Quinta-feira, Dezembro 10, 2009

Jorge Luis Borges diz que a vida é estranha porque o ser humano pode dar mesmo aquilo que não tem: amor, amizade, alegria.

Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

(corrida no estádio nacional)
O cão ladra
De joelhos
A coleccionadores de velhas imagens
A contrabandistas de atletas cegos
A elefantes iconoclastas nas margens
(obstinado corpo
alugado
de poderoso animal)

Artur Jorge
- Eu tenho um amigo com sessenta e muitos anos que outro dia me disse: vou almoçar com a minha mãe. Fiquei com uma inveja dele do caraças. As pessoas com esta idade que têm mãe ou pai; mesmos os trintões que têm avós, deviam reflectir sobre isso. É um privilégio, é uma maravilha, uma graça. Muito bonito.
Adolfo Luxúria Canibal afirma que o capitalismo não está gerando boas pessoas. Tenho pensado nisso... Há muita competição, em demasia, no mercado de trabalho e muita fraude financeira nesta etapa nova do capitalismo: o capitalismo financeiro em que o capital tem mobilidade total (à distância de um clique) e o factor trabalho nem por isso...
- Espero que não tenho sido uma seca para ti.
- Não, ela fez-me companhia. Foi óptimo.
- A sério? Então ainda bem que demorei.
- Oh, sim... Ela é agradabilíssima.

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Ser desequilibrado ou desestruturado é profundamente diferente. Às vezes, até me pergunto se as pessoas com mais dimensões, mais cultura, mais estímulos não têm mais dificuldade em manter o equílibrio. Cuidado com as pessoas sem estrutura...
O criado dele (também motorista) é tão subserviente que quando ele disse:

- Gaspar, este caminho é uma lentidão. Isto é o pior caminho para lá chegarmos.

- Tem razão, soutor. Tem razão. Quer ir por qual, soutor?

- Pela A3.

- Isto é a A3, soutor.

- Então, deixe-se estar. A chuva entope tudo em Portugal. Não adianta mudarmos de estrada. A A3 é a melhor para lá chegarmos.

- Pois é, soutor. A A3 é a melhor, soutor.
Digo que o melhor serviço que um poema ou um escritor qualquer pode prestar ao leitor não é satisfazer o seu intelecto, nem oferecer-lhe algo interessante e refinado, nem pintar para ele grandes paixões, indivíduos ou acontecimentos, mas inculcar-lhe vigorosa e limpa humanidade, religiosidade, dar-lhe, como possessão e hábito central, um bom coração.

Walt Whitman
A intimidade no silêncio junto à lareira. Ninguém fala. Mais: cada um está no seu mundo incomunicável. Um ajeita a lareira, outra lê um livro, outro lê o jornal, outro não tira os olhos da televisão, outro joga play-station. E, contudo, ninguém é mais unido do que eles.

O Lobo Antunes diz que as pessoas de quem mais gostamos - os amigos - são aquelas com quem estamos bem no silêncio.
Não digo que seja mau, que esteja errado - mas digo que está num patamar de desenvolvimentou espiritual - ou humano, se preferirem - raso.
Peguem num livro. Agora coloquem-no em cima de um palco.

Agora, encham a sala de pessoas. Centenas. Que as pessoas se ajoelham diante do livro. Que lhe atirem o ouro, flores, cânticos, orações. Que pelo mundo do todo, haja um minuto de silêncio pela qualidade do livro.

Que esse livro seja proclamada o livro.


Recordem-se de que as letras impressas no livro nem por um instante se alteraram, por mais ouro que se acumulasse nas suas margens. Então, apesar de todas as palmas e louvores, o livro não perdeu nem ganhou um átomo? O seu conteúdo permaneceu intacto.

Compreendem agora porque há autores que recusam prémios? Que vêem as condecorações como factores exógenos à Obra? A Obra fala por si ou não fala. Há até um autor que recusa conceder entrevistas...

