domingo, novembro 27, 2005

Pelo direito à indiferença

Duas idosas encasacadas estão sentadas num banco de jardim. Têm aquela aparência das beatas que dizem que a juventude está perdida enquanto tricotam. Passam por elas um casal de dois jovens do sexo masculino de maõs dadas.
- Francamente, se já viu... – murmuram indignadas.
O nosso cérebro é imediatamente direccionado à suposição: elas condenam a homossexualidade e a sua livre expressão de afectos.
Eis que se não quando se ouve:
- Com um frio destes andarem de manga curta...
O slogan aparece: Pelo direito à indiferença.
Compartimentando a homofobia reinante, qualquer especialista em marketing terá de admitir que o golpe publicitário é G-E-N-I-A-L.
Nunca entendi muito bem o porquê do preconceito homofóbico. Porque é cada pessoa não há de poder expressar livremente os seus afectos e sexualidade? Porque é que as pessoas homossexuais não se podem fazer em público tudo o que os heterossexuais podem? E porque é que não havemos todos de defender os direitos dos homossexuais?
Se se entende que há pessoas que não subordinam os seus princípios aos seus interesses; entende-se que possam haver patrões a pugnar pelos direitos dos trabalhadores, ricos a defender os pobres, brancos a defender os negros. Então porque raio é que se alguém aparece a defender os mesmíssimos direitos para os homossexuais, logo é trovejado com: “É gay!”.
Porquê?, perguntava eu. Porque a nossa sociedade é tremendamente homofóbica e temos todos muito medo. Medo do diferente, medo do desconhecido, medo de que sejamos conotados com essa coisa para muitos repugnante:a homossexualidade.
Outro dia falava com um indíviduo que dizia que aceitava as lésbicas mas não os homossexuais porque a visualização das primeiras o agradava e dos segundos o repugnava. Mas uma pessoa não se pode pronunciar sobre esta questão alicerçando-a em opções estéticas. É rídiculo e absurdo cercearmos a liberdade dos outros com base em critérios de agradabilidade visual, rejeitando como se um quadro feio num museu que não queremos levar para casa se tratasse.
O importante é que todos tenham o mesmo direito a expressar afectos e sexualidade. Porque no sexo e nos afectos, desde que haja mútuo consentimento e capacidade de efectuar escolhas, vale literalmente tudo...
O exercício que proponho é difícil de conceber num mundo heterossexualizado. Ouso o arrojo. Alguém heterossexual imaginou o que é uma pessoa viver num mundo ao contrário do seu, onde a sua orientação fosse reprimida, onde tivesse de a exercer às escuras, onde tivesse de dar um mão trémula debaixo da mesa olhando em seu redor ansiosamente?
E alguém acredita que alguém se pudesse escolheria a tendência oprimida, vilipendiada e anatemizada?

Angel-boy

segunda-feira, novembro 21, 2005

O local onde é sempre Verão

Gostariam que vocês dissessem um lugar maravilhoso onde o Sol brilha sempre, onde é sempre, sempre Verão... Posso-vos garantir duas coisas: ele existe e está ao alcançe da vossa mão.................................................................................................. Falo do... HI5! No HI5, há sempre tanto calor que os corpos não aguentam a temperatura, expondo-se. Como me dizia a minha maior amiga (em termos de altura): “Angel, já reparaste que no HI5 é sempre Verão?!...” É engraçado a quantidade de raparigas que expões as maminhas (que depois no quarto são um terço do que aparentem nas fotos) e os rapazes os abdominais como cartã-de-visita. “É isto o que eu sou, é por isto que eu quero ser apreciado” sussuram-nos... Sim, porque aqueles abdominais tem muitas horas de esforço incorporados. Bastava que tivessem dedicado 10% do tempo que gastam com o corpo à leitura e seriam pessoas interessantíssimas. Mas o mais curioso é a falta de frontalidade destas pessoas. A sua hipocrisia. Ainda outro dia, uma conhecida minha com uma daquelas belezas frias e vulgares tipo asssistente de bordo estereotipada/esteticista-cabeleireira-que-vai-ao-café-da-ponte-ao-Domingo que passa horas a depilar-se, horas no ginásio, gastando rios de dinheiro em cremes, roupas e cabeleireiros, a dizer-me que os homens só ligam à beleza... E depois mete uma foto com 2/3 da superfície mamal de fora como Primary Photo do HI5. E não quer ser apreciada por isso... não... Quem não quer ser lobo, não lhe vista a pele... Outra coisa que reparo sempre é nos favorite books que giram sempre à volta dos livros obrigatórios no liceu ex.: Os Maias), ou dos que se ouve falar como Paulo Coelho, Dan Brown ou Nicholas Sparks... A faixa etária abaixo dos 20 é terrivelmente ignorante. Já o sabia, mas o HI5 agigantou-me imenso esta conclusão inferida do contacto com a nova-geração-morangos-com-açúcar. Já não há ch, há x, já não há que que, há k, já não há livros, há revistas, não há teatros, há novelas kitsch, há entretenimento, há bebedeiras, há videojogos, há downloads... Geração Rasca (desculpem, Raska) é esta que tem actualmente menos de vinte anos... não a que passou e que tem agora entre vinte a trinta anos. Enfim, o HI5 é um microcosmos da sociedade e é um tremenda montra de futilidade.

