! - que faz com que as pessoas não consigam viver uma sem a outra mas simultaneamente não desejem o bem do outro.

Ainda outro dia perguntei a um desses casais, concretamente ao homem e ele garantiu-me:

"Ela quer que tu tenhas sucesso nesse teu novo projecto?"

Pela cara dele, ele nunca tinha visto este ângulo e a perspectiva chocava-lhe os valores.

"Não, de facto não quer... Alguma vez ela queria que eu tivesse mais sucesso que ela?"

Mais adiante:

"Ela diz que não me queria ter conhecido."

"Ela deseja o meu mal."


Tendo a achar que estas relações não são saudáveis...

Anjo-com calma-sendo-médico-da-alma

P.S. Ocorreu-me este post a propósito da vida do famigerado casal Scott Fizgerald e Zelda em que ela gostava de lhe fazer ciúmes com um piloto francês e em que tudo fazia para lhe diminuir a sua crença no seu talento - ele não podia brilhar mais do que ela.
Alguém me perguntou um dia o que eu mais valorizava numa mulher. Foi o tipo de pergunta que através de comunicação externa me compeliu à comunicação interna.

- Os gajos com quem andaram... Andam... Muito importante

E quantas eu não exclui já por namorados racistas, halterofilistas, materialistas...

domingo, dezembro 10, 2006

FÓRUM DE DEBATE

Durante uns meses, há uns anos, andei a aprender a dançar. Manifestamente não tinha jeito nenhum. Como de todas as experiências, aprendi algo. E uma coisa que nunca esquecerei é o seguinte conselho:

«Na dança o homem pensa que domina. Mas a mulher, mais subtil, sem homem se aperceber, comanda os passos e apenas deixa que o homem faça aquilo que ela quer - mas dando-lhe a ilusão que é ele quem comanda.»

Na dança como na vida?
"Temos uma idade para a vida toda"

António Lobo Antunes

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Desportistas

Entrevistando o José Luís Peixoto, contava-me ele que não havia desportistas que tivessem feito qualquer coisa no registo da arte. Depois de muito puxarmos pelos neurónios, só nos lembrámos de um: o guarda-redes Neno que virou cantor.

"Já nem digo escrever" um de nós disse, mas qualquer coisa no domínio da arte... Claro que nenhum de nós considerou que os livros do Ricardo ou Jardel (que grande goleador) contassem por duas razões:

a) não são eles que os escrevem mas sim jornalistas.

b) como disse o Lobo Antunes, escrever livros é diferentes de escrever papéis com tinta.

Uma vez peguei num livro, qualquer coisa como a História do Futebol, e ri ao ler o prefácio do Eusébio:

"O futebol como epifenómeno..." - é claro que não tinha sido ele.

E na geração do Eusébio a coisa era menos confrangedora. Ainda havia Artur Jorge, Mário Wilson. Hoje não se vê um jogador nem digo culto, mas com o mínimo... E depois aparecem uns a apontar referências - eh pa este e este são cultos. Disseram-me que o João Pinto era culto. Eu ouvi-o a falar e vi verbos mal conjugados, um deserto de ideias. Ouvi até dizer que lia, perguntaram o quê? Ele tartamudeou: «a... a... Bíblia».

Nos flash-interviews não há algo que fuja a isto:

Se o jogador jogou bem, marcou 3 golos, e merece destaque individual, ele contrapõe:

- o que interessa é a vitória da equipa/ toda a equipa está de parabéns:

Se perguntam o segredo das performances:

- Trabalho, idem, idem...

Planos para o futuro

- Pensar jogo a jogo

Se ele está referenciado para ir para outro clube

- Só sei o que vem na imprensa...

(Aguardo comentários da minha amiga staring girl, pessoa culta e profunda, mas com , eufemisticamente falando, um estranho fascínio por corpos bons...)

O erro face aos desprotegidos

Quando estive em Angola, vi algo que se me contassem - ou o interlocutor era fidedigno e meu amigo ou não acreditaria. No coração de Luanda, um cartaz gigante com um negro a degolar um branco. Vi este cartaz intacto durante oito dias consecutivos. Alguém imagina no Marquês de Pombal que as autoridades portuguesas permitissem um cartaz gigante com branco a degolar negro?

O que pretendo com isto? Dizer apenas uma coisa: hoje em dia a liberdade de expressão encolhe-se quando é para dizer mal dos grupos desprotegidos: mulheres vs. homens; negros vs. brancos; homossexuais vs heterossexuais.

Quem tem estes pruridos, normalmente é preconceituoso. Porque deve-se condenar o racismo sempre, e não ter medo de o fazer quando o grupo atacado por acaso é o grupo maioritário e subjugou o minoritário durante séculos. Deve-se fazê-lo por coerência e sem paternalismos de caridadezinha de defender os mais fracos. Este tratamento discriminatório de os ver como fracos é o caminho mais perigoso para a perpetuação do seu estatuto de fracos.

Defender a igualdade de oportunidades, de raças, credos, orientações sexuais, sem conotar estes como fracos, outros com fortes, distribuindo aqui e ali preconceitos que nos fazem ser parciais em situações similares e que só ajudam a perversamente manter o status quo.

Deve-se também defender a liberdade de expressão dos cartoons sem ter medo de estar do lado do ocidente, do império, do que quer que seja o estereótipo que se queira emprestar ao opressor. Como alguém escreveu, quem defende a liberdade por querer encontrar nela algo mais que a liberdade, não nasceu para a liberdade.

Anjo-cravando-como-faca-laminada-até-ao-osso

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Adoro esta letra

lembrando-me de ti estando calma na chuva
à medida que eu corri para o teu coração para ficar perto
e nós beijámo-nos
enquanto o céu desabou
agarrando-te firmemente como eu sempre te agarrei
firmemente no teu medo lembrando-me de ti
correndo suave através da noite
tu eras maior e mais cintilante e mais branca que neve
e gritámos no fingimento
gritámos no céu e tu finalmente encontraste toda a tua coragem
para simplesmente deixar tudo ir...

lembrando-me de ti caída nos meus braços
chorando pela morte do teu coração
tu eras pedra branca tão delicada
perdida no frio
tu estavas sempre tão perdida na escuridão
lembrando-me de ti como costumavas ser
lenta submersa tu eras anjos
tão muito mais do que tudo oh agarrar-te
pela última vez depois desaparecer abrir
os meus olhos mas eu nunca vi nada


excerto de Pictures of you traduzido por angel
Procuro a ternura súbita,
Os olhos como um sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
de um prado ou de um corpo estendido!

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando se aperta contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre – procuro-te !


Eugénio de Andrade
Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável.

Séneca
Entrevistando naturistas, ouvi: "Nos parques naturistas, a lingerie é proibida. Um fio dental é muito mais activador da sexualidade que a nudez."

O erotismo está no mistério, a seduz está mais no que não se mostra, não é?

quarta-feira, dezembro 06, 2006

A grande mão

a grande mão faz todas as tuas coisas favoritas
como quando todos os teus sonhos encolhem
e todos os teus amigos se foram embora
até que as tuas memórias falhem
e as palavras não encaixem
mas a maneira como a grande mão sorri
tu simplesmente não te vais preocupar...

a grande mão faz todas as tuas coisas favoritas
como quando os dias se esvaiem
e as tuas esperanças desaparecem
e os teus sorrisos param
e os teus olhos ficam mortiços
e as sombras começam a rastejar
na parte de trás da tua cabeça

mas quando a grande mão fala
é como fogo de artifício e paraíso
então tu ouves
não pensas
e não desejas nada
e quando a grande mão fala
é como fogo de artifício e paraíso
vivendo sozinho não estou a viver sozinho
vivendo sozinho
vivendo sozinho eu nunca mais
viverei sozinho outra vez

então quando a grande mão segura todas as tuas coisas favoritas
e com um toque como vidro
começa a apertar
tu não perguntas
"porquê eu?"
tu simplesmente deslizas para o chão
deslizas para os teus joelhos

mas quando a grande mão fala
é como fogo de artifício e paraíso
então tu ouves
não pensas
e não desejas nada
e quando a grande mão fala
é como fogo de artifício e paraíso
vivendo sozinho não estou a viver sozinho
vivendo sozinho
vivendo sozinho eu nunca mais
viverei sozinho outra vez

Robert Smith traduzido por angel
What would you do with all the power?

Flaming Lips

Nada que ver

A maior parte dos pais procura antes de ter filhos felizes, ter filhos brilhantes. Outro dia ouvia alguém falar de um amigo comum e dizer: "é dos melhores amigos que se podem ter, mas um dos piores filhos para os pais".

Pois, ele não trabalha, é preguiçoso, demorou anos a acabar curso. Mas é divertido, bom amigo, capaz de se adaptar a qualquer meio.