Tendo a ver um livro como uma personalidade. Tudo o que digam de fora não belisca nem acrescenta nada ao corpo do livro ou da personalidade de alguém.

Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

O artista e o atleta trocaram os papéis.

- Desculpe, eu é que sou o artista. O que eu faço é arte. Sou o artista do corpo, do ritmo, da cadência, fazendo uma simbiose de técnica, força, velocidade, harmonia de gestos e movimentos. Já me chamaram, sabe como? Poesia em movimento.

- Olhe, eu sou um atleta. Levanto-me todos os dias de manhã para ir trabalhar com o meu instrumento sentado na mesma arena. Como chego extenuado ao fim de um dia. Não acredito que alguém possa ir buscar mais reservas de forças do que eu. Sou o atleta das palavras.

Pedido de divulgação (livro, página 12)

http://www.jf-canecas.pt/Files/Revista.PDF
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

[...]

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura

Herberto Helder

Domingo, Dezembro 06, 2009

As nojentas práticas do mundo moderno

Uma pessoa com acesso aos Cuidados Intensivos do Hospital do Funchal tirou fotografias do treinador do Nacional em coma, com um telemóvel, e tem andado a mostrá-las. Director clínico critica violação de privacidade.

Diário de Notícias

Sábado, Dezembro 05, 2009

E quando olhas para trás e sentes um sentimento inextricável de arrependimento-pela-escolha-mal-feita e ao mesmo tempo a certeza de que na altura era-te impossível agir de outra forma?
Os livros são espelhos que vais erguendo ao longo da vida e que te vão devolvendo diferentes perspectivas do teu rosto.
«Sempre que um amigo meu tem sucesso, uma parte de mim morre.»

Gore Vidal

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

O Carlos era treinador de futebol. O Fernando era massagista. O Carlos e o Fernando eram bons amigos. O Carlos fui subindo, subindo, subindo na carreira. O Carlos foi descendo, descendo, descendo. Um dia, o Carlos tem uma enorme proposta. Aceita. O Fernando está desempregado. O Carlos convida-o. O clube não quer um massagista com o currículo dele. O Carlos insiste com a direcção. O Fernando é contratado. Seis meses depois, o Carlos é despedido. Pede solidariedade no despedimento ao Carlos. O Carlos recusa despedir-se. E continua no clube.

Contei isto a um amigo meu que não ficou chocado. Diz «mas porque é tinham os dois de perder o emprego? um que o aproveite». Não podia estar mais em desacordo.
- Tens uma escrita muito feminina. Imaginava que era uma mulher - aliás, tinha a certeza de que era uma mulher que escrevia.
- Só tu me fazes ler o que eu tenho escrito.

(metaforicamente falando)
Deves escrever com as vísceras - não com a mente.
Sonhei com as laranjas na terra do ouro.

Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

- Se não estás na Internet, não existes.
A morte de alguém suaviza-nos o seu julgamento. Lembra-te disso quando estiveres prenhe de irascibilidade, raiva, injustiça, ingratidão ou rancor.
Nasceram junto ao mar. Os pais amam-nos incondicionalmente. São quatro ou cinco amigas e amigos que se amam imenso entre si. Moram numa terra sem stresse.

Não são ricos. Não são poderosos. Não são famosos. Não são bonitos. Não são cultos.

Porque falo deles?

Porque são os mais felizes. Ganham o campeonato da felicidade. Exigem pouco da vida: o essencial. Têm o saúde, o amor dos pais, dos amigos e isso basta-lhes. Em dias extraordinários, ainda têm sol para ir à praia.
Disseram-me ontem que ele está bastante mal no hospital. A heroína roubou-lhe a vida. Não a levou, mas substitui-lha. Sugou-lhe todas as suas dimensões. Transformou-se na Vida. Heroína, a única palavra da sua vida. A sua vida, portanto.

Lembro-me perfeitamente daquela manhã. Perfeitamente. Às vezes, pergunto-me se não foi aí que tudo começou.

Uma manhã com um perfeito céu azul. O ar lavado e transparente. O Sol ameno.

