Terça-feira, Novembro 10, 2009

Onde reside o núcleo do seu encanto?
«A sucata dos sonhos», dei por mim a escrever em determinado texto. Gostei tanto da expressão que até pensei que poderia dar - se não o título de um livro - o título de um capítulo ou sub-capítulo ou de um poema.

Relendo um livro que muito prezo (Reduto quase final de Dinis Machado), deparo-me com a expressão...

O plágio, às vezes, pode não ser mera desonestidade intelectual.
Paul Auster, antes de ser escritor a tempo inteiro, fez de tudo um pouco. Diz que nesses trabalhos aprendeu imenso. Conheceu gente interessantíssima que o alimentaram com reflexões que verteu para a sua escrita. Afirma que descobriu que as pessoas intelectualmente mais estimulantes não estão em grandes cargos. «Não por terem menos capacidades, mas porque têm menos ambição.»

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico


Adília Lopes

Sábado, Novembro 07, 2009

O escritor deve procurar uma força centrípeta no centro do papel - uma força colossal que sugue tudo, toda a vida, todo o mundo, todas as casas, todas as pessoas, todos os acontecimentos, para o centro da folha; vertendo tudo o que existe sob a forma de palavras.
Lendo compilações e compilações de escritores, há determinados pontos comuns a todos:

a) todos começaram por escrever escrevendo poemas na juventude;

b) o primeiro livro dizem todos que foi abertamente uma mescla dos escritores que mais os incendiavam - lutando depois contra essa influências nas obras posteriores e encontrando a sua voz;

c) escrever é o Paraíso, reescrever o Inferno;

d) todos alegam indiferença aos críticos.
O tornozelo dela era o caule de uma folha.

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Quando procuro um livro durante anos e todas as suas edições estão esgotadas, todos os alfarrabistas fazem:

- Puuuuuu... Isso é uma relíquia.

E, subitamente, um dia, encontro-lo nalguma prateleira... então, olho para ele como perante a mulher amada, desaparecida e reencontrada. Acaricio-o, encosto-o ao peito e levo-o dentro de mim para onde quer quer vá.
Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.

Herberto Helder

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Numa altura em que se mastiga sobre o assunto da Bíblia espoletado por uma comentário anódino e repisado de Saramago, gostava de explorar um Ângulo sobre o Deus do Antigo Testamento.

É um Deus que não é Deus. Porque não é omnipotente e omnisciente, postulados da sua definição enquanto Deus. É demasiado antropomorfizado.

Logo no início da Bíblia, lê-se:

«Deus disse: "Faça-se a luz!" E a luz foi feita.

Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas.»

A parte essencial é «Deus viu que» que significa «Deus descobriu». Ora só se descobre o que não se conhece e Deus não pode não conhecer algo.

O que transparece é que Deus estava a brincar com os objectos, testando-os e vendo o que é que dava. Olha, a luz é boa, porreiro, vou aproveitá-la!

Então, havia algo que Deus não controlava, que não sabia, que precisava de experimentar para saber... Mas Deus é justamento o topo do topo... Isso é paradoxal.

Volto a Álvaro de Campos:

Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto construem, desfazem ou se construi ou desfaz através deles.
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino —

Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino.
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas
De todas as vidas, abstractas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar porque é um tudo,
Porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas ideias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstracto
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gémeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gémeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Porque não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.
O romance é uma forma inexaurível. Nunca irá morrer. Porque o romance é o único lugar no mundo em que dois estranhos se podem encontrar em termos de intimidade absoluta. O leitor e o escritor fazem o livro juntos. Nenhuma outra arte pode fazê-lo. Nenhuma outra arte pode capturar o essencial da intimidade da vida humana.

Paul Auster

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Sempre que ia a casa deles, estavam a ver o Big Brother. Sentados à mesa, diziam:

- Isto é uma vergonha.

- Como as pessoas se expõem.

- Não têm uma conversa com pés e cabeça.

- Isto são só atrasados mentais na casa. Aliás, isto é feito para os atrasados mentais verem.

- É o pior programa da televisão.

Há pessoas que se relacionam com outras e que têm a mesma atitude que esta família ante o Big Brother: nunca largam e só dizem mal.
Entras na casa dela. Pensas: «Como será o seu quarto?» Sentes que vasi finalmente conhecê-los e vives essa delícia por antecipação... O quarto dela que tantas noites, na cama, antes de dormir, te aparecia... E agora, dentro de pouco tempo, ele será real, concreto e palpável, secando para sempre a fonte da tua imaginação.

Pé ante pé, ela conduz-te. Pisas o chão sagrado do corredor devagar. Vais entrar nele. Ela vai dizer algo e tu antecipas na tua mente: «vai pedir desculpa pela desarrumação».

E ela diz:

- Ai, isto está uma bagunça.