O índice de sociabilidade, de facto, é menorizado pelos pais - e um dos factores explicativos entre o binómio pais/amigos.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

SE PELO MENOS ESTA NOITE PUDÉSSEMOS DORMIR

Se pelo menos esta noite pudéssemos dormir
Numa cama feita de flores
Se pelo menos esta noite pudéssemos cair
Num feitiço imortal

Se pelo menos esta noite pudéssemos deslizar
Em água negra profunda
E respirar
E respirar...

Depois um anjo viria
Com olhos ardentes como estrelas
E enterrava-nos fundo
Nos seus braços de veludo

E a chuva choraria
À medida que os nossos rostos desapareceriam
E a chuva choraria

Não o deixes acabar...



Robert Smith traduzido por Angel

domingo, dezembro 03, 2006

Pormaiores

Ontem ouvi uma mulher arrasar os atributos de um homem na cama. Detesto detesto detesto ver alguém expor assim outro a semelhante opróbrio. As pessoas deviam resguardar mais a intimidade - a sua e a dos outros (principalmente).

E há determinado tipo de coisas, de pormaiores como gosto de lhes chamar que são soezes utlizar para deitar abaixo alguém.

Memorizo sempre quem faz este tipo de vilipendiações.

O eterno paradoxo

Uma pessoa pode ser branco e defender um preto; pode ser um homem e defender as mulheres; pode ser patrão e defender os direitos laborais dos trabalhadores; ser norte-americano e condenar a administração norte-americana; ser ateu e defender a liberdade de expressão religiosa; nunca ter tomado drogas e defender insuspeitamente a ajuda estatal aos toxicodependentes; ser de uma nacionalidade e defender os direitos dos imigrantes do seu país; mas...

... então por que é um heterosessxual não há-de poder defender os homossexuais sem ter de brandir "Eu sou heterossexual, hein?"

sábado, dezembro 02, 2006

Out of this world

when we look back at it all as i know we will
you and me, wide eyed
i wonder...
will we really remember how it feels to be this alive?

and i know we have to go
i realize we only get to stay so long
always have to go back to real lives
where we belong
where we belong
where we belong

when we think back to all this and i'm sure we will
me and you, here and now
will we forget the way it really is
why it feels like this and how?

and we always have to go i realize
we always have to say goodbye
always have to go back to real lives

but real lizes are the reason why
we want to live another life
we want to feel another time
another time...

yeah another time

to feel another time...

when we look back at it all as i know we will
you and me, wide eyed
i wonder...
will we really remember how it feels to be this alive?

and i know we have to go
i realize we always have to turn away
always have to go back to real lives

but real lives are why we stay
for another dream
another day
for another world
another way
for another way...

one last time before it's over
one last time before the end
one last time before it's time to go again...

Robert Smith

sexta-feira, dezembro 01, 2006

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

quarta-feira, novembro 29, 2006

Se recuássemos pouco mais de uma década acharíamos impossível a forma como conseguimos viver. Sem telemóvel? Sem Internet? Sem mail? Sem MSN? Como é que as pessoas combinavam encontrar-se? Sim, porque as pessoas combinavam encontrar-se. Como é a informação circulava nas empresas? Como é que as pessoas compartilhavam as suas curiosidades e os seus desabafos quotidianos não podendo enviar mails ou sms? Como é que alguém poderia ser feliz: desprovidos todos do mínimo indispensável para uma vida condigna? E a televisão? Que penúria ter apenas dois canais, com a ausência de comando a compelir-nos a levantar do sofá para mudar de canal?
Navegava outro dia no HI5 e constatava, perplexo, que a linguagem sub-20 criou um novo dicionário (por elaborar). Suprimiram-se os ´ch´, e os ´q´, e perante a proliferação de xis e kapas, vi-me perdido.
Muita coisa mudou. A velocidade foi estonteante, mas assimilámos tão rapidamente a mudança que o passado recente nos parece estar tão longe como o Paleolítico. Incorporámos a mudança de forma a não conseguir viver mais sem ela.
A Internet revolucionou muita coisa. Inundou-nos de informação. Hoje qualquer pessoa (mentira, ainda persiste uma grande fatia de info-excluídos) vê-se perante um manancial tão grande de conteúdos que a questão que perturbadoramente nos assalta é: por onde escolher?
Um epifenómeno da Internet que merece especial atenção é a blogosfera. A blogosfera traz consigo enormes repercussões (negativas e positivas). Democratiza-se a facilitação da calúnia anónima, expande-se narcisicamente o ego em blogs inanes; mas também se descobrem novos talentos que com mérito mas sem “contactos” não se conseguem impor, e ampliam-se fóruns de debate onde a voz do povo pulsa vibrante.

Angel

segunda-feira, novembro 27, 2006

Entre nós e as palavras

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny

sexta-feira, novembro 24, 2006

A guerra do fogo

Sempre gostei mais das raparigas que dos rapazes numa característica: a valorização do invólucro. Se um rapaz tiver uma rapariga bonita, isso é motivo de valorização perante os seus pares. Quantos casos conheci eu de rapazes que escondiam as raparigas pelo receio do julgamento da sua fealdade. Triste? Muito triste.

Acho que nas raparigas, se alguma delas tiver um muito bonito, até se calhar vão levar com o estigma ao contrário: que não tem nada na cabeça, etc.

As mulheres quando envelhecem não são atractivas para os homens. Podem estar cheias de coisas interessantes para dizer... Quem "come" a Agustina-Bessa Luís? Nem o próprio autor deste texto crítico (credo! exclama logo ele). Os homens podem envelhecer com imensa classe. As mulheres gostam mais do Sean Connery com a idade; acham que ele amadureceu o charme.

Não há exemplos de mulheres actractivas aos 60 e as 50 já representam uma fatia micro-residual.

Já falei disto com imensas mulheres e elas concordam. Ainda que mesmo que derivada de uma construção social, é inequívoca a constatação que os homens premeiam mais a forma que as mulheres.

Falava assim com uma amiga e ouvi-a dizer algo que me deixou triste:


"Eu gosto de formas.Os animais aproximam-se pela vontade sexual e nós somos muito parecidos com os animais, apesar de tentarem que não pensemos assim. Para amizade não discrimino ninguém pelo físico, agora para o resto... Sem atracção não há nada e a atracção é muito pelo físico."

Anjo-dizendo-"enfim..."

quinta-feira, novembro 23, 2006

Tod@s nos queremos agarrar a uma identidade (exceptuando os budistas)

Numa relação, especialmente ao início, e ainda mais especialmente durante o período do cortejar, as pessoas tendem a focar-se na questão: «Será que el@ gosta de mim?»; ignorando a outra parte, a frase que foi atribuída a Garcia Marquez: «Gosto da pessoa que me sinto contigo.»

Bum! Quando ouvimos, percebemos. Essa é outra parte é imensamente descurada e é fundamental - garante imprescindível de relações duradouras. Sim, porque raras são as idolatrias que perduram infinitamente no tempo.

Claro que - como qualquer tendência extraída do comportamento humano - existem excepções a isto. Conheço bem a estória de uma rapariga que se "sentia uma merda" que lhe batia e insultava e que simultaneamente não conseguia libertar-se do escroque do seu namorado.

Entendo, porém, que a maioria das pessoas não será assim, e que pese embora haver sempre um ascendente numa relação - mais ou menos dissumulado - as pessoas gostam de alguém por aquilo que elas (as outras são) e pela identidade que nos desenvolvemos com cada uma das pessoas.

A prova que estamos presos à ideia da identidade da pessoa com quem estamos é nos dada pelos casais que se entrincheiram um no outro, fechando-se para o mundo, e quando conhecem alguém de fora, sentem que desabrocham para o mundo... Que uma nova identidade se desflora - tão cristalizados estavam na identidade que só desenvolviam no outro... Dos casos que conheço, a razão não foi: "gostei da outra pessoa"; foi antes: "senti-me nova"; "descobri coisas em mim que não conhecia". Coisas que estão dentro de nós - e que outros nos fazem fazer ver. Como li um dia: "Para gostarmos de Shakespeare, temos de ter algo de Shakespeare em nós - que nos leva ao seu reconhecimento."

Há pessoas que parecem puxaro pior de nós - e nós devemos afastar-nos. Há pessoas que puxam o melhor... A própria Madre Teresa de Calcutá percebeu isto. Para termos disponibilidade para a felicidade dos outros, temos de a conquistar primeiro nós. Ninguém pode dar aquilo que não tem.

Angel-voando-acima-do-azul-do-céu-e-abaixo-do-azul-dos-oceanos :)
«Existem mais afectos do que nomes para os designar.»

Espinosa, Ética (Livro III)
«O amor é o conhecer que se conhece no outro.»

Hegel, Leçon de Iéna

quarta-feira, novembro 22, 2006

Outros Tempos

Simão os olhava através dos óculos grossos fundos, garrafais, escutando-lhes as certezas, definitivas, dissecantes do Mundo, dos sentires, dos valores.
O velho escriba há muito que deixara de ter assento na mesa de editores, onde só morava agora gente "moderna", daqueles que já nascem ensinados.