Éramos tão novos os dois. Íamos a sair da escola com a mochila às costas. Vejo-nos aos dois a passar por um terreno de terra batida. O João olha para o fundo e vê uns indivíduos mais velhos do que nós sentados em terra de ninguém.

Um deles levanta-se e grita-nos:

- Hey! Venham cá. Nós não vos fazemos mal.

O João identifica alguém da escola que está com eles, o que automaticamente lhe valida a confiança no grupo.

Damos uns passos em direcção a eles (quatro? cinco pessoas?).

- Venham cá experimentar uma cena. É a melhor coisa que vocês já possam ter conhecido. Tira-vos os problemas todos.

O João olhou para mim de olhos arregalados. Brilhava de entusiasmo e, nem por uma fracção de segundo, ter-lhe-á ocorrido que eu pudesse dizer NÃO.

Pedi-lhe um tempo para conferenciarmos. Afastámo-nos deles.

- Angel, mas como é que tu...?

- João, eles não são boa onda. Foda-se, não viste logo?

- Angel, deixa-te de merdas. Não queres experimentar a melhor cena da tua vida?

Olhámos um para o outro como que separados momentaneamente por um muro intransponível.

- Vou apanhar o autocarro, João.

Despedimo-nos e eu ainda fiquei com os olhos cravados nas suas costas que se afastavam.

Foi uma partida do João sem regresso. (Pelo menos, até hoje.)

De todas as razões que há para experimentar drogas: por necessidade de transgressão, rebeldia, por um desiderato de inspiração artística, por alienação, fuga, escape, por necessidade de experiências fortes que agitem o tédio, ou simplesmente porque sim - nenhuma delas foi o que impeliu o João.

A curiosidade. O João é a pessoa mais curiosa que conheci na vida. Não havia nada de que ouvisse falar que não quisesse experimentar, conhecer e compreender. Um dia, a propósito de outra coisa, disse-me: «Sinto-me estúpido se não conhecer.» Foi a curiosidade que o tramou.
Quanto mais trabalho tens, mais trabalho consegues arranjar. Quanto menos trabalho tens, menos trabalho consegues arranjar. Quanto mais mulheres tens, mais mulheres consegues conquistar. Quanto menos mulheres tens, menos mulheres consegues conquistar.

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Revisitar uma obra de arte que nos deslumbrou nos verdes anos pode ser uma desilusão difícil de gerir.

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

- Uma religão não é um clube. Eu tenho várias. Vou buscar o melhor a cada uma. E aquilo que é comum nelas é muito superior ao que diverge. O amor é o essencial. Desde que se ame muito, está tudo ok. Só quem não conhece as religiões é que pode agir na lógica de clube. Se até no coração dos ateus, Deus mora.
Dois jovens iam sentados à minha frente no autocarro. Desde que me senti, fui o percurso a ouvi-los (mais de dez minutos).

Não entendi nada do que diziam. Não houve uma frase em que não utilizassem um conceito que eu não desconhecesse.

Coisas que nem entendia a que contexto reportavam.

Leap? Refrog? Skilt?

Que estranho, pensei, eis-me diante de putos de uma geração logo a seguir a minha, que se andássemos na mesma escola, eu ainda os teria apanhado (eles na primária, eu no 12.º). E não sei sequer do que falam. Mas teremos mudado assim tanto de uma geração para a outra?

Detesto sentir que não conheço as mudanças - posso não as acompanhar, mas tenho de as conhecer. Por isso, observei-os. Como se vestem todos muito mais homogeneamente hoje... No final da conversa, ouvi armas, blood e mortes, e deduzi que haviam falado de videojogos o tempo todo. Apanhei uma frase de um que dizia (a frase segue truncada porque não apanhei as expressões peculiares):

- Eh pá, matei tóti tóti. Hás-de carregar aajskaj com asjhasjha. O bacano já nem faz ressurrection.

À despedida, não deram um aperto de mão, deram dois toques com as mãos, muito fugazes.