Fecha a porto com estrondo. Tu imploras que te deixe entrar. Dizes que o teu é, seguramente, mil vezes pior. Dizes ainda que detestas pessoas organizadas. Que veneras o Caos. Que ele te fascina.

Nada a demove.

Sábado, Outubro 31, 2009

O cardápio das emoções humanas é invariável - qualquer que seja a cultura ou a época.

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Palavras que é preciso lascar, lascar, lascar até nos ser devolvido o seu brilho original. Por exemplo: Bondade.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Se deres o teu máximo em tudo, nada mais te pode ser exigido. Então, não és menos do que Deus.
Estás em baixo. No desespero sem portas. Falas com aquela pessoa. Bruscamente devolve-te a confiança confiante. Bruscamente abre-te a porta do poço e tu vês o arco-íris. Quando alguém te arranca assim do negrume, é tão limpo e doce e amplo e alegre o ar que respiras. Essa pessoa ganha então um estatuto divino.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Tem uns olhos negros profundos fabricados com os segredos da noite.
- Eu não posso mudar o mundo que está torto e pô-lo direito, mas sempre que posso dou-lhe uma porradinha. É essa porradinha que todos, na nossa esfera de influência, devemos diariamente dar de modo que o mundo se torne cada vez menos achatado.
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Uma personalidade forte gera sempre paixões e ódios. E quanto mais forte, mais o ódio se agita por não a poder destruir - e mais se insufla.
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.

Teixeira de Pascoaes
Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino como serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)

Walt Whitman

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Tocas o meu pensamento com a madrepérola do teu sorriso.

Domingo, Outubro 25, 2009

- Sabes o que é aquela pessoa a quem tu contas as coisas e só então elas se tornam reais? Quando perdes essa pessoa, as coisas que te acontecem, só porque não lhas contam deixam de existir. Entendes?
Cada pessoa tem o seu arco-íris. Nunca encontramos outra com quem nos completamos nas cores todas. Se encontramos alguém que jogue com três ou quatro cores nossas, já é bom e é a essas cores que nos devemos agarrar na relação.

António Lobo Antunes

(Consta que aquele que procura há anos por alguém com as suas sete cores, continua só.)
- Esfalfo-me a trabalhar de segunda a sexta, durmo pouco e chego ao fim-de-semana e é o aniversário deste e daquele, a inaguração, o aniversário do filho, eh pá, eu já só quero descansar ou ter tempo para as coisas que me dão prazer... Não ando a aguentar. Tenho de fazer uma economia de amigos.
- Desculpe, importa-se de que lhe tire uma fotografia à alma?

Sábado, Outubro 24, 2009

As fraquezas do Outro parecem-nos sempre tão facilmente removíveis e as do nosso Eu tão inultrapassáveis.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Perguntam sempre ao Lobo Antunes da rivalidade com o Saramago. Como se o escritor, quando sentado à mesa para escrever, lutasse contra alguém que não ele próprio. Ele não escreve a pensar no rival - o rival é ele próprio. Só a ele próprio se pode exceder.

Falei da escrita. Poderia falar da vida. A nossa única competição possível é sempre com o melhor-de-nós.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Roubar a juventude

- Estás impecável! Não conheço ninguém que pareça ser tão mais novo do que é como tu, pá! Qual é o teu segredo?
- É o do Drácula?
- Do Drácula?
- Sim. Bebo o sangue das vítimas.


(Já tinha ouvido alguém dizer que tinha 26 anos quando estava com uma mulher de 26 anos e 30 quando estava com uma de trinta.)

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Porque é que Saramago não fala do Corão? É tão óbvia a resposta.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

José Saramago disse que a "a Bíblia é um manual de maus costumes" e que "tudo aquilo [a Bíblia, bem entendido] é absurdo e disparatado".



Penso que o «amai-vos uns aos outros» não é absurdo nem disparatado. Assim como não o é (Antigo Testamento) a ideia-matriz definidora da religião: «Prefiro a misericórdia ao sacríficio.» Saramago confunde a prática institucional das igrejas com a sua essência doutrinária. Pôr no mesmo saco Cristo e a Inquisição, seria como confundir Marx e Estaline.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

- Não inventem regras que impeçam a felicidade. Bolas, a vida já tem tantas barreiras naturais à felicidade: as doenças, a morte dos entes amados, o desemprego, o stress, as falhas na amizade e no amor. Para quê criar mais limitações, mais barreiras artificiais? As pessoas têm medo de ser felizes, muitas acham que é um pecado. Pecado é não ser feliz por medo!
Se há alguma coisa contra que me revoltei, foi contra o ódio.

Amin Maalouf

Domingo, Outubro 18, 2009

Osho diz para nos lembrarmos a nós mesmos de que somos únicos, especiais e insubstituíveis.