Algo de estranho se passou, certamente, no Mundo na última década.

Antigamente, na Universidade , aprendia-se a pensar, a começar a andar na longa estrada do conhecimento. E quando a algum começo de lugar se chegava, maiores eram as dúvidas e a noção da imensa ignorância do caminhante.

Agora, produziu-se o milagre dos pães do saber. Com a mesma farinha enformam-se milagres intelectuais, que já sprintam mal começaram a andar.

Simão os olha, por detrás do anonimato ocular, a perorarem horas a fio, sobre leituras cruzadas, de "leads" de jornais e de blogs da internet, sem mundos e sem Mundo, onde cada "pensador" da moda amassa hamburgers de pensamentos citáveis (no dia seguinte) na imprensa diária.

Que os políticos são corruptos, ou arrogantes. Don Quixotes ou diletantes, ou, simplesmente, gente sem outro emprego melhor já todos os sabíamos.

É , há séculos, milénios, a "ordem natural das coisas".

O que o não é é confiar-se a decisão dos conteúdos e forma da informação a veicular, esse precioso órgão formativo, a uma faixa cada vez mais imberbe, árbitro e juiz de uma viagem da qual, na sua esmagadora maioria, pouco mais conhece do que a casa da partida.

Simão participa, humilde, naquelas reuniões de editores, de egos transbordantes dos recostos cadeirais.

Vai anotando os serviços a marcar, as notícias a alinhar, os meios a afectar.

Conhece-lhes os gestos. Os tiques de novo-riquismo decisório. Já nada o surpreende à excepção, talvez, da ilusão prevalecente, em torno daquela mesa, da solidez do cargo, quando a precaridade do exercício da função o torna cada vez mais fugaz. O exercício, pelo mesmo titular.

Todos os anos saiem das Universidades centenas de licenciados em comunicação social sem qualquer horizonte de empregabilidade a menos que prossiga a actual voracidade, economicista, de substituir o saber pelo mais barato. O conhecimento na vida pelo que basta para encher.

Os Homens verticais e de princípios pelos omniconcordantes. Os solidários pelos que nem pestanejam perante o espezinhar do mais próximo.

E em tal cenário futurista, mais do que provável, imaginem quem terá a função mais alvejada e sem qualquer hipótese de sustentação, na actual tendência?

Se agora já não vigoram o saber e a experiência como crivo de escolha imagine-se daqui a uns anos.

Simão ajusta os óculos garrafais. O debate, hoje, é sobre a "nova" urgência dos temas ambientais. Dos efeitos desastrosos que o aquecimento global irá trazer a todas as apropriações económicas do Mundo pelo Homem.

Simão vai anotando os serviços a marcar, as notícias a alinhar, os meios a afectar.

Há vários anos que os vinha alertando para tal configuração óbvia e incontornável, só que, para quem mora ainda na casa da partida do conhecimento e depende de leituras cruzadas, de "leads" de jornais e de blogs da internet e de flashes radiofónicos, esse era bebé por incubar.

Simão toma notas, diz que sim com a cabeça, ainda que agitando-se, por dentro, em negação. Mas isso é ele, ainda, dinossauro em vias de extinção, bípede com memória. Do tempo em que quanto mais se sabia, mais se sabia que nada se sabe.

Agora, cada vez mais, o tempo é outro.


Augusto Mateus, Jornal de Negócios

terça-feira, novembro 21, 2006

Somewhere over the rainbow
Way up high
There's a land that I heard of
Once in a lullaby

Somewhere over the rainbow
Skies are blue
And the dreams that you dare to dream
Really do come true

Some day I'll wish upon a star
And wake up where the clouds are far behind me
Where troubles melt like lemondrops
Away above the chimney tops
That's where you'll find me

Somewhere over the rainbow
Bluebirds fly
Birds fly over the rainbow
Why then, oh why can't I?
Some day I'll wish upon a star
And wake up where the clouds are far behind me
Where troubles melt like lemondrops
Away above the chimney tops
That's where you'll find me

Somewhere over the rainbow
Bluebirds fly
Birds fly over the rainbow
Why then, oh why can't I?

If happy little bluebirds fly
Beyond the rainbow
Why, oh why can't I?

E.Y. Harburg

Das mais belas páginas de sempre da literatura:

Most of the big shore places were closed now and there were hardly any lights except the shadowy, moving glow of a ferryboat across the Sound. And as the moon rose higher the inessential houses began to melt away until gradually I became aware of the old island here that flowered once for Dutch sailors’ eyes—a fresh, green breast of the new world. Its vanished trees, the trees that had made way for Gatsby’s house, had once pandered in whispers to the last and greatest of all human dreams; for a transitory enchanted moment man must have held his breath in the presence of this continent, compelled into an aesthetic contemplation he neither understood nor desired, face to face for the last time in history with something commensurate to his capacity for wonder.

And as I sat there brooding on the old, unknown world, I thought of Gatsby’s wonder when he first picked out the green light at the end of Daisy’s dock. He had come a long way to this blue lawn, and his dream must have seemed so close that he could hardly fail to grasp it. He did not know that it was already behind him, somewhere back in that vast obscurity beyond the city, where the dark fields of the republic rolled on under the night.

Gatsby believed in the green light, the orgastic future that year by year recedes before us. It eluded us then, but that’s no matter—to-morrow we will run faster, stretch out our arms farther. . . . And one fine morning——

So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus,
muitos publicanos e pecadores
vieram sentar-se com Ele e os seus discípulos.
Vendo isto, os fariseus diziam aos discípulos:
«Por que motivo é que o vosso Mestre
come com os publicanos e os pecadores?»
Jesus ouviu-os e respondeu:
«Não são os que têm saúde que precisam do médico,
mas sim os doentes.
Ide aprender o que significa:
‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’.
Porque Eu não vim chamar os justos,
mas os pecadores».

Evangelho segundo São Mateus
O AMOR É... UM GAJO ESTRANHO

O amor é um gajo estranho
Não tem sonhos não tem coração
Vive tão longe e tão só
Preso à sua própria sedução!
O amor quando eu o conheci
Olhou para mim sorriu e disse:
"Eu sou apenas uma mentira
mas podes fazer de mim uma canção!"
O amor passa os dias frente ao espelho
Acredita num reencontro
Eu adormeço o rosto no seu peito nú
E sonho acordar noutro lugar
O amor nunca me mente
Quando me venho na sua boca
Abraça-me lentamente
E eu canto-lhe com a voz rouca!

João Peste-Pop Dell´Arte

domingo, novembro 19, 2006

Remembering
You standing quiet in the rain
As I ran to your heart to be near
And we kissed as the sky fell in
Holding you close
How I always held close in your fear
Remembering
You running soft through the night
You were bigger and brighter and wider than snow

The cure, Pictures of you

sexta-feira, novembro 17, 2006

Literatura

A mais marcante e bela descrição de um sorriso (a ler vezes sem conta):


"Era um desses raros sorrisos que têm o dom de restabelecer incessantemente a confiança nos outros, como só encontramos quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que por um instante enfrentava — ou parecia enfrentar — toda a eternidade e que depois se concentrava em nós com um irresistível preconceito a nosso favor. Que nos entendia só até ao ponto em que queríamos ser entendidos, que acreditava em nós como gostaríamos de acreditar em nós próprios e nos assegurava ter a nosso respeito precisamente a impressão que, nos nossos melhores momentos, esperávamos conseguir comunicar aos outros."


Francis Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby

Uma das mais bonitas canções de amor

I know I'll never really get inside of you
to make your eyes catch fire
the way they should


The cure, A letter to elise

quinta-feira, novembro 16, 2006

Não posso adiar o amor para outro século

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa
My ideal, however, is not the blurring of national characteristics, such as would lead to an intellectually uniform humanity. On the contrary, may diversity in all shapes and colours live long on this dear earth of ours. What a wonderful thing is the existence of many races, many peoples, many languages, and many varieties of attitude and outlook! If I feel hatred and irreconcilable enmity toward wars, conquests, and annexations, I do so for many reasons, but also because so many organically grown, highly individual, and richly differentiated achievements of human civilization have fallen victim to these dark powers.

Herman Hesse, discursando na aceitação do Nobel da Literatura
Os ombros suportam o mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, novembro 15, 2006

"A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.
(...) Sou capaz, a sós comigo, de idear quantos ditos de espírito, respostas rápidas ao que ninguém disse, fulgurações de uma sociabilidade inteligente com pessoa nenhuma; mas tudo isso se me some se estou perante um outrem físico, perco a inteligência, deixo de poder dizer, e, no fim de uns quartos de hora, sinto apenas sono. Sim, FALAR COM GENTE DÁ-ME VONTADE DE DORMIR. Só os meus amigos espectrais, e imaginados, só as minhas conversas decorrentes em sonhos, têm uma verdadeira realidade e um justo relevo, e neles o espírito é presente como uma imagem num espelho."