Há qualquer coisa de alienante e desumanizante na forma como a tecnologia molda estes adolescentes.

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

Julgo que este trecho do poema Lisbon Revisited (1923) serviu de inspiração ao Cântico Negro de José Régio:

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Álvaro de Campos



Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio
Shiva, figura do hinduísmo, é um deus com mil faces. Acham redutor só mostrar uma das faces de Deus.

Deus é cantor, cozinheiro, jardineiro, advogado, psicólogo, assistente social.
Para o budismo, não há Deus, mas leis do Universo.
Deus, a última palavra além da qual não há mais nada. Temos dificuldade em fazer caber nos limites compreendidos entre as paredes da nossa mente a maior das abstracções. Deus.

Descrevemo-lo sempre como uma entidade, uma instância intermédia. Antropomorfiza-mo-lo. Deus dá uma força. Deus está triste com. Deus também deseja que.

Parece que há sempre qualquer que lhe escapa nas nossas descrições Dele. Não, Deus é o que está acima disso. É o que tem o controlo da situação. O que está acima de acima de acima. O que não luta. O que não sonha. Não deseja. Deus é a força absoluta.
Porque é que existe algo e não nada? Porquê sequer a possibilidade de existir algo ou não existir nada?

Domingo, Novembro 29, 2009

If you want a lover
I´ll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I´ll wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
I´m your man

Leonard Cohen

Sábado, Novembro 28, 2009

Do Real

Ele escreveu um livro. Mal o terminou, colocou-o num site que funciona como mostruário de livros. Depois de colocar no site, escreveu no seu hi5: «Já publiquei o meu livro no PBooks. Amigas, quem chegar com o meu livro impresso ao pé de mim, tem direito a um cunnilingus
A desonestidade não é regenerável.
Perdeste uma batalha, mas irás ganhar a guerra.

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

- Aquilo que nos excita é insondável. Claro que eu gostava de dizer que me excita uma miúda a ler um livro, mas não é isso que se passa. São coisas muito mais irracionais e absurdas. Ninguém é diferente neste aspecto. E não vale a pena tentar racionalizar. As pessoas mais racionais, mais rígidas, menos espontâneas, que lidam com menos naturalidade com as suas pulsões, desenvolvem muitas vezes parafilias. Com o tipo que começou por tentar moderar a sua obsessão sexual por uma mulher. «Não posso pensar tantas vezes nela.» Como era difícil resistir à sua obsessão, arranjou um artífico: «Vou pensar nas cuecas dela.» E tanto insistiu neste exercício, que acabou por só ter prazer sexual com as cuecas em roda do pénis, com o seu cheiro e aroma. O excesso de culpa e contenção deu origem ao pervertido das cuequinhas.
- Se te disser, depois não dormes à noite.

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Jornal de Negócios Online


A partir de 1 de Dezembro vai realizar-se uma liquidação total dos "stocks" existentes na extinta Livraria Buchholz, também conhecida como Livraria Alemã.

A oferta é constituída por dezenas de milhares de livros, destacando-se o “stock” de livros estrangeiros a "preços únicos de liquidação".

Os livros estarão à venda a partir de um euro. Esta acção irá decorrer durante o mês de Dezembro, de segunda-feira a domingo, das 10h00 às 20h00, nas antigas instalações da Livraria Buchholz, junto ao Marquês de Pombal em Lisboa.
O jornalismo e a Literatura tem tanto que ver com o clitóris e um cacto. O primeiro lida com a efemeridade - ou nem isso, com a quotidianidade - e o segundo com a intemporalidade.

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

- Podes, mas com suavidade.
Os olhos da noite percrutam-lhe a alma limpa.