Um último comentário: como as pessoas são todas elas maravilhosas. Só se lêem maravilhas delas... Ninguém tem um defeito, ninguém é rídiculo, ninguém, como dizia o Pessoa: Ninguém levou porrada na vida... Engraçado mundo de perfeição, este... :)

Angel-Angel-Angel:)

terça-feira, novembro 15, 2005

Denunciando putas/oportunistas

Estava eu na mais elegante e sofisticada e cosmopolita discoteca de Lisboa... Sou apresentado a uma miúda com ar pedante, medianamente bonita, cuja beleza é ligeiramente cortada por um fosso dental considerável entre os dentes superiores; e que masca pastilha elástica com a boca aberta (pormenor a desconfiar, pensei). A conversa não me parece nada de especial. Ela encosta-se ao bar e pede algo para beber. Vira-se de costas e diz-me:
- Tens moedas?
Tirei todas as moedas que tinha no bolso, imaginando que lhe iria trocar uma nota.
Ela limpou-me todas da mão com uma rapidez superior à de um etíope a devorar um belo bitoque com batatas fritas.
Ela paga-me a bebida e eu fito-a com um ar fodido. Ela não faz alusão às moedas que me surripiara.
Viro-me para o meu amigo e digo-lhe:
- Vamos sair daqui... Acabei de ser assaltado...
Assim fazemos. Passados uns três quartos de hora, vejo a assaltante encostada a um outro bar. Segue-se o meu diálogo mais minimalista e eficaz na história da noite:
- Pediste-me dinheiro e agora bebes um vodka.
- Ofereceram-me...
- Vives de ofertas?
A donzela meretriz que não tinha dinheiro, tira uma nota do bolso, pede ao empregado que a converta em moedas e dá-me as moedas que me surripiara.
Olho-a com o meu ar mais superior e plácido.
Ela está vermelha, tem o azar de pertencer à minoria de pessoas cuja cor da face denuncia o estado de espírito.
- Tu... tu... - diz-me nervosa.
Eu sorrio.
Ela vira-me as costas e vai-se embora. Volta atrás em passo rápido, levanta-me o dedo à altura da cara e diz:
- (nada lhe sai da boca).
Passado um mês e meio, um outro amigo meu diz-me (na mesma discoteca):
- Bem, está ali uma miúda que não tira os olhos de ti...
Olhei de lado e deparei-me com os seus olhos. Sorri por dentro.
Espero que tenha aprendido a lição.

Angel-boy

quarta-feira, novembro 09, 2005

Conversas de cama

A maior parte dos homens e mulheres que conheço gosta de contar aos amigos e amigas como é a Diana, o Paulo, a Marta, o Rui na cama... Os meus amigos já sabem que comigo não vale a pena. Fecho logo os ouvidos.
Um conhecido meu insistia outro dia em contar-me que uma Andreia tinha apenas um fio de penugem à volta do cli, que engolia e que a foder era mais ou menos... Gostava de saber ( e digo isto com um sorriso) o que a Andreia diria ao saber que a sua intimidade anda na praça pública. Uma conhecida disse-me um dia que sabia que o Diogo fodia mal. Eu perguntei-lhe se ela tinha fodido com ele. Ela disse que sabia pela A e pela B. “Se fode bem ou mal, fiquei sem saber... Agora sei é que ele fode muito”, respondi agastado. Sim, não tenho dúvidas que as mulheres são iguais a contar pormenores (deixemo-nos de hipocrisias ;) ).
Eu tenho um imenso nojo por estórias destas e pessoas como estas. A intimidade nossa, individual e única, pode ser compartilhada se assim o entendermos. Acho que todas as pessoas deveriam guardar algo para si, preservando a indispensável reserva de mistério que todos os seres humanos deveriam manter. Exporem-se gratuita e livremente só as diminui; mas é um direito que lhes assiste!
Exporem as outras é um direito que não lhes assiste. E é indiferente que se diga bem ou mal das prestações da cama. Expor a intimidade das outras pessoas dentro de quatro paredes é sempre soez, ignóbil, indigno, rasteiro, cobarde e repugnante.

Anjo Imaculado