Livro do desassossego
Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...

Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro

segunda-feira, novembro 13, 2006

Poema dum funcionário cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

António Ramos Rosa

Conversas interceptadas

- Tens de ir ao Leste. Perdes-te lá com tanta gaja...
- Tiveste lá?
- Tive lá e comi uma gaja numa discoteca...
- E era boa?
- Oh pá, era uma gaja!

sábado, novembro 11, 2006

Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.


Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IX

Incongruências eclesiásticas

É curioso como se apregoa catolicamente o valor da vida para defender o aborto e a pena de morte só foi retirada das enciclícias papais há tão pouco por João Paulo II perto do final da sua vida.

sexta-feira, novembro 10, 2006

“Naquele tempo, o tempo então passava devagar”


Esse era o tempo em que as moscas nos falavam e vinham sentar-se ao nosso lado, trazendo sussurros quentes de histórias por revelar, numa confidência íntima de noites inteiras de luar

Esse era o tempo em que os pássaros cantavam imbuindo o espaço de uma melodia celestial, o céu, um imenso manto azul cobrindo-nos os rostos cansados antes de dormir

Esse era o tempo em que o trabalho era ainda ócio, divertimento, lazer, devolvendo aplausos cúmplices de regozijo e alegria

Nesse tempo, o tempo então passava devagar e a felicidade reinava contida e discreta por nós dentro.


Sara Bessa, Inédito

quinta-feira, novembro 09, 2006

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busquem riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.

Luís de Camões

quarta-feira, novembro 08, 2006

Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te.
Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro,
hei-de continuar a trazer-te no sangue.

R.M.Rilke

terça-feira, novembro 07, 2006

Do mestre Walt Whitman:

Quando soube ao fim do dia que o meu nome fora aplaudido no Capitólio, mesmo assim nessa noite não fui feliz,
E quando me embriaguei ou quando se realizaram os meus planos, nem assim fui feliz,
Porém, no dia em que me levantei cedo, de perfeita saúde, repousado, cantando e aspirando o ar fresco de outono,
Quando, a oeste, vi a lua cheia empalidecer e perder-se na luz da manhã,
Quando, só, errei pela praia nu e mergulhei no mar e, rindo ao sentir as águas frias, vi o sol subir,
E quando pensei que o meu querido amigo, meu amante, já vinha a caminho, então fui feliz,
Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia, e esse belo dia acabou bem,
E o dia seguinte chegou com a mesma alegria e depois, no outro, ao entardecer, veio o meu amigo,
E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas invadindo lentamente a praia,
Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem felicitar-me,
Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fresca,
Na quietude daquela lua de outono o seu rosto inclinava-se para mim,
E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito - nessa noite fui feliz.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Van Gogh fê-lo para exprimir a ideia de GRATIDÃO :)

Escreve-se um poema devido à suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formidável, algo que nos transformará, que transformará tudo. Como na infância, quando se fica à porta de um quarto obscuro e vazio. Ficamos durante um minuto, uma brisa levanta-se nos confins da obscuridade: um redemoinho no ar, uma luz, uma iluminação talvez? Estamos prontos para o assentimento. Outro minuto, cinco, dez, ali, diante do anúncio suspenso e ameaçador: não acontece nada. Poder-se-ia esperar um dia inteiro, dias seguidos. Às vezes pára-se no meio de um jardim ou de um parque ou de uma avenida deserta. São variantes do quarto. Acontece o mesmo, quero dizer: não acontece nada. A suspeita apenas de que nos aguarda uma espécie de graça reticente, um dom reticente. Ou contempla-se um rosto, alguém que se ama, um ser imediato; ou então um rosto desconhecido, defendido. Pensamos: é uma vida nova, uma força nova e profunda, é uma paisagem misteriosa, profunda e nova que se relaciona intimamente connosco: vai revelar-se. E a outra pessoa olha para nós perdida nas perspectivas inquietas da nossa contemplação. E recomeça-se. O mesmo, sempre."

Herberto Hélder in Inimigo Rumor nº11, transcrito de www.fatalbecosemsaida.blogspot.com

quinta-feira, novembro 02, 2006

É urgente?

Há uma velha expressão na língua portuguesa que diz: cada pedra uma minhoca. Apesar das óbvias qualidades de inteligência e conhecimento, o ministro de Saúde, Correia de Campos, tem vindo a tomar um certo número de medidas extremamente discustíveis, e que se sucedem a um ritmo inquietante. A última é a do mapa do serviço de urgências.

Há uma coisa que devemos sublinhar desde já. Uma das distinções essenciais da esquerda e da direita é que a esquerda deverá ter em conta as consequências das medidas tomadas para as pessoas de hoje, o modo como elas são afectadas no seu quotidiano. Os perigos de um capitalismo sem instâncias de moderação estão aqui. É por isso que algumas das medidas propostas pelo chamado Compromisso Portugal (que, aliás, nada têm de original) são de uma enorme insensibilidade. Como é fácil dizer, do alto do jogo das cadeiras de empresários e gestores, que se devem pôr 200 mil funcioários públicos na rua! Como é fácil esquecer que muitos deles nunca tiveram outro meio de subsistência e que já não têm idade para arranjar outro emprego! o conjunto de sugestões do Compromisso Portugal corresponde ao ideário mais despido da direita. Rui Ramos, num texto que não foi escrito em dia inspirado, pretende que o que escandalizou foi a forma: "O simples facto de haver um grupo de cidadãos que, sem reclamar uam identidade corporativa, se atreve a discutir sobre a forma como a sociedade portuguesa está organizada e é governada." Confesso que alguns deles merecem-me a maior simpatia (a começar por Carrapatoso). Mas também devo dizer que, na minha actividade de conselheiro cultural em França, falei com muitos dos nossos empresários e tive a oportunidade de ver como eram ignorantes, mal informados, sem a mínima formação cultural.
Para além da gestão que faziam, interessavam-se por carros de corrida, por futebol. e teriam lido, nos casos mais virtuosos, um ou dois livros por ano (e que livros, senhores!).

As posições de esquerda implicam a atenção ao modo como os outros estão a viver - a questão da snsibilidade social. É aí que um projecto de urgências em que muitas pessoas ficam a uma hora do acolhimento só pode ser algo que esquece o que é verdadeiramente uma urgência. Uma urgência é um momento de aflição. A sensibilidade social implica que se tome em conta essa aflição. Já há alguns anos, estava eu em casa dos meus pais, a Teresa, minha mulher na altura, telefonou-me aflita. "Anda depressa, está a acontecer uma coisa muito estranha." Fui a correr e verifiquei que ela movia permanentemente o pescoço como se não controlasse a cabeça. Só ver incomodava e cansava. O Alexandre Melo, sempre pragmático, recomendava, com algum humor, que ela movesse também o corpo ao ritmo da cabeça. Felizmente o Centro de Saúde era quase ao lado e lá fomos. Verificaram que, não havendo nenhum ataque de histeria, se tratava de uma síndorma extrapiramidal por excesso de medicamentos. E o assunto foi tratadocom uma injecção. Imagina-se o que seria de cansaço e esgotamento com uma hora ou hora e meia até chegar a um serviço de urgência?
E como imaginar que, na hora pior e mais angustiante de todas as horas de um dia, a hora do lobo, por falta de profissionais, alguns centros de saúde fecham durante a noite, eliminando-se os serviços de atendimento permanente? Uma urgência não é uma situação abstracta: é a tentativa de nos salvarmos ou salvarmos alguém. É uma corrida contra o tempo. Um governo socialista tem de ter estes factores em conta.

Eduardo Prado Coelho, O fio do horizonte

segunda-feira, outubro 30, 2006

"(...) em França, falei com muitos dos nossos empresários e tive a oportunidade de ver como eram ignorantes, mal formados, sem a mínima formação cultural. Para além da gestão que faziam, interessavam-se por carros de corrida, por futebol, e teriam lido, nos casos mais virtuosos, um ou dois livros por ano (e que livros, senhores!)".

Eduardo Prado Coelho, O fio do horizonte

domingo, outubro 29, 2006

"As gerações do telemóvel e da Internet anónima crescem sem qualquer respeito pela privacidade e intimidade, como se vivessem num reality show. São eles que não perceberam que, ao aceitar um telemóvel com GPS ou com vídeo, aceitam ser controlados com eficácia. Não querem saber, cresceram assim, ninguém os educou para a reserva de si próprios. Serão excelentes clientes para os psiquiatras, quando tiverem dinheiro para os pagar."

Pacheco Pereira in Público

sexta-feira, outubro 27, 2006

Geração Rasca

Na altura em que o Vicente Jorge Silva escreveu o artigo onde questionou se se estaria a assistir ao nascimento de uma geração rasca; houve consenso em repudiar a expressão e em substitui-la por «geração à rasca» dadas as suas dificuldades de inserção no mercado de trabalho, a crise económica, o excesso de canudos...