Terça-feira, Novembro 24, 2009

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
[…]
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
[…]

Eugénio de Andrade

A importância das palavras vai-se soterrando debaixo do mundo mercantilista e tecnológico.
Nos jornais, os erros sintácticos e ortográficos, de tão recorrentes, tornaram-se banais e já não fazem a página suja. (Só as legendagens dos filmes conseguem excedê-los.) Cada vez é mais difícil encontrar um opinante que prime pela sua escrita. Vejo-me sempre obrigado a ler os da velha guarda quando quero ler algo «bem escrito».
Uma crónica do Baptista-Bastos (que escreve primorosamente) exaltava o naco de prosa que era a imprensa desportiva. Acredito, caro Baptista-Bastos, mas esses tempos são idos. Abra hoje um jornal desportivo…
Nos livros, há inundações de vipes, jogadores de futebol, caras bonitas, apresentadoras e apresentadores da treta que agora são autores (ou pseudo-autores que apenas dão o nome) e que vêm atafulhar o mercado e tirar espaço a que possíveis novos autores de qualidade possam emergir.
Nas letras de música, 99% é lixo.
A própria prática discursiva dos políticos tem-se afunilado, esvaziado de imaginação, aparentando-se a um amontoado de clichés dignos da linguagem futebolística.
O escritor Philip Roth profetiza que os leitores do romance vão acabar por morrer. Afirma que primeiro foi o ecrã do cinema a desviar-nos da palavra escrita, depois o da televisão, e finalmente o do computador.
Não vou tão longe quanto Philip Roth. Prefiro acreditar em Paul Auster: «O romance é uma forma inexaurível. Nunca irá morrer. Porque o romance é o único lugar no mundo em que dois estranhos se podem encontrar em termos de intimidade absoluta.». Mas acho que qualquer coisa está a mudar. Assusta-me, por exemplo, que os livros de Aquilino ou Camilo tenham palavras que já não venham dicionarizadas. Deixar de utilizar as palavras é assassiná-las. Fazê-las desaparecer. A mutilação das palavras será tanto maior quanto menor for o léxico usado. E o léxico de quem emprega a palavra escrita e oral vai-se estreitando, ano após ano.
Qual o problema?, dirão muitos.
O problema é que cada palavra é uma porção do mundo, um continente único, especial e insubstituível. Imaginem quão pobre seria o mundo sem algumas palavras…
José Rodrigues da Silva, o ex-editor do Jornal de Letras, recentemente falecido, disse: «Façam amor com as palavras.»
Acho que é precisamente isso que nos está a faltar.
George Steiner diz que um crítico é um escritor eunuco.
- O meu amigo gostou muito de ti.
- Falámos pouco.
- Ele gostou de tu expores os teus defeitos. Disse que era prova de seres honesto.

Já Balzac dizia que só um homem forte é capaz de expor as suas fraquezas.

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto


teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa


ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;


nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira


(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda do que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

e. e. cummings

Sábado, Novembro 21, 2009

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.


Alexandre O´Neill

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Norman Mailer, em entrevista à Paris Review, disse que o demónio que incorporou por completo - ou quase quase completo - a vida de Hitler, aparece na vida de todos nós um pouco. Dá um exemplo: quem é que nunca sentiu o poder do demónio ao dar uma foda?
A mentirinha, a fácil falácia, a pequena omissão, não são graves. Toda a gente o faz. E por isso, coloca-nos no nível mediano de todos os outros. Descemos do pedestal de semi-deuses e passamos a ser ordinários, a pertencer à grande massa. É o preço a pagar.

Luís Serra Santos
Nada sucede ao homem que a sua natureza não seja capaz de suportar.

Marco Aurélio
eu levo o teu coração comigo (eu o levo no
meu coração) eu nunca estou sem ele (a qualquer lugar
que eu vá

[...]eu não quero
nenhum mundo (pois linda tu és o meu mundo, a minha verdade)
e tu és o que quer que seja que a lua signifique
e tu és qualquer coisa que um sol vai sempre cantar

aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe
(aqui é a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida, que cresce
mais alto do que a alma possa esperar ou a mente possa esconder)
e isso é a maravilha que está mantendo as estrelas distantes

eu levo o teu coração (eu o levo no meu coração)


e. e. cummings