Recordo-me como se fosse hoje de um professor de Inglês que tinha a particularidade de não ter televisão em casa afirmar que concordava com a expressão.

A geração que hoje tem 16 e 17 anos é assustadoramente mais rasca que a geração que recebeu o epíteto. É díficil de encontrar um hiato tão grande, uma involução tão vertiginosa inter-geracional como da geração actual.

A tecnologia desempenhou um grande papel pernicioso. É normal uma criança com 7 anos ter um telemóvel. Depressa usa também a net, o mail, o msn, o hi5. A linguagem das ovas gerações é outra. Sempre que leio uma sms ou um perfil do hi5 de alguém sub-20, arrepio-me. Nem consigo perceber o que lá está por tantos k´s e x´s. A língua sofreu tantas mutações, tanta economia de letras, transformou-se apenas no som que se ouve.

A profundidade não parecer passar pelos teens de hoje. As novelas não levantam dilemas morais ou questões globais, os livros e os jornais (e os poucos que lêem, lêem revistinhas, Dan Brown e Rebelo Pinto) ficaram arcaicos perante as playstations, as grandes mocas nos festivais.

As pitinhas pavoneiam-se, cada vez mais fúteis, mais ignorantes e mais cabras. Trabalha-se muito agora os abdominais e pouco o cérebro (o espírito então já é quase letra morta...). Dizia-me outro dia um amigo ancião que elas são mais miméticas que nunca: pedindo-me que atentasse no bambolear das ancas com as mãos de lado.

Constatava-me outro dia uma psicóloga que nunca houve tanta criança hiperactiva. Pudera: hoje proliferam estímulos atrás de estímulos num frenesim que a indústria consumista não deixa desacelerar.

Zapping atrás de zapping, experiência descartável atrás de experiência descartável, 8 segundos disto, 6 daquilo, 3 daqueloutro e cada vez o estímulo tem de ser mais intenso, cada vez tem de fazer pensar (pensar é bueda secante) menos e cada vez tem de vir mais rápido o outro...

Anjo-procurando-conservar-a-sardinha-e-não-a-lata

quarta-feira, outubro 25, 2006

Pérolas

«O que antigamente era vergonhoso, se considerava uma aberração, um erro da natureza, hoje o homossexual dar a cara é ´coisa linda, só falta os órgãos de comunicação social considerarem a homossexualidade um milagre da natureza. Meu Deus do céu! Eles até já querer adoptar crianças (...) O que é mais chocante é que temos políticos que defendem isso com um direito dos maricas, quer dizer, só conta o instinto animal deles, não conta o que as crianças iam sentir».

A minha vida fazia um filme, Hermínia Ribeiro Nobre, 2003

terça-feira, outubro 24, 2006

Das poucas coisas que aproveito do Maria Antonieta

"i think it's dark and it looks like rain" you said
"and the wind is blowing like it's the end of the
world" you said "and it's so cold it's like the
cold if you were dead" and then you smiled for
a second.
"i think i'm old and i'm feeling pain" you said
"and it's all running out like it's the end of the
world" you said "and it's so cold it's like the
cold if you were dead" and then you smiled for
a second

sometimes you make me feel like i'm living at
the edge of the world like i'm living at the edge
of the world "it's just the way i smile" you said


Robert Smith, Plainsong

Que as vozes lúcidas nos chamem sempre à razão:

"Somos máquinas. Estamos tão concentrados em ser máquinas que já perdemos a capacidade de saborear..."

Sara Bessa na noite do lançamento do seu livro Viagem ao centro de mim

segunda-feira, outubro 23, 2006

A vida tem odor a mar e a menta entre os seios.

Pablo Neruda
Aquela triste e leda madrugada


Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se dúa outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio
E dar descanso às almas condenadas.

Luís de Camões

domingo, outubro 22, 2006

Sometimes i'm dreaming
Where all the other people dance

Come to me
Scared princess

The cure, Charlotte sometimes
Tê-la visto
Tê-la visto aproximar-se
Com tanta beleza é
Alegria para sempre no meu coração.
Nem o tempo eterno pode retirar-me
Aquilo que ela me trouxe.


Poemas de Amor do Antigo Egipto

sexta-feira, outubro 20, 2006

Cristo percebia de mulheres

Ultimamente tenho constatado um fenómeno em todos os homens extrovertidos que gostam de mulheres - tentar impressionar.

Visto de fora, é tão fácil percebê-lo que absorvo sempre a vergonha que alguém não sente...

Ainda na semana passada, da primeira vez que um tipo era apresentado a umas amigas na minha mesa, largou:

"Eu tenho muitos homens sob a minha alçada. Comando uma obra muito importante."

Não precisa de ser sequer tão explícito para se perceber - estás a tentar impressionar.

Imagino que para uma mulher ainda seja mais fácil topar os "quero-te impressionar" - acredito que sejam mais perspicazes e intuitivas.

É muito melhor deixarmos aquilo com que as queremos impressionar fluir naturalmente ou a partir de uma pergunta dela ou das atitudes (o mais importante). O valor do auto-elogio é nulo - e cola-nos apenas o rótulo de convencidos ou inseguros/imaturos. O problema aqui é que tudo o que seja feito ostensivamente denuncia-nos...

Jesus Cristo disse que se nos convidassem para um banquete, deveríamos ocupar o último lugar. Se ocupassemos o primeiro lugar, poderiamos correr de alguém mais importante aparecer e de o anfitrião descer para outro lugar; o que seria uma vergonha aos olhos das pessoas no banquete. O contrário disto seria uma honra aos olhos das pessoas no banquete.

Daí a sentença de Cristo que cito de cor: «Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».

quinta-feira, outubro 19, 2006

Preconceitos bonitos

Um dos fenómenos psicológicos mais recorrentes, que constitui material de ficcção recorrentemente usado na Literatura e na Sétima Arte, é o amor por alguém que nos faz lembrar alguém...

É incrível como um preconceito (um dia almejo que esta palavra se escreva pré-conceito) pode ser revestido de algo bonito.

A ideia de que tod@s as pessoas que gostámos e não gostámos são codificadas mentalmente e que um gesto, uma roupa, uma frase, um traço de rasto, podem constitui preconceitos inconscientes, muitas vezes, é algo negativo.

Quando vemos alguém sentimos muitas vezes que não gostamos ou gostamos - e não sabemos porquê. A maior parte das vezes associamos as pessoas a alguém - o nosso cérebro não admite que novas pesssoas ou novas ideias caiam no espaço vazio e então as categorias velhas sugam-nos para as suas teias de aranha.

Um espírito romântico persegue sempre uma só pessoa e por isso tenta sempre ir buscá-la. Se a pessoa não quer, então o espírito flamejante encontrará alguém que se assemelhe ao máximo... Basta estar atento, atento aos mais infímos pormenores, para ver que há tanta gente atrás de uma pessoa que ficou lá atrás...

É - Freud dix it - o prazer da repetição...

Angel-afastar-ou-aproximar-nos-das-pessoas-associando-as-a-características-de-outras-é-um-preconceito-e-os-preconceitos-não-podem-ser-bonitos

Andando de autocarro é que se descobre o povão.

Esta semana, a certa altura constatei que o motorista tinha desaparecido. Olhei para os rostos e identifiquei-me na sua incredulidade.

Longos, longuíssimos minutos de espera.

O autacarro parecia vazio.

Pela janela, vejo o motorista a correr em direcção ao autocarro.

- Olhem, aí vem ele! Deve ser maluquinho, concerteza! - alguém exclamou no típico hábito do português que engole-tudo-do-patrão-e-depois-explode-em-todo-o-lado-a-sua-indignação.

Ofegante, ganhando ar, o motorista pediu desculpas e sorrindo simpaticamente musicou:

- Fui levar dois invisuais que estavam neste autocarro à paragem mais próxima.

As pessoas entusiasmaram-se.

- Ai meu senhor, fez muito bem!

- Não tenho pressa nenhuma...

- Já não se vê solidariedade assim.

Alguém bateu palmas. Emocionad@s, tod@s batemos.

Anjo-às-vezes-a-realidade-é-tão-bonita

terça-feira, outubro 17, 2006

O PODER DO HÁBITO

Outro dia lia uma descoberta recente da neurologia, correspondente a uma já bem sabida máxima do senso comum: o ser humano tem constantes níveis de adequação a todas as coisas.

A maior tragédia ou a maior felicidade, geram, passado poucos meses um sentimento de normalização da felicidade. 6 meses depois de concretizarmos o objectivo da nossa vida ou de nos morrer um ente querido, já entranhámos a excepcionalidade do facto como algo inelutável e natural.

Incorporamos todos os hábitos até gerarmos sentimentos neutros consentâneos com eles.

Dei por mim a pensar na questão aplicada a outras áreas... «Claro, isto é o que acontece quando interagimos».

Explico-me.

A maior parte das pessoas dá-se com as outr@s em relações alicerçadas em expectativas. É engraçado (e injusto) que a maior parte das pessoas o faça.

Conheço uma pessoa que 90% das vezes que queria falar com alguém só dava um toque na esperança que o outro ligasse. As pessoas incorporaram esse gesto e um dia um amigo dele disse-me muito feliz:

- Eh pa, o David foi impecável comigo. Ligou-me ontem, do telemóvel dele, para saber se eu queria sair com namorada e amigas...

Ele estava verdadeiramente satisfeito e agradecido. Incrível a expectativa que ele tinha conseguido criar: quando é do teu interesse que eu te ligue, eu dou-te um toque e ligas de volta.

Neste caso, como era do interesse dele e como o forreta lhe tinha ligado, meu Deus!!!! Que generosidade...

Outro dia ouvi uma estória que pode parecer menor, mas não o é, e a pessoa que a relatou estava muito sensibilizada e eu assim o fiquei também.

- Lá em casa, as tarefas estão bem divididas. Cada um faz uma coisa. A minha irmã compra o pão. Um dia em que ela vinha tarde do trabalho, eu voluntariei-me e passei a comprar o pão. No dia a seguir, ela ligou-me e perguntou se eu podia ir comprar o pão (pormenor insidioso). No dia a seguir, novamente fui comprar o pão - desta vez a pedido da minha mãe. No quarto dia, não fui comprar o pão e todos me caíram em cima.


Incrível, absolutamente incrível, como algo generoso nos pode se devolvido de uma forma que nos prejudique.

Receita para solidariedade: a ser aplicada excepcionalmente nas relações. Se ministrada em doses excessivas, gerará uma expectativa que nos obrigará a que ela seja sistemática. A seguir, provocará um paladar banal, e no dia em que ela não constar, SER-NOS-Á COBRADA A FALTA e nós lamentaremos para sempre o dia em que a abraçámos.

Anjo-vertendo-amargura-em-cada-linha-como-efeito-catártico
"Nunca se deve discutir. Todas as discussões são absolutamente inúteis"

Dale Carnegie

segunda-feira, outubro 16, 2006

"Ler é o maior exercicio de caminhar
para poder alcançar a liberdade"

Pedro Gonçalves

domingo, outubro 15, 2006

Howard Stern

Se me perguntassem qual o maior símbolo da podridão americana, a maior metáfora negra - não apenas da sua admnistração política mas do seu povo - eu responderia o programa Howard Stern e o seu sucesso.

Neste programa, onde basicamante Howard Stern entrevista pessoas e rigorosamente nada mais se passa, os entrevistados vão descendo às profundezas do mais profundo opróbrio.

Mulheres gordas humilhadas pela gordura até chorarem, sem-abrigos levados até às lágrimas por serem «um fracasso», mulheres reduzidas à mera condição do programa: objectos sexuais.

As pessoas são tratadas como merda e expostas como merda com o riso sádico de Howard Stern, mas quando ele pede para as mulheres tirarem a roupa, o pûbis, o rabo e as mamas são censurados.

Os americanos podem assistir com gáúdido num horário em que toda a família vibra febrilmente a humilhação, o racismo da cor, do genéro, do status, até do peso; mas quando se trata da beleza natural de um corpo, aí emerge o puritanismo mais bacoco - a hipocrisia americana ou a inversão de valores?

Um nojo execrável.

Anjo-indignação-pode-ser-sinal-de-lucidez

A vigorexia não é alimentada por elas

Nos E.U.A., para se tirar as teimas de se as mulheres gostavam de corpos musculosos inchados ou não, puseram dois corpos à mostra e pediram que escolhesse. Um, o do magro, Di Caprio. O outro, do inchado Van Damme.

A escolha do corpo recaiu no primeiro.

O mesmo estudo com os homens... os homens preferem o segundo.

Daí o desfasamento entre o corpo que eles tanto trabalham para ter, nem sequer ser um corpo que elas gostam.

Anjo-redistribuindo-as-cartas-viciadas

sexta-feira, outubro 13, 2006

Polémica

Bom dia!, boa tarde!, boa noite!, leitor:

A propósito dos comentários da Staring Girl e do Arauto ao texto Toda a regra tem excepção (até esta?), vou explanar o que penso, correndo o risco de explanar a minha identidade ;)

1) Não constam do meu léxico expressões como "tod@s os x são y". Nunca as profiro e quando as ouço acho que são inanes na sua aderência ao real - lembro-me vagamento a conclusão dos silogismos aristotélicos; e não lhe dou mais importância que uma mera abstracção conceptual.
Usei, por isso, o advérbio de modo tendencialmente e não «generalizadamente». Um cientista o que faz é isso mesmo - extrair tendências. Em matemática é que 1+3 é sempre sempre sempre 4. Abomino generalizações. Mas não me remeto ao politicamente asséptico, sempre neutrinho, morninho («sede quentes ou sede frios porque eu vomitarei os mornos»), de nada dizer para não ferir susceptibilidades. Digo, no fundo, como as pessoas que me lêem ou me conhecem bem sabem, digo, o que os outros pensam em voz baixa. Ainda outro dia lia que um homem, mais do que os amigos, media-se essencialmente pelo número de inimigos...
Sinto que sou cada vez mais cru.

Qual de vós não tem arreigadas as seguintes tendências pré-concebidas:

a) um halterofilista é tendencialmente inculto.

b) uma rapariga com unhas dos pés pintadas de dourado, tatuagens e que vá ao café da ponte é bimba.

2) Convem destrinçar entre variáveis fixas (orientação sexual, raça) e variáveis opcionais(roupa).

Um racismo com base na roupa continua a ser anti-individualidade, sem dúvida, mas um racismo com base no facto de ser mulher, negro ou gay é mais violento porque nos diz - tens esse anátema e vais te-lo até morrer. A culpa de algo que nunca poderemos mudar é incomparavelmente mais severa.

3) Mas claro que todos podemos vestir o que quisermos. Claro que sim. E todos podemos constatar padrões. E aqui falamos a partir da nossa experiência. E porquÊ? Porque não há estudos empíricos. E porque não os há? Naturalmente pela dificuldade em mensurar categorias indefeníveis.

Como seria possível averiguar se quem usa camisa aos quadrados, óculos e tem pele branca é tendencialmente mais tótó? Como se mensura o grau de totozice? Que cientificidade a aplicar? Nenhuma.


Então, devemos ficar tod@s caladinho, evitando expressar comentários? Penso mesmo que não. Tod@s caladinhos são os cemitérios. Eu gosto de pulsar de vida.

Todos nós guardamos o património de tudo o que lemos, vimos, conhecemos. E quanto mais ficheiros temos (e assumo, sem arrogância mas com conviccção, que conheci uma vastíssima fauna e flora humana), mais necessidade temos em os organizar...

quinta-feira, outubro 12, 2006

"ó olhos negros como noites"

António Nobre (alguém me disse isto um dia, mas quem?)

Stricto economicus

"Se todos os aspectos da vida fossem determinados pela eficiência económica ninguém desperdiçaria um tostão a pagar jantares e passeios. Num mundo de mera eficiência económica veríamos que existem espaços urbanos nobilíssimos, ocupados com trastes velhos como palácios e catedrais, muito mais bem aproveitados se se fizessem centros comerciais. Percebo que as criaturas (os apologistas da eficiência económico) se sentissem mais em casa sem antiguidades e no meio da prostituição. Seria um mundo que lhes teria mais forte ar de família."

Alexandre Brandão da Veiga in Jornal de Negócios

quarta-feira, outubro 11, 2006

Cada vez mais verdadeiro:

"A maior parte da humanidade ainda dorme um sono profuno"

Novalis, Fragmentos

Na hora de pôr a mesa

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viuva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luís Peixoto, A criança em ruínas

terça-feira, outubro 10, 2006

Toda a regra tem excepção (até esta?)

O hábito não faz o monge, é verdade. Mas tendencialmente as pessoas que usam camisas aos quadrados, têm óculos e nunca usaram uma long sleeve são menos interessantes.

Anjo-sendo-sincero
"Para ti tem de existir uma palavra perfeita."

Gerrit Achtberg, Uma migalha na Saia do Universo

O fim da privacidade

Outro dia disseram-me, uma pessoa que conhece outra que tem ginásio, que nesse ginásio todos os balneários têm câmaras.

Um amigo meu mostrava-me outro dia no seu restaurante sítios inimagináveis escondidos até em vasos...

Há ainda menos privacidade do que supomos. Facilmente, um voyeur guarda imagens de sexo interceptadas num contexto moral nobre de diminuição dos roubos...

As razões são sempre nobres - proteger dos bandidos, o terrorismo, blá blá blá - e assim progressivamente todos temos cada vez menos privacidade.

Hoje a maior parte das nossas actividades é filmada - no banco, no restaurante, na rua, - e já todos tomámos como garantido este Big Brother (1984, um dos livros do século XX).

Há 10 anos atrás as coisas eram muito diferentes. E não nos sentiamos menos seguros.

domingo, outubro 08, 2006

"O vinho e todas as outras bebidas alcoólicas são impuras, mas o ópio e o haxixe não."

Khomeini

fim

quando voltaste, os teus olhos e as tuas mãos eram
chamas a falarem para mim.
eu estava na cama onde nasci vezes de mais.

peço-te, nunca esquecas o meu olhar de quando
voltaste.

era de noite. eu não esperava mais nada.

e tu voltaste. tão bonita.

és tão bonita. no mundo, deve haver um jardim tão
bonito como tu.

voltaste.

eu sorri tanto. fui feliz e, nesse momento, morri.

José Luís Peixoto

Pormenores assassinos

Há duas teorias para escolhermos as pessoas com quem nos damos. Uma é pela positiva: damo-nos com as pessoas por afinidades em comum. A outra negativa: damo-nos com as pessoas que não entram em choque com determinados factores que consideramos automaticamente exclusivos nas pessoas.

Eu cada vez mais me inclino para o segundo.

Há valores, convicções, como o racismo, a defesa da pena de morte, o materialismo que fazem banir as pessoas da minha vida.

Uma conversa há pouco tempo risco uma rapariga da minha vida.

- Envolvi com o X e custou-me imenso porque ele era meu colega de trabalho, meu chefe, mas meu colega... E eu sempre disse a mim mesma que nunca me envolveria com alguém do trabalho.
- E se ele fosse teu superior envolvias-te?
- Claro que não... Então se eu já tive tantos problemas em me envolver com o X?

sábado, outubro 07, 2006

Segredos femininos

A condição de «amigo» das mulheres permite a um homem observador e com boa memória ter mais conhecimento sobre a natureza feminina.

Muitas vezes, as razões que as mulheres invocam para os namorados escondem a razão última - e como as mulheres não aguentam retê-la só para si, contam-na aos amig@s.

Nos vastos ficheiros da minha biblioteca, encontrei outro dia um padrão. A curiosidade feminina. Ou, para ir ainda mais longe, a paixão pelos defeitos.

- Ele era uma pessoa muito desprendida, estava-se a cagar para tudo, e eu queira ver se o conseguia agarrar;

- Ele só falava nas minhas mamas e eu pensei «Deixa-me conhecê-lo melhor porque ninguém pode ser assim tão fútil»;

- Ele era muito má pessoa e eu achei que o podia levar pelo bom caminho.

- O Pedro não tem charme nenhum. É horrível e está sempre calado. Ele tão monocórdico e tão igual em todas as suas reacções. Dei-lhe um beijo para ver como reagia.

Anjo-delineando-a-silhueta-da-alma-de-mais-esbelto-detalhe

sexta-feira, outubro 06, 2006

"A civilização é uma ilimitada multiplicação de necessidades desnecessárias."

Mark Twain
"O subúrbio é o prolongamento do mundo rural, mesmo que ao pé da cidade."

Pedro Gonçalves a falar da sua comunidade.

In jornal Record

Otto Baric, seleccionador da Albânia, foi multado pela UEFA, no valor de 5.000 euros, por ter feitos comentários homofóbicos.

"Não permitiria que algum jogador meu fosse homossexual nem que trabalhasse comigo. Não podia fiar-me num homossexual porque são débeis e doentes", disse num entrevista ao jornal Jutarnji list.

A UEFA frisou que não pactua com a homofobia. Só não se sabe quem apresentou a queixa contra Baric, embora se acredite tratar-se de uma associação croata que luta pelos direitos dos homossexuais.

Data: Quinta-feira, 5 Outubro de 2006 - 13:45


Para os que têm memória curta, esta notícia era impensável há uma década. Ainda em 1973, a Associação de Psiquiatria elencava a homossexualidade na categoria das «doenças mentais».
Como coloquei uma vez neste blog: «Não distingo a homofobia do racismo» e é para este horizonte que a civilização e as suas regras se direccionam.

O último dia do Verão

Quando vejo alguém focado em alguém, e essas duas pessoas saem à noite, observo que quem está focado não consegue usufruir das pessoas, da noite...
Uma vez li que os amores de Verão matam o Verão, porque retiram-nos a capacidade de desfrutar do Verão...

quinta-feira, outubro 05, 2006

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill

quarta-feira, outubro 04, 2006

«Aquilo de que as pessoas se envergonham, normalmente dá uma boa estória.»

Francis Scott Fitzgerald, O último magnate
fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto

SEXO É MAU

Darei neste texto a minha resposta à pergunta: Como seria um mundo sem sexo: melhor ou pior?

Compartimentando a questão reprodutiva, vamos então analisar...

1) Um mundo sem sexo tinha um prazer subtraído. Sem dúvida. Dir-me-ão que é dos melhores prazeres, talvez o melhor. Os meus amigos que experimentaram drogas duras garantem-me que elas são bem melhores que sexo. Mas para a maioria das pessoas - de facto, a maior parte não chega a consumir drogas duras - o sexo é o melhor dos prazeres. Então o melhor prazer no mundo sem sexo seria outro. E nunca ninguém sentiria a falta de um melhor - porque não o conhecera.

2) Um mundo sem sexo era muito mais meritocrático. Quem sabe o que são companhias áereas, agências de modelo, sabe tão bem do que falo que nem preciso de adiantar uma linha. Um mundo sem sexo seria um mundo onde a mobilidade social tinha mais a ver com o mérito.

3) Um mundo sem sexo valorizaria menos a forma. E como tudo é antinómico, a alma seria mais valorizada. A futilidade de cuidar horas e horas do corpo com um templo seria menos importante. Porque a beleza perderia o fogo do desejo e seria como um quadro - belo apenas para ser contemplado.

4) Um mundo sem sexo faria as pessoas aproximarem-se mais pelo cheiro da essência. As pessoas estariam muito mais distantes do seu lado animal, e procurariam afinidades de almas.

5) A efemerização das relações seria menor e apenas derivada de ilusões. Ninguém usaria uma pessoa só para uma experiência fugaz e encerrada em sim mesmo.

6) Não haveria violadores, pedófilos, sodomitas prisionais. Logo não haveria uma grande parte dos traumas hodiernos - os traumas sexuais.

7) A relação entre homens e mulheres seria muito mais sincera. Porque, no fundo, já não havia o factor sexo; havia pessoas - a condição mais elevada que o ser humano poderá altear.

Anjo-elencando-sem-medo

terça-feira, outubro 03, 2006

"Os pensamentos que escolhemos pensar são como as ferramentas que utilizamos para pintar a tela das nossas vidas"

Louise L. Hay numa sms da Xila

segunda-feira, outubro 02, 2006

Virou moda "ser uma pessoa muito à frente". Hoje, o look descontraído, cool, fashion, meio freak é encarado com vulgaridade. Seria realmente um mundo melhor se os muito à frente fossem um bocadinho à frente.
Farto-me de conhecer pessoas com piercings e de um conservadorismo atroz. Falava com uma miúda que interiorizou a estória do open-mind e da ausência de preconceitos que tant@s assimilam acriticamente sem substrato...
"Eu sou uma mente aberta" - dizia-me uma rapariga de 25 anos.
Três minutos depois:
- Onde sais à noite, angel?
- Vou ao lux e ao incógnito...
- Ao lux? Isso é só paneleiros...

Anjo-expor-a-realidade-às-vezes-é-mais-contundente-do-que-criticá-la...
«Um arrazoado de argumentos nada pode contra a intuição feminina...»

Detective Nero Wolfe

domingo, outubro 01, 2006

"As mulheres acreditam sempre que podem mudar um homem."

Angel-ouvindo-e-reproduzindo-o-que-dizem-as-suas-amigas

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Vinícius de Moraes

sábado, setembro 30, 2006

"Gosto de ti quando calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, e minha voz não te toca.
Parece que teus olhos saltaram
e parece que um beijo fechara a tua boca.
Como todas as coisas estão cheias de minh'alma
emerges das coisas cheia de alma, a minha.
Borboleta de sonho, tu pareces com minh'alma,
como pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estas como distante.
E estas como a queixar-te, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e minha voz não te alcança:
permite que eu me cale com teu silêncio agudo.
Permite que eu te fale tambem com o teu silêncio
claro como uma lampada e simples como um elo.
Tu és como a noite, calada e constelada.
Teu silencio é de estrela, afastado e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se estivesses morta.
Uma palavra, então, um sorriso são o bastante.
E fico alegre, alegre porque a verdade é outra."

Pablo Neruda
"Deitar cedo e cedo erguer
dá saúde, faz crescer e conduz à monotonia"

José Alberto Braga, Pensamentos & Reflexões

sexta-feira, setembro 29, 2006

Para reflectir

"O voto de castidade do impotente não tem qualquer valor."

Maktub

quinta-feira, setembro 28, 2006

Linguagem para tod@s

A língua é muito mais importante do que a importância que lhe dão. Ainda outro dia li que um sentimento que existe no léxico tibetano não existe no português. A ideia de sentirmos vergonha perante o que outra pessoa está a fazer. Isto é reconhecido - reconhecido como humano - e não há vocábulo na nossa língua para o designar.

É evidente que uma sociedade machista tenha de produzir e perpetuar uma língua machizante...

«O homem ao longos dos tempos...» - a História aplica o conceito Homem para designar tanto homem como mulher. Quando um determinado grupo é abrangente, usamos o todos, o referente a masculino.

Sempre propus o uso indefinido de um meio-termo por criar e entretanto já descobri um em panfletos de partidos de esquerda: @

somos tod@s iguais mesmo?

Anjo-rodopiando-até-estontear-os-outros

quarta-feira, setembro 27, 2006

SEXO

(A pedido de leitores que acharam um parágrafo confuso, passo a explicar-me...)

Hoje em dia, como dizia o Rodger Dodger (que grande grande filme) ao passear nas ruas de nova-iorque:

SEX IS EVERVYWHERE.

Nunca como hoje o sexo teve um papel tão preponderante. Nunca houve tanto estímulos sexuais no ar - em muppies, em fios dentais que ameaçam tornam a cueca tão obsoleta como o VHS face ao DVD, em práticas cada vez menos remetidas ao gueto de swing, práticas grupais, consulta de sites de sexo na net.

A palavra mais procurada no google é sexo - e achar que isto nada nos diz sobre a sociedade hodierna é fazer como a avestruz...

O problema é que somos constatemente bombardeados a desejar sexo... e contudo as mentes femininas não estão assim tão receptivas a essa liberdade sexual.

Dir-se-á que tarados houve sempre, mas nunca vi como agora vejo tanta sofreguidão sexual masculina por satisfazer... Imensos amigos meus falam em "precisar de foder" como se de ar ou alimento se tratasse. Assusta-me.

Penso que há um desequílibrio entre os estímulos que a sociedade nos induz e a abertura de mentes neste aspecto.

Pergunto-me se não poderá haver comprimidos que ajudem a diminuir intensidade sexual. Faria muita gente feliz. E não só os pedófilos e estrupradores.

Anjo-mas-ela-move-se

segunda-feira, setembro 25, 2006

Miguel Vale de Almeida, antropólogo, e um dos poucos homossexuais assumidos resume a questão:

"Quero viver num mundo em que se deixe de pensar a diferença."

(clap, clap, clap, clap)

domingo, setembro 24, 2006

SEXO

Há duas coisas que nunca foram tão marcantes na História da Humanidade como hoje: o culto do sexo e o culto do corpo.

Somos bombardeados como nunca para valorizarmos a forma como algo importantíssimo e somos bombardeados como nunca a desejar... SEXO.

As mentes recebem estímulos sexuais como nunca até hoje receberam... e depois não lhes conseguem dar vazão porque as mentes ainda não estão suficientemente abertas ou emporcalhadas (é como se quiser) para ter sexo desenfreado. Especialmente as mentes femininas.

Claro que o móbil disto é económico. Criam-se os desejos e a indústria do sexo aumenta. Se foi possível criar o Viagra, não era possível criar comprimidos para atenuar o desejo sexual?

Quando leio os criminosos sexuais, violadores, sodomitas, pedófilos e outros pedirem para ser castrados, pergunto-me se não haverá um meio termo que lhes permitisse atenuar o seu desejo que os torna vítimas deles próprios.


Imagina leitor o seguinte: um mundo sem sexo. Compartimentando a questão da reprodução, seria esse mundo melhor ou pior? Procurarei responder a esta questão no próximo angel.

(continua)

sábado, setembro 23, 2006

(de uma beleza pungente)

«O desenvolvimento das intimidades é assim. Primeiro, damos a nossa melhor imagem, o produto polido e acabado, corrigido com simulação, falsidade e temperamento. Depois exigem mais detalhes e pintamos um segundo quadro, e um terceiro - passado pouco tempo as linhas melhores desapareceram - e por fim, o segredo é revelado; os planos dos quadros interligaram-se e denunciaram-nos, e embora pintemos sem parar já não conseguimos vender um único quadro. Devemos contentar-nos em esperar que os relatos fátuos que fazemos de nós próprios à mulher e aos filhos e aos sócios de negócios sejam aceites como verdadeiros.»



Belos e Malditos, Francis Scott Fitzgerald

sexta-feira, setembro 22, 2006

Conversa - Quid juris?

Foi ontem. Falou-se de traições e eu disse que o Paulo andando com a Rita há 14 anos nunca a traíra - e destaquei isso como louvável. Mas ela ouviu e disse que isso devia ser normal - e portanto não mereceria o meu destaque.

Eu disse que não era normal - porque normal significa o estatísticamente mais observável. E - acrescentei - «normal, infelizmente é a traição». Ela disse que se eu pensava assim é porque não concebia namorar muito tempo sem trair. Eu disse que estava a falar do que observava como espectador e que não estava a veicular a minha opinião. Acrescentei que para mim era triste que a traição fosse o mais normal. Ela acha que não é o mais normal.

A minha conversa reportava-se a analisar, a descrever o real, sem lhe introduzir o meu ideal. Ela acha que isso não é possível. Será que distorcemos sempre os factos para que estes se moldem às nossas teorias? Eu penso que não.

segunda-feira, setembro 18, 2006

The perfect people

Há pessoas que projectam para o exterior uma imagem de perfeição. Parece que estão distantes das nossas limitações, das nossas turbulências emocionais, das nossas dúvidas.

Conheci duas pessoas assim. Mas é só de uma que quero falar. A exposição das vidas alheias tem limite.

Ela era uma aluna brilhante, brilhante. Depois disso uma trabalhador brilhante. Era perfeita. Um conjunto de sítios que ambos frequentámos e onde nos encontrámos reforçou a nossa amizade.

Um dia perguntei-lhe se alguma vez tivera uma negativa, ao que ela respondeu escandalizada:

"Claro que não... Era incapaz de viver com isso"

Eu provocava-a e ela achava-me louco - louco de uma maneira que ela estimava.

Ela achava-me altamente desorganizado. "Só te dás com pessoas ultra, dizia-lhe eu, ultra-metódicas, ultra-estudiosas e ultra-trabalhadoras."

Várias pessoas que a conheciam (todas superficialmente) achavam-no incrível. Mais: um alien. Uma pessoa um dia disse-me "ela nunca erra".

Eu era a única pessoa em quem ela chorava no ombro. Um dia disse-me que estava farta, farta, farta de não poder errar... mas que simultaneamente queria imenso poder fazê-lo.

Outro dia teve um pesadelo... Estava amarrada como uma múmia. Queria falar e não conseguia. Interpretou o sonho como a metáfora da incomunicabilidade. Ela não conseguia falar com pessoas.

Um dia, falou-me do seu deserto e carência emocional - tinha tanto tanto tanto para dar, disse-me.

Lembrei-me dela ao ver uma reportagem na 2 que dizia que os génios eram todos infelizes.


Angel-maybe-keeping-everything

Polémico

"O sexo com alguém que não gostamos é uma experiência vazia, mas dentro das experiências vazias é das melhores que se podem ter."

Woody Allen

sábado, setembro 16, 2006

Frases que devem inspirar desconfiança

- Então, está tudo bem com a tua namorada? Sim, fico muito feliz.

- Eu sou uma grande amiga dela (intróito usada para dissimular propósito ulterior), mas...(agora vem a má-língua, antecipo)

- Estou um bocado cansada, fica para outro dia...

- Não se passa nada (ar possuído)

- Dói-me a cabeça - vamos embora (ou variante similar)

- Eu não tenho ciúmes nenhuns dele...

quinta-feira, setembro 14, 2006

Entre a dor e o nada, prefiro a dor.

William Faulkner
«O essencial é invisível aos olhos»


Saint-Éxupéry, O principezinho

quarta-feira, setembro 13, 2006

Pertenço a um grupo ultra-minoritário: não leio livros só em férias, nem quando leio, leio os browns, os equadores e as rebelos pintos. E leio vários livros concomitantemente.

Acabei de ler o livro "Como havemos de viver?" do mais ardente filósofo vivo: Peter Singer.

Há um conceito que gostaria de apresentar: «o paradoxo do hedonismo». Por hedonista, entende-se aquele que busca o prazer. Explica Singer, que aqueles que buscam desenfreadamente o prazer, são aqueles que menos satisfação retiram das coisas, da vida em geral. Porque nunca estão satisfeitos, entram numa espiral de eterna insatisfação, em que os patamares elevados de prazer já não lhes dizem nada porque já se entranharam e então precisam de mais e mais e mais... e o que há acima de orgias e heroína?

Singer conta que um milionário que apareceu na revista Forbes como um dos mais ricos dos E.U.A. disse à mulher: «Nunca mais te submeterei à vergonha de apareceremos em último lugar na lista. Vou lutar para termos muito mais dinheiro.»